Fiquei em pé apenas por um segundo e cambaleei para o lado, retomando o equilíbrio a tempo.

- Eu cumpri meu destino, creio que agora eu esteja livre.

Não sei exatamente como eu conseguia falar, ficar em pé ou até mesmo pensar, talvez fosse minha determinação em provar para a Kikyou que era melhor do que ela, que eu conseguia aceitar as conseqüências das minhas escolhas, mesmo que isso arrancasse uma parte de mim. Literalmente. Não existia mais nada que ela pudesse me dizer para justificar sua falha.

Ninguém respondeu e eu dei um sorriso vitorioso.

- Eu disse que isso era sangue! – eu disse apontando para a mancha que agora não era mais uma manha e sim uma poça.

Dessa vez eu não esperei uma resposta. Limpei minha mente de qualquer pensamento e me foquei em algo simples e direto "um passo depois do outro, um passo depois dos outros". Se alguém falou algo ou tentou me impedir eu não sei, o "mantra da caminhada' estava funcionando perfeitamente e quando eu dei por mim já estava longe o bastante do templo para olhar para trás e não poder mais vê-lo.

Quando eu conclui isso esqueci minha determinação e me deixei cair no chão. Eu não conseguiria fazer mais nada. Ou alguém me ajudava ou eu morria.


Capítulo 22 - Alguém para salvar

O som de pancadas na porta fez com que a movimentação da casa cessasse, Miroku olhou para o hanyou caído no chão e alisou a testa de maneira preocupada. A única mulher do aposento colocou o telefone no gancho e disse:

- É ele, ele já está ai.

Um homem alto e magro levantou-se da cadeira em que estava sentado e andou a passos largos até a porta, sem sequer perguntar quem era, abriu e foi para o lado, dando passagem para que o yokai entrasse.

- Estávamos tentando te ligar. – disse.

- Onde ele está?

O humano apontou para o quarto em que o resto da família se encontrava. Sesshoumaru andou até o quarto parecendo tentar conter a ansiedade, seu rosto tinha uma expressão um pouco desesperada, diferente do seu habitual. Ninguém ali precisava perguntar para saber que algo estava acontecendo. Algo nada agradável.

Miroku desviou os olhos de Inuyasha e encarou o yokai que agora entrava no aposento, Sesshoumaru olhou dele para Inuyasha e disse:

- Há quanto tempo ele está assim?

- Menos de 10 minutos. – disse Miroku. – Ele disse que elas a encontraram.

O rosto do yokai se contorceu em uma careta de desgosto.

- Ele só disse isso?

Miroku acenou positivamente com a cabeça.

- Ele está bem?

Sesshoumaru não respondeu. A mãe do rapaz se levantou parecendo verdadeiramente irritada e andou até o yokai batendo os pés, quando chegou perto o bastante estendeu o dedo indicador.

- Você disse que elas o deixariam em paz! É aquela mulher de novo, não é? E foi ela também da última vez, quando o atacaram!

O pai de Miroku entrou no quarto e parou ao lado da mulher e segurou-a pelos ombros.

- Hana, querida, está tudo bem, acalme-se.

- Não, não está tudo bem! – disse Hana cerrando os olhos. – Ela nos tirou o Inuyasha antes e está fazendo de novo. Você disse que o protegeria, foi a condição para que deixássemos que você o levasse!

- Espera, do que vocês estão falando? – disse Miroku.

- Fique fora disso. – disse o pai.

- Não existia nada que eu pudesse fazer em relação a isso, ele está bem. – disse Sesshoumaru. – Eu preciso dele acordado, existe algo muito importante que eu preciso saber.

- O garoto está desmaiado, Sesshoumaru! – surtou Hana. – Pelo amor de Deus, parecia que estavam arrancando um braço dele de tanto que ele gritava e agora você quer que ele levante só pra te ajudar?

- Por que ninguém respondeu minha pergunta? – insistiu Miroku. – Mãe, de quem você está falando? Quem são "elas"?

- Desde quando você é tão burro? – disse um velho que até então se encontrava sentado em um canto, parecendo alheio a tudo o que acontecia. – Me encheu de perguntas sobre anjos e agora não consegue ligar as coisas?

- Papai! – gritou Hana.

- O quê? – disse o velho dando nos ombros. – Ele e aquela namorada bonitona dele ficaram me tratando como se eu fosse um velho inválido, me enchendo de perguntas e agora não consegue nem lembrar do que eu disse?

- Vocês sabem sobre anjos e o que eles querem com o Inuyasha? – disse Miroku incrédulo.

O velho revirou os olhos e bufou.

- Gênio.

- Não é hora para isso. – disse Sesshoumaru. – Temos coisas mais importantes para discutir.

- Como não é hora pra isso? – disse Miroku. – Você e toda a minha família sabem o significado de tudo o que está acontecendo com o Inuyasha, o que pode ser mais importante do que isso?

- Se não encontramos a Kagome ela vai morrer. – disse Sesshoumaru parecendo aflito. – E ninguém faz idéia de onde ela pode estar, preciso do Inuyasha acordado. Preciso que ele me diga tudo o que sentiu, talvez tenhamos uma pista de como encontrá-la.

Miroku alisou o rosto de maneira impaciente e disse:

- Está certo, mas espero que alguém me explique o que está acontecendo. Logo.

Sesshoumaru fez um movimento impaciente com a mão e abaixou-se até Inuyasha, que estava deitado no chão do quarto. Ele encarou o hanyou por alguns instantes e colocou as duas mãos em seu peito, em poucos minutos Inuyasha pareceu acordar. Parecia que ele estava sem ar, pois ao abris os olhos deu grandes golfadas de ar.

Olhou ao redor parecendo confuso e ao encontrar Sesshoumaru ao seu lado sentou-se rapidamente e começou a falar desenfreado:

- Elas a pegaram, Sesshoumaru, eu acho que ela morreu! Eu senti uma dor terrível e eu sei, eu tenho certeza que estava vindo da Kagome e depois ela sumiu, quero dizer, a Kagome, não a dor. Antes eu sabia ao menos que ela estava viva, agora não, eu não sinto mais nada vindo dela, ela morreu, onde ela pode estar, o que está acontecendo?

- A Kagome não é mais um anjo. – disse Sesshoumaru tentando soar o mais calmo possível.

- O quê? – disseram Miroku e Inuyasha ao mesmo tempo.

- Eu disse no hospital que caso ela resolvesse renunciar os anjos isso teria um preço, não disse? – disse o yokai.

Inuyasha ficou em silêncio alguns segundos tentando se lembrar da conversa que Sesshoumaru estava falando e quando finalmente lembrou entendimento passou por seus olhos.

- As asas! – disse finalmente.

- O quê? – repetiu Miroku.

- Exatamente, - disse Sesshoumaru. – eu acredito que agora ela seja apenas humana e sendo assim não existe mais ligação nenhuma entre vocês. A dor que você sentiu foi as asas dela sendo arrancadas e a ligação quebrando.

- Eu estou livre? – disse Inuyasha confuso.

- Se for o que você quer, sim, você está livre. – disse Sesshoumaru revirando os olhos.

- Você está bem?

Inuyasha olhou para o lado e encontrou os olhos cor de mel de Hana o encarando de maneira preocupada, ele apenas acenou positivamente com a cabeça.

Ele sabia que deveria estar mais preocupado, Kagome poderia estar morta, mas era inevitável não aproveitar aquela nova sensação que se apoderava por seu corpo. Ele era livre, não existia mais atração, não existia mais poder estranho de ler mentes, não existia mais aquela vida compartilhada bizarra que ele estava tendo. Ele finalmente poderia ser ele mesmo. Não existia mais Kagome para mexer com sua cabeça.

Aquele último pensamento passou novamente pela sua cabeça e ele arregalou os olhos.

- Não! Eu preciso encontrá-la.

Ele poderia ser livre, mas isso não significava que ele estava disposto a deixá-la morrer.


Um cheiro forte de algum tipo de animal fez com que a consciência quase perdida de Kagome voltasse, ela abriu os olhos apenas um pouco e percebeu que o animal era um lobo, ele a cheirou e começou a uivar. O som entrou por seus ouvidos e pareceu se intensificar dentro da cabeça, ela voltou a fechar os olhos, dessa vez com força. Seu corpo inteiro doía e o uivo do lobo não estava ajudando, tentou faze-lo ficar quieto, mas quanto mais ela se mexia, mais ele uivava.

- Ótimo, - pensou. – ele está chamando os outros. Você está se superando, Kagome, comida de lobo? Final digno.

