Capítulo 13 - Dois mundos


- Você acha que chorar vai ajudar em alguma coisa?

A voz de Sesshoumaru soou cruel e desprovida de emoções no quarto, quebrando a sinfonia de soluços que Sango estava soltando. Ele ainda segurava a cabeça de Inuyasha na direção do corpo de Kagome, embora o hanyou se esforçasse para desviar seus olhos daquela cena. Miroku estava sentado no chão ao lado de Sango, abraçando-a de maneira protetora, ele pôde sentir a garota tremer contra o seu corpo quando Sesshoumaru a encarou com aqueles olhos dourados.

- Por que é que ninguém foi atrás de um médico ainda? – disse o yokai. – Tragam logo um médico, antes que seja tarde, seus inúteis!

Inuyasha fez menção de sair correndo atrás de um médico, mas Sesshoumaru segurou seu braço, não se importando em não enfiar suas garras enquanto fazia isso.

- Você fica. – ele rosnou e logo gritou. – Andem!

Como se Sango finalmente entendesse o que estava acontecendo, ela piscou algumas vezes e chacoalhou a cabeça.

- Um médico! – ela berrou enquanto se levantava e começava a cambalear pelo quarto.

Miroku levantou-se e saiu atrás de Sango, os gritos desesperados dela ecoavam por todo o hospital.

- Ela está morta! Alguém, pelo amor de Deus, me ajude! Um médico, alguém! Qualquer um!

Antes que Inuyasha pudesse assimilar o que estava acontecendo, ele já estava sendo empurrado para o canto, junto com Sesshoumaru. O quarto de Kagome estava sendo invadido por três homens vestidos de azul, carregando grandes equipamentos médicos.

- Para fora! – um deles gritou para os dois enquanto já tirava o cobertor que cobria Kagome e usava o desfibrilador*.

Inuyasha sentiu seu corpo mais uma vez sendo arrastado, mas não precisou olhar para ver o que acontecia. Sesshoumaru estava puxando-o para fora e quando cruzou a porta, jogou-o contra a parede.

- Qual o problema com você? – explodiu Inuyasha.

Sesshoumaru cerrou os olhos e aproveitou que o hanyou ainda estava tentando se levantar e deu outro chute no estômago dele. Inuyasha se curvou para frente, tossindo e cuspindo mais sangue.

- Você não faz idéia da gravidade dessa situação! – disse Sesshoumaru entre dentes.

Por um instante Inuyasha achou ter sentido preocupação na voz de Sesshoumaru, mas a idéia do yokai se preocupar com qualquer coisa que fosse, além dele mesmo, era tão irreal que Inuyasha resolveu acreditar que aquilo era efeito dos remédios e de todas as batidas que tinha levado na cabeça.

Sesshoumaru encarou a porta fechada do quarto de Kagome. Mesmo que não estivesse mais dentro do quarto, ele sabia exatamente o que estavam fazendo lá dentro, as tentativas de trazerem Kagome de volta à vida soavam tão alto que parecia que o hospital e até mesmo o mundo estavam em silêncio esperando que ela voltasse.

- Um, dois, três! – e o som do desfibrilador ecoava. – Sem retorno ainda! De novo! Um, dois, três!

Inuyasha sentiu seu estômago doer quando percebeu que embora eles estivessem tentando, nada mudava dentro dele. Ele sabia que se Kagome estivesse viva ele sentiria, mas apesar de todos os esforços que estavam fazendo, o vazio dentro dele continuava e a cada segundo parecia apenas crescer. Encostou na parede e tossiu mais um punhado de sangue. "Merda" pensou.


Kagome abriu os olhos e precisou fechá-los novamente devido à claridade. Apesar do choque de se deparar com toda aquela luz, ela pôde notar algo de um azul profundo na sua visão, concluiu que aquilo certamente seria o céu, afinal era capaz de sentir a grama pinicando seu corpo. Espera, grama? Kagome abriu novamente os olhos, deixando-os semi cerrados e olhou ao redor.

- Ah, merda, eu morri mesmo.

A garota estava deitada em algo que parecia ser um jardim. Ela podia ouvir pássaros e água corrente não muito longe dali, sentia um cheiro forte de algo que lembrava lírios. Era doce e naquelas circunstâncias, um tanto quanto enjoativo. Existiam muitas árvores frutíferas e flores espalhadas. Kagome revirou os olhos.

- Isso só pode ser brincadeira.

- Kagome!

Uma voz feminina e completamente animada ecoou quebrando o silêncio e tomando lugar dos pássaros. A voz era doce e muito amigável, mas Kagome tinha certeza que nunca a ouvira antes. Ela sentou-se na grama e procurou pela dona da voz.

- Eu estou aqui!

Kagome ergueu os olhos e deparou-se com uma mulher sentada no galho de uma árvore. Ela parecia ser só um pouco mais velha, deveria ter uns 22 anos no máximo. Seu cabelo era negro e cheio, com leves ondulações na ponta. O rosto era meio infantil e seus olhos eram azuis, iguais aos de Kagome. A garota não pôde deixar de notar a semelhança entre aquela mulher e ela mesma.

- Desculpe, mas quem é você?

A mulher pulou graciosamente do galho e pareceu flutuar até o chão, ela não parecia ser muito alta e era bem magra. Usava um vestido branco simples e bem leve e nada nos pés. Caminhou sorridentemente até Kagome e sentou-se ao seu lado.

- Não se preocupe, eu deveria ter me apresentado antes, é que eu fiquei tão feliz em te conhecer que esqueci dos bons modos. – e ela sorriu graciosamente. – Eu sou a Rin, muito prazer.

- Prazer. – respondeu Kagome parecendo verdadeiramente confusa. – Você poderia me dizer por que eu estou no jardim do Sesshoumaru? Quero dizer, eu morri, não é? Eu duvido que o céu fique nos fundos daquela mansão destruída.

Rin soltou uma gargalhada que fez com que Kagome se sentisse envergonhada por ter perguntado aquilo.

- Aquela velha mansão realmente já teve dias melhores. – ela disse divertidamente. – E bom, esse jardim não é do Sesshoumaru. Ele é meu.

Kagome arqueou a sobrancelha e olhou ao redor. Ela poderia estar morta, mas não louca. Aquele definitivamente era o jardim de Sesshoumaru, ela reconhecia a estátua com o jarro, a mesa de ferro, as árvores e até mesmo aquela pseudo decoração feita com flores.

- Rin, esse jardim é do Sesshoumaru. Eu estive lá há poucos dias, eu tenho certeza disso.

- Se torna mais fácil para você aceitar que não estamos na casa do Sesshoumaru, esse lugar aqui não fica no mesmo plano que você acredita estar. – disse Rin bondosamente. – Ou seja, o jardim pode ser exatamente igual, mas não é o mesmo.

- Ah, merda, eu achei que você pudesse me dizer que eu estava viva. – disse Kagome. – Se estamos em outro lugar do mundo e esse não é o jardim do Sesshoumaru, onde estamos?

- Desculpe, não posso explicar isso. Na verdade, eu tenho um pedido a fazer. Por favor, evite fazer muitas perguntas. Você acha que pode fazer isso? – disse Rin.

Kagome deu de ombros.

- Eu já estou morta mesmo, devo ficar muito tempo aqui. Um dia eu descubro aonde vim parar.

- Devo confessar que adoraria sua companhia, mas espero sinceramente que você não precise ficar muito tempo aqui.

- Deixe-me ver se adivinho... – disse Kagome revirando os olhos. – Eu não posso perguntar o que você quis dizer com isso.

Rin sorriu.

- Eu agradeceria se não perguntasse.

- Está certo então.

As duas ficaram em silêncio alguns minutos. Ou talvez horas. A verdade é que Kagome não tinha muita noção de tempo naquele lugar. O céu parecia uma pintura, pois mesmo que ela sentisse uma brisa quente no seu rosto, as nuvens não se moviam um centímetro sequer. "Estranho", ela pensou olhando ao redor. Procurando por algum sinal de vida além das duas, Kagome encontrou os olhos de Rin e resolveu quebrar o silêncio.

- Você é como eu, não é? – Kagome achou que soaria estranho perguntar se ela era um anjo estando em um lugar que ela achava ser o céu.

- Sim, exatamente como você. – ela disse em um tom orgulhoso. – Então você também notou nossas semelhanças!

- Você também acha que somos parecidas? – disse Kagome.

- É claro! Antigamente eu parecia mais ainda, mas como eu fiquei um pouco mais velha, as diferenças se tornaram mais visíveis.

- Anjos não envelhecem.

Rin sorriu.

- É, não envelhecem. – seu tom era divertido, como se ela não estivesse concordando de verdade, só terminando o assunto. – Sabia que não fomos as únicas a perceber essa semelhança?

Ok, Rin era simpática e muito agradável. Estava sendo uma boa companhia naquele lugar estranho, mas ela não parecia bater muito bem da cabeça. Ela provavelmente tinha morrido antes de Kagome nascer e não havia mais ninguém ali além delas. Nesse momento Kagome teve uma sensação de déja-vu. Onde mesmo ela tinha vivido aquilo?

Não obtendo resposta, Rin voltou a falar, não parecendo nenhum pouco abalada com o silêncio de Kagome.

- Na verdade, ele foi o primeiro a notar. O que me deixou muito, muito feliz, afinal, isso mostra que ele se lembra de mim exatamente como eu sou. Achei que depois de todos esses anos ele talvez pudesse ter esquecido do meu rosto.

- Ele, no caso, é o Sesshoumaru? – disse Kagome lembrando-se da onde vinha a sensação de já ter visto aquilo antes. Ela tivera a mesma impressão sobre Sesshoumaru ser completamente maluco e teve certeza após ele começar a falar sobre uma pessoa que definitivamente não estava ali. O que tornava tudo mais ridículo é que o lugar era, basicamente, o mesmo: aquele jardim.

Rin abriu o sorriso mais verdadeiro e brilhante que já soltara desde que se encontraram e acenou positivamente.

- E como é que você sabe que ele nos acha parecidas? – disse Kagome tentando afastar de sua mente o quão estranha era aquela alegria. Rin era um anjo, Sesshoumaru um yokai. Não existia alegria nisso.

- Digamos que ele consegue notar bastante os sinais que envio para ele. E eu, como estou aqui, posso saber sem problemas tudo o que se passa lá com vocês. – disse Rin.

- Então você sabe o que está acontecendo com a Kikyou e o que ela quer de mim! – disse Kagome automaticamente.

O rosto de Rin se fechou ao ouvir aquele nome, mas ela logo notou a mudança na suas feições e se forçou a sorrir de novo.

- Desculpe, não posso falar sobre isso.

Kagome suspirou e jogou seu corpo para trás e deitou-se na grama.

- Algo muito errado está acontecendo lá em baixo... Espera, é certo dizer lá em baixo? – disse Kagome confusa.

Rin começou a rir e disse:

- Pra falar a verdade, eu sempre me perguntei isso. Mas nunca soube a reposta, então, meio que resolvi que é melhor não falar isso. Vai que não é em baixo, eu me sentiria meio idiota falando errado.

