Capítulo 9 - Conflitos

Inuyasha se levantou e caminhou até Kagome, que estava parada na sozinha olhando-o tediosamente. A verdade é que ela estava com sono e não fazia questão nenhuma de começar a explicar toda a história sobre o que ela era. Não de manhã.

- Você não disse que era só uma nomenclatura e blábláblá? – disse o hanyou. – O que é isso ai nas suas costas?

- É uma marca de nascença, Inuyasha. – retrucou Kagome.

- Em forma de asa? Quer que eu acredite que você tem uma marca de nascença gigante nas costas... Em forma de asa? – disse Inuyasha.

- Eu não sei exatamente como você se sente nessa situação, mas não estou confortável em estar só de toalha discutindo sobre partes do meu corpo com você. – disse Kagome cruzando os braços.

- Você está só de toalha? Não tem nada aí em baixo?

Inuyasha passou os olhos por todo o corpo de Kagome, fazendo cara de espanto.

- É claro que não! Não sou tão estúpida assim! – disse Kagome revirando os olhos. – Mas isso continua sendo uma toalha, não é? Volte pra sala, eu vou me trocar e já vou para lá.

- Está me dando uma ordem? – disse Inuyasha com olhos semi cerrados.

- Olha, você pode escolher em ir pra sala ou ir pra fora. Eu ficaria bem feliz com a segunda opção...

- Está bem, está bem, estou indo para sala!

Kagome deu um sorriso vitorioso ao ver Inuyasha dar meia-volta e se arrastar para a sala, se jogando no sofá. Ela não pôde deixar de pensar em como ele era folgado, agindo como se fossem muito íntimos e como se aquela casa fosse dele, que espécie de visita coloca o tênis no sofá branco dos outros? Bom, aquilo não importava, a casa era da Kikyou mesmo; e pensando nisso Kagome foi para a lavanderia se trocar.

Vestiu uma calça jeans preta e uma regata cinza e tirou a toalha do cabelo, voltou para a cozinha abrindo a geladeira.

- Quer suco? – disse olhando as opções. – Tem laranja e uva.

- Uva. – respondeu Inuyasha.

A garota pegou um suco em lata de uva e outro de laranja e andou até a sala, entregou o suco para Inuyasha e sentou-se, colocando os dois pés em cima do sofá. Ela estava em uma ponta do sofá e Inuyasha em outra, abriu seu próprio suco e disse:

- Então, o que quer saber?

- A tatuagem nas suas costas. – disse Inuyasha.

- Já disse, não é uma tatuagem. – disse Kagome. – É marca de nascença, todas nós temos.

- Você não disse que a história de anjos era por "sermos" demônios? – disse Inuyasha.

- Eu resumi bem as coisas pra você, só isso. – disse Kagome dando de ombros. – Não é como se fosse algo importante.

- Então não resuma. – retrucou Inuyasha.

- Porque você quer saber sobre isso? A maior parte disso tudo é uma grande besteira, um monte de lendas idiotas que ninguém sabe da onde saiu.

- Está querendo me dizer que sai por aí matando yokais sem nem saber o por quê?

- Você não acredita no que eu digo, então porque eu vou ficar falando, Inuyasha? – disse Kagome dando um gole no suco. – Eu poderia estar dormindo agora, sabia?

Inuyasha revirou os olhos de maneira impaciente, abrindo seu suco e dando um grande gole.

- Só explique essa loucura toda, está certo? – disse virando os olhos para a tv. – Eu já disse antes, quero entender porque você me deixa desse jeito.

- Quê jeito? Você me parece bem normal. – disse Kagome rindo. – Você precisa ver como alguns yokais ficam, é hilário, se você acha o Kouga exagerado, ia pirar com os outros...

- Não é disso que estou falando. – retrucou Inuyasha ainda olhando para TV desligada.

- Uma hora você se acostuma, eu também não me acostumei com isso direito. Eu não sei se eu já disse antes, mas a atração não é igual para todos, sabe? Ás vezes um yokai só fica curioso por causa do meu cheiro, não causa esse tipo de situação...

- "Esse tipo de situação"? – repetiu Inuyasha. – Que tipo de situação?

Kagome começou a rir e suas bochechas ficaram levemente vermelhas, ela virou a lata de uma vez engasgando-se. Depois de alguns minutos de tosse e olhos lacrimejando, voltou ao normal e continuou falando:

- Sobre as asas, não é?

- Não mude de assunto. – disse Inuyasha agora a encarando.

- Funciona assim, quando somos crianças essas asas não são visíveis, mas elas estão lá. O que acontece é que quanto mais velhas e mais preparadas vamos nos tornando, mais forte a imagem se torna, geralmente ela fica perfeita aos 15 anos. É quando saímos de baixo das asas das mais velhas, com o perdão do trocadilho besta, e começamos a receber missões e viajamos por ai. – disse Kagome.

- Certo, certo, muito interessante, mas explique a situação. – disse Inuyasha.

- Você está ouvindo o que estou dizendo? – disse Kagome revirando os olhos. – Eu estou explicando o que você me pediu e você está ignorando!

- Ouvi, claro que ouvi, tem algo como nascer e depois sair por ai com asas e tudo mais. – disse Inuyasha balançando a mão impacientemente. – Agora a outra pergunta!

- Ah, claro, desculpe. – disse Kagome. – Sobre sermos anjos. Como eu disse é só uma nomenclatura, tem a ver com vocês serem demônios, mas pelo o que eu entendi esse nome surgiu por causa da nossa aparência e claro, por causa dessa marca. Todas nós somos assim pequenas, não é um problema só meu, tirando a Kikyou, que por algum motivo estranho parece mais velha do que nós, mas enfim, imagine há muitos anos atrás uma mulher minúscula sendo capaz de matar de yokais, com essa aparência infantil e asas nas costas. Logo começaram os rumores de que anjos haviam descido à Terra ajudar os humanos, você sabe, antigamente os yokais não era muito simpáticos, então nossa existência era realmente necessária. Nós aceitamos esse nome porque é o mais próximo de sabermos o que realmente somos que nós chegamos nesses anos todos.

- Você vai continuar fugindo da minha pergunta? – disse Inuyasha. – Não que essas coisas que você está falando não façam parte do meu questionário, mas no momento elas realmente não me importam.

- Você cismou com isso, não foi? – retrucou Kagome. – Porque você não pode ser como os outros e ouvir o que eu digo sem ficar retrucando ou perguntando mais e mais e mais?

