Capítulo 14 - A volta
Ela tossia. E toda vez que fazia isso um punhado de sangue escapava de sua boca. Algo seco e gelado começava a arder em seu peito, mas ela não fazia idéia do que poderia ser. Lembrava-se de Rin pedindo que se afogasse em um rio de sangue, de sentir uma dor descomunal, do desespero em buscar ar inutilmente, de debater-se lutando pela sua vida e de finalmente desistir de tudo e aceitar a morte.
Kagome arregalou os olhos e a tosse tornou-se mais forte, ela precisou sentar na cama e curvar seu corpo para o lado, manchando o chão com sangue. Como se ao ter aberto seus olhos ela pudesse ter consciência, seu corpo começou a doer inteiro, sentia como se tivesse acabado de ser atropelada. Logo percebeu que aquela ardência em seu peito era o ar entrando no seu pulmão e ocupando o lugar do sangue que agora ela colocava para fora em ataques de tosse.
Algo estava errado com seu corpo, ela podia perceber isso, era como se não pudesse controlá-lo perfeitamente, mas naquele momento aquilo não importava. Ela não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo, mesmo que embaçadamente: o quarto branco, a cama, os aparelhos, o soro pendurado ao seu lado. Ele realmente voltara. Podia ouvir um barulho, mas não identificava o que era. Talvez pessoas falando ou andando. E uma espécie de apito incessante e irritante. Sentiu algo quente tocar seu braço e uma voz ecoou, Kagome não ouviu o que a pessoa disse, apenas se concentrou em não tossir e tentou deitar novamente na cama, piscou algumas vezes focalizando a figura borrada que estava parada em sua frente.
Ela abriu a boca para falar, mas antes que qualquer palavra pudesse ser pronunciada, ela curvou seu corpo para o lado novamente, tossindo sangue. O calor que antes estava em seu braço, passou para seu ombro, a pessoa estava segurando-a para que não caísse.
- Isso, coloque tudo para fora.
Era Sesshoumaru. Pela primeira vez ela entendera o que a pessoa estava falando e reconhecera a voz, ela tinha certeza que era Sesshoumaru. Ele estava lá, Kagome não entendia muito bem o porquê dele estar lá, mas apenas o obedeceu, colocando para fora todo aquele sangue que parecia se multiplicar dentro dela. Sua garganta doía com a tosse, mas conforme ela ia livrando-se do sangue, uma sensação de leveza começava a se espalhar pelo seu corpo. O ar não era mais gelado, parecia quente e agradável no peito.
Quando sentiu seu pulmão esvaziar-se por completo, a tosse parou. Os sons que antes eram apenas ruídos indecifráveis tornaram-se compreensíveis, as sombras tornaram-se pessoas e ela podia perceber que a luz que iluminava o quarto era do sol. Sentia-se cansada, mas era um cansaço bom, como se tivesse lutado muito por alguma coisa e agora tivesse ganhado. Deitou-se novamente na cama e sorriu.
- Terminou? – perguntou Sesshoumaru.
- Acho que sim. – sua voz saíra estranha. Rouca e mole.
- E como você está se sentindo?
- Viva. – respondeu Kagome automaticamente.
Sesshoumaru revirou os olhos, mas sua feição não estava irritada. Tinha um humor contido, típico dele.
- Sim, isso nós já podemos ver. – disse balançando a mão impacientemente na direção de Kagome.
- Cansada. Dolorida. Confusa. – disse Kagome. – E sinto que meu corpo está estranho, como se não me obedecesse direito.
- Precisamos fazer exames.
Kagome desviou os olhos de Sesshoumaru pela primeira vez e olhou ao redor encontrando alguns médicos com os olhos arregalados encarando-a. Sesshoumaru apenas assentiu com a cabeça e antes que a garota pudesse entender o que estava acontecendo, uma maca entrou no quarto e uma enfermeira já estava ajudando-a a trocar de cama.
- Espera, o que está acontecendo? – perguntou.
- Você está viva. E falando. – disse Sesshoumaru. – Eles achavam que você estava morta. Ou pelo menos, tinha virado um vegetal para sempre.
- Eu preciso falar com você! – disse Kagome.
- Depois, pequena, depois.
