- Eu estive pensando muito, - disse Inuyasha. – eu preciso saber porque você me salvou.

- Já expliquei isso, você é minha missão. – disse Kagome.

- Eu já ouvi essa explicação e não é isso que eu quero saber... Você tinha uma escolha, não tinha? Você poderia me deixar morrer. – continuou Inuyasha.

- Sim, eu poderia. – disse Kagome ainda olhando o chão.

- Se poderia, por que me salvou? Se não existisse missão, ligação e todas essas drogas que estão ao nosso redor, ainda assim você me salvaria?

A garota olhou de novo para Inuyasha, o brilho continuava lá, ela respirou fundo. Ele estava fazendo perguntas complicadas demais.

- Para que você quer saber isso? – disse. – Você está vivo, não está? Não é isso que importa?

- Não agora, - disse Inuyasha que ficou em silêncio alguns minutos, parecendo encontrar as palavras certas. – isso não é o mais importante pra mim agora. Eu sei que provavelmente soarei infantil falando isso, mas não há outra maneira de falar isso, porque eu não te amo. Não, não é amor, mas eu gosto de você Kagome. De algum jeito estranho, eu gosto de você e eu preciso saber se você me salvou por obrigação ou porque se importa comigo.

Kagome travou. Ainda fixava os olhos de Inuyasha e provavelmente era esse o motivo de estar paralisada, não estava esperando por aquilo e então Inuyasha sorriu, o sorriso mais lindo que Kagome já vira em sua vida.

- Sabia que você surtaria. – ele disse se divertindo com a reação dela.

- Isso não é brincadeira que se faça. – disse Kagome irritada, tentando se desvencilhar do hanyou.

Inuyasha ficou em pé e curvou seu corpo, até seu rosto estar quase colado no de Kagome.

- Eu não estou brincando, Kagome. – ele sorriu, seus lábios quase roçavam nos da garota enquanto ele falava. – E então, o que me diz?

A mente de Kagome sumiu por alguns instantes. E foi o bastante para Inuyasha se aproveitar.

Capítulo 18 – A decisão de Kagome.


Kagome não teve tempo sequer de fechar os olhos, quando percebeu Inuyasha já estava lhe beijando. E ao invés de fechá-los, ela só pode arregalar ainda mais os olhos. Estava surpresa e confusa, sem saber o que fazer. Não fazia idéia do que estava acontecendo, Inuyasha tinha se declarado ou só estava brincando? Ele estava beijando-a por causa do instinto ou porque realmente a queria? Sentia sua cabeça tentando raciocinar, mas todo o resto do seu corpo lutava contra aquela razão, seu coração batia descompassadamente em seu peito, tinha medo que se ele se aproximasse demais pudesse perceber o que seu beijo estava causando-lhe.

Percebendo a falta de resposta de Kagome, Inuyasha afastou-se alguns centímetros e encostou a própria testa na da garota..

- Desculpe por isso. – sussurrou

- O que está acontecendo com você, Inuyasha? – disse Kagome.

- Eu não sei, - disse o hanyou sinceramente. – mas eu estou cansado de lutar contra o que eu quero.

- Você ao menos sabe o que quer? – disse Kagome. – O que você realmente quer.

Inuyasha afastou-se de Kagome e voltou a sentar no banco.

- E isso faz diferença? – perguntou o hanyou agora olhando para o movimento das nuvens no céu.

Kagome mordeu o lábio inferior.

- Claro que faz. - disse encarando-o.

- Por quê? – disse Inuyasha voltando seus olhos para Kagome.

- Bem, por que faz diferença se eu te salvei só por instinto ou não? – disse Kagome.

- Eu já disse, não me faça repetir. – disse Inuyasha.

Kagome suspirou e sentou-se ao lado do hanyou, ele não se virou para encará-la, apenas voltou a encarar as nuvens.

- O que vamos fazer? – disse Kagome.

- Sobre o que você está falando agora? – retrucou Inuyasha. Ele parecia um pouco mais indiferente do que estava há alguns minutos, Kagome não pôde deixar de notar.

- Sobre tudo isso que está acontecendo, - disse Kagome agora também olhando o céu. – entre a gente eu quero dizer, eu já te falei como eu me sinto, expliquei como é doloroso para mim e até pedi para que você se afastasse, e então, no dia seguinte você vem com essa bomba, dizendo que gosta de mim. Eu não sei o que fazer, não sei o que pensar, não sei se consigo lidar com isso agora.

- Por que você precisa complicar tudo sempre? – disse Inuyasha. – Eu não estou te pedindo em casamento, eu só queria que você entendesse que eu não quero ser para sempre um fardo na sua vida, aquela pessoa que faz com que você lembre todas as merdas que você fez. Eu quero você por perto, na verdade, eu descobri que preciso de você ao meu lado, só assim eu me sinto menos miserável, menos sozinho. Desculpa se estou sendo egoísta, se estou forçando a minha presença e te fazendo sofrer, mas é que eu não consigo entender como podemos ter pensamentos tão diferentes, como para você eu sou um peso e para mim você é um alivio?

Kagome virou o corpo todo para o lado e encarou Inuyasha. Sabia que sua expressão provavelmente era a mais perplexa possível, desde quando aquele hanyou rabugento tinha se tornado tão mais maduro do que ela mesma? Kagome sentiu como se não pudesse agüentar a vergonha que sentia de si mesma; sempre se escondendo, sempre evitando as pessoas por medo de se magoar. E ali estava Inuyasha, falando tudo o que estava em sua cabeça sem medo algum, de alguma maneira ele parecia outra pessoa. Uma pessoa bem melhor do que ela mesma era.

O suspiro de Inuyasha trouxe Kagome de volta a terra, ela balançou a cabeça tentando ignorar seus pensamentos e piscou algumas vezes.

- Acho que eu entendi, - disse Inuyasha levantando-se. – esquece tudo o que eu te falei. Eu vou respeitar sua vontade, vou te deixar em paz.

Como se alguém entrasse na mente de Kagome, ela sentiu seu corpo agir involuntariamente, agora era ela quem segurava Inuyasha pelo braço, impedindo-o de ir embora. Ela não o encarava, não tinha coragem para isso.

- Desculpa, Inuyasha, - ela começou encarando o chão. – eu... Eu não sei o que dizer, eu sou tão infantil tentando fugir dos meus problemas, eu não sou como você, eu não consigo olhar para mim mesma e encontrar as respostas para as minhas perguntas. Eu não sei mais o que fazer ou em quem confiar, isso tudo é tão cansativo, eu estou cansada, sabe? Cansada de precisar sempre contar só comigo mesma.

Inuyasha ajoelhou-se em frente à Kagome e ergueu seu rosto, fazendo-a encará-lo. Colocou o cabelo negro da garota, que insistia em não ficar no lugar, atrás da orelha.

- Você está enganada, - disse Inuyasha. – eu não acho as respostas quando olho para mim mesmo. É isso que você não está entende, Kagome, é só quando eu estou com você que consigo me encarar, porque assim como você diz que eu sou um espelho para você, você é um espelho para mim. Eu só acho as respostas quando olho para você.

Novamente a sensação de ser uma criança atingiu Kagome, Inuyasha estava mostrando-se tão mais consciente do que ela, tão mais adulto, talvez por que ele tivesse mais controle dos seus sentimentos, talvez por que pudesse ser livre. Kagome não pôde deixar de se odiar por alguns instantes, odiar o que era e a incapacidade de amar que ela tinha, ele tinha razão, ela complicava tudo, mas isso fazia parte dela. Ela era complicada. Suspirou, sabia que se tentasse falar iria gaguejar.

Inuyasha que continuava a encará-la sorriu, sabia que tinha deixado-a sem palavras. Conseguia sentir isso.

- E sabe? – continuou. – É meio injusto você falar que não tem em quem confiar. Se a pessoa que apanhou feito uma condenada só pra te trazer de volta a vida não é de confiança, não sei mais quem pode ser.

- Isso é algum código para dizer que posso confiar em você? – disse Kagome sorrindo.

- Talvez. O que você acha? – disse Inuyasha.

- Acho que você esqueceu o porquê de eu estar morta, não é? – retrucou Kagome brincando com aquela situação – Não fez mais do que a sua obrigação.

- Isso é uma intimação para te proteger e te salvar sempre? – disse Inuyasha.

- Talvez. O que você acha? – disse Kagome.

- Acho que posso conviver com isso. – respondeu Inuyasha.

Kagome suspirou novamente. Aquilo não estava certo, ela não tinha tempo para ficar ali dando uma de adolescente apaixonada com o hanyou que estava predestinado a morrer em suas mãos. Sentiu seu estomago embrulhar quando pensou naquilo, fazia tempo que não via Inuyasha como uma vítima, embora sempre dissesse que ele era sua missão há muito havia esquecido que missão exatamente era aquela.

Inuyasha revirou os olhos e voltou a se sentar. Kagome o acompanhou com os olhos curiosamente, mas não disse nada. Acabara de descobrir que não sabia até onde poderia ir com o hanyou, não sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Ao perceber o silêncio da garota, Inuyasha cruzou os braços.

- Você é idiota ou o quê? – disse irritado.

