- Não fuja da minha pergunta! – ele disse e seus olhos eram sérios.
- Me solta! – disse Sango.
- Não vou te soltar até que me responda. – disse Miroku. – O que te impede de aceitar que gosta de mim?
- Eu não gosto de você. – disse Sango olhando para o chão.
- Olhe para mim quando estivermos conversando! – disse Miroku.
Sango encarou Miroku e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- O que você quer que eu responda? – ela gritou. – Quer que eu diga que sou uma estúpida por ter te ignorado todos esses anos? Que assuma que me senti completamente perdida quando disse que iria embora? Eu não vou dizer isso, eu não vou mentir para você!
- E mentir para você mesma faz você se sentir melhor? – disse Miroku.
- Arrogante! – disse Sango. – Eu odeio você! Odeio tudo em você, absolutamente tudo! Não vejo a hora que entre naquele avião e suma da minha vida.
Miroku soltou o braço de Sango e a encarou alguns instantes, a garota sentiu seu sangue gelar. Ele parecia tão magoado, nunca tinha visto Miroku tão abatido, nem mesmo no dia em que haviam brigado no café.
Os olhos de Sango se arregalaram quando ela sentiu Miroku segurando-a pelo pescoço sem delicadeza nenhuma. Ele a estava beijando. E ela não estava fazendo nada para impedir.
Capítulo 24 - Declarações
Eu deveria ter escovado os dentes.
Dentre todas as coisas que poderiam passar pela mente de Sango naquele momento, aquela, em especial, era a que mais lhe incomodava. Estar beijando Miroku? Ok. Estar trancada no quarto podendo ser pega pela família dele a qualquer momento? Ok. Sentir coração pulando no peito? Ok. Não ter escovado os dentes? Pior pesadelo se tornando realidade.
À principio não ter escovado os dentes não era um problema muito grande, pelo menos na cabeça dela, já que o beijo começou inocente, um selinho e nada demais. Mas então Miroku resolveu que aquilo não era o bastante. Ele puxou Sango pelos ombros para mais perto e segurou sua cabeça com uma mão e o pescoço com a outra e por mais que ela tentasse escapar, ele a puxava novamente para perto.
Sango podia não amar Miroku como ele a amava, mas isso jamais significou que ela não sentia vontade de beijá-lo. Pelo contrário, havia muito tempo que queria descobrir o que ele tinha de tão especial para todas as meninas se jogarem aos seus pés, mas o orgulho era grande demais para admitir algo do tipo. Quando percebeu o que estava acontecendo desistiu de lutar, enlaçou o pescoço de Miroku e puxou para perto.
O beijo dos dois era desesperado e de alguma maneira angustiante, as bocas se encontravam como se jamais pudessem se tocar novamente. Miroku segurava Sango pelos cabelos e ela segurava a nuca do rapaz com tamanha força que a unha chegava a marcar a carne.
Ele beijava bem.
Esse foi o pensamento que conseguiu ocupar a mente de Sango quando ela se entregou. Realmente havia descoberto o motivo de todas as garotas se jogarem aos seus pés, ele beijava muito bem. Não sabia se ele era tão intenso e desesperado com todas as outras garotas, mas com ela aquelas palavras eram as que melhor definiriam o que estava acontecendo. Ele beijava e demonstrava claramente que gostaria de estar fazendo aquilo e nada mais. O beijo de Miroku era tão devastador quanto suas palavras.
Sango continuou esperando pelo momento que ele avançaria o sinal, o ponto em que as mãos que seguravam seu cabelo com força iriam escorregar misteriosamente e acabariam pousando em partes indevidas. Ele já havia tocado-a antes, mesmo sem jamais terem se beijado e esse era apenas um dos motivos de desprezá-lo como pretendente amoroso. Mas ele não avançou sinal algum. Suas mãos continuaram segurando o cabelo com firmeza e só saíram dali quando ele se afastou. Sango abriu os olhos confusa, ele havia se afastado primeiro? Era ela quem deveria ter terminado com aquela loucura toda, não ele!
Miroku deixou os braços caírem pesadamente ao lado do corpo. Seus olhos estavam opacos e pareciam perdidos, seu rosto demonstrava toda sua frustração. Sango olhou para ele sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, ele não queria beijá-la? Não era por causa disso que ele a infernizava? Será que beijava tão mal assim e ele tinha percebido que perdera anos da sua vida com um fiasco de gente? Sango fechou os olhos frustrada. Ela não tinha escovado os dentes, era claro que ele estaria com aquela cara.
- Você deveria ter deixado eu escovar meus dentes. – disse Sango parecendo irritada.
- O quê? – disse Miroku confuso.
- Essa sua cara de decepção! – retrucou Sango cruzando os braços.
- Do que é que você está falando?
- Você estava me beijando como se fosse morrer caso se separasse de mim e agora fica me olhando com essa cara? O que foi? Achou que eu beijava melhor? Desculpe se não tive oportunidade de escovar meus dentes ou de treinar com milhares de caras por ai, igual você fez!
- Você não entende nada mesmo, não é? – e agora era Miroku quem estava irritado.
- Não, não entendo! – respondeu Sango.
- Era para você se afastar, droga! – disse Miroku e sua voz era um misto de frustração e irritação. – Era o momento de você provar que quer que eu suma da sua vida e ai o que você faz? Me beija como se me desejasse tanto quanto eu desejo você! Como espera que eu vá embora, que te deixe em paz depois disso?
- Eu nunca pedi para que sumisse da minha vida! – respondeu Sango. – Você resolveu isso sozinho, nunca me questionou sobre nada!
- E que diferença faria se eu questionasse? Quando você teve a oportunidade de pedir que eu ficasse você simplesmente virou as costas!
- Por que é a sua vida! – gritou Sango. – Se você tivesse me perguntado antes eu teria dito para que ficasse, mas não...! Você resolveu tudo sozinho e apenas me comunicou que estava partindo, o que esperava que eu fizesse? Me jogasse aos seus pés dizendo para não ir? Eu nunca, nunca vou impedir alguém de fazer o que quer. Você quer ir embora, então vá!
Miroku arregalou os olhos. Sango estava novamente sendo dominada pelas emoções, isso sempre acontecia, mas naquele momento isso era especial. Ele achava maravilhoso.
O rosto dela estava vermelho e os olhos brilhavam com lágrimas que ainda não escorriam por seu rosto, ela parecia magoada. E furiosa.
- Você disse que pediria para eu ficar? – perguntou.
Sango respirou fundo e balançou a cabeça, parecendo querer escapar daquela conversa. Quando piscou as lágrimas finalmente se desprenderam de seus olhos e escorreram livremente.
- Por favor, não faça isso comigo... – insistiu Miroku.
Os dois ficaram se encarando, Sango com o rosto cheio de lágrimas, Miroku com os olhos aflitos e ansiosos. A troca de olhar de dois era tão intensa, tão complexa que para eles era como se mundo ao redor tivesse deixado de existir.
- O que está acontecendo aqui?
Miroku piscou pesadamente e olhou para onde a voz vinha. Hana estava parada à porta, segurando a maçaneta.
- Desculpe.
Sango abaixou-se, pegou a bolsa que estava perto do seu pé e saiu do quarto sem olhar uma última vez para Miroku. Hana acompanhou com os olhos enquanto a garota saía não só do cômodo, mas como da casa.
- O que foi essa gritaria toda? – insistiu Hana.
- Nada. Não foi nada. – respondeu Miroku.
Inuyasha revirou o bolso da calça e pegou um molho de chaves, abriu a porta da frente e deu espaço para que Kagome entrasse. Ela sorriu e entrou, sendo seguida pelo hanyou, ao notar o estado da sala logo disse:
- Desculpe a bagunça.