- É, eu sei como você se sente. – disse Kagome balançando a cabeça demonstrando compreensão. – Enfim, não importa se é em baixo ou não, a única coisa que eu sei é que eu não deveria estar aqui.

- Não, você não deveria. – concordou Rin.

- Bom, como eu li em um livro certa vez, "A vida é uma droga e então, você morre"*.

- A vida não é uma droga, morrer é que é. – disse Rin sem sombra nenhuma de dor na sua voz.

- É, nessas circunstancias, sou obrigada a concordar com você. – disse Kagome. – Desculpe a pergunta, mas você morreu faz tempo?

- Hm, provavelmente.

Kagome abriu a boca em um bocejo, estava sentindo-se levemente sonolenta, mas não estava disposta a dormir ainda, por isso se forçou a continuar a conversar. Rin olhou-a pelo canto do olho, notando o sono dela, mas não comentou sobre aquilo.

- Nós não somos anjos de verdade, não é? – perguntou Kagome.

- Bom, você não é. – disse Rin rindo. – E nem as outras lá de baixo. Ou lá de cima. Ou seja lá onde elas estão agora.

- E você não me diria o que eu sou na verdade, não é?

Rin acenou negativamente com a cabeça.

- Desculpe. – ela disse sinceramente.

- Como era quando você estava viva? – Kagome parecia relutante em tocar naquele assunto. E se fosse doloroso para ela falar sobre quando estava viva?

- Imagino que você esteja perguntando sobre como funcionavam as coisas quando eu era um anjo. – disse Rin.

Kagome concordou com a cabeça.

- Os tempos eram outros, bem diferentes de agora. – disse Rin. E Kagome lembrou que ela provavelmente era cinco vezes mais velha do que aparentava ser, fora todo o tempo em que viveu nesse lugar. – Mas era tudo igual. Como o Sesshoumaru disse a base de tudo o que elas são e acreditam vem de lendas e superstições muito antigas e quando eu vivia não era muito diferente de como é agora.

Kagome notou que Rin se dirigia aos anjos como "elas" e não "nós", mas o motivo, quem sabe, era porque ela estava morta e não era mais um anjo. Ou melhor, ela provavelmente era um anjo agora, mais do que já fora enquanto era viva.

- E você nunca sentiu como se, ahn, não sei, fosse obrigada a viver uma vida que não era sua?

Rin examinou Kagome por alguns minutos e virou seu rosto para o céu, mas não respondeu. Quando a garota estava desistindo de receber uma resposta, Rin disse:

- Essa é uma pergunta complicada. Obrigada é uma palavra muito forte, mas eu precisei, sim, muitas vezes fazer coisas que eu não queria fazer, mas que eu precisava fazer devido ao que eu era. Eu gostava muito dos humanos, e ainda gosto, e continuar seguindo as ordens que me eram dadas foi uma escolha minha.

Kagome sorriu.

- Eu entendo como você se sente. – ela disse.

- Eu sei que sim. – disse Rin respondendo o sorriso.

- Sabe? Eu não estou reclamando de ter nascido assim e de ter de dedicar minha vida aos humanos, mas é que às vezes me parece tão injusto que eu não possa ter escolhas, que eu só tenha um único caminho a seguir. Elas dizem que eu sou livre, mas não existe liberdade quando suas escolhas se resumem a uma única opção. – disse Kagome.

- Quando você acredita que por ser o que é não existem outras opções você simplesmente as torna impossível de se enxergar, porém não estarem visíveis aos seus olhos, não significa que não existam. Todos têm opções, Kagome, mas isso não significa que as escolhas que surgem no caminho sejam sempre fáceis.

O tom dela era maternal, era como estar falando com uma mãe muito sábia e carinhosa. A voz de Rin não tinha nenhum julgamento, nenhuma superioridade, nenhuma censura, era suave e verdadeira, assim como os sorrisos que ela demonstrara desde que encontrava Kagome.

- A teoria é muito bonita. – disse Kagome. – Mas na prática não funciona assim. Quero dizer, eu poderia ter deixado o Inuyasha se afogando no próprio sangue, minha opção naquele momento era deixar que outro anjo cumprisse a missão que era minha ou salvá-lo. Eu escolhi salvá-lo e olha onde eu estou.

- Como eu disse, nem sempre o caminho é fácil. – disse Rin.

Kagome encarou Rin e notou uma sombra nos brilhantes olhos azuis e então ela entendeu. Rin deveria ter morrido pelo mesmo motivo. Ela deveria ter escolhido o caminho que levava à morte, o que era totalmente compressível, quando se é um anjo suas escolhas se limitam a cumprir ordens ou morrer.

- Ele nunca é fácil. – disse Kagome.

A sombra sumiu completamente dos olhos de Rin quando ela sorriu e virou seu rosto para Kagome.

- Mas às vezes vale muito a pena. Eu espero que você consiga entender isso um dia.

Kagome bocejou de novo e deu um sorriso tímido ao perceber a feição curiosa de Rin.

- Eu estou com muito, muito sono, não sei de onde ele veio, mas eu realmente preciso dormir. Você se importa se eu dormir um pouco?

- Sono é um bom sinal e querer dormir é melhor ainda – disse Rin sorrindo tão radiante quanto da vez em que ela mencionara Sesshoumaru.

- Certo, então. E desculpe por isso, eu queria continuar a conversar.

- Não se preocupe, você deve dormir. Eu estarei aqui.

Kagome sorriu e em um piscar de olhos o lugar que antes parecia um dia ensolarado de verão se tornou uma noite fresca. O céu estava negro com uma lua cheia enorme e brilhante, rodeada de pequenas e cintilantes estrelas. Kagome anotou mentalmente que deveria perguntar para Rin o que havia acontecido, mas só quando acordasse. E pensando nisso, Kagome adormeceu.


Inuyasha pulou no chão, parecia que seu corpo estava queimando por dentro, mas a sensação não era ruim. Não era algo que trazia dor, pelo contrário, era como se todo o sangue do seu corpo estivesse revigorado e tivesse uma força que antes não existia ali, como se finalmente seu coração estivesse funcionando e trazendo vida para seu corpo. Ele não precisou esperar a porta do quarto de Kagome abrir para saber o que eles tinham a dizer. Ela estava viva ou pelo menos era isso que seu corpo inteiro estava tentando lhe dizer.

Sesshoumaru olhou para o hanyou com o canto do olho e voltou os olhos para a porta. Como Inuyasha sabia que aconteceria, os médicos saíram um por um do quarto de Kagome, os três pareciam cansados. Eles tinham ficado dez minutos tentando reanimar Kagome, intercalando o desfibrilador com massagens cardíacas, o que é um tempo absurdo para tentar reanimar alguém. Um dos médicos parou em frente à Sesshoumaru e disse:

- Você é parente dela?

- Não.

- Namorado?

- Não.

- Amigo?

- Não.

- Conhece alguém maior de idade que possa se responsabilizar por ela? A situação é delicada e não posso agir sem um responsável.

- Eu me responsabilizo. – disse Sesshoumaru. – O que está acontecendo?

Inuyasha se apoiou na parede e tentou se levantar, ele precisava ouvir o que estava acontecendo com Kagome. O sentimento que queimava dele há poucos minutos atrás começava a diminuir e ele não gostava nada daquilo.

Como se o médico finalmente notasse o estado de Inuyasha, ele tirou a atenção de Sesshoumaru e disse:

- Rapaz! O que aconteceu com você? Por que você não está sendo atendido? Enfermeira. – ele gritou. – Eu preciso de uma cadeira de rodas aqui!

- Ele está ótimo. – disse Sesshoumaru ameaçadoramente. – Não precisa de atendimento.

- Como não precisa de atendimento? – retrucou o médico.

Inuyasha não fazia idéia de como se parecia, mas pela reação do médico, sua imagem não era das melhores. Ele não se sentia dos melhores. Seu corpo inteiro doía, principalmente a cabeça e o estômago. Sentia um leve inchaço no olho esquerdo, resultado da cabeçada que tinha dado em uma árvore no caminho, sabia que tinha sangue espalhado pelo rosto porque sentia o liquido gelado começando a secar, mas não fazia idéia onde o corte estava. A poça de sangue no chão provavelmente não ajudaria a convencer o médico de que ele estava bem, afinal de contas, ele não estava.

- Ele tem razão, isso não importa agora. – disse Inuyasha. – E a Kagome? Como ela está? Ela vai sobreviver, não é?

O médico respirou fundo.

- Nós conseguimos reanima-la. – ele disse. – Mas como eu disse, a situação é delicada, eu preciso conversar com o responsável por ela. A sós.

Sesshoumaru balançou negativamente a cabeça e disse:

- Não, pode falar aqui mesmo. Ele precisa saber os danos que causou.

O médico olhou para Inuyasha e depois para Sesshoumaru. Ele não entendia o que acontecia ali, mas não havia tempo para entender, ele precisava explicar a situação para então poder tomar as providências.

- Como eu disse, nós a trouxemos de volta. – ele disse. – Porém, ela está em coma. Nós não sabemos por quanto tempo ela ficará assim ou se ela irá acordar um dia.

O rosto de Inuyasha se contorceu ao ouvir aquilo.

- E mesmo que ela acorde, eu não saberia te dizer o quanto dela voltaria.

- O que você quer dizer com isso? – disse Inuyasha.

- O cérebro precisa constantemente ser oxigenado, se ocorre uma interrupção nos batimentos cardíacos a pessoa primeiro perde a consciência devido à parada de circulação sangüínea cerebral. No caso da Kagome, nós precisamos reanimá-la, o que significa que não a circulação dela não voltou espontaneamente.

- Eu sei como funciona a circulação. – resmungou Inuyasha. – Pode explicar logo qual o problema?

- Se você entendesse sobre a circulação teria entendido sem que eu precisasse explicar. – disse o médico.

- Quão ruim é? – disse Sesshoumaru.

- Ela ter voltado é considerado um milagre. – disse o médico. – Nós ficamos uns 15 minutos lá dentro tentando reanima-la, mesmo sabendo que após 10 minutos de ausência de circulação as chances de ressuscitação são próximas à zero.

Inuyasha olhou de Sesshoumaru para o médico e arregalou os olhos.

- Você não está dizendo que o dano foi no cérebro, não é?

O médico assentiu positivamente.

- A lesão cerebral começa a ocorrer em cerca de três minutos após a parada cardíaca, nós levamos 15 para trazê-la de volta. Os danos causados ao cérebro são incalculáveis. Como eu disse, eu não posso dizer se ela irá acordar um dia e nem como ela estará quando acordar.

Inuyasha sentiu seu corpo tremer e seus órgãos se embolarem de forma dolorosa. Sesshoumaru lançou um olhar gélido para o hanyou e falou:

- Pronto, ele já ouviu o que eu queria que ouvisse, se achar que devemos conversar em um lugar mais reservado eu te acompanho.