- Ahn? O que foi agora? – disse Kagome encarando-o completamente confusa. Será que Inuyasha sofria de algum transtorno bipolar e ela não sabia?

- Esqueça sua missão! – disse Inuyasha revirando os olhos. – Esqueça essa porcaria de uma vez por todas, você não pode me matar!

- De novo essa conversa, Inuyasha? – disse Kagome de maneira cansada. Ela realmente precisava voltar para a fisioterapia.

- Agora é diferente, esqueceu do seu sonho idiota? Se você me matar, vai morrer e a não ser que sua missão seja suicida, eu não acho que precise continuar com isso!

- Ah, agora resolveu acreditar no meu sonho?

- Não acredito nele ainda, sei que você não vai me matar! – disse Inuyasha com convicção. – Mas não sabemos o que ele significa, não sabemos o que acontece se um de nós morre e eu não estou disposto a descobrir.

- Eu não precisar te matar não muda muito as coisas entre nós. – disse Kagome.

- E existe algo entre nós? – retrucou Inuyasha.

- E você me pergunta? – disse Kagome revirando os olhos. – Achei que depois de toda essa declaração você saberia me dar uma resposta!

- Miroku tinha razão, sabe? Eu fiquei frouxo demais. – resmungou Inuyasha. – Eu não estava me declarando, não ouviu que não te amo?!

Kagome fechou os olhos e respirou fundo.

- Então o que estamos fazendo? – disse Kagome. – O que é isso que estamos tentando resolver?

- Eu preciso estar perdidamente apaixonado para querer ficar ao seu lado? – disse Inuyasha.

- Não foi isso que eu disse.

- Então o que é? O que você quer de mim?

- Eu nunca quis nada de você, Inuyasha...

- Você não consegue nem ao menos se entender, Kagome, - disse Inuyasha. – se não quer nada de mim por que me impediu de ir embora?

- Por que é solitário quando você não está por perto. – disse Kagome.

- Se é solitário, por que fica fugindo de mim?

- Por que eu tenho medo. Eu morro de medo de acabar precisando de você, de acabar descobrindo que eu quero ser capaz de gostar de você e não poder, de descobrir um dia que eu realmente preciso te matar. Eu quero fugir de tudo isso, mas você está sempre me jogando contra a parede, me fazendo encarar meus medos. Isso é cruel, sabe?

Inuyasha suspirou e ficou em silêncio.

- Desculpe, eu não quis dizer que você é cruel... – disse Kagome percebendo o que acabara de falar.

- Você acha que seria mais feliz indo embora? – disse Inuyasha e ele encarava o chão.

Dessa vez quem ficou em silêncio foi Kagome, ela encostou a cabeça no ombro do hanyou e colocou as mãos no colo.

- Provavelmente não. – sussurrou. – Depois de tudo o que passamos, provavelmente eu não seria feliz em um lugar longe de você, mas mesmo que eu fique e a gente resolva o que há entre nós, eu não vou ser feliz. Você é um hanyou e eu um anjo, o que estamos fazendo é errado.

- Então acha que jamais será feliz de novo? – disse Inuyasha.

- E alguma vez eu já fui? – disse Kagome suspirando. – Preciso voltar lá para dentro, meu tempo livre está acabando.

- Precisa mesmo ir? – disse Inuyasha. – Não pode ficar só mais um pouco aqui? Eu não sei o que você vai resolver da sua vida depois de hoje...

- Eu preciso pensar sobre a proposta do Sesshoumaru, essa é minha prioridade. – disse Kagome. – Depois disso podemos discutir sobre nós.

- Porque precisamos discutir isso? Não seria mais simples apenas fazer o que temos vontade? Você pode tentar me esconder, mas eu sei que assim como eu quero estar com você, você também quer estar comigo. Isso não é o bastante? – disse Inuyasha.

- Provavelmente é, – confessou Kagome. – mas não é hora para fazermos o que bem entendemos.

- Ok, não irei te forçar a nada. Vou te deixar em paz para pensar... – disse Inuyasha.

Kagome segurou a mão de Inuyasha, antes que ele pudesse tentar levantar, ainda tinha a cabeça apoiada no ombro dele.

- Pode ficar um pouco comigo? – disse.

Inuyasha soltou um riso irônico.

- Você não sabe mesmo o que quer da vida, heim?

Kagome não respondeu, mas não precisava, sabia que Inuyasha estava certo quanto àquilo. Ela não entendia ao certo o que se passava em sua mente naquele momento, mas apesar de tudo, a sensação de poder contar com Inuyasha acalmava-lhe. Tinha de confessar que aquele novo Inuyasha a deixava sem palavras e que morrera de ciúmes daquele tratamento que Kikyou dera a ele, ela desprezava yokais, porque com Inuyasha seria diferente? Suspirou irritada com aquele pensamento. Não reconhecia aquela mulher que falara com Inuyasha há poucos minutos e isso a incomodava, fazia com que a proposta de Sesshoumaru lhe parecesse até mesmo aceitável.

- Você não pára de pensar um minuto sequer. – comentou Inuyasha.

- Bem que eu queria. – disse Kagome sorrindo.

- Imagino que por estar perdida no meio de todos esses pensamentos não tenha notado que a Sango está nos espiando há muito tempo. – disse Inuyasha.

Kagome soltou a mão de Inuyasha e usou-a para cobrir o rosto. Não sabia exatamente o porquê, mas estava com vergonha do que Sango poderia ter visto.

- Err, oi. – disse Sango saindo de trás de uma árvore.

- Bom dia, Sango. – disse Inuyasha em um tom pouco amigável. – Eu achei que você sairia sozinha, mas mesmo depois de pararmos de conversar, ficou escondida.

Sango mordeu o lábio. Como tinha sido capaz de esquecer que os dois poderiam notá-la facilmente, mesmo que se escondesse?

- Desculpem. – ela disse.

- O que está fazendo aqui? – disse Kagome tirando a mão de parte do rosto. – Você não disse que precisava estudar?

- Ah, bem, sim. Eu preciso estudar, mas achei que você estaria se sentindo sozinha e resolvi dar uma passada rápida para te dar um oi ou quem sabe almoçar com você. – explicou Sango enquanto fazia círculos no chão com um dos pés. – Mas ai eu vi uma moça muito parecida com você e lembrei que o Inuyasha tinha comentado sobre um anjo que não o deixara dormir e resolvi segui-la, mas ela notou logo e surtou falando para eu vir para o jardim, que você estava esperando por mim.

Kagome tirou a mão do rosto e virou-se para Inuyasha, com cara de poucos amigos.

- Um anjo que não te deixa dormir, é? – disse.

Sango escondeu o riso com uma tosse muito falsa e soltou um "desculpa" logo em seguida. Era nítido que Kagome estava com ciúmes, até Inuyasha parecera notar, já que revirou os olhos e cruzou os braços.

- É, Kagome. Eu não consegui dormir essa noite. – disse.

Kagome imitou o movimento do hanyou e cruzou os braços também.

- Era óbvio que isso ia acontecer, a Kikyou é muito poderosa, um hanyou feito você não conseguiria evitar ficar louco por causa da atração que ela causa.

Sango controlou a vontade de rir e se concentrou naquele nome. Então, aquela mulher de olhos frios era Kikyou, a suposta mãe da Kagome, a louca que tentara mata-la?

- Você poderia ser menos mal agradecida! Eu não dormi porque fiquei achando que viriam te matar e como você está mancando por ai, achei que não teria chances e ia acabar matando nós dois. E se quer saber, a tal da Kikyou é realmente bem melhor que você, porque não tem corpo de adulto igual ela?

Kagome se afastou de Inuyasha e olhou para o próprio peito, cerrou os olhos e deu nos ombros.

- Vocês homens se preocupam sempre com as coisas erradas.

- Realmente! – disse Sango indignada, se enfiando na conversa. – Como você pode se preocupar com o corpo da Kikyou? Ela é uma maníaca, que atacou você e quase matou a Kagome!

- Bem, tecnicamente falando, eu não quase morri. Eu morri. – disse Kagome sensatamente. – Mas a Kikyou não tem nada a ver com isso.

- Eu só disse que a Kagome poderia aparentar um pouco mais de idade, - disse Inuyasha emburrado, - às vezes me sinto meio pedófilo, isso é irritante.

Sango balançou a cabeça negativamente e sussurrou um "homens" de maneira irritada, Kagome deu um tapa no braço de Inuyasha e resmungou:

- Vá atrás dela então, ela também parece bem interessada em você mesmo.

- Kagome, não comece a ficar de tpm infinitamente igual a Sango. Você tem razão quanto à Kikyou, ela é incrível e dá para perceber a diferença de poder entre vocês só de olhar, mas o que eu senti quando a encontrei é completamente diferente do que senti com você, caso não tenha notado ela me deu dor de cabeça.

- Você está mentindo. – disse Kagome revirando os olhos. – Mesmo que você queira que eu acredite nisso, é impossível que você não tenha se sentido atraído pela Kikyou. Todos se sentem, até mesmo humanos.

Inuyasha deu nos ombros.

- Não estou, eu não mentiria para te agradar. Não disse que ela tem mais corpo que você? Então. – disse. – Em momento algum eu senti vontade de estar com ela, não passou nem perto do que eu senti com você.

