Capítulo 11 - Reuniões.


A mansão de Sesshoumaru era completamente diferente do que Kagome esperara. A casa era muito antiga e vendo-a de fora parecia até mesmo abandonada, a garota chegou a pensar em comentar isso, mas percebeu que seria muita grosseria de sua parte. O caminho feito pelos dois havia durado uma hora, mesmo o yokai sabendo um atalho que havia tornado a subida bem mais fácil que na outra noite, Kagome parecia não ter nascido para aquela prática e insistia em resmungar isso a cada dez minutos, resmungar não atrapalharia em nada a conversa, afinal, ela sequer existia. Eles haviam completado todo o trajeto no mais puro e absoluto silêncio, que era quebrado apenas pelo som dos pássaros ou pelos muxoxos da garota.

O yokai abriu a porta da frente que fazia um barulho irritante e indicou com a cabeça o caminho para Kagome imita-lo. A sala era escura e os móveis todos pareciam velhos e desgastados, o enorme lustre no teto pendia mais para um lado do que para o outro e a garota teve a sensação que ele cairia a qualquer momento em sua cabeça, por isso não fez questão alguma de ficar mais tempo no cômodo para explorá-lo. Sesshoumaru parecia não se importar muito com a presença dela, na verdade parecia até mesmo ter esquecido-a, já que andava por entre os cômodos sem falar uma palavra se quer e sem esperar por Kagome. Ela continuava o seguindo sem entender o que ele estava querendo, sabia que não era uma boa idéia, afinal ele era um yokai, mas o monstro da curiosidade já havia acordado dentro dela e por mais que se esforçasse para fazê-lo voltar a dormir, todas as tentativas eram inúteis.

A casa era realmente muito grande, Kagome contou passar por pelo menos 14 cômodos e isso apenas no primeiro andar, sem contar todas as portas fechadas que encontrou. Todos eles lembravam a primeira sala, eram muito escuros e com aspecto de abandono, entre os cômodos viu uma sala de música com um piano quebrado, uma sala que parecia ser de artes; apenas com quadros de molduras comidas por cupins, uma espécie de escritório, uma sala de jantar com uma mesa compridíssima e apenas 3 cadeiras. A grande maioria dos cômodos era apenas grandes salas vazias e empoeiradas, vez ou outra com um carpete sujo ou uma mesa encostada no canto.

Kagome precisou fechar os olhos quando Sesshoumaru abriu uma porta em uma sala vazia, ela já havia se acostumado com a falta de luz e pelo visto aquela porta levava ao quintal, pois o sol entrou e iluminou a sala por completo, mostrando agora de maneira perfeita quão destruída ela estava. Ele continuou a andar, mas a garota ficou parada piscando os olhos, forçando-os a se adaptarem à toda aquela claridade, Sesshoumaru olhou para trás e disse:

- É por aqui.

Ela não respondeu, apenas balançou a cabeça de maneira impaciente e o seguiu. Porém a visão daquele jardim a surpreendeu, era como se fosse outra casa, outro lugar qualquer do mundo, menos a mansão de Sesshoumaru. O jardim era maravilhoso, com várias flores espalhadas de maneira a parecerem uma decoração, a grama no chão era verde e bem cuidada, existiam algumas estátuas espalhadas dividindo espaço com árvores frutíferas e pequenas casinhas de pássaros. Ao centro existia um chafariz com uma espécie de mulher com um jarro derrubando água, ao lado uma mesa branca de aço redonda e com duas cadeiras estava repleta de frutas e com um jarro de uma bebida amarela. Sesshoumaru sentou-se em uma das cadeiras e apontou para a outra, pedindo que Kagome se sentasse, sem dizer uma única palavra ela caminhou até a mesa e sentou-se. De perto, pôde ver que a além das frutas, existiam pães e um bolo.

- O que é tudo isso? – disse apontando para a comida.

- Meu almoço. – disse Sesshoumaru. – Achou que eu fosse me embrenhar no meio do mato e trazer um cervo ensangüentado pendurado na minha boca?

- Essa era uma das minhas opções.

- Você realmente não entende nada sobre yokais. – comentou Sesshoumaru como quem pensa alto demais.

- Espero sinceramente que você não tenha me feito subir essa montanha só para dizer isso.

- Não, não. Não se preocupe com isso, coma primeiro e depois conversamos, pode ser? – disse enquanto ele mesmo recheava um pão com frios.

Kagome arqueou a sobrancelha.

- Sesshoumaru, você está drogado?

- Eu pareço drogado para você? – perguntou ainda distraído com o pão.

- Estou entre drogado e completamente maluco. – respondeu a garota.

- Apenas coma, ok?

Sesshoumaru mordeu o pão e pegou o jarro enchendo dois copos. Notou que Kagome sequer se movera e revirou os olhos de maneira impaciente.

- Eu não envenenei essa comida, está bem? Estou até mesmo me servindo antes de você para você perceber que não há nada de errado com o que está em cima dessa mesa, mas se você não está com fome ou acha que tudo isso é um grande plano para matá-la, faça o que achar melhor, mas aviso que se quer ouvir o que tenho a dizer terá de esperar eu terminar de comer. Se você não sente fome, não significa que os outros não sintam!

- Assim você me assusta menos. – disse Kagome pegando o copo de suco.

O yokai apenas revirou os olhos novamente, voltando sua atenção para a mesa e para o que poderia aliviar sua fome. Após alguns minutos, mesmo hesitante, Kagome começou a se servir. Dois pães e um copo de suco depois ela já estava satisfeita, mas uma brilhante maçã verde na fruteira chamou-lhe a atenção e ela começou a comê-la, entre o ato de mastigar e engolir ela começou a falar cobrindo a boca com a mão:

- Afinal de contas, o que é que você quer comigo?

- Tem algum compromisso marcado? Você parece muito apressada.

- Não, eu só tenho a sensação de que algo está errado.

- Então, muito bem, direi o motivo para ter trazido você até aqui. – disse Sesshoumaru sentando-se de maneira mais confortável na cadeira de aço.

Kagome deu outra mordida na maçã que estalou e balançou a cabeça incentivando o yokai a continuar.

- Eu tenho pensado muito em você...

Ao ouvir aquelas palavras, os pedaços de maçã triturados que desciam por sua garganta pareceram querer voltar para fora e Kagome começou a tossir, engasgada. Sesshoumaru encheu outro copo e ofereceu para a garota, que o virou de uma só vez, enquanto batia no próprio peito.

- Você está bem?

- Do que é que você está falando? – disse Kagome com a voz falha graças à maçã.

- Quer saber sobre eu pensar em você ou ter perguntado se você está bem? – perguntou Sesshoumaru.

- Você sabe do que eu estou falando! – retrucou a garota.

- Quanto drama. – comentou Sesshoumaru em tom de descaso. – Antes de tentar se matar com a maçã, deveria ouvir tudo o que eu tenho pra dizer, acha que consegue?

Kagome cerrou os olhos e colocou a maçã na mesa.

- Ótimo. Como eu ia dizendo, eu tenho pensado muito em você, no motivo de estar aqui e preciso que me responda algumas coisas, se importa?

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Quem mandou você até aqui foi a mais velha, não foi? – disse Sesshoumaru.

- Sim, mas isso você já sabe, é sempre a mais velha quem nos dá ordens.

- Na verdade, achei que pudessem ter encarado a realidade e desistido disso, mas enfim a mais velha parece ser, ahn, mais velha do que vocês?

- Que realidade?

- Responda as minhas perguntas. Não se preocupe – completou Sesshoumaru ao ver uma careta se formando no rosto da garota. - quando for a hora eu responderei as suas, mas antes de fazer isso preciso organizar meus pensamentos e para isso acontecer vou precisar das suas respostas.

- Ainda acho que você ficou maluco. – disse Kagome dando de ombros. – Mas que seja, você quer saber como ela é fisicamente?

- Isso.

- Ela parece ter pelo menos uns dez anos a mais do que todas nós, mas isso é normal, não é? Ela é a mais velha.

- A Kikyou não te explicou absolutamente nada?

- Se você a conhece, porque está me perguntando sobre ela? Isso não faz sentido.

- Entenda, eu a conheci há muitos anos atrás e não soube dela desde então. Achei até que poderia estar morta ou ter sido expulsa dessa maluquice toda, motivos não faltam, acredite.

- Ser expulsa? Você está louco? – disse Kagome incrédula. – Nós não somos um clube que toma chazinho as três da tarde todo dia, não escolhemos entrar nisso e não podemos sair!

- Foi isso o que elas te falaram, é?

- Ah, por favor, você também não! Eu não agüento esse sermão de "enxergue por conta própria" duas vezes no mesmo dia!

- Então eu não fui o primeiro a tentar te fazer enxergar? Curioso.

- Qual o problema com vocês? Estão tentando me levar para o lado de vocês, é isso?

- Oh, não, não. Não depende de nenhum de nós essa escolha, isso depende só de você. Por acaso foi o Myouga quem conversou com você hoje?

- É, ele é meu professor, mas do que é que você está falando? Por que fica mudando de assunto toda hora?

- Já disse, estou tentando organizar meus pensamentos, ignore o que eu falo e só preste atenção nas minhas perguntas. Eu só estou pensando alto, só isso. – disse Sesshoumaru calmamente. – Bom, eu imaginei que ele perceberia também. E o que foi exatamente que ele lhe disse?

- Algo sobre eu ter vindo atrás de gente inocente e de não querer fazer parte disso, ficou falando que eu preciso desistir desses ideais utópicos que elas plantaram em mim, ou qualquer bobagem do tipo.

