- Ahhhhhhhhhhhhhh!

O urro de dor que ouvira em seu quarto fez Miroku acordar, ele olhou para o futon ao lado e viu que Inuyasha se contorcia em algo que parecia ser uma dor insuportável. Ele levantou e foi até o hanyou, tentando entender o que estava acontecendo.

- Inuyasha! Inuyasha, o que está acontecendo?

O hanyou não respondeu e soltou outro berro de dor, logo em seguida arregalou os olhos e se apoiou na parede, tentando se levantar. Em poucos minutos os pais de Miroku já haviam entrado no quarto.

- Miroku...? – tentou a mãe olhando horrorizada a cena.

- Eu não sei. – disse Miroku aflito.

- Elas...

Inuyasha tentava falar, mas parecia que todo o ar do seu pulmão havia sumido e ele não tinha forças para sugar mais. Miroku arregalou os olhos e a compreensão preencheu seu corpo.

- Elas... – repetiu o hanyou.

- Mãe, ligue para o Sesshoumaru. Agora. – disse Miroku.

- Elas a encontraram.

E dizendo isso ele desmaiou.


Capítulo 21 - Asas quebradas

Não fazia muito tempo que o sol havia nascido quando Kouga percebeu um cheiro familiar no ar, sorriu vitorioso por finalmente ter encontrado-a e correu em sua direção. Era ela, ele tinha certeza, ele conhecia o cheiro de Kagome perfeitamente e não havia maneira de estar enganado. Ignorou o aviso que seu corpo lhe deu; não importava se existiam mais anjos perto de Kagome, ele derrubaria a todos e traria a garota de volta.

- Você chegou tarde, idiota.

Kouga arregalou os olhos ao ouvir aquela voz, fazia muito tempo desde a última vez que encontrara com aquela garota, ele sabia que ela era especialmente insuportável. Procurou por Kagura entre as árvores e não pôde deixar de abrir um sorriso ao ver o estado que ela se encontrava; um dos seus olhos estava roxo, seu nariz parecia torto e sangrava e existia um filete de sangue escorrendo no canto dos seus lábios.

- Tarde para ver alguém quebrar a sua cara? – disse o yokai cruzando os braços e ainda sorrindo.

Os olhos de Kagura brilharam perigosamente, mas ela respirou fundo e imitou os movimentos do yokai, cruzando os braços e dando um sorriso maldoso.

- Não, para salvar a sua queridinha. Está aqui atrás da Kagome, não está?

Kouga que até então mantinha uma posição superior à garota, deixou os braços caírem e avançou em sua direção, mantendo uma distância mínima que ele considerava boa o bastante para socar a cara dela caso fosse necessário. Ele a encarou e disse entre os dentes:

- O que quer dizer com cheguei tarde? O que vocês fizeram com ela, suas doentes?

Kagura girou os olhos parecendo entediada e suspirou.

- A Kikyou a levou. E me deixou para cuidar de você, o que eu acho um saco. Eu preferia dar um jeito naquela garota, sempre tãããão arrogante.

- A levou? – disse Kouga que se controlava para não gritar. – Levou para onde?

Ela deu nos ombros e levantou os braços, fazendo um movimento como quem diz "não sei'".

- Talvez você não tenha notado, mas meu humor não está dos melhores. Importa-se se deixarmos a parte da conversa para uma outra vez? – disse.

Kagura não esperou uma resposta e aproveitou a pouca distância que tinha em relação à Kouga e abaixou-se, dando-lhe uma rasteira, o yokai cambaleou e se apoiou em uma árvore, antes que pudesse cair. Ele estava distraído demais procurando o cheiro de Kagome novamente para ter percebido o ataque da garota.

Antes que ele pudesse se ajeitar, Kagura foi para cima dele com a mão fechada e deu um soco no rosto do yokai, que novamente cambaleou, ela segurou o braço de Kouga e o puxou aproveitando a falta de equilíbrio, quando o tinha perto o bastante deu uma joelhada no seu estômago e logo em seguida outro soco no rosto. Kouga perdeu o foco por alguns minutos, Kagura era tão pequena quanto Kagome, mas era rápida e incrivelmente forte para alguém do seu tamanho. Balançou a cabeça afastando a dor que começava a incomodar principalmente seu estomago.

Kagura sorriu vitoriosa ao perceber que Kouga estava desnorteado, ele deu um giro parecendo procurar um apoio e a garota riu alto, o yokai aproveitou a distração de Kagura e usou a perna que estava livre para chutá-la, ele acertou o joelho de Kagura, que tombou para frente, e logo em seguida acertou um soco no estomago da garota que deu dois passos para trás graças a força do golpe. Kagura cerrou os olhos encarando-o.

- Para onde a levaram? – perguntou novamente o yokai.

Kagura cuspiu o sangue que estava em sua boca e resmungou alguma coisa, Kouga a encarou confuso até perceber o que ela estava fazendo: ela estava usando a unha para tentar cortar a palma da mão.

Qualquer outro yokai que não conhecesse minimamente anjos acharia estranho o fato de ela estar cortando a própria mão, afinal se o que ela precisava era sangue já existia uma quantidade enorme saindo de sua boca, mas Kouga conhecia anjos melhor do que gostaria. Ele sabia que o sangue que elas precisavam era como uma oferenda, elas mesmas precisavam desejar sangrar para que todo o controle que elas tinham pudesse funcionar de verdade, o sangue que saía de seus ferimentos não adiantaria de nada.

Kouga balançou a cabeça negativamente e pulou em cima de Kagura, ela se jogou no chão e rolou para o lado escapando por pouco da investida, se encolheu em um canto tentando cortar a palma da mão. Ela estava começando a ficar irritada, sempre que precisava recorrer ao sangue ela apenas mordia os lábios e pronto, mas daquela vez não adiantaria. Sua boca estava cheia de sangue do chute que levara no estômago e mesmo que conseguisse cortar a boca, o sangue do corte se misturaria com o do machucado e perderia qualquer poder. Grunhiu de dor quando sentiu os chutes de Kouga em seu corpo.

- Você acha que esse truquezinho idiota seu vai adiantar comigo? – dizia Kouga enquanto chutava Kagura impiedosamente. – Mesmo que você consiga se cortar, não vai funcionar. Aposto que elas não te ensinaram isso não foi?

Kagura encarou o yokai como se ele estivesse louco, todos os anjos sabiam que Kouga havia estudado-as os bastante para ser capaz de se defender, mas todas elas também sabiam que ele sempre inventava histórias como aquela de não ser possível controlá-lo. Ela sabia que podia, não importando o que ele dissesse, ela só precisava de um pouco de sangue e ele saberia o seu lugar.

- Eu ordeno que saía de cima de mim. – disse firmemente. Ela não tinha o sangue, mas ainda era um anjo, isso significava que ele teria de obedecê-la, era assim que funcionava.

Kouga parou de chutá-la e abaixou-se, ele encheu a mão com os cabelos da nuca da garota e disse, fazendo-a encará-lo:

- Ordene o quanto quiser, não vai funcionar. Se eu fosse você começaria a chorar pedindo ajuda para as suas amiguinhas, agora se você não quer piorar o estado desse nariz me diga onde vocês enfiaram a Kagome!

- Me solte. – ordenou Kagura com o tom de voz que sempre usava para controlar yokais.

Kouga suspirou e fingiu desapontamento, ele segurou com mais força o cabelo de Kagura e forçou o braço para baixo, fazendo o rosto da garota ir com força contra o chão. Ela soltou um uivo de dor.

- Filho da puta! – disse com o rosto ainda enfiado na terra.

- Eu não obedeço a piranhas, desculpe. – ele disse parecendo se divertir com a situação. – Vou tentar de novo... Onde a Kagome está?

Kagura deu outro berro, só que dessa vez parecendo furiosa, Kouga puxou novamente a cabeça para cima e a encarou, esperando uma resposta.

- Você é uma vergonha para a sua raça! – gritou Kagura histérica. – Você e aquela desgraçada da Kagome! Porque está tão preocupado com ela? Você me dá nojo, correndo atrás de um anjo, justamente a pessoa que nasceu para matar aberrações da natureza iguaizinhas vocês! E ela? Porque todos estão sempre falando em como a Kagome é especial, como ela é única, poderosa e como a Kikyou se importa com ela! Ela deveria morrer, junto com você e todos os outros yokais!

Kouga soltou a garota e levantou-se, parecendo enojado em continuar a tocá-la. Kagura deu um sorriso maldoso ao perceber a expressão no rosto do yokai e antes que pudesse entender o que estava acontecendo, sentiu novamente sua cabeça sendo prensada contra o chão, só que dessa vez com muito mais força. Kouga estava parado ao seu lado, com um pé em sua cabeça e usando toda a força que tinha no corpo naquele pequeno movimento, Kagura voltou a gritar de dor. Era como se sua cabeça estivesse diminuindo gradativamente e seu cérebro pudesse explodir a qualquer momento, de seus ouvidos e olhos escorriam sangue. Kouga levantou o pé apenas por um instante e logo voltou para a cabeça da garota, agora pisoteando sem dó, com a mesma força.

