Deu um sorriso para Sango, que a olhava de maneira preocupada e voltou para a sala onde o doutor havia ficado. Ela encarou-o, estava sentado em uma mesa com vários dos exames dela e alguns papéis.
- Você foi rápida. – ele disse.
- Estou ansiosa. – disse Kagome.
- E eu curioso.
- Com o que exatamente?
- Seus exames. Me admira que ninguém tenha notado quão estranhos eles são.
- O que foi agora? Descobriu alguma coisa a mais?
- Eu acho que sim, mas não sei exatamente o que descobri.
- Doutor, você está testando a minha paciência? – resmungou Kagome.
- Você não é humana, não é?
Kagome suspirou e revirou os olhos.
- Lá vamos nós de novo...
Capítulo 17 - Kikyou
- Menina, seu organismo é muito parecido com o de um humano, mas não é igual. Seu metabolismo é diferente, vendo sua tomografia de antes e depois do coma é quase como um milagre. Antes do coma você era um vegetal e agora, está aqui falando e andando. Como me explica isso?
- Milagres acontecem? – ofereceu Kagome.
- Eu preciso saber o que isso significa, só assim eu posso ir até seus limites. Se seu organismo não é igual ao dos outros, a maneira como irei trata-a também não será igual, se em apenas algumas horas seu cérebro conseguiu se regenerar dessa maneira, eu posso fazê-la voltar ao normal em uma semana, mas para isso eu preciso saber o que você é.
- Não faça perguntas difíceis. – disse Kagome revirando os olhos.
- Você é humana? – perguntou novamente.
- Não.
- Então é um yokai?
- Hm, passou longe.
- Um hanyou?
- Pior ainda.
- E então, o que você é?
- Dizem que eu sou um anjo, - disse Kagome rindo ironicamente. – mas eu acho isso meio poético demais. Mas se quer saber sobre meu metabolismo, ele funciona quase igual ao de um yokai, tenho as mesmas regras de viver milhares de anos, me curar rápido...
- Está dizendo que agüenta tudo o que um yokai agüenta?
- Ou até mais. Eu nasci para matá-los. – disse Kagome. – É isso que eu sou ou era... Tanto faz agora.
- Você é minha paciente mais estranha, sabia disso?
- Eu imagino. Mas me diga, eu consigo ficar boa em uma semana?
- Consegue. – disse o médico com convicção. – Mas vai exigir muito de você, eu vou passar o mesmo tratamento que eu passaria para um yokai adulto.
- Por mim está ótimo. – disse Kagome com um sorriso iluminando seu rosto.
- Mas isso vai doer. Muito. Você tem certeza que agüenta?
- Se um yokai agüenta, eu agüento. – disse Kagome.
- Começamos amanhã. Esteja aqui as 4:30 da manhã.
- Pode deixar. – disse Kagome.
- Está livre por hoje.
Kagome abriu a boca para argumentar, mas o médico falou antes.
- E não discuta. Eu disse que estará boa em uma semana, não disse? Você não precisa perder seu tempo hoje fazendo coisas que não vão te ajudar em nada.
Kagome revirou os olhos e apenas acenou com a cabeça, deu uma última olhada no médico e saiu. Apoiou o corpo contra a parede, odiava admitir mas estava se sentindo cansada, andar para cima e para baixo estava exigindo muito dela, talvez ela precisasse apenas deitar um pouco e quem sabe tirar um cochilo. Como se não bastasse seu cansaço físico, sua mente estava um caos. Dormir realmente parecia-lhe a melhor coisa do mundo naquele momento.
- Precisando de ajuda?
Kagome girou nos calcanhares e sorriu ao deparar-se com Mika e uma cadeira de rodas, arrastou-se até a cadeira e sentou-se.
- Você apareceu bem na hora certa!
- É a minha função. – respondeu a velha enfermeira sorrindo. – Quer ir para o seu quarto agora?
- É tudo o que eu mais quero.
Mika ajudou Kagome a deitar-se na cama e logo se retirou do quarto, deixando a garota sozinha. Kagome olhou para o relógio de parede. Cinco horas da tarde. Bom, era cedo, ela dormiria apenas duas horas, ao menos era nisso em que ela acreditava.
Em poucos minutos Kagome caiu no sono, dessa vez nenhum sonho viera atormentar-lhe e graças à isso a garota só acordou às 3:30 da manhã do dia seguinte. Esfregou os olhos, tentando focalizar o relógio, mas não ajudou muito. Revirou-se na cama e levantou-se. Cambaleou até o banheiro e jogou água no rosto, olhou-se no espelho e suspirou.
- Por que as pessoas de filmes são sempre tão bonitas nos hospitais? Eu estou terrível.
Tirou a camisola do hospital e ligou o chuveiro. Ela não tinha sono, sabia que se alguma enfermeira a pegasse tomando banho sozinha de madrugada certamente levaria bronca, mas não conseguia apenas ficar deitada na cama, sem fazer nada. Apesar de não ter sonhado com nada, a primeira coisa que Kagome pensou ao acordar foi a proposta de Sesshoumaru, ela sentia que aquilo ainda ia lhe dar muita dor de cabeça.
Bateu a cabeça de leve na parede do banheiro, enquanto sentia a água escorrer por seu corpo, não sabia dizer ao certo quanto tempo ficou naquela posição, mas só desligou o chuveiro quando ouviu a voz de Mika no quarto "O que pensa que está fazendo?".
Kagome enrolou-se na toalha e enrolou seu cabelo em outra e foi até o quarto.
- Hm, estava tomando banho? – disse enquanto fingia procurar roupas limpas na mala que alguém trouxera para ela. – Hei, eu nunca pensei nisso, quem trouxe isso para cá?
- Bem, ela não se identificou, disse que tinha a chave da sua casa e por isso deixaria a mala aqui. – disse Mika. – Mas não mude de assunto.
A garota arqueou a sobrancelha, como assim alguém que tinha a chave de sua casa? A única pessoa que conseguia pensar era Kikyou, mas ela certamente não estaria lá. Ela não sairia do seu posto apenas para entregar-lhe uma mala, muito menos iria embora sem passar um sermão. Mas se não era Kikyou, quem mais poderia ser?
- Você viu a mulher? – perguntou Kagome.
- Sim, eu vi. – disse Mika parecendo querer voltar ao assunto do banho.
- E como ela era?
- Ela tinha olho verde e me lembrou você, - respondeu Mika pensativa. – será que era algum parente seu?
Era Kikyou. Agora não restavam dúvidas, alguém com a chave de sua casa e de olhos verdes só poderia ser Kikyou, mas o que aquilo significava exatamente? Kagome esfregou os olhos e depois massageou a cabeça de leve, ela estava começando a doer antes da hora.
- Acho que era a minha mãe. – disse Kagome.
Mika ficou em silêncio alguns minutos. Como Kagome poderia ter uma mãe que só deixava a mala lá e sequer se preocupava com a filha? Aquilo era mais cruel do que ter amigos que não a visitavam enquanto estava quase morrendo. Ela suspirou, aquela garota deveria ser muito mais solitária do que aparentava.