- Se eu te perguntar o que veio fazer aqui, você não vai me falar, não é? Mesmo se eu dizer que já sei.

- Não, eu não falaria o que vim fazer aqui. E se você já sabe, por que está perguntando? Você é irritante com essa mania de saber tudo, sabia?

- Eu tenho pelo menos dez vezes a sua idade, seria estranho não saber mais do que você, não acha?

- Tá, tá, pode ser. Se você realmente souber o que vim fazer aqui, então devo concluir que me chamou até aqui para tentar me impedir?

Sesshoumaru pareceu pensar alguns instantes nas suas opções antes de responder.

- Talvez sim, talvez não. – disse. – Mas mais uma vez, não importa o que eu tente essa é uma escolha sua e apenas sua, não posso interferir, mas existem algumas coisas que eu gostaria que você soubesse antes de tomar uma posição.

- Como o quê exatamente?

- A mais velha, quero dizer, a Kikyou... Ela explicou o porquê de você vir para cá fazer isso?

- Mesmo motivo das outras vezes. – disse Kagome com certo tom de orgulho na voz. – Ela confia em mim para esse tipo de missão.

- E existe um motivo? – perguntou Sesshoumaru incrédulo. – Elas conseguiram encontrar um motivo para essa idiotice?

- Idiotice? Então você acha que aquilo está certo?

- Aquilo é um ser vivo, Kagome. Admira-me ouvir esse tipo de coisa de uma defensora tão ferrenha da vida como você.

- Eles não pertencem a lugar algum!! Meio humanos, meio yokais... Afinal, o que eles são? Por que eles são livres, mesmo quando não sabem o que são? Por que eles podem viver entre os humanos, agindo como se fossem como os outros? Isso é ridículo!

Sesshoumaru ergueu as sobrancelhas mudando a expressão pela primeira vez na conversa.

- O que você acabou de dizer foi... Horrível. Sabe disso, não sabe? – disse.

- Qual é o problema com você hoje, heim? Todo humanitário, educado, preocupado com os outros, parece até que foi possuído por alguma coisa! – retrucou Kagome nitidamente irritada.

- Embora pareça que estou me divertindo loucamente com essa conversa e com a sua educação, eu não estou. – retrucou Sesshoumaru em tom irônico. – O único motivo de eu estar sendo educado com você é porque eu realmente acredito que ela iria querer que fosse assim. Por isso te trouxe para cá, porque eu sabia que somente na presença dela eu poderia agüentar esse seu gênio terrível.

- Ela? – repetiu Kagome olhando para os lados procurando por alguém. – Ela quem? Não tem ninguém aqui! Eu disse que você estava maluco!

Uma sombra formou-se nos olhos de Sesshoumaru e toda a calma que ele tentava manter parecia se esvair. Naquele instante Kagome percebeu que havia falado demais.

- Eu não vou falar sobre ela com você. – respondeu o yokai agressivamente. – Eu estou cansado de tentar fazer você entender as coisas de modo racional, então vou direto ao assunto para acabar com essa porcaria toda e ver se você consegue entender alguma coisa! Aquela desgraçada da Kikyou está te usando, sua maldita criança iludida, ela não te mandou aqui para matar o Inuyasha, ela sequer espera que você encoste um dedo naquele imbecil! Você está fazendo exatamente o papel contrário, você o está protegendo!

Os lábios de Kagome se entreabriram em uma expressão de completa confusão.

- Então você realmente sabia? – sussurrou.

- É claro que eu sabia! – bradou Sesshoumaru. – Eu já te disse um milhão de vezes que sei coisas das quais você jamais sonharia, você é burra ou só ouve aquilo que quer ouvir? Você diz que me acha irritante com a minha mania de saber tudo, mas você é insuportável com toda essa sua ignorância!

Kagome não respondeu. Sesshoumaru parecia mais irritado do que ela jamais vira, ele parecia fazer uma força enorme para continuar sentado na cadeira e continuar aquela conversa, a garota conseguia perceber aquilo e pela primeira vez passou pela sua cabeça que talvez houvessem coisas das quais ela não sabia.

- Ótimo, parece que você está começando a entender que o mundo é bem maior do que o lhe mostraram. Eu estava começando a duvidar da sua suposta inteligência.

- Não precisa ser grosso, está certo? – respondeu Kagome rispidamente. – Me desculpe se te ofendi, mas não estou acostumada com esse tipo de situação e você nunca foi a pessoa mais educada comigo, o que esperava? Que eu achasse tudo normal?

- Decida-se! Eu estava tentando manter um nível de educação, mas você não pareceu interessada e até mesmo zombou do esforço absurdo que eu estava fazendo e agora me pede que eu deixe de ser grosso? – disse Sesshoumaru irritado.

- Já pedi desculpas, o que mais espera que eu faça?

Os dois ficaram em silêncio. Sesshoumaru encheu seu copo com suco e o bebeu. A luz do sol começava a se tornar mais fraca, não que a noite estivesse caindo, o motivo eram nuvens escuras e pesadas que começavam a se aproximar.

- Você tem algo a ver com isso? – disse o yokai apontando para cima.

- É claro que não, o que acha que eu fiz? Dança da chuva? – retrucou Kagome ainda irritada.

- É bom que não tenha mesmo, porque é impossível sair daqui quando começa a chover e eu duvido muito que você queira ficar aqui até a chuva passar. Eu pelo menos não desejaria isso nem nos meus piores pesadelos.

- O sentimento é recíproco. – resmungou Kagome.

- Se não é você, é a Kikyou. – disse Sesshoumaru. – O que significa que ela sabe que você está aqui.

- Ou não. O jornal disse que hoje choveria. Você não costuma ver a previsão do tempo, não? Aposto que aquela sua casa é cheia de goteiras!

- Não se preocupe com as minhas goteiras, meus anões cuidam delas por mim.

Kagome que até então olhava para o céu com expressão irritada olhou para Sesshoumaru e piscou algumas vezes.

- Sabia que os anões funcionariam. – disse Sesshoumaru. – Olha, você sequer faz idéia, mas te colocarem no meio de uma situação que tem se arrastado a anos e o pior, está nas suas mãos o final disso tudo. Você tem algumas opções, claro, todos têm. A primeira seria ir embora dessa cidade e continuar sua vida em outro lugar. A segunda seria continuar aqui e aceitar esse destino o qual traçaram para você, indo atrás da verdade. A terceira é ignorar tudo o que eu te disse e ir atrás do Inuyasha e matá-lo.

- Por que você me parece tão preocupado com o Inuyasha? Pensei que não gostasse dele.

- Não posso sequer olhar para a cara dele. – disse Sesshoumaru amargurado.

- Contraditório.

- Dependendo de qual caminho escolher, você entenderá o porquê de eu estar agindo assim. Agora preciso que me diga uma coisa, vocês saem por ai matando hanyous pelo simples fato deles serem... Hanyous?

- É claro que não! – retrucou Kagome ofendida. – Eu não sou uma assassina. Todos os yokais que morrem é porque fizeram por merecer.

- Eu entendo isso, mas o Inuyasha não é um yokai. – disse Sesshoumaru sensatamente.

- Ele é parte yokai! E é nessa parte dele que está o problema!

- E a humana não? Não há nada de errado na parte humana dele?

- É claro que não! Vocês yokais insistem em dizer que os humanos são tão errados quanto vocês, isso é ridículo!

- Eu já havia notado isso antes, mas porque você venera tanto assim os humanos? Eles são tão patéticos.

O rosto de Kagome adquiriu um tom vermelho e seus olhos brilharam furiosamente.

- Eu não venero humanos! Eu apenas os defendo de seres sujos como você!

- Eu já vivi muitos anos para saber que seus queridos humanos não são seres perfeitos como você os idealiza!

- É óbvio que não são perfeitos, ninguém o é! Não esperaria mesmo que alguém como você pudesse entender a grandiosidade deles!

- Pensei que seu problema fosse apenas com a audição, mas pelo visto a visão também está seriamente comprometida. – disse Sesshoumaru.

Kagome resmungou algo inaudível em resposta. O yokai a encarou por alguns minutos antes de voltar a falar.

- Quantos hanyous você já matou?

- Dois. – respondeu Kagome prontamente. – Foram as criaturas mais tristes e deploráveis que tive a oportunidade de conhecer.

- Você acha isso, é?

- Eu não acho, eu vi. Toda aquela angústia, aquele ressentimento guardado por anos por não saberem o que são e onde estão... Sabe, com o tempo eles ficam loucos.

- E foi por isso que os matou?

- Acredito que uma coisa levou a outra. – disse Kagome analisando a situação mentalmente. – Se eles não fossem loucos, não teriam atacado humanos e eu não precisaria ir atrás deles.

- Mas... O Inuyasha nunca atacou ninguém e por pior que ele seja não me parece nem perto de estar louco.

- Ele é diferente.

Sesshoumaru sorriu sem alegria alguma.

- É claro que é. – disse.

- Você não entende, Sesshoumaru. – disse Kagome. – E nem poderia. Eu não duvido que você saiba muito, mas você não é uma de nós, não entenderia como essa situação, em especial, é delicada.

- Como eu já disse antes, acho que você é que não faz idéia no que está metida.

Kagome balançou negativamente a cabeça e disse:

- No fim, isso não importará. Eu estou aqui por um único motivo e quando for a hora certa, eu cumprirei a minha missão e irei embora.

- Gostaria que fosse simples assim. – disse Sesshoumaru. – Mas então, o que é que você gostaria de me falar?