Virou-se novamente, deixando agora suas costas para baixo. A dor era insuportável e ela sentia folhas e terra grudadas no sangue, talvez seu cabelo também estivesse grudado. Gemeu baixo ao pensar naquilo. O lobo a encarou e Kagome jurou que podia ver preocupação em seus olhos, ela deu um sorriso fraco.

- Isso, lobinho bom, fica quietinho, fica. – sussurrou. – Maravilha, virei a Branca de Neve e falo com animais agora. Onde estão os pássaros? Quero cantar!

- Seu humor está ótimo, meu anjo.

Kagome desviou os olhos do lobo e procurou pelo dono da voz, mas sua posição não favorecia. Ela tentou se levantar, mas Kouga foi mais rápido e a impediu.

- Você não acha incrível as coisas que acontecem quando a gente está prestes a morrer? – disse Kagome. – Eu acabo de descobrir que adoro ironia.

Kouga balançou a cabeça negativamente e disse:

- Não é hora para brincadeira.

- É, eu sei. – disse Kagome. – Pode me ajudar a levantar? Eu acho que as minhas costas não estão boas o bastante para eu ficar rolando aqui no mato.

O yokai revirou os olhos e segurou-a pelos ombros, levantando-a lentamente. Ela fechou os olhos e soltou gemidos de dor, quando finalmente Kagome estava em pé Kouga pôde ter uma visão das contas.

- O que elas fizeram com você? – disse, parecendo incrivelmente chocado.

Kagome ficou em silêncio, apenas focando todas suas energias em ficar em pé. Todo o falso senso de humor que ela estava se esforçando em demonstrar havia sumido com aquela pergunta, desde que deixara o santuário dos anjos ela evitara pensar no assunto, ela não queria aceitar o que tinha acontecido. Ela não conseguia aceitar.

- Você está bem? – ele insistiu no mesmo tom.

- Não. – confessou Kagome. – Você não consegue perceber o que aconteceu?

- Sim, eu consigo. – disse Kouga. – Você morreu, mas continua viva, como eu disse que aconteceria.

- Eu não estou viva! – gritou Kagome assustando o yokai. – Eu não quero estar viva, não desse jeito!

- Você está livre. – disse Kouga bondosamente.

- Você não entende, ninguém entende! – gritou. – Eu não estou livre, eu estou presa! Presa nesse maldito lugar. Pra sempre!

Kouga andou até Kagome e a abraçou, alisando sua cabeça.

- Elas não podem mais te fazer mal, acabou, Kagome.

- Eu quero ir para casa. – ela sussurrou.

O yokai apenas acenou positivamente com a cabeça e pegou Kagome delicadamente no colo. Ele não sabia quão mal ela estava, mas sabia que continuar ali não ajudaria em nada, a sensação que ele tinha é que de a qualquer momento a garota iria cair no chão desacordada e dificilmente voltaria a acordar um dia. Apesar dessa urgência em socorre-la que sua mente lhe enviava, ele apenas andava de volta, seria muito mais rápido se ele simplesmente voltasse correndo, usando toda a rapidez que um yokai poderia usar, mas ela agüentaria?

- Você matou a Kagura? – perguntou Kagome subitamente tirando-lhe de seus pensamentos.

- Matei. – respondeu. – E antes disso você deu uma surra nela?

- Dei. – disse Kagome. – Eu não queria que ela morresse.

- Ela te mataria se conseguisse.

- Eu sei, isso não muda o fato de que eu não gostaria que ela tivesse morrido.

- Algumas pessoas simplesmente não merecem a sua consideração.

- Eu sei. Ela era uma vaca.

Kouga apenas sorriu sem responder e continuou seu caminho. Kagome pensou em algum outro assunto para falar, mas naquele momento as idéias pareciam-lhe confusas demais, um amontoado de idéias girando em sua cabeça de maneira desconexa. Aquilo não ajudava em nada a se manter acordada, mas sua força de vontade em não fechar os olhos era mais forte. Resolveu que olhar para os lobos que os seguiam seria uma boa distração, mas logo o amontoado de idéias começou a fazer sentido e quando percebeu ela já estava se perguntando o que seria exatamente "sua casa".

Ela não tinha casa. Ela não tinha família, dinheiro, documentos ou um lugar para ir. O que ela era agora? Duvidava que era um ser humano, não se sentia como um. Não que ela soubesse como era ser humano, mas tinha certeza que não era daquele jeito, faltava alguma coisa naquela suposta nova humanidade que ela havia conquistado. Tampouco se sentia como um anjo, talvez agora ela se encaixasse em um meio-termo entre os dois, assim como o Inuyasha era um meio-yokai, ela era um meio-anjo. A idéia soou o mais próximo de algo razoável naquele momento. Novamente o amontoado de idéias começou a se revirar e trouxe outro pensamento a sua mente: Inuyasha.

Kagome não conseguia mais sentir a ligação que os unia, aquele sentimento dentro dela que sempre lhe fazia lembrar que o hanyou existia e estava vivo. Ela nunca tivera aquela ligação bizarra que ele tinha, mas ainda assim existia algo nele que a atraia, uma espécie de imã em sua mente, sempre que divagava sentia sua mente sendo puxada como um imã para o rapaz. Isso não existia mais.


- Se esforce, - disse Sesshoumaru controlando a irritação. – você não consegue mesmo distinguir de onde veio a presença da Kagome?

- Já disse tudo o que eu consigo lembrar! – disse Inuyasha. – Montanhas, chuva, cheiro de incenso.

- Longe ou perto?

- Eu não sei, está bem? – disse Inuyasha irritado. – Eu estava achando que ia morrer de novo com toda aquela dor!

- Tecnicamente você não morreu. – disse Miroku.

- Porque vocês simplesmente não vão lá para fora e procuram pela garota? – disse o velho.

- E começamos a procurar por onde? – retrucou Inuyasha.

- Vocês são yokais, bando de inúteis, não têm faro?

Sesshoumaru olhou para Hana de maneira irritada, pareceu avisar para a mulher do perigo em deixar o velho continuar a falar o que bem entendia.

- Papai, vamos para a outra sala, vamos. – disse Hana.

- Isso tudo é uma perda de tempo! – disse o velho. – O garoto já disse que não sabe nada, capaz de terem pifado a memória dele depois do que fizeram com o coitado!

- Papai! – gritou Hana novamente.

- O quê? – disse o velho. – Estou falando a verdade. Se eu fosse vocês estava lá fora fazendo uma busca com outros yokais.

Inuyasha cerrou os olhos e virou-se para o velho.

- Hei, velhote, o que você sabe sobre a minha memória?

- Fritaram seu cérebro, garoto.

- Já chega! – gritou Sesshoumaru. – Alguém tire esse velho desse quarto antes que eu o mate!

Hana e Hideo, o pai de Miroku, correram até o velho e o puxaram para fora da sala, ele apenas deu nos ombros e disse, antes de sumir de vista:

- Vocês não podem esconder a verdade dele para sempre.

- Miroku, do que o seu avô está falando? O que você sabe? – disse Inuyasha.

O rapaz mexeu os ombros de maneira desconfortável e disse:

- Eu também não faço idéia do que está acontecendo.

Inuyasha moveu os olhos instintivamente na direção de Sesshoumaru que ao perceber que logo ele começaria a lhe fazer perguntas, disse:

- Você pode estar pouco se importando com o que pode acontecer com a Kagome, mas eu prometi que cuidaria de tudo!

- Eu me importo com a Kagome! – gritou Inuyasha em resposta.

- Então não destrua tudo! – gritou Sesshoumaru.

Desde o sonho com Rin Sesshoumaru estava descontrolado. Ele sentia que seu tempo estava se esgotando e as chances de salvar a mulher também, Sesshoumaru precisava de Kagome mais do que precisara de qualquer outra pessoa antes, ele sabia que ela era a única que poderia ajudá-lo, a única que compreenderia seu desespero em tirar Rin daquele inferno. A sensação de impotência estava deixando-o maluco, não conseguia salvar Rin, não conseguira impedir que ela precisasse arrancar as asas de Kagome, não conseguia encontrar a garota. Ser um yokai poderoso não estava ajudando-lhe em nada. A mesma sensação de ser incapaz de salvar algo que teve ao encontrar Midoriko pela primeira vez estava novamente atormentando-o. Ele não havia sido feito para salvar e sim para destruir.

- Eu acho que apesar de tudo meu avô está certo. – disse Miroku percebendo o silêncio estranho que se criara no quarto. – Vocês lá fora têm mais chances de encontrá-la do que presos aqui dentro.

- O Inuyasha não pode sair, eu vou sozinho. – disse Sesshoumaru.

- Eu não posso lutar, mas posso ajudar a encontrá-la! – retrucou Inuyasha.