- Ela não é uma boa mãe. – disse finalmente.
Kagome riu e voltou sua atenção para a mala, olhou para as roupas e depois olhou para Mika.
- Eu não preciso mais usar aquela camisola do hospital, não é? – disse. – Não vou me sentir bem fazendo fisioterapia com a bunda, bem... De fora.
Mika esboçou um sorriso.
- Não, pequena, acho que amanhã você já terá alta e só voltará para cá para fazer a fisioterapia.
Kagome sorriu aliviada e separou uma calça de moletom e uma blusa branca larga. Vestiu-se e tirou a toalha do cabelo.
- Mika, que horas são? – perguntou.
- Quatro e meia da manhã, por quê?
- Preciso estar na fisioterapia às cinco. – disse Kagome indo até o banheiro e escovando os dentes.
Mika ficou do quarto olhando a garota, ela não tinha respondido seu comentário, talvez Kagome não gostasse de falar sobre si mesma. Suspirou novamente.
- Não respondeu ainda por que resolveu achar que poderia tomar banho sozinha. – disse Mika.
Kagome cuspiu a espuma e disse:
- Eu já ando por ai sozinha, tomar banho não é um grande problema. Estou bem, não estou?
- Está, mas deveria ter uma enfermeira por perto, são normas. – disse Mika.
- Vou me lembrar disso da próxima vez que ficar internada. – disse Kagome rindo e logo enxaguando a boca. Penteou o cabelo e deixou-o molhado. – Preciso ir.
- Eu te deixo lá. – disse Mika.
- Está certo, mas nada de cadeira de rodas. – disse Kagome.
Mika revirou os olhos.
- Tenho escolhas?
- Não. – disse Kagome sorrindo.
- Está bem então, faça como quiser.
Kagome sorriu em agradecimento e voltou a revirar a mala, pegou um par de meias, calçou-as e logo colocou um tênis.
- Bom dia.
Kagome olhou para o fisioterapeuta e arqueou a sobrancelha.
- Por acaso você dormiu, doutor? – disse.
- Na verdade, não. – respondeu. – Já disse que não sou doutor, pode me chamar pelo meu nome.
- Hm e qual seria ele mesmo? – perguntou Kagome.
- E é assim que retribui todo meu trabalho. – resmungou. – É Takeshi, meu nome é Takeshi.
- Desculpe, mas tive dias meio estranhos nos últimos tempos, nem sei mais qual é meu nome, - disse Kagome. – mas enfim, conseguiu pensar em algo?
Takeshi bocejou, espreguiçou-se e esfregou os olhos.
- Acredito que sim, - disse. – espero que não tenha mentido para mim sobre seu metabolismo ou teremos sérios problemas aqui.
- Se essa é a sua preocupação, pode esquecê-la. Eu não menti. – disse Kagome.
- Ótimo. - disse Takeshi. – O prazo mínimo para você melhorar são 5 dias e o máximo, 1 mês, isso vai depender de como você vai reagir ao tratamento. Você receberá alta amanhã, mas sua fisioterapia começará às 5 da manhã, almoçará e só voltará às 3 da tarde, estará livre para voltar para casa às 11 da noite. Essa será sua rotina até você melhorar, acha que consegue?
- A única parte dessa história toda que eu não gostei foi a parte do 1 mês, como assim? – retrucou Kagome.
Takeshi revirou os olhos, mesmo que esses estivessem quase fechados e as olheiras tirassem totalmente a atenção deles.
- Ouviu o que eu disse? Depende de você, não de mim. Do jeito que você está, não duvido que seu organismo resolva melhorar sozinho só para você se acalmar.
Kagome cruzou os braços e mordeu o lábio inferior.
- Está bem, eu vou deixar você fazer o seu trabalho e eu faço o meu. – disse. – Agora, pode mandar a parte difícil, não tinha uma história de doer e sei lá o que?
- Sim, sim, - disse Takeshi mexendo a mão impacientemente. – vá com calma, você dormiu, eu não, estou meio lento.
- Desculpe, estou ansiosa. – explicou-se Kagome.
Takeshi não respondeu, apenas levantou-se da cadeira em que estava sentado atrás de sua mesa e disse:
- Me acompanhe, não adianta eu falar o que você deve fazer, hoje é o primeiro dos cinco dias que temos, a pratica é mais útil do que a teoria nesse caso.
Kagome sorriu e acompanhou Takeshi, finalmente sua teimosia estava tendo alguma utilidade.
Sesshoumaru cerrou os olhos. Estava sentado em seu jardim, sabia que deveria estar dormindo, mas algo estava deixando-o inquieto há alguns dias e agora sua suspeita mostrava-se incrivelmente certa.
- Bom dia, Sesshoumaru. Ou eu deveria dizer boa noite?
O yokai não virou para saber de quem era aquela voz. Sentiu seu corpo inteiro tremer, era como se uma raiva que ele não sentia há milhares de anos explodisse em seu corpo, apertou o apoio da cadeira, tentando segurar a vontade assassina que parecia inebriar todos os seus sentidos.
- Bom dia. – respondeu se concentrando em conseguir falar ao invés de simplesmente voar no pescoço da 'visita'. - Gostaria de saber o que faz aqui, eu não me lembro de ter convidado-a.
- Desculpe por invadir sua casa, - disse. – mas eu precisava te agradecer.
Sesshoumaru respirou fundo, aquela situação exigia muito mais sangue frio do que ele jamais tivera nos últimos anos, levantou-se da cadeira e encarou a visitante. Era como se o tempo não tivesse passado, mesmo após quase vinte anos ela continuava igual. O mesmo cabelo negro cobrindo o rosto, as mesmas feições frias, os mesmos olhos verdes mortos.
- Eu não fiz nada disso por você, Kikyou. – disse Sesshoumaru. – E eu gostaria que você saísse da minha casa, você não é bem vinda, muito menos aqui.
- Eu sei disso tudo. – disse Kikyou. – E não se preocupe, eu também não gosto de você, mas sinceramente não achei que você colaboraria tão facilmente com os meus planos.
Sesshoumaru sorriu sarcasticamente, ele não se movia, mas seus olhos acompanhavam atentamente cada mínimo movimento da mulher. O dourado que eles costumavam emitir agora brilhavam de maneira doentia, era quase um aviso de perigo.
- Acha mesmo que fiz isso por você? Não passou pela sua cabeça que talvez eu também tenha planos?
Kikyou cruzou os braços e cerrou os olhos.
- Não ouse usá-los.
- Você não está em posição de exigir nada. – retrucou Sesshoumaru. – Acha que eu não sei que você escondeu sua presença com medo que eu evitasse seu ataque ao Inuyasha? Acha que não sei que planejou a morte da Kagome e que a usou desde o começo? Acha mesmo que eu não sei que você a treinou desde o momento que viu os olhos azuis dela? Não sou eu que estou usando as pessoas aqui.
- A Kagome tem o destino traçado desde que nasceu eu não tenho nada a ver com o destino dela. – disse Kikyou.