- Certo, eu só preciso me certificar que esse rapaz seja internado. – disse o médico olhando impacientemente para os lados em busca da enfermeira que ele tinha chamado.

- Ele não precisa de um médico. – disse Sesshoumaru autoritariamente. – E você não gostaria de me contrariar, não é mesmo? Acho que ainda não me apresentei, meu nome é Sesshoumaru e você quem é, doutor?

A expressão do médico mudou ao ouvir o nome de Sesshoumaru. Até mesmo Inuyasha, que evitava ouvir qualquer história sobre o irmão sabia que ele tinha fama. E a fama não era das melhores. Ninguém sabia ao certo o porquê dele ter se isolado e na verdade, ninguém parecia muito interessado em descobrir, o que eles sabiam sobre Sesshoumaru já era o bastante. Ele já havia destruído cidades inteiras, matado milhares de pessoas, humilhado zilhões de yokais. Ele definitivamente não era alguém que as pessoas gostariam de contrariar.

- H-hidan. – gaguejou o médico e virou-se para Inuyasha. –. Você vá se limpar antes que alguém resolva te examinar, depois encontre seus amigos na sala de espera.

- Fique longe desse quarto.

Após dizer isso, Sesshoumaru saiu andando, sendo seguido pelo médico. Inuyasha encarou a porta fechada à sua frente ainda sentindo aquele pequeno calor que ele agora sabia ser a vida de Kagome. Ela estava viva, de alguma forma ela conseguira voltar, mas ela poderia ser considerada viva no estado em que estava? E se ela não acordasse nunca? E se acordasse e não fosse mais aquela garota irritante e metida a saber tudo? O que ele faria?

Inuyasha balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos da sua cabeça.

- Merda de instinto. Merda de sangue. Merda de ligação estúpida.


Kagome sentia-se cansada. Ela ainda estava dormindo, sabia disso, afinal ouvira vozes masculinas e elas só poderiam ser parte de algum sonho. Ela sentia cheiro de grama, o que significava que ela não tinha saído de onde estava – seja lá onde isso era. E pelo o que ela lembrava, só ela e Rin estavam ali naquele lugar.

A garota tinha consciência dos sons ao seu redor, dos cheiros, mas seus olhos estavam fechados e ela sabia que ainda não despertara. Era uma sensação muito estranha essa de dormir, mas ainda ser capaz de perceber tudo o que acontecia ao seu redor. Mais uma vez, ela não era capaz de notar o tempo, ela não sabia se ficara poucos segundos ou horas experimentando aquela nova sensação e só conseguiu abrir os olhos quando sentiu o toque suave de Rin no seu braço.

- Desculpe, eu dormi muito tempo? – disse Kagome.

- Tempo? – disse Rin sorrindo. – Tempo não existe aqui.

- Isso é ao mesmo tempo esclarecedor e... Bizarro. – disse Kagome.

Kagome sentou-se e começou a alisar o cabelo, tentando arruma-lo, mas parou subitamente. Olhou ao redor, piscou algumas vezes e juntou as sobrancelhas.

- Onde é que nós estamos?

Rin imitou o movimento de Kagome olhando ao redor.

- Podemos dizer que esse é o seu jardim. – disse a mulher sorrindo.

- Jardim? Você chama isso de jardim? – disse Kagome.

Ao contrário de onde adormecera, aquela lugar mais parecia uma mata fechada. A grama era alta e as árvores se amontoavam uma em cima da outra. As flores que cresciam no chão não tinham um padrão, eram de vários tamanhos e espécies diferentes, um turbilhão de cores e formas se destacando de todo o verde que dominava a paisagem.

- Bom, era para ser. – disse Rin de forma divertida.

Kagome balançou a cabeça e então olhou para o céu.

- Como é que você fez isso? Estava dia e em um segundo depois estava noite!

- O tempo não existe aqui, logo, noite ou dia não faz diferença. Essa noção de tempo é irrelevante onde estamos.

- Isso não faz sentido.

- Ah, é confuso mesmo. Mas acho que é mais ou menos como viver no infinito, não existe nada antes, nem depois, o que você está vendo se estende de maneira contínua. Um minuto ou uma hora vão ter exatamente a mesma duração aqui: nenhuma.

- Eu já disse antes, mas isso realmente, realmente não faz sentido nenhum pra mim. – disse Kagome.

Rin começou a rir.

- É, pra mim também não. – ela disse. – Hei, quer tentar algo legal?

Kagome olhou-a de maneira curiosa.

- Imagine que está um dia nublado!

A garota olhou para Rin e depois para o céu e então fechou os olhos. Começou a imaginar o sol encoberto por nuvens escuras e pesadas, relâmpagos brilhando e iluminando sinistramente o céu e o som de trovões. E foi exatamente esse som que fez com que ela abrisse os olhos.

- Legal, não é? – disse Rin.

O céu que antes estampava uma noite limpa e mantinha uma brisa morna, ficou carregado e o ar ficou úmido, relâmpagos iluminavam o rosto das duas de vez em quando e era possível ouvir o som de trovões ecoando. Kagome apenas sorriu.

- Por que meu jardim mais parece a Amazônia? – ela perguntou soando levemente emburrada. – O seu é lindo. Não quero viver no meio do mato.

- Isso tem a ver com a sua mente. – disse Rin pensativa. – Mas acho que não posso falar sobre isso também.

- Por que você não pode me explicar as coisas? Que diferença faz se eu souber ou não? – disse Kagome.

- Acredite, faz muita diferença, é só que hoje você não é capaz de perceber isso.

Kagome fez um barulho impaciente com a boca e levantou-se. Rin continuou sentada olhando-a de maneira curiosa. As duas ficaram em silêncio e mais uma vez Kagome não sabia dizer se o silêncio realmente existira por horas, enquanto ela caminhava e explorava o que era para ser seu jardim, ou alguns segundos entre uma palavra e outra.

- Eu me preocupo muito com você, Kagome. E eu não acho justo o que fizeram com você.

Kagome seguiu o som da voz de Rin e voltou para onde ela ainda encontrava-se sentada olhando distraidamente para alguns gira-sóis. Ao perceber a garota perto de si, Rin desviou os olhos das flores e fitou Kagome bondosamente, novamente ela parecia emitir uma aura maternal.

- Tudo bem, acho que um dia me acostumo com a idéia de estar, hm, morta. – disse Kagome parecendo levemente sem graça.- Não é tão ruim e acho que vou me ocupar por algum tempo arrumando isso tudo.

- Não é sobre isso que eu estou falando e mesmo se fosse; você estaria errada. Ao contrário do tempo, seu jardim não pode ser alterado, não daqui pelo menos.

- Imagino que não possa perguntar o que isso significa, certo? – disse Kagome.

- Mais ou menos. – disse Rin sorrindo. – O que eu quis dizer é que quando morremos não podemos mais alterar o nosso jardim. Ou seja, onde estamos é impossível mudar qualquer coisa além do tempo. E nossas roupas.

Kagome arqueou a sobrancelha e finalmente olhou para si mesmo, lembrando de reparar na roupa que estava usando. Isso sequer havia passado por sua cabeça. Ela usava um vestido lilás na altura do joelho, com mangas que cobriam os ombros, era bordado com desenhos que lembravam flores e assim como Rin, não usava nada nos pés.

- Da onde isso saiu?

- Acho que é a roupa padrão desse lugar, não sei sobre isso também. Quando acordei aqui vestia algo muito similar, ainda hoje eu visto como você pode ver.

Kagome sentou-se novamente e começou a brincando com uma flor de cor roxa.

- Rin, o que eu faço agora que não estou mais lá com eles?

A mulher não respondeu por alguns minutos, imitando os movimentos de Kagome com a flor. Após tirar todas as pétalas, ela disse:

- Você espera.

Kagome suspirou, era exatamente essa resposta que ela temia receber.


Sango deixou o peso do seu corpo puxá-la para baixo, encontrando como apoio o sofá da sala de espera. Miroku continuou em pé olhando para Inuyasha.

- Você só pode estar brincando. – ele disse incrédulo.

Inuyasha apenas balançou a cabeça negativamente. Ele acabara de contar a Sango e Miroku o que ouvira do médico há poucos minutos, explicando tudo o que conseguira lembrar.

- Isso não é possível. – respondeu Miroku tentando soar de forma sensata. – Não foi algo tão sério assim, você sobreviveu, por que com ela seria diferente? Me diga, Inuyasha, o que é que realmente aconteceu lá depois que fomos embora?

- Um anjo me atacou. E ao contrário do que vocês dois acharam, não foi a Kagome a fazer isso, ela me salvou e é por isso que está nesse estado. Antes de ela dormir ela me explicou que ao me salvar violou alguma regra idiota e eu não sei por que, mas ela começou a morrer por causa disso.

Um som alto ecoou e os dois se viraram e olharam para o sofá, onde Sango choramingava e parecia prestes a ter uma crise nervosa. A garota ergueu os olhos cheios de lágrimas na direção de Inuyasha e começou a falar por entre os soluços:

- Eu não sabia, eu juro que não sabia! Se eu soubesse teria ficado do lado dela esse tempo todo, oh Deus, ela acordou tantas vezes e ficou sozinha naquele quarto e eu não fiz nada, eu sequer fui perguntar a ela o que tinha acontecido. E agora... E agora...

Ela não conseguiu terminar a frase, voltando a chorar alto e desesperadamente. Miroku sentou-se ao lado dela e abraçou-a, tentando acalma-la, mas ela parecia longe disso. Sango tremia e resmungava coisas desconexas.

- Inuyasha, por que é que você não está no seu quarto? – disse Miroku notando o estado do amigo.

- Porque eu não faço idéia do que o Sesshoumaru vai fazer se eu voltar para lá! Ele ameaçou o médico que falou que eu deveria ir para o quarto! – explicou Inuyasha.

- Ele está completamente louco. – disse Miroku.

- É, eu sei. Miroku, eu preciso de roupas limpas, você acha que consegue pra mim?

Miroku olhou para Sango nos seus braços e então para Inuyasha, seu rosto mostrava claramente que ele não queria sair dali, mas ele apenas concordou.

- Hei, eu já volto, está bem?

Sango parecia não ter muita noção do que acontecia ao seu redor, pois ela sequer respondeu o que Miroku disse e não notou quando ele se levantou e saiu da sala de espera. Inuyasha olhou para a garota, que mantinha os olhos focados em algo que ele não conseguia ver, e suspirou indo sentar em um dos sofás. Ele deu um pulo quando ouviu a voz esganiçada de Sango depois de quase cinco minutos de silêncio.

- Ela vai ficar bem, não vai?

Inuyasha quase respondeu automaticamente "sim, ela vai, claro que vai", mas por que ele diria aquilo? Ele sabia que ela estava viva, podia sentir isso como o ar que enchia seus pulmões e deixava-o continuar vivo. Era tão completamente certo e simples sentir aquilo que ele achava estranho que os outros não pudessem sentir a vida de Kagome pulsando. O problema é que ser capaz de sentir aquilo não era prova nenhuma de que algum dia ela voltaria, de que teria uma resposta plausível para dar para Sango e talvez, acalma-la. Ele sabia tanto quanto os outros e o que ele sabia não era reconfortante o bastante para dizer naquela ocasião.

