Kagome arqueou a sobrancelha ao sentir os movimentos impacientes de Inuyasha a seu lado.

- Pare de brincar comigo. – vociferou o hanyou.

Kouga revirou os olhos e levantou-se, Sesshoumaru e Kagome acompanharam os movimentos do yokai enquanto ele andava de um lado para o outro, balançando freneticamente uma de suas mãos.

- Pare de agir como uma criança assustada. – resmungava.

Antes que Kagome pudesse impedir, Inuyasha já estava em pé jogando Kouga contra a parede, o braço forçando o peito do yokai. Seus olhos dourados brilhavam de maneira assassina e a garota não pôde deixar de notar que também lhe pareciam incrivelmente confusos.

- Se acha tudo tão simples, troque de lugar comigo então, seu lobo imundo. Vamos ver se é tão valente quando você é o alvo de um bando de malucas assassinas sem nem fazer idéia do porquê. – gritou Inuyasha.

- Se fosse comigo eu estaria lá fora disposto a descobrir o que o bando de malucas assassinas querem de mim, não aqui escondido! – retrucou Kouga.

Kagome desviou os olhos dos dois e encarou Sesshoumaru, ele fez aquele barulho com o nariz que sempre fazia com que ela achasse que estava rindo e comentou:

- Muita testosterona para pouco espaço, não?

- Pode me dizer o que está acontecendo? – perguntou Kagome.

- Ainda não. – disse Sesshoumaru. – Pra mim seria muito mais fácil contar tudo e deixar que vocês se virassem com seus próprios problemas, mas perceba que a pessoa que deveria estar mais interessada não é madura o bastante para lidar com a situação.

Inuyasha que até então estava de costas para Sesshoumaru, largou Kouga e voltou-se para o yokai e disse:

- O que está tentando dizer com isso? Se tem algo para falar, fale para mim, não fique dando indiretas! Eu já estou cheio dos seus joguinhos, das suas histórias mal contadas, dos seus mistérios! Você viveu sua vida inteira como bem entendeu, deixou que eu me virasse e agora está querendo cobrar o quê de mim? Respeito, admiração, maturidade? Se fosse precisar de mim no futuro, não deveria ter me abandonado no passado!

- Você anda muito emotivo, não é, Inuyasha? – disse Sesshoumaru dando de ombros. – Quantas vezes me acusou de tê-lo abandonado só nessa conversa? Será que se esqueceu que não sou sua mãe, muito menos seu pai? Você deveria odiar sua mamãe, ela quem te abandonou, não eu.

- Eu não tenho mãe. – retrucou Inuyasha por entre os dentes.

- Ah, sim, você tem. É um ser bem odioso, mas não deixa de ser sua mãe. Por que ao invés de descontar sua raiva em mim, não guarda e desconta em quem realmente merece? – disse Sesshoumaru. – Eu te garanto que se você colaborar agindo, no mínimo, como alguém da sua idade e eu te levo até ela e deixo que vocês acertem as contas.

- Você sempre soube onde ela estava? – gritou Inuyasha.

- Se eu soubesse onde ela está, eu já teria ido até lá e teria matado-a. – disse Sesshoumaru.

- Inuyasha. – disse Kagome.

- O que você quer de mim? – grunhiu o hanyou, sem desviar os olhos de Sesshoumaru.

- Seja sensato, por favor. Sente-se aqui e vamos terminar de ouvir o que seu irmão tem a nos dizer.

- Ele não é meu irmão.

- Isso não importa, apenas sente. – disse Kagome.

- O que está tentando fazer? Está usando seus poderes estranhos contra mim? – disse Inuyasha.

- Não, seu imbecil, ela está pedindo. – disse Kouga enquanto voltava a se sentar ao lado de Kagome. – É tão burro que não consegue diferenciar uma ordem de um pedido?

- Ninguém perguntou nada para você. – disse Inuyasha.

- Se não quer ouvir, então, nos dê licença. – disse Sesshoumaru.

- Está me expulsando?

- Inuyasha, controle-se, está bem? – disse Kagome. – Toda essa sua confusão está me deixando com dor de cabeça, se não quer nos ajudar, então não nos atrapalhe!

Inuyasha não se sentou.

- O que exatamente significa eu ser a chave pra tudo isso? – perguntou, encarando Sesshoumaru.

- Significa que coisas grandes ainda estão por acontecer. – disse Sesshoumaru. – Você é um hanyou e está vivo, caso nenhum de vocês saiba, hanyous são mortos assim que nascem. Quando por algum motivo o bebê consegue sobreviver, ele dura até no máximo uns 15 anos, Kagome, você que já teve a belíssima missão de matar gente inocente, quantos anos tinham os hanyous que você matou?

- Poderia deixar sua ironia insuportável para outra hora? – disse Kagome.

- Você não sabe nem quantos anos tinham as crianças inocentes que você matou? – disse Sesshoumaru.

- Eles não eram crianças! – retrucou Kagome. – Eram monstros! Poderiam parecer jovens, mas ainda assim eram monstros.

- O Inuyasha parece um monstro para você? – disse Sesshoumaru calmamente.

- Ele é diferente! – gritou Kagome.

- É claro, claro que ele é. – disse Sesshoumaru fazendo novamente o barulho com o nariz. – Mas como eu estava dizendo, a existência do Inuyasha, para os anjos, é um erro. Tudo o que está acontecendo está relacionado ao fato dele ainda estar vivo. A vinda da Kagome para essa cidade, o fato dela se interessar por seres como nós, vocês estudarem na mesma escola, o ataque ao Inuyasha, a morte e logo em seguida o renascimento de vocês dois, eu acredito cegamente que tudo isso foi feito para protegê-lo. Se quisessem mesmo matar o Inuyasha, já o teriam feito. Kagome, você já recebeu alguma ordem para matá-lo?

A garota apenas balançou a cabeça negativamente.

- Por que alguém iria querer me proteger? – disse Inuyasha. – O que elas querem de mim?

Sesshoumaru deu de ombros.

- Não sou eu o anjo dessa sala, deveria perguntar para ela.

Inuyasha virou-se para Kagome no mesmo instante, encarando-a.

- O que quer de mim? – disse entre dentes.

- O que te faz achar que eu sei? – disse Kagome. – A única pista que eu tenho é meu sonho estúpido de eu te matando, serve? Serve saber que eu vou te matar? É essa a resposta que você quer de mim?