- Eu não sei se você vive bem com essa situação de não saber nada sobre você mesma, – disse Inuyasha irritado. – mas eu não gosto disso. Eu sempre soube o que pensava e como agia, até você aparecer e mudar tudo! Me irrita mais ainda o fato de você ter respostas sobre coisas que dizem respeito à minha vida e se recusar a me dizer, você não tem esse direito, sabe disso não sabe?

- Eu sei sobre mim mesma, está bem? – disse Kagome desafinando a voz em um tom irritado.

- É, a gente percebe. – retrucou ironicamente. – Você sequer sabe o que é, Kagome!

Kagome levantou-se apertando a lata vazia em sua mão e começou a andar até a cozinha, batendo o pé. Inuyasha apenas a seguiu com os olhos.

- E você sabe o que é? – berrou Kagome do outro cômodo. – Sabe de onde veio?

Inuyasha cerrou os olhos, então ela sabia. Como ele não tinha imaginado isso antes? É óbvio que ela saberia, ela sabia tudo sobre ele. Inuyasha era órfão, não conhecia seus pais e nem fazia idéia de quem eram, não sabia qual dos dois era humano ou qual era yokai. Isso se eles realmente fossem yokais e humanos, porque nem isso ele sabia, não havia como saber, não existiam muitos hanyous no mundo, sequer conhecia algum além dele mesmo. Ele atacou a latinha no chão, espalhando suco de uva pelo carpete, e foi até a cozinha.

- Você vai ter de limpar isso! – disse Kagome histericamente vendo Inuyasha se aproximar.

- Você é odiosa! – vocifero Inuyasha.

Kagome estava encostada na pia, com a lata amassada na mão ainda. Inuyasha parou em sua frente, encurralando-a.

- Vá embora! – disse Kagome. – Se afaste de mim!

- Está com medo de mim? – sussurrou Inuyasha.

- Não. Eu não tenho medo de você. – retrucou a garota apertando novamente a lata até o metal cortar seu dedo.

Inuyasha mexeu o nariz e deu um leve sorriso do tipo "te peguei" e segurou o pulso de Kagome, antes que ela pudesse levar o dedo sangrando até os lábios.

- Eu não gosto de fazer coisas contra a minha vontade, - disse. – estamos conversando, apenas isso. Porque está sendo tão covarde?

- Ah, então você andou me observando. – concluiu a garota

- Podemos dizer que sim. – disse Inuyasha.

- Isso já passou dos limites, me solte e vá embora, não existe mais nada aqui pra gente conversar. Eu vou me afastar do Miroku e da Sango também, então não precisaremos dessa trégua estúpida, vou dar um jeito de mudar de lugar também! – disse Kagome.

- Está fugindo de mim agora? – disse Inuyasha. – Então quer dizer que a senhora perfeição tem um ponto fraco?

- Eu estou cansada, Inuyasha. – disse Kagome de forma derrotada. – Por favor, vá embora.

- Eu só quero minha resposta. – disse Inuyasha. – Juro que se me responder está livre de mim.

- Pra sempre? – disse Kagome. – Tipo, livre de você pra sempre? Você não vai mais aparecer na porta da minha casa de manhã nem me defender de lobos, nem nada?

- É, é. – disse Inuyasha. – Pra mim está ótimo desse jeito.

- Ótimo. – disse Kagome. – Então, para começarmos, me solte.

Inuyasha a olhou de forma desconfiada, mas logo soltou seu braço, ela virou-se de costas e lavou a mão, depois deu um pulo, sentando-se na pia, ficando na altura do hanyou.

- Agora, o que exatamente você quer saber? – disse.

- Você falou que não são todos os yokais que criam essa situação, eu quero saber que situação é essa. – disse Inuyasha.

Kagome suspirou e logo começou:

- Inuyasha, eu não costumo ficar pra cima e pra baixo com yokais, isso não funciona comigo. Eu e você não fomos feitos pra sermos amiguinhos, é simples até, só que essa é a forma racional de pensar e nessa forma, meus instintos não estão incluídos. Eu consigo controlar muito bem meus instintos, mas com você não dá muito certo, tanto é que você está aqui dentro e eu estou fazendo o que você manda e não o contrário, isso é irracional. entende? Vai contra as leis.

- Está dizendo que está atraída por mim. É isso? – disse Inuyasha.

- Fico feliz que não tenha usado a palavra "apaixonada". – disse Kagome. – Sinal de que você ouviu o que eu já expliquei antes!

- Você ainda não me respondeu. – disse Inuyasha.

- Porque você quer saber isso? Que diferença faz? – disse Kagome.

- Pare de enrolar! Eu preciso entender uma coisa, então fale logo!. – disse Inuyasha.

Kagome jogou a cabeça para trás e estralou o pescoço, mas continuou olhando para o teto enquanto falava.

- É, acho que podemos dizer que é isso. Meu instinto me deixa muito atraída por você, agora o que você entendeu com essa super informação?

- Poderia explicar o que esse "atraída" significa exatamente? – perguntou Inuyasha.

- Significa que eu precisei de todas as forças do meu corpo pra sair de cima de você ali no sofá. Eu disse que aquilo era controlar os instintos, porque em uma situação como aquela é muito mais difícil se manter racional. Até mesmo pra mim. – disse Kagome ainda fitando o teto.

- Certo, agora olhe pra mim. – disse Inuyasha.

- O acordo era só responder uma pergunta e então, você iria sumir de vez! – lembrou Kagome.

- Exatamente por isso que quero que você olhe para mim. – disse Inuyasha.

Kagome revirou os olhos antes de voltar à postura normal, Inuyasha não moveu um músculo do rosto ao notar a expressão que a garota fazia. Kagome estava fascinada pelos olhos dourados de Inuyasha, ela já havia achado-os encantadores em situações anteriores, mas agora eles brilhavam de forma misteriosa, quase sedutoramente. Ela piscou algumas vezes, tentando entender o porquê de Inuyasha não se mover, mas ele sequer piscava, o único movimento que ele fez foi apoiar os braços na pia, deixando Kagome presa no meio. A garota deu um leve sorriso.

- Revanche?

Ele não respondeu e ela entrou na brincadeira, assim como da primeira vez que tinham ficado sozinhos os dois se encaravam e competiam silenciosamente para ver quem piscava primeiro. A respiração dos dois estava ritmada, os olhos vidrados um no outro. E eles ficaram assim por cinco minutos, cinco minutos esses que Kagome jurara ter durado uma eternidade, pois foi a primeira a desistir e piscar várias vezes, fazendo lágrimas escorrerem por seus olhos.

- Perdeu. – disse Inuyasha abrindo levemente os lábios em um sorriso.

