AVISO! AVISO! AVISO! AVISO! AVISO! AVISO! AVISO!
Meninas, encontrei um erro na minha fic! :\ Eu não sei se vocês notaram, é até provável que tenha passado desapercebido por todos, eu mesma já li a fic alguns zilhões de vezes só notei semana passada (eu releio cada capítulo pelo menos 8 vezes antes dele vir pro site, depois leio mais uma vez no site e depois mais algumas quando o capítulo está on line, digamos que sou minha própria revisora, o que é um saco, porque eu sempre deixo escapar uns erros). Mas eu sou ridiculamente perfeccionista, então me sinto na obrigação de explicar o erro aqui, mesmo isso sendo só uma fic para diversão! XD
Desde o começo eu disse que Inuyasha e Sesshoumaru são irmãos por parte de pai. Até ai, tudo bem, sem problemas nenhum. Só que no capítulo 9 eu escrevi isso:
"Inuyasha cerrou os olhos, então ela sabia. Como ele não tinha imaginado isso antes? É óbvio que ela saberia, ela sabia tudo sobre ele. Inuyasha era órfão, não conhecia seus pais e nem fazia idéia de quem eram, não sabia qual dos dois era humano ou qual era yokai. Isso se eles realmente fossem yokais e humanos, porque nem isso ele sabia, não havia como saber, não existiam muitos hanyous no mundo, sequer conhecia algum além dele mesmo. Ele atacou a latinha no chão, espalhando suco de uva pelo carpete, e foi até a cozinha."
Opa! Sesshoumaru é um yokai completo, logo o pai dele tem de ser um yokai. Contradição FORTE. Então, explicando a situação: o Inuyasha não conhece seus pais, o que ele sabe é o que o Sesshoumaru falou. O fato dele não saber se sua mãe é humana é pelo motivo que eu coloquei no outro capítulo, as pessoas realmente não sabem de onde vêm os hanyous, porque, bom, basicamente todos eles são órfãos. E é isso. O Inuyasha sabe que seu pai é um yokai, apenas porque o Sesshoumaru disse, mas ele nunca falou nada sobre a mãe dele, o que significa que ele não sabe absolutamente nada sobre ela.
Capítulo 12: Ataque
- Oh, meu Deus, Miroku! Olhe quem encontramos aqui!
A voz de Sango saía em um tom tão falsamente surpreso, que mesmo vendo o brilho furioso nos olhos de Kagome, Inuyasha não pôde deixar de rir.
- Não acredito! – continuou Miroku teatralmente tão falso quanto Sango. – Isso é ou não é uma coincidência?
Sango acenou com a cabeça e levou as mãos até a boca que estava aberta em uma suposta reação de choque.
- Será que devemos salvar o Inuyasha? Isso me parece uma sessão de tortura...
- Chega, ok? Isso não tem graça. – disse Kagome cruzando os braços de maneira impaciente e virando seus olhos perigosamente para Inuyasha. – O que pensa que está fazendo? Tínhamos um acordo!
Inuyasha deu de ombros.
- Nossos acordos nunca dão certo mesmo.
- Não dão certo porque você simplesmente não tem palavra! – retrucou Kagome se controlando para não aumentar o tom de voz. – O que você tem na cabeça? Eu já não te expliquei um zilhão de vezes que essas pragas teimosas não podem se envolver?
- Ainda estamos aqui, ok? – disse Miroku.
- E é ótimo que estejam mesmo, assim podem ouvir o que tenho a dizer!
- Por que está tão furiosa? – disse Sango deixando de lado todo o tom falso.
- Porque ela é exagerada. – disse Inuyasha.
Kagome revirou os olhos impacientemente. Como ela havia previsto, estava começando a se arrepender de tentar ajudar o hanyou, ele simplesmente não colaborava. Quando ele fora implorando ajuda, ela havia imposto algumas limitações e no primeiro dia ele já quebrara as regras. O ponto principal era manter Sango e Miroku longe disso tudo e ali estavam os dois, parados ao lado da mesa onde estavam sentados, sorrindo como se nada estivesse acontecendo, como se ela não tivesse avisado mais de um milhão de vezes sobre o perigo que era se envolver nessas coisas.
- Você realmente não quer minha ajuda, não é?
Inuyasha tremeu, a idéia de continuar enlouquecendo não o animou em nada, mas manteve a face despreocupada e novamente, deu de ombros.
- Ouça o que eles têm a dizer pelo menos.
Era uma manhã de sábado e o tempo estava agradável, ao contrário dos últimos dias em que o vento era frio e a chuva caía sempre no fim do dia, hoje o sol estava escondido atrás de fofas nuvens brancas, que se moviam com a brisa fresca vez ou outra, deixando a sombra que fazia sobre o sol sumir.
Miroku sorriu graciosamente e puxou duas cadeiras, juntando-as à mesa onde Kagome e Inuyasha estavam. Os dois haviam marcado de se encontrar no mesmo café que Sango e Miroku se encontraram da última vez, o plano era discutir as sensações que Inuyasha dizia sentir e juntos, tentarem bolar alguma maneira de amenizar aquela situação.
- Obrigada, Miroku. – disse Sango sorrindo e sentando-se.
- De nada. – respondeu o rapaz enquanto sentava. Kagome teve a impressão que o sorriso dele aumentara ao olhar para ela. – Nós temos um plano!
- Não! Vocês não têm! – retrucou Kagome mal humoradamente.
Inuyasha fez um barulho impaciente com a boca e revirou os olhos.
- Apenas ouça, está bem? Se achar o plano idiota, apenas diga e eles desistem dessa história toda, não é mesmo?
Kagome estreitou os olhos e encarou os outros três e uma sensação de entendimento correu por todo o seu corpo, de alguma forma ela se sentiu traída. Enganada. Ela apontou acusadoramente para Inuyasha e disse:
- Vocês planejaram isso! Isso explica aquela péssima atuação desses dois idiotas quando nos encontraram! Vocês ensaiaram isso tudo pelas minhas costas!
- Não precisa ofender também. – disse Sango rindo.
- Você me parece mais brava pelo fato de termos planejado algo sem você do que por estarmos aqui, sabia? – disse Miroku.
Kagome virou a cara, em uma típica atitude emburrada e cruzou novamente os braços. Inuyasha a encarou por alguns segundos, antes de suspirar.
- Kagome, - ele disse e a voz que ele usava era incrivelmente doce e compreensiva. – eu posso parecer idiota, mas eu não sou. Você sabe que eu não acredito na metade do que você diz, mas se você se esforça tanto em manter o casal 20 longe de tudo isso, eu imagino que as conseqüências deles ficarem atrás de nós sejam, no mínimo, desastrosas. Eu me sinto tão bem em colocá-los em perigo quanto você, mas apenas ouça o que eles têm a dizer, ok? É um bom plano. Se não fosse, eu não teria deixado que eles viessem.
A boca de Sango abriu-se instantaneamente. Era difícil o bastante para ela acreditar que Inuyasha pudesse usar aquele tom de voz, mas demonstrar-se preocupado com os outros e ainda dizer isso em voz alta era um avanço que ela nunca achou que viveria para ver. Miroku tinha uma espécie de sorriso aprovador nos lábios. Kagome revirou-se na cadeira desconfortavelmente e olhou para Inuyasha, em um misto de surpresa e curiosidade. Ao perceber a reação de todos o hanyou revirou os olhos impacientemente.
- Por que, ao invés de ficarem ai me olhando feito uns idiotas vocês não começam a contar o plano? Aproveitem que ela ainda não encontrou um jeito de retrucar o que eu disse.
Kagome arregalou os olhos.
- Como você sabe disso?
Inuyasha deu de ombros.
- Eu já te disse antes, não disse? Eu simplesmente sei. E eu disse que te provaria.
- Isso não existe. – disse Kagome.
- É, claro, o que você quiser. – disse Inuyasha como quem quer acabar com o assunto.
Sango que olhava a cena de maneira curiosa, desviou os olhos para Miroku e sorriu.
- Pode falar, você entende melhor os detalhes do que eu.
- Certo. – disse Miroku.
- Antes que comecem, quero deixar claro que nada do que vocês falarem vai mudar minha idéia de que o melhor plano é deixar vocês bem longe de mim. – disse Kagome.
- Argh, mas que mulher insuportável! Não sei por que vocês querem tanto ficar perto dela! – resmungou Inuyasha.
Kagome cerrou os olhos, mas antes que pudesse retrucar, Miroku começou a falar.
- Você vai mudar de idéia quando me ouvir. – e ele sorriu de maneira radiante. – Lembre-se, não nasceu ninguém capaz de me acompanhar e você terá de se render ao meu plano!
- Miroku merece todo o crédito! – disse Sango sorrindo. – Ele se esforçou bastante pesquisando, então seja carinhosa na hora de decidir.
- Certo, certo. Agora pode me dizer qual o plano genial? Estou curiosa.
- Seu maior medo é algo acontecer com a gente, não é? – disse Miroku.