Kagura continuou a gritar e a xingar e amaldiçoar Kouga, até que a dor se tornou tão insuportável que sua visão começou a embaçar e ela precisou parar de gritar ou desmaiaria, percebendo o silêncio da garota Kouga chutou-a, dessa vez na barriga, fazendo girar e olhar para cima.

- Uma piranha patética como você nunca entenderia. – ele disse. – Eu não preciso de você para salvar a Kagome, eu vou fazer isso sozinho.

A garota fechou os olhos quando viu o pé do yokai vir novamente em sua direção, ele acertou o rosto dela e ela desmaiou. Kouga assoviou e logo o lugar estava cheio de lobos, os animais cheiraram o corpo de Kagura e olharam para Kouga.

- Essa eu deixo para vocês.

Kouga não olhou para trás quando ouviu um urro de dor de Kagura.


Sesshoumaru estava sentado em uma grande cadeira na ponta de uma mesa comprida de jantar. A sala decadente estava vazia e a única luz do lugar era a do sol entrando por entre as frestas de algo que um dia fora uma cortina de veludo. Seus braços estavam apoiados na mesa de madeira escura e seus olhos passeavam pelas cadeiras espalhadas ao seu redor, elas eram de diferentes formas, demonstrando que o yokai recolhera cadeiras de diferentes lugares e as reuniu naquela sala. Fazia tempo desde a última vez que aquele lugar recebera visitas e isso deixava Sesshoumaru excitado, ainda mais sabendo o motivo daquela reunião. Levantou-se e foi até janela, puxando os restos da cortina e deixando a luz do sol iluminar verdadeiramente a sala, virou o rosto para a entrada e arqueou a sobrancelha.

- Bankotsu e o Exército dos Sete? – disse parecendo levemente surpreso. – Myouga me disse que tinha ido buscar o melhor, mas não achei que vocês viriam por tão pouco.

Na porta da sala havia sete yokais de aparência pouco convencional, suas roupas eram medievais e carregavam armas enormes, todos tinham marcas coloridas nos rostos com padrões triangulares, pareciam tatuagens. Ao fundo existiam dois maiores, sendo um deles incrivelmente grande, com músculos à mostra e olhos brancos, ao seu lado o outro grande parecia uma espécie de máquina, pois no lugar de um de seus olhos existia uma placa de metal cobrindo desde a cabeça e seus maxilares eram de ferro, em suas costas existia algo que lembrava muito uma bazuca. Mais à frente encontrava-se outros quatro, eles eram os mais normais do grupo, um usava uma luva com quatro laminas afiadas em cima dos dedos, outro carregava uma espada nas costas que parecia quebrada em vários pedaços, outro usava um lenço verde na cabeça e os mais frente, que parecia ser o líder, segurava uma espada com duas vezes o seu tamanho. Completando o grupo um homem que parecia idoso estava sentado no canto, com uma caixa de palha nas costas e um lenço branco na cabeça.

- Pouco? – disse o yokai sorrindo. – Uma guerra contra anjos parece bom o bastante para mim.

- A guerra não começou e talvez não comece, - disse Sesshoumaru voltando para a sua cadeira e apontando para as outras para os yokais da sala. – por enquanto só temos alguns lobos atacando por ai.

- Mas o plano não é ficar só nisso, não é? – disse o yokai com a luva de laminas sentando-se.

- Não há um plano, Suikotsu. – disse Sesshoumaru. – É por isso que recorri ao Myouga para pedir ajuda, nós não sabemos o que pode acontecer. Eu vou direto contra a líder delas, meu alvo é a Kikyou, não me importo com nenhuma outra. Estou velho demais para perder tempo com distrações inúteis, infelizmente, precisarei que vocês cuidem da parte mais chata.

- Duvido muito que as criancinhas sejam um problema para você, - disse o yokai com a espada quebrada. – e você velho? Mesmo que você quisesse não conseguiria.

- As criancinhas não são um problema para ninguém, Jakotsu, eu só não tenho tempo para isso. – respondeu Sesshoumaru balançando a mão de forma impaciente.

Jakotsu fez um biquinho e cruzou os braços, ele parecia ofendido com o gesto de Sesshoumaru.

- Você precisa de nós para te dar cobertura. – disse o yokai com o lenço verde parecendo desconfiado.

- Muito esperto da sua parte, Rankotsu, mas não é só isso. Nós yokais temos um pacto com os humanos e embora nenhum de nós dessa sala concorde com ele somos obrigados a cumpri-los. Perdemos nossa oportunidade de nos voltarmos contra essa história de paz e não podemos agir como bem entendemos agora. – disse Sesshoumaru.

- Está com medo de que os humanos achem que estamos atacando humanas inocentes e se voltem contra nós? – disse Bankotsu.

- Medo não é a palavra, mas a idéia é essa. – disse Sesshoumaru. – Apesar de achar humanos seres patéticos meu problema não é com eles.

- Eu não me importaria em matar um monte deles. – disse o maior de todos, parecendo meio infantil.

- Não, Kyokotsu, eu acho entendi o que ele quis dizer. – disse Bankotsu soando paternal. – E não podemos esquecer que querendo ou não os humanos são uma maioria esmagadora atualmente e depois daquela bomba que destruiu Hiroshima eu não duvido que se voltar contra eles seja uma idéia idiota. Nós sabemos que há anos eles querem se ver livres da nossa raça.

Sesshoumaru olhou de maneira agradecida para o yokai e continuou:

- Eu sei que essa possível guerra contra os anjos não servirá para saciar a sede de sangue que vocês têm sentido desde que esse pacto foi selado, mas é o mais próximo que chegaremos de voltar as nossas origens sem correr risco de sumirmos no meio do processo. Anjos são previsíveis, humanos não.

- Acho que meus venenos poderiam dar conta de muitos humanos, se o problema é esse. – disse o que parecia ser mais velho.

Sesshoumaru revirou os olhos e disse, controlando a impaciência:

- Eu não preciso de ajuda para matar humanos, eles já fazem isso muito bem sozinhos. Se acham que o que tenho para oferecer não é bom o bastante não se incomodem em me comunicar, certamente encontrarei yokais dispostos a matar anjos e se mesmo assim eu não encontrar eu não importo. Eu vou matar a Kikyou, com ou sem vocês.

Um dos yokais abriu a boca, mas Bankotsu ergueu a mão, impedindo-o.

- Me esperem na outra sala, eu resolvo isso. – ele disse autoritariamente.

Os yokais se entreolharam e levantaram em silêncio, indo para a outra sala.

- Já disse que acho incrível que mesmo depois de tanto tempo eles ainda te obedeçam desse jeito? – disse Sesshoumaru acompanhando os yokais com os olhos.

- Não deveria, - disse Bankotsu. – afinal, eu também estou aqui, não estou?

- Você não está me obedecendo. – disse Sesshoumaru.

- Eles também não. – disse Bankotsu. – Agora, se você vai nos enfiar em algum plano idiota, quero saber o que está acontecendo.

- Você conhece a história. – disse Sesshoumaru.

- Sim, eu conheço. Você quer vingar a Rin e eu entendo isso, mas porque agora? Porque depois de tanto tempo?

- Porque chegou a hora.

- Não é só isso. Eu posso estar afastado, mas eu tenho ouvido histórias, Sesshoumaru, e uma delas diz que você está encantado por um anjo.

Contrariando qualquer reação imaginada por Bankotsu, Sesshoumaru começou a rir parecendo realmente se divertir com aquele comentário.

- Estão falando que eu estou atraído pela Kagome, é isso? – disse.

Bankotsu deu um sorriso vitorioso.

- Acho que eles estão certos. – disse. – Afinal, eu nem precisei dizer o nome da garota para você saber quem era.

- As pessoas gostam muito de inventar coisas sobre mim, você deveria saber disso. – disse Sesshoumaru parecendo ainda se divertir com a suspeita. – A Kagome é do meu irmão.

Bankotsu sentiu o sorriso morrer em seus lábios e seus olhos se arregalaram.

- O Inuyasha? – disse incrédulo. – Está falando do filho do seu pai com aquela aberração de mulher?

- Ele mesmo. – disse Sesshoumaru voltando a ficar sério. – Você sabe por que os lobos começaram a atacar os anjos?

- Porque eles são idiotas irracionais? – disse Bankotsu.

- Também, mas o líder deles é apaixonado pela Kagome. Os lobos acham que os anjos querem matá-la e bem... Talvez eles estejam certos.