Kagome mordeu de leve o lábio, ela havia esquecido completamente o que precisava falar com Sesshoumaru. Forçou a mente por alguns minutos, revirando as últimas memórias e então bateu com força a mão na mesa, percebendo segundos depois que aquela não fora uma boa idéia, afinal, sua mão começava a latejar de dor.

- Você! – ela gritou ignorando a dor.

- Eu. – disse Sesshoumaru olhando curiosamente para a garota.

- É! Você! Que história é essa de sair por aí falando sobre anjos?

- Ah, isso!

- Como assim "isso"? Você não tem o direito de colocar outras pessoas nessa confusão, está tentando atrair a Kikyou ou o quê?

- Eu apenas respondi as perguntas daquele seu amigo. – disse Sesshoumaru dando de ombros.

- Você odeia humanos! – retrucou Kagome histericamente. – Por que ajudaria um? Por que responderia as perguntas dele?

- Quem sabe, não é? – respondeu Sesshoumaru distraidamente. – Ainda não entendo porque vocês insistem em manter essa história toda em segredo, você deveria saber...

- O que eu deveria saber? – a garota cortou.

- Nunca ouviu dizer que quando estamos fazendo a coisa certa não precisamos esconder? Todo esse segredo faz parecer que vocês estão erradas e o principal, que sabem disso.

- Não sou eu quem escolhe quem sabe ou não. E devo dizer que você também não escolhe!

- Acho melhor você ir embora, logo vai começar a chover.

- Está me mandando embora? – disse Kagome indignada.

- De maneira educada.

- Ah, quanta consideração! E aquela história de "responda minhas perguntas que responderei as suas depois"?

- Eu disse que responderia na hora certa. E depois do que vi hoje, devo dizer que essa tal hora certa ainda vai demorar a chegar.

- Que informativo. – disse Kagome suspirando. – Certo, imagino que você não irá me responder mais nada, então eu quero te avisar uma coisa.

- Eu não vou me intrometer entre você e o Inuyasha se é esse o seu aviso. – disse Sesshoumaru parecendo cansado.

- Não, meu aviso não tem nada a ver com o Inuyasha. Quero que você fique longe do Miroku e da Sango, você já trouxe problemas demais para os dois, está cansado de saber que humanos não podem fazer parte dessas confusões entre nós. Eles são amigos do Inuyasha!

- E seus amigos também.

- Isso é irrelevante! – retrucou Kagome.

Sesshoumaru deu um leve sorriso irônico, fazendo Kagome encara-lo de maneira curiosa.

- Eles já sabem sobre você e o Inuyasha? – perguntou o yokai.

- Ah, claro que sabem, na verdade foi a primeira coisa que eu disse ao me apresentar "Oi, meu nome é Kagome e estou aqui para matar seu amigo, muito prazer". – disse Kagome revirando os olhos impacientemente. – Que raio de pergunta é essa?

- Não é disso que estou falando. – disse Sesshoumaru e Kagome teve a impressão que o sorriso se alargara no rosto do yokai.

- Então do que é que você está falando?

- O Inuyasha estava bem irritado hoje, não estava?

- Sim e o que isso tem a ver?

- E ele ficou falando sobre, bom, você sabe. Você sair por ai com outros yokais... – disse Sesshoumaru e Kagome sentiu seu rosto esquentar, sabia que estava ficando vermelha, pôde ver sua expressão de vergonha refletida nos olhos dourados do yokai. – E eu posso estar enganado, mas me parece que vocês dois andaram se aproveitando dos instintos...

Kagome arregalou os olhos e levantou-se apressadamente da mesa.

- Eu não sei do que você está falando!

E saiu batendo o pé, dando a volta pela lateral da casa. Sesshoumaru acompanhou-a com o olhar.

- Eu estou velho demais para isso. – resmungou.


Kagome olhou para o céu e cerrou os olhos. Era realmente tudo o que ela precisava naquele momento, descer uma montanha de baixo de chuva. Xingou mentalmente Sesshoumaru, tentando focalizar seu ódio em um único ponto, mas sentiu que seria inútil, naquele momento ela sentia-se frustrada e irritada. Por que Sesshoumaru sabia tantas coisas? Por que tinha a sensação de que Kikyou estava escondendo algo dela?

Uma gota pesada escorreu pelas costas de Kagome e logo outra e mais outra, até que as gotas já não eram mais gotas e sim uma enxurrada de água caindo pesadamente e ensopando-a, soltou um palavrão em voz alta, mas o som de um trovão fez com que ele fosse abafado.

- "Maravilha de dia" – pensou ao quase cair tropeçando em uma raiz. – "E isso porque é só segunda-feira!!!"

A chuva não diminuiu, assim como o caminho não se tornou mais curto como Kagome implorava para que acontecesse. Ensopada, arranhada e cansada chegou a conclusão que nunca mais subiria aquela montanha, porque de alguma forma a descida era sempre pior do que a subida. Resolveu sentar em uma raiz, mas escorregou e caiu deitada no chão, abriu os olhos, mas a chuva vinha em sua direção agora e tornava impossível ver qualquer coisa, ela fechou os olhos e continuou deitada.

Como se sentisse pela primeira vez a chuva, Kagome sentiu um arrepio correr-lhe o corpo, uma sensação desagradável de frio começou a se espalhar. Quanto mais precisaria descer? Suspirou de maneira cansada e ficou ali deitada, sentindo a água escorrendo por seu corpo e a grama pinicando suas costas, até uma luz se ascender em sua mente: ela era um anjo. Ela não poderia ficar ali esperando que algum yokai simpático resolvesse aparecer para lhe cumprimentar, sabia que seu cheiro estava intensificado por causa da chuva. Isso sempre acontecia.

Revirou-se na grama e levantou-se. Olhou atentamente ao redor e sorriu aliviada, não percebeu nada errado e voltou a caminhar, dessa vez atenta ao que acontecia ao contrário de se afundar nos seus próprios pensamentos. Ela teria muito tempo para fazer isso depois, quando sua vida não estivesse correndo perigo.

Quando saiu do caminho de terra e chegou à entrada da cidade Kagome sentiu seu estomago revirar-se, cerrou os olhos forçando sua vista a enxergar o que estava à poucos metros, mas mesmo que aquela forma fosse clara, sua mente se recusava a torná-la nítida, a acreditar que ele estaria ali. Continuou seguindo sua caminhada de cabeça erguida, mesmo que seus olhos ainda continuassem expressando todo seu ódio, como se aquela fosse uma marcha por sua honra, queria estar seca, queria não ter grama no cabelo e nem estar com a meia rasgada e suja. À sua frente Inuyasha continuou parado, em baixo da chuva, seus olhos a encaravam em um misto de ódio, angústia e arrependimento, sem o brilho que o sol emitia eram apenas um pálido e sem graça castanho-claro. Era isso ou a explosão de sentimentos que eles demonstravam naquele momento é que haviam tirado o típico brilho vivo, mas Kagome não ligou.

Mesmo com a chuva, ela pôde notar que a blusa de Inuyasha tinha uma grande mancha vermelha na altura do ombro que ia em direção às costas, ela concluiu que Sesshoumaru havia destruído algo além da máquina de refrigerantes, mas novamente não se importou. Ao lado do hanyou encontrava-se Miroku e Sango, dividindo um guarda-chuva com uma expressão tão profunda quanto à do amigo. Antes que Kagome os alcançasse, Inuyasha olhou para o chão e girou nos calcanhares, indo para longe. A garota entreabriu os lábios e sussurrou "covarde nojento" e continuou andando, na esperança de ignorar Sango e Miroku, mas seu plano não deu certo. Antes que pudesse perceber, Sango já estava fora da proteção do guarda-chuva segurando seu braço.

- O que aconteceu com você? – disse Sango.

Kagome não respondeu e ela sentiu a mão de Sango apertando com mais força seu braço, Miroku caminhou até as duas e cobriu-as com o guarda-chuva, sendo ele agora a se molhar. Mesmo sentindo a pressão no braço, ela não respondeu, apenas virou seus olhos para o rapaz e disse com um meio sorriso:

- Muito bom, Miroku, agora todos nós estamos molhados.

Ele não respondeu o sorriso, mas seu tom era casual como sempre.

- Essa é a graça, não é?

Ela deu de ombros.

- Se você diz.

- Você está bem? – insistiu Sango ainda segurando o braço de Kagome.

- Pensei que estivesse irritada comigo, - disse Kagome em falso tom casual. – algo sobre eu ter desistido da minha vida. Digamos que não faça muita diferença como eu estou ou o que estava fazendo, não é?

Mais uma vez o toque entre as duas fez Kagome perceber que suas palavras haviam atingido Sango, pois dessa vez ela afrouxou o aperto e seus dedos tremeram levemente. Kagome não pensava aquilo de maneira alguma. Sentiu uma alegria imensa se espalhar por seu corpo ao perceber que a amiga estava preocupada com ela, desde a noite anterior ela sentia-se insegura e não estava acostumada com aquele sentimento; Kagome nunca tivera algum humano em especial por quem tivesse se apegado e foi exatamente essa lembrança que a fez agir daquela forma tão cruel. Ela havia ido atrás de Sesshoumaru para recriminá-lo por ter falado demais para Sango e Miroku, que espécie de hipócrita inconseqüente ela seria envolvendo os dois mais ainda? Não, era errado. Era proibido. Kagome era um anjo e anjos não podiam se relacionar com humanos.

- Você está brava comigo pelo aconteceu ontem na sua casa? – perguntou Sango vacilante.

