Capítulo 15 - A chave


Inuyasha abriu os olhos e a claridade lhe pareceu agradável, o calor do sol tocou levemente seu rosto e ele agradeceu mentalmente pela existência daquela janela tão grande. A verdade é que o quarto do hospital parecia-lhe incrivelmente frio e por algum motivo, vazio. Ele piscou algumas vezes buscando em sua mente uma explicação para aquela sensação, olhou ao redor e sentiu-se estranhamente mais leve, como se algo estivesse com ele quando adormecera e agora não estivesse mais lá, era estranho e mais uma vez percebeu que era vazio, quase triste. Então, um cheiro familiar despertou seus sentidos, ele sabia o que estava errado, o que estava faltando.

- Kagome... – ele resmungou.

Perceber aquilo fez com que se sentisse irritado, porque a presença dela era tão importante? "Patético" resmungou para si mesmo, enquanto revirava-se na cama buscando a campainha que chamava uma enfermeira. A moça não demorou a chegar e sorriu ao encontrá-lo.

- Vejo que acordou bem, como está se sentindo? – perguntou.

- Impaciente. – respondeu de maneira mal humorada. – Eu queria sair desse quarto, não agüento mais ficar deitado.

- Não posso deixar você sair ainda, preciso que você coma alguma coisa antes. Acha que consegue fazer isso? Não é tão ruim... – disse a enfermeira.

Inuyasha revirou os olhos e bufou.

- Tenho escolha?

- É, na verdade, não. – disse a enfermeira rindo. – Prometo que serei rápida e além de tudo, você também precisa tomar seus remédios.

- Certo, certo, qualquer coisa para sair daqui. – disse Inuyasha.

A enfermeira sorriu novamente, provavelmente achando todo o mau humor do hanyou engraçado, pediu licença e se retirou. Automaticamente, Inuyasha virou seus olhos para a janela e vislumbrou o céu azul, o dia parecia simplesmente perfeito demais para ele estar trancafiado em um quarto de hospital. Pensou novamente em Kagome e em como ela era a culpada por tudo aquilo, desde que ela chegara sua vida se transformara em uma loucura. Nada, absolutamente nada de bom acontecera desde então. Sentiu-se impotente, porque mesmo com tudo aquilo era incapaz de odiá-la e ele desejava quase doentiamente ser capaz de odiá-la, de desprezar a existência de seja lá o que ela fosse. Ele não queria se sentir daquela maneira, Inuyasha queria que apenas o calor do sol fosse o bastante para aquecê-lo, mas não era.

- Merda de ligação. – resmungou.

Como prometera a enfermeira não demorara quase nada para voltar com uma bandeja de comida em uma das mãos e uma de remédio na outra. Inuyasha se recusou a aceitar ajuda para se levantar e sentou-se sozinho, dizendo que ele não estava aleijado, nem inválido. A moça revirou os olhos e apenas acenou com a cabeça, deixando o hanyou fazer as coisas do seu próprio modo, puxou uma espécie de apoio que era acoplado na cama e aquilo logo se transformou em uma mesa, onde ela apoiou os pratos. Sopa, purê de batata, suco de uva e um iogurte de ameixa. "Maravilha" comentou Inuyasha ironicamente "Ameixa, que delícia".

- Apenas coma. – disse a enfermeira, enquanto injetava alguns remédios no acesso que Inuyasha tinha no braço.

O braço que recebia a medicação ardia e formigava, mas Inuyasha não reclamou, apenas fechou a cara em uma careta e com o outro braço livre começou a apreciar o seu banquete, foi só então que notou quão faminto estava já que até mesmo aquela comida sem graça do hospital parecia-lhe incrivelmente saborosa. Ao perceber a alegria do hanyou ao comer, a enfermeira riu.

- Eu disse que não era tão ruim...

- Eu acho que no meu caso, é a fome mesmo. – retrucou Inuyasha.

- Provável. Seus amigos foram para casa ontem à noite, eles pediram para que eu lhe avisasse assim que você acordasse.

- Hm, está falando do Miroku e da Sango?

- Imagino que esses sejam seus nomes. Eles não pareciam muito felizes em ter de ir para casa, mas aquele outro yokai estava praticamente ameaçando os dois.

- Esse deve ser o Sesshoumaru.

- É, é o Sesshoumaru. Um outro rapaz tentou ficar, mas o Sesshoumaru também o obrigou a voltar para casa dizendo que ele era só um empecilho ao ficar por aqui, o único que não o obedeceu foi um outro yokai. O clima na sala de espera está bem tenso, sabe? Ninguém aqui do hospital está entendendo muito bem o que está acontecendo.

- Você deve estar falando do Houjo e pelo cheiro no ar o outro yokai é o Kouga. – explicou Inuyasha. – Pra ser bem sincero, eu acho que nem a gente sabe muito bem o que está acontecendo.

- E tem também aquela menina, Kagome o nome dela, não é isso? – continuou a enfermeira que parecia bem curiosa com tudo aquilo.

- O que tem a Kagome? – perguntou Inuyasha voltando a fazer uma careta.

- Ela está deixando os fisioterapeutas malucos. – explicou.

- Fisioterapeuta?

- É. Ela estava se queixando sobre não conseguir controlar muito bem seu corpo e os resultados dos exames saíram hoje de manhã, a falta de oxigenação afetou levemente a parte que controla a locomoção do corpo. É um milagre que apenas isso tenha acontecido, mas ela ficou arrasada quando soube que levaria pelo menos 3 meses para ser capaz de se movimentar normalmente, ficou repetindo que não tinha esse tempo e que daria uma semana para resolverem o problema dela. Nós já havíamos dito que ela precisaria de alguns meses de fisioterapia para ficar boa, mas acho que ela não acreditou realmente nisso.

Inuyasha balançou negativamente a cabeça lembrando de como ela havia dito casualmente que ficaria boa em alguns meses, a enfermeira estava certa, ele tinha certeza que ela não acreditara que levaria tanto tempo.

- O que ela espera dando esse show? Ela deveria estar grata por tudo o que fizemos por ela. Aposto que está emburrada em algum canto...

- Na verdade, ela está na fisioterapia desde as cinco da manhã. Por isso eu disse que ela estava deixando os fisioterapeutas malucos, você não pode se esforçar tanto assim, essas coisas levam tempo e se você forçar demais a situação só tende a piorar.

- E por que ninguém tira essa maluca de lá? – disse Inuyasha como se fosse o óbvio.

- Sesshoumaru deu ordens para deixá-la fazer o que acha melhor. – disse a enfermeira e logo resmungou. – Esse lugar virou uma piada.