Kagome girou os olhos, reconhecendo aquela voz. Ela não tinha notado que a enfermeira que entrara no quarto era Mika. Seu rosto se iluminou em um sorriso ao ver a velha senhora com os olhos cheios de lágrimas.
- Bom dia, Mika. – ela disse.
Mika apenas sorriu, limpando as lágrimas dos olhos. Kagome olhou para Sesshoumaru, mas ele não olhava em sua direção, ele parecia cansado e mais velho, mas isso deveria ser apenas sua impressão. Ela sentiu a maca começar a se mexer e fechou os olhos, ainda não tinha se acostumado com a claridade.
- E então, Sesshoumaru. Como eles estão? O que está acontecendo?
Sesshoumaru atravessou a sala de espera e sentou-se em um dos sofás, encarou Sango e suspirou.
- Por que esse lobo imundo ainda não foi embora? – grunhiu.
Automaticamente, Miroku, Sango e Houjo viraram os olhos para o canto da sala, onde um yokai lobo estava sentado com cara de poucos amigos e um olho roxo. Ao perceber que falavam dele, ele soltou um rosnado.
- Ele acordou faz algum tempo e se isolou ai no canto. – explicou Miroku. – Não fala com ninguém, só fica rosnando.
- Posso saber por que ainda não foi embora, Kouga? – disse Sesshoumaru agora encarando o yokai.
- Preciso falar com a Kagome. – disse Kouga.
- Ela não está em condições de falar nada. – disse Sango irritada. – Por favor, vá embora.
- É claro que ela está em condições de falar. – retrucou Kouga. – Ela está acordada, eu sei disso, qualquer yokai sabe. Mas, oh, desculpe. Você não é um yokai, é só uma humana.
Ignorando a provocação de Kouga, Sango olhou para Sesshoumaru e disse:
- Ele está falando sério? O que isso significa?
- Significa que a Kagome está acordada, conversando. No momento ela está fazendo alguns exames. – disse Sesshoumaru encarando Sango e depois voltando a encarar Kouga. – E eu posso saber o que você quer com ela?
- Isso não te interessa. – respondeu Kouga.
- Você está preocupado. – disse Sesshoumaru. Aquilo não era uma pergunta.
Houjo olhava de um lado para o outro completamente perdido. Será que todos eles eram apaixonados por Kagome? Ele já achava difícil lidar com Inuyasha, que era um meio-yokai, mas agora um yokai lobo e Sesshoumaru? Isso era demais para sua cabeça. Ele jogou-se no sofá e continuou a acompanhar a discussão, sem entender absolutamente nada do que discutiam.
- E você está calmo. – gritou Kouga. – Como pode estar calmo?
- Ela está viva, não está? – disse Sesshoumaru.
- Isso não significa que ela estará viva amanhã! – disse Kouga cerrando os dentes. – Você não entende e mesmo se entendesse você não se importaria!
- O que eu não entendo, Kouga? – disse Sesshoumaru e seus olhos brilharam desafiadoramente.
- Já disse, eu estou aqui para falar com a Kagome. Eu preciso avisá-la.
- Ela já está avisada.
- Do que é que vocês estão falando? – disse Houjo. – Como assim ela está viva agora, mas pode não estar amanhã? E avisá-la? Avisar a Kagome sobre o quê? Ela está correndo perigo, alguém tentou matá-la, é isso?
Os olhos de Kouga cerraram-se ao encarar Houjo pela primeira vez e quando ele falou, sua voz soou ameaçadora.
- Você a ama, não é humano?
O rosto de Houjo tornou-se vermelho e ele adquiriu uma expressão sem graça na mesma hora. Sentia-se intimidado como olhar de Kouga, sentia como se a qualquer momento o yokai fosse sair do canto da sala e voar em sua direção. Somente a voz de Sesshoumaru foi capaz de quebrar aquele contato visual.
- Você também a ama, lobo.
- É diferente! – gritou Kouga. –O que esse humano patético poderia fazer por ela? Ele nem deve saber quem ela é, aposto que se soubesse teria nojo, assim como todos os outros humanos!
- É diferente? – a voz de Sesshoumaru era ameaçadora e cruel. – O que te faz achar que é diferente? Você acha que se viessem atrás dela você seria capaz de salvá-la? Você não pode, ninguém pode.