- Hei, Kagome, você não acha que isso pode significar alguma coisa? – disse Sango. – Quero dizer, você disse que a Kikyou demonstrou interesse pelo Inuyasha, não falou?

- Só faltou engoli-lo com os olhos. – disse Kagome.

Sango revirou os olhos e soltou uma risada.

- Tá, não era isso que eu queria saber, mas enfim... Ela tem interesse no Inuyasha, mas o Inuyasha não parece ter interesse nenhuma nela, mas sim em você. Você veio para cá por que ela te mandou para matá-lo. Não acha tudo muito estranho?

- Eu prefiro não saber o que aquela mulher quer de mim. – disse Inuyasha.

- Talvez ela queira você. – disse Sango.

- Não. – protestou Kagome. – Não mesmo, a Kikyou e um hanyou juntos? De jeito nenhum que isso aconteceria.

- Você diz como se eu fizesse muita questão de ficar com ela. – resmungou Inuyasha. – Na verdade, a idéia me dá um pouco de nojo.

- Kagome, por que você não pergunta para ela o que está acontecendo? – disse Sango.

- Eu já perguntei, ela disse para eu confiar nela e não me contou mais nada. – disse Kagome deprimida.

- Suspeito. – disse Sango mais para si mesma do que para os outros.

- Eu sei que é, mas não tenho tempo para isso. – disse Kagome levantando-se. – Eu realmente preciso ir, já passou do meu horário, em uma semana eu saio daqui e podemos conversar sobre isso com mais calma.

- Uma semana? – disse Sango arqueando a sobrancelha.

- Longa história. – disse Kagome sorrindo. – Bem, obrigada pela visita, Sango.

- Hm, é, de nada. – disse Sango. – Desculpe qualquer coisa e bem, eu preciso pegar uma coisa ali e hm, é, até logo, Inuyasha.

Inuyasha balançou a cabeça negativamente enquanto via Sango se afastando.

- Ela vai se esconder de novo. – disse.

- Eu sei. – disse Kagome. – A história de poder conversar daqui uma semana direito vale para nós também.

- Isso foi um "não me visite, me deixe em paz por uma semana"? – disse Inuyasha arqueando a sobrancelha.

- Bem, - disse Kagome rindo. – foi. Deu para notar?

Inuyasha fez o barulho com o nariz que Kagome sempre ouvia vindo de Sesshoumaru e não pôde deixar de rir sozinha. Eles eram irmãos afinal de contas.

- Já que me rejeitou, posso fazer o que estou com vontade? – disse Inuyasha. – Pense bem, você passará uma longa semana sem me ver.

Kagome riu alto dessa vez.

- Eu acho que posso viver muitíssimo bem uma semana sem você.

Inuyasha levantou-se e deu nos ombros.

- Está bem então, boa sorte na fisioterapia. – disse.

Dessa vez, quem ergueu a sobrancelha foi Kagome, ela encarou Inuyasha e disse:

- Hei, você estava com vontade de ir embora, era isso?

Inuyasha deu um sorriso torto, sem abrir os lábios e disse:

- E se for isso, vai ficar decepcionada?

Kagome deu nos ombros, cruzou os braços e disse, antes de girar nos calcanhares:

- Metido.

Inuyasha segurou Kagome pelo ombro e virou-a para encará-lo. Ela cerrou os olhos, mas antes que pudesse reclamar, Inuyasha estava beijando-a. Novamente. Mas dessa vez ela já esperava por isso e na verdade, até queria. Fechou os olhos e enlaçou o pescoço do hanyou, que ao perceber que dessa vez Kagome retribuía puxou-a para mais perto, segurando-a pela cintura.

Mais uma vez eles se beijavam e como Kagome esperava, era completamente diferente do primeiro beijo que haviam dado em sua casa, onde só existia desejo. Assim como o anterior e o que recebera quando os dois se encontraram no lugar que ela achava ser o céu, era carinhoso. E era tão melhor assim. Antes de Inuyasha, Kagome nunca tinha se sentido daquela maneira, todas as vezes que beijava um yokai era por causa do instinto, ela nunca tivera essa vontade de estar ao lado de alguém, de sentir como se pudesse flutuar de tanta felicidade com apenas um beijo. Sentia-se até mesmo infantil por descobrir tantas emoções e um simples beijo, mas era mais forte do que ela, ela não conseguia controlar, sabia que poderia continuar ali por horas, mas como ela mesma havia dito, não era hora para fazer o que bem entendia.

Para sua surpresa, antes que conseguisse se afastar de Inuyasha, sentiu-o afastando-se primeiro. O hanyou sorriu ao perceber que ela ainda mantinha os olhos fechados, curvou-se e sussurrou no ouvido dela:

- Você pode viver muitíssimo bem sem mim por uma semana depois disso? Eu acho uma semana tempo demais...

Kagome abriu os olhos e encarou Inuyasha por alguns poucos segundos, ele sorriu e virou-se, indo embora.

- Idiota! – resmungou Kagome. – Estava planejando essa saída teatral, né?

Inuyasha apenas acenou com a mão, sem virar-se para encará-la e mandou um tchau. Kagome balançou a cabeça negativamente e resmungou outro "idiota", antes de voltar para dentro do hospital.

Sango acompanhou a volta da garota com os olhos, quando percebeu que ela já sumira, revirou a bolsa atrás do celular e discou o número rapidamente.

- Alô? – disse quando a outra pessoa atendeu.

- Sango? O que foi? – respondeu.

- Preciso falar com você. Agora. – disse Sango. – Pode me encontrar no Café de sempre?

- Aconteceu alguma coisa? Porque toda essa urgência?

- Apenas vá para lá, chego em 10 minutos. Tchau. – disse e desligou o telefone antes de receber qualquer resposta.


Sango estava sentada na mesa do café o qual sempre freqüentava, sua perna estava cruzada e ela batia um dos pés de maneira impaciente. Suspirou apoiando a cabeça na mão.

- Você demorou. – disse cerrando os olhos.

- Desculpe, mas eu não esperava a sua ligação. – explicou-se.

- Você fala como se eu nunca te ligasse, Miroku! – retrucou Sango revirando os olhos.

- E não liga mesmo. – disse Miroku de maneira sensata e arqueou a sobrancelha. – Na verdade, eu nem sabia que você tinha o meu telefone.

- Tá, isso não importa. – disse Sango mudando de assunto.

- Não, nunca importa. – resmungou Miroku mais para si do que para a garota. – E então, o que fez com que você me procurasse.

- Estou preocupada.

- Eu consigo perceber, mas com o que?

- O Inuyasha está gostando da Kagome. - disse Sango mordendo o lábio inferior.

Miroku que até então tinha o corpo tenso na cadeira, relaxou e esparramou-se. Deu um longo suspiro antes de falar.

- Está me dizendo que só notou isso agora?

- Sim, não, quer dizer... – disse Sango confusa. – Hoje sem querer eu vi o Inuyasha se declarando para a Kagome, eu sempre achei que isso era o certo; eles se gostarem, mas as coisas estão estranhas demais, Miroku. A tal da Kikyou é o anjo que está na cidade e parece que ela está louca atrás do Inuyasha e não é para matá-lo.

- Nosso garotão está destruindo corações. – disse Miroku rindo internamente.

- Não é hora para gracinhas, Miroku, eu estou falando sério! – disse Sango irritada.

- Eu sei que está, mas o que podemos fazer? – disse Miroku. – Eu soube que o Inuyasha gostaria da Kagome desde a primeira vez que eu o vi encarando-a e apesar de toda essa loucura que envolve os dois, eu sempre torci por isso. O Inuyasha é o tipo de pessoa que não dá abertura para os outros, ninguém consegue realmente se aproximar, mas veja tudo o que ele fez pela Kagome. Em poucos meses ela conseguiu fazer o que eu tentei a minha vida inteira: fazer o Inuyasha crescer.

- Eu sei, eu sei! – disse Sango balançando a mão de maneira irritada. – Se você visse o Inuyasha falando com a Kagome você não o reconheceria, era quase outra pessoa!

- Então o que está te preocupando nisso tudo? – disse Miroku. – Você é amiga da Kagome, deve saber que ela é exatamente como o Inuyasha. Eles precisam um do outro, embora não tenham percebido isso ainda.

- O Inuyasha já percebeu. – disse Sango. – E eu me preocupo exatamente por isso, eles não podem depender tanto assim um do outro, Miroku. Nós não sabemos quais são os planos da Kikyou e nem o que ela quer do Inuyasha, a Kagome não sabe ainda qual lado ela está. Nada disso vai dar certo.

- Está insinuando que a Kagome poderia matar o Inuyasha? – disse Miroku arqueando a sobrancelha.

- Não sei, ela morreu para proteger a missão. Foi a vida dela que ela jogou fora, a vida do Inuyasha seria tão importante assim?

- Eu vou fingir que você nunca falou isso de uma pessoa que você diz ser amiga, está certo, Sango? – disse Miroku. – Eu sinceramente não sei qual o problema com você, caso não tenha conseguido notar, a vida da Kagome só não teve valor, porque a vida do Inuyasha era mais importante para ela. Ninguém dá a vida por nada, ela valorizava a vida do Inuyasha mais do que a própria. Ela pode falar para todos que foi por causa da missão, mas eu não acredito nisso.

