- Você me assustou! Da onde você saiu? – disse Kagome.
- Você é um anjo, deveria ser capaz de notar isso. – disse Sesshoumaru. – Ou não vai ter chances contra mim.
Kagome imitou a ação de yokai e também deu um passo para trás.
- Acho que por esse comentário você já sabe a minha resposta.
- Sim, eu sei. Sempre soube. – disse Sesshoumaru. – Mas antes que você a diga e se arrependa quero que ouça uma história. A minha história.
Capítulo 19 – O passado de Sesshoumaru.
- Importa-se em me ouvir?
Kagome arqueou a sobrancelha em uma expressão de desconfiança, Sesshoumaru sempre fizera mistério sobre seu passado, porque resolveria falar tudo naquele momento? Seria possível que ele realmente se importasse com ela e a quisesse ao seu lado ou só estava planejando uma maneira de usá-la? A garota cruzou os braços e acenou com a cabeça.
- Ainda não consegui entender o que está planejando, mas é ótimo que finalmente um de vocês tenha resolvido explicar o que está acontecendo. – disse.
- Desculpe te desapontar, mas o que eu estou para te contar não vai fazer com que o que você está passando faça mais sentido.
- Isso sou eu quem decide. – retrucou Kagome impaciente. Não estava nos seus planos que o yokai tentasse mudar sua opinião.
- Está certo, a história é muito longa, então vamos para minha casa.
Sesshoumaru não esperou uma resposta e deu às costas a garota, que resmungou e o seguiu sem dizer uma palavra. Em poucos minutos os dois já estavam sentados no jardim que antes fora de Rin, Kagome não pôde deixar de sentir-se estranha naquele lugar, estivera 'ali' há pouco tempo quando estava morta. Balançou a cabeça afastando aquele pensando, cruzou os braços e disse:
- E então...? O que tem para mim?
O yokai apenas respirou fundo.
Sesshoumaru POV
Para que você entenda exatamente minha história com a Rin eu precisarei voltar muitos anos antes de encontrá-la, imagino que para você seja relevante apenas meu encontro com ela e como acabamos nos apaixonando, mas como eu disse, meu passado é uma chave para tudo o que aconteceu conosco.
Talvez você não saiba, mas a fama que eu tenho hoje não chega aos pés do que meu pai era no auge do seu poder. Ele era incrível, de um poder inimaginável e de uma crueldade inigualável, era respeitado e temido por todos os yokais, era quase como um líder absoluto de qualquer raça que fosse. Meu sonho sempre fora me igualar a ele, eu não ansiava supera-lo; sabia que jamais conseguiria. Você, por ser um anjo, não compreende como é difícil para um yokai orgulhoso assumir que ele jamais superará alguém e no meu caso isso sempre foi pior, afinal, ele era meu próprio pai. O Inu-Taisho nunca me tratou como um filho, a verdade é que eu sempre me senti como um fardo para o bando do meu pai, todos os yokais eram muito poderosos e eu era só um adolescente descobrindo sozinho do que era capaz.
Eu não era rejeitado, mas também não conseguia impor respeito ao bando, eu sempre soube o que eles pensavam sobre mim: ele só está aqui por que é filho do Inu-Taisho. E eles estavam certos. Saber disso fez com que eu criasse um sentimento ambíguo em relação ao meu pai, eu era grato por ele deixar que eu os acompanhasse e assim aprendesse como ser poderoso, mas o desprezava por nunca ter sido capaz de me tratar como filho, por ser tão mais forte do que eu, por fazer com que eu me sentisse pequeno e fraco. Eu não entendia muito sobre relacionamentos de pais e filhos, mas sabia que mesmo para yokais aquilo não era o normal, mas eu era fraco demais, medroso demais para me libertar de tudo aquilo, de dar um basta e ser capaz de empurrar para longe a gigantesca sombra que meu pai fazia sobre mim. Isso até aquele dia.
Quando completei 16 anos senti que seria capaz de atacar um vilarejo por conta própria, eu nunca havia feito algo parecido, já havia sim matado várias pessoas, mas destruir um vilarejo sozinho? Nunca. Na época eu achei que era o plano perfeito, quando eu destruísse a vida pacata daquele humanos inúteis eu conseguiria a aprovação e o orgulho do meu pai, eu planejava aquilo há anos, mas só no meu décimo sexto aniversário eu consegui juntar coragem o suficiente, o medo de que algo desse errado sempre me sufocara. Procurei por um vilarejo que não fosse me causar problemas, um que não existisse nenhuma sacerdotisa irritante, nem humanos metidos à guerreiros; eles não eram um problema real, mas poderiam tirar minha concentração e eu não podia correr esse risco. Quando encontrei mal pude acreditar quando percebi que além de tudo o lugar estava isolado, não havia como chamar ajudar.
Bem, você deve imaginar que não fiz plano algum, o nervosismo e o medo fizeram com que eu atacasse o vilarejo assim que o encontrei e embora você não precise dos detalhes devo dizer que a sensação de destruir aquele lugar me dominou de tal maneira que eu conseguia ouvir a risada doentia, que geralmente saía do meu pai, ecoando dentro de mim. Cada pessoa que eu matava, cada família que eu destruía, cada criança desesperada que eu via só fazia meu ego inflar e meu ataque se intensificar, o sofrimento daquela gente era como combustível para mim. Eu ri de cada mãe que implorou por piedade mostrando-me seus filhos humanos, me deliciei com cada gota de sangue que derrubei. Eu havia conseguido, meu pai finalmente sentiria orgulho de mim e ao pensar nisso senti crescer dentro de mim um instinto assassino que jamais sentira antes, aquilo me dominara de tal maneira que sequer conseguira notar que em meio a todo aquele caos uma voz me chamava, só notei a garota quando a mesma puxou minhas vestes e me fez encara-la.
- Você já pode parar agora, não restou ninguém. – ela disse.
Encarei a menina por alguns minutos sem saber o que responder, ela não aparentava mais do que 15 anos e para mim era uma humana como qualquer outra que eu acabara de matar, mas sua audácia, sua ausência de medo tinham conseguido me deixar sem palavras. Pela primeira vez naquela noite algo tinha sido capaz de diminuir a sede de sangue que se instalara em mim.
- Você ainda está viva. – respondi apontando para ela.
- Bem, estou. – ela respondeu. – Se notar bem, você não vai ser o primeiro a tentar me matar.
Arqueei a sobrancelha, ainda encarando-a. Apesar de olhar fixamente para seu rosto eu não tinha sido capaz de notar até então que seu olho estava roxo, seu lábio cortado, suas roupas rasgadas e seus cabelos escuros emaranhados e sujos. Reparar em humanas nunca foi uma das minhas qualidades, eu sempre as olhava, mas não as enxergava, aquela provavelmente fora a primeira vez que enxerguei um humano e a fragilidade que isso implicava.
- Está insinuando que não conseguirei te matar? – retruquei incrédulo.
Ela apenas deu nos ombros.
- Conseguir você consegue, mas não sei se você vai querer.
- Você não sente medo, não? – perguntei mostrando minhas garras e ela apenas acenou negativamente com a cabeça. – Não me odeia por ter matado a todos?
- Eu pareço me importar? – ela respondeu com uma voz completamente diferente, muito mais sombria. – Se quer saber, eles mereceram. Todos eles.
- Então foram eles que te atacaram? – perguntei de maneira curiosa.
Ela sorriu ironicamente e disse:
- Eles não me atacaram. Eles me linxaram, é diferente.
- Vejo que fiz um favor para você. – disse me gabando. Por algum motivo eu sentia vontade de impressioná-la.
- Na verdade, não. – ela respondeu. – Eles me linxaram porque os avisei que você viria, logo, se você não atacasse esse vilarejo eles não se voltariam contra mim. De novo.
- Eu não vejo como posso ser culpado nessa situação. – respondi dando nos ombros.
- Indiretamente você é.
- Como você poderia saber que eu estava vindo para cá? Eu resolvi isso há menos de uma hora, se você fosse uma sacerdotisa e tivesse algum poder idiota de prever o futuro, ainda assim, não haveria como você prever meu ataque. E pelo o que eu sei, humanos veneram sacerdotisas, eles não te espancariam.
- Simples, eu não sou uma sacerdotisa. Preciso ser uma dessas insuportáveis santinhas para saber das coisas?
- Não sei, precisa?
- Sou a prova que não. – ela respondeu de maneira um tanto quanto orgulhosa. – Falando sobre isso, eu acho bom você ir embora. Acho que seu plano não deu certo.
- O quê? – perguntei confuso.
Ela revirou os olhos e cruzou os braços.
- Seu pai está furioso, não está percebendo ele vindo para cá?
Não respondi. Eu não conseguia perceber, mas por algum motivo que eu não conseguia entender eu acreditava naquela garota estranha.
- Se eu fosse você já teria ido faz tempo. – ela repetiu.
- Ora, cale a boca, sua humana imunda. - retruquei
- Você está com medo.