O hanyou não respondeu. O que Sesshoumaru estava querendo com tudo aquilo? Deixar Kagome agir feito uma louca como se o mundo fosse acabar amanhã não parecia a coisa mais saudável a se fazer, ela tinha acabado de quase morrer, ficou em coma, era óbvio que seu corpo sofreria conseqüências, era óbvio que ela precisaria de um tempo para se recuperar. Novamente, Inuyasha sentiu aquela familiar irritação formigar em seu estomago, estava se preocupando com ela mais uma vez. Revirou os olhos e bufou.

- O que foi? – perguntou a enfermeira.

- Poderia me levar até a ala da fisioterapia? – perguntou.

A moça apenas acenou positivamente com a cabeça e saiu do quarto, voltando logo em seguido com uma cadeira de rodas. Inuyasha odiava aquela cadeira, mas sabia que se quisesse sair daquele quarto precisava aceita-la, era um preço a se pagar. Sentou-se com a ajuda da enfermeira e os dois passearam pelo hospital sem trocar mais nenhuma palavra, sem que a enfermeira dissesse onde Kagome estava, ele já sabia. Ele sentia uma espécie de frio na barriga que crescia conforme a moça empurrava a cadeira para o fim do corredor, o cheiro estava se intensificando, ela apontou para um porta e disse:

- Quer que eu fique com você?

- Não, obrigado. – respondeu Inuyasha com um nó na garganta.

- Se precisar me chame, acho que não me apresentei, mas meu nome é Yuri. – disse.

- Certo, obrigado Yuri.

Ela sorriu e se afastou. Inuyasha ficou ali encarando a porta por alguns minutos, tentando acalmar seus órgãos que pareciam se embolar só de pensar em entrar naquela sala. Começava a se irritar novamente, ele não era mais uma criancinha, agir daquele jeito era vergonhoso. E ele repetia isso para si mesmo várias e várias vezes, tentando se fazer acreditar que aquilo era patético, mas uma onda de frustração inundou seu corpo fazendo com que seu mantra se tornasse secundário. Algo estava errado com Kagome, ele conseguia sentir isso perfeitamente, sem pensar duas vezes levantou-se daquela cadeira que tanto o incomodava e entrou na sala, surpreendeu-se ao notar como se sentia bem, era como se nunca tivesse passado por nenhuma provação, começou a se deliciar com a sensação de estar tão bem, mas novamente as emoções de Kagome o puxaram para a realidade.

Procurou pela garota na enorme sala espelhada, que misteriosamente encontrava-se toda apagada e escura, mas precisou recorrer ao seu olfato. Ela estava sozinha, encolhida em um canto e chorava compulsivamente. Inuyasha suspirou e disse em voz alta tentando chamar a atenção da garota:

- Eu sabia que você encontraria você nesse estado.

Ela não respondeu, apenas se encolheu mais contra a parede, era como se Inuyasha a assustasse e ele não gostou daquilo.

- Qual o problema?

A única resposta que ele teve foi um soluço. Qual era o problema com ela, afinal de contas? Ontem ela estava andando, e fazendo piadas, e até mesmo rindo e agora isso? Inuyasha revirou os olhos e andou até onde ela estava sentando-se ao seu lado.

- Se você está assim só por que ontem eu disse que não te agüentaria em nenhum lugar do universo, eu estava exagerando, ok? – disse forçando uma voz amigável. – Talvez pudéssemos ser amigos, sei lá, em Marte.

Kagome abafou um riso e disse:

- Você é muito convencido, sabia?

- É o que dizem. – respondeu Inuyasha sorrindo orgulhosamente. – Agora vamos falar sério, o que está acontecendo?

O corpo antes descontraído de Kagome voltou a se contrair contra a parede e ela resmungou um "nada" quase inaudível. Inuyasha alisou seu rosto de maneira impaciente esperando qualquer reação da garota, mas ela continuou lá encolhida, sem dizer uma palavra ou sequer levantar os olhos em sua direção. Sentindo a irritação explodir dentro de si Inuyasha lançou seu corpo para frente, erguendo-se, mas ao perceber os movimentos ao seu lado Kagome rapidamente imitou-os, jogando-se para frente e segurando a barra da calça médica que Inuyasha estava usando.

- Pensei que não quisesse conversar. – disse Inuyasha rispidamente.

O silêncio que recebeu fez Inuyasha puxar a perna, fazendo Kagome solta-lo, ouviu um soluço, mas se recusou a olhar para baixo, saiu andando e quando alcançou a porta a garota finalmente cuspiu o que estava lhe causando tanto aflição.

- Eu estou com medo.

Inuyasha girou nos calcanhares e procurou os olhos de Kagome na escuridão da sala e ao encontrá-los sentiu seu estômago embolar-se. Ela ainda estava encolhida e pela primeira vez ele notou que ela tremia, os olhos arregalados olhavam ao redor como se a qualquer momento ela pudesse ser atacada.

- Na verdade, eu estou morrendo de medo. – repetiu Kagome.

- O que está acontecendo, Kagome? – disse Inuyasha sério, lutando contra a vontade doentia que crescia dentro dele de correr até ela e abraça-la.

- Algo está para acontecer, algo grande. – disse Kagome e seus olhos voltaram a olhar ao redor procurando por algo que obviamente não estava lá. – Eu não tenho três meses para poder me recuperar, se isso continuar assim eu vou morrer.

Inuyasha olhou incrédulo para a garota, ela deveria estar delirando. Ele pensou em perguntar isso, mas ele sabia que ela acreditava cegamente naquilo, ele podia sentir a convicção daquelas palavras. Ele caminhou até ela, ajoelhando-se em sua frente fazendo-a encará-lo.

- Você está bem, ninguém vai tentar matá-la.

- Você não ouviu o que eu disse? – choramingou Kagome. – Eu sei, Inuyasha, eu vi! Isso é só o começo, eu preciso me recuperar e sair logo daqui, seja lá quem fez isso com a gente vai vir de novo e de novo e de novo e eu não posso permitir que vocês corram perigo.

- Espera, calma, vai um pouco mais devagar com isso. – disse Inuyasha sentindo seu estomago voltar a se contorcer dentro de si. – Você está dizendo que vai embora?

- Eu preciso sumir. – explicou Kagome. – Você não está entendendo, algo errado está acontecendo!

- Eu já entendi isso, está bem? – retrucou Inuyasha irritado. Aquela conversa estava começando a mexer seriamente com seus nervos. – Você disse que viu. Viu o que? Do que você está falando?