- Você vai ficar aqui! – disse Sesshoumaru irritado. – Você pode ser atacado lá fora!

- Eu não me importo!

- Você está livre! – disse Sesshoumaru. – Não precisa mais disso.

- Eu sei. Eu estou indo porque quero ir.

- Hanyou idiota, sempre desperdiçando a vida que todos lutam tanto pra proteger. – resmungou o yokai mais para si do que para os outros.

Inuyasha e Miroku esperaram algum tipo de reprovação, de aviso para que ficassem ali e não seguissem o yokai, mas o aviso nunca veio e quando Sesshoumaru deu as costas para sair, os dois o seguiram. Inuyasha não comentou com ninguém, mas mesmo que suas costas não doessem como antes, ele ainda sentia um ardor incômodo naquela região, algo que se intensificada toda vez que se mexia. Por algum motivo estranho, ele acreditou que aquilo era um sinal de que de alguma forma eles ainda estavam ligados.

- Onde vocês estão indo? – perguntou Hana aflita ao ver os três passando pela sala.

- Vamos procurar pela Kagome. – disse Miroku.

- Alguém ouviu o velho maluco! – disse o avô de Miroku.

- Inuyasha, querido, você não prefere ficar aqui? Você acabou de passar mal e está tarde, vocês não vão encontrar ninguém lá fora nessa escuridão.

- Como se isso fizesse diferença pra esses demônios. – disse o velho.

- Papai! – gritou Hana.

- O quê? – respondeu o velho. – É a verdade.

- Desculpe, Senhora Akamine, eu preciso ir. – disse Inuyasha.

Hana segurou Inuyasha pelo braço e o arrastou até um cômodo afastado, seu tom de voz era realmente baixo, como se estivesse falando algum segredo.

- Essa garota é um anjo, não é?

- Como a senhora sabe disso? – disse Inuyasha confuso também sussurrando. – E porque estamos sussurrando?

- Isso não importa, - continuou Hana. – o que eu preciso saber é se ela é realmente importante pra você.

- A Kagome? – disse Inuyasha achando aquela pergunta um tanto quanto engraçada. – Não, que pergunta é essa?

- Então não vá. – ela disse em um tom alto e sério. – Fique longe dessa gente, Inuyasha. Se ela não é importante, não vá.

- Ela salvou minha vida.

- Eu sei. E você salvou a dela, você não lhe deve mais nada. Você não precisa fazer isso.

- Sim, eu preciso. – disse Inuyasha convicto.

- É, mãe, ele precisa. – disse Miroku que estava descaradamente ouvindo a conversa. – Quando trouxermos a Kagome de volta você vai entender porque ele precisa fazer isso.

Hana resmungou baixo e cruzou os braços.

- Eu só espero que essa tal de Kagome valha mesmo a pena.

- Ela vale. Se ela não fosse do nosso hanyou aqui certamente ela seria sua nora.- disse Miroku sorrindo.

- Ela não é minha e se contente com a Sango, que já é muito para um sem vergonha como você. - disse Inuyasha revirando os olhos. - Logo estaremos de volta, Senhora Akamine, desculpe a confusão.

Hana suspirou de maneira derrotada e acenou em direção à porta:

- Ele está indo sem vocês.

Miroku sorriu para a mãe e girou nos calcanhares, Inuyasha imitou o movimento e logo os dois já estavam fora da casa, seguindo Sesshoumaru.

- Que cheiro é esse? – disse Inuyasha.

- Outros yokais. – disse Sesshoumaru.

- Você tem algum plano? – disse Miroku.

- Não, - disse Sesshoumaru parecendo pensativo. – eu acho que você deve ficar por aqui, para caso ela volte para cá.

- Se ela pode estar morta, como pode voltar para cá? – disse Inuyasha.

- Existem outros yokais atrás dela além de nós, talvez a tragam para cá. – disse Sesshoumaru.

- Certo, eu estarei por aqui então. – disse Miroku.

- Inuyasha, você disse sobre montanhas, não foi? – disse Sesshoumaru.

O hanyou apenas acenou positivamente com a cabeça.

- Vamos para as montanhas, eu duvido que ela esteja por perto, mas é a única pista que temos.

Sem esperar uma resposta Sesshoumaru já saltou e começou a correr em direção às montanhas que rodeavam sua casa, Inuyasha olhou uma última vez para Miroku e imitou o movimento do yokai, ignorou a pontada em suas costas que quase o fez cair no chão e correu, tentando alcançar Sesshoumaru.

O yokai olhou-o pelo canto dos olhos quando notou sua presença ao seu lado e disse:

- Consegue me acompanhar?

- Beh, claro que consigo. – respondeu Inuyasha.

Sesshoumaru balançou a cabeça negativamente e continuou seu caminho em silêncio. Inuyasha olhou-o de maneira curiosa, Sesshoumaru estava estranhamente amigável, parecia preocupado e um pouco descontrolado. Não que parecesse prestes a atacar alguém, o descontrole que ele havia percebido tinha muito a ver com a postura que Sesshoumaru tinha normalmente, ele era muito controlado, todas suas ações eram premeditadas, suas conversas tinham um porquê, não costumava agir daquela maneira. O hanyou sentia uma nova e estranha intimidade com o meio-irmão e isso fez com que ele não conseguisse controlar a curiosidade.

- Quem foi Rin? – disse subitamente.

- Eu já respondi isso antes, ela foi minha esposa. – respondeu.

- Sim, eu lembro, mas quem foi ela? De onde ela surgiu? Pra onde ela foi? O que aconteceu?

Sesshoumaru ficou em silêncio, parecia surpreso com aquela pergunta. Apesar do que gostava de aparentar, o yokai não odiava Inuyasha, os motivos de todo o desprezo e isolamento iam muito além da existência do meio-irmão, o sentimento que ele nutria por Inuyasha era conseqüência de tudo o que havia acontecido no passado. Talvez, se o destino não tivesse destruído tudo o que ele tinha ele até mesmo poderia ter sido um irmão melhor. Se Rin não tivesse morrido as coisas seriam diferentes, ele tinha certeza disso.

Ao perceber o silêncio de Sesshoumaru, Inuyasha sentiu toda aquela intimidade de esvaindo e se sentiu idiota por achar que o meio-irmão pudesse agir como tal, eles se odiavam e estavam unidos apenas para encontrar Kagome. Ela era a única coisa que os unia.

- Esqueça, não precisa contar nada. – disse grosseiramente.

- A Rin era um anjo. – disse Sesshoumaru de forma muito casual. – A missão dela era me matar, mas ela não conseguiria nem se quisesse, era mais fácil o contrário acontecer, só que nunca aconteceu. Passamos um bom tempo juntos, até que o Inu-Taisho me enganou e a atacou, ela ficou sozinha entre a vida e a morte e pediu ajuda para os outros anjos. Elas não a salvaram. Parecida com a sua história, não?

- Inu-Taisho?

- Você não se lembra disso também, não é? Inu-Taisho é nosso pai.

- Nosso pai? – disse Inuyasha perplexo. – Seu próprio pai matou sua esposa?

- Não acho que essa era a intenção dele, mas sim, ele a matou.

- E porque ele faria isso?

- Ela estava grávida.

Inuyasha arregalou os olhos e sentiu uma onda de confusão tomar conta do seu corpo, ele sempre quisera saber sobre seus pais, sobre seu passado, sobre quem era, mas aquilo? Aquilo soava doente para ele, como assim um pai mata a mulher do próprio filho só por que ela está grávida? Quão cruel aquela coisa poderia ser?

- Está surpreso? – disse Sesshoumaru percebendo o silêncio repentino de Inuyasha.

- Você não quis se vingar?

- Certamente. – disse Sesshoumaru. – Mas sua mãe fez todo o serviço sozinha.

- O que você quer dizer com isso? – disse Inuyasha confuso.

- Sua mãe matou nosso pai. – disse Sesshoumaru simplesmente.

Agora a confusão se espalhava por todo o seu corpo, era informação demais para uma noite só, sentiu sua velocidade diminuindo gradativamente, ele estava chocado. O que mais havia em seu passado que ele não se lembrava? Sesshoumaru sempre lhe dissera que tinha lhe proporcionado uma vida boa, mas só agora conseguia perceber o que aquilo significava. O que teria sido dele se crescesse no meio de tudo aquilo? Talvez Sesshoumaru fosse daquele jeito por não ter tido uma escolha, ele certamente havia nascido antes do pacifismo entre espécies, que tipo de infância ele teria tido com um pai como aquele? Pela primeira vez sentiu aquela estranha relação com Sesshoumaru, ele não lhe parecia mais tão distância, tão incompreensível, ele parecia apenas como um irmão mais velho.