- Eu não chamo assassinato de destino. – disse Sesshoumaru. – Olha, Kikyou, eu não sei o que veio buscar aqui, mas não vai encontrar. Eu não esqueci o passado, eu não te perdoei.
- Não preciso o perdão de um yokai. A Rin fez as escolhas dela, não me culpe por isso.
Sesshoumaru voou em direção à Kikyou pegando-a desprevina, quando a mulher notou o yokai já estava parado em sua frente com sua garganta entre as mãos. Os olhos assassinos de Sesshoumaru quase a engoliam.
- Eu não vou permitir que você fale o nome dela, uma pessoa como você não tem esse direito. – dizia o yokai enquanto lutava internamente com a vontade de apertar a garganta de Kikyou com mais força até matá-la. – E se acha que tenho medo dos seus avisos espero que lembre você não passa de lixo para mim, seja lá quais são seus planos, eu vou impedi-los e quando chegar a hora, eu vou matá-la. Você nunca mais vai brincar com a vida das pessoas, muito menos a vida do Inuyasha e da Kagome.
Kikyou olhou para Sesshoumaru e começou a rir, o yokai cerrou os olhos com a ação da mulher, mas ao invés de parar a risada só se tornou mais intensa, até virar uma gargalhada quase doentia.
- Você realmente acha que pode me matar! - disse enquanto tentava sufocar as risadas. – E o melhor de tudo, acha mesmo que pode me afastar do Inuyasha.
- Eu só não te matei ainda por que preciso de você viva. – disse Sesshoumaru soltando Kikyou.
- O sentimento é recíproco. – disse Kikyou que rapidamente mudou as feições, ficando séria. – Não se atreva a tentar tirar o Inuyasha de mim, ele é meu. Sempre foi e sempre vai ser.
- Eu não acho que ele concorde com isso. – disse Sesshoumaru.
- Ele concordará, quando a hora chegar, ele entenderá e me aceitará. – disse Kikyou convicta.
- Você é ridícula. – retrucou Sesshoumaru. – Antes que eu me arrependa de não ter acabado com você aqui mesmo, poderia sumir da minha frente?
- Sabe que ainda vai se arrepender de tudo isso, não sabe? – disse Kikyou.
- Eu sei? – disse Sesshoumaru.
- Sim, você sabe. – disse Kikyou. – E antes de ir, devo dizer... Esse jardim é incrivelmente cafona.
A mulher girou nos calcanhares e saiu andando pela lateral da casa, Sesshoumaru olhou enquanto ela se afastava sentindo mais do que nunca que poderia matá-la. Ele segurou o tronco de uma árvore que após alguns minutos trincou e tombou levemente para o lado, só quando notou o estado da árvore ele conseguiu desviar os olhos de Kikyou e voltou ao normal respirando fundo.
- Desculpe por isso, Rin. – ele disse, enquanto ia para dentro da mansão.
Inuyasha estava deitado na cama, encarando o teto. Ele tinha recebido alta pouco depois da conversa com Kagome, sentia como se fosse o destino fazendo a vontade da garota, deixando-o longe dela. Apesar de aquilo estar irritando-o não era esse o motivo de estar acordado àquela hora, ele percebia algo estranho no ar, uma sensação conhecida que o deixava inquieto, a principio era só uma suspeita, mas depois ficou tão claro que se achou idiota por ter demorado tanto para descobrir.
- Um anjo. – disse.
Miroku que estava dormindo em um colchão no quarto de Inuyasha revirou-se e olhou sonolento para o hanyou.
- O que foi? Não está conseguindo dormir?
- Tem um anjo por perto. – disse agora se sentando na cama. – Eu posso sentir.
O rapaz esfregou os olhos e encarou Inuyasha, ele parecia preocupado e até mesmo aflito. Imitou os movimentos dele e sentou no colchão, percebendo que sua percepção sobre as coisas ainda estava limitada, estava com muito sono.
- O que isso significa? – disse tentando entender as reações de Inuyasha.
- Eu não sei, – disse Inuyasha. – mas eu não acho que seja algo bom. Podem ter vindo atrás da Kagome.
- Ou de você. – disse Miroku sensatamente, mesmo estando com sono.
- No fim é a mesma coisa, - disse Inuyasha. – pelas últimas descobertas feitas em relação a ligação bizarra que nós temos, se ela morrer eu morro também.
- Isso fica pior a cada momento. – disse Miroku.
- Um anjo na cidade é a prova disso. – disse Inuyasha. – Merda, o que eu faço agora? A Kagome está surtada e me evitando, ela precisa saber o que está acontecendo.
- Eu imagino que ela já saiba da existência desse anjo. – disse Miroku. – E você não é capaz de saber como ela está se sentindo, seu radar Kagome fica fora de área?
- Muito engraçado, Miroku. – disse Inuyasha levantando-se da cama e indo em direção à janela. – E de que me adianta perceber que alguém está atacando-a quando ela já está morrendo? Eu posso estar morrendo também, não vou chegar a tempo!
Miroku suspirou e jogou o corpo de novo no colchão.
- Inuyasha, eu acho que a Kagome sabe se virar, ela só morreu por que tentou te salvar, não é como se ela fosse uma donzela em perigo prestes a ser atacada.
- Você esqueceu que ela não controla bem os movimentos? – retrucou Inuyasha. – E eu não estou muito empolgado com a idéia de poder morrer por causa disso.
- Tá e você pode fazer o que por ela? Subir em um cavalo, vestir sua armadura e defende-la? Eu sei que você não pode fazer nada. – disse Miroku encarando o teto. – Mesmo sendo parte yokai, não há nada que você possa fazer, talvez até atrapalhe.
Inuyasha cerrou os olhos e encarou o humano deitado no chão.
- Do que você está falando, Miroku?
- Acha que eu nunca notei que você não ataca ninguém? – começou a falar Miroku enquanto voltava a sentar-se no colchão para encarar o hanyou. – Você é forte e rápido, mas sempre que luta com algum yokai só desvia. Tem garras, mas nunca vi usando-as. Eu não sei o que acontece, mas você é mais humano que yokai.
O hanyou olhou para o céu e notou quão avermelhado ele estava, o sol estava nascendo. Ele suspirou e abriu a janela, deixando a brisa da manhã entrar no quarto.
- Eu ter garras e não poder usá-las não significa que eu não posso defender alguém. – disse Inuyasha ainda olhando para fora.
- Então eu estava certo. – comentou Miroku.
Inuyasha apenas acenou positivamente com a cabeça.
- Eu não sei o que acontece, talvez eu até possa usá-las, mas sempre que penso nisso, sempre que o lado yokai tenta despertar eu sinto algo impedindo. É como se algo dentro de mim não quisesse que eu matasse ou me tornasse um yokai, a Kagome disse que todos os hanyous que ela encontrou estavam descontrolados, não passavam de monstros, eu não consigo deixar de achar que eles eram como eu, mas que em algum momento perderam a humanidade e ficaram loucos.
- Acha que isso pode acontecer com você? – disse Miroku.