- Morte, Inuyasha! Foi isso que eu vi! – disse Kagome e seus olhos transbordavam embora sua voz agora se mantivesse firme. – Tinha tanto sangue, Inuyasha! E eu vi seus olhos, eles me encaravam com tanta dor, com tanto sofrimento que eu achei que não agüentaria, eu quis me juntar a você por que era como se a minha alma estivesse sendo arrancada de mim. E então, seus olhos se apagaram! Eles se apagaram e eu não pude fazer nada.

- Você estava sonhando, Kagome. Nada disso aconteceu! – disse Inuyasha tentando soar o mais sensato possível.

- Sim. Não. Eu não sei. – e ela voltou a choramingar. – Foi tudo tão real e eu me senti tão inútil, e fraca, e patética.

Inuyasha pegou a mão de Kagome, tentando acalma-la.

- Eu estou aqui na sua frente, não estou? Quer prova maior de que tudo não passou de um pesadelo?

- Se foi tudo um pesadelo, por que ainda dói tanto, Inuyasha? – disse Kagome.

- Eu não sei, eu não estava lá, eu não vi o que você viu. – disse Inuyasha sinceramente.

- E é exatamente isso que estou tentando te explicar, você não entende meu desespero por que você não viu. Você não viu! – disse Kagome. – Eu preciso melhorar e sair daqui.

- Não estou entendendo seu desespero em ir embora! – disse Inuyasha deixando transparecer o quanto aquilo estava incomodando-o. – Na sua visão ou sei lá que droga foi essa, não era quem morria? Você não está correndo perigo!

- Quando você morreu, eu morri também. – disse Kagome simplesmente.

- Isso está passando dos limites. – disse Inuyasha.

- Isso já passou dos limites faz tempo! – retrucou Kagome.

- Estou falando sobre seu desespero! – disse Inuyasha impaciente. – Kagome, desde quando você tem algum tipo de poder mediúnico? Você não é vidente até onde eu saiba, todo mundo tem algum sonho estranho na vida, mas nem por isso as pessoas surtam e acham que vão morrer. Tá, algumas delas surtam, mas só as loucas fazem isso.

- Você está achando que eu estou louca! – disse Kagome acusadoramente.

- Eu não disse isso, - retrucou Inuyasha de maneira quase deprimida. – eu sei que isso te assustou demais, mas eu estou tentando ser racional. Embora eu seja capaz de sentir todo o desespero que você está sentindo, eu não vi o que você viu, então nada disso soa tão urgente assim. Eu me sinto ótimo e você com o tempo também ficará boa e tudo voltará ao normal, é assim que eu vejo as coisas.

Kagome desvencilhou-se das mãos de Inuyasha e arrastou-se até a parede, usando-a como apoio para suas costas. Ela não chorava, nem tremia mais, mas seus olhos estavam vidrados e era como se ela não precisasse mais piscar. Inuyasha ficou encarando-a, buscando inutilmente naquele emaranhado de sentimentos que ela estava presa o que ela realmente estava sentindo.

- Eu quero ficar sozinha. – ela disse e sua voz era dura, quase como se estivesse dando uma ordem.

- Você está pensando em fugir! – gritou Inuyasha finalmente compreendendo o que ela tentava esconder.

- Agora que você sabe, não é mais uma fuga. – retrucou Kagome irritada. – E eu gostaria que você se mantivesse fora da minha mente!

- Isso foi só um sonho estúpido, Kagome! – gritou Inuyasha enquanto levantava-se do chão e caminhava até a garota.

- Não vou discutir isso com você! – retrucou Kagome levantando-se também na esperança de fugir do hanyou.

- Aonde você pensa que vai? – disse Inuyasha.

- Pra longe. – disse Kagome.

- Foi você quem me matou, não foi? É por isso que você está desse jeito, na sua visão você cumpria sua missão, mas o laço que nos une fez com que você morresse também. Você quer fugir por que ao ficar aqui terá de me matar, só que ao fazer isso, você vai morrer. Agora tudo faz sentido, eu consigo entender perfeitamente... – disse Inuyasha sendo atingido por um clarão de entendimento.

- Eu falei para ficar fora da minha mente! – grunhiu Kagome agora passando por ele e cambaleando até a porta.

- Você realmente acha que nesse estado você vai ser capaz de sumir, de fugir dessa coisa que está atrás de nós? Se essa sua visão estranha fizer algum sentido real, você lá fora, sozinha, corre mais riscos de nos matar do que ficando aqui. Pense um pouco antes de surtar! – disse Inuyasha.

- Não existe ninguém atrás de nós. – gritou Kagome. – Fui eu! Eu quem te matou!!! Eu não posso ficar perto de você ou esse será nosso fim, é tão difícil assim para você entender? Eu não quero te matar, Inuyasha, você é diferente dos outros, você não fez nada para que elas me enviassem até aqui! Te matar seria errado, mesmo você sendo um yokai, ainda assim, matar inocentes é errado, só que elas não entenderão isso. Elas virão atrás de você quando perceberem que eu não sou capaz de te matar e eu não serei capaz de te proteger!

- E você acha que fugir vai resolver as coisas? – disse Inuyasha cuspindo as palavras sem ao menos pensar no que estava dizendo. – Acha que se fugir elas não virão atrás de mim para me matar? Elas já fizeram isso antes com você por aqui e vão fazer de novo não importa onde você esteja. Se eu tiver que morrer, que seja pelas suas mãos, como deveria ser desde o começo.

- Do que você está falando? – disse Kagome virando-se para Inuyasha e olhando para o rapaz como se ele estivesse louco.

- Não me faça repetir essa droga toda! – disse Inuyasha. – Desde que você apareceu minha vida se tornou um inferno e agora temos esse laço estúpido, eu sei que se você sumir agora essa droga vai doer mais do que se um anjo estivesse tentando me matar. Você fez tudo isso comigo, então não ache que pode simplesmente ir embora sem resolver nada, se eu vou ter de passar por tudo aquilo de novo, que você passe junto e afunde comigo!

Os olhos de Kagome começaram a queimar e inundar, algo em seu peito ardia e sua visão estava embaçada. Inuyasha surtou, revirando os olhos e resmungando:

- O que é agora?

- Eu destruí a sua vida! – disse Kagome e a compressão daquilo fazia com que cada palavra saísse dolorosa. – E agora você me odeia, é claro que me odeia, você tem todo o direito de me odiar, eu também te odiaria, é o natural a se fazer, não é? A gente odeia as pessoas que destroem nossas vidas. Oh, meu Deus, você nunca poderá ter sua vida de volta, nem se eu sumir ou até mesmo morrer, nada do que eu faça será o bastante. Você deve se arrepender tanto de ter me trazido de volta, você deveria ter deixado as coisas do jeito que estavam, ia ser melhor...