- Não vai? – insistiu Sango ao receber o silêncio de Inuyasha como resposta.

- Eu não sei, Sango. – disse finalmente Inuyasha percebendo que sua voz saia estranha e abafada. - Eu realmente não sei.

- Será que se formos atrás de algum anjo ele possa nos ajudar?

- Eu duvido muito, muito mesmo. Ela não disse nada, mas eu acho que a pessoa que me atacou estava tentando na verdade, mata-la.

Inuyasha havia pensando bastante nas circunstâncias e no que Kagome lhe falara e por algum motivo ele tinha aquela sensação. A sensação de que fora usado para atacar a garota e o plano da pessoa havia dado completamente certo.

Sango virou seus olhos inchados na direção do hanyou focando-o pela primeira vez. Sua expressão era de surpresa.

- O que você está querendo dizer com isso?

- Eu não sei direito, Sango, eu só acho isso. – disse Inuyasha pensando bem nas palavras antes de dizê-las. – Antes de dormir a Kagome me explicou que quando um anjo recebe uma missão os outros não podem se intrometer. Ela estava aqui para me matar, mas algum anjo, por algum motivo, tentou me matar na frente dela. Quero dizer, a pessoa poderia me atacar a qualquer hora, mas me atacou justamente quando eu estava conversando com a Kagome. Um anjo sabe que isso é errado, logo, sabia que a Kagome interviria, porque aquela era a missão dela, só que esse anjo também deveria saber que ao me salvar, ela morreria. São as regras dessa gente doente, salvar um yokai é contra a natureza delas então, elas são punidas com a vida.

Sango ficou em silêncio alguns minutos absorvendo tudo o ouvira, ela abriu a boca e arregalou os olhos quando finalmente pareceu entender parte do que Inuyasha dissera.

- Oh, Deus! Ela veio mesmo te matar!

- Isso não importa agora, Sango. – disse Inuyasha.

Ela balançou a cabeça.

- Não. – concordou Sango. – Então, você realmente acha que um anjo tentou matá-la?

Inuyasha acenou positivamente e Sango afundou ainda mais no sofá.

- Eu odeio esses anjos, eles são doentes. – ela sussurrou. – Morrer por salvar uma vida? Qual o sentido disso?

- Acho que elas não consideram yokais vidas dignas a serem salvas. – disse Inuyasha.

Sango resmungou alguma coisa, antes de voltar a focar o nada com seus olhos. O hanyou encarou-a se perguntando se ela realmente estava bem ou se precisava de algum médico, ela parara de tremer, mas seu rosto demonstrava quão horrível ela estava por dentro, estava inchado e vermelho, como seus olhos. E os sons que ela emitia não eram nada saudáveis. Mas antes que pudesse perguntar se ela queria que ele chamasse alguém para ajudá-la, Inuyasha virou o rosto para a entrada da sala de espera e cerrou os olhos.

Houjo acabara de entrar na sala, parecia cansado, como se tivesse corrido até ali. Ele se apoiou em uma parede e começou a sugar o ar, tentando recuperar o fôlego.

- O que você está fazendo aqui? – a voz do hanyou soou fria e indiferente.

- Eu cheguei à cidade agora pouco e soube o que aconteceu com vocês. Como ela está? – disse Houjo pausadamente pegando grande quantidade de ar a cada palavra.

Nem Sango, nem Inuyasha responderam. Para o hanyou era inevitável não gostar de Houjo, ainda mais naquelas circunstâncias em que estava mais ligado à Kagome do que nunca graças ao sangue dela. Ele sabia que Houjo era apaixonado por ela e se não tivesse interrompido, o garoto apaixonado provavelmente teria se aproveitado da situação e teria se declarado ou até mesmo, beijado-a. Inaceitável. Era inaceitável a idéia dele e Kagome juntos.

- Por que vocês não estão me respondendo? O que aconteceu? – disse Houjo tirando Inuyasha de seus devaneios.

- Coma. – a palavra saiu dos lábios de Sango como um suspiro e foi seguida por mais um dos soluços da garota.

Houjo deixou seu corpo cair pesadamente no sofá, perto da garota e piscou algumas vezes, encarando a parede branca a sua frente. Sua expressão era vazia.

- Não pode ser. – ele sussurrou.

- Ela esteve tecnicamente morta por alguns minutos, os médicos fizeram de tudo para trazê-la de volta, mas ela está em coma e não sabem se ela voltará ou como voltará. – dizer aquelas palavras foi mais doloroso do que Inuyasha imaginara.

O som de passos fez Inuyasha desviar os olhos de Houjo, que agora parecia ter levado uma surra e sentia muita dor, e olhar para a porta. Miroku trazia uma sacola, ele olhou para a sala notando a presença de Houjo, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Inuyasha balançou a cabeça, desmotivando-o a continuar.

- Fui até sua casa e peguei algumas roupas.

Inuyasha levantou-se e foi até Miroku, pegando a sacola.

- Obrigada. – ele disse. – E, Miroku, eu acho bom você ver uma enfermeira para a Sango, eu acho que ela vai ter uma crise nervosa a qualquer momento.

Miroku olhou para Sango e depois para Houjo.

- Acho que ele também precisa de uma enfermeira. – disse Inuyasha acompanhando o olhar de Miroku.

- É, as pessoas estão bem abaladas aqui. – disse Miroku respirando fundo.

Ele apenas concordou com a cabeça e disse:

- Eu não demoro.

Inuyasha sabia que Miroku também estava abalado, quando pegou a sacola pôde ver as marcas vermelhas na mão dele. Sempre que estava nervoso, Miroku socava a parede. Ele provavelmente estava se sentindo culpado por não ter feito nada, por ter tido a oportunidade de visitar Kagome e não ter feito isso e por qualquer outra coisa que carregava com ele mesmo, mas que jamais falaria para os outros. O hanyou caminhou até o quarto que estava internado e encontrou Mika encarando sua cama vazia.

- Foi você quem trouxe aquele yokai, não foi? – ela disse sem virar para encará-lo.

Ele não respondeu. Sabia que Sesshoumaru não era uma presença agradável, ainda mais em um hospital, mas fora a única pessoa que lhe ocorrera que talvez fosse capaz de salvar Kagome. Um surto de raiva correu por seu corpo ao lembrar que ele não fizera nada para salva-la, apenas usara o tempo que ainda tinham para espancá-lo.

- Soube que a pequena passou por maus bocados na última hora, - Mika continuou falando sem encarar Inuyasha. – e pelo visto, você também.

- É, acho que já tivemos dias melhores. – disse Inuyasha.

- Você acha que ele pode salva-la? – a voz de Mika soava esperançosa, mas de alguma forma, sem emoção alguma.

- Eu espero que sim. – disse Inuyasha sinceramente.

- Ele avisou para todos os enfermeiros e médicos para não cuidarem de você. O aviso dele não foi nada amigável, você acha mesmo que ele seria capaz de salvar a vida de alguém?

Inuyasha ficou em silêncio. Não sabia o que responder, Mika estava certa. Sesshoumaru não era o tipo de yokai que salvava a vida de alguém, mas então ele se lembrou: Kagome não era simplesmente alguém. Ela era diferente e até mesmo Sesshoumaru sabia disso.

- Não. – verbalizou Inuyasha. – Alguém, não. Mas a Kagome, sim.

A velha enfermeira soltou uma risada estranha, meio irônica e meio engraçada que fez Inuyasha se perguntar o que ela estava pensando.

- No fim das contas, a pequena tem alguém que se importa com ela. Isso é bom, muito bom, ela ficaria feliz em saber disso, já que ela sentia-se sozinha quando estava acordada.

O hanyou agradeceu mentalmente por não ter Sango, nem Miroku por perto. Ouvir as palavras de Mika certamente não ajudaria em nada o sentimento de culpa que os dois agora carregavam. Mika caminhou até Inuyasha e deu um sorriso fraco.

- Vou te deixar sozinho agora.

E dizendo isso, ela deixou o quarto. Inuyasha foi até o banheiro e jogou a roupa ensangüentada em uma lata que provavelmente era o lixo. Ligou o chuveiro e esperou a água esquentar. Quando sentiu a água escorrer por seu corpo parecia que estava levando outra surra de Sesshoumaru, ele percebeu que os cortes que tinha nos braços, tronco e pernas eram fundos; ardiam e sangravam em contato com a água quente. Podia ver grandes manchas roxas espalhadas, dividindo espaço com arranhões e cortes profundos. Embora não pudesse ver, sabia que sua sobrancelha esquerda também tinha um corte profundo, sua nuca doía e ele não sabia se era por causa de todas as outras dores ou por causa de alguma batida.

Ele nunca imaginou que ser arrastado por Sesshoumaru em uma floresta em uma velocidade inumana pudesse causar tantos estragos, ele sentira os baques seguidos contra as árvores, sentira seu corpo sendo arrastado no chão e pulando a cada pedra, cada raiz e cada imperfeição do solo, aquilo tudo doera, mas agora doía ainda mais.

Enxugou-se e colocou a roupa que Miroku trouxera, olhou-se no espelho e confirmou que sua sobrancelha estava cortada. Seu rosto estava péssimo, o olho esquerdo estava inchado, seu lábio inferior tinha um corte e tinha vários arranhões. Suspirou, Sesshoumaru realmente estava louco e era melhor que aquela loucura toda salvasse Kagome.

Inuyasha voltou para a sala de espera. A situação lá não melhorara, Sango e Houjo pareciam autistas presos em seu próprio mundo, os dois fitavam atentamente algo que claramente não existia, enquanto Sango chorava agora silenciosamente, Houjo parecia um boneco sem vida. Miroku estava sentado ao lado de Sango, segurando sua mão. De todos, ele era sem duvidas alguma o melhor. Inuyasha sentou-se ao lado do rapaz.

- Você está péssimo. – disse Miroku.

- É. – concordou Inuyasha. – Acho que todos estamos.

- Eu tentei conversar com eles, mas é como se eu não existisse. – disse Miroku. – Realmente gostaria de saber como o Houjo veio parar aqui.

- Antes de entrar em choque, ele disse que chegou à cidade hoje e descobriu o que acontecera comigo e com a Kagome e veio visitá-la. Esse imbecil é apaixonado por ela. – explicou Inuyasha.

- Essa última parte nós já sabíamos. – disse Miroku.

Inuyasha deu de ombros e encostou as costas no assento. Só agora ele percebia como estava cansado, sentiu as pálpebras pesando e o sono dominando seu corpo. Ele fechou os olhos e então dormiu.