- Eu posso! – disse Kouga.
Sesshoumaru levantou-se e em um piscar de olhos ele já mantinha Kouga contra a parede, segurando-o pelo pescoço. Seus olhos eram assassinos.
- Não, você não pode. – ele sussurrou. – Eles a levaram de mim e eu não pude fazer nada. Nada.
Kouga começou a se debater tentando se livrar do yokai. Sango e Houjo estavam paralisados, olhando a cena com os olhos arregalados. Miroku caminhou até os dois e encostou no ombro de Sesshoumaru, fazendo os olhos assassinos se viraram em sua direção.
- Doutor Hidan quer falar com você sobre o Inuyasha. – ele disse calmamente.
Sesshoumaru se moveu apenas para colocar mais força em seu braço, fazendo a parede onde Kouga estava se trincar. O yokai parecia estar tremendo de raiva, mas Miroku não se moveu, continuou parado ao seu lado encarando-o pacientemente.
- Miroku, saia daí. – choramingou Sango.
- Está tudo bem, Sango. – disse Miroku. – Sesshoumaru, o Inuyasha.
Sesshoumaru piscou algumas vezes, parecia que ele estava travando uma batalha interna. Soltar ou não Kouga? Resolveu por soltá-lo, jogando-o do outro lado da sala. Ele não disse nada quando saiu da sala.
- O que foi isso? – disse Sango. – O que você fez, Miroku?
- Nada. – disse Miroku.
- Como nada! – disse Houjo. – O Sesshoumaru estava quase fora de si, dava para ver a raiva dele e então, puff, sumiu e ele foi embora!
- Ele tem coisas mais importantes para se importar.
Sango caminhou até Kouga e disse:
- Ele desmaiou. De novo. Vocês podem colocá-lo no sofá?
Miroku e Houjo suspiraram e foram até o yokai jogado no chão, arrastando-o até o sofá.
- Eu preciso de ar. – disse Houjo.
- Vai lá, a coisa deve estar sendo estranha pra você mesmo. – disse Miroku.
- Eu acho que é melhor você voltar para casa. – completou Sango.
- E eu vou. Mas só depois de falar com a Kagome. Ainda mais agora que eu sei que ela acordou. – disse Houjo.
Sango e Miroku se entreolharam e deram de ombro, sem dizer nada Houjo saiu da sala deixando os dois sozinhos. Sango sentou em uma poltrona e disse:
- Agora que ele já foi, poderia me explicar o que está acontecendo?
- Eu também não sei, só tenho um palpite. – disse Miroku.
- E qual seria esse palpite?
- Você ouviu o Sesshoumaru falando que não pôde salvá-la? Eu acho que ele não estava falando da Kagome. – disse Miroku.
- Está querendo dizer...
- Como eu disse, é só um palpite, mas não é impossível. Não depois de tudo o que vimos.
- Sesshoumaru apaixonado por um anjo não faz sentido.
- Não sei, acho que não sabemos nada sobre o Sesshoumaru para podermos julgá-lo. – disse Miroku pensativo.
- Eu acho que já sei o bastante para julgá-lo! – retrucou Sango. – Ele matou um monte de gente, Miroku.
- Hm, pode ser. Mas costumo julgar as pessoas pelo o que elas são hoje e não pelo o que eram no passado. – disse Miroku. – E acho que posso dizer que ele salvou a Kagome.
- Nós dois sabemos que isso foi por causa da atração! – disse Sango.
- Vocês são burros mesmo.
Sango e Miroku viraram os rostos automaticamente em direção à voz. Era Kouga. Ele estava deitado de maneira pouco confortável no sofá e fitava o teto.
- Ele a salvou porque sabia como fazê-lo! – continuou Kouga.
- Você deveria me agradecer por ter te arrastado até o sofá ao invés de me chamar de burro. – disse Miroku calmamente. – Você não é nada leve, sabia disso?
- Eu não pedi que me ajudasse. – respondeu Kouga rispidamente.
- Yokai mal agradecido, não é a toa que não sabe conviver com os outros. – resmungou Sango.