- Você não vai matar ninguém, - disse Kouga suspirando. – não se preocupe.

- Não tenha tanta certeza assim. – disse Sesshoumaru. – Mas isso não é importante no momento, o que eu preciso saber é se você, Kagome, acha que é capaz de se desvencilhar da sua função de anjo. Quero saber se é capaz de abrir mão do sobrenome Arashi para viver apenas como Kagome.

- E por que eu faria isso? – disse Kagome.

- Eu não posso confiar em um anjo, mas eu posso confiar em você. A Rin realmente precisa da sua ajuda, Kagome. O lugar onde se encontrou com ela não é o céu, talvez não tenha notado, mas a Rin é a única pessoa de lá, ela está sozinha naquela droga de lugar há anos e sozinho eu não posso salva-la. Quando eu disse que tinha uma missão para você, era disso que eu estava falando. Vocês anjos a prenderam lá por ela ter ousado trair a raça, acha isso justo? Acha justo fadar alguém a solidão eterna por tentar ser feliz? – disse Sesshoumaru sem alterar em momento algum seu tom de voz indiferente.

- Você quer que a Kagome morra para ocupar o lugar da Rin, é isso? – disse Kouga incrédulo.

- Quando eu morrer, é isso que irá acontecer comigo? Eu vou ficar vagando eternamente sozinha? – disse Kagome e sua voz era quase um sussurro.

- Se você não me ajudar, é isso o que irá acontecer com você. – disse Sesshoumaru. – Eu já disse antes, o que está acontecendo agora é bem mais importante do que qualquer um de nós, tem a ver com milhares de pessoas que sofreram por causa de lendas estúpidas, por causa de ignorância e medo. Já que não pude salvar a vida da Rin, eu quero pelo menos libertá-la e se para fazer isso seja preciso matar todos os anjos, eu o farei.

- Quem foi Rin? – disse Inuyasha.

- Minha mulher. – respondeu Sesshoumaru sem deixar de encarar Kagome. – E então, o que me diz? Vai ficar ao meu lado e me ajudar ou me obrigará a te matar?

- Isso é uma ameaça? – perguntou Kagome.

- Não vejo como uma, estou apenas informando a realidade. Eu tenho dois planos, um inclui você, outro não. No que você não está, você morre, assim como todos os outros anjos.

- Isso ainda soa como uma ameaça. - disse Kouga.

Kagome colocou as mãos no rosto, demonstrando quão cansada estava. Aquela intimação estava piorando sua dor de cabeça. Era informação demais, o que Sesshoumaru lhe pedia era uma loucura, como ela renunciaria a tudo aquilo em que ela acreditava? Fazer isso seria uma ingratidão sem tamanhos da sua parte, o que seria dela se não tivesse sido cuidada por Kikyou? Se não tivessem lhe dado casa, comida, educação... Onde ela estaria agora? Não era tão simples assim, era como virar as costas para sua própria família e ela nem sabia direito o porquê de precisar fazer isso. Tudo bem, tinha a ver com libertar a Rin e nesse ponto, ela estava disposta a ajudar, mas por que para ajudar ela precisava renegar quem era?

- Eu preciso de um tempo para pensar. – disse finalmente.

- Sesshoumaru, se a Kagome renunciar sua posição como anjo, você sabe o que vai acontecer, não sabe? – disse Kouga.

- Sim, eu sei. – disse Sesshoumaru. – Elas arrancarão as asas dela.

Kagome arregalou os olhos e encarou os dois como se eles fossem loucos.

- Asas? Eu não tenho asas, do que vocês estão falando? – disse Kagome.

- Também não sabe disso. – disse Sesshoumaru balançando a cabeça negativamente. – Sua marca de nascença, ela não é só um enfeite, é a prova de que você é uma delas. Ao renunciar, você não tem mais o direito de tê-la.

- E como elas arrancariam uma marca de nascença? – perguntou Inuyasha confuso. – Isso não faz sentido.

- Sinceramente, eu não sei. – disse Sesshoumaru. – Mas eu não acredito que seja algo agradável.

- Está jogando a Kagome em algo que você nem sabe o que é? – disse Inuyasha irritado. – E se elas a matarem? O que você está querendo com tudo isso?

- Elas vão tentar mata-la. – disse Sesshoumaru. – A asa é só o começo da perseguição.

- E mesmo assim está pedindo que ela te ajude? – disse Kouga tão irritado quanto Inuyasha. – Acha que jogar a Kagome nas mãos delas vai trazer a Rin de volta? Ela morreu, Sesshoumaru, e não há nada que você possa fazer agora para mudar isso, aceite os fatos! Fazer com que alguém sofra não vai apagar tudo o que aconteceu, você só está começando outro ciclo de infelicidade, como todos os outros que resultaram em envolvimento entre anjos e yokais. Está na hora disso tudo acabar, deixe a Kagome em paz.

- Seu discurso realmente me comoveu. – disse Sesshoumaru ironicamente. – Mas caso não tenha ouvido o que eu disse, tudo o que eu estou fazendo é para acabar com isso. Apenas fique no lugar dos lobos imundos e assista enquanto eu faço o que você diz impossível, eu certamente vou mudar essa baboseira toda.

- Minha cabeça está explodindo, vocês poderiam discutir em outro lugar? – disse Kagome.

- Isso é um não para minha oferta? – disse Sesshoumaru.

- Não, isso é um "calem a boca ou eu vou ficar louca, me deixem em paz para que eu pense direito". Melhor assim? – disse Kagome irritada.

- Está certo. Faça o que achar melhor, quando tiver sua reposta sabe onde me encontrar. – disse Sesshoumaru.

- Sim, eu sei.

Sesshoumaru levantou-se do chão e sem dizer nada, saiu da sala. Kagome suspirou longamente e jogou todo o peso do seu corpo contra a parede enquanto fechava seus olhos.

- Você não ouviu? Ela quer ficar sozinha. – disse Inuyasha.

- Parece que você também não ouviu. – disse Kouga. – O que me espanta, com essas orelhas de cachorro enormes na sua cabeça, sempre achei que era capaz de ouvir até o pensamento dos outros.

- Como se essa orelha pontuda fosse muito melhor. – disse Inuyasha dando de ombros.

Kagome abriu os olhos, revirando-os. Concentrou-se em manter o equilíbrio e levantou-se, olhou para os dois e disse:

- Não precisam se incomodar comigo, eu já estou saindo. Podem continuar ai o tempo que acharem necessário, imagino que a discussão sobre orelhas seja algo realmente interessante.