- Talvez. – confessou Inuyasha. – Foram várias as vezes em que cheguei perto de me descontrolar, de matar. E não só yokais, mas humanos também. É como se a minha razão sumisse por alguns minutos.
- Mas ela volta. – disse Miroku.
Novamente Inuyasha apenas acenou positivamente com a cabeça.
- Sempre volta. Mas e se um dia não voltar ou voltar tarde demais?
- Se um dia isso acontecer a gente dá um jeito. – disse Miroku. – Você sabe que não é um yokai sanguinário.
- Na verdade, eu não sei. Eu só acho. Mas você sabe, se algo acontecesse com a Kagome ou com a Sango ou até mesmo com você, eu não acho que conseguiria manter minha razão.
- Isso é idiota. – retrucou Miroku.
Inuyasha virou para encarar o humano, ele não tinha o costume de demonstrar preocupação com os outros, mas não esperava aquela reação. Como assim ele querer protegê-los era idiota?
- Inuyasha, pare de querer bancar o herói. Sério.
- Eu não estou bancando o herói! – retrucou Inuyasha irritado.
- Claro que está! – disse Miroku. – Você nunca se preocupou com os outros, por que vai fazer isso agora? É idiota. Você mesmo disse que os outros hanyous perderam a humanidade deles, acha que vale a pena perder a sua por causa da gente? Eu estou falando por mim, mas garanto que a Sango pensa o mesmo e até mesmo a Kagome, já que ela fez o mesmo que eu faria, a gente quer você vivo, do jeito que é agora, não um yokai maluco!
- Por que está me falando isso? – disse Inuyasha.
- Por que é o que eu falaria para o meu irmão, caso eu tivesse um e caso ele fosse idiota como você! – disse Miroku.
- Você anda meloso demais. – retrucou Inuyasha.
- Como se o super-homem pudesse falar alguma coisa. – disse Miroku.
Inuyasha riu. Lembrava de Miroku e de sua família desde sempre, nunca entendeu por que eles sempre iam ao orfanato visitá-lo, mas também nunca fizera muita questão de ser adotado por eles, não era como se ele quisesse uma família. O fato deles sempre se preocuparem já era o bastante, eles eram bons demais para que acabassem tendo de lidar com seus problemas, desde muito novo ele sentia aquela luta interna entre seus dois lados, porque faria pessoas tão bondosas se preocuparem com isso? Não pôde deixar de achar tragicamente engraçado o fato de mesmo tentando evitar que eles participassem daquilo, Miroku estivesse lá ao seu lado ouvindo seus relatos e dando uma de irmão mais velho. Mas havia um pequeno detalhe: o rapaz era mais novo.
- A Kagome te deixou um frouxo mesmo. – comentou Miroku.
- Isso não tem nada a ver com ela. – retrucou Inuyasha. – E se está reclamando tanto assim, quando algum anjo louco vier matar você por ser amigo dela, vou deixar e ainda vou rir da sua cara. Feliz assim?
- Assim está melhor. – disse Miroku. – Agora, sobre o anjo... Não é a Kagome, não?
- Claro que não, né? – disse Inuyasha revirando os olhos. – Se fosse eu saberia. Talvez seja o anjo que me atacou.
- Talvez. – disse Miroku. – Ou talvez tenha vindo visitar a Kagome, acho que não deve ir atrás dessa gente, só se preocupe com ela caso ela venha atrás de você.
- Fácil falar. – resmungou Inuyasha.
- É, fácil é falar. – disse Miroku. – Agora, se não se importa, pode fechar a janela e me deixar dormir?
- Você é folgado demais mesmo, eu nem te chamei pra ficar aqui! – retrucou Inuyasha.
- Minha mãe. – explicou Miroku. – Ela falou pra eu ficar de olho em você, sabe como é, você acabou de sair do hospital, ela perguntou se você não iria ir lá pra casa, mas como imaginei que não ia querer, falei que ia ficar aqui. Assim ela me deixa em paz.
- Muito legal da sua parte, você fica em paz e eu tenho que te agüentar. – disse Inuyasha. – Pode dormir, mas logo precisa levantar para ir pra escola.
Miroku resmungou alguma coisa e voltou a deitar, Inuyasha fechou a janela e saiu do quarto, indo em direção à cozinha. Abriu a geladeira e pegou uma garrafa de suco de laranja, encheu um copo e foi para a sala, sentando-se no sofá.
Talvez Miroku estivesse certo, talvez aquele anjo só estivesse na cidade para ver se Kagome estava bem, talvez até a perdoassem e a levassem embora como forma de demonstrar que ela ainda era um anjo, como as outras. Por um minuto a idéia soou boa o bastante para animar Inuyasha, mas então ele se lembrou que sempre que sentia que Kagome se afastaria de verdade, algo dentro dele agitava-se. A verdade é que sempre que pensava na garota sentia-se confuso, ele sabia que não a amava, essa era a única certeza que tinha naquele emaranhado infinito de sentimento, mas então qual a explicação para a maneira como agia? Está bem, ele sempre usava a desculpa do instinto e ele era culpado por parte do problema, a ligação também só piorava ainda mais o que já era complicado, mas no fundo de todos esses sentimentos forçados existia algo que vinha dele mesmo. Havia algo em Kagome que o fascinava, não era a beleza da garota, nem os olhos azuis, a maneira como sempre discutiam – como Miroku havia oferecido no dia anterior – tampouco. Apesar de odiar admitir, ele entendia o que ela estava falando quando disse que ele era como um espelho, afinal, quando ele pensava racionalmente ela também tinha essa função em sua vida.
Desde que Kagome surgira ele fora obrigado a se confrontar com tudo aquilo que tentara ignorar sua vida inteira, assim como ele, ela não sabia ao certo o que era, nem de onde tinha vindo. Ninguém jamais entenderia a angústia de ser diferente, de se olhar no espelho e não saber nada sobre si mesmo, de procurar ao redor e nunca ver nada, não encontrar apoio, pais ou alguém para dizer que está tudo bem e que fizera um bom trabalho em continuar a viver apesar de tudo; isso até ela aparecer, porque embora ela negasse, ele conseguia perceber nela os mesmos olhos que ele mesmo tinha. Aqueles olhos machucados, que olham ao redor esperando sempre o pior, que não acreditam mais em salvação, mas que no fundo imploram por uma. Inuyasha sempre via em Kagome o que tentava esconder de si mesmo, mas ao contrário dela, ele não queria fugir daquilo, encontrar alguém igual a ele não era doloroso, era reconfortante, por que pela primeira vez na vida ele não se sentia sozinho.
Inuyasha suspirou e virou o copo de suco que segurava de uma vez só. Agora tudo fazia sentido, toda a sua preocupação com ela, o medo dela ir embora, a vontade de que ela continuasse sozinha o tempo todo. Tudo isso era sua vontade de continuar a ter Kagome como um espelho, porque sempre que se sentisse sozinho, era só olhar para ela e se encontraria nela.
- Vocês dormiram todas as aulas. – disse Sango.