A voz de Inuyasha soou mais sincera e derrotada do que ele queria.

- Eu juro que gostaria poder te odiar e me arrepender disso tudo, mas não consigo, simplesmente não me parece o certo.

As lágrimas até então presas no olho de Kagome escorreram fazendo um caminho brilhante nas bochechas avermelhadas da garota.

- Desculpe. – ela sussurrou.

- Pedir desculpas não vai trazer minha vida de volta. – disse Inuyasha.

- Eu sei que não, mas é a única coisa que eu posso fazer por você. – disse Kagome encarando o chão.

- Você sabe que não é só isso. Pode começar desistindo dessa idéia de ir embora, acho que depois seria interessante confiar em mim, afinal, é minha vida também e eu não estou disposto a deixar que você decida sozinha o que vai fazer com ela. Se me der motivos realmente plausíveis, eu deixo você ir e não incluo visões malucas de um futuro ensangüentado nesses motivos. – disse Inuyasha.

- Sua vida seria bem mais simples sem mim.

- Isso sou eu quem resolve.

Kagome encostou-se na parede e escorregou até o chão, suspirou e resmungou:

- Está tudo errado.

- Não está conseguindo ficar em pé? – perguntou Inuyasha ignorando o comentário da garota.

- Eu já pedi para você, por favor, ficar fora da minha cabeça. Isso não vai nos ajudar. – disse Kagome.

- Já te expliquei antes, eu não sou capaz de ler a sua mente eu apenas sei como você se sente e com isso, consigo concluir o que você está pensando. E dessa vez eu não precisei de nada disso, você está com uma cara péssima e precisou se jogar no chão. – disse Inuyasha balançando impacientemente a mão.

- Certo, certo. – resmungou Kagome.

- Você precisa descansar. – disse Inuyasha.

- Não, eu preciso andar. – disse Kagome.

Inuyasha revirou os olhos.

- Você está agindo como uma criança. De novo.

- Ah, claro, agora eu sou uma criança por me sentir frustrada em ser incapaz de andar igual gente! – disse Kagome irritada.

- Eu ando normalmente, mas fico sentindo sua frustração o tempo todo! E eu não reclamo sobre isso. – retrucou Inuyasha.

- Não reclama? Você reclama sobre isso o tempo todo! – disse Kagome.

- Ótimo, vocês estão juntos e ela ainda não resolveu ir embora, isso ajuda muito minha vida.

Os dois que até então se encaravam irritantemente viraram-se para a porta, mesmo sabendo que aquela voz era de Sesshoumaru.

- Viu? Eu preciso ir embora. – disse Kagome apontando dramaticamente para Sesshoumaru.

- Ora, cale a boca, ele não disse nada disso. – respondeu Inuyasha revirando os olhos. – Ele disse que você estar aqui é ótimo, pare de deturpar o que as pessoas falam!

Kagome fechou a cara e cruzou os braços, demonstrando assim como estava indignada com Inuyasha ter mandando-a calar a boca, ora, quem ele pensava que era?

- Está na hora de conversamos. – disse Sesshoumaru ignorando completamente a discussão entre os dois.

- Finalmente. – disse Inuyasha.

- Kagome, você acha que consegue ir lá para baixo? – perguntou Sesshoumaru.

- Sim. Não. – disseram Kagome e Inuyasha, um por cima do outro.

- Isso é um sim ou não? – disse Sesshoumaru impaciente.

- É um não, ela não está nem se agüentando em pé! – disse Inuyasha. – Você deveria saber disso, fez questão de obrigar os fisioterapeutas a acompanharem a loucura dela!

- O que eu faço ou deixo de fazer é irrelevante agora.

- Eu estou bem. – disse Kagome tentando se levantar.

- Não, você não está, fique quieta ai! – disse Inuyasha empurrando-a para o chão novamente. – Qual o problema em conversarmos nessa sala? Ela está vazia...

Sesshoumaru resmungou alguma coisa inaudível e ascendeu as luzes iluminando a sala de tal modo que Inuyasha e Kagome precisaram cerrar seus olhos.

- Você está péssima. – disse Sesshoumaru ao enxergar Kagome.

- A última que disseram isso, eu morri. – ela disse.

- Não acho que seja o caso.

- O que ele faz aqui? – a voz de Inuyasha era pouco amigável.

Como que procurasse sobre o que o hanyou estava falando, Kagome seguiu a direção dos olhos dele e encontrou Kouga na porta da sala, com um olho roxo. Não pode evitar de sorrir em ver aquela cena. Sesshoumaru também não parecia muito mais animado do que Inuyasha com a presença do yokai, ele fez um careta antes de falar.

- Ele disse que precisa falar com a Kagome e não importa quantas vezes eu o espanque, ele não vai embora.

Dessa vez Kagome gargalhou, levando as mãos até a boca sentindo-se culpada. Inuyasha lançou-lhe um olhar assassino e disse:

- Você não estava ficando louca?

- Certamente. – disse Kouga enquanto se arrastava para dentro do cômodo e fechava a porta atrás de si. – Qualquer um começaria a ficar louco tendo uma ligação desse nível com você.

- Olá, Kouga. – disse Kagome de maneira simpática e bem mais animada do que Inuyasha já a vira naquele dia.

- Olá, meu anjo. – respondeu Kouga e cada uma de suas palavras soava intensa.

Sesshoumaru e Inuyasha reviraram os olhos e o mais velho foi o primeiro a falar.

- Temos assuntos sérios...

- ... o namorico pode ficar para depois. – completou o mais novo.

Dessa vez, Kagome quem revirou os olhos.

- Não estou dando em cima dele, Inuyasha.

- Mas deveria. – disse Kouga em tom provocador.

- Vocês vão continuar com isso por muito tempo? Eu não tenho nem tempo, nem paciência para perder com um bando de adolescentes cheios de hormônios.

- Não sou adolescente. – retrucou Kouga.

- Está agindo feito um. – disse Sesshoumaru. – Certo, vamos ficar por aqui mesmo, é mais fácil e como o Inuyasha disse, a sala está vazia.

Ao perceber a movimentação de Kouga, Inuyasha rapidamente se jogou no chão, sentando-se ao lado de Kagome, o yokai lobo ignorou a cara feia do rapaz e sentou do outro lado, pegando a mão da garota e beijando levemente.

- Fico feliz que esteja de volta. – sussurrou Kouga.