- Espera, onde você vai, você não consegue andar direito. – disse Kouga levantando-se.

- Se for para ficar longe de vocês dois, no momento eu acredito que posso até mesmo sair voando pela janela. Eu não preciso de uma babá.

Ao dizer aquilo, Kagome girou nos calcanhares e andou lentamente para fora da sala. Quando fechou a porta, pôde ouvir os dois começando a discutir lá dentro e suspirou.

- Está feliz, lobo imundo? Agora ela vai sair andando por ai como se estivesse tudo bem com ela! Se algo acontecer com a Kagome, você será o culpado! – disse Inuyasha.

- Minha culpa? Quem começou com isso tudo foi você! – retrucou Kouga.

- Eu vou atrás dela e é bom não fazer o mesmo. – disse Inuyasha. – Ela não precisa de um lobo super protetor agora.

- Tampouco acho que ela esteja atrás de um cachorrinho de estimação agora.

Inuyasha levantou-se e caminhou até a porta, porém antes de fechá-la, olhou para Kouga e disse:

- Obrigada pelo conselho, mas eu não estava indo atrás dela para ser amiguinho. Eu não preciso disso, esqueceu que estamos ligados?

Kouga fechou a mão e deu um murro em uma das paredes, quebrando um vidro enorme.

- Desgraçado. – disse entre dentes.


Kagome cerrou os olhos ao olhar para o céu. O sol estava forte, deveria ser umas duas horas da tarde, ela sabia que não deveria estar ali sem fazer nada, precisava se esforçar para se recuperar logo, mas depois de toda aquela conversa sentia-se cansada e confusa. Ela nunca soubera o que era, mas agora estava começando a se questionar quem era ela na verdade, tudo o que ela achava saber sobre si mesma parecia-lhe agora um monte de mentiras, tudo o que fizera até então parecia-lhe uma sucessão infinita de erros arrogantes, como pudera ser tão ignorante sobre si mesma por tanto tempo? Por que uma marca de nascença nas costas tinha feito com que ela acreditasse cegamente em tudo o que lhe diziam? Por onde seus questionamentos haviam andando por todos esses anos?

Ela balançou a cabeça e voltou os olhos para o chão. Estava sentada sob a sombra de uma árvore no jardim do hospital, a cabeça encostada no tronco e as pernas esticadas.

- Sua saída foi bem dramática.

Kagome ergueu os olhos e deparou-se com Inuyasha olhando-a, não pôde deixar de reparar no brilho dourado que emanava dos olhos do hanyou, ela adorava vê-los no sol.

- Você achou, é? – disse. – Achei suas cenas de irmão abandonado bem mais dramáticas.

Inuyasha jogou-se ao lado da garota, sentando-se.

- Eu não sei o que deu em mim. – disse enquanto arrancava pedaços da grama.

- Não precisa se explicar. – disse Kagome.

- Não estou tentando me explicar, - disse Inuyasha sinceramente. – eu só estou tentando entender tudo o que aconteceu lá em cima. Muita informação, não acha?

- Pior é saber que ele ainda esconde as coisas mais importantes. – disse Kagome.

- A história da Rin me surpreendeu. Você sabe sobre essa história toda?

- Eu não acho que saiba muito mais do que você, enquanto eu estava, bem, você sabe... – disse Kagome procurando a melhor palavra para descrever seu estado

- Morta? – ofereceu Inuyasha.

- Isso é meio estranho, mas tudo bem. Enquanto eu estava morta ela ficou ao meu lado o tempo todo, se não estivesse lá comigo eu certamente teria morrido. Um dia ela já foi um anjo e confesso que a achei bem parecida comigo. É o tipo da pessoa que eu jamais imaginaria com o Sesshoumaru.

- Eu não imagino o Sesshoumaru com ninguém. – disse Inuyasha.

- Não foi isso que eu quis dizer, quando eu penso no tipo da pessoa que faria com que o Sesshoumaru se apaixonasse, eu sempre imaginei uma mulher yokai poderosa, sabe? Aquelas yokais frias e que te olham como se você fosse um verme, mas a Rin é completamente o oposto disso. O tempo todo que ela ficou comigo, ela sorriu e eu senti que era verdadeiro, não aquela coisa forçada, sabe? Eu não a conhecia, mas ficar ao lado dela me fez muito bem, era como se ela tivesse uma aura boa e me olhava como uma mãe amorosa. E ela não parecia ser muito mais velha do que eu, mas me pareceu tão madura que fez com que eu me sentisse uma criança.

- Dizem que os opostos se atraem, não é isso? – disse Inuyasha. – Mas eu acho isso tudo muito estranho, ela era um anjo, não era? Então como ela pôde ficar com o Sesshoumaru?

- Se você pensar bem, ela não pôde. Nós vivemos milhares de ano, assim como vocês. Se eles pudessem mesmo ficar juntos acho que teria conhecido a Rin de outra maneira.

- Está dizendo que ela foi assassinada?

- Não sei. – disse Kagome enquanto mordia o lábio inferior. – Sinceramente, eu não sei de mais nada.

Inuyasha tombou o corpo para o lado, deitando-se na grama. Kagome olhou-o com o canto dos olhos, mas não disse nada.

- Acho que agora eu entendo toda essa obsessão do Sesshoumaru com você.

- Ele não é obcecado por mim.

- É sim. Você não sabe como o Sesshoumaru era antes de encontrar você, ela vivia naquela mansão isolado de tudo e todos, nunca se importava com nada além daquele jardim estúpido e da sua vida medíocre. Em todos esses anos nunca o vi preocupado com alguém, nem comigo que teoricamente sou da família e então você apareceu e ele mudou completamente, o modo como ele fala é diferente agora até rir ele ri! A maneira como ele te olha é irritante, é como se você fosse a salvação da vida dele, ele fez tudo isso para te trazer de volta, enquanto eu só pude sair correndo para pedir ajuda e te entregar de bandeja para ele.

- Eu não sei dizer se você está com ciúmes de mim ou do seu irmão. – disse Kagome pensativa. – Mas eu acho que você está sendo muito duro com o Sesshoumaru. Estou falando isso como um anjo, se alguém não tivesse te protegido esse tempo, você não estaria vivo. Ele pode dizer que é um anjo fazendo isso agora, mas antes disso alguém cuidou de você, alguém quis que você continuasse vivo e nos enganar não é coisa que qualquer um conseguiria fazer.