Nesse momento Kagome sentiu-se derretendo por completo, ela nunca imaginara que Inuyasha pudesse se tornar tão charmoso, seu coração desatou a bater descompassadamente e então ela desistiu. Levantou os braços que estavam caídos ao lado do seu corpo, passou ao redor do pescoço de Inuyasha e puxou-o para si, sem delicadeza nenhuma e como ela já esperava o hanyou não a rejeitou, pelo contrário enlaçou-lhe a cintura e puxou-a para perto, fazendo os corpos se encontrarem em um movimento rápido.

Mesmo com os lábios de Inuyasha colados no seu, Kagome abriu um sorriso, que o hanyou sentiu, antes de aprofundar o beijo. Aquele era um daqueles momentos em que Kagome se entregava completamente aos seus instintos, não havia nada em sua mente, ali, grudada no pescoço de Inuyasha e sentindo que ele respondia à todos os seus movimentos e investidas, ela definitivamente sentia-se livre da culpa.

Inuyasha passou as mãos pelas costas de Kagome, até alcançar sua nuca e encheu a mão com um punhado de cabelo negro da garota. E então ele puxou a cabeça de Kagome para trás, em um movimento que não era delicado, mas ao mesmo tempo não era rude. Ele ficou encarando-a, enquanto fazia sua respiração voltar ao normal.

- O que você pensa que está fazendo? – disse.

A garota estava ofegante, sua cabeça estava levemente inclinada para trás, com Inuyasha ainda puxando seu cabelo, ela o encarou sem responder nada. A verdade é que Kagome não sabia o que responder, mas para sua surpresa, Inuyasha abriu um leve sorriso e puxou-a novamente para perto, recomeçando o beijo sem se importar em ser delicado ou gentil. Era visível que aquele não era um beijo apaixonado, não existia nenhum sentimento ali, era apenas o desejo dos dois agindo e falando mais alto. Aquilo, finalmente, era o instinto que todos falavam; não defesas, nem noite mal dormidas, mas um desejo difícil de controlar.

Nenhum dos dois parecia querer terminar com aquele momento, até que Kagome arregalou os olhos, colocando as duas mãos no peito de Inuyasha e empurrando-o para trás. Sua sanidade havia voltado e com ela a lembrança de que o que estava fazendo era completamente irracional e perigoso, não só para ela, como para o hanyou.

- Eu acho que é melhor você ir embora. – disse Kagome.

Inuyasha tirou os braços de Kagome de seu peito e pousou-os de volta na pia, começou a andar indo em direção à sala, quando alcançou a porta olhou para trás e disse:

- Eu vou cumprir a minha parte do acordo. Espero que você faça o mesmo.

Antes de ouvir uma resposta da garota, Inuyasha abriu a porta e saiu da casa, fechando-a com um leve empurrão. Ao ouvir o barulho da porta fechando Kagome alisou o rosto impacientemente, antes de escorregar até o chão e ficar sentada no piso frio da cozinha.

- "Mas que merda eu estou fazendo?!" – resmungou.


- Miroku, aquele ali não é o Inuyasha?

Sango apontou para fora do café chamando atenção do moreno para um rapaz que passava em frente ao local onde estavam.

- É ele mesmo, – disse Miroku. – mas o que ele está fazendo aqui?

- Porque está perguntando isso pra mim? – disse Sango. – Levante-se e vá lá descobrir!

Miroku levantou-se, empurrando a cadeira que estava sentado para o lado e correu para fora do café. Inuyasha estava andando muito devagar, parecia distraído, pois ignorou completamente Miroku o chamando e só percebeu a presença do rapaz quando esse puxou sua camiseta e berrou "ACORDA".

- Ahn? – o hanyou respondeu balançando a cabeça tentando acordar.

- Ah, ainda está vivo, pensei que tinha virado um zumbi! – disse Miroku. – O que aconteceu com você?

Inuyasha piscou algumas vezes, pensando em como responder aquela pergunta, Miroku estava parado ao seu lado encarando-o curiosamente, quando abriu a boca para falar, seu estômago roncou.

- Está certo, você come primeiro e depois me conta! – disse Miroku. – Eu estou com a Sango ali naquele café, se importa de falar na frente dela?

- Não, não. – disse Inuyasha. – Na verdade, não.

Miroku saiu andando na frente, esperando que Inuyasha o seguisse, mas ele não o fez. O moreno olhou para trás e disse:

- O que foi?

- Agora que eu pensei... Você e a Sango, – disse Inuyasha. – sozinhos fora da escola? Acho melhor nos falarmos depois!

Miroku começou a rir e andou até Inuyasha, pousando o braço no ombro do hanyou.

- Quem dera fosse o que você está pensando, amigão, quem dera!

- Você já foi mais rápido! – disse Inuyasha rindo.

Miroku apenas sorriu e voltou para o café, seguido por Inuyasha.

- Bom dia, Inuyasha. – disse Sango.

- Bom dia. – respondeu o hanyou, puxando uma cadeira e sentando-se.

Miroku chamou novamente a garçonete que rapidamente respondeu ao chamado do rapaz com um sorriso enorme nos lábios.

- Me chamou? – disse com voz baixa.

- Na verdade, ele é quem vai comer. – disse Sango apontando para Inuyasha com cara de poucos amigos.

Ela olhou sem muito ânimo para Sango e anotou o pedido de Inuyasha: 1waflle grande e dois copos de suco de uva. Virou-se para Miroku e disse:

- E você? Não quer mais nada?

- Talvez depois. – respondeu Miroku sedutoramente.

Ela sorriu antes de levar o pedido para a cozinha. Sango cerrou os olhos.

- Eu não quero nada, obrigada. – respondeu a morena para o ar. – Sabe, Inuyasha, você chegou em ótima hora, eu não agüentava mais segurar vela para o garanhão!

Miroku pareceu ofendido com aquele comentário, pois logo se defendeu:

- Eu estou apenas sendo educado!

- Isso é educação pra você? – retrucou Sango. – Isso é sem-vergonhice!

- Você acha mesmo que eu daria em cima daquela bela e jovem garçonete de corpo escultural bem na sua frente, Sangozinha? – disse Miroku.

- O que você está falando? – disse Sango horrorizada. – Ah, meu Deus, Miroku, eu não quero saber seus sonhos eróticos com a garçonete!

- Eu apenas falei a verdade, porque está fazendo essa cara? – retrucou Miroku inocentemente.

- Eu beijei a Kagome. – comentou aleatoriamente Inuyasha aproveitando a discussão dos dois.

- Cara? Que cara? Só se for de horror! – disse Sango.

- Exatamente isso, de horror! O que tem de tão errado em achar uma mulher bonita? – disse Miroku.

- Vocês me ouviram? – repetiu Inuyasha.