Eu, que já estava indo embora, virei-me para encará-la e para minha surpresa ela sorria, na minha cabeça ela estava rindo de mim. Revirei meus olhos e respirei fundo, voltando para onde eu estava antes.
- Não fale besteiras. – resmunguei.
Ao chegar perto da garota notei que seu sorriso na verdade era para esconder o nervosismo que ela estava sentindo, encarei-a desconfiado e percebi que para mim seus olhos não tinham cor nenhuma, se assemelhavam a uma vermelho que conclui ser o reflexo do sangue espalhado pelo meu corpo. E por algum motivo, naquela hora, eu entendi que eu não podia deixá-la lá para morrer, meu pai estava bravo comigo e ela não tinha nada a ver com aquilo. Esfreguei meu rosto de maneira impaciente e puxei-a pelo braço, fazendo-a apoiar-se nas minhas costas.
- Segure-se. Se você cair eu não voltarei para pega-la!
Ela apenas se agarrou nas minhas costas e não disse mais nada e como se finalmente eu voltasse a ser eu mesmo pude entender sobre o que ela estava falando. Eu era capaz de sentir meu pai vindo em nossa direção, emanando uma fúria que eu jamais vira, não voltada contra mim. Corri o mais rápido que pude mesmo sabendo que isso jamais seria o bastante para escapar e naquela hora eu me perguntei do que exatamente eu estava tentando escapar. Apesar de tudo ele era meu pai, não me mataria, talvez fugir só fizesse com que seu ódio por mim aumentasse, ódio esse inexplicável para mim.
Claro que hoje eu sei que o motivo da minha fuga era aquela garota e eu só percebi isso quando senti a respiração do meu pai na minha nuca e a dor logo em seguida, eu não pensei em me defender ou contra atacar, eu só pude agarrar a garota evitando que o impacto da queda fosse todo para ela. Sim, eu estava protegendo-a.
Devo dizer que o soco que levei na costela me desnorteou, eu não tinha muita noção do que acontecia ao meu redor, a única coisa que eu tinha em mente era sair dali o mais rápido possível e salvar aquela maldita garota. Olhei aflito para o meu pai antes de levantar e tentar fugir inutilmente, ele gargalhou parecendo se divertir com aquela minha reação, ignorei os arrepios que aquilo me trazia e continuei a correr sem rumo, quando achei que tinha conseguido ao menos despistá-lo diminui a velocidade, meu peito doía e eu tinha a certeza de que duas costelas estavam quebradas.
- Desista. – ela disse. – Ele nos achou.
E quando eu percebi meu pai já estava na minha frente, segurando-me pelos braços e se preparando para me arremessar, senti a garota se agarrando ainda mais nas minhas costas.
- Não está um pouco velho para brincar de pega-pega? – ele disse antes de girar meu corpo e joga-lo para longe.
Eu voei de volta para a floresta levando comigo várias árvores, eu não pude segurar a garota e ela não conseguiu continuar presa a mim e acabou voando para longe, rolando silenciosamente. Quando finalmente cai, batendo a cabeça no chão, senti o pé do meu pai no meu peito.
- Eu não estou com bom humor para brincar. – ele disse. – Faz idéia do que sua brincadeirinha vai me custar?
Claro que ignorei aquelas palavras, eu não estava preocupado com o que meu pai poderia fazer comigo, meus olhos procuravam por aquela garota. Eu tinha que salva-la. Ao perceber meu completo desinteresse nas suas palavras ele voltou-se para a garota imediatamente e sorriu.
- É isso que você está procurando?
E num piscar de olhos ele já estava ao lado dela, chutando-a como um animal morto.
- Ela é minha! – gritei irracionalmente.
- Você acha que está em condições de levantar a voz para mim? – ele perguntou cerrando os olhos.
- Ela é minha. – repeti enquanto tentava me levantar.
Ele levantou-a pelos cabelos e a arremessou contra mim, eu tentei segura-la, mas eu não tinha forças e então cai e rolei alguns metros, com ela ao meu lado. Eu não sabia dizer se ela estava acordada ou não, sabia que ainda estava viva, mas não fazia idéia de quanto tempo ela ainda agüentaria.
- Faça ao menos uma coisa certa hoje, Sesshoumaru. Mate essa coisa. – ele disse com os olhos cerrados.
Dessa vez senti meu corpo se inundando de desespero. Eu não podia mata-la, não existia maneira daquilo acontecer, eu poderia matar qualquer pessoa, qualquer um, yokai ou humano, mas não ela. Naquele instante passou pela minha cabeça que não existia motivo lógico para que ela morresse, ela não havia feito nada, talvez até tivesse tido uma vida miserável como a minha.
- Agora. – ele gritou.
Levantei e andei até o corpo dela o mais devagar que pude, eu tentava pensar em algo, alguma maneira de não mata-la, eu sabia que se eu não o fizesse meu pai faria e provavelmente de maneira muita mais cruel e selvagem do que passava na minha cabeça. Não havia escolha, acreditei que eu mata-la talvez fosse a melhor escolha, eu não a faria sofrer muito tempo. Respirei fundo me concentrando naquele pensamento e fechei meu punho, eu ouvia meu pai gritando atrás, mas não conseguia entender o que ele falava, nada ao redor parecia fazer muito sentido.
Olhei-a mais uma vez antes de fechar meus olhos e juntar toda a minha força naquele punho fechado e sem pensar duas vezes soquei. Senti o chão afundando sob minha mão. Eu não havia acertado, no último instante eu ouvi sua voz e abri meus olhos me deparando com algo que eu jamais havia visto antes, os olhos dela eram brancos. De um branco tão puro e hipnotizante que fizeram com que eu me perguntasse se eu não estava ficando louco. Foi apenas um segundo, mas ela pôde notar a minha surpresa e sussurrou:
- Era para ser você. Eu sempre soube.
E nesse instante meu mundo inteiro caiu. Tudo o que eu acreditava estava se desmoronando, eu não me importava com todos os humanos que eu havia matado até então ou com qualquer outra coisa que tenha cruzado o meu caminho e consequentemente tenha morrido, muito menos me arrependia do que fizera até então. Meu problema era ela, eu me importava com ela mais do que eu me importara com qualquer outra coisa na vida. Não era amor, eu não a enxergava como um mulher e sim como uma pessoa como eu, por algum motivo eu tinha visto naqueles poucos segundos que encarei seus olhos, todo o sofrimento pelo o qual ela passara, eu me enxergava naqueles olhos. Eu conseguia ver toda a rejeição, o medo, a vontade de agradar e ser aceita.
Fiquei naquela posição até perceber que meu pai estava descontrolado. Ele gritava e ria ao mesmo tempo, percebi naquele momento que quem morreria seria eu, não pensei em fugir, eu sabia que isso seria inútil. Fiquei parado ali com os olhos fechados esperando pela dor e ela veio impiedosamente, meu pai me pegou pelos cabelos e me arremessou contra uma rocha enorme, eu bati novamente a cabeça e senti o sangue escorrendo pela minha nuca, antes que eu pudesse me levantar ele veio em minha direção e fechou os punhos, usando-os para socar a minha cara. Ele quebrou meu nariz e rasgou meu rosto.
Nada daquilo me afetava, na verdade eu sentia nojo por ele ser meu pai e me tratar daquela maneira. Eu ignorava as ameaças de morte e as frases revoltadas, mas como eu disse no começo da história, uma delas me marcou. "Honre meu sangue, seja mais forte" foi o que ele disse. Ouvir aquilo fez o ódio que eu sentia pelo meu pai crescer dentro de mim, eu queria cuspir na cara dele o sangue que ele tanto se honrava em ter. Juntei toda a força que ainda tinha e me levantei e fui contra ele. Inutilmente, devo dizer, mas a expressão de surpresa do meu pai, ah! Isso eu nunca vou esquecer.
Aquele provavelmente foi o dia em que mais apanhei na vida, ele me atacou furiosamente como se eu fosse seu pior inimigo, mas eu não me importava, afinal de algum jeito eu havia conseguido salvar a garota. Eu olhei em sua direção e seus olhos estavam cheios de lágrimas e eu não consegui entender o porquê daquela ação. Eu não olhava para o meu pai e sim para ela e nesse instante ele parou.
- Acho que já teve o bastante por hoje, quando seu orgulho permitir venha e peça desculpas por sua infantilidade, sou seu pai e te perdoarei.
Eu gargalhei como se estivesse louco e esperei até que ele se afastasse para que eu me permitisse sentir a dor de toda aquela surra. Virei para o lado e cuspi sangue e soltei um uivo de dor, fiquei naquele estado alguns minutos até finalmente perceber que a garota também estava tossindo sangue. Me arrastei até ela, afinal ficar em pé não era uma opção para nenhum de nós naquele momento.
- Estamos péssimos. – ela disse sorrindo.
- Fale por você. – respondi grosseiramente.
- Ainda digo que estamos péssimos, – ela disse. – acho que vamos morrer. Existem vários yokais vindo para cá, o cheiro de sangue está atraindo-os.