- O Kouga também? – disse Bankotsu. – O que essa garota tem demais?

- Ela é como a Rin. – disse Sesshoumaru.

- Um anjo azul... – disse Bankotsu que parecia começar a encaixar as coisas. – Ela é mais forte que a Kikyou.

- Sim, ela é. – disse Sesshoumaru.

- Então tudo isso não é sobre a Rin? É sobre salvar a namoradinha do seu irmão? – disse Bankotsu.

Os olhos de Sesshoumaru brilharam perigosamente e ele encarou Bankotsu, o yokai sentiu como se pudesse ser atacado a qualquer momento e instintivamente levantou as duas mãos na frente do corpo, demonstrando estar em paz.

- A Kagome não é apenas a namoradinha do Inuyasha, ela é a única que pode me libertar e salvar a Rin. – disse Sesshoumaru entre dentes.

- Pelo o que eu ouvi ela é como todas as outras. Você não está esperando demais dessa garota?

- A Kikyou a matou. – disse Sesshoumaru.

Bankotsu o encarou confuso.

- O que?

- A Kikyou a matou uma vez, ela sabe tanto quanto eu do que a Kagome é capaz. Ela fez isso sabendo que eu traria a Kagome de volta.

- E porque ela iria querer isso?

- Não fui eu que a trouxe de volta, foi o Inuyasha. Ela está usando a Kagome para proteger o Inuyasha.

Entendimento passou pelos olhos de Bankotsu e ele balançou a cabeça negativamente, apesar de ter entendido o que estava acontecendo ele não conseguia acreditar.

- Mas que desgraçada! – disse. – Fugindo da obrigação de matá-lo e ainda colocando uma proteção extra.

- Entende o que eu estou falando? – disse Sesshoumaru. – Você estava lá, você viu o que aconteceu da última vez que ela planejou alguma coisa! E o fato de ela estar agindo dessa maneira só comprova a minha teoria de que ela está tentando repetir o ataque de antes.

- Porque você não me chamou antes? – disse Bankotsu irritado. – As coisas estão piores do que eu imaginei!

- Elas só vão ficar ruins de verdade se eu não matá-la. – disse Sesshoumaru. – E isso não faz parte dos meus planos.

- E o que faz parte dos seus planos? – disse Bankotsu.

- Devo entender que você vai me ajudar? – disse Sesshoumaru.

Bankotsu fez uma careta, demonstrando que aquele comentário era inútil, ele parecia até mesmo ofendido com o fato de o yokai duvidar de que ele estaria disposto a matar anjos, ainda mais naquela situação. Ele acenou com a cabeça, fazendo Sesshoumaru prosseguir, ele queria saber o que o yokai estava planejando.

- Os lobos estão atrás da Kagome, – disse Sesshoumaru. – mas eu tenho certeza que isso não vai adiantar de nada, é perda de tempo. Anjos sempre sabem onde as outras estão, me admira que a Kagome esteja sumida por tanto tempo.

- Deve ser a Kikyou. – disse Bankotsu.

- Não sei, eu não contaria com isso. Como eu estava dizendo, tenho certeza que os anjos vãos encontrá-la antes, mas isso não é a minha maior preocupação. O problema é o que vão fazer com a Kagome quando a encontrarem, vão matá-la? Vão inventar alguma história idiota sobre ela não poder confiar em yokais? Vão usá-la contra nós?

- Então você precisa que encontremos os anjos? – disse Bankotsu.

- Eu acredito que se encontramos os anjos, encontraremos a Kagome.

- Os lobos estão fazendo muito barulho por nada então.

- Não, pelo contrário. O ataque deles está fazendo com que os anjos que estavam sem missões venham para essa região. Elas também estão considerando uma guerra ou não enviariam anjos para cá! E isso faz parte dos meus planos, eu tenho acompanhado de perto esses ataques e todos os anjos vieram do norte, a demora entre a chegada de uma e a morte da outra é mínima, o que significa que elas não estão muito longe. Quando uma delas morre a outra é automaticamente enviada, se elas estivessem longe existiria uma demora muito grande, mas isso não aconteceu em nenhuma das vezes.

- Faz sentido, a Kikyou quer ficar por perto. – disse Bankotsu.

- Foi o que eu pensei. – disse Sesshoumaru agradecendo mentalmente o fato de o yokai estar acompanhando seu raciocínio. – Quanto mais anjos vierem para cá, mais chances eu terei de chegar até a Kikyou. E o melhor, sem distrações, pois vocês estarão cuidando do lixo.

- É por isso que você precisa da gente, você quer atrair o maior número de anjos para cá para chegar mais rápido na Kikyou!

Sesshoumaru assentiu positivamente com a cabeça.

- Nós podemos realmente mata-las? – perguntou Bankotsu.

- Se os lobos estão matando não vejo problema em vocês também matarem.

- E essa garota... A Kagome? E se não a encontrarmos a tempo? Você precisa dela, não precisa? – disse Bankotsu.

- Sim, eu preciso. Eu não estou me preocupando com isso no momento, eu saberei se algo estiver acontecendo com ela.

- Está dizendo que o Inuyasha tem aquela ligação maluca com ela?

- Bem, ele a reviveu, não foi?

Bankotsu suspirou, apoiando a cabeça nas mãos.

- Não seria mais fácil simplesmente perguntar a ele onde a garota está?

- Ele não sabe. – disse Sesshoumaru pensativo. – Ele acha que ela está mais do que simplesmente perdida por ai, tem algo a ver com ter perdido a consciência e por isso ele não consegue saber mais nada sobre ela.

- Isso não é motivo para se preocupar? Ela poderia estar morta.

- Não se preocupe com isso, a Kagome sabe se cuidar.

- Estamos contando com isso, não é? Agora me diga, eu preciso ir até aquele chiqueiro onde os lobos vivem?

- Não, o Kouga não está por lá, então, sinta-se livre para fazer o que quiser. E isso inclui ir atrás de anjos.

Bankotsu sorriu excitado e levantou-se.

- Finalmente.

- Só preciso que você confirme a minha suspeita, sobre elas virem do Norte e estarem por perto, acho que não será algo muito difícil.

- Se depender de mim, eu descubro de onde essas desgraçadas saem e destruo todas de uma vez só.

Bankotsu não esperou uma resposta para sair da sala, Sesshoumaru pôde ouvir a conversa dele com os outros yokais e eles saindo logo em seguida. Voltou a olhar para a sala vazia e bocejou, de repente ele se sentia com muito sono. Não se preocupou muito em entender os motivos daquilo, simplesmente levantou-se e foi para o andar de cima, jogando-se em uma cama de casal, em poucos minutos Sesshoumaru já estava dormindo.

##

- Sesshoumaru, acorda, anda!

O yokai sentiu a grama em baixo do seu corpo, ouviu ao longe o som de pássaros e de algo que deveria ser um rio. O cheiro de grama e terra encheu seu nariz e ele automaticamente abriu os olhos, deparando-se com uma figura já muito conhecida.

Rin estava ajoelhada ao seu lado, parecendo desesperada, seus olhos azuis olhavam de um lado para o outro procurando por alguma coisa que certamente não estava ali. Por algum motivo, ela parecia cansada e com pressa.

Sesshoumaru sentou-se no chão e encarou Rin atenciosamente. Sentiu seu estomago se contorcer dentro do seu corpo, aqueles encontros nos sonhos era o mais próximo que ele podia chegar dela e todas as vezes ele se sentia daquela maneira. Era desesperador estar ao mesmo tempo tão perto e tão longe da pessoa que ele amava. Ele não sabia o que era mais doloroso, não vê-la ou vê-la nessas circunstâncias.

- Sesshoumaru! – disse novamente a mulher chamando a atenção do yokai.

- Desculpe, - ele disse sinceramente. – o que aconteceu? Porque me chamou com tanta urgência?

Rin voltou a olhar ao redor, certificando-se de que não havia ninguém ali e voltou seus olhos para Sesshoumaru, parecendo mais desesperada do que antes.

- Elas a encontraram. - sussurrou.

- Rin, se acalme, porque você está agindo assim? Do que você está com medo? – disse Sesshoumaru.

- Eu não deveria estar aqui! Não agora! – disse Rin apressadamente. – A Kikyou vai enviar a Kagome para mim!

O yokai cerrou os olhos.

- Ela não pode fazer isso.

- Não só pode, como vai. – disse Rin começando a choramingar como uma criança. – Eu não quero fazer isso, Sesshoumaru, não é justo me obrigarem a fazer isso.

Sesshoumaru pegou o rosto de Rin com as duas mãos, fazendo-a encará-lo.

- Rin, você precisa me dizer onde elas estão.

- Eu não posso, - ela continuou a choramingar. – você sabe que eu não posso.

Rin se desvencilhou das mãos de Sesshoumaru e voltou a olhar ao redor.