Dois dias já haviam se passado desde que Kagome voltara, mas como era esperado, nada além disso acontecera. Ela não acordara e não dava sinais de que o faria tão cedo. Sesshoumaru ainda rondava o hospital, ameaçando qualquer pessoa que tentasse ajudar Inuyasha, que agora tinha a certeza que alguns de seus cortes estavam infeccionados. Miroku, Sango e Houjo saíam do hospital apenas para ir para a escola de manhã, embora fossem até lá muito contrariados, Sango dizia que queria estar lá quando Kagome acordasse, para mostrar para a amiga que ela não esteve sozinha esse tempo todo. Inuyasha achava isso uma grande besteira, embora odiasse admitir, já que Kagome poderia nunca acordar e Sango não poderia continuar com aquela rotina para sempre.

Sango e Houjo tinham grandes olheiras roxas nos olhos, sinais claros de que eles não dormiam direito desde que descobriram sobre Kagome. Miroku enfaixara sua mão direta, provavelmente ele continuava a socar algo sólido demais tentando descontar sua frustração em algum lugar.

Eles quase não conversavam entre si, passavam o dia na sala de espera encarando as paredes brancas ou as outras pessoas que ocasionalmente iam parar lá.

Deveria ser mais de uma hora da manhã quando Inuyasha sentiu seu estômago roncar e lembrou que além do sono, também estava sentindo muita fome. Ele precisava comer ou passaria mal, sabia disso, ele pouco dormira ou comera nos últimos dois dias. Sempre que tentava descansar, Sesshoumaru aparecia e o impedia de maneiras nada agradáveis.

- Vou comer alguma coisa. – avisou à Miroku.

- Certo. – disse Miroku.

Inuyasha levantou-se e antes que chegasse até a porta cerrou seus olhos se forçando a enxergar o vulto que se entrara na sala. Seu pescoço estava sendo esmagado e ele sentia seu corpo sendo empurrado contra a parede com força, a dor se espalhava em ondas por todos os seus membros.

- O que você fez, seu desgraçado? – rosnou Kouga.

Kouga havia invadido o hospital e provavelmente chegara até aquela sala usando os mesmos métodos de Sesshoumaru: olhares mal encarados. Todos sabiam que yokais lobos eram selvagens e Kouga era visivelmente um yokai lobo. Ninguém tentara impedi-lo e mesmo que tivesse tentando, não conseguiria. O yokai emanava ódio, seus olhos brilhavam perigosamente, seus músculos pareciam inflados e seu rosto estava retorcido em uma máscara de raiva. Não obtendo resposta de Inuyasha, ele apertou ainda mais a garganta do hanyou.

- Ela morreu, não foi? – ele gritou.

- Coma.

Sango repetiu a mesma ação que fizera quando Houjo entrara no quarto, Miroku olhou-a espantado, a garota pouco falara nos últimos dias e sua voz era morta e sem emoção.

- Ela morreu por algum tempo, mas agora está em coma. – explicou Houjo com a mesma voz de Sango.

Kouga, que segurava Inuyasha com a mão esquerda, fechou a mão direita e colocou toda a sua força em um soco, que fez com que o hanyou virasse o rosto e cuspisse sangue no sofá branco do hospital. E a ação se repetiu, Kouga parecia estar fora de si. Houjo e Sango que antes pareciam alheios ao mundo, levantaram-se rapidamente e foram na direção do yokai, puxando-o para trás.

- Pára com isso, você vai matá-lo! – gritou Sango.

Miroku encarava a situação perplexo enquanto tentava entender o que estava acontecendo, seu cérebro parecia funcionar muito lentamente. Ele não sabia quem era aquele yokai, não fazia idéia de onde ele surgira, mas estava tentando matar Inuyasha. O rapaz piscou algumas vezes e então levantou e foi ajudar Houjo e Sango.

Mesmo os três juntos puxando o yokai, era inútil. Ele parecia possuído, já soltara a garganta de Inuyasha, mas continuava socando-o não só no rosto, mas em qualquer parte do corpo do hanyou que fosse visível. Inuyasha tinha a sensação de que desmaiaria a qualquer momento, mas as palavras de Sesshoumaru ecoaram em sua cabeça, lembrando-lhe de que Kagome provavelmente sofrera muito mais e agüentara. Ele precisava agüentar, ele era um hanyou e não era um lobo qualquer que o derrubaria. Mas a teoria era muito mais fácil do que a prática, Kouga não parava e Inuyasha sentia que logo não restaria mais sangue em seu corpo, tamanha a quantidade que ele já cuspira e sentia escorrendo por seu corpo. Ele ouvia os berros dos três humanos, mas não distinguia o que eles diziam, talvez não estivessem falando nada.

O silêncio veio acompanhado de um alivio repentino nas dores. Inuyasha sentiu seu corpo escorregar encostado na parede e cair sentado no chão, pensou estar desmaiado, mas se isso tivesse acontecido ele não teria consciência do que acontecia ao seu redor. E ele podia ouvir, mesmo que baixo, o som de vozes, sentia alguém segurando seu braço. Algo deve ter sido capaz de parar Kouga, ao menos foi o que Inuyasha pensou até sentir um chute em seu estômago. Ele cuspiu mais um punhado de sangue e então o silêncio absoluto veio. Ele acabara de desmaiar.


- Seria idiota perguntar a quanto tempo estou aqui, não é?

Kagome sentia necessidade de falar. Ela não gostava de não ter noção do tempo, era extremamente desagradável não saber se estava falando demais ou se ficava em silêncio mais tempo do que deveria.

- Idiota não é bem a palavra. O certo seria inútil. – disse Rin.

Kagome fechou os olhos e mudou o tempo pela terceira vez desde que chegara naquele lugar que Rin tinha dito ser seu jardim, agora o céu tinha um tom vermelho sangue, com manchas roxas, laranjas e amarelas. O sol se escondia no horizonte e as nuvens pareciam pequenos punhados de algodão jogados em uma mistura maluca de tintas.

- É possível morrer de novo? – disse Kagome entediada. – Se for, acho que tédio será o motivo dessa minha morte.

- Não é tão ruim assim.

Rin disse aquilo em uma voz divertida, fazendo Kagome ter certeza que sim, era ruim o bastante para ela. Ela deitou no chão, sentindo-se cansada, como se tivesse corrido uma maratona e agora precisasse descansar.

- Você está bem? – disse Rin olhando-a cuidadosamente.

- Estou cansada. Você não disse que essa história de mudar o tempo cansaria.

- E não cansa. Acho que o problema é outro.

Kagome arqueou a sobrancelha e acompanhou com os olhos Rin levantar-se e começar a andar. A garota não se moveu, enquanto ouvia os passos da outra ecoar no silêncio. Ouviu um riso antes de Rin voltar correndo e puxa-la.

- Você tem visitas! – ela disse animada. – Vamos, corre!

Visitas? Alguém tinha morrido? Ela estava feliz por alguém ter morrido? Kagome não pôde pensar muito naquilo, pois Rin soltou um suspiro impaciente e começou a puxá-la por entre as árvores. Ela soltou um grito de surpresa ao ver Inuyasha deitado desacordado ao lado de um rio que cortava a mata fechada. Logo após a reação de surpresa, ela fechou o rosto e cruzou os braços.

- Eu não acredito que esse imbecil morreu! – Kagome reclamou se controlando para não chutar o corpo de Inuyasha. – Quer dizer então que eu morri à toa?

- Ele não morreu, Kagome. – disse Rin rindo. – Só desmaiou.

- Então o que ele faz aqui? – disse Kagome fazendo um movimento com o braço que abrangia tudo ao seu redor.

- Você deu seu sangue a ele, vocês estão ligados, então, quando ele desmaiou acabou sendo puxado para cá.

- Que maravilha! – disse Kagome ironicamente. – Estou presa no meio da Amazônia e a única visita que posso receber é da pessoa que fez com que eu morresse. Encantador.

- Você não estava reclamando do tédio? – Rin parecia levemente magoada. – Acorde-o e converse com ele um pouco, antes que ele volte a si.

Kagome revirou os olhos e caminhou até Inuyasha, cutucando-o com o pé. Era como se ela estivesse verificando se o animal que ela acabara de atropelar no meio da estrada ainda estivesse vivo. Inuyasha acordou devagar e todas as cores do céu se refletiram no dourado dos seus olhos. Rin olhou para ele dando um sorriso, antes de se afastar.

- Bom dia. – disse Kagome.

O hanyou arregalou os olhos e levantou-se correndo. Olhou para suas mãos e para si mesmo, depois olhou ao redor tentando entender onde fora parar e sua boca abriu quando deparou-se com Kagome encarando-o tediosamente, com os braços cruzados. Então, ele revirou os olhos e suspirou, sentando-se novamente.

- Isso é um sonho. – resmungou.

- Hm, então você acha que se eu apareço na sua mente quando você dorme é um sonho e não um pesadelo? – disse Kagome. – Interessante.

- Não foi isso o que eu quis dizer. – retrucou Inuyasha. – É só que você não pode estar aqui.

- Na verdade, é você que não pode estar aqui. – corrigiu Kagome.

- É, acho que faz sentido. Já que estamos aqui, me diga, como você está?

Inuyasha tinha plena certeza que estava delirando ou sonhando. Ele se lembrava de estar apanhando muito de Kouga que aparecera do nada no hospital e depois desmaiou. As chances de estar no meio do mato conversando com alguém que estava em coma eram próximas à zero, fora que ele não sentia dor nenhuma no seu corpo e se ele estivesse acordado, certamente estaria agonizando de dor. Se for um sonho, qual o problema em manter uma conversa amigável? Pelo menos teria algo para fazer enquanto não voltava ao mundo real das dores que o esperavam.

Kagome deu de ombros e disse:

- Bem, na medida do possível. E você? Como está?

- No momento eu estou bem, mas quando voltar tenho certeza que vou sentir muita dor.

- Dor? – disse Kagome agora se sentando ao lado do hanyou. – Quer dizer que eu não consegui bloquear o ataque do anjo?

- Não, não é isso. – disse Inuyasha.

Kagome encarou-o curiosamente. O que será estava acontecendo com os outros enquanto ela estava presa naquele mato? Pela primeira vez ela sentiu uma angústia correr por seu corpo, ela nunca mais faria parte daquele mundo, provavelmente iria demorar muito até ser capaz de acompanhá-los da onde estava. Ver Inuyasha fez com que ela entendesse que estava morta e aquilo doía mais do que ela imaginara.

- Desculpe por isso. – disse Inuyasha sinceramente. Ele parecia ter percebido a mudança no rosto de Kagome. – Eu não queria que as coisas fossem assim.

Kagome forçou um sorriso.

- Hei, o que é todo esse sentimentalismo? Descobriu que me ama, é?

- Há, engraçadinha você. – disse Inuyasha voltando ao seu tom habitual.

- Você não me respondeu. – disse Kagome rindo.

- Não, eu não te amo. – disse Inuyasha.

Kagome jogou seu corpo para trás e voltou a deitar na grama, ela ainda sentia-se cansada por algum motivo desconhecido.

- Eu sei que não. – disse.