Kagome acenou positivamente com a cabeça, mas não disse nada.
- Então, eu pensei bastante nisso. E é impossível que algo nos aconteça: nós somos humanos! Quero dizer, a impressão que eu tenho é que seu medo é que os outros anjos venham até a cidade e façam algo comigo e com a Sango, por estarmos te seduzindo a ter uma gloriosa vida humana. Só que sua função não é exatamente proteger humanos? Como é que vocês poderiam nos atacar, quando são tão empenhadas na missão de nos salvar?
Kagome olhou para Miroku com uma espécie de olhar de adoração. Ele era um gênio, como não havia pensado nisso antes? Era óbvio e até mesmo ridículo! Elas nunca fariam nada contra Sango e Miroku e mesmo que tentassem, ela jamais deixaria, ela podia com as outras, sempre fora a melhor da sua turma. Era boa o bastante para receber uma missão especial da Kikyou pessoalmente. E então, a realidade atingiu-a. Aquilo tudo estava errado. Muito errado. No que ela estava pensando? Ela estava lá para matar Inuyasha, não tomar café da tarde com ele e seus melhores amigos, enquanto pensam em uma forma de destruir tudo aquilo em que ela mais acreditava.
Ela balançou a cabeça negativamente, mais para si do que para os outros. Inuyasha que encarava as reações dela ao longo da conversa percebeu as mudanças nas feições da garota e sentiu um embrulho no estomago. "Merda" ele pensou.
- Imagino que não seja só isso que você pensou, não é? – disse Kagome e sua voz saía incrivelmente controlada apesar de interiormente estar travando uma luta contra si mesma. – Você disse que tinha um plano, isso soa mais como uma teoria pra mim.
- Para falar o plano, preciso que você confirme minha teoria. – disse Miroku. – Estou certo, não estou? Vocês não podem atacar um humano.
Kagome pareceu pensar um pouco nas possibilidades. Aquela era uma boa questão, ela nunca havia pensando nisso e tampouco ouvira histórias sobre algo do tipo. O que tornava aquela uma pergunta curiosa é que os anjos não eram escravos dos humanos, apesar de tudo, anjos eram livres, embora a missão fosse proteger, o que não significava em momento algum que eles não poderiam atacar se fosse preciso.
Não, definitivamente não. Aquela não era uma opção, atacar humanos seria contra toda e qualquer moral, contra a natureza de um anjo. E anjos são treinados desde muito cedo a seguirem lealmente sua natureza. Mas, ela poderia dizer isso para eles? A base do plano era a idéia de que jamais seriam atacados, então não seria melhor mentir?
- Nós não somos escravos dos humanos. – disse Kagome friamente. Ela havia decidido mentir. – O que significa que se for preciso, sim, nós atacamos humanos.
Todos ficaram em silêncio. A noticia mudava completamente a história, Miroku havia planejado tudo com base nessa teoria e agora ela se provara infundada, não podia continuar. Sua vontade de ajudar Kagome começou a lutar diretamente com seu medo de colocar não só a si mesmo, mas Sango em perigo.
- Pode continuar, Miroku. – disse Inuyasha com um tom de voz irritado. – Ela está mentindo.
Kagome virou seu rosto automaticamente em direção ao hanyou. Ela sentia uma explosão de sentimentos dentro de si, uma mistura de raiva e vergonha. Como ele poderia saber que ela estava mentindo? Isso era impossível. Ele só seria capaz de saber sobre isso se tivesse passagem livre para sua mente e aquele definitivamente não era o caso. Ela cerrou os olhos quando ele lhe lançou um sorriso vitorioso.
- Esqueci de dizer que também sei quando você está mentindo? Pois é, eu sei.
- Você me dá medo, Inuyasha. – disse Sango.
- Isso tem a ver com essa história de sexto sentido em relação a mim, é? – disse Kagome irritada.
Inuyasha deu de ombros.
- Na verdade, não. Quando você mente sua voz sai forçada, sua respiração fica acelerada e você fica fazendo caras estranhas, parece que está tendo um ataque ou coisa assim.
- Você gosta mesmo de me observar, não é? – o tom de voz de Kagome era um misto de raiva e desafio.
- Conheça bem seu inimigo e descubra seus pontos fracos. – disse Inuyasha.
- Certo, a reação da Kagome já explicou tudo. Então, vocês realmente não podem me atacar, isso é uma boa noticia. – disse Miroku aliviado.
- Kagome, eu confio em você e sei que você não vai deixar nada acontecer comigo. Agora, eu preciso saber se você confia na gente. – disse Sango.
Kagome, relutantemente, acenou com a cabeça.
- Isso é o bastante pra mim, por enquanto. – disse Sango sorrindo. – Miroku, continue, por favor.
- O plano é o seguinte, nós vamos entregar uma carta para você e você deverá enviar para a Kikyou. Sesshoumaru já me explicou que ela é a mais importante e resolve as coisas e a Sango confirmou a história pra mim, ela também já me disse que você não nos dirá onde encontrar a Kikyou, por isso você enviará a carta.
- Uma carta? Sango eu já disse que não adianta pedir para ela me libertar.
- E quem disse que eu quero te libertar? – o tom de voz de Sango era divertido. – Pelo contrário.
Kagome arqueou a sobrancelha de maneira curiosa.
- Queremos proteção. – disse Miroku no mesmo tom de Sango. – Para a cidade inteira. Eu andei pesquisando e os yokais lobos estão por perto há séculos e, me corrija se eu estiver errado, os lobos são os mais perigosos, não é?
- Não. – disse Inuyasha. – Eles são só os mais idiotas mesmo.
- Eles são os mais selvagens, não necessariamente os mais perigosos, mas certo, eles oferecem mais perigo que um yokai como o Inuyasha, por exemplo. – disse Kagome.
- Você está tentando me provocar? – disse Inuyasha.
- Hm, funcionou? – disse Kagome.
Miroku ignorou a discussão dos dois e continuou com voz teatral:
- O ponto é que eu tenho muito medo de yokais lobos, eles são malvados. E seria de muita ajuda ter um anjo por perto, cuidando de mim, da cidade e das pessoas que eu amo.
- Vocês realmente ensaiaram isso. – disse Kagome rindo. – Certo, o plano me parece genial, só que o problema com lobos é resolvido em minutos. Faço um acordo com eles e eles vão embora e pronto.
- Você não pode fazer um acordo com os lobos. – disse Sango vitoriosamente. – Explica pra ela, Miroku!
- Exato. Você não pode, eu pesquisei o motivo dos lobos estarem aqui. Essa região é sagrada para eles, Kagome, é por isso que eles não vão embora nunca. Tem algo a ver com espíritos da floresta ou sei lá o que. O que significa que não importa o que você tente, eles não irão abandonar os ancestrais.
- Na verdade, se eu pedir para o Kouga ele saíra. E ele é o líder. – disse Kagome como se achasse muita graça no fato de Kouga ser completamente apaixonado por ela. – Ele já saiu de lá uma vez por minha causa, pode sair de novo.
- Ele continuou na região, na verdade, ele piorou a situação infestando a cidade com aquele fedor vindo mais para perto. – disse Inuyasha irritado.
- Toda a área sagrada deles, ou seja lá o que for isso, é perto da cidade. – disse Miroku. – Na verdade, a área sagrada são essas florestas que cercam a cidade inteira.
- E o que vocês esperam com isso? Fazer com que eu fique na cidade?
Miroku e Sango sorriram e balançaram a cabeça positivamente. Kagome suspirou. Eles realmente haviam se empenhado em ajudá-la, sentia-se honrada em receber tanta atenção. Geralmente ela não ficava tempo o bastante em uma cidade para criar laços com as outras pessoas, Kikyou dizia que isso só atrapalharia sua missão. Mas, por alguma razão, Kikyou parecia querer Kagome naquela cidade, afinal, qual outro motivo dela ainda não ter mandado matar Inuyasha? A missão ali era essa, as instruções haviam sido claras o bastante: Vá para a cidade, se matricule nessa escola, vá morar nessa casa. Encontre um meio-yokai e fique de olho nele até que eu ordene que você o mate. Não se antecipe, apenas eu sei a hora certa.
Mas que hora era aquela que nunca chegava? Kagome nunca passava mais de um mês na mesma cidade e logo faria dois meses que estava ali, sem receber ordem nenhuma, a não ser ficar de olho em Inuyasha e ignorar o que Sesshoumaru falava. Sesshoumaru... Ele havia falado sobre isso. Como era mesmo que ele tinha falado? Algo sobre estar sendo enganada, sobre na verdade estar ali protegendo Inuyasha. Por algum motivo estranho, naquela hora a teoria do yokai fazia sentido. Muito sentido.
- Poderia compartilhar seus pensamentos com a gente? – disse Inuyasha balançando a mão impacientemente na frente de Kagome, fazendo-a piscar. – Apesar de tudo, eu não posso ler a sua mente.