Os dois olharam para Inuyasha automaticamente, os olhos dos dois faiscavam.

- É claro que ouvimos, você estava falando sobre beijar...

Antes de terminar a frase Sango arregalou os olhos e olhou para Miroku, que agora tinha uma expressão completamente confusa no rosto.

- VOCÊ BEIJOU QUEM? – gritou Sango.

Todos no local viraram para a morena, inclusive a garçonete e ao perceber isso, Sango disse:

- O que estão olhando?

- O que foi essa reação, Sango? – disse Inuyasha.

- Como assim, Inuyasha? – perguntou Miroku. – Agora sou eu quem te pergunto, você ouviu o que você acabou de falar?

- Que eu beijei alguém. – disse Inuyasha fingindo descaso. – Não entendi tanto espanto, eu já fiquei com outras garotas antes...

- Certo você disse bem, outras garotas, - disse Sango histérica. – a Kagome não é como as outras garotas! O que você tem na cabeça?

Miroku olhou para Sango, que ignorou os olhares do rapaz e ainda continuou:

- Não me olhe assim, Miroku, você disse que ficaríamos de olho nos dois e em menos de meia hora, olha a notícia boa que temos!

- Do que é que vocês estão falando? – disse Inuyasha confuso olhando para Sango.

- Sango, acalme-se! – disse Miroku. – Nós já conversamos sobre isso, você não tem que se meter! Quem vai falar sobre isso é a Kagome, não você, ainda mais agora!

- Sim, conversamos, mas antes disso acontecer! – retrucou Sango. – Se você não for falar nada, eu falo! Eu não vou assistir isso acontecer sem fazer nada.

- Foi só um beijo, tá? – disse Inuyasha. – Nós não estamos juntos, nem nada do tipo, você não precisa surtar desse jeito, Sango!

- Argh! – resmungou a morena. – É claro que não estão juntos! É claro que não!

- Miroku, o que você fez com ela? – disse Inuyasha.

- Nada, acho que a Sango está de TPM hoje. – respondeu o moreno. – Muitos surtos em pouquíssimo tempo, mas deixe isso de lado, me explique essa história de beijo, eu não estou entendendo mais nada! Você passou de inimigo número 1 à ficante em menos de um dia!

- TPM? Eu estou com TPM? – disse Sango. – Eu vou sair por ai beijando pessoas que potencialmente podem me matar e vou ver o que você tem pra me dizer sobre isso!

Miroku levou a mão até o rosto, tampando-o em uma clara atitude de "você falou demais". Ela ignorou completamente a ação do rapaz e olhou para Inuyasha, voltando a falar histericamente:

- Você faz idéia do que está fazendo? Existem milhares de pessoas no mundo, mas você precisa ir exatamente atrás dela!

- Você está agindo assim como uma maluca porque a Kagome é um anjo, é isso? – disse Inuyasha.

Sango que já estava pronta para rebater fechou a boca e piscou algumas vezes.

- Você sabe sobre isso? – disse confusa.

- Ah! Agora tudo faz sentido! – disse Inuyasha olhando para Miroku. – Você foi atrás do Sesshoumaru ontem, não foi, Miroku? Por isso estava cheirando daquele jeito e por isso vocês dois estão aqui hoje, estão discutindo sobre a Kagome!

- Desde quando você sabe sobre isso, Inuyasha? – disse Miroku.

- Vocês acreditaram nessa história toda? – disse Inuyasha perplexo.

Nesse instante a garçonete chegou com o pedido do hanyou e deixou na mesa, lançou um sorriso para Miroku antes de voltar a atender outra pessoa.

- Está dizendo que não é verdade? – disse Sango confusa.

- Eu não vejo maneira de alguém como a Kagome ser capaz matar yokais. – disse Inuyasha.

- Então você não acredita nisso? – disse Miroku.

- Não sei. – disse Inuyasha. – Quanto à história de matar yokais, eu duvido muito, mas eu não posso negar que muitas das coisas que ela fala fazem sentido. Por exemplo, o tal do instinto...

- Você sabe sobre isso também? – disse Sango.

- O que vocês acham que eu sou? – perguntou Inuyasha enquanto comia um pedaço do waffle. – Quero dizer, se não fosse essa história de instinto eu certamente não ligaria pra existência dela, assim como faço com a maioria das outras pessoas do mundo!

- Esse beijo, - disse Miroku. – ele foi por causa do instinto, não é?

- Exatamente. – explicou Inuyasha. – Eu queria que você fosse yokai por um minuto, Miroku, só assim você conseguiria entender essa sensação. Antes que vocês me perguntem, não, não é amor. É completamente diferente de amor ou qualquer sentimento meloso do tipo, é um instinto mesmo. Se eu fosse tentar definir isso seria mais ou menos como uma mistura de desejo e sentimento de posse, sabe quando você precisa possuir alguma coisa? É quase isso.

- Sua explicação de instinto me pareceu mais intensa do que a do Sesshoumaru. – comentou Miroku.

- Bem mais intensa. – completou Sango.

- E o que você pretende fazer com esse instinto? – disse Miroku. – Bom, embora você não acredite que ela possa te matar, é uma possibilidade, não é?

- Eu já resolvi tudo. – disse Inuyasha.

- Eu acho que beijar a menina não é uma solução. – disse Sango.

- Vocês estão dando importância demais pra esse beijo. – disse Inuyasha. – Não se preocupem tanto com isso, nós não vamos mais nos aproximar.

- O beijo foi tão ruim assim? – disse Miroku rindo.

- Miroku! – repreendeu Sango.

- Que foi? – perguntou Miroku inocentemente. – Vai falar que você não pensou nisso, Sango? Quero dizer, os dois se beijam e depois resolvem ir cada um pra um canto? Algo deu errado.

- Só pra não te deixar curioso, não, o beijo não foi a tragédia que você acha que foi, pelo contrário. Na verdade, nós já tínhamos resolvido que iríamos nos afastar antes mesmo do beijo, ele só aconteceu porque eu estava curioso em saber como seria. – disse Inuyasha. – Graças a porcaria do instinto eu tenho vontade de fazer isso desde a primeira vez que vi, então, a oportunidade apareceu e eu aproveitei.

- Vocês homens são todos iguais. – disse Sango. – A Kagome sabe sobre isso? Sabe que você a usou só pra matar sua curiosidade?

- Isso faz diferença? – disse Inuyasha. – Teoricamente, ela vai me matar um dia e não vamos mais ter contato nenhum daqui pra frente. E eu duvido que ela esteja esperando um pedido de namoro, Sango.

- Depois eu sou o sem vergonha. – disse Miroku.

- Você se esqueceu que ela é nossa amiga? – disse Sango.