- O mundo é muito mais doente do que você achou que poderia ser, não é? – disse Sesshoumaru.

Inuyasha acenou positivamente com a cabeça e voltou a se concentrar em correr. Agora uma urgência em encontrar Kagome dominava seu corpo, ela poderia estar morrendo. Ela poderia estar exatamente como a mulher de Sesshoumaru estivera um dia e novamente ele pôde compreender um pouco mais sobre o meio-irmão. Ele tinha certeza que esse era o motivo do yokai estar tão desesperado, a idéia de perder alguém assim com perdera Rin o incomodava demais.

Fechou os olhos buscando algum fragmento de onde a garota poderia estar, mas sua mente não colaborava e ele continuava a ver repetidas vezes as montanhas e a chuva. O cheiro forte dos incensos dominou novamente seu olfato e ele se sentiu enjoado, suas costas arderam com aquela sensação.

- Ela não está nessa direção. – disse.

Sesshoumaru parou e olhou para trás. Inuyasha estava parado encostado em uma árvore, seu corpo estava curvado para frente e ele parecia prestes a vomitar.

- É para o Norte. – disse Inuyasha ainda curvado.

- As montanhas estão ao Sul. – disse Sesshoumaru.

- Eu sei, mas ela está no Norte! – retrucou Inuyasha.

Sesshoumaru sorriu. Então ele estava certo, os anjos estavam mesmo vindo do Norte. Ele caminhou até Inuyasha e esperou até que o hanyou voltasse ao normal, seus olhos estavam distantes e ele parecia um pouco desnorteado.

- Lembrou de alguma coisa? – disse Sesshoumaru.

- Não. – disse Inuyasha.

- Podemos ir?

Inuyasha concordou e os dois mudaram a direção, indo agora rumo ao Norte.


- Está uma loucura.

Kagome abriu os olhos agradecida por Kouga ter voltado a conversar, o ritmo dos passos do yokai estavam lhe dando sono e o silêncio da caminhada apenas contribuía para isso. Viu o yokai sorrindo em resposta ao seu olhar e disse:

- O quê?

- O mundo está uma loucura. – disse Kouga. – Yokais e anjos estão se matando por todos os lugares.

- Isso tem algo a ver comigo? – disse Kagome arqueando a sobrancelha.

- Acho que sim. – disse Kouga sorrindo. – Eu estava atrás de você, mas a coisa ficou séria mesmo quando o Sesshoumaru assumiu sua busca.

- Ele é tão importante assim?

- Eu acho que ele é o último yokai das antigas, você já deve saber da história toda. O que eu quero dizer com "das antigas" é que ele é o único que restou desde a primeira vinda dos anjos.

- É, eu sei a história. – disse Kagome. – Ou parte dela. Como você sabe de tudo?

- Pode ser uma novidade para você, mas muitos yokais já amaram anjos. Eu amei alguém como a Kikyou, um anjo verde. – disse Kouga.

Kagome abriu a boca demonstrando surpresa. A idéia de várias pessoas passando o mesmo que Sesshoumaru e Rin embrulhou seu estômago, voltou a se sentir ignorante demais da sua própria existência. Naquelas circunstâncias perder suas asas não era tão doloroso assim, afinal, estava livre para ser quem ela era. Mesmo que não soubesse ainda.

- É por isso que me preocupo por você, - continuou Kouga. – Ayame era uma mulher maravilhosa, mas impulsiva e ciumenta, mesmo estando comigo ela não conseguia deixar de lado o que vocês chamam de missão. Ela continuou a caçar yokais, continuou a ser um anjo.

- E onde ela está agora? – perguntou Kagome cautelosamente.

- Um yokai a matou em uma de suas missões. – disse Kouga. – Há mais ou menos uns trinta anos.

- Sinto muito. – disse Kagome.

- Não sinta, foi a escolha dela. – disse Kouga parecendo sério. – Ela amava mais ser um anjo do que me amava e a Kikyou é exatamente como ela. Entre o amor e a missão ambas escolherem a missão.

Kagome juntou as sobrancelhas, franzindo a testa. Sua cabeça estava começando a doer e as costas incomodavam mais do que o normal, olhou ao redor na esperança de reconhecer o lugar, mas não viu nada além de árvores e lobos. Estava longe de casa, tinha certeza disso.

- É a primeira vez que eu vejo alguém como você. – disse Kouga, voltando a chamar a atenção de Kagome para si mesmo.

- Semimorta com um buraco nas costas? – sugeriu Kagome.

Kouga sorriu.

- Não exatamente. Eu quis dizer que você é o primeiro anjo que eu conheço que chegou a esse ponto, eu sei que já aconteceu antes, mas eu nunca presenciei. É algo que poucos conseguem enfrentar, eu imagino que seja uma dor insuportável e não estou falando sobre as suas costas, eu acho que o dói realmente é a sua alma.

- O que dói é o vazio. – disse Kagome desviando os olhos.

- Ele não vai durar para sempre. – disse Kouga bondosamente.

Kagome não voltou a olhar para o lobo e ele continuou em silêncio. Ela queria gritar dizendo que ele não entendia nada do que ela estava passando e que deveria cuidar da própria vida, mas já fizera isso há pouco tempo atrás. Suspirou.

Kouga mantinha seu ritmo lento e preciso, seis lobos andavam ao seu redor e pareciam vigiar a área, Kagome não deixou de pensar que aquilo era realmente legal. Eles eram como cachorros treinados, mas muito mais selvagens e letais. Contrariando a lógica, sentia-se segura ali no meio daqueles animais. Relaxou o corpo nos braços de Kouga tentando espreguiçar-se, mas o movimento fez suas costas arderem e ela fez uma careta.

- Está doendo? Quer parar um pouco? – disse Kouga.

Kagome acenou positivamente com a cabeça. O yokai parou e a ajudou a ficar em pé, suas pernas tremiam e sentia-se tonta, segurou o braço de Kouga e o usou como apoio.

- Eu preciso de água. – disse.

Kouga apontou para o céu e disse:

- A chuva não serve?

- Não! – disse Kagome franzindo a testa. – Eu tenho nojo.

- Não vou te deixar sozinha aqui, então abra a boca e beba a água da chuva.

- Eu ficarei bem, deixe-os comigo – disse e apontou para os lobos. – e eu ficarei bem.

Um lobo marrom escuro uivou e sentou ao lado da garota.

- Não saía do lado dela. – disse Kouga. – Todos vocês. Eu volto logo.

Os lobos uivaram em resposta e rodearam Kagome, ela alisou a cabeça do lobo marrom escuro e acenou com a cabeça, incentivando o yokai. Ele olhou novamente para Kagome e logo se transformou em um redemoinho de vento, sumindo por entre as árvores.

Kagome encostou as costas em um tronco e soltou um gemido baixo de dor. Aquilo estava uma droga, ela tinha certeza. A dor era constante só mudando a intensidade para chegar perto do insuportável, ela fechou os olhos com força segurando as lágrimas que se formavam, chorar de dor não era algo aceitável. O lobo marrom lambeu sua mão que pendia ao lado do seu corpo e ela deu um sorriso fraco para o animal, ele trançou as pernas da garota e ela desequilibrou, caindo sentada, ele enfiou a cabeça em baixo da mão, forçando-a a acariciar-lhe. Kagome perguntou-se se estaria obedecendo a um lobo, mas alisou a cabeça do animal e logo todos os outros se deitaram ao seu lado, pedindo atenção. Ela sorriu, mesmo molhados os lobos conseguiam fazer com que ela se sentisse aquecida, encostou a cabeça no tronco da árvore. Em pensar que anteriormente aqueles mesmos animais haviam atacado-a.

- Eles gostam de você. – disse Kouga sorrindo.

Kagome ergueu os olhos para o yokai e ele segurava algo que lembrava um tronco oco.

- Eu não sou mais um anjo, eles não precisam me odiar. – respondeu Kagome.

- Eles não gostam de humanos também. – disse Kouga.

- Eu acho que também não sou humana.

Kouga deu nos ombros.

- Você não é um yokai lobo e isso é o bastante para eles te odiarem. – disse Kouga e logo apontou para o tronco. – Desculpe por isso, foi a única coisa que eu encontrei que pudesse trazer água até aqui.

Kagome estendeu a mão e pegou o tronco, virou-o de uma só vez. Era gelada e tinha gosto de terra, mesmo assim ela sentiu-se ótima ao poder colocar água em sua boca, sentia-a seca há horas.

- Precisa de mais?

- Não, obrigada.

- Quer descansar?

- Pode sentar aqui por dez minutos e me fazer companhia?