- Estou feliz em estar de volta. – disse Kagome.

Fazendo o que sabia fazer de melhor, Sesshoumaru ignorou completamente o clima de ódio que começava a se formar e sentou-se em frente ao trio mexendo os braços para trazer a atenção dele para si. Funcionou, pois os três deixaram de lado o que estavam fazendo e fitaram o yokai com atenção.

- Kagome, você não pode ir embora. – disse Sesshoumaru.

Um sorriso vitorioso brotou nos lábios de Inuyasha e ele se segurou para não gritar um 'eu te disse' para a garota, que agora remexia seus lábios tentando formular frases para contestar aquilo que ela achava uma injustiça, mas Kouga o fez antes.

- Sou a favor de ela ir embora.

- Isso não é uma votação, seu lobo imundo. – grunhiu Inuyasha.

- Muito menos uma reunião para decidirmos o que você quer para a vida da Kagome. – retrucou Kouga.

- Eu ainda estou aqui, acho que posso resolver por mim mesma. – disse Kagome.

- Não, não funciona assim. – disse Sesshoumaru. – Você não sai dessa cidade a não ser que eu permita.

- O que faz você acreditar que eu obedeceria a suas ordens? – desafiou a garota e seus olhos brilhavam perigosamente.

- Você me deve sua vida, sua garota ingrata, e enquanto eu estiver vivo eu farei o possível para preservá-la. Você não sabe tudo o que passamos, então não aja como bem entender.

Kagome mordeu o lábio inferior com força, ela não contava com aquele argumento, estava sem palavras, mas parecia que Kouga havia assumido a função de seu advogado, pois enquanto ela procurava uma maneira de retrucar, ele já o fazia furioso.

- Você está jogando na cara dela que a salvou? Eu entendi bem o que está acontecendo aqui? Você a salvou apenas para poder manipulá-la, isso é doente!

- Fique fora disso. – disse Inuyasha. – Eu, mais do que qualquer um, a trouxe de volta a vida, então se ficarem com essa merda de ver quem tem mais direito sobre a vida, não acham que sou eu? Afinal, essa droga de ligação faz com que nossas vidas sejam praticamente uma só.

- Vocês só podem estar brincando comigo. – disse Kagome incrédula. – Nós estamos falando da minha vida, do meu livre arbítrio, não de uma coisa qualquer que pode ser jogada de um lado por outro. Eu ainda sou um anjo e vocês ainda são yokais, vamos voltar todos aos seus devidos lugares.

- Não me importo com o que você é ou deixa de ser, você não vai sair da cidade. – disse Sesshoumaru e seu tom de voz era casual, como se falasse sobre o tempo.

- Espera um minuto, como você sabe que ela quer ir embora? – disse Inuyasha.

- É, como você sabe? – perguntou Kagome percebendo pela primeira vez que a única pessoa que sabia sobre isso era Inuyasha.

- Digamos que a Rin viu o que você viu e tentou me avisar sobre seus planos imbecis de fuga. – disse Sesshoumaru.

- A Rin está morta há anos. – disse Kouga.

Os olhos de Sesshoumaru brilharam com um ódio assassino apenas por alguns segundos, mas foi o bastante para Kagome poder notar. A voz antes casual soou tão fria que era como se pudesse congelar qualquer um por dentro, ao ouvi-la, Kagome se encolheu. Sesshoumaru era realmente, realmente muito poderoso, ela deveria se lembrar disso.

- E se você não calar essa sua boca de lobo imundo você também vai estar morto.

- O que foi aquilo que eu vi, Sesshoumaru? – disse Kagome tentando mudar o foco da conversa.

- Eu não sei, eu não vi. Eu apenas sonhei com a Rin e no meu sonho ela estava desesperada, dizendo que eu deveria impedi-la de ir embora de qualquer jeito, que você tinha visto algo terrível que iria fazê-la querer ir embora.

Kagome suspirou, de certa maneira, aliviada. Ela não estava louca, ela realmente tinha visto algo e se Rin também tinha sido capaz de ver era um sinal, sinal de que toda a sua preocupação tinha fundamento. A garota sentiu Inuyasha mexer-se ao seu lado e percebeu que talvez ele também tivesse concluído a mesma coisa que ela.

- O que foi que você viu? – perguntou Sesshoumaru.

Ela não respondeu, então Inuyasha se viu na obrigação de falar, mesmo que falar sobre aquilo soasse meio doente para ele.

- Ela nos viu morrendo. Primeiro eu, depois ela.

- O que você está tentando dizer com isso? – disse Kouga. – Se você morrer, ela morre, é isso?

- Olha, nós nunca tentamos para saber. – disse Inuyasha ironicamente.

- Kagome, foi isso mesmo o que você viu? – perguntou Sesshoumaru e seu tom havia voltado ao normal. – Você viu perfeitamente o Inuyasha e você morrendo?

- Não, - disse Kagome. – a verdade é que tinha tanto sangue e fogo também que eu não conseguia ver direito, então no meio de todo aquele caos eu consegui ver os olhos do Inuyasha e quando eu percebi que era ele foi como se eu começasse a morrer junto. E sem mais nem menos, ele morreu e tudo ficou escuro pra mim e eu acordei.

Sesshoumaru ficou alguns minutos em silêncio, pensando no que acabara de ouvir. Kouga olhava de Kagome para Inuyasha compulsivamente, esperando, talvez, ser capaz de ver quão profunda era a ligação entre eles. Por não olhar para Sesshoumaru, ele perdeu a reação mais inusitada possível naquela situação. Sesshoumaru estava sorrindo, um sorriso verdadeiro de compreensão que iluminava seu rosto.

- Ele está me assustando. – disse Inuyasha.

Ao ouvir as palavras de Inuyasha, Kouga voltou-se para Sesshoumaru, mas já era tarde, ele voltara a sua mascara fria e sem emoção.

- O que isso significa? – perguntou Kagome.

- Exatamente o que a Rin me disse, significa que você deve ficar aqui. – disse Sesshoumaru.

- Você está tentando mata-la? Ao ficar aqui ela será alvo fácil dos outros anjos, eles vão encontrá-la em um segundo, ela precisa se esconder! – disse Kouga.

- Você não ouviu o que eu disse? – disse Sesshoumaru olhando para o yokai com desprezo. – Eu lutei muito pra trazer a vida dela de volta e não vou deixar qualquer um destruir tudo. A Kagome tem uma missão e eu só irei libertá-la quando ela cumpri-la.