Inuyasha bocejou em resposta e Miroku afundou-se na cadeira.
- Parece que estamos no meio de uma invasão de anjos. – explicou o rapaz.
- O que? – disse Sango.
- Anjo novo na cidade. – disse Inuyasha no meio de outro bocejo.
Sango olhou para os dois incrédula. Um anjo já tinha causado tudo aquilo, imagine o que dois anjos na cidade não fariam?
- Como assim outro anjo, Inuyasha? Você encontrou com ela? – disse Sango.
- Não, eu só sei. Graças a Kagome eu descobri que consigo perceber a presença de anjos, algo sobre defesa ou qualquer porcaria do tipo. – explicou Inuyasha deitando a cabeça na mesa.
Eles ainda estavam na escola, a aula já tinha acabado provavelmente há algum tempo, mas só agora eles conseguiam abrir os olhos. Inuyasha não dormira absolutamente nada durante a noite e Miroku não conseguira volta a dormir depois da conversa, os dois tinham olheiras enormes, estavam descabelados e as roupas estavam amassadas.
- O que será que ela quer? – disse Sango mordendo de leve o lábio inferior.
- Não faço idéia. – disse Inuyasha. – E gostaria de não descobrir.
- Ela pode estar atrás dos lobos, ouvi dizer que eles andam meio descontrolados depois de tudo o que aconteceu. – disse Sango.
- Você não dizia que lobos estão sempre descontrolados? – disse Miroku.
- Bom, sim, mas eles não atacavam ninguém. – disse Sango. – Parece que atacaram uma garota dia desses.
- Deve ser um anjo. – disse Inuyasha deitado na mesa. – O Kouga está meio surtado com o que aconteceu com a Kagome, ele é doente, mas não atacaria humanos.
- E você fala isso nessa tranqüilidade? Eles atacaram uma pessoa! – disse Sango irritada.
- Não deixa de ser um anjo. – disse Inuyasha. – Não vou ficar do lado de ninguém, eles que se acertem. Espero que esse anjo tenha mesmo vindo atrás dos lobos, caso contrário as coisas vão ficar bem estranhas por aqui.
- Mais ainda, né? – disse Miroku bocejando.
- Estou visitar a Kagome. – disse Sango.
- Pode perguntar pra ela se ela sabe sobre esse anjo? – disse Inuyasha.
- Vá até lá e pergunte, não sou garota de recados. – retrucou Sango.
- Ela não quer falar comigo, Sango. – disse Inuyasha revirando os olhos. – Não vai adiantar em nada eu ir até lá.
- Já disse que você deveria ignorar o que ela fala. – disse Sango. – Eu sempre faço isso.
- Bela amiga. – disse Miroku.
- E você fique quieto, - disse Sango. – deveria estar do meu lado! Sabe que eles parecem duas crianças agindo assim.
- A função dos adultos é mostrar para as crianças o caminho certo e deixar que elas façam suas próprias escolhas. – disse Miroku dando nos ombros. – Já conversei com o Inuyasha, ele faz o que acha certo agora.
Sango olhou para Inuyasha e resmungou alguma coisa que nenhum dos dois pareceu interessado em entender.
- Está bem então, façam como quiser. – disse a garota pegando a mochila e saindo da sala.
- Ela vive de tpm, não é? – disse Inuyasha.
- Deu para notar? – disse Miroku.
Inuyasha soltou um riso como resposta e espreguiçou-se.
- Vou para casa, se vai ficar por lá, passe primeiro na sua casa e pegue roupas limpas, não vou lavar suas cuecas.
- Ok, vou falar pra minha mãe que você está bem e vejo se ela me libera da missão de ser sua enfermeira particular. – disse Miroku.
- Seria interessante. – disse Inuyasha.
- É, eu sei bem disso. – respondeu Miroku.
Os dois pegaram suas mochilas e saíram da sala, despediram-se no portão da escola e cada um seguiu seu caminho.
- Oi, você sabe me dizer em qual quarto a paciente Arashi Kagome está?
A moça que até então olhava para o computador a sua frente ergueu os olhos e encarou a dona da voz.
- Você é parente da paciente
- Sou a mãe dela.
- Seu nome, por favor?
- Arashi Kikyou. – disse Kikyou mostrando sua identidade para a moça.
- Senhora Arashi, no momento a Kagome está no horário de almoço, você pode encontrá-la no refeitório. Vou pedir para uma enfermeira te acompanhar.
- Obrigada.
Kikyou olhou o redor, procurando algo interessante para distrair sua mente enquanto esperava a enfermeira chegar, mas ela chegou antes do que ela esperava.
- Vejo que a senhora resolveu visitar sua filha.
Kikyou cerrou os olhos e encarou a velha senhora que a olhava de maneira pouco amigável.
- E você quem é? – disse.
- Meu nome é Mika, sou a enfermeira que está cuidando da Kagome. – respondeu.
- Obrigada por cuidar da Kagome, - disse Kikyou soando pouco sincera. – pode me levar até ela?
Mika resmungou e apenas acenou positivamente com a cabeça, dizendo um "me acompanhe". Kikyou acompanhou a velha senhora até o refeitório sem dizer uma palavra, quando chegou na porta, Mika virou-se para ela e disse:
- Vou avisar que você está esperando por ela. Espere um minuto.
Antes de Kikyou responder, Mika entrou no refeitório e procurou por Kagome, a garota estava em uma mesa no canto, os olhos arregalados olhando para a porta. Quando Mika chegou perto o bastante, ela disse:
- Ela está lá fora, não está?
- Se está falando sobre sua mãe, sim, ela está. – disse Mika. – Você quer vê-la?
Kagome sentia seu coração batendo contra suas costelas. O que Kikyou estava fazendo ali? Será que tinha vindo para matá-la? Para matar Inuyasha? Qual era o significado dela ter vindo de tão longe e agora estar ali? Ela já tinha notado a presença de Kikyou na cidade, mas preferia acreditar que estava louca, que era por causa do seu cansaço.
- Pequena, você está bem? Você está pálida. – disse Mika segurando Kagome pelos ombros.
- Tudo bem, estou bem, Mika, obrigada. – disse Kagome balançando a cabeça.
A garota tinha a sensação que a qualquer momento desmaiaria. Takeshi tinha razão, ela sentiria dor, sentiria vontade de parar, mas conseguia sentir melhoras, mesmo que mínimas, ela queria descansar naquele pouco tempo que tinha, não encontrar Kikyou. Não, ela não estava pronta para aquele encontro, se tivesse que lutar por sua vida não conseguiria, perderia sem sequer ter a chance. E se algo acontecesse com Inuyasha? Não, ainda na era hora. Kikyou não poderia ter vindo ainda.
- Tem certeza? – disse Mika.
- Tenho. – mentiu Kagome que logo se apoiou na mesa e levantou-se. Ela sentiu o mundo girar, mas apenas sorriu para Mika e saiu andando.