Kouga abriu caminho por entre os lobos e sentou-se ao lado de Kagome, ela apoiou a cabeça no ombro do yokai e disse:

- Estou agindo como uma louca desculpe por isso, é que estou um pouco confusa com tudo o que está acontecendo.

- Não se preocupe. Quer conversar sobre o que aconteceu?

- Não sei. Eu não sei bem o que aconteceu, eu estava socando a Kagura, então do nada eu estava no templo dos anjos e logo depois me levaram para o quintal ensangüentado e tinha um monte de anjos lá com aqueles incensos insuportáveis, me julgando e dizendo que eu trai todo mundo, a Kikyou parecia uma louca cheia de poderes e rancor e culpa e disse que eu deveria enfrentar as conseqüências das minhas escolhas e quando eu percebi estava em algum lugar bizarro com a Rin arrancando minhas asas.

- É um bom resumo. – disse Kouga surpreso com a naturalidade com que ela explicara aquilo.

- É, eu sei, pensei nele várias vezes durante o caminho. – disse Kagome. – Minhas costas estão terríveis, não estão?

- Estão, acho que você vai ficar com uma cicatriz enorme no lugar daquelas asas.

Kagome soltou um grunhido e fez careta.

- Não vejo problemas, acho sexy mulheres com cicatrizes. – disse Kouga dando nos ombros.

Kagome tentou rir, mas a dor nas costas a impediu. Deixaria as risadas para quando estivesse boa.

- Se importa se eu perguntar o que fez você ter certeza da escolha que estava fazendo? – disse Kouga. – Quero dizer, a maluca da Kikyou disse que você teria de passar por tudo isso por causa das suas escolhas, acho que naquele momento você poderia ter desistido disso tudo e ter voltado a ser um anjo.

- Ela me deu essa escolha, - disse Kagome. – mas eu lembrei da história do Sesshoumaru e não quis ser como aquelas pessoas que deixaram a Rin morrer.

- Eu acho que você nunca foi uma delas de verdade.

- Não, eu fui. Eu não me orgulho de dizer isso, mas eu achava que eu só existia para isso, que eu não era capaz de fazer nada além de matar yokais. Se eu estava viva era apenas para proteger humanos, eu os invejava e na verdade, ainda invejo. Invejo a liberdade que eles têm e sequer sabem, invejo o fato de poderem amar uns aos outros sem envolver guerras milenares de raças que se odeiam, invejo o fato de poderem envelhecer ao lado da pessoa que escolheram para viver, invejo a simplicidade com que suas vidas correm. Humanos não compreendem a grandiosidade da sua existência. E eu abracei com toda a minha alma a missão de ser um anjo porque eu queria proteger essa grandiosidade que eu jamais poderia ter.

- Você lutava pelos motivos errados, humanos são apenas insetos vagando pelo mundo sem entender o motivo da própria existência.

- Insetos livres. – disse Kagome.

- Ainda assim insetos. Você também é livre agora.

- Não, eu sou apenas um inseto sem asas.

Kouga suspirou e olhou para o céu, logo amanheceria, queria chegar na cidade antes do sol nascer, mas começava a achar a idéia impossível.

- Eu queria ter conhecido todos vocês antes, talvez eu não tivesse gastado tantos anos da minha vida sendo uma cretina hipócrita e arrogante.

- Seu charme todo estava nisso. – disse Kouga sorrindo.

- Quer dizer que agora perdi todos meus pretendentes?

- Provavelmente, ninguém gosta das boazinhas.

- Isso é puro preconceito. Boazinhas também merecem ser amadas.

O yokai soltou uma risada baixa e virou-se para encará-la, ele segurou o rosto de Kagome com as mãos e ela franziu a testa com aquele ato.

- Será que ainda não percebeu que você é irresistível?

E para surpresa da garota o yokai a beijou. Não um beijo cinematográfico, ele apenas encostou os lábios nos lábios dela e abriu sutilmente a boca, deixando o espaço para que as bocas se encaixassem. E foi apenas isso. Ele não a agarrou, nem a puxou para si tentando tornar aquilo em algo mais, Kagome continuou com os olhos fechados quando Kouga se afastou e tocou sua mão, fazendo-a voltar a realidade.

- Não foi só por causa da história do Sesshoumaru que você aceitou passar por isso, não foi? – disse o yokai.

- Ahn? – disse Kagome confusa, ela ainda tentava entender o que estava acontecendo ali.

- A primeira vez que eu te vi quis rasgar sua garganta, quando a Ayame morreu eu passei a odiar todos os anjos com todas as minhas forças, porque eu acreditava que ela estava morta por causa das outras. Alguém deveria ter ajudado-a, alguém deveria tê-la impedido de ir encontrar aquele yokai maldito, eu jamais teria a força para fazer isso. E então, após trinta anos lá estava você, parada na minha frente, querendo conversar pacificamente, querendo encontrar um meio de nos entendermos sem precisar usar seu sangue. Seus olhos eram as coisas mais incríveis que eu tinha visto, de alguma forma eles ao mesmo tempo ferozes e perigosos, meigos e amorosos. Eu conseguia ver nos seus olhos tudo aquilo que eu queria que a Ayame fosse, eu a amava exatamente como ela era, mas não conseguia aceitar sua veneração doente por sua missão, sua paixão em matar. Trazer essas lembranças dolorosas pra mim fez com que eu quisesse te matar e então você abriu a boca e suas palavras soaram como perfeição aos meus ouvidos. Você não era como a Ayame, eu sentia isso em cada fibra do meu corpo, eu sabia que isso atrairia mais yokais do que você jamais imaginaria, eu acho que você nunca entendeu de verdade a grandiosidade que há em você. Qualquer yokai consegue notar isso ao ficar ao seu lado menos de dez minutos. Eu quis te proteger, quis impedir que acabasse como Ayame e comecei com toda aquela loucura de dizer que você era minha noiva...

- Ah, - disse Kagome subitamente. – agora tudo faz sentido! Foi por isso que você começou a agir como um maluco dizendo que eu era sua noiva.

- Foi a melhor idéia que eu tive naquele momento, mesmo que ela não tenha funcionado. – explicou Kouga. – Depois daquele nosso primeiro encontro eu passei a te vigiar e foi quando eu realmente comecei a gostar de você, acompanhar sua rotina, por mais normal que fosse, fazia eu me sentir inteiro de novo. Era como se apenas a sua presença já fosse o bastante para ocupar o buraco que havia em mim desde a morte da Ayame. Eu acompanhei todas as vezes que os yokais foram até você, desde aquele guaxinim ladrão até o Sesshoumaru e era ele que me preocupava, eu tinha certeza que ele faria algo com você. E bem, eu estava certo.

- Você me espionava? – disse Kagome erguendo a sobrancelha.

- Veja como segurança particular. – disse Kouga dando nos ombros. - O problema é que acompanhar tão de perto sem ser visto fez com que eu me tornasse invisível para você ao contrário daquele hanyou idiota. Acompanhar o processo todo que fazia com que vocês se tornassem cada vez mais próximos sem poder fazer nada foi um sacrifício, era eu quem deveria te levar para casa todas as noites após a fisioterapia e era a mim que você deveria dar um beijo de despedida.

- Você viu isso também? – perguntou Kagome agora escondendo o rosto entre as mãos.

- Eu vi mais do que eu gostaria, - disse Kouga. – eu vi quando você decidiu que iria ao encontro da Kikyou e foi avisá-lo. Eu queria que você pudesse se ver naquele momento, Kagome, seus olhos tinham tanta dor, tanto remorso. Você não queria aquilo, você não estava disposta a abrir mão da vida que você tinha e muito menos deixá-lo para trás.

- Eu não amo o Inuyasha, Kouga.

- Você não precisa me explicar nada, você não o ama agora, mas inevitavelmente irá amá-lo. É algo que você não pode controlar, é algo que vai além da sua vontade.

- Não sabia que yokais acreditam em destino. – disse Kagome.

- E não acreditam. – e Kouga suspirou. – Você pediu para que eu te levasse para casa e é isso que eu vou fazer, eu estou te levando até ele.

- Do que você está falando agora?

- Eu gosto de você, Kagome e me preocupo mais do que você pode imaginar. Eu queria ser capaz de concertar as coisas, mas sei que não é de mim que você precisa agora. É injusto que você tenha sido a pessoa a ocupar o vazio que a morte da Ayame deixou em mim e eu não seja capaz de fazer o mesmo por você.

- Nada pode substituir o que tiraram de mim. – disse Kagome.