- Estou muito bem longe dos humanos. E devo dizer que a Kagome também estava. – disse Kouga.
Sango mordeu o lábio e fechou a cara, Miroku apenas jogou-se no sofá e suspirou.
- Você sabe o que aconteceu, não é?
- É claro que eu sei. – respondeu Kouga enquanto se ajeitava no sofá e trocava o teto por Miroku. – E você, garoto humano, eu posso ser um yokai selvagem como sua amiguinha ai disse, mas eu sei reconhecer quando devo algo a alguém, então, obrigado.
Miroku deu de ombros.
- Eu não te arrastei sozinho até o sofá. E isso nem foi grande coisa.
- Não é sobre isso que estou falando. Sesshoumaru teria me matado se você não interferisse.
- Isso também não foi grande coisa.
- Miroku, você está me escondendo alguma coisa? – disse Sango e Miroku se viu na mira de dois pares de olhos amendoados irritadíssimos.
- Não contou para sua namorada que você é monge? – a voz de Kouga era zombeteira. – Vocês humanos deveriam tratar melhor suas fêmeas!
Contrariando a reação esperada pelo yokai, Sango começou a gargalhar. Ela mal se continha em pé, precisou de um apoio para se agüentar, Kouga encarou-a de maneira curiosa e Miroku apenas balançou a cabeça negativamente com os olhos fechados.
- O Miroku? Um monge? – ela repetia entre as gargalhadas.
- Eu não sou um monge. – resmungou Miroku mal humorado. – Eu só sei alguns truques. E pare de rir, não tem nada de engraçado nisso!
- Como não? Você gordinho e careca andando por aí pregando a paz? E aqueles panos amarrados no corpo? Meu Deus, essa é muito boa, muito mesmo, eu não sabia que yokais tinham um senso de humor tão apurado! – disse Sango enquanto limpava as lágrimas que escorriam no seu rosto por rir demais.
- Sua humana é estranha. – disse Kouga.
- Ela não é minha humana. – grunhiu Miroku. – Agora que o humor de todos na sala melhorou às minhas custas, você poderia me dizer qual é o plano do Sesshoumaru?
Kouga revirou os olhos. Ele não gostava muito de humanos, mas eles eram amigos de Kagome. Humanos amigos de um anjo, de alguma maneira eles eram diferentes dos outros humanos, eles poderiam saber o que acontecia e poderiam ajudá-la. E pensando nisso ele resolveu falar logo o que sabia.
- O que vocês sabem sobre a Kagome?
- Ela é um anjo. – disseram Sango e Miroku ao mesmo tempo.
- Ótimo. Foi o que eu imaginei, vocês sabem o que ela é e mesmo assim estão ao lado dela, eu não gosto de vocês humanos, mas nós temos algo em comum: gostamos da Kagome. E é por isso que estamos aqui, eu acho que à partir de agora ela precisará mais de vocês do que nunca, talvez ela seja rejeitada ou coisa pior pode acontecer, não sei muito bem.
O casal não ousou falar enquanto o yokai explicava o que acontecia. A situação de estarem sentados conversando com um lobo já era complicada e estranha o bastante, principalmente para Sango, que sempre tivera o pé atrás com aquela raça, mas como ele havia dito, as diferenças não importavam naquele momento. Eles estavam lá pelo mesmo motivo.
- O que aconteceu aqui foi um exemplo do que pode acontecer com a Kagome daqui pra frente, ela quebrou a regra suprema daquela gente. Um anjo atacar o yokai de outro anjo ainda é perdoável, o ponto é matar o yokai, então no fim acabam relevando quem o fez, mas salvar um yokai? Isso é inadmissível, inimaginável. Quando isso acontece significa que o anjo e o yokai tem uma ligação e os anjos abominam isso com todas as suas forças. Acreditem em mim, elas não são boazinhas, elas não são legais. Quando alguém não age conforme os planos, essa pessoa sofre as conseqüências.
- Como no caso, morre. – murmurou Sango mais para si do que para os outros.
- Isso. Ela morreu. O problema aqui são as circunstâncias que levaram até essa morte, algum anjo atacou aquele hanyou estúpido na esperança que ela o salvasse e bom, traísse sua gente. Eu não sei o que isso significa, mas coisa boa não é. Ela está sendo usada, mas não sabemos por quem ou para o quê exatamente.