- Você é sonhador demais! – disse Sango. – Você viu o que já aconteceu, anjos são imprevisíveis, eles matam a própria espécie. Eu gosto demais da Kagome, mas eu não sei o que esperar dela, ela não é como a gente.

- Sabe, Sango, eu sempre achei que seu problema era só comigo, - disse Miroku. – que você não confiava em mim por causa de todas as histórias sobre mim que contam na escola, mas eu acho que o seu problema é com você mesma. Você não confia nas pessoas e espera sempre o pior delas, mantém essa pose de "não ligo para nada" por medo dos outros descobrirem como você é solitária, como você pode falar que tem medo do que a sua única amiga de verdade pode fazer pelo fato de ela não ser como você? Eu entendo que não queira confiar em mim, mas julgar a Kagome dessa maneira é cruel demais. Até mesmo para você.

- Você está colocando palavras na minha boca, Miroku, eu não disse nada disso! – disse Sango com o tom de voz um pouco desesperado.

- Dizer que não sabe o que esperar da Kagome por ela não ser humana não soa muito agradável. – disse Miroku. – Na verdade, faz com que você seja falsa não só com a Kagome, mas com todas as outras pessoas que levaram bronca de você por não ligarem para ela.

Sango nunca vira Miroku tão frio com ela, ele parecia até mesmo demonstrar um pouco de repulsa naquela conversa. Chamara o rapaz para conversar porque apesar de tudo, ele sempre fora o mais maduro e sensato, ela achou que ele entenderia sua preocupação, mas a conversa estava tomando outro rumo. Um completamente diferente.

- Eu não sou falsa! – defendeu-se. – E nem solitária e nem espero o pior das pessoas!

- Então porque estamos tendo essa conversa, para começo de história? – disse Miroku. – Para que você me chamou?

- Eu te chamei porque você entenderia o meu medo! – disse Sango. – Por ser o melhor amigo do Inuyasha, conseguiria ver as coisas como eu vejo.

- Você é a melhor amiga da Kagome, - disse Miroku sensatamente. – e isso não fez você enxergar a situação da maneira certa. Parece até mesmo que trocamos de posição, não é?

- Você não se importa com o que vão fazer com o Inuyasha? – disse Sango.

- Ele tem a Kagome, não precisa mais de mim. – disse Miroku. – Ele fez a escolha dele, ele escolheu enfrentar essa maluquice toda de anjos para ficar ao lado dela. E eu acredito que isso já é o bastante para ele ficar bem, eu me preocupo mais com o que vai acontecer com a Kagome. Você não parou para pensar em tudo o que vai acontecer com ela? Ela está presa em um hospital fazendo fisioterapia, tentando ao máximo ficar boa logo para poder se defender das pessoas que virão atrás dela. Porque você sabe, elas virão aos montes, eu tenho certeza que yokais vão aproveitar esse momento de fraqueza para atacá-la, isso sem contar os anjos, a própria família, que vão se voltar contra ela. Posso incluir nessa conta a melhor amiga falsa?

- Eu já disse que não sou falsa!! - disse Sango histérica. Ela parecia prestes a chorar. – Você não viu o que eu vi, não viu aquele anjo e o olhar frio e de ódio que ele tinha. Aquela mulher, a Kikyou, podem chamá-la de anjo, mas para mim, ela mais parecia um demônio. E a Kagome é da mesma raça que ela, como espera que eu lide com isso? Como espera que eu não acredite que um dia a Kagome pode ficar daquele jeito odioso?

- Não, eu não vi o que você viu, mas já vi yokais matarem famílias inteiras e nem por isso eu acreditei que o Inuyasha poderia se transformar naquilo um dia. – disse Miroku. – Você só está tentando justificar seu julgamento.

- Não estou! – retrucou Sango. – Eu só estou com medo do que pode acontecer com eles e com a gente também. O Inuyasha deixou claro que não a ama, repetiu isso um milhão de vezes na conversa, então porque se arriscar desse jeito? Eles não podem ficar juntos, não é isso? Você mesmo disse, a Kagome está frágil e não consegue se defender, então porque agora?

Miroku sorriu de maneira triste.

- Isso não é sobre amor, Sango. É mais do que isso, - disse. – é sobre você ter alguém ao seu lado que te entende, alguém que te faz se sentir bem. Quando você encontra alguém assim e que é capaz de ceder, de aceitar que você faz bem para ela também, o amor é apenas conseqüência e não o motivo.

Sango abaixou os olhos. Sentia como se aquela frase fosse direcionada a ela e não era sobre o pseudo relacionamento deles que ela estava ali para falar. Miroku ao perceber o silêncio da garota continuou:

- Eu sei que não é da Kagome que você tem medo e tenho certeza que quando parar para pensar com calma na situação vai se sentir mal por ter dito tudo isso, você está confusa e assustada por ter encontrado alguém tão poderoso quanto a Kikyou e acabou descontando na pessoa errada. Quando sua consciência pesar, peça desculpas para a Kagome e explique o que aconteceu, vai se sentir melhor.

- Eu não queria parecer falsa. – disse Sango ainda encarando o chão. – eu tentei agir normalmente depois de encontrar aquela coisa, mas eu precisava falar com alguém, por isso te chamei. Só de olhar para ela eu já sentia como se alguém estivesse me esmagando e quando ela falou foi como se toda a alegria que tinha dentro de mim sumisse. Quando pensei que a Kagome pudesse ficar assim eu surtei. Não quero que ela seja uma coisa tão odiosa.

- Imaginei que tivesse sido isso. – disse Miroku voltando ao seu tom de voz habitual. – Você ficou do mesmo jeito quando encontrou Sesshoumaru pela primeira vez, não se lembra disso?

Sango levantou o rosto e encarou Miroku, como ele ainda se lembrava daquilo? Tinha sido na sexta série, por algum motivo estranho Sesshoumaru havia descido da montanha e queria falar com o Inuyasha. A curiosidade de ver o tão conhecido yokai tomou conta dela, mesmo com todos avisando para Sango ficar longe dele, ela não conseguia controlar, sempre fora muito curiosa. Desceu as escadas da escola atrás de Inuyasha, eles nem falavam na época, ele perguntou por que ela estava seguindo-o e ela respondeu apenas que estava indo embora. Ela notou que Inuyasha parecia tão – ou até mesmo mais – curioso do que ela e por isso ignorou-a e continuou seu caminho.

Sango nunca esqueceu o sentimento que brotou em seu peito quando encarou os olhos dourados de Sesshoumaru pela primeira vez - uma mistura de medo e horror - era como se não existisse vida e aquele corpo fosse apenas uma casca, algo sem vida fadado a caminhar nesse mundo. Tropeçou nos próprios pés ao ouvir a voz dele, conseguia ser pior que os olhos. Ela já tinha visto yokais antes, mas nada se comparava com aquilo, era como se o ar ficasse pesado e o mundo todo se encolhesse, com medo da presença de Sesshoumaru. Depois disso, ela surtou e passou a ter medo de Inuyasha, medo esse que só sumiu no colegial, quando Miroku a obrigou a falar com ele.

- Você ainda lembra disso... – comentou.

- Quando se trata de você, eu lembro de muita coisa. – disse Miroku.

- Se sabia o que estava acontecendo, não precisava ser tão duro comigo.

Miroku deu nos ombros.

- Você faz isso o tempo todo comigo e eu não reclamo. – disse. – E eu não posso mais passar a mão na sua cabeça, você vai ter que se virar sozinha daqui pra frente, não vou mais poder largar tudo e vir te ajudar.

Sango arqueou a sobrancelha.

- Do que você está falando? – disse.

- Eu resolvi ir para Tókio. – disse Miroku.

- E vai passar quanto tempo lá? – disse Sango.

Miroku sorriu e aquilo foi o bastante para Sango entender. Ele não estava indo viajar, ele iria se mudar, iria morar em Tókio, iria abandoná-la. Como ele falava aquilo daquele jeito na hora em que ela estava tão confusa e amedrontada? Ele não podia ser um pouco mais compreensível? Sentiu seu estômago embrulhando e o chão sumindo sob seus pés.

- Faculdade. – disse Miroku ao perceber que ela entendera o que estava acontecendo.

- Quando você resolveu isso? – disse Sango e sua voz saía mais desengonçada do que ela gostaria. - Como você resolve uma coisa importante assim da noite para o dia?

- Eu não resolvi da noite para o dia, - disse Miroku – eu estou pensando sobre isso há algum tempo já.

E foi então que Sango surtou e bateu a mão com força na mesa

- O que você acha que está fazendo? – gritou ignorando o fato de estar em um local público. – O que espera me contando isso desse jeito? Você não podia pensar em mim apenas um pouco, em como eu iria me sentir? Porque nunca me contou que estava planejando ir embora?

- Podemos discutir isso em outro lugar? – disse Miroku respirando fundo.

- Não, não podemos. Você não achou que essa era a melhor hora para contar? Então, não fuja de mim!

- Fugir de você? – disse Miroku revirando os olhos. Ele estava irritado, mas ao contrário da garota, ele controlava o tom de voz. – Quem é você para me falar de fuga, Sango? E o que é esse ataque todo? Você sempre deixou claro que não tínhamos nada e que você nunca, jamais teria algo com alguém como eu! Que direito tem de me cobrar alguma explicação?