O caminho da mesa até a porta parecia interminável, a sensação que tinha era que quanto mais andava, mais longe a porta estava. Apoiou-se na parede quando chegou até a porta, sua mão tremia, ela não podia mostrar-se daquele jeito para Kikyou. Ela não faria nada, precisava acreditar na mulher que vira como mãe a vida inteira, Kikyou jamais lhe machucaria; e pensando nisso Kagome respirou fundo e abriu a porta.
Kikyou abriu um sorriso ao vê-la e antes que a garota pudesse entender o que acontecia, Kagome já se vira no meio dos braços de Kikyou. Ela estava abrançando-a.
- Então você está bem mesmo. – ela disse.
Kagome que até então se mantinha rígida nos braços da mulher, relaxou. Aquela era a Kikyou que ela conhecia, como poderia ter dado ouvido a um bando de yokais e ignorado tudo o que vivera até então ao lado dela? Não importava o que dissessem, Kikyou era como sua mãe e isso nunca mudaria.
- Fiquei tão preocupada. – continuou Kikyou.
- Eu estou bem, - disse Kagome. – obrigada por vir.
- Porque está agradecendo? – exclamou Kikyou indignada.
Kagome sentiu seus olhos enchendo-se de lágrimas, estava se sentindo tão sozinha e confusa nos últimos dias. Ela realmente chegara a acreditar que tinha sido abandonada por todas as outras, que os anjos a rejeitariam e que ela seria obrigada a começar do 0 de novo, mas Kikyou estar ali era prova de que estava errada. Era prova de ainda existia lugar no mundo para ela.
Kikyou soltou Kagome e a encarou.
- Porque está chorando? – perguntou.
- Eu só estou cansada. – disse Kagome.
- Precisamos conversar, Kagome. – disse Kikyou e sua feição agora estava séria.
- Imaginei que viria para isso.
Kikyou sorriu e acompanhou Kagome, as duas saíram e sentaram no jardim. Kagome olhou para o céu e fechou os olhos graças à claridade.
- Alguém acreditou mesmo que você era minha mãe? – disse sorrindo.
- Bom, parece que sim, acho que estou ficando velha. – disse Kikyou.
- É, claro. – disse Kagome sorrindo.
Kikyou não era nova, mas estava longe de aparentar ser mãe de uma garota da idade de Kagome. Ela era mais alta e suas feições eram mais adultas, cabelo negro, liso e comprido parecia querer sempre cobrir seu rosto, mas mesmo assim os olhos verdes tinham destaque. Qualquer um não daria mais do que 25 anos para ela.
- Kagome, sabe que o que fez foi irracional, não sabe? – disse Kikyou indo direto ao assunto.
- Foi? – disse Kagome. – Você sempre me ensinou que quando recebemos uma missão devemos levá-la até o fim, não importando as conseqüências. No momento que você decretou a minha missão o Inuyasha tornou-se meu e nenhum outro anjo teria o direito de atacá-lo. Eu protegi minha missão.
- Não, você protegeu um hanyou. – disse Kikyou, mas sua voz estava longe de ser dura.
- E o que há de errado nisso? – questionou Kagome voltando-se agora para Kikyou e encarando-a. – Ou melhor, o que o Inuyasha fez para merecer morrer?
Kikyou suspirou.
- Ele nasceu. – disse a mulher. – No nosso mundo isso já é motivo o bastante.
- Não, não é! – retrucou Kagome. – Por que me mandou para cá e não falou para eu ataca-lo logo de uma vez? Por que ficou enrolando e falando para eu esperar? Você me conhece, Kikyou, você sabia que eu acabaria descobrindo que ele não é um maníaco.
- E foi por te conhecer que escolhi você para essa missão, Kagome. – disse Kikyou. – Você acabou de me provar isso.
- Do que está falando? – disse Kagome.
- Você é a única em que confio, a única que sei que ouviu tudo o que eu disse e que sabe como agir, te garanto que nenhuma das outras colocaria a vida em risco para proteger um yokai, mas você lembrou do que eu falei. "Sua missão é como sua vida, apenas você pode ter controle sobre ela". O que aconteceu aqui teve um significado, Kagome. É a prova de que escolhi a pessoa certa para essa missão.
- Está querendo dizer que também existe algum plano maluco para mim? – disse Kagome.
- Não há nenhum plano, Kagome. – disse Kikyou. – As coisas são como elas são, é seu destino.
- Pare de falar em códigos comigo! – retrucou Kagome. – Se sabia que eu o defenderia, significa que sabia que o atacariam!
Kikyou não respondeu.
- Eu quero respostar, Kikyou. Estou cansada de todos sempre resolverem que minha vida tem algum significado maior, enquanto eu sequer sei de onde vim. Se têm algum plano genial para me matar, ao menos me deixe saber. – disse Kagome.
- Porque eu tentaria te matar? – disse Kikyou indignada.
- Me avisar que atacariam o Inuyasha seria uma maneira de evitar tudo isso! – disse Kagome irritada. – Sabia que eu morri? Morri porque vocês começaram a me atacar, começaram a me matar, me rejeitar. E você sequer impediu, se não fossem yokais aos quais você me ensinou desde sempre a odiar, eu ainda estaria morta.
- Você andou conversando com o Sesshoumaru. – disse Kikyou cerrando os olhos.
- É o que a gente faz quando alguém nos salva! – retrucou Kagome. – Eu confio em você, Kikyou, de verdade, mas eu preciso saber o que está acontecendo.
- Se confia em mim, não precisa da verdade. – disse Kikyou.
- Isso é estúpido. – disse Kagome revirando os olhos. – O que uma coisa tem a ver com a outra? É a minha vida, você não pode brincar com ela como bem entende!
- E desde quando a vida é sua? – disse Kikyou.
- Desde que precisei me afogar em sangue para poder viver. – disse Kagome. – Você não faz idéia do que passei sozinha aqui, do medo que senti de morrer.
- Se arrepende de alguma coisa?
- Nunca. Se nada disso tivesse acontecido eu continuaria cega, continuaria achando que o que fazemos é certo, quem nos deu o direito de matar os outros? Isso tudo é uma loucura, Kikyou, nem você sabe o que somos!
- Se não se arrepende, não reclame. – disse Kikyou.
- Não estou reclamando, estou querendo respostas! Durante minha vida inteira eu ouvi o que você disse e tive isso como regra e no fim o que tive como recompensa foi a morte. Eu esperei de verdade que você impedisse tudo isso, mas você só assistiu.
- Já disse, sua missão faz parte do seu destino.
- Destino? Que droga é essa? – disse Kagome. – De onde isso saiu? Quem disse que eu nasci para isso?
- Kagome, você é uma de nós, a marca em suas costas prova isso.
- É só uma marca estúpida! – retrucou Kagome. Sua cabeça começava a doer.
- Sim, pode ser, - disse Kikyou. – mas ela ainda prova que tudo o que está acontecendo com você está certo.
- Você não vai me dizer mesmo o que está acontecendo, não é? – disse Kagome.
- A única opção que tenho para te oferecer é confiar em mim. – disse Kikyou.
- E isso é o bastante?
- Sempre foi. – disse Kikyou que logo olhou ao redor. – Acho que temos visitas.