- Isso é verdade, Inuyasha. Eu não pretendo deixar de falar com ela, já disse isso antes, eu não posso perder aquela comida! – disse Miroku.

- Foi bom vocês terem tocado nesse assunto. – disse Inuyasha. – A Kagome vai mudar de lugar na sala e irá se afastar dos dois, então, não achem estranho se segunda ela não for falar com vocês. As coisas serão mais fáceis assim, eu já matei a curiosidade em relação à ela e já aprendi a controlar meus instintos, então vocês realmente não precisam se preocupar com nada.

Sango bateu a mão na mesa com força.

- Você é horrível, Inuyasha! – disse.

Miroku olhou para Sango, enquanto ela pegava a bolsa pendurada na cadeira e se levantava, a morena lançou um olhar de ódio para o hanyou antes de sair do café, batendo o pé.

- O que deu nela? – perguntou Inuyasha.

- Ela é mulher, - explicou Miroku. – e como mulher se sentiu ofendida com o que você falou. Até eu te achei um cretino.

- O quê? – disse Inuyasha. – Talvez eu tenha esquecido de mencionar que foi ela quem me agarrou e não o contrário, isso ainda faz de mim um cretino?

Miroku suspirou.

- Que inveja de você, amigão. Se eu for esperar a Sango me agarrar morro encalhado.

- Você realmente gosta dela ou continua com isso só por causa do seu orgulho ferido? – disse Inuyasha.

- Hm, provavelmente um pouco de cada. – disse Miroku. – Mas isso não torna o mundo mais justo, qual a justiça em você ser um completo imbecil com a Kagome e ainda beijá-la?

- Não me culpe por ter um charme natural. – disse Inuyasha.

Miroku começou a rir, fazendo Inuyasha fechar a cara.

- Do que você está rindo?

- De você e da sua inocência! Se não fosse essa história de instinto a Kagome sequer saberia da sua existência, aceite, Inuyasha, garotas como ela não ligam para caras como você! O fato de vocês terem se beijado é resultado de uma anomalia do universo e não do seu charme, desculpe falar, mas se eu fosse uma garota passaria bem longe de você!

Inuyasha deu de ombros.

- É uma pena o universo não conspirar ao seu favor e te entregar a Sango de bandeja.

- Você é realmente um cretino. – retrucou Miroku.

- É, essa é uma das minhas inúmeras qualidades. – respondeu Inuyasha.

- Não quero nem imaginar as outras!

- Faz bem!


O fim de semana havia passado rápido, antes que pudessem perceber já era tarde de domingo. O céu tinha uma coloração forte de vermelho, laranja e amarelo de um lado e do outro já era possível ver a lua brilhando rodeada de estrelas. Uma brisa gelada passeava pela cidade, fazendo as pessoas acostumadas com o sol vestirem casacos. Aquela não era uma cidade muito grande, o que significava não ter muitas opções de saídas, no centro existia um grande galpão com várias lojas e um cinema; aquele era considerado o shopping da cidade. Existiam restaurantes espalhados pelas ruas, dividindo espaço com lojinhas e casas antigas.

Mesmo no Japão, a cidade era muito ocidentalizada, as construções lembravam a Europa e era possível até mesmo encontrar uma padaria*. Era bastante aconchegante e graças a estrutura ocidental, recebia muitos turistas, tendo temporadas em que era impossível andar nas ruas devida à quantidade de pessoas transitando.

- Kagome?

A garota que andava pela rua segurando um sorvete na mão, olhou para trás e abriu um sorriso.

- Sango!

- Sabia que era você, não existe ninguém tão pequeno por aqui! – disse Sango rindo.

- Que maldade! – retrucou Kagome.

- Apenas brincando! – disse Sango. – Mas foi uma surpresa te encontrar aqui...

- Aqui? – disse Kagome olhando para os lados. – O que tem demais em estar aqui?

- Você tinha dito que não gosta muito de sair, então, te encontrar no centro foi uma surpresa. – disse Sango. – Você não vai ficar doente tomando esse sorvete? Está bem frio!

- Ah, isso? Eu não costumo ficar doente. – disse Kagome rindo. – E eu realmente não gosto muito de sair, mas eu gosto do frio e estava querendo um sorvete, então... Porque não? E você, está sozinha?

- Estou, – disse Sango. – quando senti esse vento gelado resolvi sair e comprar um casaco, você é nova aqui então devo avisar que provavelmente, logo irá nevar!

- Você acha? – disse Kagome olhando para o céu. – Eu acho que é só uma dessas frentes frias fora de hora!

- Kagome, você está ocupada agora? – disse Sango.

- Ocupada? Na verdade não, por quê? – disse Kagome.

- Eu estava querendo falar com você, você se importa? – disse Sango.

- Não, isso veio bem a calhar, eu também precisava conversar com você. Se importa de irmos até a minha casa? Ela não é muito longe e como você comentou que estava com frio acho melhor irmos para algum lugar mais quente.

- Sem problemas.

Kagome sorriu e disse para Sango segui-la. As duas caminharam lado a lado por uns cinco minutos, conversando animadamente sobre a possibilidade de nevar até chegarem à casa da garota. Kagome abriu a porta, deixando Sango entrar.

- Essa é a sua casa? – disse Sango olhando para a luxuosa sala boquiaberta.

- Mais ou menos. – respondeu Kagome rindo. – Eu estou morando aqui, mas a casa é de uma conhecida.

- Nossa, eu bem que gostaria de ter conhecidos ricos assim! – disse Sango.

- Sabe que a Kikyou nem é tão rica assim? – disse Kagome. – Como ela comprou essa casa é um mistério, mas por favor, sinta-se à vontade. Eu vou na cozinha jogar isso aqui do lixo – e apontou para a embalagem do sorvete – quer que eu faça um chocolate quente?

Sango jogou-se do sofá, que praticamente a abraçou de tão confortável e macio que era, ela riu e elogiou o bom gosto da dona da casa.

- Adoro chocolate quente, eu aceito! – disse.

Kagome andou até a cozinha, jogou a embalagem do sorvete em uma lata de lixo que ficava no chão perto da pia, e começou a preparar o chocolate quente. Sango olhava para a sala atentamente, procurando detalhes na decoração que ela achava impecável, o jardim de inverno era o que mais lhe chamava a atenção. Depois de dez minutos Kagome voltou para a sala com uma bandeja e duas canecas fumegantes, Sango pegou uma das canecas e agradeceu. Kagome colocou a bandeja no chão e pegou sua própria caneca, sentou-se no sofá, tirando o par de botas caramelo que usava e cruzando as pernas.

- Eu começo? – disse Kagome.