- Está insinuando o quê? Que todos esses anos o meu querido meio-irmão me olhou amorosamente por uma lunetinha lá do matagal onde ele vive, me protegendo e me amando à distância, é nisso que você quer que eu acredite? – disse Inuyasha irritado.

- Só estou dizendo que você deveria ter certeza das coisas antes de atacar os outros.

- Olha só quem fala, a garota que precisa me matar e nem faz idéia do porquê! – disse Inuyasha ironicamente.

Kagome não respondeu e começou a brincar com uma folha seca que acabara de cair da árvore perto dela. Inuyasha continuou deitado, olhando para os desenhos de sombra que o sol fazia ao passar pelos galhos. Os dois permaneceram daquele jeito por alguns minutos, até o hanyou voltar a falar.

- Eu não gosto dessa relação de vocês.

- Que relação?

- Você ouviu o que ele disse, você se sente atraída por ele. E ele por você.

- Assim como acontece comigo e com o Kouga. – disse Kagome sensatamente

- Também não gosto dessa relação.

- Existe alguma relação minha que você goste?

- Não, não gosto nem da relação que você tem comigo, imagina as outras?

- Bom, pelo visto nada que me inclua te agrada.

- Acho que essa é uma boa definição. – disse Inuyasha. - Mas um pouco exagerada, não acha?

- Na verdade, não. Se você pensar direito, se não fosse pela nossa atração, nós não estaríamos aqui, você certamente me odiaria, mas a nossa mais nova e divertida ligação não deixa nem que você escolha o que quer sentir por mim. Eu fiz da sua vida um inferno, fui arrogante o tempo todo e não fui capaz de perceber que você era a pessoa mais prejudicada nessa história toda. Você nunca fez nada e mesmo assim acabou preso nessa loucura toda, então nada mais justo do que você poder odiar tudo o que está ligado a mim, já que segundo você mesmo, me odiar diretamente você não consegue. – disse Kagome.

- Está se culpando por tudo o que aconteceu? – disse Inuyasha.

- Não sei, estou? – disse Kagome sorrindo. – Aproveite o sol, preciso voltar para a fisioterapia, não tenho tempo para perder.

- Se culpar não vai melhorar as coisas. – disse Inuyasha.

- Também não vai piorar. – disse Kagome enquanto levantava-se. – Queria te pedir uma coisa egoísta.

- O que é? – disse Inuyasha.

- Eu sei que você não sabe lidar muito bem com essa ligação, mas poderia, por favor, não me procurar mais? – disse Kagome já em pé e olhando para o céu.

- Eu não fico atrás de você. – retrucou Inuyasha irritado.

Kagome riu.

- Eu sei que não, mas já fomos longe demais com tudo isso. Eu não quero machucar mais ninguém, eu preciso ficar sozinha e me focar em melhorar e no pedido do Sesshoumaru.

- Está se afastando de mim por causa dele?

- Ele não tem nada a ver com isso, por que você não consegue entender o que eu estou te pedindo? Por que quando essa ligação estúpida precisa funcionar, ela não funciona? – disse Kagome frustrada.

- Então, o quê? Primeiro você diz que vai embora, agora diz para não nos vermos mais, o que está querendo com tudo isso? – disse Inuyasha levantando-se irritado.

- Inuyasha, você me ama? – perguntou Kagome tirando os olhos do céu e encarando o dourado do hanyou.

- É claro que não, que pergunta estúpida é essa? Você sabe disso tanto quanto eu! – disse Inuyasha. – Eu nunca poderia amar alguém como você.

Kagome sorriu e disse:

- Ai está a sua resposta.

- Resposta, que resposta? Está dizendo que me ama? – disse Inuyasha.

- É claro que não, que pergunta estúpida é essa? Você sabe disso tanto quanto eu! – repetiu Kagome com um sorriso nos lábios. – Uma pessoa como eu jamais poderia amar.

- Isso é ironia? Qual o problema com você, se quer dizer alguma coisa, diga! – disse Inuyasha revirando os olhos.

- Não, não é ironia. Eu não te amo, eu quero ficar de longe de você porque ficar perto é doloroso. Olhar para você é como me ver em um espelho, eu vejo todos os erros que cometi, todas as pessoas inocentes que machuquei, tudo o que fiz com a sua vida. Eu sou tão imperfeita, Inuyasha, eu não posso mais continuar a viver como se nunca tivesse feito nada de errado. Estar ao seu lado costumava ser agradável, era como se eu finalmente tivesse encontrado um amigo, apesar de todos os nossos problemas. E é por isso que é mais doloroso para mim, como eu pude destruir a vida de uma das únicas pessoas que fizeram com que eu me sentisse viva? Estar ao seu lado é como lembrar que não sou um anjo, que na verdade não sou nada e por mais que eu tenha essas asas inúteis, eu jamais terei o direito de voar.

- Então é assim que eu faço você se sentir... – disse Inuyasha. – É isso que essa confusão na sua cabeça significa.

- Desculpe, não posso continuar com isso. – disse Kagome.

- Faça o que quiser, eu não me importo em nunca mais te ver. – disse Inuyasha. – Vai ser um alivio se quer saber.

- Eu sei que vai. – disse Kagome. – Até mais, Inuyasha.

Inuyasha não respondeu, apenas voltou a deitar no chão e olhou enquanto Kagome se afastava. Embora demonstrasse que aquilo não faria diferença nenhuma na sua vida, o hanyou estava furioso por dentro, mais uma vez ela resolvia as coisas sozinhas. Por que ela tinha que ser tão teimosa, por que não podia pedir sua ajuda? Se ela estava se sentindo culpada por tudo o que estava acontecendo, era só conversar com ele e tudo estaria resolvido. Inuyasha sabia que deveria ter dito isso para ela, mas seu orgulho não deixara. Ele sentia que ficar argumentando com Kagome era o mesmo que implorar para que ela mudasse de idéia, para que ela continuasse ao seu lado e ele sabia que fazer isso serviria apenas para deixa-lo furioso mais tarde, afinal, conhecendo a garota, ele tinha certeza que ela continuaria com suas idéias malucas sobre espelhos e dor e seja lá qual desculpa a mais ela tinha inventado para ficar longe dele.

- Maluca. – resmungou.