- Eu não deveria nem estar aqui... Ela vai me odiar, - disse Rin e ela pareceu desolada. – a Kagome vai me odiar!

Sesshoumaru puxou novamente Rin para perto e encostou a testa na dela, encarando s olhos azuis da garota.

- Ela não vai te odiar, a Kagome vai entender. – disse Sesshoumaru começando a soar desesperado. - Me escute, Rin, eu quero que me prometa que não vai fazer nada idiota! Faça o que elas mandarem você fazer, não importando as conseqüências, eu prometi que te libertaria, não prometi? Você confia em mim?

- Eu não posso fazer mal a ela só para que nada aconteça comigo! – disse Rin convicta.

- Rin, você confia em mim? – repetiu Sesshoumaru.

- É claro que eu confio!

- Então faça o que for preciso, eu cuidarei de tudo.

Rin soltou um soluço e afundou o rosto do peito de Sesshoumaru, ela poderia parecer mais velha do que os outros anjos, mas naquela situação ela parecia uma criança procurando amparo. O yokai a apertou entre os braços e ignorou o sentimento que invadia sua mente, ele sabia que estava sendo egoísta, não só por colocar Kagome em risco para proteger Rin, mas por fazer com que a pessoa que amasse fosse contra todos os seus princípios. Ela jamais faria mal a alguém, ainda mais esse alguém sendo a garota que ela ajudara a salvar.

Ele sentiu o corpo de Rin ficar rígido entre seus braços, algo estava errado.

- Eu preciso ir. – ela disse com urgência.

- Você vai ficar bem? – disse Sesshoumaru relutando em solta-la.

Ela não respondeu. Sesshoumaru soltou um grunhido de desespero.

- Você me prometeu.

Rin o encarou e ele percebeu que nunca tinha visto tanto angustia nos olhos dela. Ela deu um sorriso fraco e disse:

- Você confia em mim?

##

Sesshoumaru sentiu o peso da realidade o acordando, ele estava em seu quarto, não existia mais sinal da Rin e ele sabia que ter acordado daquela maneira não era bom sinal. Ele levantou e fechou a mão com força, andou de um lado para o outro impacientemente e então deu um soco na parede, fazendo um buraco fundo.

- Merda!


KAGOME POV

Eu não lembro exatamente o que havia acontecido quando acordei, para minha surpresa eu estava em algo macio que lembrava muito um colchão e o cheiro de incenso fazia com que eu me sentisse nostálgica. Me sentei e percebi que de fato eu estava em uma cama e eu conhecia aquele lugar. Era o templo dos anjos.

Levantei e caminhei pelo cômodo, aquele era o meu antigo quarto, não que ele tivesse algo pessoal que me fizesse sentir falta dele, analisando agora ele mais parecia um quarto de hospital com toda aquela brancura, era como a casa que Kikyou havia me emprestado. Bem, se eu não lembrava do que havia acontecido aquele nome fez com que a minha mente trabalhasse de maneira tão rápida que precisei sentar para não desmaiar. Eu não estava só no templo dos anjos, no momento eu estava no quartel general do inimigo, por mais idiota que isso soasse. Aquela foi a única comparação que passou pela minha cabeça no momento.

Deitei novamente na cama quando ouvi passos no corredor, a porta se abriu e eu não precisava dos meus olhos abertos para saber quem entrara. A presença de Kikyou sempre fora algo muito forte.

- Não finja que está dormindo.

A voz dela me pareceu muito estranha, era uma mistura de raiva e... Tristeza? Eu preferi não pensar muito naquilo, eu não tive muita escolha além de abrir os olhos e sentar na cama. A visão que eu tive mexeu comigo mais do que eu gostaria, Kikyou parecia incrivelmente abalada, seus olhos não tinham o habitual brilho cativante, eu esperava algo como vingança, mas não havia nada ali para que eu compreendesse como ela estava se sentindo e isso me preocupou.

- Você têm nos dado muita dor de cabeça. – ela continuou sem mudar o tom. – Achei que estaria do meu lado, que confiaria em mim.

Arrependimento passou por mim, sentada ali naquele quarto encarando a mulher que eu mais admirava no mundo era como se as loucuras dos anjos jamais tivessem existido e mesmo que tivessem existido estavam em uma realidade muito longe da minha. Ela provavelmente entendeu o meu silêncio e eu juro que algo como esperança brilhou apenas por alguns segundos em seus olhos. Ela caminhou lentamente e sentou na cama, mantendo uma distância considerável.

- Você sabe que eu não quero o seu mal.

Eu tentei ficar em silêncio, até mesmo mordi meu lábio em uma tentativa inútil de apenas ouvir o que ela tinha a me dizer, mas quando percebi eu já estava cuspindo as palavras em cima dela.

- E a Rin? Você também não queria o mal dela?

Ela ficou em silêncio alguns momentos, parecendo pensar no que poderia responder, acho que a Kikyou estava tentando buscar palavras que justificassem o que aconteceu, por algum motivo estranho ela não me queria contra ela.

- O que aconteceu com a Rin foi diferente. Em outra época.

- Vocês a deixaram morrer! – eu gritei de maneira exagerada. Aquela conversa estava me deixando meio tensa.

- Não me julgue você não estava no meu lugar.

- Não! Se estivesse as coisas seriam diferentes, eu não deixaria a Rin morrer!

Ela suspirou parecendo cansada.

- Não seriam não, o que você precisa entender é que muitas vezes não temos o controle de tudo. Você está dizendo que eu não salvei a Rin, mas você não salvou a Kagura ou qualquer outra que foi morta pelos lobos.

- Você está mentindo! A Kagura está viva, eu estive com ela há pouco tempo!

Eu não sabia por que estava tentando retrucar, em alguma parte de mim eu sabia que ela estava certa, eu sabia que a Kagura estava morta, eu só não sabia por quê.

- Você realmente esteve com ela, mas aquele lobo que você ficou de matar a matou. A morte da Kagura poderia ter sido evitada, mas não foi. Isso te torna culpada? – ela explicou completamente indiferente.

Eu não respondi. Eu não gostava da Kagura – e nem ela de mim – e eu sempre achei que ela tinha tendências para ser uma vaca traidora, mas isso não significava que eu queria que ela morresse. Pelo contrário. E então a frase da Kikyou me acertou em cheio, outros anjos estavam morrendo, era por isso que ela parecia tão abalada, isso explicava aquela expressão vazia em seu rosto, apesar de tudo ela se importava com nós e a perda deveria doer mais do que ela demonstrava.

- Os lobos estão nos atacando. – ela continuou quando percebeu que eu não falaria nada. – E eu acho que isso é só o começo, eles querem você. Eles estão nos matando por sua causa.

- Pensei que yokais não pudessem nos matar. – retruquei cruzando os braços. Era uma boa hora de jogar as histórias contra ela.

- Não somos imortais. – ela continuou. – Em circunstâncias normais eles não podem nos matar, mas como eu já disse antes, você é diferente. Você é o motivo de tudo isso.

- E o Inuyasha? Qual a importância dele nisso tudo?

E eu percebi que toquei em um assunto delicado, pois as feições dela se transformaram e era como se ela pudesse pegar meu pescoço e me estrangular ali mesmo, ela cerrou os dentes e respirou fundo, virou os olhos para mim e disse:

- Você não sente culpa pelas pessoas que estão morrendo por sua causa?

Era claro que eu me importava, na verdade eu não conseguia aceitar a idéia de que pessoas estavam se matando por minha causa. Não fazia muito sentido. Mas eu precisava manter indiferença, eu sabia que o que havia acontecido com a Rin e as mortes de agora eram diferentes, ela não poderia me culpar por algo que eu não era culpada.

Dei nos ombros achando a solução perfeita para a aquela situação: voltar a ser o que eu era. Eu faria algum comentário idiota sobre como sou poderosa e os outros são lixo e foi isso que eu fiz.

- Bem, se elas morreram a culpa não é minha, eu já lutei contra vários yokais e sobrevivi. Foi você que me ensinou que apenas as que levam a sério a missão de ser anjo conseguem sobreviver.

Kikyou deu um riso alto, mas sem humor nenhum. Eu a encarei sem saber exatamente o que aquela reação significava, mas mantive a calma e fiquei em silêncio.

- Era essa resposta que eu esperava de você. – ela disse parecendo orgulhosa. – É por isso que eu preciso que você confie em mim, Kagome, eu te ensinei tudo o que eu sabia para que quando chegasse esse momento você fizesse a escolha certa.

- E qual é a escolha certa? – eu disse meio que a desafiando.

- Aquela que te causar menos danos.

Eu senti um calafrio passar pela minha espinha, era a primeira vez que a Kikyou não falava que ficar ao seu lado era coisa certa a se fazer, a sensação que eu tive foi que aquela frase era mais uma ameaça do que um conselho amigável.