- Não, mas eu sei que o Inuyasha pode diminuir a sua dor como eu nunca vou conseguir fazer. – disse Kouga. – Eu te beijei porque sabia que era minha ultima oportunidade, quando chegarmos à cidade e eu te entregar para ele eu nunca mais terei chances.

- Nem ele, nem você precisam carregar esse fardo.

Kouga sorriu, mas ainda assim pareceu triste.

- Ah, Kagome, você não ouviu uma palavra do que eu disse? Você é incrível e qualquer ser vivo ai fora morreria para ser capaz de fazer você sorrir. Te fazer feliz jamais seria uma fardo.

Kagome encostou novamente a cabeça no ombro do yokai. Há menos de um ano atrás uma conversa como aquela seria absurda, a idéia de um yokai amá-la daquela maneira seria até mesmo nojenta, sabia que muitas encaravam yokais como seres nojentos e inferiores, mas ali estava ela, completamente emocionada com a possibilidade de poder ser amada. Desde que começara a entender como o mundo funcionava ouvia que somente suas irmãs a amariam de verdade e que ninguém além delas mesma era digno de confiança e no fundo Kagome sempre achou aquilo triste, era uma vida isolada, nunca poder confiar, nunca poder gostar, nunca poder sentir-se amada. Era por isso que invejava os humanos.

- Você me daria um beijo de verdade? – perguntou Kouga.

- Nunca vi ninguém pedir um beijo. – disse Kagome. – Não alguém com mais de sete anos.

Kouga alisou a barriga de um lobo que estava dormindo ao seu lado e não disse mais nada. Kagome mordeu o lábio inferior e suspirou, ergueu a cabeça e pousou uma mão no rosto de Kouga, ele a olhou curioso e ela deu um sorriso tímido em resposta. Era a autorização que ele queria. E novamente ele voltou os lábios para os dela, mas dessa vez parte da delicadeza tinha ficado para trás, ele tinha falado sério quando tinha dito beijo de verdade, o yokai segurou a mão de Kagome enquanto se beijavam e ela trançou os dedos nos dedos dele.

Kouga estendeu aquele momento o máximo que pôde, brincou com os lábios da garota mordendo-os de leve, depois beijou-a delicadamente apenas com os próprios lábios e finalmente deixou de lado as brincadeiras e aprofundou o beijo. Soltou a mão de Kagome e segurou-a pelo pescoço, firmando a cabeça da garota, controlando completamente os movimentos e o beijo. Seu beijo era diferente do beijo de Inuyasha, mas não de uma maneira negativa, Kagome pegou-se pensando que ele realmente beijava bem.

Parecendo contrariado o yokai se afastou, mas continuou segurando o pescoço de Kagome, fazendo-a encará-lo.

- Quando se cansar daquele saco de pulgas eu vou estar aqui, sabe disso, não sabe?

- Agora eu sei. – disse Kagome.

- Estou falando sério. – disse Kouga e ele realmente parecia sério.

- Eu também. – disse Kagome.

- Está na hora, precisamos voltar. – disse Kouga e ele olhou para o céu. – O sol deve nascer daqui uma hora mais ou menos.

- Como se fizesse diferença com toda essa chuva.

- Eu acho que o sol faria esse buraco nas suas costas doer mais ainda. – disse Kouga. – Acha que agüenta se eu correr?

- Obrigada pelo buraco. – disse Kagome cruzando os braços. – E devo agüentar, o máximo que pode acontecer é eu morrer, grande coisa.

- Acho que você já morreu vezes o suficiente. – disse Kouga ainda segurando-a pelo pescoço. – Então não invente nenhuma morte dramática, só fique com os olhos abertos até chegarmos até a cidade, ok?

- Está bem, está bem. Eu só estava brincando, não precisa ficar bravo. – disse Kagome.

Kouga encostou mais uma vez os lábios em Kagome e trocou seu pescoço por sua cintura, segurando-a no colo enquanto levantava.

- É melhor se segurar.

Kagome enrolou os braços no pescoço do yokai e em segundos tudo o que conseguia ver eram borrões verdes e marrons, ouvia ao fundo algo que lembrava animais correndo, mas não conseguia distinguir qualquer som que fosse. O vento e a chuva batiam fortes contra seu rosto e seu ouvido zunia, ela estava começando a sentir-se enjoada. Então aquela era a sensação de estar no meio do moinho de vento que Kouga fazia quando corria, era um pouco decepcionante sentir-se tão mal, afinal sempre imaginara que era uma sensação incrível.

Apertou com mais força o corpo de Kouga contra o seu e o yokai diminui um pouco a velocidade no mesmo instante. Kagome agora conseguia ver algo que lembrava árvores, mas tudo ao redor ainda era disforme e confuso, fechou os olhos achando que privar um dos seus sentidos daquilo tudo lhe faria bem. O resto do caminho ambos ficaram em silêncio, Kagome não fazia idéia quanto tempo havia ficado no colo de Kouga, após fechar os olhos ela perdeu completamente a noção e sentia como se estivesse dormindo, embora estivesse acordada.

- Hei, não durma. – disse Kouga.

- Como se fosse possível. – retrucou Kagome abrindo de leve os olhos e voltando a fechá-los logo em seguida.

- Com o tempo você se acostuma.

- Eu acho que não faço muita questão de me acostumar.


Inuyasha parou e olhou apreensivo para Sesshoumaru, ele parecia não ter percebido nada, o que era muito estranho. Se alguém estivesse por perto o yokai seria o primeiro a perceber, continuou encarando o meio-irmão que parou alguns metros a sua frente.

- O que foi agora? – disse Sesshoumaru cruzando os braços.

- Você não está percebendo nada? – disse Inuyasha.

- Não. – disse Sesshoumaru. – Existe alguma coisa para perceber?

- Eu acho que senti cheiro de lobo.

Sesshoumaru andou um pouco, parecendo procurar algum rastro do cheiro, mas voltou os olhos para Inuyasha e disse:

- Não sinto nada.

- Eu tenho certeza. – disse Inuyasha.

O hanyou virou a cabeça e andou até onde tinha percebido o cheiro de lobo, estava claro, ele conseguia sentir perfeitamente o cheiro de Kouga ali. Sesshoumaru o imitou e caminhou parando ao seu lado, seus olhos se estreitaram e ele disse:

- Kouga.

- Estamos nas terras da tribo, alcatéia ou seja lá o que for, dele não é? – disse Inuyasha.

Sesshoumaru concordou com a cabeça, mas continuou olhando na direção contrária ao hanyou. Agora ele conseguia sentir além do cheiro de Kouga um cheiro estranho, um pouco doce e até mesmo enjoativo.

- Está percebendo esse cheiro irritante? – perguntou.

- Estou. – disse Inuyasha. – Eu senti primeiro esse cheiro e só depois notei o do Kouga.

Os dois ficaram em silêncio analisando de onde vinha o cheiro, a chuva e o vento forte faziam com que ficasse muito difícil saber se o yokai estava realmente por perto ou se aquilo era apenas por estarem no território de lobos eram conhecidos por serem muito territorialistas, seria muito normal sentir o cheiro de Kouga espalhado por toda aquela extensão.

Inuyasha massageou a têmpora fechando os olhos, aquele cheiro doce não era completamente estranho, ele já havia sentido antes em algum lugar, mas não conseguia lembrar onde. Sesshoumaru tinha dito que era irritante, mas para ele estava longe disso, era agradável e de alguma forma reconfortante. Abriu os olhos sentindo-se imbecil por não ter percebido antes, o cheiro poderia ser diferente, mas somente Kagome conseguia fazê-lo se sentir daquele jeito.

- Ele a encontrou.

E dizendo isso saiu correndo, ele não sabia onde exatamente Kagome estava, mas algo nele dizia que se apenas corresse sem direção poderia encontrá-la, ele iria até ela naturalmente, como sempre acontecia. Ele não precisava buscar conscientemente por Kagome, por alguma razão seu corpo e sua mente sempre a encontravam. Sesshoumaru apenas seguiu o hanyou, aquele não era o cheiro de Kagome, tinha plena noção disso. Na verdade, não chegava nem perto do cheiro da garota, o aroma que ela exalava era algo sutil, apesar de forte, até mesmo ele achava-o agradável, mas aquilo? Aquilo era extremamente doce e tinha certeza que lhe traria dor de cabeça.

O som de Kouga correndo fez Inuyasha parar, o yokai lobo estava há poucos metros dele e assim Inuyasha parou ele fez o mesmo. Kouga olhou para o hanyou e logo para Sesshoumaru, parado atrás dele, em seu colo Kagome continuava com os olhos fechados parecendo alheia ao que acontecia ali, era como se uma tensão crescesse entre eles.