- Miroku e Sango estão se sentindo realmente culpados por não terem ido te visitar. – disse Inuyasha. – Acho que a Sango vai ter uma crise nervosa a qualquer momento.

- Ah, diga a eles para não se importarem com isso, afinal de contas, era para ser assim desde o começo. – disse Kagome forçando uma voz casual.

- Não, não era. Isso é idiota. – disse Inuyasha irritado. – Eles gostam de você, sabia?

- Você não entende.

- Não entendo o quê? Que você é fraca demais para lutar por aquilo que acredita?

Kagome levantou o corpo, ficando sentada e encarando Inuyasha nos olhos.

- Você ainda não entendeu como as coisas, funcionam, não é? – ela disse séria. – Achei que depois do que aconteceu comigo você seria capaz de entender a minha preocupação. Você viu o que elas fizeram comigo, que sou um anjo, por ter ido contra as regras! É por isso que estou aqui e você também. Anjos e humanos não podem ser amigos, consegue imaginar o que aconteceria com eles se essa história continuasse?

Inuyasha deu de ombros.

- Acho que depois de tudo o que aconteceu você deveria realmente lutar pelo o que quer e se livrar dessa idéia idiota de ser um anjo. Eu não entendo sobre vocês, mas sinceramente acredito que o alvo daquele ataque era você e não eu. Se quisessem me matar de verdade, porque não me atacaram quando eu estava sozinho? Mas não, fizeram isso bem na sua frente, sabendo que você iria impedir.

Kagome olhou para Inuyasha surpresa. Como ela ainda não tinha pensando naquela possibilidade? Fazia todo o sentido do mundo. Se alguém quisesse matar Inuyasha não teria problema algum em fazê-lo quando ele estava sozinho, mas não, a pessoa o atacara na sua presença, como se a desafiasse a salvá-lo. Mas quem poderia querê-la morta?

- Bom, talvez seja realmente isso o que aconteceu, porque devo concordar com tudo o que você disse, se um anjo estivesse atrás de você, esperaria para atacá-lo quando estivesse sozinho, mas isso não faz diferença aqui. – disse Kagome.

- Não, realmente não faz. – disse Inuyasha. – Quando eu acordar, vou falar para as pessoas sobre esse meu delírio, então, quer dar algum recado para a Sango e o Miroku? Talvez eles achem que conversamos de verdade e se acalmem, a coisa está realmente deprimente lá.

Kagome riu. Inuyasha acreditava que aquilo era um delírio, claro, encontrar pessoas que deveriam estar mortas, no meio do mato não é que podemos chamar de normal.

- Diga que eles não precisam se sentir culpados, porque eu no lugar deles teria feito a mesma coisa. Se não ajudar muito, diga que eu não estou sozinha aqui, fale que a Rin é uma companhia tão boa quanto eles dois, com o bônus de não me deixar de vela.

- Acho que convivi demais com você, - disse Inuyasha suspirando. – esse é o tipo da coisa que você falaria. Minha imaginação fez você igualzinha.

- Você acha que me imaginaria com essa roupinha, é? – disse Kagome em tom divertido apontando para o vestido florido de menininha.

- É, você tem um ponto. – disse Inuyasha. - Mas eu bati a cabeça várias vezes hoje, acho que isso explica essa falha técnica com a sua roupa. Da próxima vez que eu delirar lembrarei de te vestir com algo que não faça com que me sinta um pedófilo perto de você.

Kagome gargalhou alto e Inuyasha disse:

- O que foi? É bem chato me sentir atraído por você quando você parecer ter 12 anos.

- Oh, então você está atraído por mim aqui, é? – disse Kagome divertidamente.

- Aquela baboseira de instinto. – explicou Inuyasha. – Fora a ligação do sangue. Como se eu já não tivesse problemas o bastante na minha vida.

- Inuyasha, eu não entendo muito sobre, ahn, delírios, - Kagome não estava afim de explicar para ele algo que nem ela entendia. – mas eu duvido muito que essas coisas funcionem aqui. Quero dizer, você não está adivinhando o que eu estou pensando, nem nada do tipo, então, o resto não deve funcionar também.

- Ah, merda. Isso é minha mente me mostrando que eu tenho vontade de te beijar independente de todas essas drogas que nos ligam? – disse Inuyasha. – Acho que quero acordar.

- Quem sabe, não é? – disse Kagome rindo. – É você quem está delirando, não eu.

- É verdade, eu estou delirando. O que significa que você não está aqui e nada disso existe de verdade. E se não está aqui não tem problema se eu fizer isso.

Antes de entender sobre o que Inuyasha estava falando, Kagome sentiu os braços do hanyou puxando-a para perto. Primeiro ele abraçou-a carinhosamente por alguns minutos, ou horas, mais uma vez a inexistência do tempo tornava tudo confuso, depois segurou o rosto dela entre as duas mãos, encarando-a. Os olhos azuis de Kagome brilhavam da mesma maneira que no café, como se eles abrigassem chamas azuladas. Tinham vida e luz própria e Inuyasha olhava diretamente dentro deles.

A garota conseguia notar que havia algo de diferente em Inuyasha, ele acreditava cegamente que aquilo só estava acontecendo em sua mente e se acontecia em sua mente, ninguém jamais descobriria. Era como se ele tivesse se desarmado, deixado todas aquelas barreiras que o encobriam caírem e agora mostrava como ele realmente era por dentro. Kagome sentiu um arrepio no seu peito ao pensar nisso.

Ele beijou a testa de Kagome delicadamente e voltou a encará-la, deu um leve sorriso e disse:

- O Houjo tem razão, você é a pessoa mais pura do mundo, ele só esqueceu de dizer que você também é a mais bonita.

Os olhos de Kagome arregalaram-se. Ela abriu a boca de maneira surpresa e gaguejou:

- Você me acha bonita?

O sorriso sumiu e Inuyasha ficou sério.

- Tanto que chega até a doer. – ele disse.

E então ela sentiu os lábios de Inuyasha nos seus. A sensação era completamente diferente da última vez que eles se beijaram, não tinha o desejo selvagem que os unira naquela ocasião. O beijo era calmo e carinhoso, Kagome sentiu seu corpo se aquecer como nunca sentira antes. Ela sabia que não era amor, nem da sua parte, nem da dele, mas algum tipo de sentimento que ambos desconheciam. Algo que não tinha nada a ver com o instinto, mas talvez com nova ligação que eles tinham: a vida. Dar a sua vida por alguém cria um laço inquebravel, muito mais forte que aquele que os anjos e yokais normalmente tinham.

Inuyasha afastou-se de Kagome e sorriu, ao ver que ela ainda mantinha os olhos fechados.

- Eu sei que eu beijo bem, mas pode abrir os olhos agora, tá? – ele disse.

Kagome abriu os olhos na mesma hora e deu um tapa no braço de Inuyasha.

- Sem graça.

Ele deu de ombros.

- Eu sei que eu devo dizer isso para você quando você voltar, mas você sabe, eu não sou muito bom com as palavras, então vou treinar aqui um pouco, ok?

Kagome arqueou a sobrancelha e apenas concordou com a cabeça.

- Desculpe por ter desconfiado de você, eu pensei que você estava fazendo aquele show todo só para me assustar, eu só percebi que você me salvara quando acordei e senti que você estava mal. Muito mal. Eu também preciso agradecer por você ter dado sua vida para me salvar, sei que você gosta tanto de mim quanto eu de você e não sei se no seu lugar eu teria dado minha vida para te salvar. E isso faz com que eu me sinta um lixo, eu não sou digno de tudo isso que você está passando. Quando eu disse que eu não queria que as coisas fossem assim, eu fui sincero, eu realmente não queria que você sofresse.

- Eu já te disse antes, só te salvei porque você é meu. – disse Kagome dando de ombros.

- E eu já te disse antes, se eu sou seu, você é minha. – retrucou Inuyasha. – O que não melhora as coisas em nada, se você quer saber.

- Não sou sua. – retrucou Kagome veemente.

- Também não sou seu. – disse Inuyasha.

Kagome revirou os olhos.

- Inuyasha, o que você quis dizer com "quando eu voltar"? Está esperando que eu reencarne, é?

- Você vai voltar. – disse Inuyasha sério. – Eu vou dar um jeito nisso, prometo.

- Não vá fazer nada estranho, não quero ser um tipo de zumbi, entendeu? – disse Kagome.

Inuyasha sorriu.

- Vai depender muito mais de você do que de mim como você vai voltar.

- Falando em voltar, acho que seu tempo acabou.

Inuyasha começava a se tornar transparente, seu rosto saía de foco, embora seus olhos continuassem visíveis e dourados como sempre.

- Voltarei ao mundo da dor. – disse o hanyou.

- Quando quiser brincar de índio da Amazônia, é só bater a cabeça e desmaiar. Eu estarei aqui. – disse Kagome. – Não que eu tenha muitas escolhas, mas enfim...

Inuyasha pousou a sua mão em cima da de Kagome, ele sabia que não conseguiria pega-la, sentia como se fosse feito de vento.

- Obrigada pela idéia, na próxima vez que eu delirar te imaginarei vestida de índia.

Kagome riu e disse:

- Desculpe, não vai acontecer.

- Droga.

E então, ele sumiu.


A dor que sentia dizia-lhe que ele estava de volta ao mundo real, sem sequer abrir os olhos. Sentia a parede na suas costas e o chão gelado no seu rosto, mas que diabos, ninguém tinha tido coragem de pelo menos colocá-lo no sofá? Fez força para se levantar, mas sentiu um pé nas suas costas forçando-o para baixo.

- Sesshoumaru, deixe ao menos ele ir para o sofá! – a voz de Sango soou como se estivesse a muitos metros de distância.

Sesshoumaru? Inuyasha abriu os olhos e procurou a pessoa que o pressionava contra o chão e para sua surpresa, era Sesshoumaru quem estava ali e não Kouga como ele jurara. Procurou o yokai e viu o corpo dele jogado no canto da sala. Então, Sesshoumaru havia tirado-o de cima de Inuyasha. O amor fraternal de Sesshoumaru era algo realmente lindo, só ele podia matar o irmão, pensou Inuyasha.

Ao reparar os olhos de Inuyasha abertos, Sesshoumaru tirou o pé das costas do hanyou, pegou-o pela camiseta e jogou-o no sofá. Inuyasha sentiu sua cabeça latejar e logo sentiu um liquido espesso escorrer pelo seu pescoço.

- Quanto tempo eu fiquei desmaiado? – ele perguntou olhando para Miroku que estava parado ao seu lado.

- Menos de cinco minutos. – disse Miroku.

- Como você está se sentindo? – disse Sesshoumaru.

Automaticamente todas as pessoas da sala viraram os rostos para o yokai, perplexos. Ele estava mesmo perguntando como Inuyasha estava com toda aquela naturalidade depois de ajudar a espancá-lo até desmaiá-lo?

- Eu estou uma merda, mas para sua infelicidade, não vou morrer só com isso. – disse Inuyasha.

- Você ainda quer acordar o anjo? – disse Sesshoumaru.