E então, Kagome sentiu como se tivesse levado um soco no estomago e agora ele se encolhesse dentro dela, buscando proteção. Os olhos de Sango a encaravam repletos de dúvida, sinceridade e até mesmo súplica, era como se ela estivesse usando seus famosos olhos para convencer Kagome de algo, ela só não conseguia descobrir o quê.

- Não. – respondeu firmemente, desviando os olhos.

- Você está. – ela retrucou.

A mão de Sango continuava no braço de Kagome e ao perceber isso, ela puxou-o para si, deixando o braço que a amiga apoiava nela cair ao encontro do nada. Os olhos de Sango piscaram algumas vezes olhando para o braço que antes apertava e então, veio o segundo soco. Kagome percebeu que agora eles enchiam-se de mágoa, procurou um apoio em Miroku desesperadamente, mas os olhos dele apenas lançaram-lhe censura. O rapaz segurou a mão de Sango de forma terna e pela primeira vez, ela não se esquivou.

- Por favor... – Kagome suplicou sentindo seu estomago se comprimindo cada vez mais dentro de si. – Por favor, não façam isso comigo. Eu não posso... Eu não devo.

Sango não respondeu.

- Por favor... – ela repetiu mais para si do que para os outros dois.

- Você está errada, Kagome.

Por um segundo a garota precisou se certificar que a voz vinha mesmo de Miroku, pois aquela era a primeira vez que ela ouvia aquele tom vindo do amigo. Era sério e... Sombrio.

- Você é a errada aqui. – ele repetiu usando o mesmo tom. - E não é justo que fiquemos no meio da sua briga com Inuyasha.

Kagome deu um passo para trás fugindo da proteção que o guarda-chuva estava lhe dando e sentiu novamente longas gotas escorrendo por seu rosto, mas essas eram quentes. Olhou para o céu, a chuva ainda caía, não fazia sentido sentir aquele liquido quente, até que percebeu. Aquilo em seu rosto não era chuva, eram lágrimas. Levou a mão até o rosto e tocou delicadamente com um de seus dedos o caminho que as lágrimas estavam fazendo. Olhou para a mão como se pudesse ver alguma coisa ali, algum sinal de que realmente estava chorando, mas viu apenas o reflexo fraco que a chuva fazia ao encontrar todas as partes do seu corpo.

Ela encarou Sango e Miroku e uma angustia que ela nunca sentira na vida se apossou de cada parte do seu corpo. Ali estava o motivo de não poder se relacionar com humanos, ela não era um deles, as coisas não eram tão simples para ela como era para os outros. Desde o começo ela sabia que estava errado, que ela não poderia se apegar a qualquer pessoa que fosse, mas era tão difícil. Kagome nunca tivera uma família ou amigos, sempre vivera em função dos anjos, o mundo que ela conhecia era aquele visto pelos olhos de um anjo. E pela primeira vez ela estava enxergando por seus próprios olhos, ela estava experimentando o mundo por conta própria e podia perceber tudo o que estava perdendo graças à sua missão, graças à ter nascido uma coisa e não um humano.

E nesse momento algo explodiu dentro de Kagome. Era isso. Era sobre isso que Sesshoumaru e Myouga estavam lhe falando, toda a história de pensar por conta própria, sobre viver a vida sem aquelas regras estúpidas e antigas. Ela estava experimentando a sensação de ser livre e Deus! Como ela estava gostando. Um segundo depois a euforia deu espaço para a dúvida: Será que ela poderia mesmo? Será que não era uma loucura tentar se livrar de todas aquelas crenças que estavam enraizadas dentro dela por tantos anos? Ela fora ensinada a não confiar em humanos mais do que em yokais, embora nunca tivesse entendido isso. E as palavras de Sesshoumaru ecoaram em sua mente "Eu já vivi muitos anos para saber que seus queridos humanos não são seres perfeitos como você os idealiza" como se ele usasse um megafone para repeti-las.

- Eu já disse que ela está errada. – sussurrou Sango.

Kagome piscou algumas vezes, saindo de seus devaneios. Olhou para os dois parados à sua frente, eles não a encaravam como se esperassem alguma resposta, mas não pareciam dispostos a se mexer, Kagome forçou-se a falar algo, mas seus lábios só conseguiram dizer em um tom baixo e sincero:

- Eu sinto muito por tudo isso.

- Nós também. – respondeu imediatamente Miroku.

- Não, eu realmente, realmente sinto muito. – disse Kagome pela primeira vez usando um tom desesperado. Ela estava desesperada para ser entendida.

Os três ficaram em silêncio, apenas ouvindo o som da chuva batendo contra o material plástico do guarda-chuva. Kagome não era capaz de se enxergar, mas tinha plena certeza que sua aparência naquele momento era a mais miserável possível.

- Você acha que consegue chegar à sua casa?

E Kagome sentiu seus músculos relaxarem, o tom de voz de Miroku havia voltado ao normal. Ela curvou os lábios em algo que pensou se assemelhar a um sorriso, mesmo sem mostrar os dentes.

- Obrigada.

Embora a voz de Miroku não demonstrasse mais aquela personalidade que Kagome desconhecia, ele ainda permanecia com o olhar de censura e suas feições estavam fechadas.

- Isso tudo está muito errado. – ele disse. – Mas eu não acho que esse seja o momento para resolvermos tudo.

- Concordo. – disse Sango fracamente. – Falta ainda uma pessoa...

O rosto de Kagome fechou-se. E os dois notaram.

- Esse problema é de vocês. – disse Miroku sensatamente. – Eu disse que você é a errada, mas isso não significa que ele não seja também. O que ele fez foi imperdoável, ele sabe disso e é por isso que espero que possamos resolver isso como adultos um dia.

- Ele está falando a verdade! – completou Sango. – Quero dizer, sobre o Inuyasha.

A garota forçou-se a desmanchar a feição irritada e tentou usar meu melhor tom.

- Eu sinto muito, você está certo, esse é um problema nosso. Eu nunca deveria ter me envolvido com vocês, para começo de conversa.

- Não! – gritou Sango. – Não é isso, ele não disse isso, Kagome! Não coloque palavras na boca do Miroku.

- Essas são as minhas palavras, Sango. – respondeu Kagome.

- E mais uma vez você mostra ser a errada da história. – disse Miroku. – As coisas estão uma merda agora, mas eu acredito que um dia entenderemos o porquê disso tudo.

- Infelizmente, eu não consigo ver as coisas como você. – disse Kagome.

- Hm, normal. – disse Miroku abrindo um sorriso. – Eu sou muito inteligente, é difícil para os outros me acompanharem.

Sango arqueou a sobrancelha e deu um leve tapa no braço de Miroku.

- Seu estúpido, não é hora para piadas! Isso é sério...! – ela disse repreendendo, mas parou ao ouvir a gargalhada de Kagome.

Kagome sorria largamente e o som das suas gargalhadas era alto o bastante para cobrir o "tec-tec" vindo do guarda-chuva. Não que ele tivesse sido engraçado, mas algo no tom de voz de Miroku fez Kagome acreditar no que ele dizia, algo lhe disse que ele estava certo e um alivio simples e gostoso correu por seu corpo.

- Você está certo, Miroku. Ainda não nasceu alguém capaz de te acompanhar! – ela disse.

Um sorriso brotou nos lábios de Sango e Kagome teve a impressão de que a garota havia tido o mesmo sentimento correndo pelo corpo naquele momento. De algum modo, algum dia tudo se encaixaria e aquilo faria sentido. Kagome olhou para o céu e a nuvem escura que cobria o sol estava sendo levada lentamente para o lado, uma pálida e fraca luz iluminou seu rosto e ela sorriu, sentindo o calor do sol misturando-se as geladas gotas que caíam do céu.

- Vocês dois deveriam ir se trocar. – disse Kagome voltando seus olhos para os dois.

- Essa é uma ótima idéia. – disse Miroku sorrindo largamente e virando-se para Sango. – O que acha, Sangozinha? Essa é uma oportunidade maravilhosa.

- Concordo. – disse Sango puxando a mão que Miroku segurava de volta. – Uma oportunidade de eu ir para a minha casa e você ir para a sua.

Miroku fez uma espécie de biquinho.

- Meus planos incluíam uma única casa, um banho quente e toalhas limpas.

- E o meu inclui você acordando e vendo que tudo era um sonho. – retrucou Sango que depois olhou para Kagome, que olhava de maneira divertida a discussão. – E você, Kagome... Eu quero que pense na nossa conversa de ontem, ignorando meus gritos e todo o resto, claro, acho que fui um pouco dramática e exagerada, mas eu realmente acredito que você tem que lutar pelo o que quer e não apenas deixar que um bando de lendas velhas digam como você deve viver sua vida. É a sua vida, lembre-se disso.

- Certo. – disse Kagome com a única resposta que passou pela sua cabeça.

Sango olhou de maneira significativa para Miroku e puxou o guarda-chuva para si, sorrindo e sussurrando um "obrigada" de maneira cínica. Lançou um último olhar para Kagome, com aquele brilho de suplica reinando novamente e saiu andando. Miroku por sua vez olhou-a se afastando e deu um leve suspiro.

- Sabe, - disse Kagome olhando para a mesma direção que Miroku. – no primeiro dia que nos encontramos eu disse algo sobre ela não gostar de você. Eu estava errada.

- Hoje você está se mostrando errada muitas vezes. – disse Miroku em tom divertido. – A Sango não gosta de mim, nem nada.

Kagome deu de ombros.

- Eu apenas disse o que eu acho. Um dia você consegue.