Kagome olhou a sala atentamente, era sem dúvida alguma a casa de um homem, não havia um traço sequer de presença feminina. Os copos espalhados, o par de tênis no chão, as poltronas sem padrão algum com o sofá... Tudo naquele cômodo parecia remeter à Inuyasha. E concluir isso fez com que ela se sentisse estranhamente segura e à vontade.
- Não tenho problemas com bagunça. – respondeu prontamente.
- Ótimo, isso torna nossa convivência mais fácil. Vou preparar algo para comermos, você deve estar faminta. Sinta-se à vontade se quiser deitar. – e apontou para o sofá.
- Posso ir com você?
Inuyasha revirou os olhos e fez sinal com a cabeça para que Kagome o seguisse, ela sorriu e o acompanhou até a cozinha. Suas sobrancelhas arquearam ao perceber que ele puxava um cadeira. Ao notar a expressão da garota Inuyasha disse:
- Não faça essa cara, suas costas estão arrebentadas, ao menos fique sentada aqui se não quer ficar na sala!
- Sim, senhor. – disse Kagome aceitando a cadeira e sentando-se.
- A gracinha também pode ser esquecida por enquanto. – resmungou Inuyasha.
- Pensarei no seu caso.
Kagome acompanhou com os olhos enquanto Inuyasha revirava os armários e a geladeira atrás de algo que pudesse cozinhar, pelos ingredientes parecia que a escolha havia sido omelete, torradas e suco de laranja.
- A casa não é muito grande, - disse Inuyasha enquanto quebrava os ovos. – e talvez você não tenha muita privacidade. Eu vou dormir na sala, então o segundo andar é seu, lá tem um quarto e um banheiro, pode usá-los o quanto quiser.
- Você não precisa ficar na sala. – disse Kagome.
- Está insinuando que deveríamos dormir ficar no mesmo quarto?
- A idéia era eu ficar na sala, mas não vejo problemas em dividir um quarto com você.
Inuyasha que estava de costas para Kagome apenas virou o pescoço o bastante para encará-la. Suas sobrancelhas estavam arqueadas.
- Ouviu o que acaba de dizer? – perguntou.
- Ouvi. E não vi nada demais, já dividi quartos com outros homens antes, não é algo que me incomoda ou me deixe constrangida.
A testa de Inuyasha agora estava enrugada tamanha a curvatura de sua sobrancelha.
- Então quer dizer que já dormiu com outros homens?
Kagome sentiu seu rosto começar a esquentar, tinha certeza que estava vermelha. Respirou fundo e disse:
- Não foi isso que eu falei! Eu já dividi um quarto com outros homens, não necessariamente dormi com eles e mesmo se tivesse, não sei porque essa surpresa.
Inuyasha voltou seus olhos para os ovos, estavam na frigideira agora.
- Não estou surpreso, - disse encarando o fogão. – acho que estou com ciúmes.
Os olhos de Kagome se arregalaram. Não podia acreditar que ele estava dizendo mesmo aquelas palavras. Pela primeira vez começava a se questionar se era apropriado dividir a casa com ele, se podia continuar ao lado dele. A alegria em seu peito e o sorriso em seus lábios fazia com que sentisse medo. Medo de talvez gostar mais de Inuyasha do que deveria.
Ao perceber o silêncio de Kagome o hanyou voltar a falar, o silêncio naquela circunstância estava deixando-o inquieto.
- Eu também já dividi o quarto com outras mulheres, não quero que pense que eu sou alguma espécie de tarado que não consegue ficar no mesmo cômodo que uma mulher sem pensar besteiras, é só que eu não acho uma boa idéia. Não sei como lidaria com isso, já estou inquieto o bastante com a idéia de morar sob o mesmo teto que você. Essa situação toda não está mexendo com você?
- Não. – disse Kagome sinceramente. – Eu me sinto segura perto de você.
Inuyasha suspirou virando a frigideira no prato e deixando a omelete cair.
- Bem, eu não toda essa segurança em mim quando estou perto de você, então vamos continuar com o plano inicial.
- Sua casa, suas ordens. – disse Kagome.
Inuyasha colocou algumas fatias de pão de forma na torradeira e separou as laranjas, levando-as até o espremedor de frutas. O som alto do aparelho fez com que novamente a conversa descontinuasse, Kagome começou então a pensar nas palavras de Inuyasha, não havia analisado a fundo aquela situação. Iria morar na mesma casa que ele, passaria todos os dias convivendo com aquela confusão que eram seus sentimentos. Não poderia fugir dele como costumava fazer, seria obrigada a encarar aquela situação não importando para onde ela a levaria.
As torradas pularam fazendo Kagome imitar aquela ação. Levara um susto enorme com os pães voando para fora da torradeira. Inuyasha espremeu mais duas laranjas e foi até o aparelho, colocou as torradas em um prato. Pousou as torradas, a omelete e a jarra de suco em frente de Kagome, pegou dois copos no armário e sentou-se.
- Foi o melhor que eu pude fazer. – disse.
- Para mim parece ótimo. – disse Kagome servindo-se com uma torrada. – É a primeira vez que um cara faz café da manhã pra mim.
- Eu não sou um cara. – disse Inuyasha servindo os copos com suco. – Não se acostume com essa mordomia, quando estiver melhor vai ter que dividir essas coisas chatas comigo.
- Achei que me chutaria para fora da sua casa quando eu ficasse boa.
- Eu nunca te pedir para ir embora, você vai quando achar que deve ir.
- E se eu nunca quiser ir embora?
- Então precisaremos procurar uma casa com dois dormitórios, não acho que consiga dormir para sempre no sofá. – disse Inuyasha mordendo uma torrada. – Agora coma, resolvemos isso depois.
Kagome balançou a cabeça e revirou os olhos, mas seus lábios insistiam em sorrir. Obedeceu Inuyasha e só então percebeu quão faminta estava.
O silêncio se fez presente enquanto eles comiam, mas não era constrangedor, amos se sentiam bem em ficar daquela maneira, apenas um ao lado do outro sem dizer nada. Inuyasha encarou Kagome e percebeu que algo nela estava diferente, mas não conseguia identificar exatamente o que era. Talvez fosse o cabelo.
- Eu gostei do seu cabelo. – disse subitamente.
- Sinto falta dele comprido. – disse Kagome.
- Não entendo sobre mulheres e cabelos, mas se minha opinião conta para alguma coisa, eu prefiro assim. Não sei, acho que combina com você, antes quando eu te olhava via uma mini Kikyou andando por ai, parecia aquelas crianças que imitam a mãe, sabe? Agora está parecendo você mesma e está muito mais bonita assim.
- Talvez voe esteja certo, sobre a parte da mãe, eu quero dizer... Eu sempre ser como a Kikyou.
- Credo. Por que alguém no mundo iria querer ser como aquela mulher? Você era insuportável quando a imitava, continue como está que está ótimo.
- Hoje você está me elogiando demais, o que acontece?
Inuyasha deu nos ombros.
- Há algum tempo eu te propus que fizéssemos somente aquilo que tínhamos vontade e é o que estou fazendo. Agora que não existe intervenções estranhas como atração ou sangue ou sei lá mais o quê, sei quem realmente quer dizer essas coisas. E se eu sinto vontade de dizê-las, eu as digo.
- Maneira muito simples de ver as coisas.
- Já tenho drama o bastante na minha vida para procurar por mais.
- Já pensou que talvez você devesse escolher melhor suas palavras? As conseqüências de fazer só aquilo que se tem vontade nem sempre são boas.
Inuyasha sorriu largamente.
- Não se preocupe, eu sei exatamente o que fazer caso você acabe perdidamente apaixonada por mim.
Kagome cruzou os braços.
- Você está muito convencido. Se quer saber é muito fácil você se apaixonar por mim do que o contrário.
- É bem provável que seja mesmo. – disse Inuyasha virando o copo de suco. – E depois eu é que sou o convencido.
- Eu estava brincando. – respondeu Kagome.
- É, mas eu não. Eu realmente acho que estou mais ferrado que você.