- Você está me abandonando! – gritou Sango histérica.

- Desculpe, não vou conversar com você nesse estado. – disse Miroku levantando-se. – Quando parar de ser egoísta e pensar só em você podemos conversar direito.

Quando percebeu que ele estava realmente indo embora do Café, Sango começou a chorar. Seu peito doía e seu corpo parecia capaz de desistir de tudo a qualquer momento. Mas ela não seria tão ridícula assim, não, ela não desmaiaria só porque descobrira que Miroku se mudaria, não se sentiria a pessoa mais sozinha do mundo porque seu melhor amigo estava indo embora e sequer pensara em lhe contar. Sim, ela vivia implicando com ele, rejeitando-o e ignorando os sentimentos que ele dizia sentir, mas não podia negar: Miroku era seu melhor amigo. Desde a quinta série vivia ao seu lado, ouvindo suas besteiras, se preocupando com ela, fazendo-a se sentir melhor. Como ele podia simplesmente descarta-la daquela maneira? Onde estava aquele amor que ele dizia sentir por ela? Se ele a amava de verdade, não iria embora. Sango jogou seu corpo pesadamente na cadeira e tampou o rosto com as mãos, tentando inutilmente esconder as lágrimas que escorriam.

Antes de sair do café Miroku olhou para Sango, esfregou os olhos úmidos e só então fechou a porta.


- Podemos parar por hoje. – disse Takeshi.

Kagome estava em uma piscina, ela jurava que a temperatura da água estava em uns 5°, mas achou melhor não perguntar. Estava ofegante e seu corpo inteiro doía, não sabia ao certo se era por causa do frio ou do cansaço. Provavelmente, uma mistura dos dois.

Takeshi ofereceu uma toalha para Kagome que a agarrou e a usou como um cobertor.

- Você está bem? – disse Takeshi.

- Acho que sim. – respondeu Kagome.

- Seu metabolismo é mesmo incrível, - disse Takeshi. – você sobreviveu ao primeiro dia.

- Incrível, não? – disse Kagome ironicamente.

Ela queria um tratamento rápido e com resultados, mas aquilo parecia alguma brincadeira de um homem sádico. Entre as milhares de coisas estranhas que Takeshi falara para Kagome fazer, estava nadar naquela piscina congelante com correnteza, ficar em pé por uma hora em cima de uma bola, fazer 2 horas de alongamentos estranhíssimos, correr por 1 hora e o mais aleatório de tudo, ficar 1 hora em uma sala ouvindo música enquanto as luzes mudavam de cores, variando desde o branco, até o roxo. Nunca tinha visto nada daquilo antes e por várias vezes ao longo do dia acreditou que Takeshi estava enganando-a. Era tudo estúpido demais.

- Não confia em mim? – disse Takeshi.

- Eu espero que essas coisas estranhas tenham algum resultado! – disse Kagome.

- Vão ter. – disse Takeshi. – Mas você precisa descansar ou só vai servir pra te deixar cansada, ainda não é 23:00 horas, mas já fizemos o bastante por hoje, pode ir para casa.

- Obrigada. – disse Kagome. Tudo o que ela mais queria era sua cama.

- Antes que eu me esqueça, seu banho também deve ser gelado. – disse Takeshi.

Kagome não costumava sentir frio, mas ultimamente a temperatura estava incomodando-a. Talvez fosse culpa do seu estado estranho, mesmo assim, a idéia de tomar banho gelado não lhe agradava em nada. Suspirou, não iria discutir, não tinha forçar para isso. Só queria ir para casa. Despediu-se de Takeshi e se arrastou até o vestiário, deu um pulo assustado ao ouvir alguém lhe chamando.

- Não faça isso, Mika. Você me assusta. – disse.

- Desculpe, pequena. – disse Mika sorrindo. – Só queria avisar que tem alguém lá em baixo te esperando.

- Esperando por mim? – disse Kagome. – Mas eu estou indo embora, é algum médico?

- Não, - disse Mika. – é visita mesmo.

Kagome suspirou.

- Obrigada por avisar, vou ver o que querem. A pessoa não se identificou?

Mika sorriu e apenas balançou os ombros, como quem diz "não sei". Kagome olhou-a de maneira desconfiada, mas assim como deixara de discutir com Takeshi, deixaria a gracinha de Mika para outro dia.

Entrou no elevador e foi para a recepção.

- Pronta para ir para casa?.

- O que você está fazendo aqui? – disse confusa.

- Pedi para aquela sua enfermeira, a Mika, me ligar quando você saísse daqui, não imaginei que seria tão tarde. Ela adorou a idéia de um jovem cavalheiro como eu acompanhá-la até em casa, afinal, já está tarde.

Kagome sorriu balançando a cabeça negativamente.

- O que fizeram com você, Inuyasha? – disse.

- O que você fez, né? – disse Inuyasha. – Só você mesmo para me tirar de casa as dez horas da noite.

Kagome não respondeu. Inuyasha estendeu a mão e disse:

- Vamos, eu te ajudo, você está com uma cara péssima.

- Está tão notável assim? – disse Kagome.

- Está sim, sua cara está pior que a minha. – disse Inuyasha apontando a outra mão para o galo do seu olho que desde manhã já estava consideravelmente menor.

- Argh, então estou horrível. – disse Kagome sorrindo e aceitando a mão de Inuyasha. – Vou aceitar sua ajuda hoje porque estou realmente péssima, meu fisioterapeuta é uma maníaco.

- Ah, então quando estiver 100% e toda bonitona não vai mais ligar pra mim? – disse Inuyasha.

- Provavelmente. – disse Kagome rindo.

- Sempre soube que você não prestava. – disse Inuyasha balançando a cabeça negativamente.

- Sim, eu sou o terror dos homens. – disse Kagome. – Agora, me arraste para casa, por favor, ou durmo nesse sofá da recepção mesmo.

- Só vou porque você pediu "por favor", não vá se acostumando. – disse Inuyasha.

- Vou tentar.

Kagome se deixou guiar por Inuyasha, nunca se sentira tão cansada em toda a sua vida. Sentia dores em lugares que jamais imaginou que poderiam doer, seus olhos pesavam e tinha a certeza que dormiria assim que se encostasse a qualquer lugar que fosse. Talvez por notar o cansaço de Kagome, Inuyasha apenas andava sem dizer nada, na verdade ele sentia que não precisava falar muito, por algum motivo estranho, ele sentia-se bem só de estar ali.

- Eu acho que ela foi embora.

Inuyasha olhou para Kagome confuso, não esperava que ela falasse e agora não conseguia imaginar do que ela estava falando.

- A Kikyou. – disse Kagome percebendo o silêncio do hanyou. – Eu não sinto mais a presença dela. Você sente?

- Não. – disse Inuyasha balançando a cabeça negativamente. – Talvez ela tenha mesmo ido embora.

- Talvez. – disse Kagome. – Será que ela foi atrás do Sesshoumaru? Ela o odeia.

- Está preocupada com ele? – disse Inuyasha.

- Não sei, acho que sim. Sabe, eu tenho a sensação que eles estão escondendo algo de nós.

- Você também notou que a historinha deles é quase igual? Espere a hora certa e blábláblá.

- Notei. Eu não posso confiar nos dois ao mesmo tempo, afinal existe algo acontecendo e eles estão um contra o outro. Ou eu acredito na Kikyou ou no Sesshoumaru, um deles é minha família e o outro me trouxe de volta a vida.

- Está tirando meus créditos? – disse Inuyasha revirando os olhos.

Kagome sorriu.

- Não é isso, podemos dizer que se você não existisse eu não teria morrido para começo de conversa, mas o que eu estou falando é sobre aquela história do Sesshoumaru ter na verdade dado o sangue dele para você e consequentemente, ter me salvado. O que aconteceu exatamente enquanto eu estava morta?

- Eu fui atrás do Sesshoumaru, porque por algum motivo eu achei que ele te salvaria. Então, ele ficou louco e começou a me bater e me bateu até quase me matar, talvez eu até tenha morrido por alguns instantes, lembro de ir para um lugar estranho, mas quando acordei eu estava no seu quarto. Ele deu meu sangue para você e depois disso eu só tenho borrões, lembro do gosto estranho de sangue na minha boca e da sensação de vida que ele me trouxe. Era como um som que eu deveria seguir para sair da escuridão.

- Eu entendo o que você está falando. – disse Kagome. – Enquanto eu me afogava naquele rio nojento de sangue eu sentia um dor insuportável, mas ao mesmo tempo, era como se meu corpo inteiro se enchesse de vida, talvez a dor viesse daí, da vida voltando ao meu corpo Mesmo assim, eu desisti e quando eu desisti eu senti a vida pulsando completamente dentro de mim, você como disse, era como um som que me guiava e quanto mais eu seguia o som, mais forte ele ficava, até que uma hora tornou-se insuportável e eu senti como se meu estomago estivesse prestes a explodir. Foi então eu percebi que eu estava viva, no quarto do hospital.

- Não vou querer entender essa coisa de rio de sangue, beber o sangue do Sesshoumaru já atinge minha cota de hemácias por um bom tempo. – disse Inuyasha fazendo uma careta.