- Isso é alguma das suas visões estranhas? – disse desconfiado. Eu não percebia nenhum yokai por perto.
- Não, eu só sei.
Revirei os olhos e respirei fundo.
- Precisamos sair daqui. – eu disse.
Ela sorriu.
- Você precisa. Eu vou morrer de qualquer jeito.
Olhei para ela e percebi que ela estava certa, ela morreria, era uma humana, não havia como sobreviver. Novamente isso me enfureceu. Eu sempre fora capaz de destruir vidas, mas agora que eu precisava salvar uma eu era incapaz. Ninguém nunca havia me ensinado como salvar alguém, me perguntei se existia mesmo um jeito de alguém como eu ser capaz disso.
- Vamos, eu te ajudo. – eu disse levantando e usando aquela palavra até então desconhecida por mim.
Abaixei-me para pega-la e percebi que seus olhos estavam desfocados.
- Hei! Está me ouvindo? Eu disse que vou te ajudar, anda, levanta!
Ela não respondeu e desviou os olhos, passando a encarar o nada. Balancei seu corpo tentando faze-la voltar a me encarar, mas algo estranho aconteceu. Para minha surpresa ela arregalou os olhos e segurou meu braço com uma força desumana, abaixou-se e grudou os lábios em um corte profundo que meu pai fizera há poucos minutos.
Bem, se ainda restava alguma dúvida sobre aquela garota ser um anjo acho que agora todas elas sumiram, claro que naquela época eu não fazia idéia, nem ela. Anjos não existiam, não como existem hoje.
Eu não sei como essa experiência foi para você, mas para mim foi incrível, conforme ela sugava o sangue eu era capaz de ouvir seu coração batendo, cada vez mais rápido e forte, eu sentia o sangue circulando no meu corpo e logo em seguida no dela, era como se fossemos uma única pessoa. Quanto tempo aquilo durou eu nunca soube, mas em determinado momento eu apaguei e quando acordei estava rodeado de yokais. Tentei levantar e encontrar a garota, mas um dos yokais empurrou-me de volta para o chão.
- Você é o Sesshoumaru, não é? – disse um deles. Ele me parecia o líder.
- Ou o que sobrou dele. – zombou outro yokai.
- Vocês quem são? – perguntei firmemente.
- Vou receber isso como uma confirmação da minha pergunta, mas confesso que esperava mais de você.
- O que você está insinuando? – retruquei cerrando meus olhos.
- Você não parece um yokai que impõe muito respeito e não saber quem eu sou diminui muito a admiração que eu sentia por você.
- E eu deveria saber quem é você?
- Era o esperado. Não é todo dia que o yokai que matou a sua querida mamãe te chama para um encontro amigável.
Isso foi uma surpresa enorme para mim, afinal eu nunca tinha sequer ouvido falar da minha mãe até então, o yokai percebeu a minha reação e sorriu.
- Mas que surpresa agradável, meu bom e velho amigo Inu-Taisho nunca falou sobre mim.
- Parece que você não é tão importante quanto acreditar ser.
Ele apenas alargou o sorriso e disse:
- Eu duvido. Acho que seria falta de educação continuar essa conversa sem me apresentar. Meu nome é Naraku, acredito que já tenha ouvido falar de mim antes.
Confesso que naquele instante senti meu sangue gelar, eu não me lembrava mais da minha mãe ou da garota ou até mesmo do meu pai, óbvio que eu o conhecia. Todos conheciam. Naraku era o único yokai que conseguia lutar igualmente contra o meu pai e muitos diziam que ele ganharia sem grandes esforços. Ele e os yokais que andavam com ele tinham a fama de ser o bando mais cruel de todos os tempos, eles não tinham escrúpulos nenhum, faziam aquilo que eu e meu pai normalmente desprezávamos. Estupravam sacerdotisas e crianças, empalavam guerreiros, torturavam humanos por meses, matavam familiares e obrigavam os vivos a comerem a carne dos parentes mortos. Para mim, Naraku beirava a insanidade.
- Vejo que meu nome soa mais familiar a você. – ele continuou estranhamente amigável.
- Qual o seu interesse na minha família? – perguntei tentando disfarçar meu nervosismo com aquela situação. – Quero dizer, você é o pior inimigo do meu pai, matou minha mãe e agora quer conversar comigo?
- Meu problema com seus pais é outro. – ele disse balançando a mão distraidamente. – Já você... Eu acho você um garoto promissor, mas está sendo mal aproveitado.
- Você acha, é? – disse dando os ombros.
- Essa coisa de filho é incrível mesmo. – disse Naraku rindo e eu achei aquele sorriso bem verdadeiro. – Você é a cara da sua mãe, mas tem a arrogância e o gênio do seu pai.
- O que quer de mim?
- Eu quero que se junte a nós. Eu já disse, acho você um garoto promissor, mas está sendo mal aproveitado. Talvez seu papai não consiga lidar com o fato de você ser igualzinho a mulherzinha dele e por isso está deixando de lado um yokai poderosíssimo.
- E o que você ganharia com um garoto de 16 anos filho do seu inimigo no seu bando?
- Ganharia o sangue do seu pai e o sangue da sua mãe. – ele disse de maneira sensata. – Talvez você não saiba, mas a sua mãe era tão poderosa quanto eu ou o Inu-Taisho, ela só foi burra. O amor faz isso com as pessoas, aprenda isso desde cedo.
- Porque está me falando isso?
- Eu vi o que fez por aquela garota. Estúpido, mas corajoso.
Arregalei meus olhos, aquela tensão havia feito com que eu me esquecesse sobre ela.
- Onde ela está? – perguntei mais desesperado do que gostaria.
- Sua namorada é uma garota interessante, - ele disse de maneira pensativa. – ela ficou ao seu lado até chegarmos e garantirmos que você ficaria bem. Disse que não deveríamos atacá-la e que se algo acontecesse com você ela viria pessoalmente e mataria um por um.
- Ela não é minha namorada. – retruquei infantilmente.
- Seja lá o que ela for, é uma garota interessante e com poderes tão interessante quanto. - ele disse. – Mas voltando à minha proposta, o que tem a dizer? Vi o que fez naquele vilarejo e ao contrário seu pai, aprecio sua ambição.
Você deve imaginar que aquela foi a frase que me convenceu. Naquele momento eu odiava meu pai mais do que achei que seria capaz de odiá-lo um dia, a frase que ele dissera para que eu fosse forte ecoava na minha mente e me instigava a aceitar aquela proposta. Eu queria ofender meu pai, queria humilhá-lo e fazer com que ele se sentisse exatamente como eu me sentira enquanto ele me espancara.
- O que tem para me oferecer?
Ele sorriu vitorioso, sabia que eu havia aceitado.
- Tudo o que eu sei. – respondeu.
- Parece interessante para mim. – eu disse.
Eu não imaginei que ele realmente me ensinaria tudo o que sabia, mas Naraku levou a sério a proposta que me fizera. Em menos de três anos ao seu lado eu já havia me tornado um yokai tão poderoso quanto ele, eu nunca soube do meu pai ou da garota, embora tivesse procurado-a por todos os lugares. Naraku tinha visto um potencial em mim que nem mesmo eu havia conseguido ver, ao lado do meu pai a única coisa que eu conseguia ver em mim mesmo era a sombra gigantesca do poder dele. No bando do Naraku isso não existia, a verdade é que lá eu era muito mais feliz do que jamais fora ao lado do meu pai, a fama que eles tinham de assassinos impiedosos era apenas um monte de boatos; eles faziam as mesmas que o bando do meu pai fazia. Não existia estupro ou canibalismo de familiares.
Pela primeira vez eu sabia quem eu era e a onde eu pertencia, Naraku me falara sobre minha mãe e sobre como ele tinha amado-a e perdido-a para o meu pai, eu não conseguia odiá-lo por tê-la matado, afinal, eu sequer tinha conhecido-a. A morte dela não me afetava, saber quem ela tinha sido já era o bastante para mim. Os outros yokais do bando não se importavam com a minha presença e acreditavam que eu era um bom reforço, afinal, eles sempre eram atacados por outros bandos.
Nossa convivência foi pacífica e até certo ponto, reconfortante. Eu me sentia poderoso e a confiança de Naraku em mim só me deixava mais orgulhoso do que eu me tornara. Foi ele quem me ensinou a matar de verdade, a aproveitar cada segundo da sensação de tirar um vida, você certamente não compreende o prazer que isso trás, deve sentir nojo de si mesma, mas para mim, depois que compreendi o que era a morte, matar se tornou a coisa mais prazerosa do mundo.
Nós não tínhamos um lugar fixo, vivíamos viajando sempre na mesma direção, era como se algo nos puxasse para aquele lugar. Após quatro anos andando encontramos o lugar que nos atraía, era um vilarejo isolado nas montanhas onde só existiam mulheres. Todas elas maravilhosas; incríveis e por alguma razão que a gente não entendia elas exerciam um poder descomunal sobre nós. Era como se existisse um ímã nelas que nos atraía e não deixava que virássemos para outro lado.