- Use seu sexto sentido para saber o que estou pensando. – provocou Kagome. – E Miroku, seu plano é realmente genial. Eu não consigo entender ainda muito bem o que você pretende com ele, quero dizer, não vejo a vantagem em ficar aqui, mas enfim... O problema é que existem algumas falhas. Como você poderia saber da existência dos anjos e como saberia onde encontrar a Kikyou? Teoricamente, humanos não sabem sobre mim.
- Obrigada. – disse Miroku orgulhoso. – E devo dizer que também pensei nisso. Lembra o que eu te disse sobre ter familiares monges? Antigamente, alguns monges lutavam contra yokais, não é? Parece que se fossem outros tempos, estaríamos lado a lado tentando matar o nosso amigão aqui.
- Está me falando que monges e anjos trabalhavam juntos? – disse Kagome perplexa. Essa era um novidade.
- Ahan, exatamente isso. – disse Sango. – Isso é meio secreto, igual tudo relacionado a você. Eu precisei dar em cima do avô tarado do Miroku pra conseguir essa informação.
- Meu avô não é tarado. Ele só sabe apreciar mulheres bonitas. – disse Miroku.
E todos riram.
- Certo. Você é muito espertinho, tem resposta para tudo. – disse Kagome. – Só que agora eu acho que vou te pegar.
- Manda a ver, estou preparado. – disse Miroku.
- Seu plano basicamente é me manter aqui, com a desculpa de me tornar guardiã da cidade ou qualquer coisa do tipo, certo? – disse Kagome e Miroku concordou. – É muito provável que seu pedido seja atendido, se vocês falarem que se sentem ameaçados com a presença dos lobos, alguém virá cuidar dessa região. Só que o garante que serei eu a ficar aqui? Você sabe, eu não sou a única.
- Hm, digamos que na minha cabeça, esse é o momento que você entra, pedindo para cuidar dessa região. – disse Miroku.
- É aqui que nasce o problema. – disse Kagome. Ela agora adquiria um ar professoral, sentando-se corretamente na cadeira e começando a explicar. – A maioria dos anjos é treinada para cuidar de cidades. A verdade é que não somos muitas, mas alguns lugares têm tantos problemas que acabamos mandando alguém pra lá, sabe como é, demoramos demais para chegar nessas regiões e não podemos nos dar o luxo de deixar vocês desprotegidos porque não fomos rápidas o bastante, esses anjos são chamados de anjos fixos.
- Deixa eu ver se adivinho... – disse Sango desanimada. – Você não é um anjo fixo.
- Não, eu não sou. – disse Kagome. – Algumas de nós nascem com certas habilidades que as mais velhas julgam ser mais úteis caçando os problemas do que esperando que eles venham até nós. O que significa que estou aqui apenas para cumprir minha missão. Quando a ordem for dada, eu cumprirei e irei embora. Esse é um dos motivos que eu, em especial, não posso me apegar. Eu não posso ficar.
- Nossa, Kagome, por que quando se trata de você tudo é tão complicado? – disse Sango irritada.
- Até dois meses atrás era tudo bem simples. – disse Kagome rindo.
- E essa sua missão. O que exatamente você precisa fazer? Quanto tempo você tem?
Algo dentro de Kagome gritava para ela não pensar na missão, não pensar em estar lá para matar Inuyasha. "Ele vai perceber, esse bizarro sexto sentido dele vai perceber. Não pense nisso, não pense nisso, não pense nisso." A garota olhou para o lado e percebeu que Inuyasha a analisava atentamente, como se algo em sua mente o atraísse. "Não pense nisso, não pense nisso". Por que estava escondendo dele o porquê de estar ali? Não era melhor que soubesse logo e entendesse que não deveriam estar discutindo uma maneira de mantê-la por perto? "Não pense nisso, não pense nisso". Não seria melhor discutirem uma maneira de salva-lo, de se livrarem dela, de impedirem aquilo? Aquela conversa era uma perda de tempo, Miroku e Sango deveriam estar se empenhando em coisas mais importantes, como a vida de Inuyasha. "Não pense nisso, não pense nisso". Kagome balançou a cabeça. A vida de Inuyasha não era importante, ele era um yokai e deveria ter feito algo terrível para Kikyou mandá-la para lá. E se a história de perder a memória fosse só uma mentira para não contar aos outros as coisas horríveis que ele tinha feito? "Não pense nisso, não pense nisso".
- Eu ainda não sei qual é minha missão. – mentiu Kagome saindo de seus devaneios.
Miroku e Sango olharam automaticamente para Inuyasha. "Merda!" pensou Kagome. Ela havia esquecido de Inuyasha e de sua mais nova habilidade de saber quando ela mentia. Ele iria perceber, ela estava muito mais nervosa dessa vez, podia sentir seus ossos tremendo em baixo da pele. "Merda!" pensou de novo ao perceber os dourados olhos de Inuyasha fitando-a.
- Acho que não há nada que vocês possam fazer. Ela não pode ficar, então aproveitem que ela parece não fazer idéia quanto tempo ficará aqui. Um dia ela irá embora, não é?
Kagome piscou algumas vezes encarando Inuyasha. Ele estava mentindo. Era claro que ele havia percebido alguma coisa, mas por algum motivo desconhecido ele não estava falando para os outros. Sango pareceu não perceber a tensão que nasceu entre Inuyasha e Kagome.
- Certo, podemos ao menos tentar, não é? – disse. – O máximo que iremos ouvir será um não o que não muda muito a nossa situação.
- É, certo, então nós estamos indo escrever a carta, não é, Sango? – disse Miroku levantando-se e arrastando Sango.
Sango reclamou veemente. Não entedia porque diabos Miroku estava arrastando-a daquele jeito, ela precisava falar com Kagome ainda, mas a garota sequer reparou a saída da morena. Kagome parecia hipnotizada, pois sequer piscava, Inuyasha a encarava com a expressão em branco. Eles só ousaram falar quando tiveram certeza que nem Sango, nem Miroku estavam por perto para ouvir.
- Então, parece que você me defendeu. – disse Kagome.
- O que você está escondendo? – disse Inuyasha cerrando os olhos.
- O que você acha que eu estou escondendo? – disse Kagome.
Inuyasha ficou alguns minutos em silêncio, parecendo pensar naquela pergunta. Seus olhos não desviavam de Kagome um segundo sequer.
- Está tentando ler minha mente?
Ele não respondeu. Kagome estava começando a ficar nervosa, o olhar de Inuyasha era tão penetrante que ela sentia como se ele entrasse em sua mente e vasculhasse por todos os cantos, buscando as palavras que agora ela escondia atrás do repetitivo pensamento "Não pense nisso, não pense nisso". Aquela história de sexto sentido estava começando a se tornar problemática, como ela iria ficar perto dele escondendo o pensamento mais presente em sua mente? Era impossível.
Novamente ela se perguntou por que estava escondendo dele. Ele iria descobrir cedo ou tarde e Miroku e Sango não estavam mais ali, não existiam mais motivos para mentir.
- Essa sua tentativa de esconder que veio aqui me matar é inútil. – disse Inuyasha repentinamente fazendo Kagome dar um pulo na cadeira. – Não é isso que eu estou procurando! Você está escondendo outra coisa e eu tenho a sensação de que você escondeu tão bem, que nem você sabe onde está.
Kagome abriu a boca. Certo, agora era oficial o tal sexto sentido de Inuyasha era um problema. Um problema dos grandes ainda. Isso o colocava um passo a frente, era um tipo de defesa maravilhoso que ela nunca vira. Era melhor que o instinto e muito mais poderoso. "Merda" ela pensou de novo.
Inuyasha continuava a encará-la com a mesma intensidade que antes, seus olhos cerrados davam a impressão que ele estava fazendo uma força descomunal para ver dentro da mente de Kagome, mas era inútil. Ele não podia ler a mente dela, ele só sabia algumas coisas, como o fato dela estar lá para matá-lo.
- Qual a surpresa? – disse o hanyou.
- Minha surpresa é você estar tão calmo. – disse Kagome ainda boquiaberta.
- Vamos deixar algo claro aqui, ok? – disse Inuyasha. – O fato de você estar aqui para me matar não significa que eu vá deixar isso acontecer.
Aquilo soou como uma piada muito sem graça para Kagome. O que ele estava dizendo sobre "não deixar isso acontecer"? Será que Inuyasha tinha alguma noção do que ele estava lidando?
- Eu não tenho medo de você. Eu vi como você controla outros yokais e isso não acontece comigo, quando é comigo você precisa se esforçar muito, precisa até mesmo recorrer ao sangue. E eu ainda tenho isso, – e ele apontou pra sua própria cabeça. – acredite, quando você resolver me atacar eu saberei. E eu saberei seus planos contra mim. Preciso lembrar também que você se sente particularmente atraída por mim?
- Você nunca me viu matando um yokai. Por isso está tão confiante. – disse Kagome cerrando os olhos.