- Quem é maluca?

Inuyasha olhou para cima e encontrou Sango e Miroku parados, olhando-o sorridentemente. Ele ajeitou-se no chão e sentou-se dando um sorriso para os amigos.

- Cara, você está péssimo. – disse Miroku.

- Na verdade, estou ótimo. – disse Inuyasha. – Poderia quebrar sua cara agora mesmo se eu quisesse.

- Mas como você não quer... – disse Miroku.

- É, eu não vou quebrá-la. – disse Inuyasha. – Como sabiam que eu estava aqui?

- Fomos atrás de você e uma enfermeira nos disse que te acharíamos aqui. – disse Sango.

- Uma bela enfermeira, diga-se de passagem. – disse Miroku.

Sango deu um tapa no braço do rapaz e resmungou:

- Sem vergonha.

Miroku apenas riu e voltou a falar com Inuyasha.

- Como a Kagome está?

Inuyasha revirou os olhos ao ouvir o nome da garota.

- Maluca como sempre. Se tivessem chego uns cinco minutos mais cedo teriam trombado com ela.

- Ah, então era dela que você estava falando. – disse Sango.

- De quem mais eu poderia estar falando? – retrucou Inuyasha. – A única maluca que conhecemos é ela!

- O que foi agora? – disse Sango.

- Ela resolveu mudar o sermão agora, além de querer afastar vocês, ela não quer mais me ver também. – disse Inuyasha balançando a mão.

- Como assim nos afastar, ela continua com isso? – disse Sango.

- Acho que "ficar sozinha" não inclui vocês, dupla dinâmica, desculpe por isso. – disse Inuyasha.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou Miroku.

- Ah, um monte delas. – disse Inuyasha. – Sesshoumaru falou um monte de coisa, descobrimos que ele teve uma mulher chamada Rin e que já morreu, mas está presa em algum lugar bizarro onde gente morta pode ir e que o Sesshoumaru precisa da Kagome para libertar a mulherzinha dele, só que para isso acontecer ela precisa renunciar o bando de malucas. O problema é que ao fazer isso, o bando de malucas vai vir tentar mata-la, o que eu não acho que seja um grande problema, por que também descobrimos que hierarquicamente falando, a Kagome é a mais poderosa de todas. Tem também eu ser a chave pra toda essa história e o fato de eu sentir uma atração bizarra por ela é que ela foi feita pra mim, assim como eu fui feito pra ela. O detalhe maior é que o Sesshoumaru e até mesmo o Kouga também foram feitos para ela. Como dá para ver, muita informação rolando.

- Há! Eu sabia que você era a chave. – disse Sango vitoriosamente.

- Sango, não é hora para comemorar suas grandes conclusões. – disse Miroku. – Você não está vendo que essa história toda está começando a fazer algum sentido?

- Só se for para você. – disse Inuyasha. – Sério, a conversa foi uma confusão só, o Sesshoumaru não sabe falar as coisas numa ordem lógica, cada hora fala uma coisa. Fora todas as explicações estranhas sobre anjos, eu me perdi várias vezes. Nada faz sentido, eu não faço idéia o que ele quer com a Kagome e por que eu sou o ponto principal de tudo isso. O que eu tenho a ver com a salvação da mulher dele? Se a história toda é salvar a tal da Rin, por que eu seria a chave?

- Bom, eu acho que você não deve esquecer que essa história tem dois lados. Talvez, no lado do Sesshoumaru, você realmente não tenha importância nenhuma, mas no lado dos anjos você seja a chave. – disse Sango.

- Ótimo. Se uma história já é confusa, imagine duas. – resmungou Inuyasha.

- Eu acho que independente de quantas histórias sejam, você e a Kagome deveriam ficar juntos. Não estou falando sobre amor, mas de apoio. – disse Miroku.

- Por que eu precisaria do apoio de uma mulher louca? – disse Inuyasha.

- Inuyasha, você deveria ser mais compreensivo. – disse Sango. – Eu acho que para a Kagome tudo isso está sendo muito duro, ela viveu a vida inteira acreditando em coisas que agora se mostram infundadas. Ela deve estar se sentindo perdida e sozinha. Você deveria entender como ela se sente, você sabe como é não saber nada sobre si mesmo e de repente perceber que alguém sabe tudo e nunca te falou nada. É assim com você e o Sesshoumaru e imagino que seja assim com a Kagome e com ele.

- Por que eu tenho que ser compreensivo? Por que eu tenho que entendê-la? – disse Inuyasha irritado. – Ela nunca pensa em mim, nem no que essa porcaria de ligação faz comigo toda vez que ela inventa alguma loucura, cada hora é uma história nova. Ela está sempre resolvendo as coisas por si mesma, se ela estivesse mesmo com problemas deveria falar, não simplesmente se isolar do mundo e me deixar sozinho com toda a droga que ela criou.

Miroku riu e balançou a cabeça.

- Do que você está rindo? – resmungou Inuyasha.

- De você. – disse Miroku. – Parece que está falando de você mesmo.

- Eu não sou assim!

- Ah, é sim. – disse Sango. – Você está sempre arrumando problemas e depois fugindo deles, deixando o Miroku resolver tudo sozinho. Nunca pede ajuda, nunca confia nos outros, só sabe se isolar.

- Ela disse que é doloroso estar ao meu lado, que sou como um espelho que faz com que ela enxergue tudo aquilo que não quer ver. – disse Inuyasha. – Por que bem eu tinha que fazer ela se sentir assim?

Sango e Miroku se entreolharam de maneira curiosa, eles já estavam acostumados com os ataques de ciúmes do hanyou, mas aquele tipo de sentimento ele nunca tinha demonstrado. Era como se estar naquela posição também fosse doloroso para ele. Ao perceber o silêncio dos amigos, Inuyasha continuou a falar.

- Eu não sei mais o que fazer. Se eu pudesse ter um pouco mais de controle sobre essa ligação estúpida eu conseguiria lidar com a Kagome de uma maneira melhor, mas todas as vezes que ela fraqueja eu acabo me machucando, eu estou sempre tendo uma luta interna entre o que eu quero para mim e o que eu quero para ela, eu nunca quero o mesmo para nós dois, então um lado sempre acaba perdendo. Eu não agüento vê-la tentando resolver tudo sozinha, quando eu carrego metade do problema comigo também, é como se ela estivesse tentando me proteger e isso me deixa louco. Não é da proteção dela que eu preciso...