- Ferrado? Gostar de mim é tão ruim assim?
- Não foi isso que eu disse. Você sabe que eu gosto de você e isso já me deixa confuso e inseguro o bastante para uma vida inteira, imagina o que vai acontecer com a minha cabeça caso eu me apaixone de verdade? Amar você seria complicado demais, assim já está bom.
Kagome pegou o prato que antes era de torradas, seu copo, levantou-se e colocou-os na pia. Abriu a torneira e começou a lavar a louça. Não compreendia o motivo de repentinamente ter se sentido tão triste e sozinha.
Inuyasha olhou confuso para Kagome, ela tinha uma expressão estranha no rosto. Pegou o outro prato e seu próprio copo indo até a pia, tocou o ombro da garota e disse:
- Pode ir para a sala, eu cuido disso.
Kagome deu um passo para o lado, se distanciou apenas o bastante para se livrar do toque de Inuyasha e continuou a esfregar a frigideira.
- Estou bem, posso fazer isso. Não se preocupe que enquanto eu estiver aqui te ajudarei com esse tipo de coisa, acho que no máximo em uma semana eu já posso ir atrás de uma casa pra mim.
- Legal. Do que é que você está falando agora?
Kagome soltou a frigideira com força da pia e virou-se para encarar Inuyasha, precisava olhar para cima e isso a irritava.
- Eu acho que você já gastou tempo demais da sua vida agüentando minhas loucuras, - disse. – e isso não é justo, você merece ter a normalidade de antes de volta, mas comigo por perto isso nunca vai acontecer. Comigo vai ser sempre confusão. Quando eu sentir que consigo me virar bem, eu vou embora de vez.
- Você é idiota ou o quê? Está parecendo com a Sango, arranjando desculpas malucas para fugir do Miroku. De onde você tira essas coisas?
- Com a Sango é diferente! – disse Kagome. – Todas as vezes que você fala sobre mim sempre acaba lembrando em como eu te deixo confuso, sobre como sua vida era tranqüila sem mim, sobre como seria melhor se eu sumisse e por mais que eu diga que não, ouvir isso me destrói por dentro. Eu não ter esse papel na sua vida.
Inuyasha suspirou e segurou o rosto de Kagome com as duas mãos.
- Não vou mentir, eu já disse e ainda digo todas essas bobagens, mas por que é só isso que você ouve? Eu já não disse que quero você ao meu lado? Que estar com você faz com que eu me sinta bem? Eu já disse até mesmo que gosto de você e que posso me apaixonar. Porque nada disso faz efeito em você? Quer tanto assim se livrar de mim?
- Você pode, mas não quer. – retrucou Kagome e seus olhos estavam cerrados. – Tudo bem se apaixonar por qualquer magricela com dois metros de altura que passar na sua frente, mas não por mim.
Inuyasha riu.
- Então é isso? Kagome, você está com ciúmes.
- Não, eu não estou. – retrucou Kagome. – Você pode se apaixonar por quem quiser, eu não ligo.
Inuyasha curvou seu corpo, deixando seu olhos na altura dos de Kagome.
- Eu não faço questão nenhuma de adicionar mais esse drama na minha vida, mas pode ficar tranqüila, se existe alguém no mundo capaz de fazer com que eu aceite agüentar essa chatice toda que é se apaixonar, esse alguém é você.
- Deveria me sentir honrada com essa afirmação?
- Profundamente honrada. – disse Inuyasha rindo. – Acabo de dizer que dentre milhões de outras mulheres que existem no mundo eu escolheria você.
- Certo, desse ponto de vista tenho que concordar, estou honrada.
Inuyasha ainda o corpo curvado, seu rosto muito próximo ao de Kagome, ele continuou sorrindo e disse:
- Depois de tudo o que eu disse, só vai me retribuir dizendo que está honrada?
Kagome encarou os olhos cor de âmbar de Inuyasha, aqueles olhos que ela amara desde o primeiro momento que os vira estavam ali e a encaravam de volta, olhando apenas ela. Aquele olhar penetrante que ela sempre admirara agora era seu. Eles a refletiriam para sempre, como um espelho amarelado e brilhante.
A garota precisou apoiar o corpo na pia quando sua mente começou a se inundar de compreensão. Tudo parecia fazer sentido: a angústia que sentira ao descobrir que precisaria matá-lo, o fato de ter dado sua própria vida por ele, o sentimento estranho que sentia sempre que estava perto dele, a dor especialmente aguda que sentira quando ele a ofendera. Como não tinha percebido antes? Deveria ter notado quando a lembrança daquele olhar tinha lhe dado coragem de ir em frente e aceitar a condição de perder as próprias asas. Mesmo sem perceber, tudo o que fizera desde que o conhecera era uma tentativa desesperada de se aproximar dele. Absolutamente tudo.
Finalmente havia entendido o que ele tinha dito sobre ela ser um espelho, por que se sentia verdadeiramente da mesma maneira. A primeira vez que ficara sozinha com Inuyasha havia encarado os olhos âmbar dele profundamente e só agora entendia o porquê: estava se procurando lá dentro. E mesmo que não tivesse percebido, havia se encontrado. Somente quando encarara Inuyasha havia sido capaz se enxergar como era de verdade. Até então era apenas uma sombra criada para ser como todos os outros.
Kagome amava Inuyasha mais do que achava ser capaz de amar algo ou até mesmo alguém, amava tanto que a compreensão daquilo chegava a doer.
- Kagome, você está bem?
Ela piscou os olhos voltando para a realidade, notou que estava completamente apoiada na pia. Inuyasha segurou-a pelos ombros e a guiou até o sofá.
- Você está pálida, o que aconteceu?
Kagome sentou no sofá cuidadosamente para não abrir os pontos, as costas arderam, mas ela ignorou e se apoiou no encosto.
- Fale alguma coisa! – disse Inuyasha. – São as suas costas?
- Não, é outra coisa. – disse Kagome.
- O que é então? – disse Inuyasha e ele parecia afilto.
Kagome mal teve tempo de abrir a boca, a campainha tocou e mudou totalmente o rumo da conversa. O hanyou olhou irritado para a porta e berrou que já estava indo.
- Acha que vai desmaiar ou algo do tipo?
Ela acenou negativamente com a cabeça, Inuyasha que estava de joelhos em frente à Kagome levantou-se e foi abrir a porta, ergueu a sobrancelha ao ver quem era.
- Achei que ficariam escondidos. – disse.
- Foi o que Sesshoumaru disse? – perguntou Bankotsu. – Sinto informar que ele mentiu. Não tem graça nenhuma ser babá de duas crianças se não posso perturbá-las.
- Poxa, muito legal. Algo mais? – disse Inuyasha ironicamente.
- Eu atrapalhei alguma coisa? Você parece irritado e com pressa.
- Ela está passando mal, se não tiver nada mais importante à dizer pode ir embora.
Bankotsu deixou sua espada anormalmente grande na porta e entrou, Inuyasha respirou fundo para não ter um ataque e voar na garganta do yokai. Bankotsu era provavelmente um psicopata e tê-lo dentro da sua própria casa não lhe agradava em nada.
Kagome olhou confusa na direção de Inuyasha quando percebeu Bankotsu parado à sua frente, ele balançou os ombros demonstrando não entender o que acontecia.
- O que você tem? – disse Bankotsu e sua voz não chegava nem perto de demonstrar preocupação.
- Minha pressão caiu. – respondeu Kagome.
Bankotsu abaixou-se e encarou-a.
- Você pode mesmo salvar a Rin?
- Porque você se importa? –retrucou.
- Há muitos anos atrás fui atacado pela sua líder, eu teria morrido se Sesshoumaru não me encontrasse. E quem cuidou de mim foi a Rin.
- Eu não sei se posso salvá-la.