Inuyasha deu de ombros.
- Pode até ser. Mas ainda não tenho medo de você. Existe algo sobre a minha morte que você está tentando desesperadamente esconder e uma hora eu vou descobrir isso, aceite os fatos, você não pode me matar.
A voz de Inuyasha tinha um tom tão sereno e confiante que fazia Kagome explodir de raiva por dentro. Aquilo era ridículo, ela nunca tinha sido tão provocada por um yokai antes, pior! Por um meio-yokai. O que ele estava pretendendo com aquela conversa? Demonstrar o quão forte ele achava que era? Pela primeira vez desde que chegara, Kagome sentiu vontade de levantar a arrancar a cabeça de Inuyasha, seu orgulho estava em pedaços porque ela sabia, ela tinha plena noção de que aquela história de sexto sentido deixava o hanyou um passo à frente. Era a defesa perfeita. Com a existência dela, os dois estariam fadados a brincar de gato e rato para sempre.
- Uou, vamos com calma ai nos pensamentos assassinos, Jason. – disse Inuyasha.
- Você tem tanta sorte da Kikyou não ter dado a ordem ainda. – disse Kagome entre dentes.
Inuyasha levou uma mão a cabeça e cerrou os olhos, sua expressão antes tão calma agora se contorcia em algo que parecia pura e somente dor. Kagome piscou os olhos e cruzou os braços, olhando a cena sem muita empolgação.
- Minha cabeça vai explodir. – gemeu Inuyasha.
- Bem feito. – disse Kagome dando de ombros. – Ninguém mandou se achar o professor Xavier.
Ele ignorou a provocação de Kagome e levou a outra mão até a cabeça, apertando-a com força, como se ao fazer aquilo ele fosse capaz de espremer a dor para fora. Mas ele não podia. A dor se espalhou por toda a sua cabeça, era como se alguém estivesse batendo com um martelo repetidas vezes, ele podia até mesmo sentir o breve alivio entre uma batida e outra. Seus olhos começaram a ficar vermelho onde deveriam ser brancos e limpos. Kagome se mexeu desconfortavelmente na cadeira, sentindo-se nervosa.
- Hei, você está bem? – ela disse.
- Pare com o que quer que seja que você está fazendo, pelo amor de Deus - gemeu Inuyasha. – Minha cabeça vai explodir!
Kagome olhou novamente para o hanyou, que virou os olhos vermelhos em sua direção, na mesma hora notou que algo muito errado estava acontecendo. Ela levantou rapidamente do lugar onde estava sentada e foi até Inuyasha, ela puxou a toalha que cobria a mesa, derrubando todas as louças que estavam ali em cima, rasgou um pedaço e pegou uma garrafa de água gelada em que estava caída no chão. Encharcou o pano e entregou para Inuyasha.
- Coloque isso nos seus olhos. – ela disse.
- Eu vou chamar uma ambulância.
Kagome olhou para os lados e percebeu onde estava. Eles ainda estavam no café e ela definitivamente havia chamado muita atenção. Inuyasha segurou seu braço e balançou negativamente a cabeça, dizendo que ele não queria que chamassem médicos.
- Não! Eu... Eu sou médica. Eu cuido disso. – mentiu Kagome.
- Você é só uma criança! – retrucou a velha senhora que cuidava do caixa.
E como se Kagome quisesse provar que ela estava errada, sua presença inundou a sala. Todos olharam na direção dela com uma clara feição de respeito, era como se estivessem na presença de uma pessoa muito evoluída, muito a frente deles. Kagome emanava uma espécie de poder, uma segurança descomunal. Era como se uma aura brilhante estivesse ao seu redor e todos pudessem vê-la.
Ela não ligou para os comentários e virou-se para Inuyasha. Agora ela realmente sentia que algo errado estava acontecendo.
- Venha, Inuyasha, deite no chão. – ela disse.
Sem pensar duas vezes, Inuyasha se jogou no chão, colocando o pano com água gelada os olhos. Kagome abaixou-se ao seu lado, analisando-o atentamente, como se pudesse ver o que lhe trazia dor. Ela respirou fundo e um horror percorreu por todo seu corpo quando percebeu o que estava acontecendo. Aquilo era obra de um anjo, alguém estava matando Inuyasha. "Não!" gritou uma voz dentro da sua cabeça. "Não, ainda não. Não é a hora dele! Ele não pode morrer agora, não agora, essa é minha missão".
Inuyasha soltou um gemido quando sentiu seu rosto começar a se encharcar de um liquido vermelho. Não era apenas de seus olhos que o sangue jorrava, mas também do nariz. Ele sentiu um nó formar-se em sua garganta e quando tossiu, tentando coloca-lo para fora a única coisa que conseguiu fazer foi colocar mais sangue para fora do seu corpo.
Kagome olhou para a cena horrorizada.
- Por favor. – ele gemeu puxando a manga da camiseta de Kagome. – Não ainda. Eu... eu não quero morrer ainda.
- E-eu não sei como parar. – gaguejou Kagome começando a se desesperar enquanto sua mente continuava a gritar.
O braço que segurava Kagome perdeu a força e caiu e só voltou a se erguer quando Inuyasha levou a mão até a boca, tentando parar o fluxo de sangue que saía.
- Ele está morrendo! – gritou uma das garçonetes. – Chamem logo uma ambulância!
- Pense, Kagome, pense! – a voz dentro da mente de Kagome continuava a gritar. – Você não pode deixar que ele morra, não agora!
A garota encheu uma das mãos com um punhado do próprio cabelo e começou a puxá-lo, demonstrando agora quão desesperada ela estava. O pedaço de pano que ela havia dado para Inuyasha agora estava completamente vermelho e pingando sangue. Sangue! Era isso! Kagome começou a tatear o chão até encontrar uma faca, sem sequer pensar no que estava fazendo, enfiou a lamina da faca contra a palma da sua mão e então levou o sangue que começava a jorrar até sua boca.
Uma explosão aconteceu dentro dela. Era sempre assim. Kagome não era uma espécie de vampira, nem nada do tipo. O sangue, como ela havia aprendido muito nova, era uma oferenda às ancestrais. Somente quando elas buscavam suas ancestrais que seus verdadeiros poderes vinham à tona, mas tinha um preço. Todo poder tem um preço. E o dela, era sangue.
A presença de Kagome que já inundara a sala se tornou tão forte que era quase como se fosse possível toca-la. Era como se cada vez que as pessoas presentes no café tentassem respirar eles sugassem sua essência e não o ar. Kagome parecia menos humana do que jamais parecera antes, sua pele estava mais branca e seu cabelo mais preto, mas eram seus olhos que tiravam toda a sua humanidade. Nenhum ser humano poderia ter aqueles olhos. O azul já claríssimo de Kagome parecia agora ter adquirido brilho próprio e era como se eles pegassem um fogo azulado e poderoso. Seus cílios pareciam mais compridos, o que tornava cada piscada de seus olhos um movimento único e hipnotizantes para as pessoas. Ninguém ousou falar ou questionar o que estava acontecendo e Kagome agradeceu mentalmente por isso.
Sua mente trabalhava de maneira mais clara e racional agora, era como se todo o desespero tivesse sido varrido para fora de sua mente. Ela não tinha tempo a perder agindo como uma humana, ela era um anjo e por mais contraditório que isso soasse, sua missão naquele momento era salvar Inuyasha.
- Fique calmo, eu não vou te deixar morrer. Não agora. - a voz que saiu dos lábios de Kagome parecia ser de outra pessoa, era firme e forte, não combinava em nada com sua aparência frágil.
Ela pegou o que restou da toalha de mesa que havia rasgado e novamente, encharcou-a com água. Dobrou o pano e levou até o rosto de Inuyasha, limpando-o delicadamente.
- O que você está fazendo? – ele resmungou.
Kagome deu de ombros.
- Sendo higiênica.
Um pequeno sorriso brotou nos lábios de Inuyasha, mas ele não durou mais do que um segundo. O hanyou estava tendo outro acesso de tosse. Kagome deixou o pano dobrado em cima do seu colo e olhou para sua mão, que antes havia cortado, se certificando que ainda estava sangrando. Ao perceber que o liquido vermelho ainda escorria, ela colocou-a suavemente na garganta de Inuyasha e começou a sussurrar.
O silêncio mortal que estava no café tornou possível às pessoas mais próximas aos dois ouvirem o que Kagome falava, mas ouvir não significava entender. Para tornar a situação toda mais estranha, a garota não estava falando nenhuma língua que alguém ali conhecia. Inuyasha, mesmo quase inconsciente também notou que não fazia idéia do que ela estava falando.