- É dela. – sussurrou Sango mais para si do que para os outros.

- Você já disse isso para ela? – disse Miroku.

- Minha luta interna não permite. – disse Inuyasha. – No momento estou com raiva demais para ir atrás dela, se ela quer tanto assim se livrar de mim, não vou contrária-la.

- Você está sendo infantil. – disse Miroku.

- Não estou, Miroku. Eu só estou cansado disso tudo. – disse Inuyasha.

- Acho que vou falar com a Kagome. – disse Sango.

- Ela disse que quer ficar sozinha. – disse Inuyasha. – Deixe-a. Eu quero ver quanto tempo ela agüenta ficar completamente sozinha.

- Eu não vou participar disso. – disse Sango irritada.

- Faça o que achar melhor, se for atrás dela, ela vai te repelir, como sempre faz quando está nesses surtos. Você só vai se machucar. – disse Inuyasha.

- Não me importo. – disse Sango. – Você com essa ligação deveria ser capaz de entender melhor os sentimentos da Kagome!

- Eu não quero entender os sentimentos dela. – retrucou Inuyasha.

- Então não reclame por ela não compartilha-los com você! – disse Sango. – Estou indo vê-la, divirtam-se os dois. Vocês se merecem.

- O que eu fiz agora? – disse Miroku.

- Nasceu, Miroku. Nasceu.

Os dois apenas olharam a garota atravessar o jardim voltando para o hospital batendo os pés.

- Acho que temos um surto de tpm. – disse Miroku.

- Talvez, mulheres são estranhas mesmo. – disse Inuyasha.

- Você pretende mesmo deixar as coisas como estão? – disse Miroku.

- No momento eu estou furioso, Miroku. E metade da minha raiva não tem nada a ver com os surtos da Kagome. – disse Inuyasha.

Miroku sentou-se ao lado de Inuyasha e disse:

- O que está acontecendo, amigão? Você não é assim.

- Essa relação da Kagome com o Sesshoumaru está me deixando louco. – confessou Inuyasha. – De ambas as partes. Por que ele que me rejeitou a vida inteira se preocupa tanto com alguém que ele mal conhece, alguém que é de uma raça que ele diz odiar? A Kagome disse que quando se encontrou com a tal da Rin no lugar bizarro onde mortos podem ir, ela reparou que as duas eram muito parecidas. A Kagome parece a única mulher que o Sesshoumaru já amou na vida! Isso sem contar a história dele ter sido feito pra ela e ela para ele e ele ter salvado-a. Eu não posso competir com isso.

- Você quer competir com o Sesshoumaru pela atenção da Kagome ou competir com a Kagome pela atenção do Sesshoumaru?

- Não sei, talvez os dois. Ou nenhum. – disse Inuyasha deprimido.

- Ok, então vamos analisar ambos os casos. Sobre a Kagome, você a ama?

- Por que todos me perguntam isso? Não, eu não amo a Kagome! – disse Inuyasha revirando os olhos.

- Então tudo bem ela ficar com o Sesshoumaru? – disse Miroku. – Ou comigo?

Inuyasha sentiu um nó na garganta. Como assim com ele? Desde quando Miroku gostava da Kagome? E seu amor eterno pela Sango? O que ele queria com aquilo?

- Claro que não. – grunhiu Inuyasha.

- Temos uma contradição aqui, amigão. – disse Miroku sorrindo. – Você não a ama, mas não aceita que ela seja amada por outra pessoa? Isso não faz muito sentido.

- É a droga da ligação, Miroku. – explicou Inuyasha. – Ela faz com que eu não aceite ninguém com a Kagome, mesmo que eu não queira estar ao lado dela.

- Isso é meio egoísta. – disse Miroku.

- Não me importo.

- Eu acho que seria mais fácil você só aceitar que gosta dela. – disse Miroku.

- Já disse que não a amo. – disse Inuyasha irritado.

- Eu disse que ama? Eu disse que você deveria aceitar que gosta dela, gostar e amar são coisas diferentes. A Kagome é diferente de todas as pessoas que você já conheceu, ela não tem medo de você e está sempre te contrariando e te enfrentando. Ela te deixa confuso e faz com que você sinta coisas que ninguém fez você sentir, seja por causa da atração, da ligação ou por causa do jeito dela, que está sempre mexendo com você. Ela é interessante, bonita e provavelmente beija muito bem. Não querer que ela não fique com ninguém vai além dessas coisas inexplicáveis que existem entre vocês, eu acho que é medo de perdê-la. Você não a ama, mas gosta de como ela te deixa perdido, todo mundo gosta de se perder de vez em quando e você tem medo de voltar a sua vidinha de antes.

- Você foi longe agora, heim? – disse Inuyasha.

Miroku sorriu.

- Eu só tenho prestado atenção em você. Gostar da Kagome não é algo tão ruim assim, deve ser o natural com tanta coisa favorecendo vocês dois juntos.

- Anjos e yokais juntos não é natural. – disse Inuyasha. – Tópico resolvido, vamos para o próximo.

- Vou aceitar isso como uma confirmação da minha teoria. – disse Miroku sorrindo. – Agora, sobre o Sesshoumaru. Você queria que te considerasse irmão dele?

- De jeito nenhum! – retrucou Inuyasha.

- Então o seu problema é com o fato de ele nunca ter sequer olhado para você e agora ter feito todo esse show para reviver uma pessoa aleatória, que por ironia do destino é bem a garota que você gosta. Você se conformou com a forma que ele te tratava, por que achou que ele fosse incapaz de se preocupar com qualquer pessoa que fosse e então, você descobre que sim, ele pode se preocupar e faz isso com alguém que não é você.

- Ela não é a garota que eu gosto. – disse Inuyasha. – E bom, eu acho que isso define bem o que eu estou sentindo.

- Eu imaginei que o problema fosse esse. Eu me sentiria da mesma maneira. – disse Miroku. – Tem medo deles ficarem juntos?

Inuyasha pensou alguns minutos naquela pergunta e mesmo quando chegou a uma conclusão, não conseguiu verbaliza-la, apenas acenou com a cabeça.

- Deve estar sendo duro para você. A Sango é quem deveria ser mais compreensiva.

- É o jeito dela, não tem muito que fazer. – disse Inuyasha.

- Eu sei, amigão, eu sei bem. – disse Miroku. – Como pretende resolver isso?