A visão de Kagome fez com que Inuyasha sentisse suas pernas falhando, a garota estava no colo de Kouga e parecia verdadeira morta, ela estava muito pálida e seu corpo estava ensopada, o cabelo negro caía por entre os braços do yokai, sujos com terra, folhas e algo que ele achava ser sangue. Mas não era isso que estava deixando-o desnorteado, não era a aparência de Kagome que o afetava, era algo maior. Era a primeira vez que a via sem se sentir completamente perdido e ao contrário do que pensou que aconteceria, isso não fez com que ele se sentisse bem, alguma coisa estava errada com ela e ele conseguia perceber isso.

- Eu disse que agüentava, por que parou? – disse Kagome ainda com os olhos fechados.

Inuyasha deu um passo para trás. Ela não sabia que ele estava ali, ela não era mais capaz de percebê-lo, de senti-lo por perto. A ligação que os unia estava realmente quebrada, mas o que explicava que ele ainda fosse capaz de segui-la? Qual era a explicação para suas pernas tremendo e aquela angústia?

- Nós chegamos agora, você não precisa mais de mim. – disse Kouga.

Kagome abriu os olhos estranhando o tom de voz do yokai, o encarou por alguns minutos e olhou ao redor, tendo certeza que não estava na cidade. Tinha mato por todo lado. Mas não era só mato, tinha alguém ali. Agora ela arregalou os olhos ao ver Inuyasha. Ele estava parado ao lado de Sesshoumaru e parecia hesitante ou até mesmo chocado com alguma coisa, Kagome olhou para si mesma se perguntando se seu estado estava assim tão ruim ao ponto de causar aquela expressão no hanyou.

- O que está querendo dizer? – disse Sesshoumaru.

Kouga ajudou Kagome a descer do seu colo e segurou sua mão, dando apoio para que ela conseguisse ficar em pé. Ele olhou para a garota e sorriu bondosamente.

- Consegue ficar em pé?

Ela acenou positivamente e logo voltou a olhar para Inuyasha. Alguma coisa estava estranha nele, ele estava distante e seus olhos não encaravam Kagome, ele olhava para algo no chão que por mais que ela forçasse os olhos não conseguia ver.

- Eu a salvei, - disse Kouga apertando com força a mão de Kagome. Aquilo obviamente era mais difícil do que ele fazia parecer. – e não há mais nada que eu possa fazer

- Como você está se sentindo? – disse Sesshoumaru.

- Seca. – disse Kagome.

- E isso significa o que exatamente? – disse Sesshoumaru erguendo as sobrancelhas.

- Esse é o novo humor que ela descobriu e gostou, como você percebeu não é grande coisa. – disse Kouga.

Kagome revirou os olhos e disse:

- Ninguém aqui sabe apreciar humor de verdade. O que eu quis dizer é que estou uma droga, eu sinto como se um caminhão tivesse passado por cima de mim e dado ré só para ter certeza que tinha feito o trabalho certo, depois o motorista desceu com uma faquinha e furou minha barriga e eu fiquei jogada lá no chão sangrando até secar e morrer. Eu acho que estou com um problema grave de falta de sangue, isso existe?

- Acho que você quis dizer anemia. – disse Kouga. – Se você perdesse muito sangue estaria realmente morta.

- Ela chama isso de humor? – disse Sesshoumaru.

- Estou tentando. – disse Kagome dando nos ombros.

- Estou voltando para casa.

Inuyasha virou-se de costas e começou a andar de volta para a cidade. Kagome olhou para Sesshoumaru parecendo confusa.

- O que pensa que está fazendo? – disse Sesshoumaru.

- Eu pensei que ela estivesse morta! – gritou Inuyasha parecendo transtornado virando-se novamente para os outros. – Fiquei me obrigando a tentar lembrar tudo o que passava na minha mente enquanto eu sentia como se alguém estivesse arrancando meu braço e tudo isso para quê? Isso é uma idiotice, o Kouga já a encontrou e ela parece ótima o bastante para fazer piadinhas, eu não sou mais necessário aqui, estou indo embora, não preciso mais fazer parte dessa loucura toda.

- Por que ele está agindo assim? – disse Kagome soando confusa e magoada. – Eu não sou mais um anjo, o instinto não funciona mais, ele não precisa fazer isso.

- Ah eu não tenho tanta certeza disso! – disse Inuyasha. – Olha quantos yokais estão aqui te bajulando e existe mais um monte ai fora procurando por você! Eu não acho que estariam preocupados com você se você não fosse mais um anjo!

- Eu não vou passar por isso de novo. – disse Kagome.

- Por que você está agindo como um idiota? – disse Sesshoumaru. – A última vez você tinha uma desculpa, mas agora não há nada para te acobertar!

- Ela ainda é um anjo! – gritou Inuyasha dramaticamente.

Kagome respirou fundo e segurou as lágrimas, Kouga parecia prestes a matar alguém ao seu lado, mas ela apenas sorriu para ele, soltou-se e andou até Inuyasha, se forçando a chegar até lá sem desmaiar. Estava pior do que conseguia imaginar.

Inuyasha travou os pés no chão, a última vez que passaram por aquilo ele terminou com um tapa na cara e um sentimento de culpa insuportável e ele esperava por outro tapa, mas o que recebeu foi algo bem diferente. Kagome parou em sua frente, segurou o cabelo e puxou para frente, pousando-os nos ombros, virou-se e mostrou as costas. O hanyou pousou a mão no ombro da garota, sem saber ao certo o que fazer naquela situação. Aquilo era o motivo da dor nas suas costas, jamais imaginou que seria algo tão horrível, as costas de Kagome estavam rasgadas em dois pontos um pouco abaixo das omoplatas, os cortes eram profundos e ele conseguia ver algo que acreditava ser ossos. Ele não sabia se a mancha vermelha nas costas era a chuva lavando o sangue ou sangue jorrando pelos cortes. Talvez os dois.

A garota se afastou e mão de Inuyasha caiu, pendendo ao lado do seu corpo. Ele acompanhou com os olhos quando ela voltou e segurou a mão de Kouga.

- Kagome, precisamos cuidar disso. – disse Sesshoumaru.

- Você disse que não tinha asas. – disse Inuyasha e sua voz não era nada além de um sussurro.

- E eu nunca tive. Eu nunca fui livre para ter minhas asas.

Inuyasha olhou para Sesshoumaru procurando algum tipo de apoio, mas o yokai parecia mais preocupado em tirar Kagome dali. Se perguntou se Kouga conseguiria entendê-lo naquele momento, ele sentia uma onda de raiva e frustração tomando conta do seu corpo, como aquilo tinha acontecido? Como Kagome podia ter passado por algo tão doloroso sozinha? Fechou os punhos com força tentando conter aqueles sentimentos.

- Por que você fez uma coisa tão idiota? – gritou Inuyasha. Ele tinha falhado na missão de se controlar. – Por que não voltou depois de se encontrar com o Sesshoumaru?

- Não é hora para isso! – disse Sesshoumaru começando a ficar irritado.

- Como não? Estamos todos aqui, há um guerra prestes a explodir e tudo porque a Kagome não pôde descer a montanha e voltar para casa! Não, ela tinha que sumir!

- Se você não calar a boca eu juro que pego a Kagome e sumo com ela! – disse Kouga.

- Você acha que ela vai aceitar ficar com você? – disse Inuyasha girando os olhos e cruzando os braços. – Oh, não! A Kagome não aceita uma vida calma, ela vai levantar um dia e ir embora, buscando alguma emoção que faça com que ela se sinta viva!

Kagome encarou o chão e logo se sentou, sendo imitada pelos lobos que agora estavam ao seu lado. Estava começando a se sentir verdadeiramente mal, estava tonta e enjoada, mas eram as lembranças do encontro com Kikyou e Rin que estavam destruindo-a. O vazio começava a crescer tanto que doía.

- Inuyasha eu acho melhor você ir embora. – disse Sesshoumaru. – Você não está conseguindo lidar com tudo isso.

- E o que há para lidar? – disse Inuyasha. – A perda das asas da Kagome?

Antes que pudesse desviar Inuyasha já sentia Kouga segurando seu pescoço e prenssando-o contra uma árvore, o yokai lobo o encarava de maneira assassina, ele conseguia sentir a aura maligna que somente um yokai completo conseguia emitir.

- Por que tinha que ser você? – disse Kouga e cada palavra que ele dizia empurrava o hanyou contra a árvore com mais força. – Qualquer um poderia salvá-la, mas tinha que ser você!

Sesshoumaru foi até os dois e segurou Kouga pelos ombros tentando afastá-lo, mas ele resistia.

- Eu não posso salvá-la! – gritou Inuyasha. – Eu sequer consegui evitar que ela passasse por tudo isso, como espera que eu a salve?