Um minuto depois, ela moveu a mão em direção ao nariz de Inuyasha e repetiu a ação de falar, enquanto seu próprio sangue pingava dele. O hanyou resmungou alguma coisa quando ela passou para os olhos e fechou-os com a palma de sua mão ensangüentada. Quando Kagome terminou, Inuyasha notou que embora a dor em sua cabeça não tivesse diminuído em absolutamente nada e ainda sentisse que morreria graças a ela a qualquer momento, ele havia parado de sangrar. Ele olhou na direção de Kagome e ela parecia incrivelmente cansada, mesmo que na cabeça do hanyou, ela não tivesse feito nada para parecer tão acabada. Em baixo de seus olhos grandes manchas roxas haviam se formado, a pele que antes era de um branco maravilhoso que lembrava uma estátua de mármore começava a parecer meio arroxeada e o cabelo parecia desgrenhado, como se um furacão tivesse passado pela cabeça dela. Apesar de tudo isso, aos olhos de Inuyasha, a garota parecia mais bonita do que nunca.
Ao perceber os olhos de Inuyasha em si, Kagome deu um leve e amarelado sorriso.
- Nada bonito, não é? Acredite, essa ainda não é a melhor parte.
Embora não sangrasse mais, a dor deixava Inuyasha em uma posição nada confortável para conversar ou assimilar o que Kagome estava falando. Falando bem a verdade, ele não fazia idéia do que estava acontecendo ao seu redor.
Kagome ergueu cuidadosamente a cabeça de Inuyasha e antes que ele pudesse entender o que ela queria fazer, ele sentiu um gosto de ferrugem na sua boca. Sentiu nojo e seu estomago embrulhou automaticamente. Era sangue e não aquele que estava cuspindo até poucos minutos atrás, era sangue de Kagome. Porém, junto com o nojo e o enjôo, veio o alivio, a principio era como se o martelo que insistia em bater dentro de sua cabeça estivesse demorando um pouco mais entre uma batida e outra, mas então o tempo entre as batidas foi aumentando, aumentando, aumentando até finalmente parar. E então, ele desmaiou.
O ambiente incrivelmente claro fazia seus olhos arderem. A única coisa que ele conseguia ver era uma grande mancha esbranquiçada. Nenhuma forma, nenhuma cor, nada. Um barulho que ele não conseguia reconhecer ecoava na sua cabeça deixando-o levemente irritado, piscou algumas vezes tentando focar qualquer coisa que fosse, mesmo que ela fosse branca. Um vulto colorido passou na sua frente e começou a se balançar freneticamente, enquanto soltava alguns gemidos altos o bastante para fazerem com que Inuyasha reclamasse.
- Você está me deixando com dor de cabeça.
A voz saiu rouca e baixa e Inuyasha sentiu como se estivessem passando uma lixa na sua garganta. Sentir o ar passando por ela para formar as palavras era áspero e dolorido. Muito dolorido, o que fez com que ele anotasse mentalmente que a vontade de falar não seria tão forte ao ponto de fazê-lo esquecer daquela dor.
- Oh Meu deus! Ele acordou! Vá chamar uma enfermeira, Miroku!
- Fale mais baixo! – repreendeu Miroku. – Estamos em um hospital!
- Hospital? – pensou Inuyasha enquanto se lembrava que não deveria falar a não ser que quisesse sentir muita dor. – É, faz sentido, isso explica esse som irritante, eu devo estar ligado a umas dessas máquinas que monitoram os batimentos cardíacos. Certo, mas o que eu estou fazendo aqui?
Inuyasha forçou sua memória, ignorando a pequena discussão que começava ao seu lado entre Miroku e Sango. Ele não sabia como havia chegado ali, mas o que importava não era como e sim, por quê. Fechou os olhos se concentrando nas últimas coisas que conseguia lembrar, tinha sangue, muito sangue e uma dor insuportável na sua cabeça e tinha também Kagome toda descabelada e parecendo muito doente e um tanto quanto louca, porém ridiculamente bonita e não humana. O estomago de Inuyasha se embrulhou ao lembrar de mais sangue, sangue de Kagome em sua boca aliviando aquele inferno que era sua cabeça. Sem aviso nenhum ele se levantou da cama e curvou seu corpo para o lado antes que fosse tarde demais e acabasse vomitando não apenas no chão, mas na cama e até mesmo em Sango ou Miroku.
- Ouch! Isso é nojento! Cuide dele, enquanto eu procuro uma enfermeira. – grunhiu Sango se recusando a olhar duas vezes para a cena e saindo correndo.
Miroku correu até o banheiro do quarto e pegou uma toalha, esperou que Inuyasha terminasse de passar mal e entregou-a para ele se limpar.
- Ah, cara, isso é nojento. – disse Miroku. – Quer água para ver se tira esse gosto da sua boca?
Inuyasha fez uma careta e assentiu positivamente com a cabeça. Miroku foi até a pequena geladeira, pegou uma garrafa de água e abriu-a antes de entregar para o hanyou. Ele só notou com quanta sede ele estava quando sentiu a água na sua boca e virou a garrafa, fazendo uma grande quantidade descer por sua garganta. Ao contrário do que ele imaginara, não era doloroso, devido ao vomito sua garganta agora estava queimando e a água gelada percorria seu caminho de forma refrescante.
- Pior do que está não vai ficar. – pensou Inuyasha sobre a dor resolvendo que falar não doeria mais do que agora. Pensar nisso fez ele novamente fechar a cara em uma careta.
- Está sentindo dor? – perguntou Miroku notando a careta do amigo.
- Como eu cheguei aqui? O que aconteceu? – como ele havia imaginado, falar não era tão pior do que já estava.
- Eu esperava que você pudesse me responder isso. – disse Miroku dando de ombros. – Quer dizer, nós sabemos como vocês chegaram aqui, me falaram que quando a ambulância chegou lá no café acharam que vocês estavam já mortos, devido à quantidade de sangue que tinha espalhado por lá. Ouvi dizer que tinha sangue até no teto.
- Vocês? O que você quer dizer com vocês? – disse Inuyasha.
- A Kagome também está bem mal, Inuyasha. – disse Miroku surpreso pela pergunta. – Parece que ela estava chorando e tossindo sangue. Muito sangue.
Inuyasha tentava se lembrar de qualquer uma daquelas situações acontecendo com Kagome, mas a única imagem que vinha a sua mente era ele mesmo tossindo e chorando sangue, fora seu nariz que também jorrava sangue. Ele possivelmente desmaiara antes de ser capaz de ver aquilo acontecer com ela.
- Ela tentou te matar. – o tom de voz de Miroku deixou claro que aquilo não era uma pergunta e sim uma afirmação.
O hanyou revirou-se desconfortavelmente na cama, mas antes que pudesse falar qualquer coisa uma enfermeira segurando uma pequena bandeja de ferro acompanhada de Sango entrou no quarto.
- Muito bem, saiam os dois, ele acabou de acordar, passou mal e não está em condições de conversar. – ela disse autoritariamente.
A enfermeira era baixa e parecia ter uns 50 anos, seus cabelos prateados estavam presos em um coque no topo da cabeça. Ao ouvir a voz dela, Miroku e Sango rapidamente a obedeceram.
- Boa noite, Inuyasha. – ela disse bondosamente. – Meu nome é Mika e eu sou a sua enfermeira, como se sente?
Inuyasha pensou um pouco antes de responder, ele ainda não tinha pensado sobre como estava. Ele olhou para a janela ao seu lado e percebeu que nenhum raio de sol brilhava por entre as frestas.
- Noite? Eu fiquei tanto tempo assim desacordado? Eu lembro de ter saído bem cedo de casa...
Mika deu um leve sorriso.
- Sim, Inuyasha, noite. Hoje é segunda-feira, quase terça-feira. Você ficou desacordado três dias e é compreensível, você perdeu muito sangue.
- Foi tanto sangue assim? – ele disse confuso. – Quero dizer, eu não tenho nenhum corte profundo.
- Digamos que você perdeu alguns bons litros de sangue, mas não se preocupe, enquanto você estava desacordado, nós fizemos uma transfusão. – disse Mika. – Agora me diga, como você se sente?
- Acho que um pouco cansado.
- E o enjôo?
Se Mika não tivesse perguntando, Inuyasha sequer lembraria da pequena cena nojenta que vivera poucos minutos antes. Não é que estivesse enjoado de verdade, mas a lembrança de beber o sangue de outra pessoa deixou-o tão enojado que foi preciso colocar tudo o que tinha dentro do estomago para fora.
- Você sabe de uma outra paciente chamada Arashi Kagome? – antes que Inuyasha pudesse perceber, ele já estava perguntando sobre ela. – Acho que ela chegou comigo.
O rosto de Mika que até agora transmitia bondade se transformou em uma espécie de tristeza velada. Se Miroku não tivesse falado que ela estava internada, Inuyasha juraria que ela estava morta graças ao rosto de Mika.
- Eu fico feliz que alguém tenha mostrado interesse na pequena. – disse Mika afetuosamente. – Ela não está nada bem, acordou algumas vezes e conversou comigo de maneira muito educada, se me permite dizer, ela é uma pessoa muito, muito boa. Nós não sabemos o que acontece com ela, todas as vezes que ela acorda e demonstra uma melhora, pouco tempo depois ela desmaia e piora mais do que antes.