Kagome cerrou os olhos.
- Você não vai fazer nada, não é?
- Sua missão. – disse Kikyou.
- Isso não significou muita coisa quando o atacaram pela primeira vez. – retrucou Kagome.
- Você está bem protetora, não? – disse Kikyou.
Kagome não respondeu, aquela conversava estava deixando-a com dor de cabeça e encontrar Inuyasha era o que menos queria naquele momento. Ele certamente estava sendo atraído até lá por causa da presença de Kikyou, a presença dela era muito mais forte do que a sua própria, era quase hipnotizando para os yokais. Inuyasha não teria chances contra ela caso ela tentasse fazer qualquer coisa que fosse.
- Será que ele está vindo atrás de mim? – continuou Kikyou.
- Claro. – disse Kagome achando a mudança repentina no tom de voz da mulher suspeito.
As duas ficaram em silêncio, esperando que o hanyou chegasse. Ele realmente não estava longe, estava dentro do hospital, não demoraria nada até encontrá-las, a atração agiria como um imã atraindo-o para perto.
Inuyasha olhou para o banco do jardim e sentiu como se seu corpo o puxasse para lá, ele tinha certeza que o outro anjo estava lá com Kagome e tinha sensação que algo estava errado, ele sentira o pavor da garota um pouco antes, mesmo que agora estivesse mais calma, algo ainda estava fora do lugar. Sabia que não deveria estar ali, mas quando dera por si já estava em frente ao hospital. A atração era muito mais forte quando dois anjos estavam juntos, ao menos foi o que ele pensou. Hesitou em caminhar até as duas, mas viu Kagome levantando-se e novamente sem pensar andou em direção ao banco.
- Você está bem? – disse segurando-a pelo ombro, ela parecia prestes a cair.
Kagome fechou a cara.
- O que você está fazendo aqui?
- Não sei. – confessou Inuyasha.
- Você veio por mim. – disse Kikyou levantando-se e encarando o hanyou.
Inuyasha desviou os olhos de Kagome e encarou Kikyou. Ela era maravilhosa. Era como se ao redor do seu corpo existisse uma aura que o atraía, que o convidava para chegar mais perto, mas era diferente do que sentia quando estava com Kagome. Ele não sabia explicar exatamente o porquê, mas sabia que era. Sentiu uma pontada em sua cabeça, ela estava começando a doer. Aquele rosto não lhe era estranho.
- Kikyou, acho que já conversamos o bastante por hoje. – disse Kagome olhando a mulher de maneira desconfiada.
- Você é o Inuyasha, não é? – disse Kikyou ignorando completamente Kagome.
- E você é um anjo. – retrucou o hanyou com os olhos cerrados. Havia algo de errado com aquela mulher.
- Pode me chamar de Kikyou. – disse sorrindo.
Inuyasha levou uma mão até a cabeça, a dor estava mais forte.
- Hei, o que está acontecendo? – disse Kagome olhando preocupada para o hanyou.
- Nada. – disse o hanyou. – É só a minha cabeça.
Kagome olhou para Kikyou no mesmo instante, ela deu nos ombros e disse:
- Não me olhe assim. Já disse, a missão é sua, não vou encostar nele.
- Você já teve alta, não foi? O que faz aqui? – insistiu Kagome.
- Eu percebi que tinha um anjo na cidade, o Miroku falou para eu deixar para lá, mas eu não consegui. Eu sabia que você também tinha percebido e que estava preocupada com isso, mais cedo você estava tão desesperada que estava me dando dor de cabeça.
- Ela estava desesperada, é? – disse Kikyou sorrindo. – E como você sabia disso?
- Eu apenas sei. – disse Inuyasha.
- E foi por isso que você veio? – disse Kikyou.
- E por que mais eu viria? – disse Inuyasha. Sua cabeça parecia prestes a explodir.
- Bem, podemos dizer que eu exerço uma atração bem forte em vocês. – disse Kikyou.
- Kikyou, o que você está querendo? – disse Kagome. Desde quando Kikyou conversava de maneira tão casual com hanyous?
- Realmente, você exerce. – disse Inuyasha.
Kikyou sorriu e caminhou até o hanyou, olhou-o quase devotamente e disse:
- Você se tornou um homem muito bonito, Inuyasha.
Inuyasha deu um passo para trás. Aquilo estava ficando um pouco mais estranho do que ele esperava.
- Kikyou. – repetiu Kagome tentando chamar a atenção da mulher para si.
- Isso é motivo de orgulho. – continuou Kikyou.
Inuyasha cerrou os olhos.
- É uma pena que eu não possa dizer o mesmo, - disse. – que espécie de coisa é você, que deixa a Kagome sozinha aqui, enquanto vocês a matam?
Kikyou que erguia a mão para tocar o rosto do hanyou, deixou-a cair.
- Vocês estão realmente próximos, não? – disse com um sorriso estranho no rosto.
- Não! – disseram os dois ao mesmo tempo e Inuyasha continuou. – Não disse isso por que era a Kagome lá, poderia ser qualquer outra pessoa. O que vocês fizeram foi doente.
- Tudo na vida tem um motivo e uma explicação, Inuyasha. Quando a hora certa chegar você vai entender. – disse Kikyou.
- Estou cansado de todos vocês ficarem falando sobre hora certa, - disse Inuyasha. – desde quando preciso de hora certa para saber por que um bando de loucas deixa uma delas morrer sozinha e claro, por que querem me matar?!
- Se quisesse você morto, você certamente já estaria morto. – disse Kikyou. – Deveria ser grato pela vida que tem.
- Desculpe por não amar minha vida ridícula. – retrucou Inuyasha.
Kagome olhou para Kikyou, porque ela estava falando como Sesshoumaru? Era óbvio que eles se odiavam, então qual o sentido deles insistirem nas mesmas histórias malucas? O que os dois queriam de Inuyasha?
- É melhor ter uma vida ridícula do que não ter nenhuma, não acha, Inuyasha? – disse Kikyou sorrindo.
Inuyasha não respondeu. Ele sabia quem Kikyou era, era a mais poderosa, a líder ou qualquer besteira do tipo, o que aquela mulher queria com ele? Por que estava nítido seu interesse nele. Ela encarara Kagome desde que ele chegara e isso estava irritando-o um pouco, aquele interesse todo de um anjo tão poderoso nele estava deixando-o inquieto. Isso sem contar a cabeça explodindo.
- Continue cumprindo sua missão, Kagome. – disse Kikyou.
Kagome olhou para a mulher e não entendeu o significado daquela frase, existia algo escondido ali, algo muito maior do que ela deixava transparecer.
- Você não precisa pedir, embora não dê respostas para as minhas perguntas eu sei o que tenho de fazer. – retrucou.
- Espero que saiba mesmo. – disse Kikyou. – Sua missão é algo que só você pode fazer.
- Minhas missões sempre são algo que só eu posso fazer, não é mesmo?
Kikyou sorriu e encarou Kagome.