Eu não gostava daquela sensação, não gostava de não ter controle do meu corpo, mas todos os outros logo se renderam. Em pouco tempo o vilarejo se tornou um antro, os yokais e aquelas mulheres se atraíam de tal maneira que o sexo entre eles era inevitável. Era uma coisa estranha de se ver, não existia qualquer tipo de sentimento naqueles atos, só o desejo e o impulso, eu não conseguia entender como meus companheiros conseguiam agir daquela maneira. Eu e o Naraku nos mantínhamos afastados, acho que ele também não entendia muito bem o que era aquilo.
Nós queríamos partir, até que a avistamos. Eu a reconheceria em qualquer lugar do mundo e a sensação de atração foi tão avassaladora em mim que me vi obrigado a ir até ela. Ao me ver ela sorriu verdadeiramente e disse:
- Você cresceu.
- E você sobreviveu. – eu disse meio abobalhado.
- Bem, sim, graças a você. – ela disse sorrindo. – Obrigada.
- Eu te salvei e não sei o seu nome.
- Midoriko.
- Eu sou Sesshoumaru.
Ela sorriu.
- Sim, eu sei.
Olhei para o lado e vi Naraku sorrindo de maneira abobada e me perguntei se eu também estava com aquela cara.
- Vejo que cumpriu sua promessa, Naraku. – ela disse olhando para ele.
- Na verdade, fiz mais até do que me pediu. – disse Naraku. – O transformei em um guerreiro de verdade.
- Sim, eu percebi. Ele está bem mais forte agora.
Apesar de toda a atração de ela exercia em mim, eu não sentia vontade de seguir meu desejo como todos os outros. Desde a primeira vez que a vi ela criara em mim uma curiosidade, um sentimento estranho que eu queria entender. Eu, ela e Naraku passávamos o dia conversando, ela explicou que era a líder daquelas mulheres e que após o que tinha acontecido entre nós ela resolvera ir atrás de outras mulheres como ela, que tinham poderes desconhecidos e não eram sacerdotisas. Midoriko me explicou que não sabia ainda ao certo o que era aquela atração, mas que não era a primeira vez que yokais passavam por lá e resultava naquela situação, disse que no começou ficou horrorizada, mas com o tempo passou a aceitar e entender que fazia parte do que todas elas eram.
Eu demorei a perceber, mas entre o Naraku e a Miroriko existia algo, algo diferente do que existia entre nós. A maneira como eles se olhavam era quase apaixonada, então eu reparei nos outros yokais e nas outras mulheres e percebi que eles também não estavam mais só ligados por desejos e sim por algo maior. Eu não queria perdê-la para o Naraku, mas eu o respeitava demais para interferir, logo minha única opção era me afastar e foi o que eu fiz. No meio da noite, enquanto todos dormiam, eu fui embora. Sem olhar para trás.
Sim, eu sei que pode parecer uma atitude estranha e covarde, mas como eu já disse anteriormente, não existia amor entre eu e a Midoriko, era sim compreensão, preocupação, cumplicidade, mas não amor. Eu sempre soube que a nossa ligação era mais forte, talvez por causa da história de eu ter salvado-a com o meu sangue, só ao lado dela eu percebi como aquilo me afetava, às vezes era como se eu a ouvisse dentro da minha mente. Eu não estava disposto a participar de um triangulo amoroso, ainda mais um em que eu não amava. Fugir foi a melhor coisa que eu fiz.
Embora eu tivesse fugido, a atração que aquele lugar exercia em mim me impedia de ir para longe por muito tempo, por mais que eu fosse, eu me sentia obrigado a voltar. Eu não buscava notícias dos yokais e não procurava outro bando, eu não queria que ninguém encontrasse o vilarejo e atrapalhasse o que estava acontecendo lá, então, eu meio que me tornei um vigia velando pela segurança da Miroriko e do Naraku. Foi quase um ano e meio vivendo dessa maneira, até que um dia em que eu tentei me afastar senti que eu precisava voltar, urgentemente.
Quando cheguei perto do vilarejo percebi que algo estava errado, algo dentro de mim estava inquieto, olhei para o céu e somente naquela região as nuvens negras faziam chover, meu impulso foi correr para lá e ver o que estava acontecendo, mas uma voz na minha cabeça me impediu.
- Sesshoumaru, não. Dê meia volta, vá embora, fuja enquanto você ainda pode. – disse Miroriko.
Meu instinto protetor se ativou com aquela voz, mas eu não conseguia me mover, era como se uma força me empurrasse para trás. Hoje eu sei que era a Midoriko me protegendo, mas na hora eu achei que o medo é que tinha me paralisado. Lembro de tentar chegar até o vilarejo, mas antes que eu pudesse meu corpo se inundou de dor e era como se eu estivesse morrendo, me esforcei para me manter em pé, mas a minha vista ficou embaçada e então eu desmaiei.
Quando acordei um vazio dominava meu peito, eu não precisei – e não quis – ir até o vilarejo para descobrir o que tinha acontecido. Todos estavam mortos, a vida calma que eu tentara proteger aquele tempo todo tinha virado pó, algo tinha dado errado e eu não tinha coragem de ir atrás para entender. Eu senti o cheiro de outros yokais e conclui que o problema tinha sido esse, era mais cômodo pensar assim.
Mais uma vez, virei as costas e fugi sem olhar para trás.
Não sei se você conseguiu fazer as mesmas ligações que eu fui fazendo ao longo dos anos, mas hoje eu percebo claramente que tanto meu pai quanto o Naraku haviam percebido logo de cara que Midoriko não era humana, porém o sentimento que ela despertou nos dois foi completamente diferente. Meu pai temeu aquele poder desconhecido e por isso disse para eu matá-la, ele sabia que não conseguiria; muito menos eu. E esse era o motivo de toda aquela raiva, não existia mal algum no meu ataque ao vilarejo, aquilo não causaria problemas para ele, mas a idéia de eu defender uma mulher que poderia bater de frente com ele o deixava louco. Por isso ele não a matou e disse que eu poderia voltar a andar com o bando.
Já o Naraku... Bom, eu acredito que ele tenha tido uma atração verdadeira, assim como a minha e a da Rin, eu nunca soube se a intenção dele fora me criar desde o inicio ou se algo havia mudado depois do encontro com Midoriko. O engraçado dessa situação é que naquela época eu jamais poderia imaginar que aquela garota que eu me empenhei tanto em salvar seria um dos seres mais poderosos que eu encontraria na minha vida. A Midoriko era um anjo branco, o mais puro de todos e ao contrário das que a sucederam, manteve a sanidade até os últimos segundos da vida. A verdade é que era mais fácil ela ter me salvado do que o contrário.
Mas voltando a minha história.... Eu vivi muitos séculos sem encontrar mulheres como aquelas, eu acreditava que todas tinham morrido com a Miroriko, meu pai que voltara a falar comigo e agora, misteriosamente mantinha um orgulho ridículo de mim, sempre me perguntava o que tinha acontecido com Naraku e os outros e eu nunca contei. Eu sempre achei que o que acontecera no vilarejo deveria ficar lá, ainda mais quando não existiam mais mulheres como Miroriko para causarem aquele efeito em qualquer yokai que fosse. Em determinado momento da minha vida eu não agüentei mais viver com meu pai e passei a andar sozinho, eu praticava aquilo que o Naraku havia me ensinado e também aprimorava o que eu mesmo aprendera a fazer sozinho, eu havia me tornado um yokai forte e independente, eu tinha a minha própria fama e não era mais o filho do Inu-Taisho, eu era Sesshoumaru e isso era o suficiente para amedrontar as pessoas.
Certa vez eu encontrei uma cidadezinha e algo naquele lugar ascendeu minha sede de sangue, como há muito tempo eu não fazia, ataquei o lugar sem motivo algum, apenas pelo prazer de sentir a vida se esvaindo pelas minhas mãos. Aquele ataque fez com que eu me lembrasse de tudo o que acontecera no passado, sobre Midoriko e as mulheres e assustei-me ao perceber que assim como acontecera naquela vez, alguém falava comigo. Procurei pela voz e sorri maldosamente ao perceber que era apenas um velho.
- O que você está resmungando, velhote? – disse maldosamente.
Ele cerrou os olhos e apontou para mim.
- Você vai se arrepender disso, demônio! – ele disse. – Nós conhecemos um anjo e ele nos prometeu proteção! Sua hora vai chegar e você vai se arrepender!
- Era só o que me faltava, um velho louco. – eu disse enquanto gargalhava.
Ele falou em alguma língua estranha e eu o matei logo em seguida. Olhei ao redor e percebi que não havia mais nada para mim naquele lugar. Eu nunca levei a sério o que aquele velho falara, eu realmente acreditava que ele era louco e não sabia o que estava falando, isso até perceber que pouco tempo depois do ataque alguém estava me seguindo. Eu reconhecia aquela sensação, eu reconhecia aquele cheiro, mas achei que estava ficando louco. Aquelas mulheres não existiam mais, todas elas tinham morrido naquele dia.