- Não sei por que o Sesshoumaru acredita tanto em você, mas para mim você é só uma cria daquela doente, sei muito bem que é a favorita dela. – disse Bankotsu. – Mas se não puder salvá-la, eu vou atrás de você pessoalmente. E eu vou te matar.
- Você pode tentar me matar. – disse Kagome. – Se vai conseguir é outra história.
Bankotsu riu alto e volto a ficar de pé.
- Você é realmente uma cria dela!
- Já falou tudo o que tinha para falar? – disse Inuyasha segurando a porta aberta. Sua voz tinha tom absurdamente sombrio.
O yokai deu nos ombros. Quando passava pela porta Inuyasha segurou-o pelo braço, seus olhos pareciam selvagens.
- Se tocar em um único fio de cabelo dela eu juro que te mato.
- Eu acho que todo hanyou deveria se transformar em yokai completo, mas você é uma piada. Se transformar só por causa daquela garota é uma besteira enorme.
Inuyasha piscou algumas vezes quando Bankotsu saiu da casa. Respirou fundo. Seu corpo estava estranho, parecia vibrar inteiro com a possibilidade de matar aquele yokai, mas palavras de Bankotsu giravam em sua cabeça, o que ele queria dizer com todo hanyou deveria se tornar um yokai completo? Sentia seu corpo querendo que aquilo acontecesse, mas não sabia se era realmente possível, mas daquela vez havia sido diferente, pensando agora, ele chegara muito perto de quebrar o lacre que o sangue de sua mãe era. Mas por algo tão pequeno como aquilo? Não era sequer uma luta e ele já lutara antes.
Olhou para Kagome sentada no sofá, ela era o motivo daquilo, parecia que se importava mais com ela do que com sigo mesmo, afinal estava disposto a destruir tudo em si próprio apenas para protegê-la.
- Não acredito que a Rin salvou um idiota como aquele. – resmungou Kagome.
- Você não é mais um anjo, faça o favor de não sair ameaçando yokais por aí! – disse Inuyasha.
- Eu não ameacei ninguém, apenas me defendi! – retrucou Kagome. – Quem aquele yokai acha que é para invadir nossa casa e falar aquele monte de idiotices?
- Nossa casa? – disse Inuyasha.
Kagome pareceu notar o que havia dito. Mordeu o lábio.
- Bem, estamos morando aqui, não é?
Inuyasha sorriu sentindo-se novamente calmo. Era incrível o poder que Kagome tinha sobre ele.
- Esqueça isso. - disse. – Você parece melhor agora, acha que consegue me acompanhar pela mansão para conhecê-la?
Kagome sorriu.
- Estou ansiosa para conhecer a mansão que irá me hospedar por tanto tempo.
- Imaginei que estava sendo uma tortura para você não ver o resto. Venha, eu lhe mostro seu quarto e o banheiro.
Já passara das sete horas da noite quando a campainha da casa de Inuyasha tocou novamente, o hanyou olhou desanimado para a porta e voltou os olhos para a Tv, estava sentado no sofá ao lado de Kagome. Assistiam "O sexto sentido", misteriosamente ele nunca assistira aquele filme.
- Quer que eu atenda? – perguntou Kagome.
- Se não atendermos a pessoa vai embora. – disse Inuyasha sem desviar os olhos da TV.
- Se for importante ela não irá embora. – disse Kagome cruzando os braços. – Eu vou ver quem é, já assisti esse filme umas quinze vezes, não agüento mais.
Inuyasha não respondeu ou moveu um músculo sequer, não havia com o que se preocupar, sabia que não era um yokai nem um anjo à porta, ela estaria segura. Kagome levantou-se lentamente do sofá e andou até a porta, quando a abriu Sango já estava de costas, prestes a ir embora.
- Sango? – disse Kagome.
A garota virou o rosto e revirou os olhos.
- Então era aqui que você estava! – disse. – Estávamos preocupados!
- A mãe do Miroku não avisou que eu não voltaria? A mulher me expulsou de lá!
- Ela fez o quê? – perguntou Sango incrédula.
- Vocês podem conversar no outro andar? Estou tentando assistindo um filme aqui! – gritou Inuyasha.
Kagome olhou emburrada para o sofá e deu um passo para o lado, deixando Sango entrar.
- O que ele está vendo de tão interessante?
- O sexto sentido. E não, ele nunca assistiu antes.
Sango sorriu ao seguir Kagome, quando estava na metade da escada olhou para baixo e disse em voz alta:
- O psicólogo está morto.
Inuyasha xingou e Kagome riu alto antes de abrir a porta do que agora era seu quarto. Era incrivelmente grande e ocupava grande parte do segundo andar. Apontou para uma poltrona para que Sango senta-se e imitou o movimento, só que na cama.
- Como você está? – perguntou Sango.
Kagome suspirou profundamente antes de começar.
- Eu acho que estou bem, mas estou confusa. Me sinto vazia e aliviada ao mesmo tempo, sinto como se coisas sem importância fugissem da minha mente e eu não pudesse mais localizá-las, alguns rostos e pessoas simplesmente sumiram. Às vezes percebo que estou deprimida e cansada, mas tenho me esforçado para não deixar que isso tome conta de mim. Eu quis por tanto tempo ser livre que agora que o sou não posso simplesmente me deixar acomodar com esses sentimentos. Eu quero viver, Sango, mesmo que isso doa.
Sango sorriu bondosamente.
- Não faço idéia de como isso está sendo difícil para você, mas fico feliz que finalmente esteja sendo você e lutando pelo o que quer. Tinha medo que continuasse com aquelas desculpas de não ter escolhas.
- Mas eu não acho que as tenha. – disse Kagome. – A sensação que tenho é que se parar de lutar vou me perder completamente. Minha única escolha é seguir em frente com tudo o que eu tenho.
- Você quer viver e isso já é uma escolha. – disse Sango sorrindo. – Imagino que esteja sem um lugar para ficar a longo prazo, quando sentir que precisa sair daqui minha casa está a sua disposição.
- Na verdade, tenho ordens de ficar perto do Inuyasha, não sei exatamente quando vou sair daqui.
- Ordens? – disse Sango tentando conter o riso. – Seria mais fácil dizer que quer ficar com ele.
Kagome riu.
- Mas eu realmente recebi essa ordem.
- Então vão morar juntos, é? Pelo visto estão se dando muito bem.
- Na verdade é mais uma obrigação mesmo, - disse Kagome. – e é melhor que continue assim.
Sango suspirou.
- Sua expressão diz o contrário.
- Estamos no meio de uma guerra, eu preciso salvar a mulher do Sesshoumaru do limbo ou seja lá qual é o nome do lugar onde ela está. Não é hora para brincar de casinha.
- Você finalmente percebeu, não é?
Kagome acenou positivamente com a cabeça.
- E só percebi quando ele disse que preferia não me amar.
- Como se ele já não te amasse, que idiota. – disse Sango revirando os olhos.
- Isso não importa agora. - disse Kagome. – E você? Como está se sentindo em relação ao Miroku?
- Nós nos beijamos hoje. – disse Sango. – Acho que foi um beijo de despedida.
- E você não sentiu nada ao beijá-lo?
- Eu estava ocupada demais lembrando que meus dentes não haviam encontrado uma pasta ainda para analisar se sentia alguma coisa ou não por ele.
- Sua desculpa foi péssima.
- O pior é que não é uma desculpa, eu realmente estava complexada com isso, tanto que só depois que nos separados eu comecei a raciocinar direito.
- E o que descobriu?
- Ele beija bem, de uma maneira irreal e apesar de nunca ter perdido uma oportunidade de passar a mão em mim, durante o beijo ele não chegou nem perto de mim.
- Isso é porque ele gosta de você.
- É, foi o que eu conclui também. – disse Sango. – Sabe o que mais me irrita? Eu poderia muito bem ter vivido minha vida inteira acreditando que eu não enxergava o Miroku como nada além de um amigo com tendências safadas.