- Escolher a sua verdade vai me causar menos danos? – perguntei com a voz firme.

- Não é a minha verdade, não existe verdade absoluta, você deveria saber disso. – ela disse parecendo outra pessoa. – Só existem versões diferentes de um mesmo fato, você acha que eu matei a Rin e essa é a sua verdade, eu não sei o que te levou a acreditar nisso, mas eu não vou tentar provar o contrário. A Rin era como você, dedicada, mas confusa; pessoas como vocês não nasceram para matar e é cruel designar esse tipo de missão para vocês. Ela se deixou levar, ela preferiu procurar algo que fizesse sentido em sua vida além desses muros e eu não a culpo por isso, todas nós queremos isso, quando se nasce para matar você começa a acreditar em qualquer coisa para se livrar desse destino. Mas ela buscou no lugar errado e isso causou sua morte.

- Porque o amor é errado? – perguntei indignada. Ela acabara de dizer que buscar amor era errado.

- Yokais são seres incapazes de amar. – ela disse amargamente. – Amar não é errado, o que ela amou sim.

- Você me disse que éramos incapazes de amar, - retruquei. – e agora me diz que não é errado amar?

- Não somos incapazes de amar, só não nascemos para isso.

- Porque negou ajuda a Rin? – insisti.

- Não neguei, não fui eu que atendi aquele telefone.

- Mas você estava por perto, você poderia ter feito alguma coisa, qualquer coisa!

- Se lembra do que eu acabei de dizer sobre a escolha certa ser aquela que menos causa dano a você?

E foi nessa hora que eu surtei. Eu levantei indignada e encarei a Kikyou como se a qualquer momento sua cabeça fosse abrir e de lá saíssem sete cabeças, era assustador como ela dizia aquilo com a maior calma do mundo. Pela primeira vez na minha vida eu me envergonhei em ter alguém como ela como exemplo.

- Então quer dizer que se for para salvar a sua bunda você pode foder com os outros? Isso é doente!

- Vejo que o tempo com yokais te ensinou palavras de impacto, está feliz em usá-las? – ela disse como se estivéssemos batendo um papo amigável.

- Não mude de assunto, - eu gritei. – uma pessoa morreu só porque você foi medrosa demais para agir quando precisava.

E foi nessa hora que ela surtou. Durante toda a minha vida eu conheci poucas pessoas que conseguiam controlar as emoções como a Kikyou, ela estava sempre calma, com aquele ar sereno de que nada pode incomodá-la ou irritá-la, às vezes eu achava que ela agia daquela maneira para se mostrar superior a todas nós, ela era nossa líder, nossa professora, nosso único exemplo, ninguém confiaria em uma líder incapaz de lidar com as próprias emoções, mas ali estava ela, ruindo em minha frente, estilhaçando com as próprias mãos a calma que ela construíra durante tantos anos.

- E o que você queria que eu fizesse? – ela gritou. – Por que eu deveria pagar pelos erros dela? Eu era nova demais para entender o que aquele dia significaria para o resto da minha vida! Eu sempre segui as regras, sempre respeitei os ensinamentos que me eram passados, eu a achava uma traidora, porque eu me sacrificaria por ela? O que ela havia feito por mim ou pelas outras? Ela tinha ido embora com um yokai e o pior, estava grávida! A Rin nunca se desculpou por ter nos abandonado e a partida dela abalou a todas nós, você não estava aqui, você não viu como todas ficaram, nossa líder, uma líder branca, ficou louca e acabou se matando. Tudo mudou depois da partida dela.

- Não importava o que ela tinha feito ou quem ela era, Kikyou, era uma vida. Ou melhor, duas vidas. – eu disse e naquele momento eu tinha pena de como ela enxergava aquela situação.

- Duas vidas que deveriam ter sido cuidadas por aquele desgraçado. – ela vociferou. – Se ele a tirou de nós o mínimo que deveria fazer era cuidar dela!

Eu balancei a cabeça e sentei novamente na cama, aquela conversa não nos levaria a lugar nenhum. Aquilo não estava servindo de nada, pelo contrário, só estava nos estressando. Ela me encarou e novamente uma mistura de sentimentos tomou conta do rosto dela e eu não sabia dizer ao certo o que ela estava tentando demonstrar.

- Eu não vou conseguir te convencer de nada, então nossa conversa acaba aqui. – ela disse. – Você vai entender o que eu quis dizer.

Não respondi e ela saiu do quarto, eu tinha a sensação que aquela frase era outra ameaça, algo como "você vai sentir na pele o porquê de eu não ter ajudado a Rin". E bem, eu não estava errada, depois de mais ou menos uma hora algumas das minhas antigas companheiras entraram no quarto com cordas, eu não achei que aquilo era um bom sinal.

- Você vai nos acompanhar sem arranjar confusão? – perguntou uma delas.

Eu pensei nas minhas possibilidades, ser amarrada ou andar e pensar em uma maneira de fugir, achei a segunda opção mais sensata. Levantei os braços em sinal de paz e elas guardaram as cordas nas mochilas que carregavam, eu me perguntei por que elas estariam usando mochilas no templo, mas deixei isso para outra hora. Eu tinha que descobrir o que estava acontecendo.

- Para onde vocês estão me levando, Akina? – perguntei amigavelmente.

- Só nos siga. – ela respondeu. Curta e grossa.

As quatro garotas abriram passagem para eu passar, sendo que duas delas ficaram na minha frente e as outras duas vieram logo atrás. A coisa era realmente séria, quatro anjos para me escoltar era tão bom quanto as cordas. Mesmo naquela situação eu percebi que o templo estava bem mais vazio que o usual e não me impedi de perguntar o motivo daquilo.

- Elas estão lá fora, sendo assassinadas pelos seus fans.

A resposta foi dura o bastante para me deixar em silêncio o resto do percurso. Meu corpo inteiro arrepiou quando notei para onde elas estavam me levando. O templo era grande e escondido nas montanhas, existia vários quartos e graças a isso eu acabava esquecendo que aquilo eram um templo, era só quando eu ia para o lado de fora que eu conseguia ter consciência de aquela construção estava longe de ser uma casa comum. E era para fora que elas estavam me levando.

Eu achei que não poderia piorar, mas quando vi o que me esperava percebi que estava apenas começando. O lado externo do templo era cheio de estátuas de anjos e plantas sagradas, no centro havia um círculo desenhado no chão com mármore branco, o mármore era todo trabalhado e existiam letras entalhadas no que eu achava ser latim, ao redor do circulo existiam sete marcas de mármore negro, cada um com um número. As arvores que cresciam ao redor sempre me impressionaram por causa do formato, os galhos pareciam cercar o círculo, numa espécie de proteção bizarra da natureza. Claro que tudo aquilo era muito estranho, mas o que sempre me dava calafrios era a mancha vermelha no mármore branco, embora a Kikyou me dissesse o tempo todo que era bobagem minha nada mudava a minha opinião de que aquilo era sangue. E naquele momento eu meio que tive certeza disso.

A Kikyou estava parada no número 1 e usava sua roupa de sacerdotisa, e apesar da situação não ser propicia eu não pude deixar de me perguntar por que diabos seres que tinham saído da religião católica tinham sacerdotisas e templos, mas não pude mais continuar meus pensamentos, pois Akina me empurrou de maneira pouco delicada e quando notei eu estava dentro do circulo, em cima da marca vermelha. Olhei ao redor e vi que os outros seis lugares estavam ocupados por anjos que eu não via há muito tempo, todas elas haviam sido designadas para cuidar de lugares precários. Elas eram as mais poderosas entre nós. Os galhos que eu sempre achei estranhos estavam servindo como castiçais, segurando velas brancas e grossas e as plantas mais baixas estavam cheias de incensos.

Quando eu pisei no círculo, a fumaça dos incensos me rodeou e eu não pude evitar tossir, a fumaça era espessa demais para sair só de alguns pauzinhos e o cheiro era algo que me lembrava muito canela, só que com terra e talvez ferro. Era muito forte e irritante. Mexi as mãos tentando afastar aquilo de mim, mas foi inútil, ela só se dissipou quando a voz da Kikyou ecoou quase sombriamente.

- Apresente-se.

- Que idiotice é essa? Vocês sab...

Eu não consegui terminar, ela voltou a falar com aquela voz e me interrompeu.

- O seu nome.

- Kagome.

- Seu nome completo. – ela insistiu parecendo irritada com a minha resposta.

A resposta era simples, mas eu não sabia mais se eu era uma delas, não depois do que havia acontecido no meu quarto. Se eu não fosse mais um anjo, eu não poderia usar o sobrenome Arashi, me perguntei se era algum tipo de "pergunta pegadinha" e fechei meus olhos, em uma daquelas atitudes que heroínas de filme tomam "ouça seu coração".