- Kikyou. – disse Miroku.
Kouga pareceu pensar um pouco naquela opção e voltou a falar:
- Foi minha primeira escolha também. Existe algo de muito errado com aquela mulher, mas a Kagome nunca vai admitir, já que ela é como uma mãe para os anjos. Quem enviou a Kagome para cá para cuidar do Inuyasha foi a Kikyou, ou seja, é inevitável fazer essa ligação. Ela sabe que essa é a missão da Kagome e como o Inuyasha é um hanyou, ela tem acompanhado a situação de perto. O que me fez pensar nela também é que, geralmente, a mais velha vem matar hanyous, elas não enviam as mais novas para essas missões, elas são especiais por algum motivo. A Kikyou é a mais velha, deveria estar aqui, mas não está. Ela deveria matar o Inuyasha, mas não matou e misteriosamente, alguém tenta matá-lo enquanto a Kagome está por perto.
- Foi essa mulher. – disse Sango revoltada. – É claro que foi! Ela quer matar a Kagome!
- Não seja tão precipitada. – disse Miroku sensatamente. – Não ouviu o que ele disse? Ela é como uma mãe, esse comentário me faz pensar que ele descartou a Kikyou.
- Ela ser como uma mãe não significa que ela seja realmente uma mãe, são coisas diferentes, ela não precisa ter instinto materno com um bando de gente só porque são todos da mesma espécie. – retrucou Sango.
- Essa questão familiar é muito complicada. – disse Kouga. – Anjos, teoricamente, não têm pai, nem mãe. Elas não contam onde encontram as crianças, logo, quando são encontradas não têm um nome ou um sobrenome. A Kikyou deve ter escolhido o nome da Kagome e o Arashi vem dela ser um anjo. Todos os anjos são Arashi. Entende o que estou dizendo? Ela pode não ser a mãe, mas teve esse papel, é inegável que existe uma ligação muito forte entre as duas.
- Isso nos leva ao ponto zero. – disse Miroku.
- Acho que estamos vendo as coisas do ponto de vista errado. – disse Sango parecendo pensativa. – Quero dizer, tudo que está acontecendo envolve o Inuyasha, não é? E se a Kagome não for a chave e sim o Inuyasha? Talvez a Kagome tenha um papel nessa história toda, mas não o principal como estamos achando.
- Foi o que eu pensei. – disse Kouga.
- É, faz sentido. – disse Miroku.
Sango apoiou a cabeça no encosto do sofá e suspirou.
- Isso não vai ter fim nunca.
- Pelo jeito não. – disse Miroku.
Sesshoumaru abriu a porta do quarto e caminhou até um pequeno sofá que se encontrava ali. O já conhecido som de aparelhos médicos estava começando a lhe dar dor de cabeça, suspirou. Ele não podia negar: estava cansado. Reviver um anjo não era uma tarefa fácil, claro que para Inuyasha o processo todo tinha sido muito pior e era por isso mesmo que o hanyou estava desacordado e ligado àquelas máquinas. Inuyasha parecia dormir e sua aparência não era nada saudável, estava pálido e com grandes manchas roxas pelo corpo, um de seus olhos parecia uma bola de tão inchado que estava.
As coisas teriam sido bem diferentes se Rin não tivesse ajudado. Ao pensar nisso Sesshoumaru fechou os olhos e encostou-se pesadamente no sofá, mas antes que pudesse refletir direito sobre aquilo, ele ouviu o som de alguém batendo na porta. Revirou os olhos enquanto caminhava para ver o que queriam. Era Mika.
- A Kagome está procurando por você.
- Onde ela está agora? – perguntou Sesshoumaru.
- No novo quarto dela, é só me seguir, eu te levo até lá. – disse Mika.
Sesshoumaru assentiu com a cabeça e fechou a porta atrás de si, começando a seguir a velha enfermeira. Os dois ficaram em silêncio o caminho inteiro e Mika só falou para indicar qual era o quarto, o yokai não agradeceu e entrou no quarto, mas antes pôde ouvir Mika resmungando sobre sua péssima educação.