- E não você não o vê mais dessa maneira? – disse Kagome.
- Ninguém que me beija com tanta paixão pode ser considerado só um amigo. – disse Sango. – Por mais irritante que seja confessar isso.
Kagome suspirou.
- Somos uma vergonha.
Sango concordou com a cabeça com o mesmo desanimo. Após tanta confusão as duas finalmente conseguiam conversar em paz, como duas garotas da sua idade e com os mesmos problemas. Isso fazia com que Kagome se sentisse normal e aliviada por pela primeira vez poder compartilhar sua vida com alguém sem culpa. Elas conversaram sobre tudo o que acontecera nas últimas semanas e sobre suas vidas por horas.
Sango se surpreendeu ao olhar para o relógio e descobrir que já era pouco mais de onze horas.
- Algum yokai que está vigiando a casa vai ficar de olho em você, pode ir tranqüila. – disse Kagome.
Sango não pareceu animada com a idéia de ser seguida por um yokai no meio da noite, mas era melhor do que nada. Agradeceu e desceu as escadas, sendo seguida por Kagome, que abriu a porta e se despediu.
Kagome sorriu ao ver Inuyasha dormindo no sofá, pegou o edredom que estava dobrado em uma das poltronas e levou-o até o hanyou, cobrindo-o. Sentiu um par de braços enlaçando sua cintura e puxando-a para baixo, seu coração parou de bater apenas um segundo antes de voltar ao normal.
- Você é muito ingênua, - disse Inuyasha. - achou mesmo que eu conseguiria dormir com vocês duas gritando e tendo ataques de riso lá em cima?
Kagome estava sentada no sofá e Inuyasha ainda a segurava, abraçando-a pela cintura.
- Nós não gritamos!
- Como você mesmo disse certa vez, minha audição é sensível.
Kagome juntou as sobrancelhas parecendo confusa, ela já havia dito aquilo alguma vez? Balançou a cabeça tentando ignorar aquilo, no momento outra coisa a preocupava mais do que sua amnésia.
- Então você ouviu tudo?
- Sim, - disse sorrindo. – adorei a parte do "Sango, eu amo o Inuyasha e gostaria que fosse embora para que pudéssemos ficar a sós".
- Eu não disse isso! – retrucou Kagome.
- Mas poderia ter dito, - disse Inuyasha parecendo emburrado. – assisti essa droga de filme sozinho e ela ainda me contou o final!
- Você ouviu mesmo a conversa? – insistiu Kagome.
- É claro que não, que espécie de doente acha que eu sou para ficar ouvindo a conversa dos outros por trás das portas?
Kagome deixou seu corpo amolecer no sofá, a idéia de Inuyasha descobrir sobre seus sentimentos daquela maneira simplesmente não lhe parecia certa. O hanyou aproveitou a distração de Kagome e forçou os braços para o lado, deitando-a com cuidado.
- O que você está fazendo? – perguntou a garota torcendo para que seu coração não estivesse batendo alto o bastante para ser ouvido.
- Te usando como travesseiro, gosto de dormir abraçando alguma coisa. – explicou.
E era exatamente isso o que acontecia, Kagome era pequena e encaixava perfeitamente nos braços de Inuyasha, como um travesseiro faria.
- Achei que dormirmos juntos não fosse uma boa idéia. – disse Kagome.
- Achei que não tinha problemas em dividir um quarto com outros homens.
Kagome suspirou.
- Você vai continuar fazendo só aquilo que quer, não é?
- Aham. – respondeu Inuyasha animado.
Kagome balançou a cabeça e mexeu seu corpo, apenas o suficiente para se acomodar nos braços de Inuyasha. Mesmo o sofá sendo pequeno e desconfortável nunca tinha se sentido tão bem em sua vida. Fechou os olhos e antes que percebesse, já estava dormindo.
Kagome não queria dormir. Não mais. Todas as noites em que deitava a cabeça no travesseiro lutava para deixar seus olhos abertos e quando não conseguia vencer o cansaço tinha vontade de não acordar nunca mais. O que ela até então chamava de amnésia estava começando a tomar proporções muito maiores, sempre que dormia sentia que algo era varrido de sua mente, tinha medo. Medo de um dia acordar e simplesmente ter se esquecido absolutamente tudo, inclusive dela mesma.
Estava desesperada. E apesar disso continuava a agir normalmente, se esforçava em se fazer acreditar que aquilo não era nada sério, afinal até agora nada do que havia esquecido era realmente importante, eram nomes, rostos, missões, lugares. A sensação que tinha é que tudo o que estava sendo apagado estava ligado aos anjos, era como se elas tentassem apagar sua existência da memória de Kagome.
Preenchia as lacunas da sua mente – e conseqüentemente, o desespero – com aulas que recebia de Myouga todos os dias à tarde, era a maneira que Sesshoumaru havia encontrado para que ela não fosse reprovada. Apesar de achar tudo aquilo insuportável, Kagome agradecia mentalmente por ter algo com o que ocupar a cabeça. Tinha certeza que estaria muito pior sem aquelas aulas.
- Você está prestando atenção? – repreendeu Myouga.
- Ela deve estar com sono, - explicou Inuyasha sem erguer a cabeça. – não dormiu quase nada essa noite. De novo.
- É claro que eu estou prestando atenção, - disse Kagome revirando os olhos. – as ervilhas amarelas são gene recessivo, por isso vieram em menor quantidade que as verdes no cruzamento que acabou de fazer.
Inuyasha continuou apoiando a cabeça na carteira e apenas virou os olhos para encarar Kagome. Odiava aquelas aulas à tarde, mas tinha que ficar de olho na garota, embora ela agisse como se nada estivesse acontecendo sabia que aquela insônia tinha um motivo. No começo da semana passada sempre que acordava comentava que estava com a sensação que estava esquecendo de algo importante, mas não sabia exatamente o quê. Ela tratava aquilo com muita naturalidade, como se estivesse esquecido onde o controle da sala estava. Mas em determinado momento ela parou de comentar sobre aquela sensação e passou a reclamar que não conseguia dormir. Para Inuyasha não era como se ela não conseguisse dormir, ela simplesmente não queria.
Myouga suspirou e apagou a lousa.
- Vocês podem ir embora agora. – disse. – Vejo que já entendeu a matéria, então pode ir para casa e descansar.
- Eu estou ótima. – retrucou Kagome.
Inuyasha levantou-se e pegou a mochila da garota no chão e disse:
- Claro que está. Agora vamos para casa.
Kagome suspirou e obedeceu Inuyasha. Os dois saíram da escola sem dizer uma única palavra sequer, Inuyasha acompanhava os passos da garota como canto dos olhos, não conseguia definir se ela desmaiaria a qualquer momento. Nos últimos dois dias não dormira mais do que cinco horas ao todo e parecia realmente cansada.
- Você não comentou mais sobre a sensação de ter esquecido algo importante. – disse Inuyasha. – Isso parou de acontecer?
- Me diga uma coisa, a Sango e o Miroku ainda não se encontraram? – disse Kagome como se Inuyasha jamais tivesse lhe perguntado nada.
Ele suspirou.
- Não, depois que o Sesshoumaru invadiu a escola foi preciso misturar as salas para amenizar o caos, eles caíram em salas diferentes e não fizeram questão de procurar um pelo outro.
- Isso é triste, quando eles finalmente podem se acertar, não se esforçam para isso. – disse Kagome.
- Talvez eles estejam cansados de se esforçar, principalmente o Miroku. Acho que não era para ser.
- Besteira. Acho que quanto mais difícil for para um casal se acertar, mais tempo eles vão conseguir manter o relacionamento. As pessoas não valorizam o que conseguem facilmente.
- Ah, isso explica porque continua fugindo de mim. – disse Inuyasha. – Está se fazendo difícil para que eu te valorize.
Kagome sorriu.
- Não estou me fazendo de difícil, eu sou difícil.