- Na verdade, eu não sei quanto a isso. – disse Miroku. – Quero dizer, eu sei que ela não gosta de mim e é por isso mesmo que eu pretendo ir para Tókio ano que vem, sabe? Faculdade e essas coisas todas.

- E você não contou para ela ainda sobre isso, não é? – disse Kagome.

- Não tive oportunidade. – disse Miroku e pela primeira vez a garota o ouviu soltando uma risada nervosa. – É idiota, mas eu meio que estou esperando que ela peça para eu não ir.

Kagome ficou pensativa alguns minutos e respondeu:

- Para mim parece fazer bastante sentido. E acho que é um bom plano.

Algo que lembrava muito esperança brilhou nos olhos de Miroku, mas ele não demonstrou.

- Isso não vai acontecer.

- Tenho minhas duvidas. – disse Kagome sorrindo. – Na verdade, aposto todas as minhas fichas em vocês dois.

Dessa vez foi Miroku quem se tornou pensativo e então resmungar mais para si do que para Kagome:

- Penso em mesmo em relação a você.

Kagome que estava distraída olhando para as nuvens se movimentando no céu não ouviu as palavras do rapaz e só soltou um "hm?"que foi respondido com um "nada". Miroku virou-se para o céu também, a chuva ainda caía, mas era muito mais amena do que antes. Havia a possibilidade de irem para algum lugar coberto e quente, mas já estavam ali ensopados e Miroku parecia querer aproveitar a oportunidade de estarem a sós.

- Me desculpe por falar com você daquele jeito. – ele disse. – Mas depois de você subir com o Sesshoumaru rolou muito stress aqui em baixo.

- Tudo bem, você estava certo, eu estou fazendo você e a Sango passarem por uma situação bem chata.

- O Inuyasha passou dos limites.

- Yeah.

- Ele não tinha o direito... Eu nunca imaginei que ele poderia falar algo como aquilo.

- Bom, ele não é dos mais educados.

Miroku riu de leve.

- Você me imaginaria falando algo assim?

- Claro que não. – respondeu Kagome na mesma hora.

- Entenda, vê-lo insinuando que você é, bom, você é uma vadia causou a mesma surpresa em mim que causaria caso eu te chamasse disso.

- Obrigada por utilizar a palavra correta, eu estava entre vadia e piranha, mas acho que vadia se enquadra melhor mesmo, em todo caso, ainda não entendo a sua surpresa.

- Eu e o Inuyasha recebemos a mesma educação.

Kagome virou rapidamente o rosto para encarar Miroku, mas ele não fez o mesmo movimento. Na mesma hora, a garota pôde perceber que ele estava muito relutante em tocar naquele assunto e ela imaginou o porquê.

- Eu sinto muito.

Ele deu outro sorriso, que pareceu nervoso dessa vez. Dois em um dia, quase um recorde.

- Eu não quis dizer que recebemos a mesma educação em um orfanato, quero dizer, pelo o tom que você disse sentir eu imagino que saiba que o Inuyasha é órfão, mas isso não acontece comigo. Eu tenho uma família bem grande até.

- Estudaram juntos desde pequenos? – chutou Kagome.

- Ele foi deixado aos cuidados da minha família quando era mais novo.

- Foi deixado? Por quem? Pelos pais?

- Errado. Não consegue imaginar alguém para fazer isso?

Kagome mordeu de leve os lábios pensando nas possibilidades e então sentiu-se completamente estúpida por ainda estar pensando naquilo. Um único nome veio a mente e ela o verbalizou:

- Sesshoumaru.

- Você entendeu rápido. – disse Miroku. – Antes que você me pergunte, não, eu não sei o porquê de ter sido a minha família ou porque o Sesshoumaru fez isso.

- E o que Inuyasha diz sobre isso?

- Ele não se lembra.

- Quê?

- Ele não se lembra que o Sesshoumaru o deixou lá em casa, pra falar a verdade, ele não se lembra de nada de antes de ir lá pra casa ou de já ter vivido comigo. Eu não sei ao certo porque ele foi embora de casa pra viver em um orfanato, minha família continuou meio que cuidando dele lá, mas foi tudo muito estranho.

- Por que você está me contando isso? – perguntou Kagome. – Eu sei que você não está tentando fazer com que eu tenha pena dele...

- Deu para perceber que quero algo em troca?

- Certamente. Só não sei se eu preciso mesmo dar algo em troca de uma informação que eu não pedi.

Miroku riu.

- Garanto que não será um problema para você.

- Hm, vamos ver se posso te ajudar.

Miroku ficou em silêncio por alguns minutos.

- Eu queria saber que tipo de poderes vocês anjos têm.

Kagome soltou um "argh" ao ouvir a palavra "anjo" saindo da boca de Miroku. Ela não estava acostumada com aquilo, o rapaz pareceu não perceber o som e se percebeu fez questão de ignorar.

- Essa é uma pergunta um tanto quanto ampla, se é que você me entende. Eu não posso falar sobre isso.

- Não?

Kagome balançou a cabeça negativamente.

- Não com você. Você é melhor amigo do Inuyasha, entende?

- Se eu for mais especifico você me responde?

- Talvez. Não sei o que você está tentando descobrir.

- Vocês têm algum tipo de poder que apaga memórias?

- Você acha que nós fizemos isso com o Inuyasha?

- Vocês não, mas uma de vocês.

- Desculpe, Miroku, mas isso não faz sentido.

- Você não respondeu a minha pergunta.

A garota pareceu pensativa.

- Sendo sincera com você, eu não sei. Eu sou muito, muito nova em relação às outras, pra você ter idéia eu sou como um bebê recém nascido, então é muito difícil pra mim te dizer do que somos capazes, uma vez que cada uma de nós desenvolve habilidades especiais. No meu caso, o máximo que eu consigo fazer é deixar o yokai confuso, como se não soubesse onde está ou que é, você sabe, isso ajuda na hora de matá-los, mas se eu posso fazer algo como isso não me parece impossível que alguma das mais antigas seja capaz de manipular as memórias de alguém. Por que você acha que nós estamos ligadas à isso?

- Vocês não, mas uma de vocês. – repetiu Miroku veemente, como se fizesse questão de separá-la do problema. – Eu não me lembro muito dessa noite, porque tudo aconteceu de madrugada e eu só acordei por causa do barulho da minha casa. Todo mundo estava muito agitado, andando pra cima e pra baixo e isso era estranho, porque minha família tinha o costume de ir dormir muito cedo, fazia parte da educação rígida que nos davam e quando me viram acordado, logo me levaram de volta para o quarto e me mandaram dormir. Eu era muito novo, deveria ter uns 6/7 anos, então voltar a dormir não era um problema, eu obedeci imediatamente. Só que eu me lembro. Me lembro de por trás da figura da minha mãe parada na porta do meu quarto ter visto uma pessoa que eu não conhecia. Uma mulher.

- Está querendo dizer...

- Eu levei muito tempo para descobrir de onde você me era familiar. Eu nunca comentei com ninguém ou coisa assim, mas eu tinha a sensação de que já tinha te visto em outro lugar. E ainda tinha a Sango o tempo todo nos dizendo que havia algo de errado com você e sua suposta humanidade. Na hora eu não liguei as coisas, mas após conversar com o Sesshoumaru a imagem daquela mulher me veio à mente. Kagome, ela era muito parecida com você.

- Nós não somos todas iguais. – explicou Kagome pacientemente.

- Eu não acho que sejam, mas aposto que têm semelhanças. Existe algo em torno de você, não sei, uma espécie de aura ou sei lá o que, eu não entendo dessas coisas... Mas eu senti a mesma coisa em relação à ela, era como se ela fosse a pessoa mais maravilhosa do mundo, a mais pura e perto dela nada de mal poderia me acontecer.

- Uou. Você pensa tudo isso de mim?

- Hm, quase isso. – disse Miroku rindo. – Eu diria que é com menos intensidade. O que me faz pensar no que você acabou de falar, ela é provavelmente bem mais velha do que você, por isso o que eu senti em relação à ela era tão forte.

- Tudo isso faz bastante sentido, mas você está esquecendo de um detalhe muito importante: nós não afetamos humanos.

- Meu sangue tem uma história de espiritualidade ou qualquer besteira do tipo, têm muitos monges na minha família. Se fossem outras épocas, eu precisaria ser um. Vai ver isso significa alguma coisa.

- Monges? Essa é nova para mim. Eu nunca me encontrei com monges, então, não sei. Pode ser... – disse Kagome que momentaneamente se tornou pensativa.

Miroku a encarou curioso, seus olhos brilhavam com a oportunidade de estar perto de uma resposta. Ele parecia ter pensado nisso por muitos anos.

- Eu sei uma maneira de descobrir se ela era um anjo ou não. – disse Kagome.

- Como?

- Eu preciso que você me passe o máximo de informações sobre a aparência dessa mulher. O máximo que você conseguir.

- Certo. – disse Miroku pensando no assunto. – O cabelo dela era comprido, bem comprido e liso. Era preto. O olho, ahn, não sei, era algum tom escuro, diferentemente do seu. Ela era mais alta do que você, mas eu não acredito que seja muito mais. Comparando com a altura da minha mãe, ela parecia ter uns 5 ou 7 cm a mais do que você. Eu não me lembro do rosto, mas como eu disse, ela era uma mulher, quando a vi não tive a sensação de ver uma criança ou uma jovem.

Um sorriso fraco formou-se no rosto de Kagome. Ela não parecia estar feliz em desapontar Miroku.