- É, eu sei. É nojento. – disse Kagome. – Quando resolver reclamar do sangue do Sesshoumaru lembre-se que precisei me afogar. Em sangue!

- Vou tentar. – disse Inuyasha.

Kagome sorriu e olhou para o céu, era possível ver as estrelas o que significava não existir nenhuma nuvem de chuva. Suspirou de maneira deprimida. Talvez Kikyou não tivesse ido embora, ela já tinha escondido a presença antes, poderia estar fazendo isso agora, mas não conseguia entender o que ela ainda poderia querer na cidade.

- O que está olhando? – disse Inuyasha procurando algo suspeito no céu.

- Não vai chover. – disse Kagome.

Inuyasha pensou alguns instantes no significado daquela frase, Kagome não faria uma comentário tão aleatório assim sem um motivo. Sentiu-se um idiota quando lembrou, por algum motivo que ele ainda não descobrira Kagome estava ligada com a chuva, seu sobrenome e até mesmo seu cheiro deveriam ser um lembrete óbvio. Lembrou-se da primeira vez que a vira, sem nem ao mesmo saber quem ela era: estava prestes a chover.

- Ah, - disse. – o negócio da chuva. Você ficou de me explicar isso...

- É estúpido, mais uma história idiota que inventaram por não saberem explicar o que realmente acontece. – disse Kagome revirando os olhos.

- E qual seria essa história? – disse Inuyasha.

- O céu está chorando. – disse Kagome e sua voz era de deboche.

- Tá, é estúpido mesmo, porque o céu estaria chorando? – disse Inuyasha.

- Porque meu lugar não é aqui, porque anjos deveriam estar no céu. – disse Kagome suspirando. – Quando chegamos a um lugar novo, ele chora por que mudar nos deixa cada vez mais longe do céu. Quando partimos, ele chora pelo o que nos tornarmos, pelo sangue que derramamos. Apesar de tudo, anjos não deveriam matar.

- Poético demais para ser verdade. – disse Inuyasha. – E meio contraditório, já que quando me explicou o que era um anjo, me falou da existência de anjos guerreiros ou qualquer besteira do tipo.

- É, eu sei. É idiota. – disse Kagome. – Mas no momento está sendo útil, não está chovendo. A Kikyou pode estar por aqui ainda.

Inuyasha olhou para o céu e revirou os olhos. Anjos eram coisas estranhas demais para ele entender, o céu chorar era a explicação mais estúpida que já vira para uma simples chuva.

- Eu fico por aqui, - disse Kagome chamando-lhe a atenção. – obrigada pela companhia.

- Está entregue. – disse Inuyasha. – Acha que vai conseguir se virar sozinha?

- A pior parte já foi, agora é só tomar um banho gelado e ir para a cama. – disse Kagome fazendo uma careta.

- Banho gelado? Isso não me empolga nem um pouco em entrar e te fazer companhia. – disse Inuyasha.

Kagome deu um tapa no braço do hanyou.

- Como se eu fizesse questão que você entrasse! – disse.

- Não se preocupe, eu não estava falando sério. – disse Inuyasha sorrindo. – Você não disse que só depois vamos resolver nossos problemas? Então.

A garota tentou esconder o sorriso, mas os lábios se curvaram mesmo assim e disse enquanto balançava a cabeça negativamente:.

- Boa noite, Inuyasha.

Inuyasha encarou Kagome e sorriu, segurou o rosto da garota com as duas mãos e beijou-lhe a testa de leve. Kagome sentiu um arrepio correr por todo o seu corpo, mas concentrou-se no cansaço físico e ignorou aquela sensação.

- Boa noite, Kagome. – disse.

- Outra saída teatral. – murmurou Kagome para si mesma.

- Estou ficando bom nisso, não? – disse Inuyasha.

- Boa noite, Inuyasha. – repetiu Kagome tentando novamente esconder o riso.

Inuyasha apenas sorriu e girou nos calcanhares, virando a esquina rumo a sua casa. Kagome olhou até que a silhueta do rapaz sumisse e então abriu a porta. Cerrou os olhos, havia algo de estranho, o que era aquele cheiro, comida? Entrou na casa e viu a luz da cozinha acessa. Jogou a chave em cima do sofá.

- Achei que você já tivesse ido embora. – disse enquanto ia até a cozinha.

- Estou fazendo o jantar. Você parece horrível, ainda bem que fiz sopa.

- Eu ia perguntar o que você estava fazendo aqui, mas respondeu antes mesmo de eu ter a chance. – disse Kagome puxando um banquinho da cozinha e sentando-se.

- Eu imaginei que perguntaria, por isso já respondi.

- Deveria imaginar que não é essa a resposta que eu espero. Vai continuar com o mistério, Kikyou?

Kikyou abriu o armário e pegou uma toalha e cobriu a bancada que Kagome estava sentada, pegou dois pratos fundos e colheres, colocou-os na bancada e trouxe a panela de sopa.

- Não existem mistérios, Kagome. – disse Kikyou sorrindo, sentando-se ao lado da garota.

Kagome revirou os olhos e suspirou.

- Por favor, Kikyou, se é algo que me envolve ou envolve o Inuyasha, eu peço que me conte. Você diz que eu preciso confiar em você, mas eu preciso de motivos para fazer isso.

- Falando no Inuyasha, - disse Kikyou enquanto colocava sopa nos pratos. – vocês estão realmente próximos, mais até do que eu imaginei que estariam. Ele te deixou aqui, não deixou?

- O que isso tem a ver com o que está acontecendo entre eu e ele? – disse Kagome cerrando os olhos. – E qual o seu interesse no Inuyasha?

- Coma a sopa ou ela irá esfriar. – disse Kikyou sorrindo. - Eu já disse antes, Kagome, eu preciso da sua confiança. Você já deve ter notado, o Inuyasha é diferente e foi por isso que escolhi você para essa missão.

- Então nunca planejou matá-lo? – disse Kagome. – Então qual é a missão? Não me diga que estou protegendo-o?!

- Não seja tão tola, porque eu colocaria o meu melhor anjo para defender um hanyou? – disse Kikyou enquanto servia-se da sopa. – A sopa, não esqueça da sopa.

Kagome revirou os olhos e pegou a colher, servindo-se da sopa. Sentiu o liquido quente descendo por sua garganta e uma sensação de aconchego abraçou-lhe, não percebera como estava faminta até aquele momento. Deixou-se se sentir feliz por Kikyou estar lá naquele momento.

- Porque ele é diferente. – disse Kagome sensatamente.

- O Sesshoumaru... Ele fez alguma proposta para você? – disse Kikyou.

- Estamos falando sobre o Inuyasha. – disse Kagome séria. – Por favor, não mude de assunto.

- Não há nada a falar sobre ele, - disse Kikyou. – ele é apenas um garoto interessante.

- Não me diga que está atraída por ele! – disse Kagome acusadoramente.

Kikyou começou a rir e disse:

- Eu tenho idade para ser bisavó dele, não é isso o que está acontecendo. Imagino que ele não tenha se sentido atraído por mim.

- Não, não mesmo. – disse Kagome.

- Isso não o torna interessante?

Kagome não respondeu e voltou sua atenção para o prato de sopa.

- Está bom? Faz tempo que não cozinho nada. – disse Kikyou sorrindo.

- Está sim. - disse Kagome suspirando.

- Que bom. - disse Kikyou parecendo orgulhosa de si mesma.

Kagome largou a colher e encarou Kikyou profundamente.

- Kikyou, eu sei que você escondeu muitas coisas de mim, sei por exemplo que teoricamente sou a mais poderosa ou qualquer porcaria do tipo, mas eu ainda confio em você. Você sempre foi um exemplo para mim, uma família que eu nunca tive, só que essa situação está me deixando confusa, eu não sei mais o que fazer, eu preciso de motivos concretos para confiar em você agora, minhas memórias não são mais seguras.

- Sabe que eu jamais te faria mal, não sabe? – disse Kikyou.

- Hoje eu já não sei mais. – disse Kagome. – Me diga, quem foi que atacou o Inuyasha? Qual o plano por trás disso?

Kikyou respirou fundo.

- Fui eu. – disse. – Eu ataquei o Inuyasha, sabendo que você o salvaria. Eu poderia mentir para você dizendo que não sabia nada sobre isso, mas eu estaria mentindo; todo ataque tem meu consentimento e você mais do que ninguém sabe disso. Mentir sobre, seria te chamar de idiota, coisa que você não é.

- Você o atacou! – disse Kagome incrédula. – E o pior, sabendo que eu o salvaria! Você sabia o que aconteceria comigo e mesmo assim o atacou! Eu morri por sua causa!

- Não me julgue, - disse Kikyou mantendo uma calma praticamente inumana. – você está pedindo motivos para confiar em mim e estou dando.

- Me matar é motivo para confiar em você? – gritou Kagome histérica.

- Não, falar a verdade é. Não me orgulho do que fiz, mas era necessário. – disse Kikyou. – Um dia você vai entender que certas coisas vão além da nossa compreensão.

- Se não fosse pelo Sesshoumaru e pelo Inuyasha eu estaria morta! – gritou Kagome. – Se ao menos você tivesse feito algo para impedir... Mas nem isso!