Inuyasha revirou os olhos.
- Como se você precisasse me dizer para eu saber.
- Isso foi uma reclamação? – disse Kagome erguendo a sobrancelha.
- E se fosse? – disse Inuyasha.
- Eu tentaria me redimir, então.
- Tentaria, é? Essa eu gostaria de ver.
Kagome que andava ao lado de Inuyasha parou em sua frente, ele imitou o movimento e encarou a garota com as sobrancelhas juntas, precisava curvar o rosto para baixo para encará-la perfeitamente e era isso o que ela queria. Kagome ficou na ponta dos pés e ergueu a cabeça, ficando na altura dos lábios de Inuyasha, sorriu antes de tocá-los com os próprios.
Inuyasha que tinha os braços caídos ao lado do corpo e segurava a mochila de Kagome deixou que a mochila caísse e puxou-a para perto, abraçando-a. Não se importava com o que as pessoas achariam daquilo, fazia muito tempo que queria beijá-la novamente.
Estava surpreso com aquela situação, sentia Kagome distante desde a conversa na cozinha e por mais que tentasse se aproximar ela o impedia. Era como se ela tivesse criado uma barreira invisível ao seu redor e ele não conseguisse ultrapassá-la, não conseguia entender o motivo daquilo e havia dias em que achava não ser capaz de agüentar. Viver todos os dias ao lado de Kagome sentindo sua distância o incomodava mais do que ele queria aceitar que incomodava. Chegava a doer.
Ela havia esquecido aquilo também.
Kagome se esforçara na última semana e meia para não demonstrar seus sentimentos, não que não estivesse agoniada para colocar tudo aquilo para fora. O problema ia muito além de uma hipotética rejeição, tinha medo do que poderia acontecer com si mesma, e se dissesse para Inuyasha que o amava e simplesmente acordasse no dia seguinte e não soubesse mais quem ele era? Não, ele não precisava passar por mais isso.
Todos os dias lutava contra a vontade de se jogar nos braços dele e estava conseguindo, isso até perceber que havia se esquecido como era estar com ele. Ela lembrava de tê-lo beijado mais de uma vez, mas quando pensava sobre isso sentia-se vazia, como se estivesse assistindo a um filme e não compartilhasse os sentimentos dos personagens. Se tornara expectadora da sua própria vida.
Ela precisava lembrar, precisava fazer sua mente entender que aquela sensação não tinha nada a ver com anjos e que não deveria nunca mais ser apagada como algo sem importância. Era a sua memória e somente Kagome poderia escolher o que fazer com ela.
Kagome sentia o corpo de Inuyasha contra o seu e a paixão com que havia se entregado ao beijo. Era como se ele também precisasse recordar como ela tê-la em seus braços. Dessa vez não esqueceria, duvidava que pudesse esquecer aquela felicidade alguma vez na vida.
Abaixou os pés, voltando a ficar na sua altura, Inuyasha abriu os olho, mas não a soltou.
- Eu senti a sua falta, - disse e sua voz não era nada além de um sussurro. – estava começando a me desesperar sem saber o que fazer.
- Desculpe. – respondeu Kagome.
Inuyasha abraçou Kagome mais forte contra si, pela primeira vez desde que conhecera Kagome estava realmente com medo. Medo de não conseguir salvá-la, medo de perdê-la, medo de ter uma responsabilidade tão grande. Não era só a vida só a vida de Kagome que ele estava tentando salvar, era a sua própria.
- Vão para casa! – resmungou uma senhora que passava pela rua.
Kagome gargalhou.
- Acho que ela tem razão, vamos para casa.
Inuyasha soltou Kagome e abaixou-se para pegar sua mochila, quando levantou ela tinha o braço esticado, ele segurou-a pela mão. Kagome não disse nada e apenas sorriu, deixaria o plano de poupar Inuyasha de sua confusão para outra hora.
Inuyasha estava sentado no sofá usando o ombro de Kagome como apoio para seu braço, enquanto ela usava o peito dele com a mesma função. Estavam abraçados e assistiam como em todas as outras noites o programa da Oprah. Aquele se tornara o programa diário dos dois.
Kagome mordeu o lábio enquanto assistia ao psicólogo do programa dizendo que sinceridade era a base de tudo, no fundo sentia vontade de rir, afinal, estava recebendo conselhos do programa da Oprah! Era quase como se fosse uma senhora dona de casa. Suspirou.
- Não, ela não sumiu. – disse Kagome ainda olhando para a TV.
- O que não sumiu? – disse Inuyasha.
- A sensação de estar esquecendo as coisas, na verdade deixou de ser uma sensação há um tempo. Estou realmente perdendo a memória.
- Coisas importantes?
- Nem todas. - disse Kagome. – Piora quando eu durmo, parece que acelera o processo.
- Quer que eu fique acordado com você?
- Uma hora eu vou acabar dormindo. Eu só queria entender porque isso está acontecendo comigo, eu já perdi minhas asas, porque estão tirando minhas memórias também? Já não basta o sofrimento que estou passando?
- Eu não sei por que estão fazendo isso. - disse Inuyasha. – Dói tanto assim?
Kagome acenou positivamente com a cabeça e pode sentir o peito de Inuyasha se inflando e seu coração parecia estar acelerando.
- Preciso que me prometa uma coisa. – disse e sua voz era séria.
- O que é?
- Prometa que não importa quantas coisas você esqueça, ainda assim vai se lembrar de mim.
- Não posso prometer isso.
- Apenas prometa. – responde Inuyasha frustrado. – Eu não quero nem imaginar a possibilidade de um dia acordar e perceber que você esqueceu tudo sobre mim. Sobre nós.
- Está bem, - disse Kagome. –eu prometo.
No momento que disse aquelas palavras Kagome teve a certeza que jamais poderia cumprir aquela promessa. Ela o esqueceria, sentia isso no fundo da sua alma, assim como tudo o que tinham vivido.
Miroku segurava um envelope marrom. Sua vida inteira estava ali, seu passado, seu presente e principalmente seu futuro estavam impressos naqueles papéis. Não poderia mais fugir daquilo, precisava aceitar as conseqüências de suas escolhas e sua escolha era deixar para trás tudo o que vivera até então.
Como sempre era cedo e estava passando o tempo no pátio traseiro observando o movimento das nuvens. Sentiria falta daquele lugar, especialmente. Perdera a conta de quantas horas de sua vida havia desperdiçado ali e sabia que poderia passar mais centenas delas e ainda assim não se cansaria.
Esperava por Kagome, precisava falar com ela, mesmo sabendo a resposta de suas perguntas. Sorriu ao ouvir os passos dela se aproximando, ela corria.
- Bom dia. – disse.
- Estou atrasada, desculpe. – respondeu Kagome parando em frente ao rapaz e se apoiando nos joelhos respirando fundo. – Dormi muito mal essa noite.
- Não se preocupe, o Inuyasha já me contou sobre esse problema. – respondeu. – Sente-se, você deve estar cansada.
Kagome acenou com a cabeça e jogou-se no banco ao lado do rapaz, seu pulmão e suas costas doíam de ter corrido. Os pontos já estavam cicatrizando e pareciam arder mais do que normal. E coçavam. Muito.
- A Sango fez um ótimo trabalho com o seu cabelo. – disse sorrindo.
- Bem, é o que parece. Todos gostaram. – disse Kagome ainda ofegante.
- A modelo ajuda.
Kagome tentou não sorrir, mas era inevitável. Miroku sempre fazia com que ela se sentisse confortável.
- Agradeço o elogio, - disse sorrindo. – desculpe se estou sendo mal educada, mas o que você tem de tão importante para conversar comigo? E por que o Inuyasha não pôde vir junto?
- Assunto de garotas. – disse Miroku.
Kagome ergueu a sobrancelha.
- Tá, vou falar sério agora. – disse Miroku. – Eu acho que já tenho intimidade o bastante para ser direto, estou enganado?