Não demorou muito tempo para eu perceber que quem estava me seguindo era uma garota, lembro de ficar impressionado com a semelhança dela com a Midoriko, mas eram as diferenças que instigavam a minha curiosidade. Ela não tinha aquele olhar desafiador, pelo contrário, as feições dela eram meigas e me lembravam muito uma criança humana que teve uma vida boa. O fato dela apenas me seguir sem jamais se aproximar me deixava inquieto, eu queria saber quem ela era, porque ela estava me seguindo, como ela havia sobrevivido. Eu lutava tentando manter meu orgulho, mas como você bem sabe, no fim, a atração sempre ganha. Certa vez, enquanto ela me seguia virei-me para trás e parei, cruzando os braços. Ela arregalou os olhos e caiu para trás, parecendo assustada, lembro de sentir vontade de rir, mas apenas cerrei os olhos e apontei para ela.
- Você! O que quer de mim?
Ela sentou no chão e começou a tirar as folhas secas que estavam presas no seu cabelo, após tirar todas ela virou os olhos para mim, logo em seguida os cerrando.
- Não assuste as pessoas! – ela disse irritada.
- Como se uma mulherzinha como você pudesse me dar ordens. – eu respondi. – Ainda não me respondeu o que quer de mim!
- Porque um yokai tão estúpido, meu Deus? – ela resmungou e logo se voltou para mim. – Eu não quero nada de um yokai grosso como você, na verdade, eu gostaria de entender o que leva alguém a destruir uma cidade inteiro sem motivo nenhum!
Só naquela hora eu lembrei das palavras do velho e dessa vez eu não pude conter meu riso. Eu olhei para a garota sentada no chão com cara emburrada e gargalhei.
- Então quer dizer que você é o anjo que vai vingar aquelas pessoas?
Ela ficou vermelha e virou o rosto.
- Não tenho nada a ver com essa história! – ela disse.
Eu me sentei ao lado dela e arqueei a sobrancelha.
- Como foi que você escapou? E da onde veio essa história de anjo?
Ela virou o rosto para mim com uma expressão curiosa e disse:
- Escapei? Escapei da onde? Você me conhece?
- Daquela noite onde todos morreram, você não se lembra? – eu perguntei confuso.
- Eu não sei do que você está falando, provavelmente está me confundindo com outra pessoa, todas nós somos parecidas mesmo. – ela respondeu em um tom frustrado e logo depois balançou a cabeça fechando a cara. – Mas peraí, porque eu estou aqui batendo papo com você? Eu tenho que te matar!
- Me matar? E porque você me mataria?
Ela revirou os olhos e levantou-se.
- Porque você é um yokai, não é óbvio?
- Não! – eu retruquei. – Na verdade, isso não faz o menor sentido.
Ela balançou a mão impacientemente e disse:
- Você não sabe nada sobre mim? Nunca ouviu falar sobre anjos?
- Não. – eu respondi.
- Sesshoumaru, você não pode estar falando sério! – ela disse. – Todos os yokais já sabem sobre nós, está tendo uma guerra ai entre as nossas espécies!
- Duas coisas. Primeiro: como você sabe meu nome? Segundo: guerra entre espécies? Que droga é essa?
- Eu sei muito sobre você, afinal, você é minha missão. – ela disse sorrindo parecendo orgulhosa e voltou a sentar-se ao meu lado. – Sinceramente eu acho que você merece entender o motivo de eu ter de matá-lo, antes de tudo meu nome é Rin e como você disse, eu sou um anjo. Não que eu seja um anjo de verdade, é só um nome idiota mesmo, mas nós temos a missão de proteger os humanos de demônios como você, nada pessoal, mas você é um assassino maníaco e louco e é potencialmente uma ameaça ao pacifismo entre as espécies. Talvez você não saiba, mas existem projetos de unir os yokais e os humanos, sabe? Parar com essa coisa de gente se matando sem motivos. E é ai que nós entramos, somos as únicas que podem lidar com yokais sem correr riscos muito sérios, quero dizer, estamos aqui conversando numa boa, não estamos? Acho que se fosse com qualquer outra pessoa você já teria matado-a, falar não é muito o seu forte, né?
Lembro de prestar pouca atenção no que ela estava falando, porque na hora eu só pude pensar em como aquela garota não fechava a boca um minuto, ela ficou horas me falando sobre anjos, yokais e humanos, sobre como era ser um anjo, sobre como sua vida era estranha e sem sentido, sobre como ela preferia não matar yokais e na hora eu entendi que ela não tinha sobrevivido àquele dia. Algo havia acontecido com aquelas mulheres, elas tinham voltado, mas não como eram antes. Não existia a compreensão do que era aquela atração ou do porquê de exercerem influência nos yokais, toda a existência delas estava baseada em uma filosofia sobre "humanos são santos e yokais são a desgraça do mundo e merecem ser exterminados".
Era estranho acompanhar de perto a confusão pela qual Rin passava, após aquela conversa nós começamos a andar juntos, ela dizia que precisava ficar de olho em mim até receber as ordens da sua superiora para finalmente me matar e como já tínhamos nos apresentado não seria um problema ficarmos juntos, segundo ela era impossível que gostássemos um do outro, mesmo que como amigos. Desde criança ela fora ensinada que anjos e yokais jamais poderiam conviver pacificamente, porque eram inimigos naturais, mas ela parecia não acreditar cegamente naquela história. Por vezes ela se repreendia por estar conversando amigavelmente comigo e sumia por algumas horas e depois voltava dizendo que eu não deveria confundi-la daquela maneira, afinal se eu continuasse atrapalhando sua missão ela seria obrigada a me matar antes da hora.
Eu confesso que no começo a achava irritante, eu não compreendia de onde ela tirava tantas besteiras, eu tinha visto Midoriko e Naraku, ou melhor, eu tinha visto a compreensão mutua que existia entre eu e ela, a ligação que tínhamos, isso sem falar em todos os outros yokais e 'anjos' que viviam pacificamente naquele vilarejo. Como eu disse anteriormente, eu preferia não estar lá e conviver com aquilo, mas graças a ligação que eu tinha com a Midoriko eu sabia que eles eram felizes, que finalmente os yokais tinham encontrado parceiras ideais, talvez você não saiba, mas há muitos anos atrás os yokais não tinha interesse em humanas como agora. Hoje existe toda essa história de amor, mas quando eu era jovem os yokais precisavam procriar, fazer sua linhagem se perpetuar, eram poucas as vezes que yokais se juntavam por amor, geralmente era interesse mútuo de ter filhos com um sangue forte, logo, humanas não passavam de brinquedos. Qual a utilidade de uma mulher incapaz de procriar?
Nunca questionei de onde ela tirava todas aquelas histórias e também não comentei sobre tudo o que eu tinha visto no passado. Com o tempo eu me acostumei com a presença da Rin e toda a sua faladeira, quando ela estava distraída – e isso acontecia com muita freqüência – eu ria sozinho das ameaças de morte que ela fazia. Nunca achei que de fato ela me mataria, porque eu também não conseguiria mata-la, ao mesmo tempo que ela me lembrava a Midoriko, ela era completamente diferente. Em determinado momento eu percebi que o que eu sentia pela Rin era um sentimento estranho, uma espécie de preocupação possessiva. Ela atraía muitos yokais, no começo isso não me incomodava, eu achava engraçada a irritação dela com aquilo, mas após alguns meses eu não suportava mais a idéia de outro yokai colocando os olhos em cima dela.
Certa vez, enquanto comíamos, perguntei para ela:
- Porque tantos yokais te perseguem?
Ela revirou os olhos e suspirou.
- Isso é mesmo um saco. É culpa do que eu sou, é tipo uma defesa estúpida, por exemplo, você não me mataria, estou certa?
Eu ergui a sobrancelha e a encarei.
- Está?
- Você sabe que estou. – ela disse de maneira confiante. – Se quisesse me matar já teria o feito, lembre-se que eu sei tudo sobre você. Conheço a sua fama.
É claro que ela estava certa, eu jamais encostaria um dedo nela, mas eu nunca fui bom com provocações. Esperei que o sorriso vitorioso sumisse dos seus lados e quando ela piscou voei em sua direção e a segurei pelo pescoço, forçando meu sorriso mais maníaco. Para minha surpresa ela não ficou nervosa ou com medo, apenas olhos nos meus olhos e disse firmemente:
- Me solte.
O que eu senti naquela hora foi inexplicável, era como se eu não tivesse poder nenhum no meu corpo, como se não pudesse mais controlar meus braços. Ela sorriu novamente e isso só aumentou minha raiva, me esforcei para não ceder.
- Sesshoumaru, me solte. – ela repetiu.
- Eu não vou te soltar. – eu disse rangendo os dentes.
- Eu estou mandando.
- Eu não vou te soltar. – dessa vez era eu quem estava repetindo. – Nunca.
E nessa hora não sei quem se surpreendeu mais com a minha ação, quando eu percebi eu já estava beijando-a. E só naquele momento eu compreendi como eu a desejava, eu entendi a irritação que aqueles yokais causavam em mim, a preocupação exagerada que eu sentia. Naquele momento eu percebi que eu desejava a Rin como eu nunca tinha desejado nada na minha vida antes.