- O que está acontecendo, Sesshoumaru? – disse Kagome desesperada ao perceber que era Sesshoumaru que acabara de entrar,
- Se acalme, está bem? – disse Sesshoumaru. – Antes de responder suas perguntas preciso saber o que seus exames disseram.
O rosto de Kagome se contorceu em uma careta, ela não queria falar sobre ela mesma naquela hora, mas a firmeza do olho de Sesshoumaru fez com que ela ignorasse suas vontades e fizesse o que ele queria.
- A maioria dos exames só vai sair amanhã. – respondeu automaticamente. – Mas parece que vou precisar fazer fisioterapia, é como se eu tivesse tido um pequeno derrame, ou coisa assim. Não entendi muito bem e sinceramente, isso não faz diferença agora.
- Você deveria se preocupar mais com a sua saúde. – disse Sesshoumaru fazendo um movimento impaciente com as mãos.
- Eu me preocupo! – respondeu Kagome irritada. – É claro que me preocupo, mas no momento eu preciso saber o que acontece! Eu preciso entender o que foi tudo isso!
- Você morreu. – disse Sesshoumaru.
- Isso eu já sei. – retrucou Kagome. – Também fiquei em coma. E agora, estou aqui. Como isso é possível?
- Você deu sua vida pelo Inuyasha, não foi? Ele fez o mesmo por você.
Os olhos de Kagome arregalaram-se e ela sentiu como se existisse um buraco no seu estômago.
- Onde ele está? Eu preciso falar com ele. – e enquanto falava a garota tentava levantar-se da cama, inutilmente, pois Sesshoumaru a impedia, forçando-a novamente a deitar-se.
- Me solta! – disse Kagome. – Eu preciso ver como ele está!
- Pare de se debater. – disse Sesshoumaru e seus olhos eram frios. – Deite-se direito e ouça o que eu tenho para dizer.
Kagome puxou seu braço livrando-se de Sesshoumaru, resmungou algo indecifrável e voltou-se para o yokai.
- Agora resolveu me explicar? – disse.
- Pare de agir como uma criança mimada! – disse Sesshoumaru.
- Não estou agindo como uma criança mimada! – retrucou Kagome cruzando os braços. – Eu só passei por muitas coisas, está bem?
Sesshoumaru revirou os olhos.
- Que seja. – ele disse e pegou fôlego. – Você não precisa se preocupar, nem você, nem o Inuyasha estão em perigo. Não por enquanto.
- Reconfortante. – resmungou Kagome.
Sesshoumaru ignorou o comentário da garota.
- Eu não sei exatamente o que aconteceu com você e ele e não sei quem o atacou, mas tenho minhas teorias. O que fizemos com você é conhecimento muito antigo e se a minha teoria estiver correta, o anjo que atacou o Inuyasha contava com isso. Ao meu ver, ela não queria matar nenhum dos dois, apenas torna-los mais próximos.
- Isso é doente. – retrucou a garota.
- Essa não é nenhuma novidade pra mim e não deveria ser pra você também. – provocou Sesshoumaru.
- Não estou com humor para suas provocações, poderia ir direto ao ponto? O que aconteceu exatamente? Como isso é possível, quero dizer, o Inuyasha ser capaz de me reviver?
- As duas coisas estão intimamente ligadas. – explicou Sesshoumaru. – Você deu a sua vida por ele, não foi? Ao fazer isso você criou um laço e somente alguém com esse laço poderia te trazer de volta. O que te deu a vida novamente foi a vontade do Inuyasha de revivê-la, independente do que aconteceria com ele; ele teve de escolher entre a própria vida ou te trazer de volta. No último momento ele escolheu você.
- Ainda não entendo como isso funciona.
- Eu poderia ter dado o sangue do Inuyasha no primeiro momento para você, mas isso não teria a força necessária para te trazer de volta à vida. Eu precisei levá-lo ao extremo, precisei fazer com que cada fibra do corpo dele desejasse que você voltasse, não importando o que aconteceria com ele. Você só é capaz de entender o valor da vida quando ela está acabando e acho que o Inuyasha compreendeu isso, percebeu o sacrifício enorme que você tinha feito em abrir mão da sua coisa mais preciosa e decidiu fazer o mesmo.