- Meu nome é Kagome. – disse com convicção.

A expressão séria da Kikyou sumiu por menos de um segundo, ela parecia decepcionada, e então ela saiu do seu lugar e começou a dar voltas no círculo, segurando um incenso com uma fumaça verde. Senti um arrepio correr pela minha coluna quando ela parou ao meu lado, Kikyou era normalmente muito poderosa, mas naquele instante eu senti como se ela tivesse se tornado alguém inalcançável, ondas de poder me acertavam e em certo momento eu achei que vomitaria. Embora eu mantivesse uma imagem de indiferença, a verdade é que eu estava me esforçando para me manter em pé, minhas pernas pareciam prestes a falhar a qualquer momento. Era como se eu tivesse me tornado pesada demais.

Mordi o lábio segurando o grito de surpresa quando senti meu braço sendo agarrado por ela, Kikyou ergueu a cabeça e qualquer sinal de decepção que tinha em seu rosto havia sumido, ela parecia como uma daquelas estátuas.

- Hoje é um dia muito triste, - ela começou a falar. – a traição de uma de nós é sempre algo doloroso. Não são todas que conseguem conviver com a importância da nossa missão e esta garota foi mais uma que sucumbiu ao sonho de ser só mais uma.

Apesar de o meu medo ter se alastrado pelo o meu corpo quando ela começou a falar, eu achei aquele sermão todo um teatro desnecessário. Eu não estava traindo ninguém, eu aceitava quem eu era o que eu não aceitava eram as leis e as mentiras dos anjos, pensei em interromper, mas apenas o vislumbre dessa idéia já foi o bastante para que aquele incenso verde me rodeasse. Kikyou pareceu não se importar com aquilo e voltou a falar.

- Kagome, uma filha azul, nos renegou, renegou suas asas e é por isso que estamos aqui hoje.

O desespero tomou conta de mim, eu finalmente havia entendido o que estava acontecendo. Minhas pernas falharam e eu busquei dentro de mim uma força que eu não sabia onde estava, minhas escolhas eram gritar ou deixar o desespero levar minha mente embora e desmaiar ali mesmo. Como sempre, eu escolhi gritar.

- Você! - eu gritei apontando para Kikyou de maneira acusadora. – Você está mentindo, você sabe que eu não reneguei quem eu sou, isso é só a sua vingança estúpida!

- Você não tem o direito de falar nesse círculo. – ela disse sem olhar para mim.

Foi tudo muito rápido para eu entender o que havia acontecido, mas quando eu dei conta Akina e outra garota me seguravam e eu me debatia entre seus braços tentando chegar até Kikyou.

- Me soltem, eu vou quebrar a cara dessa desgraçada! – eu gritava.

Kikyou virou em nossa direção e seu olhar era congelante, mas eu não me intimidei. Eu sabia que estava ferrada, não faria diferença dar um show ou não.

- Tire essas incompetentes de cima de mim. – eu vociferei.

Ela não moveu um músculo. Eu cerrei meus olhos e voltei a me debater agora querendo me livrar daquelas duas.

- Aceite seu destino, Kagome, vai ser melhor. – disse Akina parecendo levemente preocupada.

- Esse não é meu destino, - eu grunhi. – eu nunca tive um destino! Aquela vaca brincou com a minha vida desde que eu nasci e é isso que ela está fazendo agora!

- Já chega! – disse Kikyou sem alterar o tom de voz. Ela não precisava. – Como acha que pode me impedir de cumprir minha missão quando não consegue sequer se desvencilhar de duas garotas?

Eu sabia o que ela estava fazendo, ela estava indo direto no meu orgulho. E funcionou. Me livrar de Akina e da outra não seria difícil, eu parei de me debater e fechei meus olhos, eu era um anjo do céu afinal de contas, eu deveria ser capaz de fazer alguma coisa. Eu fiquei ali parada, mas nada aconteceu, eu sabia o que fazer contra era contra yokais, mas contra a minha própria raça? Nunca sequer pensei que isso poderia acontecer.

- Não é tão fácil quanto controlar yokais fraquinhos como o Inuyasha, não é? – disse Kikyou com um tom maldoso.

Eu abri meus olhos e todas as lembranças que eu tinha de Inuyasha passaram em minha mente, o momento em que nos conhecemos, todas as bobagens que eu tinha tido, os beijos, a morte... Foi a lembrança da morte que ascendeu algo em mim, por algum motivo eu fiquei realmente furiosa ao lembrar que ela tinha me matado e me usado. O fato de ela falar do Inuyasha só tinha piorado as coisas, eu não gostava da maneira como ela o tratava.

Uma brisa levantou meu cabelo, parecendo querer me acalmar e eu logo entendi o que viria logo a seguir. Eu sabia o que fazer. Sorri para Kikyou e disse:

- Na verdade, é sim.

A brisa dessa vez envolveu Kikyou, fazendo suas roupas e cabelo balançaram e antes que ela pudesse entender o que estava acontecendo a brisa foi se tornando cada vez mais forte até parecer um pequeno furacão dentro do círculo. As velas se apagaram e a fumaça dos incensos se dissipou, quando olhei para o lado vi que Akina e a outra tinham sido arremessadas para fora do círculo, as garotas do círculo haviam saído do seu lugar e pareciam confusas com o que acontecia.

Kikyou cerrou os olhos e novamente percebi uma mistura de sentimentos, não sei dizer que era raiva ou orgulho ou surpresa, mas antes que eu pudesse descobrir ela foi arremessada para o lado, assim como as outras haviam sido. O vento parou abruptamente e todos ficaram em silêncio, olhando para mim. Eu pensei em correr, mas não era uma opção muito digna, então continuei parada ali, esperando pelo o que aconteceria. Akina se levantou rapidamente e foi até Kikyou, ajudando-a a levantá-la.

- Podemos resolver isso de outra maneira. – eu disse um pouco receosa. – Não precisa ser assim.

Ela levantou imponente, poderosa, como se aquela queda apenas a tornasse mais inalcançável e disse com uma voz triste:

- A brincadeira acabou, Kagome. Você não pode fazer o que bem entender sem sofrer as conseqüências, você não é diferente das outras. Se você acredita nas suas verdades aja como adulta e honre isso, aceite o preço de não confiar naquelas que te deram a vida.

Naquele momento eu senti vontade de chorar, não de medo, mas de tristeza. Aquele sentimento se espalhou rapidamente pelo meu corpo, como se estivesse no meu próprio sangue. Eu entendi o que ela estava falando a brincadeira realmente tinha acabado, era hora de encarar as conseqüências das escolhas que eu tinha feito. Lembrei da Rin presa naquele lugar, lembrei da dor nos olhos do Sesshoumaru ao contar sua história, lembrei da minha morte e lembrei dos olhos do Inuyasha. Do sorriso do Inuyasha. Das mãos dele segurando as minhas enquanto me levava para casa. Eu lembrei do Inuyasha e tive certeza da minha escolha. Ergui minha cabeça e encarei Kikyou.

- Eu estou pronta, eu vou aceitar o preço por fazer a coisa certa.

Ela deu um sorriso triste e assentiu com a cabeça, talvez fosse coisa da minha imaginação, mas naquele momento eu senti que ela não queria aquilo, a Kikyou que eu conhecia e admirava estava naquele sorriso e naquele par de olhos tristes. Se ela me odiasse, não se sentiria triste ou culpada pelo o que estava prestes a fazer. Minha linha de pensamento foi cortada quando a vi cortando o próprio braço e levando o sangue até os lábios, fechei os olhos me preparando para o que estava prestes a vir.

- Kagome, você aceitou o seu destino, - ela dizia. – agora não cabe mais a nós te julgar. Vá ao encontro do seu destino e que Deus a acompanhe.

O ar dos meus pulmões começou a sumir, eu abri meus olhos e tenho certeza que eles estavam arregalados, a força que eu fazia para manter minhas pernas firmes foi embora e eu cai batendo a cabeça. A última coisa que eu vi foi os olhos da Kikyou. E eles estavam cheios de lágrimas.

##

O som de água e o cheiro de terra eram familiares. Familiares até demais.

- Merda, eu morri de novo.

Eu abri meus olhos e olhei ao redor, havia algo de estranho naquele lugar. Eu tinha certeza que era o jardim dos fundos da casa do Sesshoumaru, mas diferentemente da última vez que eu estivera em um jardim do outro mundo ou seja lá o que isso fosse, esse jardim estava morto. E não havia outra palavra para descrever o lugar, os troncos das árvores eram escuras e pareciam restos de algum incêndio. As mesas e bancos de ferro estavam enferrujados, as roseiras estavam secas, apenas com seus troncos e espinhos a mostra, eu olhei para o chão e percebi que não havia grama, só uma terra seca e trincada. Levantei e vaguei por um tempo que eu não tenho idéia, sempre que eu ia para esse lugar eu perdia a noção do tempo. O que a Rin havia dito sobre isso mesmo? Que o tempo não existia?