Ela ficou imóvel, com os olhos arregalados e quando eu me afastei pude sentir o peso da sua mão no meu rosto. Ela parecia furiosa, seus olhos estavam cheios de lágrimas e só ali eu notei quão azuis e encantadores eles eram.
- Você é nojento! – ela gritou. – Eu tenho nojo de você, Sesshoumaru. Eu sempre soube que yokais eram baixos, mas você? Você superou todos eles!
E então ela mordeu o lábio até ele começar a sangrar, me encarou e disse:
- Eu não quero que você se aproxime de mim nunca mais e isso é uma ordem!
Eu a encarei e não consegui falar ou agir, não porque ela ordenara, mas porque eu não conseguia lidar com aquela reação. Antes de conhecer a Rin eu estive com muitas mulheres, tanto humanas quanto yokais e também tive muitas delas atrás de mim e nunca algo parecido tinha acontecido. Ela parecia realmente enojada.
Ela ficou ali me encarando com aqueles olhos azuis enormes por alguns minutos, talvez esperando alguma reação que fosse, mas meu orgulho não me deixou fazer nada além de cuspir besteiras em cima dela.
- Idiota. – eu disse dando nos ombros. – Como se eu quisesse encostar em você de novo. Você não passa de uma criança insuportável, te fiz um favor, deveria me agradecer.
Os olhos dela se arregalaram e eu percebi algo muito parecido com mágoa neles, mas apenas me virei e a deixei para trás. Eu esperava que ele me seguisse, falando a verdade, eu tinha a certeza de que cedo ou tarde ela apareceria atrás de mim com aquela história idiota de missão, mas o tempo foi passando e ela não voltava. Aquilo me deixava enfurecido, eu me perguntava como eu tinha me tornado tão fraco, me preocupar com uma garota como a Rin era o tipo da coisa que eu jamais faria, em outros tempos eu a teria matado sem pensar duas vezes.
Claro que tentei esquece-la, procurei por outras mulheres e até cheguei a me iludir, acreditando que aquele beijo tinha sido só um impulso, um ato impensado. Eu não a procurei, pois meu orgulho não permitia, mas vez ou outra eu era capaz de sentir a presença e o cheiro dela, eu era atraído de maneira quase irreal até onde ela estava, mas eu nunca cheguei a ir até ela. No fundo eu tinha medo de perceber que eu me importava mais do que deveria. Eu ignorei veemente todas as vezes que meu desejo se juntava à atração e praticamente me obrigavam a ir ao encontro da Rin, mas daquela vez foi diferente. Eu percebi que algo estava errado, eu conseguia sentir em cada parte do meu corpo que ela estava em perigo, mas eu sabia que ela conseguiria se virar sozinha e também existia aquela maldição estúpida em que ela me obrigava a nunca mais me aproximar, aquilo de alguma maneira funcionava e eu agradecia por isso.
Fui capaz de ignorar os avisos que meu corpo me dava sobre o perigo, mas não o grito dela. Eu estava quase conseguindo me afastar, quando a voz desesperada da Rin me atingiu e me paralisou.
- Eu mandei você parar! – ela gritava.
- Você é uma humana engraçada. – respondeu uma voz grave em meio a gargalhadas.
Na mesma hora eu dei meia volta, eu queria ir embora, queria que alguém sumisse com aquela garota da minha vida, mas eu não era capaz, uma coisa desconhecida dentro de mim me guiava até seus gritos. Porém, quando eu cheguei perto o bastante para ver o que estava acontecendo eu senti meu corpo travando, era como se milhares de cordas me puxassem para trás e me impedissem de chegar até os dois. Nunca vou me esquecer do que vi naquele momento, um yokai estava em cima da Rin e ela estava com as roupas rasgadas, ela se debatia enquanto ele ria. A imagem da primeira vez que vi a Midoriko se fez presente na minha mente e isso só me deixou mais descontrolado, eu tentava me aproximar, eu tentava gritar, mas era inútil. De alguma maneira eu estava mudo e preso à algo que eu não fazia idéia do que era.
O yokai abaixou-se e começou a beijar o pescoço dela e no mesmo instante ela parou de se debater, era como se tivesse desistido de lutar, virou a cabeça para o lado e de seus olhos começaram a escorrer lágrimas. Eu assistia aquilo horrorizado e lutava contra as amarras que me prendiam esperando que qualquer um dos dois me notasse, mas era como se eu não estivesse ali. Lembro de fechar meus punhos e meus olhos tentando encontrar um meio de me livrar daquela situação, o silêncio vindo da Rin me desesperava mais do que seus berros.
- Merda! – eu gritei e por algum motivo virei meus olhos para o céu. – Por favor, Midoriko, não faça isso de novo comigo! Não me impeça de salva-la assim como me impediu de te salvar!
Um relâmpago brilhou no céu e logo em seguida o som do trovão atraiu a atenção do yokai e da Rin e quando ela me viu, voltou a se debater e gritar. O yokai deu um tapa no seu rosto e disse:
- Achei que já tinha aceitado que não tem chances contra mim!
E então eu lembro apenas de sentir meu corpo se libertando e da voz da Miroriko na minha mente dizendo para eu não decepciona-la, como todos os outros haviam feito. Eu voei em cima do yokai e eu não sei ao certo o que fiz com ele, eu estava fora de controle como há muito tempo não ficava, eu não via nada ao meu redor, eu não sentia nada além de uma imensa vontade de matar e eu provavelmente sairia dali e mataria mais se a Rin não tivesse me impedido. Quando não existia mais nada daquele yokai para que eu destruísse me virei para a estrada e ia em direção à cidade.
- Sesshoumaru, aonde você vai? – ela disse e eu pude perceber o medo em seus olhos.
Eu não respondi, meu sangue ainda estava borbulhando de ódio, sabia que qualquer coisa que falasse seria idiota. Balancei a cabeça e voltei a andar.
- Sesshoumaru... – ela disse e então começou a chorar. – Você está tão bravo assim comigo? Por favor, me desculpe, não vá embora, eu preciso de você.
Virei meus olhos em sua direção e foi como se todo o ódio que eu senti sumisse no mesmo instante, eu sequer conseguia me lembrar do motivo de estar tão furioso. Eu só queria estar ao lado dela.
- Do que está falando? – eu respondi confuso.
- Eu estou com tanto medo, eu não sei o que está acontecendo. – ela disse e então soltou um soluço alto. – Eu esperei que você viesse me procurar e você nunca veio, eu tentei falar com as outras, mas todas elas sumiram!
Suspirei e andei até ela, sentando-me ao seu lado, eu a encarei seriamente e só naquele momento eu notei como ela tinha mudado. Ela parecia pelo menos cinco anos mais velho, seu corpo antes infantil agora era de uma mulher adulta, ela estava mais alta, seu cabelo estava maior e seus olhos mais azuis do que nunca. Eu não pude deixar de sorrir ao notar aquilo e a abracei, colocando sua cabeça em meu peito e acariciando seus cabelos.
- Desculpe por isso, agora eu estou aqui, está tudo bem.
Não entendo muito bem as mulheres, mas ao ouvir aquilo ela se agarrou em mim e começou a chorar. Ficamos daquele jeito por horas até que ela se acalmasse e então adormecesse no meu colo. Quando acordou no dia seguinte pareceu não acreditar que eu ainda estava ali, eu só sorri e disse:
- Bom dia.
Ela não respondeu nada e continuou ali em silêncio por um tempo, até finalmente criar coragem para perguntar.
- Como você conseguiu se aproximar de mim?
- Sua macumba não foi tão forte assim. – eu disse dando nos ombros.
- Você está mentindo. – ela disse. – Eu percebi você por perto várias vezes, mas sempre que se aproximava demais você logo se afastava.
- Me afastei porque não queria te ver. – respondi sinceramente.
Ela mordeu o lábio e me encarou.
- Desculpe, eu não queria dizer aquelas coisas...
- Eu sei que não, quero dizer, agora eu sei que não. – respondi sorrindo. – Você não sabe mesmo o que está acontecendo?
Ela balançou a cabeça negativamente e fez cara de duvida, embora tivesse uma aparência mais adulta, para mim, ela continuava com o jeito de uma criança.
- Você está sem seus poderes, não é? Por isso aquele yokai não se afastou de você quando você pediu. – eu disse.
- Isso começou quando eu comecei a envelhecer. Eu não sou mais um anjo?
- Não, você só está apaixonada.
No mesmo instante ela ficou vermelha e virou o rosto.