- Então ele também morreu? – disse Kagome confusa.
- Não, ele não morreu. – disse Sesshoumaru. – Eu estive por perto para me assegurar de que as coisas não saíram do controle.
Kagome fechou os olhos pesadamente por alguns minutos assimilando tudo o que acabara de ouvir. A idéia de Inuyasha desejar tão intensamente que ela vivesse ao ponto de ser capaz de trazê-la de volta era quase como uma piada. Uma piada sem graça, mas ainda assim uma piada. A garota sentia-se confusa, tudo o que ela acreditava estava desmoronando à sua frente, tudo o que ela achava saber, agora parecia uma mentira. Ela morrera por um yokai e agora estava viva graças à dois deles, isso não fazia sentido, não era compatível com o modo de vida que levava. Então, ela lembrou de Rin e do modo como ela falava de Sesshoumaru, como se ele fosse a melhor pessoa do mundo, como se ele fosse sua outra metade.
- Ela está esperando por você. – disse Kagome lembrando-se repentinamente do recado de Rin.
Sesshoumaru fitou-a e arqueou uma sobrancelha.
- O que foi que você disse? – disse.
- A Rin, ela disse que está esperando por você. – repetiu Kagome. – E ela ainda te ama.
Uma mistura de sentimentos brotou no rosto de Sesshoumaru, ele que era sempre tão inexpressivo e misterioso pareceu pela primeira vez como uma criança encarando o mundo sem saber o que fazer, sentindo-se pequeno demais diante da imensidão de todo o resto. Ele ficou alguns minutos em silêncio parecendo querer escolher qual dos sentimentos que brotara ele iria demonstrar.
- Como ela está? – disse escolhendo a curiosidade juntamente com a preocupação.
- Ela me pareceu estar bem. – disse Kagome.
Sesshoumaru voltou a se perder na imensidão de seus pensamentos e a garota sorriu, ao encará-lo.
- Vocês deveriam ser um casal, no mínimo, interessante. Eu gostaria de ter visto isso.
- Ela era maravilhosa. – sussurrou Sesshoumaru encarando o chão.
- Ainda é.
Os dois ficaram em silêncio, até Kagome subitamente anunciar que Inuyasha estava acordado.
- O quê? – disse Sesshoumaru.
- O Inuyasha, ele acordou! – repetiu a garota. – Me leve até lá, por favor.
- Por que esse desespero todo? Ele está bem. – disse Sesshoumaru.
- Eu não sei, eu só sei que tenho que ir até lá!
O yokai suspirou e pegou a cadeira de rodas que estava no canto do quarto.
- Está bem, eu te levo até lá.
- Obrigada.
Ao entrar no quarto Kagome levou um susto. Inuyasha estava horrível, seu corpo estava repleto de hematomas roxos, o rosto estava arranhado e um dos olhos estava inchado. O hanyou estava pálido e parecia muito fraco.
- Você não disse que ele estava acordado? – perguntou Sesshoumaru mal humoradamente.
- Eu tinha certeza... – disse Kagome confusa.
- Qual a chance de vocês calarem a boca?
A voz rouca e mal humorada ecoou pelo quarto como um sopro quente de vida, Kagome sentiu seu peito se aquecer, levou alguns minutos para entender que aquele calor era a mais nova ligação com Inuyasha e sentir aquilo significava que tudo estava bem, ela sorriu enquanto Sesshoumaru balançava negativamente a cabeça.
- Sempre um exemplo de educação. – disse. – Vou deixa-los a sós, o casal 20 deve ter muito o que conversar.
- Idiota. – resmungou Inuyasha.
- Obrigada. – disse Kagome que seguiu o yokai com o olhar até vê-lo saindo do quarto. – Então, no fim, acabou que nós dois ficamos vivos. Isso deve ser algo bom, não é?
Inuyasha soltou um suspiro e remexeu-se levemente na casa.
- Então, ele te salvou mesmo? Quem diria? Sesshoumaru salvando um anjo.
- Acho que vocês precisam conversar sobre isso. – disse Kagome em tom divertido. – Segundo ele, quem me salvou foi você.
- Porque é que você está tão longe de mim? – resmungou Inuyasha. – Eu detesto conversar com as pessoas e não enxerga-las.