- Espera um pouco ai, missão? – disse Kagome. – E você, Kouga, o que está tentando dizer com vão vir atrás de mim? E eu não preciso que vocês decidam o que é seguro para mim, eu sei me cuidar sozinha!

- É sobre isso que eu quero falar com você, Kagome. – disse Kouga e ele agora parecia apressado. – Você sabe que o que você fez é imperdoável. E quando eu digo imperdoável eu estou querendo dizer que você traiu sua gente e não é mais uma delas, você agora é vista como uma de nós, ou até mesmo algo pior. Já que, teoricamente, sabe os segredos e querendo ou não, tem uma ligação muito forte com as outras da sua espécie. E elas não gostam disso, elas vão te caçar e te matar!

- Como você sabe sobre essas coisas? – disse Inuyasha que podia sentir a confusão emanando de Kagome. Nem ela sabia sobre aquilo.

- Eu sou velho, muito velho. Eu já vi muita coisa na minha vida, a Kagome não foi a primeira a perceber que as escolhas dos anjos nem sempre tem fundamento e também não será a última. Eu já vi isso antes e sei como acaba.

- Elas não me matariam, elas são minhas irmãs! – disse Kagome se forçando em acreditar naquilo.

- Não conte com isso. – disse Sesshoumaru. – Anjos não têm família e você deveria saber bem disso. Elas já te mataram uma vez, não se esqueça disso nunca. Foram elas!

- A Kikyou não deixaria que fizessem isso comigo, ela é como minha mãe! Minhas irmãs talvez me matassem, mas minha mãe? Não. A Kikyou não faria isso. – disse Kagome. Ela começava a se sentir abandonada no mundo, completamente sozinha e perdida.

- Não confie nessa mulher. – disseram Sesshoumaru e Kouga ao mesmo tempo.

- Ela não é sua mãe, ela não é nada sua. – disse Sesshoumaru. – Ela não é o que você acha que é!

- Não se iluda, Kagome, lembre-se que vocês só podem agir se a mais velha permite...

- Por isso mesmo, a Kikyou jamais permitiria que me matassem. – disse Kagome.

- Pare de ser cega! – grunhiu Sesshoumaru. – Você não vê que essa mulher e todos os outros anjos são seres egoístas e perdidos? Eu tenho certeza que você já chegou à conclusão que não existem motivos para matar Inuyasha e mesmo assim, aqui está você, com a missão de matar um inocente! E quem foi que te mandou para cá? A Kikyou! Pense um pouco, pelo amor de Deus, você já morreu por causa delas!

- Mesmo odiando, eu preciso concordar com o cachorro. Nunca achou estranho o fato de ela ser completamente diferente de todos vocês? Ela aparenta ser mais velha, não é? Como explica isso? Vocês não envelhecem!

- Eu não sei, está bem? Eu não sei! – gritou Kagome levando as suas mãos até a cabeça. – Eu só estou falando o que eu aprendi, a Kikyou sempre me protegeu, me manteve ao seu lado, me tratou como uma filha. Ela mesma me ensinou que yokais enganam, manipulam a verdade e traem! O que querem que eu faça? Que vire as costas para tudo aquilo que acredito, para tudo aquilo que vi como verdade minha vida inteira apenas por que yokais querem?

- Não é por que queremos! – disse Kouga. – Kagome, por favor, entenda o que estamos te falando, a Kikyou, ela tem medo de você.

- Medo de mim? – e ela gargalhou parecendo, realmente, uma louca. – Ela é a mais velha, a mais sábia, a mais forte, por que ela teria medo de mim?

- Ela não te ensinou isso. – disse Sesshoumaru e obviamente, aquilo não era uma pergunta.

- Ótimo! O que é agora? – disse Kagome.

- Você é como a Rin. – disse Sesshoumaru.

Inuyasha olhava para os três como se acompanhasse um jogo de tênis, ele não entedia sobre anjos, não fazia idéia de quem era Kikyou e muito menos sabia o que falar. Ele só era capaz de sentir as mudanças de humor de Kagome e ele tinha a sensação de que a qualquer momento ela surtaria.

- Do que você está falando? – disse Kagome.

- Kagome, você lembra qual a cor dos olhos da Kikyou? – perguntou Kouga.

- Verde. – disse Kagome. – O olho dela é verde, mas por que estamos discutindo a cor dos olhos dela?

- Eu já não disse que você é como a Rin? – disse Sesshoumaru.

- Vocês poderiam falar logo as coisas sem fazer enigmas? Expliquem essa porcaria de uma vez e terminem com essa tortura! – interrompeu Inuyasha impaciente. – Eu não acho que ela consiga conversar racionalmente por muito mais tempo.

Kagome olhou maravilhada para Inuyasha, a ligação finalmente tinha tido um efeito positivo. Ela realmente não achava que seria capaz de continuar com aquilo por muito mais tempo.

- Seus olhos, Kagome, assim como os da Rin, são azuis. – disse Sesshoumaru. – Isso significa que vocês são as mais próximas do céu.

- Isso não faz sentido nenhum. – disseram Kagome e Inuyasha juntos.

- Vocês, anjos, têm uma espécie de hierarquia e isso varia conforme a cor dos olhos. O mais comum, os olhos negros, é também o das mais fracas. Ele simboliza as nuvens de chuva que antecedem a chegada de vocês, como eu disse, elas são fracas, mas necessárias. O problema com elas é que mesmo perto do céu elas não são capazes de enxergar a verdade nas pessoas, como acontece com você. – disse Sesshoumaru. – Então, temos os olhos vermelhos, representando o sol. São pessoas que aparentam uma força descomunal, mas só aparentam, assim como quem vê daqui e acredita que o sol está no céu, sendo que ele está a kilometros e kilometros de distância. Olhos vermelhos são uma farsa.

Kagome olhava Sesshoumaru como se agora ele é quem estivesse louco. Está certo, ela sabia que existiam diferentes cores de olhos entre os anjos, mas até ai, isso ter um significado tão importante? Era um pouco demais para a cabeça dela.

- Claro, claro, está tudo lindo, tudo a ver com céu e poder e sei lá o que, mas onde entra o fato da Kikyou ter olho verde e ter medo de mim? – disse Kagome.

- Olho verde é o único preso a terra. – disse Kouga.

- E o que isso deveria significar? – disse Inuyasha achando aquilo tão bizarro quanto Kagome.

- Vocês são anjos, não são? O lugar de vocês é no céu. Anjos com olhos verdes representam as plantas, são incrivelmente fortes, mas presos a terra. Ser um anjo preso a terra é nunca compreender o que é estar tão próximo do céu e da verdade e da pureza. – disse Sesshoumaru. – O seu olho azul representa tudo aquilo que um anjo verde jamais será capaz de compreender e é por isso que a Kikyou tem medo de você.