Sango sorriu em resposta.

- Por favor. – disse.

Kagome assoprou a caneca algumas vezes antes de começar a falar.

- O que eu tenho para te falar pode parecer um pouco confuso, deixe-me ver como posso falar isso... – Kagome olhava hora para caneca e hora para Sango enquanto buscava as palavras. – Eu não quero que você ache que eu sou louca ou coisa assim, mas é que eu vou precisar me afastar de você e do Miroku, vocês não fizeram nada de errado, nem estou brava ou qualquer coisa do tipo. É uma situação muito complicada de explicar...

- Porque não tenta? – disse Sango. – Eu gostaria de um bom motivo pra você se afastar da gente, isso soa como desculpa para mim...

Sango sabia sobre o quê Kagome falava, ela estava ali exatamente para discutir sobre aquele assunto, mas ela queria que a garota confiasse nela e contasse a verdade, Sango queria ouvir a história verdadeira vinda da única pessoa que poderia falar com toda a certeza.

- Eu imaginei mesmo que isso soaria como desculpa. – disse Kagome. – Eu não quero te colocar em uma situação desnecessária, entende?

- Não acha que eu tenho o direito de escolher se a situação é desnecessária ou não? – disse Sango.

- Claro, claro que tem, você tem toda a razão, mas não é tão simples assim. Eu bem que gostaria, o problema é que eu não posso te explicar o que acontece, isso está além da minha vontade, não diz respeito só a mim, entende? Se eu fosse a única a situação seria diferente.

- Eu entendo, no seu lugar eu faria o mesmo, – disse Sango. – mas porque não tenta confiar em mim? Você sabe que eu nunca faria algo que fosse te prejudicar.

Kagome assoprou a caneca, antes de tomar um gole. Seus olhos começaram a lacrimejar e ela abriu a boca, abanando-a com as mãos.

- Quente! Muito quente, me queimei! – tentou dizer com a língua para fora.

- Você realmente parece uma criança, Kagome. – disse Sango gargalhando.

A garota fez cara de choro e colocou a caneca no chão, em cima da bandeja.

- Chocolate assassino! – disse emburrada olhando para a caneca.

- Ele é quente, Kagome, por isso chama-se chocolate quente! – disse Sango ainda sorrindo.

- Ser quente não significa precisar queimar minha boca! – choramingou a garota.

- Você precisa assoprar e tomar de pouquinho e pouquinho, não pode virar a caneca desse jeito! – disse Sango.

Kagome ficou em silêncio alguns minutos, olhando o vapor que saía da caneca que colocara a pouco no chão.

- Sango, você acha que eu sou estranha?

Sango encarou-a de maneira curiosa, ela não havia entendido o porquê daquela pergunta.

- Não, eu não acho. Porque está falando isso? – disse.

- Eu não sei, quero dizer eu me esforço bastante pra ser como vocês, desde muito nova eu aprendi a observar como vocês agiam para fazer o mesmo. Desde o modo de falar, até a forma como interagem uns com os outros, mas eu não sei exatamente até que ponto eu posso ir, porque eu não sou como vocês. Nós temos maneiras muito distintas de ver o mundo e eu meio que tenho medo de acabar não sendo coisa nenhuma, sabe?

- Desculpe, Kagome, mas eu não consigo entender muito bem o que você está dizendo.

- Sango, eu não sou como você, nem como o Miroku, nem como qualquer outra pessoa. Eu não sou tão humana quanto pareço, - disse Kagome abaixando a voz. – eu sequer sei o que eu sou!

- Então anjos não são humanos? – disse Sango.

Kagome arregalou os olhos e virou rapidamente o rosto para a morena.

- Como você pode saber sobre isso? – disse. – Foi o Inuyasha?

- Na verdade, desde a primeira vez que eu te vi eu desconfiava de que você não era humana, mas nem o Inuyasha, nem o Miroku me deram ouvidos. Eu não sei explicar muito bem isso, mas só sabia que você era diferente. O Miroku acabou ficando curioso com essa minha sensação em relação a você e foi atrás para descobrir...

- Sesshoumaru. – disse Kagome irritada. – Eu não acredito que ele fez isso, ele não tinha o direito de colocar vocês no meio disso!

- Sim, foi o Sesshoumaru quem nos contou tudo que sabemos, o que na verdade é muito pouco. – disse Sango. - O Inuyasha parece saber tanto quanto nós, então, ele não é de muita ajuda.

- Ele sabe que não pode sair falando sobre isso! – resmungou Kagome para si mesma. – Ele deve estar tentando atrair a Kikyou para cá, é a única explicação!

- Kagome, eu vim aqui exatamente para falar com você sobre isso. – disse Sango. – Eu quero saber de você o que essa história toda significa, pode confiar em mim, eu não vou contar para ninguém.

- Eu sei que não, - disse Kagome. – mas saber disso vai trazer problemas para você e para o Miroku! Vocês não entendem, eu não posso criar esse tipo de relação com ninguém!

- Esse tipo de relação? Você diz amizade? – disse Sango.

- Eu não posso me apegar a ninguém fora às minhas irmãs, somos proibidas de criar laços de confiança com qualquer um que seja. Entende? É tudo muito complicado.

- Irmãs? – disse Sango.

- As outras meninas como eu, é assim que as chamo. É como se fossemos uma grande família já que crescemos todas juntas aos cuidados da mais velha, que é como uma mãe para nós. – disse Kagome.

- Está me dizendo que não tem uma família de verdade? – disse Sango.

- Isso faz parte do não saber o que sou, – disse Kagome. – e não saber de onde vim. A única coisa que sabemos é o porquê de termos nascido.

- Matar yokais. – concluiu Sango.

Kagome sorriu sem nenhuma alegria.

- É, podemos resumir bem as coisas e definir minha função dessa forma. É graças a isso que preciso me afastar, vocês são amigos do Inuyasha muito antes de eu aparecer e esse tipo de coisa não pode continuar. Se eu já não posso me relacionar com humanos, consegue imaginar o que andar para cima e para baixo com o yokai significa? Estar com vocês significa estar com o Inuyasha e eu não posso, eu vim para cá por motivos muito distintos.

- Esses seus motivos incluem matar o Inuyasha? – disse Sango. - Como isso funciona? Como vocês escolhem quem matar?