- Sinto muito, Miroku. – ela disse. – Essas descrições não batem. Você disse que algumas de nós têm semelhanças, não é? Você estava certo quanto à isso, existe uma regra quanto a nós: a altura e as feições. A diferença de altura varia muito pouco, coisa de 2cm no máximo. E as feições, bom, você deixou claro de que ela não te lembrava uma jovem, então essa é a prova final. Nós não envelhecemos. Eu vou ser assim pra sempre e é assim com todas as outras.

Miroku pareceu receber a noticia melhor do que Kagome esperava, pois ele abriu um sorriso, um tanto quanto aliviado.

- Se você diz que anjos não têm nada a ver com isso, eu fico mais tranqüilo. – disse. – Eu estava preocupado com isso, estive pensando na possibilidade de, sei lá, estarem planejando algo estranho com o Inuyasha. No fim das contas, ele é um meio-yokai, né? Não existem muitos dele por ai.

E pela terceira vez naquele dia, Kagome sentiu o soco em seu estomago. Mas dessa vez ele foi mais forte e pesado do que todas as outras vezes e ela sentiu como se os pães que comera mais cedo fossem voltar. Ela forçou um sorriso.

- É, realmente não existem.

- Isso é curioso. – disse Miroku. – Imagino se você saberia me dizer de onde hanyous vêm.

- Provavelmente você, como humano, estaria mais apto a me disser sobre isso. Embora eu seja um anjo, meu conhecimento sobre hanyous é muito limitado. – disse Kagome.

- Minha teoria é que hanyous tenham uma falha genética, por isso existem poucos. É algo raro, mas acontece.

- Falha genética?

- É. Somente genética explica como dois yokais podem gerar uma criança com genes humanos.

Kagome arqueou a sobrancelha de maneira surpresa e Miroku percebeu aquela reação instantaneamente.

- O quê? – ele disse perplexo. – Está tentando me dizer que pra você hanyous vieram de humanos e yokais?

- Hanyous: meio humanos, meio yokais. Como pode existir algo assim sem que exista uma relação entre yokais e humanos? Não fale como se isso não existisse, existem milhares de casais assim por ai!

- Você está falando sério sobre isso, Kagome?

O tom de Miroku continuava perplexo, o que fez a garota ter a estranha sensação de que novamente não sabia de algo muito importante. Ao não obter respostas, o moreno continuou:

- Humanos não podem procriar com yokais, Kagome. Eu pensei que de todas as pessoas do mundo, você iria ser a única que eu não precisaria explicar isso!

- É claro que podem! – respondeu Kagome sentindo que soava como uma criança. – O Inuyasha mesmo é a prova disso!

- Bem, talvez você tenha razão, afinal nós não conhecemos a mãe dele, mas na maioria dos casos isso não acontece. – disse Miroku. – Você mesma apontou para o fato de existirem milhares de casais humanos/yokais, então como explica a existência de uma dúzia de hanyous no mundo?

- Crianças são pestes, as pessoas não querem mais ter filhos. – disse Kagome.

Miroku riu.

- Não funciona assim, como eu disse, é curioso. Principalmente por perceber agora que ninguém se preocupou em descobrir de verdade o que eles são. Os humanos, de maneira geral, não sabem diferenciar um yokai de um hanyou, então é provável que a maioria das pessoas nem saibam o que ele é. Os yokais parecem sentir algum tipo de desprezo por hanyous, acho que isso os impede de procurar as respostas. E, segundo você, nem mesmo os anjos tem muito conhecimento sobre hanyous.

- Você parece bastante preocupado com esse assunto.

- Você não estaria? – disse Miroku. – O Inuyasha não fala sobre isso, mas eu sei que ele gostaria de saber o que ele realmente é.

Kagome não respondeu. Miroku entendeu aquele silêncio como o fim da conversa, sorriu amigavelmente para a garota e disse:

- Imagino que não iremos conversar tão em breve, estar ao lado do Inuyasha deve complicar nossas possíveis conversas, então até um outro dia. Obrigada pelas respostas e eu sei que não preciso pedir, mas é apenas por desencarno de consciência: os assuntos que tratamos aqui...

- Ficarão só entre nós, - disse Kagome sorrindo. – Não se preocupe.

Ele sorriu e acenou para Kagome, enquanto se afastava, ela não esperou ele sumir no horizonte para girar nos calcanhares e correr em direção à sua casa. Aquele dia já tinha se tornado um pesadelo e a chance de encontrar qualquer outra pessoa com alguma notícia bombástica era demais para a cabeça dela. Abriu a porta da frente, subiu as escadas e foi direto para o banheiro, ligou o chuveiro e depois de tirar as roupas ensopada entrou dentro na banheira e agradeceu mentalmente a existência de eletricidade e água quente encanada.

Pelo resto do dia a mente de Kagome trabalhou, tentando juntar todas as informações e todas as conclusões que ela havia chegado e transformando a uma única e possível solução para tudo aquilo. Mas sempre existia um buraco. Uma peça faltando que não deixava com que ela chegasse perto da resposta. Quando o relógio marcou 16:00 horas Kagome já não estava mais acordada e só acordou no dia seguinte quando o despertador a trouxe de volta.


Inuyasha ignorou a dor na cabeça e continuou andando. O barulho, mesmo baixo, das pessoas no pátio era como marteladas no seu cérebro. "Desgraçado"pensou ao se lembrar que só estava naquela estado graças à Sesshoumaru. Sua cabeça latejava devido a um corte que tinha ganhado na manhã anterior, quando fora arremessado contra uma máquina de refrigerantes e tinha a sensação de que seu ombro ficara deslocado com o mau jeito em que caíra. Ainda era o começo da semana, mas parecia que um mês se passara desde domingo. Ele correu os olhos pelas outras pessoas e a avistou, de alguma forma ele sempre a achava, mesmo sendo tão pequena e estando nos lugares mais improváveis. Ela estava parada ao lado de Houjo e não lembrava em nada à pessoa que encontrara ontem durante a chuva.

- Ela parece bem.

Inuyasha olhou para o lado e percebeu a presença de Sango, que sorria.

- Do que você está falando? – perguntou.

- A Kagome. – disse Sango. – Ela parece bem.

- É claro que ela está bem, por que não estaria? – retrucou Inuyasha impaciente. – Não foi ela que voou pelo pátio.

Sango deu de ombros.

- Você mereceu.

Ele não respondeu.

Inuyasha sentiu uma pontada de irritação nascer dentro de si, irritação que só aparecia quando ouvia a risada de Kagome. Era o seu instinto gritando, dizendo que seu dever era caminhar em direção à Houjo e quebrar todos os dentes da sua boca, balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos da sua mente.

- Eu odeio isso, Sango.

- Hm?

- Essa história de instinto. Eu não controlo mais meus pensamentos, nem minhas ações. É como se outra pessoa existisse dentro de mim desde que ela apareceu e eu odeio isso. Nós já conversamos sobre isso ontem, eu agi errado, mas no fundo eu ainda acho que ela mereceu. Desculpe, mas não consigo demonstrar compaixão por uma pessoa que está me fazendo perder a cabeça.

- Relaxa, amigão. Se você ficar maluco eu compro uma camisa de força bem bonita para você.

Inuyasha sentiu um braço passar ao redor do seu pescoço e se apoiar em seus ombros.

- Quanta consideração.

Sango começou a rir.

- Não se preocupe, Inuyasha. Aposto que o Miroku ganha uma camisa de força antes de você.

- Isso faz parte de algum plano, Sango? – disse Miroku maliciosamente.

- Ahan. O de te mandar para um manicômio. – disse Sango revirando os olhos.

- Vocês sabem mesmo como animar um cara que está ficando louco. – resmungou Inuyasha.

- Nossa função aqui é essa.

- Vem, vamos para a sala. – disse Sango.

Os três caminharam em direção à sala e pouco depois o sinal bateu, sinalizando que as aulas começariam. A mudança de lugar que Myouga havia feito na sala parecia ter sido aceita por todos os professores, pois ninguém mudou Kagome de lugar. Para alivio não só dela, como de Inuyasha.

Sango e Miroku conversavam o tempo todo com o hanyou, ele havia pedido isso no dia anterior. Inuyasha havia aceitado que não poderia lidar com aquela história de instinto sozinho e após a confusão que suas ações haviam gerado estava decidido a não cometer nenhum outro erro idiota. E a dor em sua cabeça era um ótimo lembrete. Ele precisava estar sempre ocupado na presença de Kagome e essa missão estava nas mãos dos dois amigos, afinal, todos eles passavam muito tempo juntos trancafiados dentro daquela sala e o fato de Kagome ter-se tornado amigo de Houjo tão rápido não estava facilitando em nada as coisas. Ela conversava com o rapaz o dia inteiro e sempre que sua voz tornava-se mais alta ou seu riso ecoava, Inuyasha segurava-se na mesa para não levantar e começar outro escândalo.

Ao contrário do dia anterior, onde por mais que ele olhasse na direção da garota o máximo que recebia era desprezo, hoje os olhos dos dois encontravam-se; os dela demonstravam ódio e os dele irritação. Sempre que isso acontecia, Sango entrava em ação e o distraia. Ao longo do dia os três receberam muitas broncas, mas havia dado certo. Por mais que o sangue fervesse e sua mente arquitetasse planos malignos para matar Houjo de formas muito criativas Inuyasha agira normalmente o tempo todo. Pelo menos, aos olhos das outras pessoas.