- Está tentando me fazer acreditar que sou mais forte do que a Kikyou que deve ser, sei lá, uns 500 anos mais velha que eu só por causa da cor do meu olho? – disse Kagome incrédula.

- Ser mais poderosa não significa ser mais sábia. – disse Sesshoumaru. – Você é mais nova e isso pesa, se vocês se enfrentassem você perderia, você é uma criança ainda, não sabe lidar com 1/3 do que possuiu, enquanto ela já viveu o bastante para conhecer seus pontos fortes e fracos. Estou dizendo apenas que hierarquicamente, ela deveria te obedecer e não o contrário, mesmo que ela seja a mais velha.

- Nunca ouvi falar sobre isso. – retrucou Kagome ainda duvidando de tudo aquilo.

- É claro que não. A Kikyou não quer perder o poder, desde a Rin não nasceu mais nenhum anjo com olhos azuis, vocês são muito raros. – disse Sesshoumaru.

- Se essa baboseira toda for mesmo verdade isso significa que a Kagome é a mais forte de tipo, todos os anjos? – disse Inuyasha.

- A não ser que exista um anjo de olhos prateados, sim, ela é. – disse Kouga. – Anjos prateados são realmente raros. E medonhos.

- Isso existe? – disse Kagome.

- Agora eu não sei, mas sim, isso já existiu. – disse Sesshoumaru.

- Se referir à elas como 'isso" faz com que não pareçam boas pessoas. – disse Inuyasha.

- E não são. – disse Kouga.

- Não, não são. Anjos prateados ficam loucos com tanto poder e o fim deles se resume à se corromper ou morrer. – disse Sesshoumaru.

- Como assim, se corrompem? – perguntou Kagome.

- Não é uma coisa agradável de se ouvir. – disse Kouga. – Quando um anjo se corrompe, ele dá sua alma para yokais. Esses yokais se alimentam com a energia da alma do anjo. São seres asquerosos, que mais se assemelham à demônios, é o tipo da coisa que faz nós, yokais, termos vergonha de dizer que são da mesma espécie que nós.

- Eu entendo esse sentimento. – disse Kagome se sentindo enojada com a idéia de yokais se alimentarem da sua alma.

Inuyasha apoiou sua cabeça na parede e fitou o teto. Se alguém, em algum momento da sua vida, lhe dissesse que estaria trancado em um quarto de hospital com uma garota que nascera para matá-lo, um yokai lobo e seu meio-irmão ele teria gargalhado. Era o tipo da coisa que ele nunca imaginara acontecer, mas lá estavam eles. Pensar sobre isso fez uma onda de ódio explodir dentro dele, o que Sesshoumaru queria a essa altura? Ele havia o abandonado, deixado que crescesse sozinho e todas as vezes que se encontraram, o yokai fazia questão de humilhá-lo e maltrata-lo. Se preocupar tanto assim com alguém que sequer era da sua família era patético. Sesshoumaru era patético.

- O que foi? – sussurrou Kagome virando-se para Inuyasha.

- Nada, não foi nada. – retrucou o hanyou mal humorado.

- Kagome, antes de explicar tudo o que eu posso explicar por enquanto para você, eu preciso que me prometa que ao menos irá me ouvir de maneira imparcial, não como um anjo, mas como alguém que deve sua vida. – disse Sesshoumaru chamando a atenção da garota para si.

- Hm, isso não soa muito imparcial para mim. – disse Kagome.

- Eu sei que não. Acha que consegue? – insistiu Sesshoumaru.

- Certo, apenas me explique o que está acontecendo. – disse Kagome.

Sesshoumaru ficou alguns minutos em silêncio, parecendo selecionar o que podia ou não dizer, mais uma vez, Kagome não pôde deixar de notar quão cansado e abatido ele parecia, mas essa sensação passou quando ele voltar a falar.

- Você já deve saber o que aconteceu, mas mesmo assim, acho que para tudo fazer sentido, eu preciso contar desde o começo. – ele disse e a garota apenas acenou com a cabeça. – Você provavelmente não sentiu, pois a presença era muito sutil, mas mais ou menos uma semana antes do que aconteceu com vocês, havia um outro anjo por perto. À principio eu não entendi o que elas estavam planejando ao mandar dois anjos para uma área tão pacata, agora é óbvio que ela estava te seguindo. O motivo era óbvio, esse anjo estava esperando o momento certo atacar, mas o porquê de atacar o alvo que era seu eu não sei, acredito que a pessoa esperasse que você salvasse o Inuyasha, mesmo sabendo que isso é proibido. A pessoa sabia que ao fazer isso criaria um laço praticamente indestrutível entre vocês, imagino também que ela esperasse que eu ajudasse no plano, trazendo você à vida justamente com o sangue do Inuyasha.

- E você ajudou no plano. – disse Inuyasha.

- Sim, por que isso também ajuda nos meus planos, mas isso é algo que discutirei apenas na hora certa. Trazer a Kagome era algo que apenas um anjo poderia fazer, pois teoricamente, um yokai não poderia ter esse conhecimento, mas graças à Rin eu fui capaz de salvar tanto o Inuyasha, quanto você, Kagome. Um dos pontos importantes sobre tudo isso é que ambos só estão vivos graças à mim e não apenas por que eu tinha o conhecimento, mas por que eu dei parte da minha vida ao Inuyasha para ele sobreviver, se durante o processo ele morresse, você também morreria e se eu não interferisse vocês não estariam aqui agora...

- Você fez o que? – disse Inuyasha perplexo.

- Dei parte da minha vida, qual o grande ponto sobre isso? – disse Sesshoumaru.

- Você deve ser realmente apaixonado por ela, - disse Inuyasha. – dar sua vida para mim? Só se precisasse salva-la mesmo, se dependesse da sua ajuda, eu sequer existiria.

- Isso não tem nada a ver sobre amor e sim sobre vingança. – disse Sesshoumaru. – Mas você que cresceu e vivei no seu mundinho perfeito e protegido mais entenderia isso.

- Meu mundinho não chega nem perto de ser perfeito! – grunhiu Inuyasha enfurecido.

- Ah, acredite em mim, ele é. Não despreze a vida que te dei, acredite, se não fosse por mim, você realmente não existiria. – disse Sesshoumaru. – Mas isso não é uma reuniãozinha familiar, se importa em deixar seus problemas pessoais de lado e se focar no real problema?