- O que você quis dizer com estar feliz por eu ter perguntado sobre ela? – disse Inuyasha de maneira curiosa.
- Ela não recebeu visitas. Nós também não encontramos parentes próximos que pudessem vir ou qualquer pessoa da cidade demonstrou interesse nela. E é muito triste que a pequena, mesmo sendo tão bondosa, não tenha ninguém por ela. Você deveria se sentir muito honrado, seus amigos não saíram daqui um minuto sequer.
Inuyasha começou a pensar que se ela não tinha recebido visita nenhuma, significava que nem Sango, nem Miroku tinha ido até lá. Mais uma vez ele falou sem pensar:
- Você acha que eu posso visitá-la?
O rosto de Mika iluminou-se e ela sorriu.
- Ela está desacordada, mas acho que não fará mal se você apenas der uma passada por lá, antes eu preciso te medicar. Podemos aproveitar sua saída para pedir para alguém limpar seu quarto.
Mika caminhou até mais perto de Inuyasha e apoiou a bandeja de metal que segurava na cama, pegou algumas injeções com líquido transparente e injetou uma de cada vez no acesso que levava diretamente na veia. Ele sentiu seu braço formigar levemente e suspirou. Remédio na veia é uma droga.
A velha enfermeira saiu do quarto e voltou pouco depois com uma cadeira de rodas, ao perceber a careta de Inuyasha ela disse:
- Desculpe, normas do hospital. Você não pode sair andando por ai.
Inuyasha resmungou alguma coisa antes de aceitar a ajuda de Mika para sair da cama e ir para a cadeira. A velha enfermeira levou Inuyasha pelos corredores compridos e brancos do hospital até um pequeno quarto, ela não bateu antes de abrir a porta e empurrar a cadeira para dentro.
Antes mesmo de olhar para Kagome, Inuyasha percebeu quão mal ela estava. O cheiro antes tão forte dela, agora era quase imperceptível, como se o cheiro característico de hospital estivesse lavando a presença da garota daquele lugar. Por algum motivo, Inuyasha não gostou de pensar nisso. Mika levou a cadeira até perto da cama e percebeu quando o corpo do rapaz endureceu-se, ele virou os olhos para a enfermeira.
- Ela está morta?
Ele sabia que não, aquele irritante barulho da máquina de batimentos cardíacos apitava e preenchia o silêncio do quarto, mas fazer aquela pergunta foi inevitável ao ver o estado de Kagome. A última lembrança que ele tinha dela não era muito boa, mas fazia parecer que naquela ocasião ela era a pessoa mais saudável do mundo, mesmo que agora ela tivesse o cabelo penteado. Seu rosto estava magro e seus lábios secos e rachados, não existia nenhuma cor na suas bochechas, apenas um tom bege e fúnebre cobria todo o rosto por igual, exceto pelas quase pretas olheiras que contornavam os olhos. Os braços por cima da manta que a cobria pareciam mais finos e frágeis do que nunca, a mão parecia levemente enrugada, como se de repente tivesse muito mais pele do que carne naquela região.
- Não. – respondeu Mika simplesmente em um tom triste. – Eu deixarei vocês sozinhos, quando quiser ir embora aperte o botão que fica na cama e eu virei aqui.
Inuyasha não respondeu, mas Mika também não parecia esperar por uma resposta, pois saiu rapidamente do quarto. Ao ouvir o barulho da porta fechando atrás de si, Inuyasha mais uma vez se viu agindo instintivamente e antes que pudesse perceber, ele já mantinha uma das mãos de Kagome entre as suas.
- Você está horrível. – ele sussurrou tentando soar casual.
Para sua surpresa, a mão da garota respondeu seu aperto, apertando-o de volta. Ele olhou para a mão espantando e voltou para o rosto da garota, que abriu muito de leve os olhos. Inuyasha teve outra surpresa ao ver os olhos dela, o azul sempre vibrante e chamativo estava quase morto. A cor era opaca e triste, como se estivesse perdendo a vida. Um sorriso torto formou-se nos lábios de Kagome e ela disse muito baixo:
- É, eu estou horrível.
- Yeah.
Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, Kagome já não apertava mais a mão de Inuyasha, não tinha forças para isso, porém ele continuava segurando-a.
- Qual o problema com você? – ele disse finalmente.
O sorriso morreu nos lábios de Kagome e ela piscou algumas vezes, tentando afastar as lágrimas que agora faziam seus olhos brilharem. Inuyasha não pôde deixar de pensar que aquele brilho não era certo nos olhos dela. Era triste e morto.
- Eu estou morrendo.
Os olhos de Inuyasha arregalaram-se e ele apertou com mais força a mão de Kagome. Ele não entendia porque estava reagindo daquela maneira, nem o que estava acontecendo com ele, mas ouvir aquelas palavras fizeram ele se sentir o ser mais inútil da face da terra. Ele sabia que ouviria aquilo quando perguntasse, assim como ultimamente sempre sabia de certas coisas, mas era diferente ouvir dela.
- Você não está morrendo. – forçou-se a dizer.
- Você está certo, eu não estou morrendo. – disse Kagome fracamente deixando agora as lágrimas escorrerem. – Estão me matando!
- Do que você está falando, Kagome? Eu não estou entendendo. – disse Inuyasha começando a soar mais desesperado do que realmente queria soar.
- Eu te salvei! – ela choramingou. – E isso é proibido. Definitivamente proibido.
- Você não pode estar falando sério!
Kagome balançou a cabeça e virou os olhos para a janela fechada ao seu lado.
- Eu dei meu sangue para você e impedi que um anjo te matasse. Isso é inaceitável. Eu desonrei o que sou, violei todas as regras e princípios de ser um anjo.
- Então porque você fez isso? – Inuyasha explodiu de maneira que nem ele imaginou que faria.
O sorriso torto voltou aos lábios de Kagome, mesmo que ainda escorressem lágrimas silenciosas por seu rosto. Ela virou os rosto para Inuyasha e disse:
- Porque você é meu.
O rosto de Inuyasha adquiriu automaticamente uma expressão de pura confusão e ele sentiu como se a qualquer momento iria ficar vermelho, o que era realmente vergonhoso.
- Eu não sou seu. – ele disse simplesmente.
- É claro que você é. – disse Kagome com um tom de voz muito baixo. – Quando nossa missão é dada, os outros anjos não podem interferir. E como sabe, você é minha missão.
- Isso te torna minha? – disse Inuyasha pela milionésima vez sem pensar.
Dessa vez o sorriso de Kagome era autentico exatamente como os que ela sempre dava por ai, não um torto e sem vida, as lágrimas não escorriam mais, era como se ela tivesse momentaneamente esquecido do seu estado de quase morte. Sua voz, mesmo baixa e fraca saía de maneira divertida.
- Eu imagino que isso seja uma droga. – e ela levantou por poucos segundos a mão que Inuyasha segurava – Essa preocupação toda, eu digo, deve ser uma droga.
- De novo eu não faço idéia do que você está falando.
- Você está ligado a mim agora, por isso veio até aqui me ver e está se preocupando. Mais uma vez, isso deve ser uma droga, como se já não bastasse a atração e o seu sexto sentido bizarro.
- Estou ligado a você?
- É isso ai, garotão. Eu não sei explicar isso direito, porque o que eu fiz é errado e você sabe, nunca ensinam o que acontece quando quebramos as regras, só dizem "blábláblá é muito ruim pra você e para ele blábláblá morte blábláblá não façam e se poupem das conseqüências desagradáveis".
- Você nunca sabe explicar nada! – disse Inuyasha revoltado soltando a mão de Kagome.
- Não, realmente não. – disse Kagome voltando a ficar séria e visivelmente deprimida. – Mas bom, pelo menos você não precisa se preocupar com isso, quando eu morrer você vai se livrar de tudo isso.
- Você não vai morrer, ok? – a voz de Inuyasha era nitidamente irritada.
- Hm, teoricamente, não, não vou. Já que parte de mim está viva em você, o que é tragicamente engraçado.
- Não fale besteiras, você não está viva em mim, nem nada do tipo.
- Você acha que sobreviveu como? Eu dei meu sangue pra você o que significa que eu dei parte da minha própria vida para você agüentar o ataque.
- E é por isso que você está morrendo. – resmungou Inuyasha entre dentes.
- Eu acho que posso dizer que morrer será uma coisa boa no fim das contas, assim eu não tenho tempo para descobrir porque foi que me usaram desse jeito.
- Ahn?
- Seu irmão me falou algumas coisas interessantes da última vez que conversamos, ele me fez pensar. – disse Kagome ignorando a careta de Inuyasha. – Ele me disse que eu estava aqui para te proteger e não te matar, que a Kikyou estava me usando para isso. Hoje eu tive a confirmação. O problema é que te proteger, nesse caso, significa morrer. E eu não acho que ela queira me ver morta. O que torna tudo muito confuso.