Bem, imagino que você deve estar se perguntando o que isso significa exatamente, eu não te contei tudo o que sei sobre os anjos porque achei que era melhor contar ao longo da história. Pouco antes de partir do vilarejo da Midoriko eu percebi que o influencia que as outras mulheres exerciam em mim era mínima e por algum motivo estranho todas elas pareciam estar envelhecendo de maneira muito rápida. O que me atraia naquele lugar era apenas a Midoriko, você tem uma ligação de sangue, compreende quão profundo isso é, mesmo que eu quisesse, jamais me livraria da Midoriko. Vivendo na mente dela e nos arredores do vilarejo eu pude ver muita coisa, descobrir muito sobre a convivência de anjos e yokais, muito mais do que qualquer outra pessoa no mundo saiba hoje em dia. O motivo de isso acontecer eu nunca compreendi totalmente, nunca fez sentido para mim, mas quando vi as mudanças no corpo da Rin eu sabia o que estava acontecendo.
- Eu não sei do que você está falando! – ela disse encarando o chão.
- Elas não te explicaram isso? – perguntei apenas por curiosidade, eu sabia que ela não fazia idéia daquilo.
- Você está inventando isso! – ela retrucou. – Yokais e anjos são inimigos.
Perceba que vocês são doutrinadas da mesma maneiras há séculos, naquele tempo a Rin já repetia as mesmas asneiras que você repete hoje. Ao perceber a completa ignorância da Rin sobre o que ela mesma era eu contei para ela exatamente a mesma história que estou contando para você, mas com todos os detalhes que eu conseguia lembrar do que se passava na mente da Midoriko e sobre o que ela pensava sobre ser o que era. A Rin ficou em silêncio o tempo todo, sem questionar absolutamente nada, quando terminei ela cruzou os braços e me encarou.
- Então é isso... – ela resmungou.
- Isso o que? – perguntei confuso.
- Desde a primeira vez que eu te vi eu percebi algo de estranho em você, algum tipo de ligação com o passado. Eu sempre soube que era uma mulher!
- Isso é ciúmes?
- Não, é raiva mesmo. – ela disse irritada. – Como você passa tanto tempo comigo e não me conta essas coisas? Agora eu me sinto uma idiota por ter falado tanta besteiras. Eu sempre achei essa história de anjos muito estranha, quero dizer, qual o sentido em eu atrair yokais apenas para ser capaz de me defender ou de mata-los? Até tentei questionar de onde vinha tudo isso, se existia algum livro sagrado dos anjos ou qualquer porcaria do tipo, mas obviamente ninguém me respondia nada. Tenho quase certeza que nem elas sabem de onde vem tudo isso... E pensando nisso, foi por isso que você me perguntou como eu tinha escapado daquela noite, não foi?
- Era engraçado ver você falar com tanta convicção sobre algo que não fazia o mesmo sentido e sim, foi por isso que eu perguntei.
Ela me deu um tapa no braço e fechou a cara.
- Isso não teve graça nenhuma, idiota.
Após isso nós voltamos a andar juntos, não como namorados, amantes ou qualquer coisa do tipo. Nós só aproveitávamos a companhia um do outro, para mim a experiência de compartilhar meus pensamentos com outra pessoa era uma novidade e ela provavelmente estava aproveitando o fato de poder estar ao meu lado sem culpa. Nossa vida foi calma por poucos anos, até meu pai descobrir que eu estava andando com uma "humana", á partir desse momento a caçada começou e ele nos perseguia o tempo todo, mesmo após séculos ele insistia no sermão de honrar o sangue e para ele, eu estar como uma humana era o mesmo que sujar o precioso sangue que ele lutou anos para manter limpo. É, meu pai conseguia piorar com o tempo.
A Rin parecia não se importar com aquela perseguição incessante e encarava tudo com bom humor, ela dizia que como não tinha uma sogra sobrava para o sogro o papel de vilão. Devo dizer que ela chamava meu pai de sogro antes mesmo de termos qualquer tipo de relacionamento, era uma espécie de provocação dela. Ao menos para mim essas eram as partes mais marcantes da personalidade dela, o bom humor e mania de me provocar. Por um tempo a perseguição foi divertida, eu tinha desculpas para matar yokais sem ser repreendido pela Rin, ela costumava dizer que a única coisa que odiava em mim era essa minha sede de sangue e que um dia ela conseguiria cura-la. Fazia parte do programa "Reabilitação de yokais maníacos e psicopatas por Rin".
Com o tempo eu acreditei que pai tinha desistido de nos perseguir e voltamos a passar as noites conversando como fazíamos antes, não era preciso fazer vigia; podíamos relaxar. Em um desses dias, em volta da fogueira ela me perguntou:
- Você amou a Midoriko?
- Provavelmente de um modo diferente do que você pensa.
- Não se arrependeu de ter ido embora? Talvez se tivesse levado-a embora com você ela estivesse viva.
- Eu pensei nisso muitas vezes e todas as vezes que pensava me arrependia.
- Não se arrepende mais?
- Me arrependo de não ter tentado voltar para o vilarejo, mas não de ter deixado-a aos cuidados do Naraku. Ela foi feliz e isso é o que importa.
- Faz sentido...
- Se eu não tivesse aberto mão dela não teria te conhecido. Acho que era para ser assim, eu tive de passar por tudo aquilo para poder estar com você hoje.
Ela sorriu satisfeita e deitou-se no chão, olhando para as estrelas. Ficamos em silêncio por horas até que eu finalmente criei coragem e perguntei algo que me intrigava há meses.
- Rin, quando eu perguntei antes você me disse que era só um nome, mas mesmo sendo só um nome... Da onde saiu essa história de anjos? No passado as mulheres da sua espécie não sabiam o que eram ao certo.
Ela arqueou a sobrancelha e me encarou curiosa.
- Você ainda não fez a ligação? É por causa das nossas asas.
- Asas?
- As mulheres do vilarejo não tinham asas? – ela perguntou.
- Não! – respondi confuso. – Nem você. Na verdade, eu não faço idéia do que você está falando!
Ela levantou-se e ajoelhou-se no chão, sentando em cima das pernas a virada de costas para mim, eu podia ver apenas o contorno do corpo dela contra a luz fraca da fogueira. Para mim surpresa, ela abaixou a blusa que estava vestindo, me mostrando suas costas e logo eu entendi o que ela queria dizer com asas, a marca nas costas dela era exatamente como a sua.
- É, elas não tinham asas. – disse gaguejando.
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas apenas a visão das costas da Rin já me deixava inquieto, eu queria tocá-la, beija-la, eu queria que ela fosse minha. Nunca na minha vida eu acreditei que apenas um pedaço das costas de alguém me deixaria tão nervoso. A Rin tinha esse poder em mim, era hipnótico, sinceramente não sei explicar como passei tantos anos ao lado dela sem tocá-la. Meu respeito por ela era maior que meus impulsos, eu tinha medo de que ela tivesse a mesma reação que teve quando a beijei.
Ela não se moveu e não respondeu o que eu disse, o silêncio entre nós começou a se tornar constrangedor, eu procurei algo para me concentrar o foi o som do coração dela batendo acelerado que chamou minha atenção. Então eu percebi que ela também ficava ansiosa com aquela situação. Respirei fundo juntando toda a força que eu tinha no corpo e disse:
- Rin, eu não sou tão santo quanto você acha que eu sou. Eu não sei quanto tempo mais eu agüento ficar ao seu lado, mas sem poder encostar em você.
- Eu nunca pedi para que você fosse santo.
Aquilo era o que eu precisava, era a permissão que me faltava para que enfim eu compreendesse o que era estar realmente com a Rin. Eu sorri e beijei-lhe o ombro, eu pude sentir o corpo inteiro dela se arrepiando nos meus braços, depois disso você pode imaginar o que aconteceu. Eu poderia descrever aquele momento para você, sei que não é uma criança e entende a diferença entre fazer sexo e amor, mas palavras jamais conseguiriam explicar o que aconteceu ali, foi uma entrega tão mútua, era como se tivéssemos sido feitos para aquilo ou sendo mais brega ainda, sido feitos um para o outro. Eu não tinha mais porque esconder, pelo contrário, eu queria que todos soubessem, que todos entendessem e pudessem se sentir como eu me sentia. Eu amava a Rin, amava de maneira tão profunda, tão irreal que até eu mesmo duvidava que alguém pudesse se sentir daquela maneira.
Eu percebi que o prazer de matar não se comparava com o prazer de acordar todos os dias e saber que ela era minha, não demorou para que eu me decidisse a abandonar toda a vida absurda de mortes e sangue para viver com a Rin, dinheiro não era um problema para mim e compramos essa casa porque ela se apaixonou pelo jardim.
Eu sabia que os outros yokais falavam de mim, eu ouvia os rumores de eu ter sido domesticado por uma humana e confesso que mesmo sendo de uma felicidade descomunal eu pensei em abandonar a vidinha pacata que eu levava por várias vezes. Eu sempre fui orgulhoso, aceitar o que diziam era muito difícil para mim, principalmente porque eu via como minha reação abalava a Rin, ela não queria que eu deixasse de lado quem era soube apenas para viver com ela. Desisti completamente da idéia de abandonar tudo quando que a Rin estava grávida.