- Nós não escolhemos ninguém, você está fazendo eu me sentir uma assassina. – disse Kagome. – Essa história de matar yokais começou há muitos anos atrás, eu sinceramente não sei dizer quando e provavelmente nem a Kikyou sabe, quando os yokais e os humanos não viviam pacificamente. Hoje vocês têm medo de yokais lobo, mas comparados aos yokais de antigamente eles são como cãezinhos adestrados. Os yokais eram selvagens e somente minhas ancestrais conseguiam domá-los, nós temos esse poder até hoje; tudo o que falamos para um yokai é regra, ele vai obedecer mesmo não querendo. Minhas ancestrais tentaram não matar ninguém, elas usavam esse poder de domínio e faziam os yokais não atacarem ninguém, mas era só elas se afastarem para os yokais se livrarem dessa influência e se vingarem, matando mais ainda. Você vê? Não existiam opções, então elas começaram a matar os yokais que as desobedeciam, aqueles selvagens que destruíam vilarejos inteiros.

- E hoje em dia? Os yokais vivem pacificamente com os humanos, você não acha que essa função de "matar yokais" é um tanto quanto equivocada? – disse Sango.

- Acredite, se todos os yokais fossem bonzinhos eu não existiria. - disse Kagome. – Todos vocês humanos são bondosos? Não existem aqueles maníacos sádicos que saem matando todo mundo? Acontece o mesmo com os yokais. Você chega a ser inocente, Sango, esses assassinatos só não são noticiados porque isso instigaria os outros yokais a voltarem a sua verdadeira natureza, querendo ou não eles são animais. Quantas tragédias você vê por dia na televisão? Vai me dizer que nunca passou pela sua cabeça que um yokai causou aquilo? Nunca achou estranho não ver nenhum yokai na cadeia ou fazendo algo de errado?

- Sinceramente, eu nunca pensei nisso. – disse Sango.

- Existem yokais aí fora tão malucos e sanguinários quanto os yokais que minhas ancestrais matavam e é por isso que estou aqui. Você não vê esses yokais na cadeia ou em noticiários da televisão porque agimos antes, nós matamos esses animais para que vocês humanos e os yokais possam ter uma vida pacifica. Nossa missão é manter essa mentira de que yokais são bonzinhos.

- Então você não veio aqui para matar o Inuyasha. – disse Sango suspirando aliviada. – Quero dizer, ele é rabugento e tudo o mais, mas ele nunca matou ninguém.

- Está preocupada com o que eu posso fazer com ele? – disse Kagome.

- Pra falar a verdade, estou sim. – disse Sango. – Mesmo ele não merecendo essa minha preocupação. Só de falar o nome dele fico irritada, como ele ousa te tratar desse jeito?

- Do que você está falando? – disse Kagome.

- Eu encontrei com ele ontem de manhã e ele me avisou que você iria se afastar da gente e veio com um papo de ter te beijado só para matar a curiosidade e como já havia matado a curiosidade e aprendido a controlar o tal do instinto você não era mais um problema! – disse Sango com voz irritada.

- Ah, então ele disse isso? – disse Kagome em tom divertido. – É engraçado ele achar que já controla os instintos, quero só ver como ele vai lidar com isso agora!

- Você não está brava por ele ter te usado? – disse Sango.

- Sango, eu não tenho nenhum tipo de sentimento por ele, acredite em mim. Se ele me usou, eu o usei também, não me orgulho disso, mas eu também tenho meus instintos e é difícil controlá-los às vezes. A diferença entre nós é que ele precisa muito mais de mim do que eu dele, estou ansiosa para ele me mostrar como vai se virar sem meus conselhos, se prepare, a partir de agora ele provavelmente terá uns surtos de humor.

- Então vai mesmo se afastar de nós por causa dele?

- Ele é um dos motivos, - disse Kagome. – mas você e o Miroku são motivos ainda maiores. Eu gosto muito de vocês dois e como eu já disse, qualquer tipo de relação com humanos é proibida para mim.

- E porque isso? Qual o sentido em não poder se relacionar com outras pessoas? Isso é doentio! – disse Sango irritada.

- É simples, você não consegue perceber? – disse Kagome.

- Não! – retrucou Sango.

- Sango, eu não sou humana, mas eu preciso agir como tal. Imagine você passar uma vida inteira agindo de uma maneira, em determinado momento você vai acreditar que é daquele jeito. Se eu agir como humana minha vida inteira, se me apegar ao modo de vida que vocês levam esse será a única maneira de estar viva que eu vou conhecer, eu sei que sou diferente, que não sou como vocês, só que eu nunca vou ser humana, eu sou qualquer outra coisa. A vida que vocês levam não foi feita pra mim.

Sango ficou em silêncio e pela primeira vez bebeu o liquido amarronzado que estava dentro de sua caneca, o chocolate antes quente agora era apenas morno. Agora ela entendia as palavras de Kagome, a dúvida sobre ser estranha, o medo de acabar não sendo nem humana, nem anjo. E pela primeira vez aquela garota sempre sorridente que ela conhecia na escola mostrava-se como era de verdade, uma pessoa vivendo uma vida apenas porque havia sido condenada àquilo. E pensando nisso Sango sentiu vontade de chorar, porque ninguém merecia viver apenas por viver.

- Não precisa fazer essa cara, - disse Kagome sorrindo compreensivamente. – não é tão ruim quanto parece.

- Essa Kikyou de quem você tanto fala, ela é a mais velha? – disse Sango. – É ela quem comanda tudo? É atrás dela que eu tenho que ir pra ela te libertar de tudo isso?

- Sim, a Kikyou é a mais velha, é a nossa mãe por assim dizer. Ela já deve ter uns 200 anos ou coisa assim, então quem tem mais conhecimento sobre nossa "missão", como ela mesma gosta de chamar, é a Kikyou. Em outras palavras, sim, é ela quem comanda tudo. – disse Kagome.

- Como assim 200 anos? Quantos anos você tem, Kagome? – disse Sango boquiaberta.

- Eu tenho 17, mas vou viver muitos anos com essa aparência. – disse Kagome. – Eu não sou imortal, é só que meu metabolismo é diferente do de vocês, eu demoro muito mais para envelhecer, se bem que nunca vi uma de nós com aparência de velha, e como eu disse anteriormente, eu não fico doente. Não ficando doente e demorando a envelhecer, não sobram muitas coisas que podem nos matar. Yokais são bons exemplos que coisas que podem nos matar.

- Está me dizendo que yokais podem te matar? – disse Sango. – Eu não estou entendendo mais nada!

- É complicado mesmo de entender, existem milhões de detalhes e coisas que nem eu entendo, mas respondendo sua pergunta... Eles podem, o Sesshoumaru não explicou isso? É pra isso que o instinto existe é uma defesa de ambos os lados.

- Acho que faz sentido, - disse Sango. – mas onde eu encontro essa Kikyou? Quero conversar com ela!

- Você não encontra. – disse Kagome. – Desista dessa idéia maluca, ir atrás da Kikyou não vai mudar o que eu sou, nem o que eu faço.