- Você está delirando. – disse Inuyasha,
- É, talvez. Não faz sentido a Kikyou me querer viva e te querer vivo, principalmente quando ela nos colocou um do lado do outro. Isso sempre significa morte, não necessariamente a sua, já que você pode me matar.
Inuyasha olhou para Kagome confuso, mas antes que pudesse dizer alguma coisa ela voltou a falar:
- Desculpe, Inuyasha, mas eu vou dormir agora. Eu estou muito cansada...
O hanyou sentiu uma pontada no estomago. Ele não sabia se aquela era uma boa idéia, ele tinha a sensação de que se ela dormisse, ela não iria acordar mais. Ela parecia muito, muito fraca e talvez não tivesse mais forças para voltar.
- Hei, não durma, estamos conversando. Isso é falta de educação! – mais uma vez o tom dele saía mais desesperado do que ele queria.
Os olhos de Kagome se fecharam e ela sorriu.
- Eu fico feliz que você tenha vindo me visitar, mesmo que seja apenas por causa do meu sangue. Eu achei que morreria sem receber nenhuma visita, isso seria triste, não é?
Inuyasha não precisou responder, ela já havia voltado a dormir antes disso. Ele ficou ali mais alguns minutos ouvindo o barulho que as máquinas faziam e provavam que ela ainda estava viva, de alguma maneira o som que antes era irritante tornou-se ridiculamente agradável, ele era uma sinfonia da vida naquele quarto morto. Ele pegou novamente a mão de Kagome e notou que agora estava mais gelada do que antes. Apertou o botão da cama logo em seguida. Ele não podia ficar ali. Ele precisava fazer alguma coisa.
Mika abriu a porta e antes que ela chegasse até a cama, Inuyasha já estava se embolando nas palavras:
- Ela acordou. Você disse que quando isso acontece e ela volta a dormir, ela piora, não é? Mika, ela vai morrer, ela não vai agüentar voltar de novo!
A velha senhora não respondeu, apenas fitou a cena com uma expressão em branco. Virou o rosto para as máquinas que monitoravam a vida de Kagome e suspirou tristemente.
- Eu sinto muito.
O som ainda ecoava a preenchia o quarto, embora Inuyasha soubesse que mesmo longe daquele som ele ainda seria capaz de saber que ela estava viva. Ele simplesmente sabia, assim como sabia que ela não agüentaria muito mais. O hanyou ouvia os gritos da sua mente dizendo que se ele quisesse salva-la precisava se mexer. E rápido.
- Mika, eu preciso sair daqui! – ele disse.
- Sim, eu sei. Venha, eu te levo para o seu quarto.
Inuyasha balançou a cabeça firmemente e encarou os olhos acinzentados de Mika.
- Não. Eu preciso ir atrás de uma pessoa, se eu estiver certo ele vai ser capaz de salva-la.
- Você não pode sair e acredito que se conhece um médico de confiança, você pode usar o nosso telefone e ligar para ele. Ou simplesmente nos dizer seu nome e procuramos por seu número nas nossas listas.
- Ele não é um médico. – disse Inuyasha. – E duvido muito que um médico possa ajudar nessa situação.
- Eu não entendo o que você está dizendo, Inuyasha, mas se você acredita que exista alguém que possa ajuda-la, me diga o nome ou ligue para essa pessoa vir para cá. Você não pode sair.
Inuyasha revirou os olhos impacientemente. Mas que droga era aquela? Porque aquela velha não estava colaborando? Ele estava tentando salvar alguém, alguém que viria a mata-lo no futuro, isso não contava pontos o bastante para convence-la a deixa-lo dar uma bica naquela cadeira idiota e ir correndo buscar ajuda?
- Sinto muito, Inuyasha, você não pode sair.
- Você sente demais. – resmungou Inuyasha enquanto se arrastava para fora do quarto.
Inuyasha se arrastou pelos corredores, tentando achar um jeito de escapar dali, mas parecia impossível e embora odiasse negar, tinha certeza que não conseguiria ir muito longe, embora estivesse acordado e bem melhor, ainda estava fraco e estava sentindo muita fome.
- O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar na cama?
- Miroku! – disse Inuyasha. – Eu preciso de você, você tem que me tirar desse buraco branco!
Miroku encarou Inuyasha como se ele fosse louco. Ele provavelmente estava dopado por causa da quantidade absurda de remédio que estava tomando há dias e não fazia idéia do que estava falando.
- Tirar? Por que eu te tiraria do hospital quando você parece ter sido atropelado por um caminhão?
- Por que eu preciso! – a voz de Inuyasha tinha uma urgência doentia. – Você não entende, ela vai morrer!
- Ela? Do que você está falando? – disse Miroku confirmando sua teoria sobre o amigo estar louco.
- A Kagome! – gritou Inuyasha chamando atenção de enfermeiras que o encararam de maneira repreensiva.
- Inuyasha, ela não vai morrer. – disse Miroku calmamente. – Você não a matou.
- Não, eu não matei, na verdade eu estou matando enquanto tenho essa estúpida e sem sentido conversa com você! – disse Inuyasha. – Miroku, ela me salvou, eu estava morrendo e ela me salvou! E é por isso que ela está assim! Eu preciso sair daqui, preciso ir até alguém!
- Ela não te salvou, Inuyasha, ela tentou te matar. Se a ambulância não tivesse chegado, você estaria morto agora.
Inuyasha soltou um grunhido frustrado e começou a se levantar da cadeira, uma tontura forte fez com que ele se apoiasse na parede. Miroku foi até ele e o ajudou a se agüentar em pé.
- Você precisa se acalmar. Eu vou te levar até seu quarto. – disse Miroku. – Você não precisa se preocupar tanto, eu falei com os médicos, eles já fizeram uma transfusão de sangue e ela deve melhorar logo.
Inuyasha surtou tirando Miroku de perto.
- Miroku! Ela não é humana, que diabo de sangue você acha que enfiaram nela? Se você tivesse pensado um pouco e percebido que ela não me atacou e sim me salvou, teria ido visitá-la e poderia ver claramente, assim como eu, que ela está morrendo!
- Você está falando sério sobre isso? Você não está delirando? – a voz de Miroku começava a sair preocupada e culpada.
- Vá até lá e veja o estado dela então! – resmungou Inuyasha. – Enquanto você faz isso, eu vou arranjar um jeito de sair daqui!
- E você vai pra onde? Você não sabe onde encontrar outros anjos para te ajudarem!
Inuyasha parou alguns minutos e fechou os olhos. Merda, pensou ele, realmente não fazia idéia do que ele precisava, a voz na sua cabeça começou novamente a gritar. Ele abriu os olhos e disse:
- Sesshoumaru. Eu preciso do Sesshoumaru.
-Você não vai conseguir chegar lá em cima de jeito nenhum! – disse Miroku.
Inuyasha ignorou completamente o que Miroku falou e saiu andando, meio cambaleando. Arrancou o acesso que o prendia a uma bolsa de soro pendurada na cadeira. Sorriu aliviado ao passar em frente a um quarto sem nenhuma pessoa, mas com um grande sobretudo pendurado em uma ganchinho na parede. Pegou-o e vestiu por cima do constrangedor vestido de hospital que estava usando. O sobretudo ia até a sua canela, era preto e lembrava aqueles casacos que alguns adolescentes góticos usam mesmo que esteja 40°.
Graças ao casaco, Inuyasha passava por um visitante e agradeceu mentalmente quando conseguiu passar pela porta de entrada sem ser parado. Ao sentir a brisa gelada da rua encher seus pulmões, sentiu uma pontada no peito, como se aquele ar gelado estivesse congelando seus órgãos. Ignorando a dor, ele saiu correndo como sempre fazia, porém meio desengonçado e sem rumo. A tontura bateu forte quando ele saltou e ele achou que cairia no chão e começaria a sangrar de novo, mas a voz na sua cabeça o trouxe de volta á realidade. "Você não pode desmaiar, não agora. Agüente".
Inuyasha continuou correndo e saltando enquanto lutava contra seu próprio corpo que tentando ceder e desmoronar. Ele repetia mentalmente "só falta um pouco, só um pouco". Quanto avistou a mansão de Sesshoumaru foi como se o ar gelado que antes congelava seus pulmões se tornasse levemente mais quente e começasse a derreter o gelo. Antes que pudesse tocar a campainha, Sesshoumaru já estava do lado de fora, encarando-o com dourados olhos semi cerrados.
- Então é verdade, ela está mesmo morrendo. – ele disse e sua voz era fria e dura.
Incapaz de falar devido ao cansaço, Inuyasha apenas confirmou com a cabeça e se apoiou no muro da casa, sugando grande quantidade de ar toda vez que respirava.
- O que você tinha na cabeça para aceitar o sangue dela?
Inuyasha ergueu os olhos que antes estavam focados no chão e percebeu que Sesshoumaru exalava ódio por todo o seu corpo. Respirando fundo e buscando forças onde ele sabia que não existia, ele disse:
- Eu não percebi o que ela estava fazendo até estar feito. E mesmo que eu tivesse percebido, não faria diferença, eu não sabia que ela...