- Não, está certíssimo. – disse Kagome.
- Ótimo. Você ama o Inuyasha, estou certo nisso também, não estou?
- Por que quer saber sobre isso? – Kagome estava na defensiva.
Miroku suspirou.
- Está vendo esse envelope? – e ele mostrou o pacote marrom. – Aqui dentro eu tenho todos os documentos que preciso para pedir que a escola entre com um pedido de aceitação em uma faculdade grande. Não sei se sabe, mas sou ume estudante de honra.
- Está falando sério? Suas notas são tão altas assim? – disse Kagome chocada.
- É, graças a isso alguns professores me ofereceram vagas em ótimas faculdades, até mesmo fora do país. – disse Miroku. - E parece que algumas faculdades também procuraram por mim, nunca me interessei por isso porque achei que ficaria aqui, mas você sabe a história toda. A diretoria pediu que eu entregasse esses documentos para que pudessem pesquisar a melhor opção para mim.
- Eles vão resolver pra qual faculdade você vai?
- Não, só vão selecionar as melhores ofertas para um aluno como eu. É mais simples, eles procuram por faculdades que me aceitariam e depois me passam o relatório. Eu escolho entre as opções.
- Entendo. – disse Kagome. – Ainda estou chocada com isso, eu tinha percebido que era inteligente, mas isso é incrível!
- Não é grande coisa, - disse Miroku dando nos ombros. – e não foi para contar vantagem sobre minha incrível e desenvolvida inteligência que te chamei aqui.
Kagome revirou os olhos.
- Isso por que não era para contar vantagem, - disse. – então certo, diga o que precisa de mim.
- Eu conheço o Inuyasha desde criança, já disse isso para você antes, - começou Miroku. – e graças a isso eu o conheço mais do que ele pode imaginar. Sei de coisas sobre ele mesmo que nem ele notou ainda e te amar é uma dessas coisas, ele pode negar de todas as maneiras possíveis, mas eu soube que isso iria acontecer desde o instante que ele colocou os olhos em você.
- Está falando que acredita em amor a primeira vista? – disse Kagome e seu rosto estava enrugado, parecia incrédula.
Ele riu.
- Está me dizendo que não se sente exatamente da mesma maneira? – disse Miroku tranquilamente. – Você sabe que se apaixonou por ele desde o primeiro momento que o viu.
- E o que isso tudo tem a ver com você partir? – desconversou Kagome.
-Ele vai precisar de você. – explicou Miroku. – Eu não tenho muita certeza do que vai acontecer, mas quando parei para pensar conclui algumas coisas – e não, eu não posso contá-las ainda – e não sei se ele poderá lidar com isso sozinho.
- Se sabe que ele vai passar por momentos difíceis, por que não espera para ir embora?
- Por que ele tem você. – explicou Miroku. – Não é de mim que ele precisa.
- O que você está tentando me dizer, o que vai acontecer agora? – disse Kagome e ela começava a ficar impaciente. – Isso não ter fim nunca?
- Eu acho que estão mais perto do fim do que jamais estiveram. – disse Miroku. – Isso se eu estiver certo.
- Você sempre está certo. – resmungou Kagome cruzando os braços.
- Quase sempre. – retrucou Miroku. – Mas você ainda não respondeu a minha pergunta: você o ama?
- E que diferença isso faz? – disse Kagome.
- Por que se você não amar eu acho melhor que se afaste dele. – disse Miroku e não havia censura em sua voz, continuava tranqüila como sempre. – Talvez você não faça idéia do poder que tem, você o mudou completamente. O Inuyasha se transformou em outra pessoa depois que te conheceu. Ele nunca confiou em ninguém nem se importou com nada além da própria vida, acho que na cabeça dele ele precisava se tornar forte e independente para poder sobreviver, para não ter tempo de sentir a falta de tudo o que ele deveria ter e não teve. Essa cidade é pequena demais, as pessoas nunca se acostumaram com a presença dele, com a existência de algo como ele. O Inuyasha nunca se encaixou em lugar algum, não era humano, não era yokai, não era amigo, não era namorado, não era filho e por anos não foi irmão. Mas você chegou e ele se encaixou. Se encaixou perfeitamente a você , ao seu mundo, à sua solidão, à sua força. Pela primeira vez em todos esses anos eu sinto que ele está feliz pertencendo a um lugar, pertencendo a você. E se você não se sente da mesma maneira não é justo continuar com isso.
- Eu não sou tão importante assim. – disse Kagome.
- Não sei, confesso que na minha vida você não tem tanto poder assim. – disse Miroku. – Nada pessoal, mas essa função já está ocupada por outra pessoa.
Kagome sorriu.
- Eu sei. – e suspirou. – Sobre o que você disse... Não deveria ser assim.
Miroku arqueou a sobrancelha.
- Não? Está dizendo que não se sente do mesmo jeito?
- Absolutamente, não! – disse Kagome balançando a cabeça para enfatizar. – Ele salvou minha vida, me libertou e eu o amo por isso. Amo de verdade, ao ponto de dar minha vida por ele novamente se for preciso, mas não deveria ser assim. Eu estou perdendo minha memória, Miroku, eu estou esquecendo de aonde vim e provavelmente esquecerei quem eu sou. Como posso continuar com isso? Penso em seguir seu conselho e me afastar agora, não quero que ele tenha mais essa desilusão.
- Está dizendo que irá se esquecer de tudo?
- Não sei, mas sinto que sim.
- Se você o ama, fique ao lado dele. – disse Miroku. – Você está esquecendo de aonde veio, suas memórias passadas e presentes estão sendo apagadas, certo? – e ela acenou positivamente. – Então, eu acredito que o Inuyasha não se enquadra em nenhuma dessas opções. Ele não é de onde você veio, é para onde vai. E por mais que tudo suma, se você ainda vai ser capaz de lembrar para onde vai. Nós sempre sabemos aonde é nosso destino.
- E se mesmo assim eu esquecer? – disse Kagome e ela encarava o chão. – Ontem mesmo ele disse que não saberia o que fazer caso descobrisse que eu esqueci tudo sobre ele!
- Se houver um meio de evitar que isso aconteça, ele vai descobrir. – disse Miroku. – Confie um pouco no Inuyasha, assim como estou cofiando em você para cuidar dele.
- Ainda acha que posso estar ao lado dele quando sabe-se Deus o que acontecer? – disse Kagome. – Mesmo parecendo a atriz principal de "Na companhia do medo"?
- Se você tivesse o corpo da Halle Berry eu certamente não diria que é perfeita para o Inuyasha e sim para mim, mas como não é o caso, sim. Eu ainda acho que você é a única pessoa que pode salvá-lo. E sobre suas memórias, eu acredito que ele vai encontrar uma maneira de reverter isso.
- Muito engraçado. – respondeu Kagome.
- Desculpe se isso te ofende, mas é a a Halle Berry! – disse Miroku. – Tá, mas isso não é importante, resumindo o motivo de ter te chamado aqui. Eu estava preocupado em você quebrar o coração do Inuyasha, ele é rancoroso demais, sei lá o que faria se você não gostasse dele, talvez nunca mais amasse ninguém e virasse uma versão jovem do Sesshoumaru se escondendo no meio do mato!
- Essa não é uma opção. – disse Kagome.
- Ótimo. – disse Miroku. – Agora a parte mais importante de todas: não confie na Kikyou. Nunca, de maneira alguma, não importa o que ela diga ou faça. Tenho quase certeza que ela não te deixará em paz tão cedo, você tem algo que ela quer.
- Minha vez de dizer isso, ótimo. – disse Kagome. – Como sabe sobre a Kikyou? E principalmente, como sabe sobre ela querer o Inuyasha? Você sabe o que ela quer com ele?