Houjo arqueou a sobrancelha e olhou para a cena sem entender nada, Sango balançou a cabeça negativamente dizendo que era melhor ele não entender o que acontecia. Miroku olhou para Inuyasha e virou o rosto para Sesshoumaru pouco depois.

- O que está tentando dizer com isso? – disse Miroku.

- Você quer salvá-la? – disse Sesshoumaru ignorando as palavras de Miroku.

- Foi para isso que eu te trouxe, não é? – disse Inuyasha.

- Ótimo. – disse Sesshoumaru. – Algum recado para seus amigos antes de subirmos?

Inuyasha piscou algumas vezes pensando em algo para dizer e lembrou-se do recado do seu delírio para Miroku e Sango.

- Enquanto eu estive desmaiado eu vi a Kagome. Ela falou que vocês dois não devem se preocupar por não ter ido visitá-la, disse que se fosse o contrário, ela também teria culpado vocês. Mandou dizer que não está sozinha lá e que uma tal de Rin é tão legal quanto vocês dois, só que com um bônus: ela não precisa ser vela.

- Isso foi tão engraçado. – disse Sango ironicamente.

- Isso é algo que a Kagome diria. – disse Miroku.

- Foi o que eu pensei. – disse Inuyasha.

- Você a viu? – disse Sesshoumaru.

O tom de voz do yokai era uma patética tentativa de esconder a emoção que acabara de explodir dentro dele.

- Quem? A Kagome? – disse Inuyasha,

- Não. A Rin, você a viu? – disse Sesshoumaru.

- Só de relance, lembro de ver a figura de uma mulher que lembrava muito a Kagome, só que mais velha logo quando acordei, quando consegui focalizar a imagem, ela saiu andando. – disse Inuyasha. – E não voltou mais.

Sesshoumaru ficou em silêncio alguns minutos olhando Inuyasha, até que pareceu acordar e puxou o hanyou pelo braço, derrubando-o do sofá desajeitadamente e começando a arrasta-lo de maneira pouco confortável pelos corredores do hospital. Ao ouvir passos atrás de si, virou o rosto na direção de Miroku, Sango e Houjo e disse:

- Vocês ficam aqui.

Nenhum deles pareceu querer desobedecer Sesshoumaru e ao perceber isso, ele continuou a arrastar Inuyasha pelo hospital.

- Ela tinha olhos azuis? – disse Sesshoumaru.

- Tinha. Iguais aos da Kagome. – disse Inuyasha tentando se concentrar em algo que não fosse a dor em seu braço que parecia que iria torcer ou quebrar a qualquer momento.

- Quão mais velha ela parecia ser?

- Não muito, no máximo uns cinco anos.

- E ela parecia infeliz?

Inuyasha parou para pensar um pouco no vulto que vira. Ele não sabia nada sobre Rin, mas era visível que Sesshoumaru tinha um interesse enorme nela, o que era muito estranho, afinal de contas, ela provavelmente não existia. Era só fruto da sua imaginação, como todo o resto. Talvez o delírio fosse ajudar a reviver Kagome, talvez a tal da Rin fosse algum sinal.

- Eu não consegui focalizar muito bem o rosto dela, mas pelo o que eu me lembro, não. Ela não parecia infeliz.

E era verdade, mesmo não se lembrando de como ela era exatamente e da sua fisionomia, Inuyasha não sentira qualquer traço de tristeza no semblante da mulher. Pelo contrário, ele jurava ter visto um sorriso maternal nos lábios dela, mas isso não fazia muita diferença, era seu delírio, todos seriam legais com ele lá.

- Obrigada. – disse Sesshoumaru.

Inuyasha não teve tempo de descobrir se imaginara Sesshoumaru falando aquilo, pois outra onda de dor tomou conta do seu corpo quando ele foi jogado para dentro do quarto que Kagome estava. Ele evitou olhar para a cama. Sesshoumaru fechou a porta atrás de si e caminhou até Inuyasha, usando a cabeça do hanyou como apoio para o seu pé.

- Isso dói? – disse Sesshoumaru forçando a cabeça de Inuyasha contra o chão.

Inuyasha soltou um urro de dor. Sua cabeça parecia prestes a explodir a qualquer momento, lembrava vagamente a dor que sentira no dia em que fora atacado pelo anjo. A diferença é que essa dor era externa, quando o anjo o atacara, era como se algo dentro dele tentasse mata-lo.

- É bom que doa mesmo. – disse Sesshoumaru. – Você não pode desmaiar me entendeu?

Ele apenas acenou dolorosamente a cabeça. Sesshoumaru voltou a chutar o corpo de Inuyasha, fazendo-o cuspir grandes quantidades de sangue, ao contrário das outras vezes, Sesshoumaru conversava com Inuyasha. Parece que ele queria mantê-lo acordado.

- Você ainda está ai? Lembre-se! Você não pode desmaiar.

Em resposta, Inuyasha apenas cuspia mais sangue. Aquela situação não fazia sentido nenhum, Inuyasha estava encolhido no canto do quarto, manchando toda a parede e o chão com grandes poças de sangue, enquanto Sesshoumaru chutava-o impiedosamente. Era muito fácil para o yokai falar para ele não desmaiar, quando ele estava em pé chutando e não no chão sendo espancado. Inuyasha sentia-se fraco e tonto, sua visão estava embaçada e ele não conseguia focar nada, sua cabeça fazia um zunido irritante e o constante gosto de sangue na sua boca começava a enojá-lo.

- Preciso que você me diga quando não agüentar mais. – disse Sesshoumaru.

Novamente, Inuyasha apenas cuspiu mais sangue. Ótimo, pelo menos o plano de Sesshoumaru não era matar Inuyasha, talvez só deixa-lo em coma igual acontecera com Kagome. Kagome... Eles deveriam estar tentando salva-la, não é? Sesshoumaru havia o arrastado até lá para isso. Será que se desmaiasse ele iria encontrá-la novamente? Ele sabia que não demoraria muito para isso acontecer, no meio de toda aquela dor, foi uma idéia bem tentadora, simplesmente fechar os olhos e ir para algum lugar mais calmo, longe daquela dor que agora assolava seu corpo e dava-lhe a sensação de que qualquer momento morreria.

Inuyasha fechou os olhos e pôde ouvir o barulho de água corrente, ele se lembrava de um rio onde encontrara Kagome. Será que já voltara para aquele lugar? Ele não teve tempo de descobrir, pois Sesshoumaru o trouxe de volta para a realidade, puxando-o para cima pela camiseta, o yokai ergueu Inuyasha do chão e gritou:

- Eu disse para você avisar quando estivesse desmaiando!

- Eu não percebi... – disse Inuyasha.

- Você quase estragou tudo! – rosnou Sesshoumaru.

- Tudo? Tudo o que?

- Você quer salva-la, não quer?

- É claro que eu quero! – disse Inuyasha firmemente. Já estava na hora de Sesshoumaru fazer alguma além de espancá-lo, afinal de contas.

- Ótimo. – disse Sesshoumaru. – Me dê seu braço.

Inuyasha agora tentando se manter em pé por conta própria, ele usava a cama de Kagome como apoio, ainda incapaz de olhar naquela direção. Sem pensar duas vezes, ele esticou o braço direito na direção de Sesshoumaru, na mesma hora o yokai segurou-o e fez um corte profundo com suas garras no pulso. O sangue começou a jorrar e escorrer na mesma hora, isso porque Inuyasha acreditava que não tinha mais sangue no seu corpo.

- O outro braço agora. – disse Sesshoumaru.

Inuyasha hesitou o que Sesshoumaru estava querendo? Por que cortar seu pulso? Ele queria fazer parecer que ele se matara, era isso? Sesshoumaru revirou os olhos de maneira impaciente e sua voz saía em tom urgente:

- Anda, Inuyasha, não temos tempo a perder!

Mesmo relutante Inuyasha esticou o outro braço e sentiu novamente a ardência das garras de Sesshoumaru contra seu pulso, rasgando-o profundamente. O sangue jorrou e Inuyasha sentiu como se não pudesse mais agüentar seu próprio peso, seu corpo escorregou até o chão, onde ele caiu deitado enquanto sentia sua vida se esvaindo, exatamente como o sangue que agora vazava de seus pulsos.

Ele iria morrer, sentia a morte abraçando-o e o ar quente de sua respiração em sua nuca. Então era assim que ele iria terminar? Kagome havia morrido para que ele vivesse e agora a vida que ela salvara iria ser desperdiçada daquele jeito. Que patético, pensou Inuyasha. Não, ele não podia morrer ainda. Ele havia prometido, mesmo que fosse em um delírio, ele havia dito para Kagome que iria traze-la de volta, ele não podia morrer antes disso. Abriu os olhos e procurou por Sesshoumaru, que o encarava parecendo levemente preocupado. Juntou todas as forças que ainda tinha em seu corpo e disse:

- Kagome...

Para a surpresa de Inuyasha, Sesshoumaru sorriu. Aquela era provavelmente a primeira vez que ele via o meio-irmão sorrindo. Ele se abaixou e pegou Inuyasha, levantando-o, olhou para os braços para ver se ainda sangravam, percebendo que ainda sangravam colocou Inuyasha sentado na cama de Kagome, segurando-o para que ele não tombasse. Com a outra mão, abriu a boca da garota e levou um dos braços de Inuyasha até Kagome. O sangue escorreu livremente dos pulsos do hanyou e pingou na boca da garota, Sesshoumaru certificou-se de manter os dois naquela posição até que o corpo de Inuyasha tornou-se tão pesado que uma mão já não era mais capaz de segurá-lo. E então, Inuyasha tombou encontrando o chão e antes de apagar no que ele acreditava ser a última vez, pôde ouvir a voz de Sesshoumaru ecoando, enquanto ele gritava por um médico.

- Hm, quanta consideração. – pensou Inuyasha e finalmente apagou.


- Não durma. – repreendeu Rin novamente.

Kagome piscou os olhos focalizando Rin. A mulher tinha uma expressão preocupada no rosto e sua voz tinha um certo tom de urgência que Kagome não ouvira desde que chegara naquele lugar. Ela queria apenas fechar os olhos e dormir, sentia-se incrivelmente cansada, como se não dormisse há anos e talvez fosse verdade, afinal de contas, aquela história de tempo inexistência não ajudava em absolutamente nada. O problema é que ao contrário da última vez, Rin não parecia contente com a vontade de Kagome dormir, quando a garota falou que estava indo se deitar, Rin reagiu automaticamente, deixando bem claro que ela poderia fazer qualquer coisa, menos fechar os olhos tempo o bastante para adormecer.

- Eu estou cansada, Rin.

- Eu sei, querida, eu sei, mas por favor, fique comigo! – disse Rin com o mesmo tom urgente.

- Eu não vou a lugar nenhum, só preciso dormir um pouco. – explicou Kagome de forma sensata.

- Agüente só mais um pouco. – disse Rin. – Eu prometo que logo você poderá dormir.