Eu disse algumas vezes sobre felicidade ao longo da minha história, mas certamente nenhuma se comparava a que senti quando descobri que eu ia ser pai. A minha vida não poderia ser mais perfeita, nada do que falassem poderia abalar a maneira como eu me senti, aquela criança que ia nascer, o meu filho, era o que faltava para que a Rin me ganhasse por completo, eu aceitava ter sido domesticado por ela ou qualquer outra besteira que fosse. Nós passávamos os dias cuidando desse jardim e pensando em nomes para o nosso filho, essa cara era cheia de vida, ela passeava pelos corredores cantarolando músicas infantis, como se preparasse todos os lugares para a chegada do bebê.
Durante sete meses eu fiquei ao seu lado, como um cão de guarda. Eu estava à disposição da Rin dia e noite, fazia todas as suas vontades e ela me retribuía com seu sorriso mais sincero, aquele que abria tanto os lábios que seus olhos azuis sumiam por trás das bochechas. E esses foram os sete meses mais felizes da minha vida, cada instante foi incomparável.
Algumas pessoas tentaram falar sobre arrependimento comigo ao longo da minha vida, me falaram sobre seus erros e sobre aquilo que queriam mudar, mas nada do que eu ouvi fez com que eu me comovesse, para mim eles não sabiam o que era a dor de verdade. Quando nos encontramos pela primeira vez você me perguntou o porquê de eu viver isolado nas montanhas, o motivo é que desde aquele dia eu não vivo. Eu só espero pelo dia em que finalmente irei me encontrar pessoalmente com a Rin e poderei implorar seu perdão.
Quando a Rin estava no final no sétimo mês eu recebi uma mensagem urgente de um yokai do meu pai, dizendo que ele precisava de mim, pois estava morrendo. Eu não quis ir, eu tinha prometido não sair do lado da Rin até que o bebê nascesse, ela estava frágil demais para que eu fosse para o fim do mundo e a deixasse sozinha. Ela não tinha ninguém além de mim, mas como você percebeu no pouco tempo em que esteve com ela, a Rin é uma pessoa sem maldade, boa demais, quando soube que o problema era com meu pai me obrigou a ir, dizendo que se eu não fosse jamais me perdoaria. Assim como você, a Rin era órfã, ela não concebia a idéia de que eu desprezasse meu pai e não fosse ao seu encontro quando ele precisasse de mim.
Eu fui ao encontro do meu pai, mesmo contrariado, mesmo odiando. Eu fui. Não por ele, mas pela Rin, eu sabia como aquilo era importante para ela, mesmo que não fizesse sentido para mim. Eu andei, andei e andei e em determinado momento eu entendi o que estava acontecendo, eu senti meu sangue congelando nas minhas veias e um medo descomunal se apoderou de mim. Era tudo um plano, algo estava errado demais naquela história, no mesmo instante eu voltei para casa, correndo sem ver absolutamente nada na minha frente. Meu peito doía e eu tinha a certeza que ele já estava na minha casa, destruindo a minha vida, a dor era tão absurda e forte que eu sentia como se estivesse morrendo. Eu conhecia muito bem aquela dor.
Eu chorei e gritei e quebrei os ossos da minha mão enquanto socava tudo o que aparecia no meu caminho até minha casa, porém quando eu cheguei na porta dessa mansão eu não tive coragem de entrar, mais uma vez eu me via parado, sem saber o que fazer. Eu não queria entrar e descobrir que minha vida tinha acabado, eu não tinha forças para encarar o que minha burrice tinha feito. Eu fiquei ali por horas, sentindo a chuva que começara a cair nas minhas costas, um relâmpago iluminou o céu e eu entendi que Midoriko estava falando para eu parar de ser covarde. Caminhei até a porta como quem caminha para a morte e de certo modo eu caminhei mesmo. A Rin estava morta na sala, eu não pude me agüentar quando vi que seus braços estavam ao redor da barriga, protegendo o bebê. Cai no chão deixando que todos os sentimentos que aquela imagem gerava em mim brotassem e se espalhassem pelo meu corpo, eu gritei e chorei e praguejei, me arrastei até ela, abraçando seu corpo inerte e me perguntei porque ela, porque meu pai não tinha me matado no lugar dela. Porque ele tinha de destruir minha vida.
Lembro que não foi o meu filho que fez com que eu pensasse em acabar com a minha própria vida naquele momento, foram os olhos da Rin. A parte mais viva do seu corpo, a que eu mais amava, a que mais em encantava agora não era nada além de uma lembrança, aqueles orbes mortos não pertenciam à ela, aquele corpo sem vida muito menos. O único motivo de eu não ter me matado foi a sede de vingança que se instalou em mim, eu tinha de matar o meu pai. Eu sentia o cheiro dele por toda a casa e isso fazia meu corpo tremer, eu era um homem sem nada a perder.
Imagino que você tenha curiosidade em saber o que aconteceu naquele dia, eu demorei muito tempo para descobrir, até que a Rin apareceu pela primeira vez nos meus sonhos e para tentar aliviar a minha culpa ela me contou exatamente o que aconteceu. Poucos minutos após eu sair, meu pai chegou em casa e pediu para entrar, dizendo que queria me ver, a Rin não conseguiu perceber o que ele estava realmente planejando e o deixou entrar, ela serviu chá para aquele desgraçado! Enquanto eles tomavam chá, ele disse:
- Eu sei que não posso lutar contra você, sei que você não é uma humana e que meu filho jamais vai te largar, mas eu não posso permitir que você tenha esse filho.
E então ele caminhou calmamente até ela e chutou-a na barriga, como se estivesse fazendo um favor para a humanidade, como se ele tivesse esse direito de escolher quem vive e quem morre. Meu próprio pai matando meu filho, a Rin soube na hora que a criança não sobreviveria, talvez por ser um anjo, ela tinha uma ligação quase anormal com o bebê, algo que eu não conseguia compreender, mas respeitava.
Ela não ia morrer, nada havia acontecido com ela, mas aquela maldita ligação fez com que ela começasse a transferir a própria vida para o bebê, ela achou que poderia salvar os dois! Porém após um tempo ela percebeu que não conseguiria sozinha e é agora que entra a parte mais importante da história para você. A Rin ligou para a superiora dela, ela procurou por outros anjos que poderiam ajuda-la a se salvar e salvar nosso filho, ela poderia ter me ligado com aquele pouco tempo que sabia ter, mas ela acreditou tão cegamente que aquela gente se importava com ela que resolveu usar seus últimos instantes ligando para as pessoas erradas.
"Nós não escolhemos nascer, Rin, mas vivemos e morremos com as escolhas que fazemos ao longo da nossa vida. Você traiu sua raça, se casou com um yokai e planeja criar essa aberração que você chama de filho, não há nada que possamos fazer por você. Foi você quem escolheu esse caminho". Isso foi o que falaram para ela e essa foi a última coisa que a Rin ouviu antes de morrer. Você é como a Rin, apesar de repetir toda a ladainha que elas falam, se questiona se é verdade ou não. Agora que você sabe que não nasceu para matar yokais, que é como qualquer outra pessoa que nasceu com o direito de fazer escolhas e ser feliz. Como você vai viver sabendo que poderia ter sido você naquele telefone negando a chance de fazer alguém como a Rin sobreviver? Não me diga que nunca negou ajuda a outros anjos porque eu sei que já negou, eu sei muito sobre você, o bastante para saber que sim, poderia ser você no telefone e sua vinda até aqui para dizer que decidiu confiar nelas só confirma o que estou dizendo.
Pela primeira vez na vida você tem uma escolha, Kagome, eu só me preocupo se você vai conseguir faze-la corretamente.
Desculpeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem pelo sumiço! O mundo conspirou contra mim, juro! Primeiro meu computador quebrou, depois meu quarto reformou e fiquei quase um mês sem pc, depois eu passei por uma crise criativa brava que só passou quando conversei sobre fic com a minha amiga (Sayu te amo, te devo uma :*), esse foi o capítulo mais dificil de escrever até agora, eu o reescrevi de pelo menos cinco maneiras diferentes e nenhuma ficava boa, essa deve estar cheia de erros porque escrevi de madrugada tendo que acordar cedo no dia seguinte para ir no cursinho e como não quero enrolar na revisão vai assim mesmo, peço perdão por qualquer erro grotesco que possa existir.
Eu tenho a sensação que o capítulo ficou enorme e não gostei exatamente dele, mas foi o melhor que eu consegui no meio dessa minha crise! Acho que ele explicou um zilhão de coisas, né? 8D A partir de agora (se o mundo não conspirar contra mim) vai ser sempre assim, com explicações de Deus nessa fic confusa! Só quero agradecer a quem ainda acompanha essa fic que tem seus altos e baixos, mas é a fic do meeeeeeeu coração! um beijo para quem lê, comenta e tem paciência de esperar meus capítulos gigantescos! Qualquer duvida é só perguntar, próximo capítulo serei legal e responderei comentários (juro que sempre fico gay e emo quando leio os comentários, me sinto um lixo não respondendo, desculpem, amo você t_t)
Tá, parei com o nhenhenhe. Até a próxima, que espero ser beeeeem próxima mesmo :D