- Ah, essa me parece uma ótima desculpa. – disse Kagome levantando-se da cadeira e cambaleando até a cama do hanyou. – Quer que eu segure sua mão também?
Inuyasha olhou para Kagome e revirou os olhos.
- Seu humor ainda é uma droga.
- Certo, o que quiser. – disse Kagome. – Se importa se eu me sentar na cama? Ficar em pé e não cair é meio complicado.
- Você está bem? – perguntou o hanyou.
- Não sei, - disse Kagome sentando-se em um pedaço da cama. – eu estou me sentindo meio estranha, como se eu tivesse voltado para um corpo que não é meu.
- O que o Sesshoumaru disse sobre isso? É normal?
- Eu não falei muito com ele sobre esse assunto, mas os médicos disseram que é um milagre eu estar acordada. Alguns meses de fisioterapia e logo eu estarei bem, e você? Como está se sentindo?
Inuyasha ficou alguns minutos em silêncio fitando o teto, Kagome encarava-o curiosamente.
- Aliviado. – ele disse.
- Ahn? – perguntou Kagome confusa.
- Isso mesmo que você ouviu, eu estou me sentindo aliviado. – ele continuava fitando o teto. – Eu achei que nunca mais iria te ver e eu não sei explicar, mas isso fazia eu sentir como se, sei lá, eu tivesse um buraco no meu estômago. Deve ser essa ligação estranha que a gente tem, a idéia de viver em um mundo sem você me parecia ao mesmo tempo maravilhosa e desesperadora.
- Desculpe por isso. – disse Kagome.
Inuyasha soltou um riso pelo nariz e disse:
- Eu sabia que você ia dizer isso. Mas mudando de assunto, como iremos resolver isso?
- Sobre o que você está falando?
- Você precisa me matar. – disse Inuyasha.
Kagome suspirou e deitou-se no espaço que sobrava na cama de Inuyasha.
- Eu não quero pensar sobre isso agora.
- Você está confusa.
- Eu não sei mais em quem confiar. – disse Kagome fitando o teto procurando o que Inuyasha estava vendo de tão interessante lá.
Novamente os dois voltaram a ficar em silêncio por alguns minutos, mas dessa vez quem falou foi Kagome.
- Você acha que se tivéssemos nos conhecido em outras circunstancias, as coisas teriam sido diferentes?
- Está querendo saber se não seríamos inimigos mortais que nasceram para se matar? – perguntou Inuyasha e Kagome assentiu com a cabeça. – Nãão, eu não te suportaria em qualquer canto do universo.
Kagome sorriu.
- Tonto.
Olá :) Como estão?
Eu estou bem, mas tenho saudades imensas daqui! Sim, eu tenho vergonha de ter sumido e de aparecer SÓ agora com esse capítulo mixuruca, mas juro que tentei escrever mais nesses últimos meses, mas não imaginei que o cursinho seria tão puxado. Quando eu tentava escrever para a fic, ficava só pensando em história e geografia (confesso, únicas matérias as quais eu REALMENTE estudei), sobre guerras e golpes políticos, sobre rios e relevos. Quanto aos vestibulares, ainda faltam dois, não passei para a segunda fase da fuvest (para quem não sabe, é o vestibular da Usp, a nota de corte do meu curso ano passado foi 64, a mesma de direito), fiz 42 de 90, gabaritei inglês, história e geografia, mas zerei fisica, quimica e matemática (confesso que também não estudei essas matérias e além de tudo, não assisti a nenhuma aula :D). Prestei puc semana passada e fiz 21 de 45 e novamente gabaritei história, geografia e inglês. Talvez eu passe na Puc :)
Prometo que não sumo mais por tanto tempo, mas não garanto uma atualização tão cedo. Sinto muita falta de escrever e de receber reviews, mas é por uma boa causa, se tudo der certo, até o fim do ano eu serei bixete em Jornalismo e com as matérias da faculdade eu só tendo a melhorar na escrita e consequentemente, melhorar minha fic *nerd* E então é isso, peço mil desculpas por deixar vocês sem fic e sem notícias, espero que vocês ainda me acompanhem :)
Um beijão enorme para vocês e até a próxima!