Com a possibilidade de poderem lidar com aquela situação, Inuyasha, Miroku e Sango continuaram com o plano durante o resto da semana. Era como se a turbulenta segunda-feira fizesse parte de um outro universo paralelo, pois a semana se arrastou tranqüila e até mesmo, tediosamente. Eventualmente Miroku e Sango conversavam com Kagome sobre as aulas ou algum professor em especial, a garota havia notado o plano dos três e incentiva-os sempre que tinha oportunidade. A possibilidade de ouvir novamente as palavras de Inuyasha durante algum ataque a irritavam de tal maneira que ela sentia que qualquer ajuda ao rapaz era bem vinda, até mesmo uma em que seus amigos se sacrificavam durantes as aulas. Seu ódio estava longe de sumir, mas fazia tempo que sua mente não se focava no hanyou, ela tinha seus próprios demônios a encarar.

Era a última aula de sexta-feira, Inuyasha usava uma de suas técnicas favoritas para fugir de Kagome: dormir. Ele não havia falado para ninguém, mas sabia que a idéia de ter Sango e Miroku distraindo-o não duraria muito tempo, nos primeiros dois dias funcionou perfeitamente bem, mas depois passou a irritar. Não uma irritação consciente, ele achava que era o tal do instinto reclamando pelo fato dos dois não o deixarem agir. Inuyasha, às vezes, tinha a sensação de que seu instinto era uma pessoa e uma das mais temperamentais, pois sempre respondia às menores mudanças. E nunca positivamente. Além de tudo, as provas finais estavam chegando e ele não poderia continuar a exigir a atenção dos dois. Estava começando a ficar sem escolhas e quando chegava à essa conclusão deitava e dormia, como agora.

Da primeira carteira Kagome olhou para trás e viu Inuyasha dormindo. Ele vinha fazendo bastante isso durante a semana, mesmo sendo em má hora, era um bom sinal. Inuyasha não conseguia dormir graças ao cheiro de Kagome e se agora ele podia, significava que estava começando a suportar os efeitos dos instintos. Ao menos, era isso que ela pensava. Voltou sua atenção para aula, mas percebeu que ela acabara, pois todos guardavam os materiais.

- Arashi, se importa em esperar um pouco? Eu preciso conversar com você. – disse Houjo.

- Hm, sem problemas.

Kagome guardou seu material, mas continuou sentada vendo os alunos saírem lentamente um por um. Houjo a imitou e acenou para Sango quando ela passou, a garota lançou um sorriso em resposta. O rapaz olhou para a sala, parecendo nervoso e Kagome percebeu que ele ignorara Inuyasha dormindo no fundo da sala quando começou a falar.

As pessoas costumavam evitar acordar Inuyasha, ele era conhecido por não ter um humor muito agradável ao acordar e ultimamente a fama havia se intensificado.

- Então, Arashi, ahn. Você parece bem nesses últimos dias.

Kagome desviou os olhos do fundo da sala, onde Inuyasha dormia e encarou Houjo, de maneira curiosa. Ele percebeu que ela não havia entendido o seu comentário.

- Você não faltou nenhuma vez essa semana e desde que você chegou você falta por problemas de saúde. – ele explicou.

- Ah! Isso. – disse Kagome em falso tom de lembrança. Seus problemas de saúde eram uma desculpa, bem ruim por sinal. – É, digamos que tenho me sentido bem.

- Eu fico feliz com isso.

- Hm, é, acho que eu também.

Os dois ficaram em silêncio e Kagome olhou novamente para o fundo da sala, vendo se Inuyasha continuava dormindo. Ele continuava. Houjo seguiu seus olhos e deu um sorriso nervoso:

- Não se preocupe, o sono dele é muito pesado. Nossa conversa não irá acordá-lo, eu espero.

- Você acha, é?

- Bom, se estiver preocupada com isso podemos ir para outro lugar. O pátio dos fundos quem sabe.

- Acho que está tudo bem continuar aqui, não é como se fossemos gritar, não é?

Houjo sorriu nervosamente.

- Eu espero que você não grite.

Kagome soltou uma risada abafada imaginando algo que Houjo pudesse fazer que seria capaz de faze-la gritar. Ela não notou, mas sua risada havia acordado Inuyasha, que abriu um dos olhos e percebeu a sala vazia, mas parou de se mexer ao ouvir a voz de Houjo.

- Estou falando sério, seria traumatizante se você gritasse.

- Juro não gritar, isso ajuda? – disse Kagome em tom divertido.

Inuyasha fechou com força as mãos. Aquilo só poderia ser brincadeira, a situação que ele evitara a semana inteira estava ali, provocando-a. Houjo e Kagome conversando supostamente sozinhos depois da aula e ele ali, ouvindo tudo. Sua razão mandou se levantar e ir embora antes que pudesse ouvir qualquer coisa que acordasse o instinto, mas já era tarde. O instinto o mandava continuar deitado ouvindo a conversa, ele queria ouvir o que eles conversavam. Ele queria saber o motivo de estarem sozinho. Ele precisava. E como sempre, ele ignorou a razão e continuou lá deitado, se odiando por ser tão patético e incapaz.

- Ajuda. – disse Houjo.

- Então, o que você precisa me dizer?

A voz de Kagome soava leve, ao contrário da de Houjo. Ele sempre agia de maneira nervosa na presença da garota, mas hoje estava ele estava especialmente travado. O começo de suas frases soava baixo de mais, dando a impressão que o resto era gritado.

- Antes eu preciso saber...

Kagome arqueou a sobrancelha.

- Saber? Saber o quê?

- Se você está bem, tipo, de verdade.

- Você está preocupado com a minha saúde?

- Também, mas queria saber de um modo geral. Você parece sempre preocupada com alguma coisa, no intervalo está sempre olhando para os lados como se esperasse que algo aparecesse e, não sei, desde segunda eu tenho a sensação de que você está magoada com alguma coisa.

Aquela era a primeira frase que Houjo dizia sem um tom estranho, ele usava seu habitual tom de voz, só que com uma nota de preocupação que se fazia presente, ocupando o lugar que antes era do nervosismo. Kagome sorriu.

- Você é bem observador.

- Só quando vale a pena. – disse Houjo.

Inuyasha sentiu algo nascer dentro de si, era aquele monstro que ele lutava contra. Sua vontade foi correr até os dois e aproveitar a altura da sala para fazer que a morte de Houjo era um acidente. Ele tinha a história pronta, o rapaz ficou depois da sala e então, jogou-se pela janela se matando. Seria simples, ninguém desconfiaria disso. Mordeu o lábio inferior se forçando a espantar aqueles pensamentos e a voz de Kagome o ajudou nessa missão, pois sua atenção se voltou para o que ela dizia.

- Eu estou preocupada com muitas coisas. Eu espero que muitas coisas apareçam. E muitas coisas me magoaram. – disse a garota.

- E existe alguma forma de eu te ajudar?

Kagome pareceu pensar alguns minutos e então disse:

- Você acha que eu sou, bem... Uma vadia?

Houjo abriu a boca em uma expressão surpresa, que logo deu lugar para um de completa confusão.

- Você está falando sério sobre isso?

Kagome apenas acenou positivamente com a cabeça. Inuyasha acompanhava a conversa, enquanto lutava internamente com seu próprio instinto. Houjo e Kagome só estavam tendo aquela conversa por causa do comentário que ele fizera, então era verdade o que Sango dissera. Kagome levaria aquilo sério. Ele nunca acreditou que ela se questionaria sobre aquelas palavras, mas Sango explicou que Kagome como mulher se ofenderia mais do que ele jamais imaginaria.

- De onde você tirou isso? – perguntou Houjo ainda confuso.

Era agora. Kagome iria dizer seu nome, iria lembrá-lo daquele momento. Ele não gostava da garota, não estava sequer perto de amá-la, mas sentia-se culpado por aquilo. E a idéia daquele cara saber sobre seu ataque de ciúmes não lhe agradava em nada. Já era ruim o suficiente lidar com a situação do jeito que ela estava. Mas para sua surpresa seu nome não foi citado, ou melhor, a história de segunda não passou nem perto das palavras que Kagome dissera.

- Eu sou incapaz de amar. – ela disse muito baixo.

Houjo levou algum tempo para processar a informação que havia recebido. Ele olhou para Kagome na esperança de encontrar algum traço que mostrasse que ela estava brincando com ele, mas a expressão dela era de uma profunda angústia. Engolindo seus próprios sentimentos, ele disse:

- Está tudo bem quanto a isso, Arashi. Você não ter se apaixonado ainda não te torna uma vadia e aposto que também não significa que você é incapaz de amar.

Kagome soltou um sorriso triste.

- Não, você não entendeu. Eu realmente sou incapaz de amar.

- Todos podem amar, você só não achou a pessoa certa. – retrucou Houjo com a voz levemente amargurada.

- Ai é que está o problema, eu não sou todos. – disse Kagome. – Existem muitos segredos sobre mim...

- Segredos? – repetiu Houjo.

- Sim, pequenas coisas que me fazem diferente dos outros.

- Arashi, isso não é um segredo, eu sempre soube que você era diferente.

Kagome sabia que eles não estavam falando da mesma coisa. Houjo não sabia nada sobre ela ser um anjo e nem poderia.

- Sobre a sua pergunta, não. Eu não acho que você é uma vadia e nem se você quisesse você seria uma. Como acabamos de dizer, você é diferente. E a meu ver, não é uma diferença negativa em aspecto nenhum.

A garota sorriu.

- Obrigada.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos.

- Desculpe, Houjo! Você precisava me dizer alguma coisa, não era? – disse Kagome parecendo se lembrar do motivo de estar ali.