- Eu preciso tentar. – respondeu Sango.

- Se houvesse um jeito, eu te falaria, Sango, mas não existe. Não perca seu tempo, primeiro porque você nunca irá achá-la e eu não posso dizer onde ela está, e segundo porque é inútil.

- Você não acha que está muito conformada? Se você não gosta disso, porque não reclama, porque não abre mão de tudo? Você não é obrigada a viver desse jeito.

Sango começava a se tornar nitidamente irritada, seu tom de voz estava aumentando e seus olhos brilhavam de maneira revoltada, Kagome conseguia perceber que a qualquer momento a morena iria explodir.

- Desculpe se pareço conformada, Sango, mas eu não posso fugir, não posso simplesmente acordar um dia e abandonar todas as outras e ir viver uma vida humana que não é minha. Eu já disse, não sou humana não posso viver assim, minha função é protegê-los, como espera que eu viva sabendo que você está correndo perigo porque eu desisti de fazer aquilo que nasci para fazer?

Os olhos de Sango começaram a encher de lágrimas, ela levantou-se, derrubando a caneca de chocolate quente e começou a falar alto, andando de um lado para o outro:

- Isso não é justo! Olhe para você, Kagome, você não pode viver com esse peso todo nos ombros, você é só uma criança!

- Embora eu pareça uma criança, eu não sou e você sabe disso. Deveria saber também que a vida não é justa para todos, ficar desse jeito não vai mudar as coisas. – disse Kagome.

Sango parou de andar e olhou para Kagome, deixando as lágrimas escorrerem livremente pelo rosto.

- Eu não acredito no que acabei de ouvir! – gritou. – Eu disse que você era conformada? Desculpe, mas você já passou do limite do conformismo, você desistiu! E você é sim uma criança e só não percebeu isso ainda porque se acha adulta demais para notar que é como qualquer outra pessoa!

Kagome fechou os olhos, respirando fundo. Sango era sempre daquele jeito, um turbilhão de emoções incontroláveis, se ela sentia vontade de gritar, ela simplesmente gritava, não importando o lugar ou as circunstâncias, ela era exatamente o contrário de Kagome. Ela era do tipo que age antes mesmo de falar ou pensar.

Quando Kagome abriu os olhos, Sango já estava ao lado da porta de entrada, ela levantou-se e abriu a boca para falar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Sango escancarou a porta e saiu da casa, batendo-a com força. Ela jogou-se novamente no sofá, afundando o rosto em uma almofada, mas antes que pudesse pensar em qualquer coisa o telefone começou a tocar, ela até tentou ignora-lo, mas a pessoa estava empenhada em falar com alguém. Ela atacou a almofada no chão e foi batendo o pé até a cozinha, pegando o aparelho que ficava na parede.

- O que é agora? – disse com voz de poucos amigos.

- Liguei em má hora?

- Não gosto de falar no telefone, então sempre é uma má hora para me ligar. – retrucou. – Falando nisso, como você tem meu telefone?

- Irrelevante. Preciso falar com você, pode vir aqui hoje?

- Não, não posso, estou cansada, tive um fim de semana cheio, se quer falar comigo venha até aqui.

- Pode vir amanhã então?

- Eu já resolvi seu problema, o que quer de mim agora? – disse Kagome.

- Poderia ser mais educada? Não foi você que disse para agirmos como adultos civilizados? Já disse, preciso falar com você.

- Ótimo, eu também estava precisando falar com você. Amanhã eu passo ai depois da escola, deseja mais alguma coisa da minha pessoa? – disse Kagome com tom de descaso.

- Por hora, não. Eu te pego na porta da escola então, só para você não precisar subir a montanha sozinha.

- Quanta consideração, heim, Sesshoumaru? Isso é algum plano para me matar? – disse Kagome.

- Até mais. – disse o yokai desligando o telefone.

Kagome olhou para o aparelho e suspirou. A vida naquela cidadezinha minúscula estava sendo mais agitada do que haviam lhe dito. E ela não estava gostando nada daquela agitação toda.

- "O que me falta acontecer agora?"


Há! Hoje é domingo e estou aqui! Acredite se quiser, mas minha operação foi cancelada pela quinta vez só esse mês, acho que a história da minha operação anda mais interessante que a minha fic, porque Deus do céu, nunca vi algo tão enrolado! Em todo caso, aproveitei o adiamento para aumentar o capítulo, finalmente minha meta de 15 páginas no Word, acho que agora vou aumentar para 20! O que acham? :D Eu adoro capítulos grandes, mas não sou eu que decido isso, deixo por conta de vocês, já que não faço a fic pra mim, né? :)

Espero que vocês estejam bem, apesar do adiamento, eu estou!

Biia-Sama: Obrigada pelo pensamento positivo, mas não foi dessa vez (de novo hahaha), espero resolver esse problema da operação logo! Que bom que gostou do capítulo, escrevi esse de hoje pensando em responder algumas coisas sobre o que a Kagome é, será que deu certo? :D

Gege-ups: Seja bem vinda ! Eu também já fui de escrever mais, beeeeem mais, ultimamente ando fraquinha. Quando eu ainda frequentava a escola (a saúde me deixa vadiando em casa, sem escola) tinha cadernos só pra colocar meus pensamentos e idéias de fics, agora fico olhando horas pro papel. Pra review então nem se fala, eu peço pras minhas fics, mas sempre comento na dos outros uns comentários pequenos e aleatórios! Mas fico feliz que tenha resolvido comentar aqui e que esteja gostando da minha história! Você está escrevendo um livro? *-* Uma amiga minha disse que eu deveria mudar os nomes do personagens e fazer um livro, mas não tenho coragem hahahaha ;_; *insegura* Há! Eu também não me aguentaria naquela cena do Inu, por isso nesse capítulo já tratei de fazer a Kagome atacá-lo! XD E sobre a Rin, acho que ela só aparecerá láá pelo capítulo 12 i_i~ Obrigada pelo pensamento positivo :)

Maah. Sakura-Chinchila: Olá querida! Aqui está o capítulo, espero que goste :3

Carolshuxa: Oooii! :D Muuuito obrigada, é ótimo saber que está gostando da fic, da história e do meu jeito louco de colocar minhas idéias no "papel"! XD O capítulo está aqui, espero que goste! :3 Eu não consegui entrar no seu blog, o cortou o link ;_; Tente mandar pra mim dando espaço entre as letras, acho que assim ele não corta!

That's all, folks. Obrigada pela visita, pela review e pelos comentários me desejando boa sorte na operação/lenda urbana. Até domingo e volte sempre :*