Me perguntei se a Rin estaria ali, mas duvidei, a única coisa que parecia viva – ainda que forma duvidosa – era o rio escuro que corria. Olhei para o céu, mas bem, aquilo não era um céu, era como se um pano negro cobrisse toda a parte superior do lugar. E eu fiquei ali andando e andando e andando. Eu não tinha muita certeza sobre onde eu estava a única certeza que eu tinha era a de que se eu continuasse ali eu perderia a minha cabeça.

- Triste, não é?

Eu dei um grito histérico e assustado, o som de algo que não era aquele rio insuportável foi uma surpresa tão grande para mim que eu não consegui evitar a reação afetada. Eu levantei a cabeça e encontrei Rin, exatamente como da última vez.

- Desculpe, não queria te assustar. – ela disse.

- Tudo bem, - eu disse e sorri. – achei que não te encontraria aqui.

- Eu preferia que não me encontrasse.

Eu a encarei e percebi que suas feições estavam tão ruins ou piores do que as da Kikyou, a lembrança que eu tinha era a de uma mulher tranqüila e que transmitia paz, lembro de até ter visto-a de forma maternal, mas agora? Ela parecia só a sombra daquele mulher cheia de vida que eu encontrara, seus olhos estavam vermelhos e com olheiras fundas, me perguntei quantas horas ela passara chorando ou sem dormir. Também tive a impressão de que ela estava mais magra e sua roupa parecia suja e surrada.

Por mais cruel que isso soasse, aquela Rin parada em minha frente combinava com aquele lugar morto, era como se eles se completassem. Ela pareceu incomodada com o meu silêncio ou com o meu olhar e deu um sorriso simples.

- Deve estar achando minha aparência e esse lugar muito estranhos, não é? Eu estou presa aqui, na realidade é aqui que eu vivo, se você pode usar essa palavra para descrever meu estado. Logo após a minha morte eu vim parar aqui, é a punição por tudo o que eu causei.

- Elas te prenderam aqui? – eu perguntei horrorizada.

- Eu não sei se foram elas, mas acho que cometi muitos pecados para ser digna de ter uma alma livre.

- Isso é idiota!

- Você ouviu o que a Kikyou disse, minha partida causou a morte da líder. A líder era minha própria irmã, elas nunca me perdoaram por isso e esse é o real motivo de não terem me ajudado quando eu precisei. Quem me ajudasse seria considerada uma traidora, assim como você.

Eu fiquei ali parada olhando para ela tentando entender o que tudo aquilo significava, dessa vez ela não ficou incomodada com meu silêncio, ou se ficou achou melhor não falar nada. Afinal de contas, porque eu estava ali? Porque precisariam da Rin?

- Pense nas palavras da Kikyou. – ela disse e eu percebi que talvez ela pudesse ler a minha mente.

As palavras da Kikyou... Eu as procurei na minha mente, todas elas, desde nosso encontro no hospital até a reunião no círculo. Se eu estivesse viva – ou no meu corpo – eu certamente ficaria branca, não poderia ser isso. Eu havia aceitado meu destino, mas não podia aceitar que ela faria isso.

- Me desculpe, - ela disse e seu tom era choroso. – se eu tivesse uma escolha eu te libertaria.

- Que cruel, - eu sussurrava pra mim mesma. – te prender aqui por tanto tempo para fazer essas coisas horríveis, como se não doesse o bastante a morte da sua irmã, perder seu filho e ficar longe do Sesshoumaru. Que cruel.

- O Sesshoumaru... – ela disse parecendo se lembrar de algo importante ao ouvir aquele nome. – Eu o procurei, ele me prometeu que vai cuidar de tudo!

Evitei pensar em qualquer coisa que fosse, eu não tinha certeza se ela podia ler minha mente e eu não queria correr o risco.

- Eu sei que ele vai. – eu disse.

- Me desculpe, eu... Eu não acredito que vou mesmo ser capaz de fazer isso, não com você...

Ela parecia pior do que eu, a impressão que eu tinha era a de que se ela pudesse trocar de lugar comigo, ela trocaria sem pensar duas vezes. Percebi-a concordando freneticamente com a cabeça e tive certeza que ela podia ouvir meus pensamentos.

Assim como acontecera quando eu estava no círculo, eu estava me esforçando para me manter firme o bastante, eu repetia vez após outra na minha mente a frase "você está fazendo o certo" e isso incentivava. Eu não podia ter medo ou melhor, eu não queria ter medo e pensar no que a Rin passava há milhares de anos fez com que minha preocupação se tornasse ridícula e até mesmo egoísta. Minha punição seria dolorosa, mas não duraria para sempre.

- Tudo bem, Rin, - eu disse e sorri tentando conforta-la. – eu não te odeio ou te culpo por nada.

Rin pareceu prestes a desabar, mas assim como eu estava fazendo, ela buscou forças em algum lugar e se manteve em pé. Seus olhos se encheram de lágrimas.

- Ele disse que você não me odiaria e que me entenderia.

- Apenas termine com isso logo, está bem?

A minha voz saiu mais firme do que eu achei que sairia e me senti aliviada por isso, ela abriu os braços e eu caminhei lentamente em sua direção. Ela era um pouco mais alta do que eu, talvez uns 10 centímetros e graças a isso eu pude encostar minha cabeça no seu colo, ela enlaçou seus braços ao meu redor e pousou suas mãos nas minhas costas.

- V-vai doer? – eu perguntei soando como uma criança.

- Vai ser provavelmente a pior dor que você vai sentir na vida. – ela respondeu.

Eu fiquei em silêncio esperando pela dor e senti algo úmido escorrer pelo rosto, eram lágrimas, mas eu não estava chorando. As lágrimas eram da Rin. Eu ergui meus olhos e a encarei e a última coisa que eu ouvi foi "Me desculpe".

Depois disso eu perdi um pouco a consciência, como ela havia dito, uma dor insuportável começou a se espalhar pelo meu corpo. A principio era só um incomodo nas minhas costas que logo se tornou mais forte, mais forte até que eu não agüentava mais só cerrar meus dentes, eu precisava berrar. E eu berrei, berrei como nunca havia berrado na minha vida, a sensação que eu tinha era que a de eu estouraria as minhas cordas vocais. Rin estava tirando minhas asas.

Eu sentia como facadas cada movimento que ela fazia, eu senti seus dedos cravando minha pele e entrando além da tatuagem, senti quando ela agarrou a base das asas e quando começou a puxá-las para fora. Eu tinha certeza que desmaiaria ou talvez eu já estivesse desmaiada e não soubesse, afinal, minhas pernas já não me seguravam mais, era apenas aquele aperto que me mantinha em pé. A ausência do tempo naquele lugar só tornava tudo pior, porque eu não conseguia ter idéia a quanto tempo aquela tortura estava durando, a impressão que eu tinha era a de que estava durando anos.

- E-eu posso abri-las? – eu perguntei quando senti que ela já retirara toda a asa.

Falar não era a missão mais fácil do mundo, mas se eu perderia minhas asas, se eu seria privada para sempre de voar eu queria ao menos uma vez saber qual era a sensação de abrir minhas asas e me sentir livre. Eu tenho certeza que a Rin entendia esse sentimento e apenas se afastou um pouco, deixando o espaço suficiente.

Se eu não conseguia achar palavras para descrever a dor que eu sentia, naquele momento eu não consegui achar palavras para descrever a sensação de abrir minhas asas. Eu sabia que naquele mundo, o mundo real, minha tatuagem era só uma marca qualquer, mas a Kikyou havia me explicado que nós realmente tínhamos asas, mas elas só se abriam quando nossa missão na Terra havia terminado e estávamos livres. Minha vontade era bater minhas asas e sair dali, fugir da dor que viria e eu não estava falando da dor física, a dor de perder minhas asas seria a pior de todas. Eu voltaria ao mundo real sabendo que jamais poderia ter aquela sensação novamente.

Eu olhei para Rin e pela primeira vez no meio de toda aquela loucura uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Novamente ela me entendeu sem precisar dizer nada e me enlaçou novamente em seus braços e assim, no tempo de um único berro de dor minhas asas já estavam no chão. Rin me soltou, deu alguns passos para trás e olhou horrorizada para suas mãos, elas estavam cheias de sangue e tremiam, ao mesmo tempo eu cai deitada e fiquei ali. Eu não tinha forças para levantar, na verdade eu não queria levantar e meus olhos estavam fixos em algo que não existia. Ao perceber isso, Rin ignorou suas próprias dores e deitou ao meu lado.