- E eu fiz. – disse Kikyou brincando com a sopa e logo se tornando irônica. – Ou acha que o lugar onde você foi era o céu? Acha mesmo que todos passam por aquele lugar antes de morrer para terem uma segunda chance de recomeçar?

- Está falando do lugar onde vocês prenderam a Rin? – disse Kagome. Ela parecia estar se acalmando, mas seu tom de voz ainda era acusador.

- Vocês? – disse Kikyou arqueando a sobrancelha e olhando de maneira divertida para Kagome. – Agora os anjos são 'vocês' para você? Mas respondendo sua pergunta, nós não a enviamos para lugar nenhuma, ela fez as escolhas em vida, não havia nada que eu pudesse fazer por ela.

- Se você me enviou para lá, pode muito bem libertar a Rin.

- A vida não é tão simples assim, certos erros que cometemos não têm perdão, por mais que a gente tente seguir em frente, o peso das nossas escolhas vai estar sempre conosco. A Rin escolheu se deixar levar por uma atração, mas ela não foi a única, muitas outras seguiram o mesmo caminho e se perderam.

- E o que você está fazendo comigo? – disse Kagome. – Sabia que eu me sentiria atraída pelo Inuyasha, me deixou aqui sem dar ordem para matá-lo, dando tempo para que eu o conhecesse, o matou sabendo que eu o salvaria e que se eu sobrevivesse isso resultaria em uma dívida eterna. Isso não é fazer com que eu me deixe ser levada pelo instinto? Você pode ter um interesse estranho pelo Inuyasha, mas você quer que eu esteja com ele.

- Ele é diferente. – disse Kikyou sorrindo. – Tenha sempre isso em mente. O Inuyasha é diferente e agora você também é. As regras todas dos anjos não se aplicam à vocês, nunca um hanyou e um anjo tiveram uma ligação tão forte. Ele consegue sentir suas emoções, não consegue? Percebe como isso é magnífico?

- Você soa doente falando desse jeito. – disse Kagome.

- Desculpe. - disse Kikyou. – Eu estou sendo sincera ao máximo com você. Todo esse tempo eu tenho te protegido, mesmo quando ataquei o Inuyasha pensei em uma maneira de te proteger. Se eu não te conto tudo o que está acontecendo é porque eu não posso e porque você realmente não precisa saber. Eu não estou brincando com a sua vida ou com a do Inuyasha, eu mais do que ninguém quero vocês dois seguros e eu tenho tentado ao máximo fazer isso, mas eu preciso que você confie em mim para eu poder continuar fazendo o que tenho feito tão bem. Agora não basta só eu querer ajudá-la, você precisa permitir que eu te ajude.

- Você não me contar o que acontece só faz parecer que está errada. – disse Kagome.

- Confio no seu julgamento, assim como sempre confiei. – disse Kikyou. – Eu escondi coisas de você e ainda escondo, mas se faço isso é porque existe um motivo e não porque sou uma megalomaníaca querendo destruir vidas. Acho que mereço sua confiança por tudo o que já fiz por você, é assim que se adquire a confiança.

- Eu sei, você sabe mais do que ninguém que nunca desconfiei de você! – disse Kagome. – Mas estou perdida, eu não sei o que esperar de alguém que indiretamente tentou me matar e não consegue sequer explicar isso.

- Eu tenho o direito de ter meus segredos, - disse Kikyou séria. – e isso não me torna menos confiável. Não sou perfeita, Kagome, assim como você eu cometo erros, tenho dúvidas e não sei o que fazer, somos iguais, da mesma espécie. Todas as dúvidas que passam pela sua cabeça já passaram pela minha também, não deixe que yokais te afastem de mim. Na hora certa você saberá o que estou fazendo e entenderá. Entenderá porque é como eu e vai compreender meus sentimentos.

Kagome levou as mãos até a cabeça e suspirou. Não tinha mais argumentos e na verdade, não queria ter. Sabia que Kikyou estava sendo sincera, era a pessoa que mais confiava desde sempre, deveria existir algum motivo muito grande para estar fazendo tudo aquilo. Kikyou não era má, tinha olhos distantes, mas isso nunca fora um impedimento para sentir-se confortável em sua presença, aprendera a respeita-la e até mesmo a amá-la. Era sua mãe, sua amiga e sua professora, representava coisas importantes demais na sua vida para simplesmente ignorar aquele pedido. Era como se Kikyou implorasse para não ser abandonada.

- Está bem, - disse Kagome no meio de um suspiro. – eu vou confiar em você, Kikyou, mas não por essa conversa ou porque você me pediu. Ainda não consigo entender os motivos das suas ações, mas espero descobrir em breve. Se confio em você hoje é por tudo o que fez por mim no passado. Sinceramente, eu não sei mais quem é você, mas espero estar enganada.

Kikyou sorriu, o sorriso mais verdadeiro que Kagome já vira a mulher dar. Perguntou-se se estava fazendo a coisa certa, mas não era mais hora para se questionar, aceitaria sua decisão e as conseqüências dela.

- Obrigada, - disse Kikyou o mais sinceramente possível. – você não sabe como me faz feliz. Somente você é capaz de guardar a minha felicidade, lembre-se disso quando se sentir confusa com a sua decisão. Eu estou colocando a minha felicidade nas duas mãos.

- Não quero essa missão. – disse Kagome séria.

- Tarde demais, - disse Kikyou ainda sorrindo. – essa sempre foi a sua missão. Desde que nasceu.

Kagome piscou os olhos pesadamente e bocejou.

- Você está cansada, desculpe por te prender acordada tanto tempo. – disse Kikyou. – Estou indo embora agora, fiz comida à tarde e deixei no congelador, espero que te ajude nessa semana.

- Está indo para onde? – disse Kagome.

- Preciso falar com as outras meninas, as coisas estão perigosas para nós. Parece que os yokais estão se rebelando, começou com os lobos, eles atacaram uma de nós e os outros resolveram seguir. – disse Kikyou. – Eu nem deveria estar aqui.

- Está certo. – disse Kagome.

- Eu volto assim que terminar tudo. – disse Kikyou. – Vai ficar bem sozinha?

Kagome sorriu.

- As pessoas andam se preocupando demais comigo. – disse. – Pode deixar, eu me viro.

- A gente só se preocupa com quem a gente gosta. – disse Kikyou sorrindo e descendo do banco. – Lembre-se disso.

- Vou me lembrar. – disse Kagome.

Kikyou encarou Kagome por alguns instantes e sorriu.

- Cuide-se. – disse Kikyou.

- Você também, - disse Kagome. – e se puder, deixe os lobos comigo.

Kikyou revirou os olhos.

- Você e esses lobos... – disse. – Mas faça como quiser.

- Obrigada.

Kikyou olhou mais uma vez para Kagome e foi embora. A garota suspirou e arrastou-se para o segundo andar, estava cansada demais para pensar no que acontecera e queria sua cama mais do que tudo. Mas antes, tomou o banho gelado que Takeshi falara para ela tomar.


A semana que Kagome achou que passaria rapidamente pareceu-lhe um ano eterno e sofrido. Os exercícios de Takeshi só se tornaram mais puxados e a água mais gelada, tinha a sensação que suas horas de sono haviam se reduzido a míseros minutos. Sentia-se cansada, mas realizada. Takeshi havia cumprido sua missão: Kagome estava curada no prazo de uma semana. Não entendia muito bem como aqueles exercícios estranhos tinham curado-a, muito menos como haviam deixado-a tão acabada, mas nada daquilo importava.

- Contrariando tudo e todos, nós conseguimos, não foi? – disse Takeshi sorrindo.

- Sim! – disse Kagome se jogando no chão. – Finalmente estou de volto ao meu corpo, obrigada.

- Não foi tão difícil assim. – disse Takeshi.

- Magina, - disse Kagome de maneira irônica. – super tranqüilo seus exercícios drogados.

- Drogados, mas funcionaram. Não reclame.

- Estou longe de reclamar, na verdade estou muito feliz. Só posso agradecer por me ver livre desse hospital e do banho gelado.

- Achei que isso não seria um problema para você, - disse Takeshi pensativo. – disse que meu metabolismo era parecido com o de yokais. Eles não sofrem com grandes mudanças térmicas.

- É, eu também achei que não seria um problema, mas por algum motivo estranho, eu consegui sentir cada gota de água gelada que caiu no meu corpo nas últimas semanas.

- Talvez seja alguma seqüela do que aconteceu com você. – disse Takeshi.

- Talvez. – disse Kagome. – Estou liberada de vez?

- Sim, está livre de mim também. – disse Takeshi.

- Você foi uma boa companhia, não seja ta duro com você, - disse Kagome sorrindo. – eu só preciso resolver vidas lá fora. Parece que meus melhores amigos não estão se falando e ninguém se intrometeu.

- Se for quem estou pensando, você deveria saber que em briga de casal não se intromete.

- É, são eles mesmos, mas eles são teimosos e se gostam. É idiota continuarem com isso. – disse Kagome.

- Faça como quiser. – disse Takeshi. – Os amigos são seus mesmo.

- Mais uma vez, obrigada por tudo. – disse Kagome sorrindo. – Estou indo então.

- Cuide-se. – disse Takeshi.

- Ultimamente é só o que eu tenho feito.