Houjo balançou a cabeça negativamente.

- Não era nada, não se preocupe.

Kagome olhou de maneira curiosa e ele sorriu em volta. Um sorriso simples e sincero. Houjo caminhou até a garota e levou sua mão direita até a bochecha dela, inclinou o rosto em direção ao dela e beijou-lhe a testa.

- Você não deve se preocupar nunca com coisas como essa. – ele disse bondosamente. – Você é a pessoa mais pura que eu conheço, Kagome. Lembre-se disso.

Kagome sentiu seu rosto queimar. Era a primeira vez que Houjo usava seu nome e aquela situação era totalmente surpresa. Porém, antes que ela pudesse processar o que estava acontecendo, ela viu uma sombra de aproximar. "Merda" pensou ao se lembrar que Inuyasha ainda estava na sala e que provavelmente ele havia acordado.

Houjo deu um passo para o lado, olhando surpreso para Inuyasha que caminhava batendo os pés em direção aos dois. O hanyou apontou para Houjo e disse furiosamente:

- Você! Pelo amor de Deus, não entre no meu caminho, eu não estou respondendo por mim. E você, - e Inuyasha agarrou Kagome pelo braço. – vem comigo.

Houjo pareceu querer interferir naquilo, mas Kagome sabia que não era a idéia mais esperta que ele poderia ter naquele momento. Ela virou-se rapidamente para o rapaz e disse enquanto era arrastava para fora da sala:

- Está tudo bem, Houjo. Desculpe por isso, depois conversamos.

O rapaz só pode ouvir a voz de Inuyasha berrando atrás da garota: "Não haverá um depois se depender de mim". Houjo olhou a cena sem entender absolutamente nada e suspirou de maneira deprimida.

- Isso não está nem perto do que eu imaginei a minha declaração.


- Não fale nada! – resmungou Inuyasha enquanto arrastava Kagome pelos corredores da escola. – Eu sei que se você falar vai me obrigar a parar e eu pretendo usar desse ódio que explodiu em mim para resolver as coisas!

- Eu quero que você me solte e nunca mais ouse encostar em mim.

Kagome usou aquele tom de ordem que fazia Inuyasha acreditar que o mundo inteiro estava girando em outra rota e que ele continuava na rota antiga. Seus passos diminuíram o ritmo, mas ele não parou.

- Eu mandei você me soltar. – ela repetiu tão firmemente quanto antes.

Inuyasha pareceu usar toda a sua boa vontade para dizer aquelas palavras, porque elas saíram baixas e amarguradas.

- Por favor, está bem? Colabore comigo só por enquanto.

Na mesma hora ele sentiu o resultado, pois o mundo voltara a girar na mesma direção que ele. Agradeceu mentalmente pela ajuda e voltou a arrastar Kagome na mesma velocidade que antes.

- Você poderia me soltar? – a voz de Kagome não era autoritária, mais ainda era firme.

- Não. Algo dentro de mim diz que se eu te soltar você vai fugir de mim. – respondeu Inuyasha.

- Olha, parece que você tem vidente dentro da sua cabeça. Muito útil. – ironizou a garota.

- Não faça piadas sobre isso, está bem? - resmungou Inuyasha irritado. – Não é a sua cabeça que está enlouquecendo!

Kagome não respondeu e se deixou levar, embora ser tocada por Inuyasha causasse um ódio enorme nela. Ele a levou até o pátio traseiro e mandou-a se sentar em um dos bancos, mas ela obviamente não obedeceu.

- O que te faz achar que eu irei obedece-lo? – ela disse com os braços cruzados.

Inuyasha revirou os olhos.

- Se quer ficar em pé, fique então, inferno.

- Ficarei. – retrucou Kagome cerrando os olhos. – Agora posso saber o que quer comigo? Talvez perguntar quanto eu cobro por yokai? Quem sabe alguma teoria sobre mim?

- É, exatamente isso. – disse Inuyasha.

Dessa vez Kagome arregalou os olhos e abriu a boca para falar, mas Inuyasha foi mais rápido.

- Não, quero dizer, é sobre o que eu falei. Aquilo sobre você sair com vários yokais... Isso foi estúpido.

- Sim.

- E impensado.

- Sim.

- E mentiroso.

- Ah, você acha?

- Eu estou tentando me redimir, poderia facilitar as coisas para mim?

- Eu deveria? Você não facilitou em nada as coisas para mim.

- Eu sei, ok? É por isso que estou aqui fazendo papel de idiota. Como eu disse, estou aproveitando que não estou raciocinando direito graças a essa merda de instinto e estou tentando, bem... Me redimir.

Kagome voltou a cerrar os olhos.

- Que ótimo. Muito honrado da sua pessoa dizer que só está tentando se redimir porque não está raciocinando direito.

- Não! – retrucou Inuyasha balançando a cabeça negativamente. – Não foi isso que eu quis dizer.

- Mas foi o que você disse.

- Está vendo? Esse é exatamente o problema que temos aqui. Eu digo coisas que não quero dizer, coisas que não acho na verdade.

- Espera que isso soe como uma forma de retenção?

- Não soou?

- Não, só fez com que você parecesse mais idiota do que é. Não estou entendendo aonde você quer chegar com tudo isso, eu duvido que queira se redimir comigo pelo simples fato de ter percebido quão imbecil foi o que disse.

Inuyasha pareceu chupar um limão, pois sua cara se fechou uma careta.

- Eu preciso da sua ajuda.

- Sabia que você estava querendo algo!

- Olha, eu não gosto de você e você sabe disso. E sei que o sentimento é recíproco, sei também que pisei na bola e se eu pudesse voltar no tempo, não teria dito nada daquilo e isso não tem nada a ver com o fato de eu precisar de você.

- É? – a voz de Kagome soou como se fizesse pouco caso do que ele estava falando.

Inuyasha revirou os olhos.

- Me desculpe, está bem? É isso que você está querendo ouvir, algo que me diz que só se eu usar essa palavra você vai me ajudar, então, me desculpe.

- Parece que minha piadinha sobre ter um vidente dentro da cabeça poderá ser usada de novo.

Kagome olhou para Inuyasha e a expressão dele era de revolta, em estar naquela situação. Ela deu um singelo sorriu e sentou-se, sabendo que deveria apenas virar-se e ir embora.

- Muito bem, no que é que eu posso ajudá-lo? – disse.

Inuyasha pareceu travar uma luta interna em dizer ou não aquelas palavras, pois ele demorou um pouco mais do que Kagome esperava para responder.

- Eu não agüento mais essa história de instinto. Eu acho que vou ficar louco.

- O problema é esse? – disse Kagome decepcionada.

- Você fala porque não é você que está passando por isso. Eu não controlo mais as minhas ações, meus pensamentos, minhas vontades, não quando você está por perto. Isso sem contar essa coisa de simplesmente saber o que você quer ou vai fazer, é doente!

- Isso não existe, Inuyasha. Você não pode saber essas coisas, você apenas conclui o óbvio agora pouco, sobre eu ir embora e sobre querer ouvir desculpas.

- Não, você não está entendendo. Eu tinha a certeza absoluta dessas coisas, eu simplesmente sabia. Eu sabia também que você me bateria na segunda-feira e sabia que você impediria Houjo de se meter entre nós, por isso levantei e fui até você.

- Já disse, isso não existe.

- Está me dizendo então que você não pode me ajudar?

- Eu não posso te ajudar em algo que não existe, Inuyasha. Sinto muito.

- Certo, você acha que isso não existe, então com o tempo eu vou te provar isso. Agora preciso saber, vai me ajudar no resto?

Inuyasha tinha uma urgência na voz que Kagome nunca ouvira, era como se ele realmente achasse que iria ficar louco a qualquer momento e ela fosse a única chance dele se manter são. Mais uma vez Kagome sabia que aquilo estava errado. "Você não pode ajudar quem vai matar", essa frase ecoava em sua mente, não com a sua voz, mas a de Kikyou.

- Por favor. – disse Inuyasha.

Kagome fechou os olhos pesadamente, sabendo que quando pensasse na situação com calma se arrependeria disso.

- Está bem, eu vou te ajudar.

- Eu sabia que precisava usar "por favor".

Inuyasha olhou para baixo e encarou Kagome, fazendo-a notar que seu olhar voltara a ser como era. Um perigoso mar dourado.


Olá! Como estão? :)

Aqui está mais um capítulo e dessa vez está enorme! *orgulhosa de si mesma* Esse capítulo eu basicamente escrevi em 2 dias, o que é pouco tempo, já que são 23 páginas no word! Ainda faltam 2 páginas pra chegar na minha meta de 25, mas eu chego lá! XD Acho que esse capítulo consegue esclarecer muitas coisas! :D

H. Quinzel: Olá querida! Obrigada por continuar lendo minha fic ;-; *abraça* Fico feliz que ainda esteja gostando, espero que esse capítudo te agrade! :3

Bia Yang: Olá! :D Opa, então eu consegui dar a impressão que o Sesshoumaru estava afim da Kagome? Ótimo! A idéia é essa mesmo, mas não se preocupe, acha que você não ficará confusa por muito tempo, logo eu resolvo isso! XD Eu irei continuar, pode deixar :3 E ah! Isso me lembra, obrigada pela review na minha outra fic! *-*

É só isso, preciso começar a escrever outro capítulo x_x Esse eu terminei as 7:30 da manhã de hoje, estou me esforçando para escrever no prazo ;-; Então, trago mais semana que vem! :)

Obrigada a quem visita e acompanha s2 Beijos :*