- Oh, desculpe, eu esqueci que o foco aqui é a sua amada Kagome e não a vida de merda que eu tive. – retrucou Inuyasha.

- Exatamente, o foco não é você. – disse Sesshoumaru.

- Então não fará diferença se eu ficar ou não. – disse Inuyasha começando a se levantar.

Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Inuyasha já se viu jogado no chão e Sesshoumaru parado em sua frente, olhando-o furiosamente.

- Pare de agir como uma criança! – vociferou o yokai. – Estamos discutindo algo mais importante que a sua vida ou a minha ou a de qualquer outra pessoa nessa sala agora! Isso não é só sobre a Kagome, isso é sobre você existir, sobre a vida que teve! É sobre a minha vida e tudo o que tiraram de mim! É sobre gerações e gerações de pessoas que foram obrigadas a sofrer por acreditarem em uma merda qualquer, então sente-se ai e fique quieto, mas se achar que seu maldito cérebro de meio yokai não consegue sequer fazer isso, sinta-se livre para levantar e ir embora e nunca mais voltar.

O silêncio que se formou após a explosão de Sesshoumaru era quase mortal, Kagome conseguia ouvir a respiração de Inuyasha ao seu lado e os dedos de Kouga, que batiam impacientemente contra o chão. Como ela tinha concluído anteriormente, Sesshoumaru era provavelmente o yokai mais forte que encontrara.

- Ótimo, vamos todos agir como adultos? – disse o yokai.

Ao receber os acenos positivos de todos, Sesshoumaru sentou-se e voltou a falar.

- Onde eu tinha parado?

- Você deu sua vida... – disse Kouga.

- Certo, - disse Sesshoumaru buscando em sua mente o ponto onde estava. – eu não sei se você tinha dúvidas sobre ter sido ou não um anjo quem atacou o Inuyasha, mas para mim é óbvio, como eu disse antes, o plano era estreitar os laços que os uniam. E isso foi planejado bem antes desse ataque... Suponho que você também não saiba que sua atração é especialmente mais forte em yokais na nossa espécie?

- O que? – disse Kagome confusa.

- É, claro, mais uma coisa que esqueceram de te contar. – disse Sesshoumaru revirando os olhos. – Você já deve ter notado que em certos yokais a atração é mais forte, como no caso de ahn, qualquer um de nós aqui nessa sala.

Kagome não poderia se olhar, mas sabia que estava vermelha, virou seus olhos automaticamente para o chão e acenou positivamente.

- Isso acontece por que você foi feita para nós, assim como nós fomos feitos para você. – disse Sesshoumaru.

- Está dizendo que somos feitos em pares, tipo, para nos matarmos? – disse Kagome.

- Eu não acredito muito que fomos feitos para nos matarmos, embora com o tempo isso tenha passado a fazer muito sentido, já que a maioria dos anjos são seres desprezíveis. – disse Sesshoumaru.

- Sesshoumaru, me desculpe, mas você está bêbado? – disse Kagome tentando soar o mais plausível possível. – Você pode saber de várias coisas que eu não sei e ainda tem toda aquela história com a Rin, mas não podemos negar o óbvio, nós nascemos para nos matar.

- Se é nisso que você acredita, que assim seja. – disse Sesshoumaru. – O ponto é que anjos azuis atraem yokais canis, isso incluiu além de nós, cachorros, o lobo ali ao lado e mais alguns outros. Não importa no que você acredita, você não pode negar, são seus instintos.

- Certo, pode ser que eu tenha uma atração mais forte por vocês, mas no que isso muda o que está acontecendo? – disse Kagome.

- Desde o começo elas queriam que você estivesse próxima ao Inuyasha. – disse Kouga. – Quem mata hanyous é sempre a mais velha, não faz sentido mandarem você para cá, bem você entre tantas. Elas sabiam quem o Inuyasha era, não acha estranho?

- Eu já matei outros hanyous antes. – disse Kagome.

- Para que você não estranhasse quando fosse mandada para cá. – disse Sesshoumaru. – Você, lobo, pelo visto pensou o mesmo que eu sobre tudo isso.

- É, - concordou Kouga. – mas ao contrário de você, eu descartei a Kikyou.

- E por que você faria isso? – disse Sesshoumaru.

- Não podemos negar, ela tem uns instinto maternal em relação à Kagome, faz parte da natureza dela. Eu não acho que ela mataria a Kagome. – disse Kouga.

- Kikyou é um anjo da terra, não a subestime. – disse Sesshoumaru.

- Ainda acho que ela seria incapaz de me matar! – disse Kagome.

- Mais uma vez, acredite no que quiser... – disse Sesshoumaru.

- Eu falei sobre isso com os amigos humanos dela... – dizia Kouga até Kagome surtar.

- Você fez o que? – gritou a garota.

- Lá vamos nós de novo... – disse Inuyasha que começou a imitar a voz da garota. – "Eu não acredito que você os colocou no meio disso, blábláblá, eles correm perigo, blábláblá"

- Pare de me imitar, isso é sério. – gritou Kagome.

- Não se preocupe com eles, com vocês dois no meio do problema, elas sequer vão notar a existência dos dois. – disse Sesshoumaru. – Mas então, o que você estava falando?

- A humana chegou a conclusão de que talvez o problema seja o Inuyasha e não a Kagome, já que tudo gira em torno dele.

Sesshoumaru fechou os olhos e suspirou.

- Ela é bem inteligente para uma humana. – disse.

- Espera, como assim? Como isso pode ter a ver comigo? – disse Inuyasha.

- Faz sentido. – disse Kagome. – Na verdade, faz todo o sentido do mundo...

- Eu sei que faz. – disse Sesshoumaru. – Afinal, você, Inuyasha, e a chave para tudo isso.


Olá, meninas, como estão? :D

Eu estou bem, mas atrasada para ir dormir! Essa semana eu fiquei tão feliz em receber reviews que comecei a escrever loucamente e acabei conseguindo fazer um capítulo bem compridinho pra essa semana, esse é um capítulo quase sem nenhuma ação, mas eu precisava explicar algumas coisas e resolvi que esse capítulo seria um ótimo começo para isso!

Eu adoraria responder as reviews de vocês com toda a atenção que merecem, mas a verdade é que eu nem deveria estar aqui, deveria estar na cama dormindo, já que tenho vestibular amanhã! Desculpem se esse capítulo estiver com muitos erros, eu só pude revisar metade dele, depois eu irei reler e se perceber muitos erros eu edito e aviso vocês!

Obrigada pelo apoio e pela companhia, eu realmente senti falta de vocês, você são uns amores! :D

Beijos