Kagome levantou-se e acenou para Takeshi, despedindo-se. Desceu para a recepção pelas escadas, aproveitando a sensação de poder controlar seu corpo. Sorriu pulando os últimos cinco degraus da escadaria.

- Você está parecendo uma criança.

- Eu sempre pareço uma criança. – disse Kagome sorrindo. – Hoje é seu último dia de guarda-costas, como se sente?

- Aliviado. – disse Inuyasha pensativo. – Ficar acordado até tarde e acordar cedo não é para mim.

- Eu falei que não precisava. – disse Kagome dando nos ombros.

- E perder a oportunidade de dar várias saídas teatrais? Hm, acho que não. – disse Inuyasha sorrindo.

- Eu percebi seu gosto por elas! – disse Kagome sorrindo. – Falando em saídas, eu preciso de me despedir de uma pessoa, se quiser pode ir à frente.

- Já estou aqui mesmo, eu te espero. – disse Inuyasha girando nos calcanhares e sentando em uma das cadeiras.

Kagome sorriu e agradeceu, indo até a moça da recepção e pedindo para chamar a Mika. Em poucos minutos a velha enfermeira já estava lá.

- Então era você que estava me procurando, pequena! – disse sorrindo.

- Ahan, - disse Kagome. – eu queria me despedir e agradecer por tudo o que você fez por mim.

- Não precisa agradecer, foi um prazer. – disse Mika.

Kagome abraçou a velha enfermeira e disse:

- Nunca vou me esquecer de tudo o que fez por mim, vou vir sempre te visitar.

- Vou esperar sua visita. – disse Mika sorrindo. – Agora vá, seu namorado deve estar te esperando.

- Ele não é meu namorado. – disse Kagome rindo.

- Mas deveria. – disse Mika. – Ele é lindo e parece gostar muito de você.

- Vou pensar no seu caso, está bem? – disse Kagome.

- No meu? É no seu. Você é quem vai se dar bem! – disse Mika.

Kagome sorriu, Mika não falava como uma pessoa da sua idade e talvez era esse o motivo de gostar tanto dela. A enfermeira não disse mais nada e apenas pegou Kagome pela mão e levou-a até Inuyasha.

- Estou deixando-a aos seus cuidados agora. – disse. – Cuide bem dela.

- Sim, senhora. – disse Inuyasha. – Se ela parar de ser teimosa e deixar que eu cuide dela, eu cuidarei.

- Cuide mesmo assim. – disse Mika.

- Está bem, estamos indo embora, não é, Inuyasha? – disse Kagome revirando os olhos.

- É, estamos. – disse Inuyasha. – Adeus, Mika. Pode deixar que eu ficarei de olho nela.

- Obrigada. – disse Mika. – Até mais.

Kagome pegou a mão de Inuyasha e o arrastou para fora do hospital.

- Porque ficou tão irritada? – disse Inuyasha sorrindo.

- Eu sei me cuidar, está bem? – disse Kagome irritada, soltando a mão de Inuyasha. – Agora mais do que nunca.

- Ok, ok, não está mais aqui quem falou. – disse Inuyasha. – Então, você já está 100%?

- Estou. – disse Kagome.

- Percebi. – disse Inuyasha dando nos ombros.

- O que quer dizer com isso? – disse Kagome cerrando os olhos.

- Está agindo exatamente como antes. – disse Inuyasha.

- Desculpe, só estou um pouco nervosa com tudo o que vou encarar aqui fora agora. – disse Kagome. – Preciso encontrar o Kouga, falar com o Sesshoumaru, com a Sango... Falando nisso, como eles estão?

- Na mesma, - disse Inuyasha. – o Miroku está lá em casa ainda, sem sair da frente da TV e a Sango está sem falar com ninguém na escola.

- Você deveria ter se metido. – disse Kagome revirando os olhos.

- Eu tentei, mas ninguém me ouve. Parece que não sou adulto o bastante para entender o que está acontecendo. – disse Inuyasha dando nos ombros.

- É, talvez eles tenham razão em dizer isso. – disse Kagome sorrindo.

- É você que não quer resolver nossa relação, então, não venha me dizer que eu não sou adulto o bastante.

- Prometo que amanhã falamos sobre isso. – disse Kagome desmanchando o sorriso.

- Sua cara diz que as notícias não são boas para mim, - disse Inuyasha. – eu imaginei isso desde que comentou que tinha conversado com a Kikyou e não quis me contar sobre a conversa. Eu não gosto daquela mulher.

- Você também não gostava de mim. – disse Kagome. – Sua opinião é parcial.

- É diferente, eu já disse isso antes. – disse Inuyasha cerrando os olhos. – Não me sinto bem perto dela.

- Ela também diz que você é diferente. – disse Kagome rindo internamente. – Capaz de no fim vocês acabaram juntos.

Inuyasha segurou Kagome pelo braço e a fez encara-lo.

- Eu posso aceitar um fora seu, posso viver com isso, mas eu nunca, me entendeu bem? Nunca vou ficar com aquela aberração.

- Você não a conhece, não fale assim dela. – disse Kagome.

Inuyasha largou Kagome.

- Ótimo, defenda aquela mulher. Eu já sei o que vai me dizer amanhã, então não preciso continuar me humilhando desse jeito, estou indo embora. Não se preocupe em me procurar para explicar qualquer coisa que for.

- Vai embora então! – disse Kagome. – Se acha que está se humilhando, vá embora!

- Estou indo!

Inuyasha encarou Kagome antes de girar nos calcanhares e ir embora. Kagome suspirou e levou a mão até a cabeça.

- Outra saída teatral.


Inuyasha ouviu a campainha da sua casa tocar, mas achou improvável que fosse alguém sério. Era 6 horas da manhã de um sábado, quem iria querer falar com ele? Olhou para Miroku jogado no colchão ao seu lado parecendo um zumbi e resmungou. Levantou-se e foi até a porta, reclamando o caminho inteiro.

- Desculpe te acordar.

- Kagome?

- Eu sei que você disse para eu não te procurar hoje, mas eu não acho certo. Não depois de tudo. Eu acho que você deve saber, eu estou indo até a casa do Sesshoumaru agora e vou negar a proposta que ele me fez. Eu sou um anjo e isso não é algo que possa mudar, eu vou estar contra o Sesshoumaru nessa história toda e isso significa que estarei contra você também.

- Tem certeza de é isso que você quer?

Kagome abaixou os olhos. Sentia como se estivesse terminando uma relação que nunca existira, mas não tinha certeza se estava fazendo a coisa certa. Inuyasha a encarava, ela parecia confusa demais, talvez tivesse ido até ali para que ele a convencesse do contrário. Mas não sabia dizer, a mente dela estava confusa como sempre e nada que conseguisse sentir vindo dela seria útil naquele momento. O máximo que podia fazer era aceitar.

Kagome apenas acenou positivamente com a cabeça, ergueu-a, encarou os olhos dourados que tanto gostava e sorriu tristemente.

- Desculpe.

Antes que Inuyasha pudesse responder, Kagome girou nos calcanhares e foi em direção à trilha que levava até a montanha de Sesshoumaru, mesmo querendo, não olhou para trás.

Kagome odiava subir aquela trilha, mas era necessário. Estava preparada dessa vez, com tênis e jeans. Deu um pulo ao perceber que alguém estava á centímetros do seu rosto. Ao perceber a reação da garota, o yokai deu um passo para trás.

- Você me assustou! Da onde você saiu? – disse Kagome.

- Você é um anjo, deveria ser capaz de notar isso. – disse Sesshoumaru. – Ou não vai ter chances contra mim.

Kagome imitou a ação de yokai e também deu um passo para trás.

- Acho que por esse comentário você já sabe a minha resposta.

- Sim, eu sei. Sempre soube. – disse Sesshoumaru. – Mas antes que você a diga e se arrependa quero que ouça uma história. A minha história.


Oláá! Como estão? :)

Eu estou um caco, acho que estou gripada, só eu consigo ficar gripada nesse calorzão de Deus. Peço desculpas pela demora, mas com o combo calor+carnaval, não consegui ficar na frente do pc muito tempo e como tenho ajudado uma amiga na fic dela, acabo deixando pra escrever tudo de uma vez só. Sei que eu disse que esse seria sobre o passado do Sesshoumaru, mas me empolguei um pouco e escrevi esse capítulo enooooorme (o maior até agora xD), mas como deu pra ver, o próximo não tem escapatória.

Percebi que todas vocês odiaram a Kikyou, bem, não posso dizer muito sobre ela, maaaaaas ela não é tão ruim assim. Sabem, eu fico louca aqui pra responder as perguntas que vocês me fazem, discutir as teorias, mas eu falo tanto que se não tomar cuidado, acabo contando o final da fic e ai perde toda a graça, então, desculpem pelas minhas respostas sem grandes explicações. Mas adoro que vocês gostem da fic ao ponto de criarem teorias *_*

Não vou conseguir responder comentário por comentário hoje porque estou atrasadíssima e como não sei quando volto pra casa, postei pra não ficar devendo capítulo. Semana que vem respondo em dobro, prometo!

Como sempre, muitíssimo obrigada por comentarem e me acompanharem! Será que chegamos as 100 reviews? :DDD

Beeijos e boa semana para vocês!