- Morreria? – ofereceu Sesshoumaru. Sua voz continuava fria e dura, mas parecia que a qualquer momento ele começaria a berrar.
Mais uma vez, Inuyasha apenas acenou positivamente com a cabeça e voltou a fitar o chão. Ele realmente odiava Sesshoumaru e ele estava tornando as coisas piores do que já estavam, porque diabos ele achou que seu meio-irmão poderia ajudar? Só por que, talvez, na sua cabeça, Sesshoumaru fosse apaixonado por Kagome e isso fosse o bastante para salva-la? Idiota, ele pensou, só estou perdendo mais tempo aqui.
- Ela está morrendo, Sesshoumaru, podemos discutir os detalhes disso depois? Eu só preciso saber como impedir isso.
- E porque é que você precisa impedir isso? – os olhos de Sesshoumaru eram afiados.
- Porque isso tudo não está certo. É idiota morrer assim, um anjo maluco me ataca, ela entra no meio e morre por causa disso? Não, não pode ser assim.
- Então não é porque você a ama?
Inuyasha voltou a olhar para Sesshoumaru totalmente incrédulo. Eles estavam mesmo tendo aquela conversa enquanto Kagome morria?
- Não, é claro que não. Eu definitivamente não a amo, eu sequer gosto dela! E que diferença isso faz agora, eu quero salva-la, isso não é o bastante?
Sesshoumaru balançou a cabeça.
- Eu espero que seja! Agora, você acha que consegue descer?
- Você está falando sério? – disse Inuyasha incrédulo.
Antes que Inuyasha pudesse começar a reclamar, Sesshoumaru segurou-o pela gola do casaco e o hanyou pôde o vento gelado que antes inflamava seus pulmões agora queimando seu rosto. Sesshoumaru arrastava a uma velocidade incrível de maneira pouco amigável ou confortável, Inuyasha se sentia um pedaço de algo muito indesejado principalmente quando sentia seu corpo bater contra as árvores e percebia que o yokai que o arrastava não fazia nada para evitar o choque. Pelo contrário.
Em poucos segundos eles já estavam em frente ao hospital, ao contrário do que Inuyasha acreditava, Sesshoumaru não o largou, apenas continuou arrastando-o pelos corredores do hospital. Muitas enfermeiras tentaram pará-lo, mas apenas um olhar era o bastante para faze-las mudarem de idéia de saírem do caminho. Sesshoumaru abriu a porta do quarto de Kagome e jogou Inuyasha para dentro. Literalmente. Inuyasha rolou no chão sentindo seu corpo se inundar de dor.
- Vocês dois, para fora. – ele disse apontando para Miroku e Sango.
Os dois se entreolharam e foram até Inuyasha, que ainda estava jogado no chão. Sango cerrou os olhos e disse:
- Não, Sesshoumaru, você não vai matá-los!
Uma risada sem alegria nenhuma ecoou pelo quarto. Sesshoumaru estreitou seus olhos para Sango de forma ameaçadora, mas ela não moveu sequer um músculo.
- Não fale comigo desse jeito, humana estúpida.
- Sesshoumaru, o que você está fazendo aqui? – disse Miroku intervindo.
O yokai caminhou lentamente até Inuyasha e antes que qualquer um pudesse entender o que estava acontecendo, Inuyasha estava tossindo sangue. Sesshoumaru acabara de dar um chute no estomago dele.
- Você ainda quer salva-la? – disse Sesshoumaru ignorando a pergunta de Miroku.
Inuyasha não disse nada, apenas acenou com a cabeça. Sesshoumaru deu outro chute no estomago do hanyou fazendo-o cuspir mais sangue. Sango olhou horrorizada para a cena.
- Pára! Por favor, pára! – gritou Sango entrando no meio dos yokais.
Sesshoumaru apenas empurrou-a para o lado como se ela fosse um inseto irritante e levantou novamente o pé, dessa vez pisando na cabeça de Inuyasha, prensado-a contra o chão.
- E agora, Inuyasha? Você ainda quer salvá-la?
Inuyasha cuspiu mais sangue e não respondeu. Não obtendo resposta, Sesshoumaru colocou mais força na perna e Inuyasha urrou de dor.
- Você é fraco! – Sesshoumaru disse furiosamente dando outro chute nele. – Ela agüentou muito mais e ainda está agüentando por sua culpa! Você não merece a vida que ela te deu!
Sango começou a chorar freneticamente, se encolhendo no canto do quarto.
- Você vai matá-lo! – disse Miroku desesperado.
- E é o que ele merece! – gritou Sesshoumaru erguendo o tom de voz pela primeira vez. – Ela está morrendo por causa da fraqueza dele! – e ele deu outro chute que pareceu mais forte do que todos os outros. – E ele ainda tem a ousadia de dizer que quer salva-la! Fraco. – outro chute. – Egoísta. – outro chute. – Patético. – outro chute.
Inuyasha cuspiu mais sangue e se curvou no chão em uma posição feral. Impedido de chuta-lo, Sesshoumaru voltou a pisar na cabeça dele.
- E então, o que você me diz, Inuyasha. Você ainda acha que pode salva-la?
Uma voz explodiu dentro da cabeça de Inuyasha gritando que não, ele não podia salva-la. Ele era ridículo, não existia maneira de ser capaz de salvar alguém, ele sequer fazia idéia do que faria para salvar Kagome. Inuyasha arregalou os olhos ao perceber que o som dos aparelhos não ecoava mais na sala, um desespero se apossou dele? Há quanto tempo eles estavam em silêncio? "Ela morreu! Ela morreu" gritava a sua mente.
- SAÍA DE CIMA DE MIM, SESSHOUMARU!
Inuyasha encontrou força onde ele sabia que não existia e começou a levantar, fazendo Sesshoumaru tirar o pé de sua cabeça, antes que caísse. Ele correu até a cama de Kagome e olhou-a. Estava imóvel. Ele desviou os olhos, mas sentiu uma mão virando sua cabeça novamente para Kagome.
- Encare o que você e sua fraqueza fizeram! – disse Sesshoumaru.
- Não era pra ser assim. – murmurou Inuyasha.
Sango soltou um grito desesperado e Miroku correu parando ao seu lado e abraçou-a, dizendo para ela se acalmar, repetindo que tudo ficaria bem. Mas a verdade é que todos sabiam que as coisas estavam bem longe de ficarem bem. Kagome estava morta e parecia que nada iria mudar aquilo.
Olá! :D Desculpem o atraso, eu me afundei em alguns livros essa semana e acabei não tendo tempo de escrever. O que de certa forma foi bom, porque eu estava com um branco TERRÍVEL e só consegui escrever esse capítulo por influencia dos livros. Todos eles são de vampiro, então, isso explica qual a do sangue e tudo o mais. Antes que me perguntem, não. A Kagome não é uma vampira, não existem vampiros na minha fic :) A relação do sangue aqui será explicada mais para frente! Outra coisa, não. A fic não acabou, estamos longe disso! Hehe! :D Posso dizer que estamos na metade, então, parabéns para nós! \o/
Bia Yang: HAUISHUIAHSIUHS É, digamos que eu gosto MUITO de escrever. E não só fics, todo tipo de coisa, escrever é uma delicia! s2 Sobre a Kagome e o problema dela para amar, veja as coisas por esse ponto: o que a Kagome diz não é muito confiável! XD Triste, mas verdade. Quero dizer, veja... Ela ama o Miroku e a Sango, não ama? :) O problema é que ela foi criada no meio de muitas lendas e mentiras, então é muito dificil saber o que é realmente verdade ou o que fizeram que ela acreditasse que era verdade. Quando tiver dúvidas sobre algo, acredite sempre no Sesshoumaru, apesar de tudo, ele é a pessoa mais confiável! XD E claro, obrigada por acompanhar a fic e gostar *_*
Izabela17: Own *-* Seja bem vinda e muito obrigada pela review, eu fico muito, muito feliz em saber que você está gostando dessa minha maluquice toda, inclusive dos "novos Kagome e Inuyasha' XDDD
Maah: Ooi querida! Está anotadinho aqui, logo mais sua fic sai! *-* Sabe, acho que o lado bom de ir viajar e voltar e encontrar atualizações em fic é que podemos ler tudo de uma vez e não ficar esperando! Eu tenho uma agonia em esperar! Se eu pudesse, escreveria TUDO de uma vez, pra não deixar vocês esperando! ;_;
Foxgirl-chan: Bem vinda :3 Obrigada pela review e pelo elogio *-* É bom saber que alguém acha que eu escrevo bem, mesmo com toda essa confusão que a fic é! XD
Então, é isso pessoas. Espero demorar menos dessa vez pra atualizar. Obrigada pelas reviews, pelas visitas e pelo incentivo ;_; Vocês são uns amores!