- Já disse, vou deixar que ela viva a vida dela como acha melhor. E vou fazer o mesmo com o Sesshoumaru. – disse Inuyasha.

- Sabe que ao fazer isso corre o risco de acabar machucado e sem nada, não sabe? – disse Miroku.

- É um risco que eu corro. A batalha interna dentro de mim não me permite tomar outra decisão por enquanto. O que eu quero para mim está ganhando do que eu quero para ela.

- Espero que essa seja a decisão certa. – disse Miroku.

- Eu também. – disse Inuyasha. – Me diga uma coisa, Miroku, você ainda pretende ir para Tókio?

- Sim, por quê? – disse Miroku.

- Acha que isso vai fazer com a Sango perceba que gosta de você? Por que eu estive pensando, mesmo que ela perceba, não vai ser meio tarde?

- Provavelmente. – disse Miroku.

- Você já contou pra ela?

- Ainda não, estou esperando a confirmação. – disse Miroku.

- Acho que você deveria ir preparando-a. Você sabe, a Sango te rejeita o tempo todo por que acredita que você vai estar sempre lá por ela, quando ela perceber que vai te perder, ela vai ficar louca.

- A gente só sofre quando perde aquilo que é nosso. – disse Miroku. – Ela não aceita que eu a amo de verdade, está sempre zombando dos meus sentimentos, eu não acredito que ela vá sofrer quando eu me mudar. A verdade, é que não fará diferença.

- Sabe, Miroku, você é muito bom para entender os sentimentos dos outros, mas para lidar com os seus e da pessoa que você gosta, você é péssimo.

- É o que dizem. – disse Miroku sorrindo.

Inuyasha não respondeu, sabia que não precisava dizer nada. Eles nunca precisaram de muitas palavras para se entender, a prova disso era o fato de Miroku ter entendido exatamente como ele se sentia, antes mesmo dele entender, a verdade é que ele nunca entendera o motivo do humano ter vivido atrás dele desde pequeno, mas agora ele agradecia por isso. Miroku realmente se tornara seu melhor amigo.


Sango andou pelos corredores do hospital procurando pela ala da fisioterapia. Uma enfermeira havia dito que lá era o lugar mais provável em que a garota poderia estar. A verdade é que ela detestava hospitais e se pudesse estaria em qualquer outro lugar, menos ali. Suspirou ao ver a placa que indicava que chegara onde queria.

- Estou atrapalhando? – disse ao abrir a porta.

- De maneira alguma. – respondeu um homem vestido de branco. – Posso dizer até mesmo que chegou na hora certa, você é amiga da senhorita Arashi?

- Oi, Sango. – disse Kagome enquanto se esticava em uma enorme esfera.

- Como você está? – perguntou Sango. – Tem certeza que não estou atrapalhando?

- Leve-a para dar uma volta. – disse o homem. – Ela só descansou duas horas hoje, eu não vou continuar se ela não der um tempo.

- Doutor, eu já expliquei antes, – disse Kagome tentando soar sensatamente enquanto deixava a esfera de lado. – eu não tenho tempo. Quando eu dei o prazo de uma semana, eu falei sério.

- E eu também falei sério quando disse que isso era impossível, Arashi, por favor, ouça o que eu estou dizendo. Você não precisa se desesperar, se acompanhar o cronograma que fiz para você, prometo que em um mês você estará ótima.

- Eu não tenho um mês, Doutor. – disse Kagome revirando os olhos. – Eu adoraria ficar alguns anos brincando com o senhor e essas barras de ferro e essas esferas legais, mas eu não posso.

- Hm, Kagome, se importa em dar uma volta comigo? Eu queria conversar um pouco com você. – disse Sango.

- Não pode ser outra hora? – perguntou Kagome.

- Bem, na verdade, não. – disse Sango. – Eu já perdi aulas importantes e preciso estudar matemática, as provas começam em duas semanas e não acho que conseguirei tempo para vir te ver.

- Resolvido, então. – disse o homem. – Saia com a sua amiga, enquanto isso verei o que consigo fazer para diminuir ao máximo o tempo da sua recuperação. Não garanto nada, eu não posso fazer milagres, você estar viva já é um bem grande, não espere por outro.

- Está certo. – resmungou Kagome longe de parecer animada com aquilo.

Sango entrou na sala e ofereceu seu braço para Kagome, a garota não pôde deixar de rir com a atitude da amiga.

- Você sabe... Eu consigo andar. – disse.

- Ah, é? Bom, então... – disse Sango sem graça deixando o braço cair.

- Não, tudo bem, é mais fácil quando tem um apoio. – disse Kagome puxando o braço da garota e usando-o como apoio.

Sango sorriu vitoriosa. Queria que Inuyasha estivesse lá para ver aquilo, ele não havia dito que Kagome a rejeitaria?

- Onde quer ir? – perguntou Kagome.

- Estamos em um hospital, não há muito o que fazer, não é mesmo? – disse Sango.

- Podemos ir até o restaurante, eu não agüento mais comer sopa. – confessou Kagome.

- Então, vamos ao restaurante. – respondeu Sango sorrindo.


- Ah, que vontade que eu estava de comer um onigiri. – disse Kagome sorrindo enquanto mordia um pedaço do bolinho de arroz.

- Comida de hospital é terrível. – comentou Sango.

- Quando a fome está grande, qualquer coisa serve. Descobri isso aqui no hospital, grande ensinamento de vida. – disse Kagome rindo. – Mas então, você disse que precisava falar comigo, o que era de tão urgente?

- Antes de tudo, eu queria te pedir desculpas...

- Hm, pelo o que?

- Você sabe. Eu sempre te forcei a confiar em mim e quando chegou a minha vez de fazer isso, eu não fiz. Você ficou lá sozinha o tempo todo, não fui capaz de lembrar quem você era de verdade e fiz um monte de conclusões estúpidas.

- Não se sinta tão mal com tudo isso, - disse Kagome comendo outro onigiri. – eu estou aqui para matar o Inuyasha. É por isso que eu nunca quis ser sua amiga, nunca quis criar laços com nenhum de vocês. O que aconteceu com o Inuyasha e comigo poderia ter acontecido com você e com o Miroku, era de tudo isso que eu estava tentando deixar vocês dois longe, mas acho que vocês nunca acreditaram muito no que eu falava.