- Você disse isso há muito tempo atrás, o que estamos esperando? – disse Kagome.

- Tempo não existe, você que está fazendo parecer que está durando muito, pense em segundos, não em horas.

- Estou pensando em dias.

- Pior ainda. Por favor, Kagome, colabore.

Kagome revirou os olhos e suspirou.

- Podemos conversar pelo menos? Preciso me concentrar em algo...

- Claro! – disse Rin apressadamente. – O que você quiser. Sobre o que quer conversar?

- Por que seu jardim é igual ao do Sesshoumaru?

Rin suspirou e disse:

- Eu não posso falar sobre isso.

- Irei dormir. – disse Kagome.

- Não, está certo, está certo. O jardim é igual porque ambos são meus. O jardim do Sesshoumaru foi feito para mim. – disse Rin de maneira derrotada.

- Ah, eu sabia que tinha algo entre vocês. – disse Kagome. – Se importa se eu só fechar meus olhos? Eles estão realmente ardendo e me incomodando.

- Tudo bem, mas continue falando comigo. – disse Rin.

Kagome sorriu e fechou os olhos, encostando seu corpo no tronco de uma árvore.

- Então vocês viveram juntos?

- Por um tempo, antes de eu morrer. – disse Rin.

- Elas devem ter ficado loucas, não é?

Rin riu um pouco antes de voltar a falar.

- Foi. Elas viraram as costas para mim.

- Que maldade. Sinto muito, eu não teria feito isso.

- Eu sei que não.

- Você foi feliz?

- Muito.

- Valeu a pena?

- Sim.

- Você se arrepende de alguma coisa?

- Meu único arrependimento foi ter demorado tanto tempo para encontrá-lo.

Kagome fez um barulho com o nariz que lembrava uma risada.

- Você merece um prêmio por agüentar o Sesshoumaru. Ele é realmente muito chato.

- Ele não é tão ruim assim. – disse Rin.

- Claro, claro.

Kagome estava realmente se sentindo acabada. Parecia que falar havia tomado mais energia do que ela tinha e agora e até mesmo o ato de formular frases parecia um esforço inimaginável. Ela não falou mais, enquanto lutava para manter a consciência. Ouvia os pássaros e o som do rio correndo ao seu lado, podia até mesmo ouvir a respiração de Rin. Rin estava falando alguma coisa, mas ela não conseguia distinguir as palavras que a mulher falava, era mais como se ela estivesse muito longe e Kagome não fosse capaz de entender. Então ela percebeu que só a voz de Rin parecia estar distante, mas todos os outros sons, ela finalmente estava caindo no sono. Um alivio percorreu seu corpo ao entender que iria descansar.

O silêncio e o nada já quase dominavam sua mente, quando sentiu Rin chacoalhando seu corpo e trazendo-a de volta. Kagome arregalou os olhos e viu a expressão de Rin, que parecia um misto de alivio e tristeza.

- Anda, Kagome, acorde, você precisa se levantar.

- Você não pode estar falado sério. – resmungou Kagome mal humorada.

- Nunca falei tão sério na minha vida. – disse Rin. – Ou na minha morte, que seja. Eu preciso que você entre no rio, Kagome. Mas eu não posso te levar até lá.

- Eu estou bem aqui. Não quero dar um mergulho.

Rin revirou os olhos impacientemente.

- Você quer viver ou não? – ela disse rispidamente.

- Eu estou morta.

- Não, não está. Você está em coma e se não fizer o que eu estou mandando você irá morrer.

Kagome encarou Rin por algum tempo e percebeu pela sua feição que ela estava falando sério. Então, ela não estava morta. Era sobre isso que Inuyasha estava falando, sobre ela voltar, claro, se ela estava em coma ainda existia a possibilidade de voltar!

- Eu quero viver. – disse Kagome decidida.

- Ótimo. Então faça o que eu mandei, temos pouco tempo. Eu te ajudo a levantar, mas você precisa ir até o rio sozinha. – disse Rin,

Kagome esticou o braço e Rin puxou-a para cima. Ela cambaleou um pouco, desde quando era tão pesada que suas pernas não conseguiam suportar seu próprio peso? Não, aquilo não importava naquele momento, ela precisava se focar em sobreviver, em obedecer Rin. A mulher deu um passo para o lado, deixando se ser o apoio de Kagome e a garota sentiu como se fosse capaz de cair a qualquer momento, mas antes que isso acontecesse, ela deu um passo e depois outro e logo viu o rio. Mas a visão do rio embrulhou seu estômago, ela virou os olhos para Rin e disse:

- Você não pode querer que eu entre nisso!

O rio estava vermelho cor de sangue. O cheiro forte e adocicado misturado com ferrugem dominava o ar às margens do rio, deixando claro que não era só a cor que era de sangue.

- Confie em mim. – disse Rin.

- Mas isso é sangue! – retrucou Kagome automaticamente sem pensar no que aquelas palavras realmente significavam,

- Não é simplesmente sangue, isso é vida. – disse Rin.

Kagome não tinha tempo de entender o que Rin estava dizendo, ela sentia a urgência e o desespero na voz dela. E alguma parte dentro de si gritava para agir rápido ou seria tarde demais. Deixando de lado toda a sua repulsa, Kagome entrou no rio, ele estava quente e era espesso. Exatamente como sangue. Pensar naquilo fazia Kagome sentir seu estômago se torcendo dentro de si.

- Agora você precisa se afogar. – disse Rin e sua voz era autoritária e séria.

- O quê? – gritou Kagome. – Você disse que eu viveria, mas isso... Isso é me matar!

- Você precisa confiar em mim. – disse Rin.

- Não, isso é loucura! – gritou Kagome.

- Por favor, Kagome. Eu não faria nada para te prejudicar. – a voz de Rin saía triste.

Kagome balançou a cabeça e fechou os olhos. Aquilo realmente era loucura. Que bela maneira de morrer, se jogar em um rio de sangue e se afogar propositalmente! Mas o que ela tinha a perder? Viver naquele mato para sempre não era o que poderia se chamar de divertido.

- Está bem. – ela disse.

- Antes de ir, lembre-se de uma coisa, Kagome. – disse Rin e sua voz era triste. – Tome cuidado em quem você vai confiar daqui para frente.

- Está certo. Obrigada pela companhia. – disse Kagome.

- E você poderia, por favor, dizer ao Sesshoumaru que eu sempre esperarei por ele?

- Claro, direi que você também o ama.

- Obrigada.

Kagome começou a afundar lentamente no corpo, fazendo sua mente acreditar que aquilo era apenas água e nada além disso, antes que pudesse submergir sua cabeça, Rin chamou-a e sua expressão era de tristeza.

- Não me odeie, não importa o que aconteça no futuro – ela sussurrou.

A garota não pôde responder, pois sentiu algo puxando sua perna e ela afundou rapidamente sem sequer encher seus pulmões de ar. O sangue agora parecia mais espesso que nunca, ela não conseguia se mexer e nem impedir de respirar e engolir aquele sangue, sentia seu pulmão enchendo-se com aquele líquido grosso, sentia-o descendo por sua garganta e preenchendo seu corpo por inteiro.

Ela tentava se debater, precisava de ar, seu peito ardia violentamente com aquela sensação, era como se a qualquer momento fosse explodir. E logo a ardência deu lugar à dor que começou no peito e se espalhou por todo o corpo. Kagome nunca sentira uma dor tão intensa em toda a sua vida, era como se ela estivesse queimando, enquanto se afogava. O desespero tomou conta dela, a única coisa que ela pensava era em sair dali, em voltar para a floresta e sobreviver. Ela já havia morrido antes e a sensação não fora nem perto daquilo, era como se ela apenas tivesse dormindo, mas isso? Isso era insuportável, Kagome queria morrer, queria que aquilo acabasse logo. Se pudesse gritar, ela provavelmente estaria implorando para que alguém a matasse. Ela não sabia dizer por quanto tempo ficou ali tentando, inutilmente, voltar à superfície, mas uma hora o cansaço e a dor dominaram sua mente. Ela desistira, não podia lutar contra aquilo, não era forte o bastante. E então, pela segunda vez, Kagome morreu.


Notas: desfibrilador* - Para quem não sabe são aquelas máquinas que usam para reanimar pessoas mortas, sabem? Que dá choque. Se não lembrou, google imagens tira sua dúvida :)

"A vida é uma droga e então, você morre" - É provável que todo mundo saiba de onde é essa frase, mas enfim, quem fala isso é o personagem Jacob Black. Agora eu não lembro se é em Breaking Dawn ou em Eclipse. Enfim, isso não faz muita diferença, a frase é do Jake e é da saga Twilight!


Oolá! Como estão? Aqui está mais um capítulo enorme de 25 páginas no word *-* Atrasei um pouco pra postar, porque acabei escrevendo tudo de uma vez essa semana, então, não me culpem por não estar tão bom quanto o anterior! ;-; Esse capítulo está confuso (novidade!), mas no próximo eu explico tudo direitinho. Juro! E para quem pediu, ai está a Rin! XD Finalmente ela aparece! Agora só falta uma personagem importante aparecer, né?!

Carolshuxa: Ahh, que bom que você gostou! *_* Fico feliz que minha nerdice em escrever tenha te salvado! XDDD Eu escrevo para me salvar o tédio, é bom que acabe livrando outras pessoas também! Aqui está a continuação, espero que goste! :)

H. Quinzel: Mais um capítulo super longo! XD Sobre a Kagome, resolvi enrolar mais um pouco para revelar o que acontece com ela! Acho que sou malvada demais ._. E sim, como você pôde ver, a sessão de espancamento do Sesshoumaru tinha utilidade. O Inu tinha que estar quase morto! =) Acho que esse capítulo não ajudou muito a responder as perguntas, né? XD

Maah: Ah, que bom que consigui te fazer feliz *_* E aqui está a continuação! :3

Bia : Ai que responsabilidade agora, escrever um capítulo depois de ver você dizendo que o anterior foi o melhor. Acabei achando esse bem parado, mas me esforcei! E olha, você disse que não achava que a Kagome pudesse morrer e acabei 'matando-a' de novo! E caramba, você lembrou da Rin! Agora, eu pergunto, qual anjo será que tentou matá-los? XD Hm, suspense! *chata* Espero que a curiosidade tenha diminuido pelo menos um pouquinho! :)

Izabela: Ahn, acho que matei a Kagome de novo. Desculpe por isso! ._. HAUISHIUAHS Desculpe por parar na melhor parte, é que eu acho que se não fizer isso, ninguém volta pra ler a fic ;_; Acho que fiz isso de novo, não é?

Aricele: Oi querida, obrigada pelo aviso, fico feliz que você ainda me acompanhe *-*E tomara que você consiga ficar com seu pc logo, odeio ficar sem pc, quase morro de tanto tédio ;_;

Acho que é isso! :) Agradeço a todos que comentaram e favoritaram minha fic, fico tão feliz vendo quantas pessoas gostam do que eu escrevo *___*

Obrigada pela visita e volte logo :*