- Essa é especial. – disse e voltou seus olhos para Inuyasha. – Cuide da sua cabeça e não se preocupe tanto com a Kagome, eu mesma a treinei, posso garantir que ela não corre risco algum.
- Se tiver algum yokai por perto para poder revivê-la quando vocês resolverem que ela merece morrer, realmente, ela não corre risco nenhum. – retrucou Inuyasha.
- Você não deveria falar sobre o que não sabe. – disse Kikyou e sua voz soava bondosa. – Cuidem-se os dois, logo nos encontraremos de novo.
- Eu espero que não. – resmungou Inuyasha para si mesmo.
Kikyou ouviu o comentário do hanyou, mas ignorou e continuou a andar para fora do hospital. Kagome jogou seu corpo pesadamente no banco novamente, Inuyasha imitou o movimento da garota e tombou a cabeça para trás, fechando os olhos.
- O que achou da atração da Kikyou? – disse Kagome também com os olhos fechados. – É incrível, não é?
- É sim. – respondeu Inuyasha.
- Então veio mesmo atrás dela. – disse Kagome.
- Não, a Sango teve outro ataque e o Miroku soltou uma de suas frases de efeito, não tive muita escolha alem de vir atrás de você. – disse Inuyasha. – E você sabe que não pode se descontrolar desse jeito, me afeta.
- Veio aqui só para me dizer isso? – disse Kagome levantando-se. – Desculpe por te preocupar, mas as coisas também estão complicadas pra mim. Preciso voltar para a fisioterapia agora.
Inuyasha que até então tinha a cabeça jogada para trás, sentou-se direito e segurou Kagome pelo braço, impedindo-a de continuar.
- Não, eu não vim aqui só por isso. Eu quero te perguntar uma coisa.
Kagome olhou para o hanyou e viu aquele brilho dourado que sempre a paralisava, desviou os olhos e suspirou.
- O que você quer de mim agora?
- Eu estive pensando muito, - disse Inuyasha. – eu preciso saber porque você me salvou.
- Já expliquei isso, você é minha missão. – disse Kagome.
- Eu já ouvi essa explicação e não é isso que eu quero saber... Você tinha uma escolha, não tinha? Você poderia me deixar morrer. – continuou Inuyasha.
- Sim, eu poderia. – disse Kagome ainda olhando o chão.
- Se poderia, por que me salvou? Se não existisse missão, ligação e todas essas drogas que estão ao nosso redor, ainda assim você me salvaria?
A garota olhou de novo para Inuyasha, o brilho continuava lá, ela respirou fundo. Ele estava fazendo perguntas complicadas demais.
- Para que você quer saber isso? – disse. – Você está vivo, não está? Não é isso que importa?
- Não agora, - disse Inuyasha que ficou em silêncio alguns minutos, parecendo encontrar as palavras certas. – isso não é o mais importante pra mim agora. Eu sei que provavelmente soarei infantil falando isso, mas não há outra maneira de falar isso, porque eu não te amo. Não, não é amor, mas eu gosto de você Kagome. De algum jeito estranho, eu gosto de você e eu preciso saber se você me salvou por obrigação ou porque se importa comigo.
Kagome travou. Ainda fixava os olhos de Inuyasha e provavelmente era esse o motivo de estar paralisada, não estava esperando por aquilo e então Inuyasha sorriu, o sorriso mais lindo que Kagome já vira em sua vida.
- Sabia que você surtaria. – ele disse se divertindo com a reação dela.
- Isso não é brincadeira que se faça. – disse Kagome irritada, tentando se desvencilhar do hanyou.
Inuyasha ficou em pé e curvou seu corpo, até seu rosto estar quase colado no de Kagome.
- Eu não estou brincando, Kagome. – ele sorriu, seus lábios quase roçavam nos da garota enquanto ele falava. – E então, o que me diz?
A mente de Kagome sumiu por alguns instantes. E foi o bastante para Inuyasha se aproveitar.
Olá queridas, como estão?
Mais uma vez sumi mais tempo do que esperava, confesso que tive uma crise de criatividade, escrevi três páginas logo depois que postei aqui e depois disso nada mais funcionava. Não conseguia de jeito nenhum escrever nada, então, esse final de semana me comovi com as reviews e lembrei como é terrível esperar para ler algo e me esforcei. São 15 páginas no word escritas praticamente em um dia, acho que minha criatividade voltou, né? XD Finalmente a Kikyou apareceu e o Inuyasha entendeu como se sente, estamos chegando lá nas explicações, heim? Se tudo correr direitinho o próximo capítulo será sobre o passado do Sesshoumaru e MUITA coisa vai ser explicada, estou louca para escrever 8D Amanhã tenho prova no cursinho e estou acho, acho que é por isso que não passei em nada, né? XD
Agradeço sempre quem me acompanha e hoje vou responder os comentários, faz tempo que não dou atenção direitinho pra vocês, né?
H, Quinzel: Ooi :D Obrigada pelo apoio, mais um ano de cursinho não vai me matar no final das contas XD Ok, vou explicar sobre Kagome/Inuyasha/Sesshoumaru/Kouga. O que acontece é que a atração da Kagome acontece com todos os yokais, por isso vale para os três, o que torna o Inu e a Kagome mais 'intimos', por assim dizer, é a ligação de sangue. O ponto é que o Inuyasha ia morrer se o Sesshoumaru não desse seu próprio sangue para ele, eu vou explicar isso no próximo capítulo provavelmente, mas não existe uma ligação entre ele e a Kagome, já que o Inuyasha quem recebeu o sangue :) Deu pra entender um pouquinho melhor? Sobre a Rin, hm, a história dela virá junto com o capítulo do passado do Sesshoumaru! Obrigada pela review, querida! :*
Bia. Tsuki: Olá! Sim, estou de volta, ou quase isso, né? xD Fico feliz que tenha gostado do capítulo, escrevi a parte do Inuyasha pensando sobre o que a Kagome significava por ele por causa da sua review, ajudou a entender o porquê dele não querer ela com ninguém? :D Beijão! :*
Maah. Sakura Chinchila: Olha que apareceu *-* Olá querida, fico feliz que tenha voltado, senti falta da sua empolgação com a minha fic ;_; Escrevi esse capítulo só por causa do seu combo de reviews! Espero que goste desse! *-* Beijãão :*
Aricele: Olá! :D Obrigada pelo talentosa XD Eu me esforço para agradar vocês, juro! E sim, ele era necessário ou muita coisa ia ficar jogada no ar! O capítulo está aqui, espero que goste! Beijão :*
E é isso ai, alguma de vocês mora em São Paulo? Se morar, vai entender meu desespero, gente, que calor é esse? Fora a chuva, vou comprar um jet ski! Estou com uma desanimo de ir fazer prova lá na Liberdade amanhã, pegar metrô nesse calor é triste, mas fazer o quê? Estou indo dormir que amanhã o dia começa cedo pra mim, espero que o capítulo esteja bom e desculpem qualquer erro, não revisei pra poder postar ainda hoje pra vocês Mais uma vez, obrigada por me apoiarem e por lerem o que eu escrevo! Beijos :*