- Vai ficar tudo bem, Kagome, lembra? O Sesshoumaru prometeu.

Eu fiquei em silêncio mais alguns minutos e então me permiti chorar. Minhas costas latejavam e eu sentia o sangue escorrendo. Eu me sentia incompleta, era como se essa fosse uma nova versão defeituosa de mim e eu não conseguia pensar em nada no mundo que pudesse suprir aquele vazio que tomava conta do meu corpo. A Rin ficou ao meu lado, segurando minha mão até que eu me acalmasse ou pelo menos parasse de chorar.

- Eu preciso voltar. – eu murmurei.

- Sim, você precisa. Você estará melhor lá. – ela disse.

- Eu vou te libertar desse inferno. Eu prometo.

Ela sorriu sabendo que eu estava falando sério e disse:

- Eu sei que vai. Agora durma.

Só quando ela falou que eu deveria dormir eu percebi quão cansada e sonolenta eu estava, eu apenas acenei positivamente com a cabeça e antes que eu percebesse eu já estava dormindo.

##

Certamente o que me acordou foi a dor. Eu não tinha muita certeza se quando eu voltasse para o mundo real eu sentiria tudo aquilo, mas eu acho que me iludi um pouco. O que eu sentia ia um pouco além da dor considerada aceitável, talvez a única comparação que eu tivesse era a de alguém tendo um membro sendo amputado sem anestesia, mas eu nunca tinha passado por isso, então até que se provasse o contrário a minha dor era pior.

Abri os olhos e olhei ao redor, não parecia ter passado tanto tempo desde que eu desmaiara, eu estava deitada em uma poça de sangue - que calhava bem com a marca vermelha no mármore branco – e Kikyou estava branca, me encarando há poucos centímetros. Os outros anjos estavam espalhados e me olhavam como se eu fosse uma aberração da natureza. Eu usei meus braços para me ajudar a levantar e soltei um grunhido baixo de dor, eu não fazia idéia do estado das minhas costas, mas achei melhor não olhar, pela forma como as pessoas me encaravam a coisa estava realmente ruim.

Fiquei em pé apenas por um segundo e cambaleei para o lado, retomando o equilíbrio a tempo.

- Eu cumpri meu destino, creio que agora eu esteja livre.

Não sei exatamente como eu conseguia falar, ficar em pé ou até mesmo pensar, talvez fosse minha determinação em provar para a Kikyou que era melhor do que ela, que eu conseguia aceitar as conseqüências das minhas escolhas, mesmo que isso arrancasse uma parte de mim. Literalmente. Não existia mais nada que ela pudesse me dizer para justificar sua falha.

Ninguém respondeu e eu dei um sorriso vitorioso.

- Eu disse que isso era sangue! – eu disse apontando para a mancha que agora não era mais uma manha e sim uma poça.

Dessa vez eu não esperei uma resposta. Limpei minha mente de qualquer pensamento e me foquei em algo simples e direto "um passo depois do outro, um passo depois dos outros". Se alguém falou algo ou tentou me impedir eu não sei, o "mantra da caminhada' estava funcionando perfeitamente e quando eu dei por mim já estava longe o bastante do templo para olhar para trás e não poder mais vê-lo.

Quando eu conclui isso esqueci minha determinação e me deixei cair no chão. Eu não conseguiria fazer mais nada. Ou alguém me ajudava ou eu morria.


Olá, meninas, como estão? :)

Esse capítulo foi até bem rápido, não é? É que eu o tenho pronto na minha cabeça desde o começo, é sem dúvida um dos que eu mais sentia vontade de escrever e eu gostei bastante dele. Não sei se vocês conseguiram entender, mas esse capítulo se passa antes da parte final do capítulo anterior, quando o Inuyasha acorda ele está sentindo a dor da Kagome perdendo as asas. Outra coisa é a demora da Rin em aparecer, isso acontece porque ela estava no sonho do Sesshoumaru. Acho que de explicação é só, pelo menos as partes que eu posso explicar XD

Maah: Antes de tudo PARABÉNS ATRASADO! Eu estou te devendo uma fic ainda do ano passado, me desculpe por isso ;-; Pior é que eu a tenho pronta em algum caderno do meu cursinho, só preciso passar a limpo!

Matemática é uma desgraça na minha vida, eu não sei a tabuada do 7 nem do 8 e acho que não sei também a 6! Espero que o castigo não esteja muito chato ;o;

Que bom que você gostou do capítulo *_* Digamos que a Kagura não precisou de mais socos da Kagome, o Kouga fez o trabalho completo! xD Acho que por enquanto o desejo da Kagome poder voar e o Inu poder matar geral não vai dar, né? Mimimimi Pode deixar que eu vou dar um jeito na Kikyou e em todos os anjos e em todo mundo \o/ E argh, eu sempre esqueço de te adicionar, pode deixar que quando meu msn resolver entrar eu te adiciono, prometo ;o; Até o próximo capítulo s2


Yogoto: Oláá! Bem, o Inu nem apareceu nesse capítulo coitado, mas ao menos explicou o que vai ser da Kagome, pelo menos por enquanto! Eu que agradeço pela review *_* :*


Quinzel: Reparou que o ff cortou seu nome da última vez, né? Eu arrumei umas três vezes e mesmo assim sumia, muito complô! u.u A ação ainda não chegou, não de verdade, acho que só daqui uns 2 capítulos, mas prometo que um dia ela chega! Como deu pra ver, eu não sou um exemplo na parte das lutas, então, estou treinando antes de escrever as cenas verdadeiras! XD Mais uma vez, obrigada pela review, querida! :*


Ayame: Uou! Uma review enorme, que lindo, você me fez tãããão feliz ;o; Seja bem vinda a minha fic :D Vamos com calma, responder todos os tópicos XD

Um zilhão de vezes obrigada pelos elogios, eu fico muito feliz que você ache isso das minhas fics! Sobre as reviews eu acho que o problema é que a fic é muito longa e os capítulos também são gigantes, então a maioria só coloca nos favoritos. Fora a demora entre um capítulo e outro.

O que aconteceu com a Kagome foi exatamente isso, ela vivia em um mundinho onde nada era questionado e ela era A garota prodígio, depois de passar por tudo aquilo ela descobriu que agia como uma idiota dona da verdade e está tentando descobrir as coisas por conta própria.

O Miroku, por incrível que pareça, é um personagem que eu não consegui fazer 100% como eu queria, na minha cabeça ele participava mais, mas quando eu escrevo sempre parece ter tanta coisa que não consigo dar o espaço que ele merece mimimi =(

As asas já foram explicas – ao menos, uma parte delas. – nesse capítulo e você está certa sobre as garras, vai além do sangue da mãe dele!

Na verdade, eu nunca pensei na idade do Sesshoumaru HAHAHAHA Mas ele é bem velho e apesar de não ter pensado na idade, isso é meio importante pra fic!

O Inu Taisho é um pouco como a Kagome, o que significa que ele não é tão ruim assim, afinal, ele não matou a Rin. Ele só não queria a criança que o relacionamento de um anjo e um yokai traria.

O problema entre a Sango e o Miroku é que ela tenta agir como madura o tempo todo e na verdade, ainda é um pouco infantil e o Miroku é o contrário, por ele ser tão maduro, ele prefere agir de maneira descontraída, para não levar tudo tão a sério. E é por isso que ele cobra maturidade dela, o que ele quer é que ela seja ela mesma.

Acho que eu piorei um pouco mais a situação da Rin, não é? Até eu tenho dó dela, coitada!

A Kikyou é um dos meus personagens favoritos exatamente por essa ambigüidade, ninguém sabe se ela é uma vaca louca ou uma coitada perdida nas próprias histórias. Eu só fico surpresa por ninguém ainda ter descoberto a verdade sobre ela!

Sabe que eu também não gosto de guerra? HAHAHA Isso não estava nos planos originais da fic, mas quando eu vi a coisa toda já estava feita! Quero ver como vou resolver isso!

Que bom que gostou da parte do Espelho *_* Afinal, o nome da fic veio daí, né? :D E ah, acho que não demorou tanto esse cap, né? Como eu estou de férias, eles vão sair mais rápido!

Mais uma vez, obrigada pela review e pela empolgação com os personagens e a história! Eu posso não receber muitas reviews, mas as que eu recebo valem por várias s2


Ufa, é isso! Mais um capítulo, eu não tenho muita idéia, mas eu acho que a fic está acabando, talvez mais uns 5 e terminamos. Eu tenho planos de fazer uma espécie de história paralela, a Rin narrando a história dela, mas só quando terminar essa. Meu pequeno cérebro não consegue fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Me digam se gostariam de ler a história completa da Rin e se alguém quiser ler, eu realmente faço :)

Estarei de volta logo, logo. Obrigada pela visita e por continuar me acompanhando. Um beijo e até mais.