- Inuyasha disse que você não quer mais vê-lo. – disse Sango. – Isso tem a ver com você precisar matá-lo?

Kagome acenou negativamente com a cabeça.

- Então o que é? Você também vai nos afastar?

- Mesmo querendo, eu não acho que consiga fazer isso com você. – disse Kagome em um tom divertido. – Ele falou sobre o pedido do Sesshoumaru?

- Não muito.

- Resumindo, ele pediu que eu colocasse minha vida em risco.

- E você não vai fazer isso, não é mesmo?

Kagome pegou outro onigiri e começou a comê-lo. Sango encarou-a perplexa, ela estava mesmo pensando que aquilo era uma possibilidade?

- Você não me respondeu. – insistiu Sango.

- Eu não sei bem o que fazer. Hoje eu descobri muita coisa sobre mim que não me agradaram, coisas que estavam de baixo dos meus olhos o tempo todo, mas eu nunca quis enxergar. E ele sabe mais sobre mim do que eu jamais sonhei em saber, você não disse que eu deveria me empenhar para descobrir mais sobre o que eu sou? O problema agora, Sango, é que eu quero saber quem eu sou. Eu não ligo mais por ser uma aberração da natureza, hoje eu percebi que perdi muito do meu tempo fazendo as perguntas erradas.

- E você acha que entregar sua vida nas mãos do Sesshoumaru vai trazer essas respostas? – disse Sango irritada.

- Bom, podemos dizer que ele já cuidou dela uma vez e como dá para ver, ele cuidou muito bem. – disse Kagome sorrindo. – Mas não se preocupe tanto, como eu disse, eu não resolvi ainda o que fazer, eu já morri uma vez, não pretendo fazer isso de novo tão cedo.

- E o que isso tem a ver com o Inuyasha?

- Você veio até aqui tentar mudar minha decisão? – perguntou Kagome. – Se foi, é perda de tempo.

- Não quero mudá-la, quero entendê-la.

- Hm, vou tentar usar um exemplo mais simples... O Miroku, por exemplo. Desde que eu conheci vocês dois, você o chama de safado, sem vergonha e mais uma infinidade de outras coisas, não importa o quanto eu diga que ele te ama, você não acredita. Você é bem arrogante em relação à ele, criou uma imagem baseada em conclusões e no que te falaram dele e não importa o que ele faça, essa imagem nunca muda. Agora, imagina um dia você descobrir que o Miroku não é tão safado assim, que na verdade, ele nunca beijou todas as meninas que dizem que ele beijou, que ele não fez nem metade do que dizem que ele fez e que todos esses anos ele continuou ao seu lado por que te ama e não por qualquer interesse que você achou que ele tivesse. Como você conseguiria ficar ao lado dele, sabendo que foi injusta o tempo todo?

- É diferente... – argumentou Sango.

Kagome riu.

- Não é não. No meu caso é pior ainda, Sango. Sempre que eu olho para o Inuyasha eu lembro de todos os yokais e hanyous que eu matei sem sequer me questionar se eles tinham amigos, se tinham uma vida, quem eles eram. Eu nunca tinha visto yokais como seres que podiam ter humanidade, até agora. Eu já tenho que lidar com muitas coisas no momento para ter de lidar com a culpa também.

- Você só está fugindo do problema. – disse Sango. – Você errou, e daí? Todo mundo erra.

- Esse é o problema. – disse Kagome. – Eu nunca errei antes.

Sango suspirou e apoiou a cabeça em uma das mãos, enquanto encarava Kagome. Ela já tinha notado isso antes, mas quando se tratava da amiga parecia que tudo se tornava mais difícil, mais cansativo.

- Será que o doutor já fez um super plano para minha recuperação? – disse Kagome.

- Hm? – perguntou Sango voltando dos seus pensamentos.

- O doutor. Ele disse que tentaria diminuir o tempo da minha recuperação, será que ele já pensou em algo?

- Por que quer tanto se recuperar?

- Para proteger você. – disse Kagome sorrindo. – Bom, Sango, desculpe, mas preciso ir. – Mesmo que eu peça, você não vai ficaria mais, não é? – disse Sango.

- Não, sinto muito.

- Está tudo bem, vá lá e recupere-se em uma semana. Você precisa voltar antes das provas.

- Isso foi algum tipo de incentivo para eu me empenhar em melhorar? – disse Kagome revirando os olhos.

Sango riu.

- Desculpe, só quis soar normal.

- Não tente ser normal, esse não é seu forte. – disse Kagome. – Obrigada pela visita, quando eu me decidir sobre a proposta do Sesshoumaru, prometo que será a primeira a saber.

- Obrigada. – disse Sango sorrindo.

Kagome levantou-se da cadeira e ficou alguns segundos em pé, odiava aquela falta de controle. Como as pessoas conseguiam conviver com aquilo? Ela não agüentaria muito mais, estava começando a ficar louca.

Deu um sorriso para Sango, que a olhava de maneira preocupada e voltou para a sala onde o doutor havia ficado. Ela encarou-o, estava sentado em uma mesa com vários dos exames dela e alguns papéis.

- Você foi rápida. – ele disse.

- Estou ansiosa. – disse Kagome.

- E eu curioso.

- Com o que exatamente?

- Seus exames. Me admira que ninguém tenha notado quão estranhos eles são.

- O que foi agora? Descobriu alguma coisa a mais?

- Eu acho que sim, mas não sei exatamente o que descobri.

- Doutor, você está testando a minha paciência? – resmungou Kagome.

- Você não é humana, não é?

Kagome suspirou e revirou os olhos.

- Lá vamos nós de novo...


Olá, meninas, como estão? :)

Sumi por um tempo, final de ano é sempre uma loucura, festas e essas coisas todas. É meio difícil conseguir escrever xD Os resultados das faculdade saíram e bom, eu não passei em nada, vou voltar para o bom e velho cursinho. Nada que vá transformar minha vida em uma droga, como não é tão corrido e tenho o ano todo para estudar, não abandonarei a fic como fiz ano passado. Será como ir para a escola, então é só isso mesmo. Eu não gostei muito desse capítulo, achei que parece enrolação, mas eu realmente preciso dele :( Desculpem por isso.

Obrigada às meninas que sempre comentam e me deixam feliz, vocês são uns amores, continua a postar só por causa de você :3

Espero estar por aqui semana que vem, o próximo capítulo será beeeeeem melhor do que esse, prometo. Um beijo para você que lê :*