Um som estranho fez com os três parassem. Eles viraram o rosto ao mesmo tempo e encontraram Kagome, ela estava encolhida no chão abraçando os joelhos. Ela chorava compulsivamente.

- Já chega... – ela dizia. – Eu não agüento mais, já é o bastante...

Inuyasha aproveitou a distração de Kouga e se desvencilhou do yokai, correndo em direção até Kagome, ele ajoelhou-se na sua frente e disse:

- Desculpe, podemos ir para casa agora.

- Eu não quero! – ela disse e logo soltou um soluço alto. – Eu não vou mais atrapalhar a vida de ninguém, já é o bastante para mim, eu não consigo mais viver com isso. Você pode ir embora se quiser, não há mais nada que te obrigue a ficar. Todos vocês, podem ir embora agora...

Inuyasha colocou a mão nos braços de Kagome e ela se encolheu ainda mais, fugindo dele, um dos lobos rosnou, mas ele ignorou.

- Eu não quero ir embora, Kagome, eu quero estar aqui. Com você.

Kagome ergueu a cabeça e o encarou. Inuyasha nunca viu tanta dor nos olhos da garota, o azul estava escuro e comum. Ela parecia prestar a quebrar a qualquer momento.

- Você não precisa fazer isso! – disse Kagome. – Você não precisa sentir pena da garota estranha com buracos nas costas. Eu vou me levantar daqui e vou fazer isso sozinha, como eu sempre fiz.

- Idiota! – disse Inuyasha. – Você não está sozinha, não me faça repetir o que eu já disse...

- Apenas vá embora! - disse Kagome amargurada. – Você está livre de mim e de tudo o que eu causei na sua vida, é a hora de se livrar disso tudo!

- Mas que droga, Kagome, por que você não consegue entender que eu não quero me livrar de você? – disse Inuyasha soando derrotado. – Eu achei o tempo todo que era isso que eu queria, mas quando finalmente aconteceu eu senti como se existisse um buraco em mim. Eu fiquei tão desesperado com a idéia de que talvez você não fosse mais fazer parte da minha vida que saí no mesmo instante procurando por qualquer pista que fosse sobre seu paradeiro. E eu senti você, eu senti seu cheiro e reconheci a maneira que ele acalmava minha alma e corri em sua direção e quando cheguei aqui você não conseguia perceber minha presença. No final de toda a história quem ficou livre foi você, eu continuo preso.

- E isso é explicação para você agir como um imbecil me ofendendo? – disse Kagome ainda chorando. – Você acha que foi difícil para você? Faz idéia do que eu tive que passar? Eu achei que iria morrer sozinha jogada naquele lugar!

Inuyasha segurou Kagome pelo pescoço, impedindo assim que ela pudesse se esquivar dele novamente. Ele encostou a testa na dela e sussurrou:

- Eu sinto muito que você tenha passado por isso sozinha. Eu deveria ter te impedido de ir embora, eu deveria ter seguido meus instintos e ter te trancado dentro da minha casa até que você mudasse de idéia. Se eu não tivesse sido tão orgulhoso você não estaria assim, não consigo lidar com a culpa, desculpe.

- Vocês podem resolver isso depois! – disse Sesshoumaru. – A conversa acabou, estou levantou Kagome para o hospital.

Inuyasha olhou irritado para Sesshoumaru, mas levantou-se, deixando que o yokai pegasse a garota no colo. Ela não relutou, parecia não ter forças para isso. Sesshoumaru andou em silêncio, mas Kagome pediu que ele parasse quando passaram ao lado de Kouga. O yokai revirou os olhos, mas parou.

Kagome estendeu a mão e alisou o rosto de Kouga carinhosamente.

- Obrigada por salvar minha vida. – ela disse.

- Estamos quites agora, meu anjo. – disse Kouga.

Ela sorriu e puxou o rosto do yokai até o seu, dando um último beijo em Kouga.

- Eu vou estar por perto. – disse Kouga. – Sempre.

- Eu sei, isso me deixa feliz.

- Fim da pegação. – disse Sesshoumaru. – Vocês deveriam sentir vergonha de fazer isso na frente de um idoso como eu.

Kouga soltou um riso com o nariz, Sesshoumaru tinha mesmo mudado. Olhou para Inuyasha que estava imóvel, confuso com tudo aquilo e foi em sua direção.

- Eu vou estar de olho em você, filhotinho. – disse Kouga. – E embora você seja o único que possa salvá-la eu não vou hesitar em quebrar sua cara e levá-la embora caso você faça alguma idiotice. Lembre-se disso.

Inuyasha não teve tempo para responder, pois Kouga logo se tornou o redemoinho de vento e sumiu por entre as árvores. O hanyou ficou parado olhando Sesshoumaru se afastar e disse incrédulo:

- Espera, você beijou o Kouga?

- Ah, não... Agora não, Inuyasha! – disse Kagome.

Inuyasha se apressou e alcançou os dois.

- Eu não vou dar ataque, sério, só quero entender isso... Como você pode ter beijado o cara? Ele nem deve ter uma escova de dentes!

- Ele não tinha mau hálito. – respondeu Kagome.

- Está dizendo que gostou do beijo, é isso?

- Disse apenas que ele não tinha mau hálito.

- Há, então o lobinho beija mal!

- Eu também não disse isso!

Sesshoumaru balançou a cabeça negativamente. Ele definitivamente estava velho demais para agüentar aquelas discussões, mas precisava concordar com Kouga. Inuyasha era a única pessoa que poderia tirar Kagome do buraco em que ela iria entrar. Viver sem suas asas seria o último teste de Kagome e seria o mais difícil de todos.

- Você não está morrendo? Como ficou beijando o Kouga? - disse Inuyasha.

- Eu não fiquei beijando o Kouga, eu dei alguns beijos, só isso. – retrucou Kagome.

- Alguns? – disse Inuyasha erguendo a sobrancelha. – Você ouviu isso, Sesshoumaru? Eu acho que ela não precisa tanto assim de um médico.

- Eu ouvi, Inuyasha, eu estou aqui ouvindo toda essa besteira e garanto que ela precisa de um médico. Aquilo que ela deu no Kouga nem pode ser considerado um beijo! Ou você só sabe beijar assim? – disse Sesshoumaru.

- Hei! – disse Kagome inconformada. – Foi um beijo de despedida, ok? Não conta! Eu sei beijar, Inuyasha, diga para ele que eu sei beijar!

Inuyasha deu nos ombros.

- Eu só te beijei quando você tinha problemas com coordenação motora, não posso opinar.

- Mentiroso! Teve o beijo na minha casa e naquela droga de mundo dos mortos!

- Espera... Aquilo foi um sonho! Como você pode saber disso?

- Eu nunca disse que aquilo era um sonho. – disse Kagome. – Você que achou isso.

- Ah merda! Isso é trapaça!

Sesshoumaru riu mentalmente. Kagome ficaria bem, sabia disso. Desde que tivesse Inuyasha ao seu lado.


Ok, isso foi um sumiço vergonhoso, ainda mais depois de todo o papinho "nhenhenhe férias, atualização sempre". Problema é que podemos ver por esse capítulo que eu não ando em uma fase lá muito boa/criativa/empolgante! Eu sempre abria o word, escrevia uma linha e deixava para lá, quando vi já tinha passado um mês inteiro! Shame on me! Ai pra ajudar meu computador morreu e eu surtei, achando que tinha perdido TODAS as minhas fics e minha vida junto, só que antes dele morrer de vez eu consegui salvar a pasta de fics em um pendrive. Fiquei com tanto medo de perder tudo que lembrei que preciso atualizar isso e escrevi como uma louca esse capítulo porquinho, mas é melhor do que nada! Vou me esforçar para não sumir tudo isso de novo, sei que é péssimo!

Eu queria responder as reviews com amor, carinho e dedicação que vocês merecem, mas estou usando o computador da minha irmã, daqui a pouco meu pai vai acordá-la para ir para escola e se eu for pega aqui estou perdida! Usar computador as 6 horas da manhã não ajuda muito o relacionamento pai/filha. Acreditem! Em todo caso, eu só queria agradecer quem ainda me acompanha, mesmo com todos esses sumiços, esses capitulos enrolations e essa autora inconstante! Se eu continuo com isso, mesmo depois de tanto tempo, é por causa de vocês :') Um beijinho especial pra Ayame, a Yogoto e a Lecka, que me emocionou com sua review enorme, fico feliz que tenha gostado tanto k3

Tá, agora parei com a emice e estou indo. O tempo corre contra miiiim! Beijos e até a próximo, que se Deus quiser será logo!