- Não posso falar sobre aquilo que não sei, apenas te peço que não confie nela. Para o bem o Inuyasha e para o seu. Continue ao lado dele, não importa o que acontece e pare de encontrar empecilhos e diga logo que o ama para esse drama acabar, ninguém agüenta mais essa história de vocês dois falando "ai, eu só gosto, não amo". Parece filler de anime!
- Achei que você iria falar sério agora. – disse Kagome revirando os olhos.
- Eu estou falando sério. – disse Miroku. – Agora, se não se importa, preciso levar esses documentos antes da prova. Continuamos essa conversa depois da aula, pode ser?
- Tenho aula à tarde com o Myouga... – disse Kagome.
- Bem, então nos falamos à noite. Preciso falar com o Sesshoumaru antes de continuarmos.
- Mais uma vez ótimo! Se precisa falar com o Sesshoumaru a história é grave.
Miroku sorriu.
- Não se preocupe tanto.
Kagome suspirou.
- Fácil falar.
Miroku levantou-se do banco onde estava, despediu-se de Kagome e saiu correndo pelo pátio. Parecia mesmo que ele queria resolver aquilo logo, Miroku não fazia o tipo que saía correndo por nada.
Kagome então se viu sozinha naquela pátio, fechou os olhos ouvindo o som da água caindo na fonte e ao longe os pássaros. Não entendia o motivo daquela conversa, muito menos o que o Miroku pretendia com ela, mas sentia-se estranhamente feliz. As palavras do rapaz tinham lhe dado esperança, compreendia o que ele havia dito, sentia que por mais que se esquecesse de tudo ainda assim saberia que era para Inuyasha que deveria ir. Tinha certeza absoluta que se encontrasse aqueles olhos, poderia se encontrar. Sorriu com aquela possibilidade, talvez ela devesse se preocupar menos e agir como Inuyasha estava agindo: fazendo somente aquilo que tinha vontade. Afinal, se fosse se esquecer de absolutamente tudo, que aproveitasse enquanto ainda podia.
Sentiu-se arrastada para fora da sua mente quando ouviu passos pesados se aproximando. Era Sango e ela parecia desesperada.
- Ai, graças a Deus você está aqui, me ajuda, Kagome! – ela disse e seus olhos pareciam prestes a explodir em lágrimas.
- Se acalme, Sango, respira fundo, me diga o que está acontecendo. – disse Kagome aflita.
- O Miroku, - ela choramingou. – ele vai embora!
- Mas isso nós já sabíamos, Sango. – disse Kagome tentando soar racional.
- Eu sei, eu sei! – disse Sango. – Mas hoje eu acordei e corri até a casa dele, eu precisava dele mais do que nunca e ele não estava! A mãe disse que ele tinha saído cedo para resolver as coisas da faculdade. Ele vai embora, ele vai mesmo me deixar!
- Ele está na diretoria. – disse Kagome.
Sango piscou algumas vezes, parecendo confusa.
- O quê?
- Ele está na diretoria, vá até lá e diga que precisa dele.
Kagome encarou Sango, parecia querer incentivá-la. Ela parecia prestes a retrucar, mas acenou positivamente com a cabeça, girou nos calcanhares e saiu correndo pelos corredores. Kagome suspirou e logo sorriu ao ver que Inuyasha se aproximava, Sango havia esbarrado nele em meio ao seu desespero. Ele a acompanhou os olhos até que ela sumisse, sentou-se ao lado de Kagome e disse:
- O que ela está fazendo?
E Kagome riu.
- Correndo atrás do amor.
Sango sentia seu coração batendo forte no peito, não sabia se era por que estava correndo desesperadamente ou pelo o que estava prestes a fazer. Sua mente não funcionava direito e sabia que se estivesse sequer sonharia em agir daquela maneira.
Ela parou em frente à sala da diretoria e respirou fundo, tentava encontrar algum vestígio da presença de Miroku. Quando ouviu sua voz seu coração pareceu reagir, ela não achava que era possível bater mais forte do que antes, mas era o que estava acontecendo. Segurou a maçaneta e respirou fundo, fechou os olhos. Não faria aquilo, era idiota demais. Irracional demais.
Dane-se
Sango abriu a porta de uma vez fazendo barulho, parecia mais que ela tinha bicado a porta do que aberto com as mãos. Miroku e a mulher que estava sentava atrás da mesa viraram na direção da garota e no instante que viu Miroku, Sango sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas.
- Senhorita? Posso ajudá-la em alguma coisa? – disse a mulher.
- Por favor, - disse Sango e ela começou a chorar. – por favor, Miroku. Por favor, não faça isso comigo. Não vá embora, não me deixe nessa maldita cidade pra sempre! Eu não agüentaria viver aqui sem você, na verdade eu não agüentaria viver sem você em lugar algum! Eu sei que não tenho o direito de pedir isso, que eu mereço seu desprezo por todos esses anos que eu te tratei como se não significasse nada pra mim, eu sei que mais uma vez estou sendo egoísta e ignorando tudo o que você planejou para você, mas eu não vou conseguir continuar sem dizer isso. Por favor, me desculpe por ser tão teimosa e egocentrista e covarde. Eu já fugi demais de você e principalmente de mim mesma e eu não quero mais fazer isso, eu amo você, Miroku. Mesmo não querendo, mesmo tendo me esforçado tanto para evitar, ainda assim eu te amo.
Miroku estava sem reação, seus olhos estavam arregalados e ele não conseguia sequer piscar. Sua mente não raciocinava direito.
- Por favor, - ela sussurrou. – diga alguma coisa. Qualquer coisa que seja.
Ele balançou a cabeça parecendo querer acordar. Levou a mão até o rosto e esfregou os olhos.
Aquilo realmente não estava nos seus planos.
Legenda:
A frase que o Miroku fala e está em itálico, sobre o Inuyasha ser para onde a Kagome vai, eu li em um blog chamado "Para Franscico" e achei tão linda que roubei pra mim. Coloquem esse nome no Google e leiam esse blog, é maravilhoso, chorei muito!
"Na companhia do medo" é um filme com a atriz Halle Berry. Na história a personagem da Halle é uma psiquiatra que um dia acorda presa no manicômio onde trabalha, acusada de matar o própria marido. Mas ela não se lembra de nada disso e acaba o filme inteiro se esforçando para recuperar a memória. A Kagome faz um trocadilho com o filme por ter tido a missão de matar o Inuyasha no passado e agora estar perdendo a memória. Ou seja, se ela tivesse matado mesmo o Inuyasha não se lembraria, como a personagem do filme.
Olá meninas :D Como prometido, capítulo novo em 15 dias (ou menos, né?). Esse capítulo criou vida própria, escrevi 29 páginas à mão no caderno universitário antes de dormir e quando reli de manhã me deparei com isso, não era a idéia original (o original é o próximo :D), mas achei que era válido. Afinal, eu precisava resolver a vida do Miroku e da Sango antes de ir para os finalmentes da fic e também precisava desenvolver mais o Inuyasha e a Kagome, acho péssimo personagens que se amam sem motivos. Tá que com eles foi amor à primeira vista, mas vou explicar isso ainda! É tããããão gay! *insira arco-íris aqui*
Minha desculpa para não responder as reviews hoje é que estou deprimida, meu gato fugiu. Ele sempre foge, mas volta depois de no máximo 2 horas, mas hoje ele ficou a noite toda fora e acho que ele não volta. O Leleco é meio burro, sabe? Ele nunca foi um gato espertinho e malandro como os outros gatos, por isso acho que se ele se perder não acha o caminho de volta. Fora que da última vez que ele fugiu voltou pra casa com a boca machucada, deve ter levado outra surra na rua pra aprender a ser esperto.
Enfim, agradeço milhões e milhões de vezes pelas reviews, pelo carinho, pela compreensão com a minha demora e com a minha enrolação. Eu me divirto com as reviews de vocês, sério! K3
Bom feriado e me desejem sorte com o gato! Beijões!
