Sango abriu a porta de uma vez fazendo barulho, parecia mais que ela tinha bicado a porta do que aberto com as mãos. Miroku e a mulher que estava sentava atrás da mesa viraram na direção da garota e no instante que viu Miroku, Sango sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas.

- Senhorita? Posso ajudá-la em alguma coisa? – disse a mulher.

- Por favor, - disse Sango e ela começou a chorar. – por favor, Miroku. Por favor, não faça isso comigo. Não vá embora, não me deixe nessa maldita cidade pra sempre! Eu não agüentaria viver aqui sem você, na verdade eu não agüentaria viver sem você em lugar algum! Eu sei que não tenho o direito de pedir isso, que eu mereço seu desprezo por todos esses anos que eu te tratei como se não significasse nada pra mim, eu sei que mais uma vez estou sendo egoísta e ignorando tudo o que você planejou para você, mas eu não vou conseguir continuar sem dizer isso. Por favor, me desculpe por ser tão teimosa e egocentrista e covarde. Eu já fugi demais de você e principalmente de mim mesma e eu não quero mais fazer isso, eu amo você, Miroku. Mesmo não querendo, mesmo tendo me esforçado tanto para evitar, ainda assim eu te amo.

Miroku estava sem reação, seus olhos estavam arregalados e ele não conseguia sequer piscar. Sua mente não raciocinava direito.

- Por favor, - ela sussurrou. – diga alguma coisa. Qualquer coisa que seja.

Ele balançou a cabeça parecendo querer acordar. Levou a mão até o rosto e esfregou os olhos.

Aquilo realmente não estava nos seus planos.

Capítulo 25 – Conflito

Sua mão chegava a doer tamanha a força que fazia apertando o batente da porta, ouvia ao fundo algo que lembrava muito o som de um tambor, era alto e ritmado. E saía de seu peito. Achava aquele som insuportável, assim como continuar parada ali vendo a expressão confusa de Miroku. E aquela mulher, Ayumu ou qualquer que fosse seu nome, a encarava com tamanha compaixão que sentia vontade de chorar.

Miroku continuou sentado na cadeira encarando a figura de Sango à frente, pela primeira vez em anos estava processando tudo aquilo muito lentamente, as palavras vagavam em sua mente sem se ligar para fazer um sentido. Pensou em pedir para que ela repetisse, mas tinha certeza que se fizesse tal pedido colocaria tudo a perder, mesmo que naquele momento não compreendesse totalmente o que estava em risco.

O ar estava pesado, a única coisa que se ouvia na sala inteira era o som da respiração de Sango, que parecia mais ofegante agora do que antes. Ela fechou os olhos por longos segundos e respirou fundo.

- Esqueça.

Miroku acompanhou com os olhos quando Sango virou-se de costas e desatou a correr pelo corredor fazendo o caminho contrário que a levara até ali, ela estava confusa, não conseguia separar os sentimentos que brotavam, era uma mistura de vergonha, ódio e decepção. Sabia que não deveria ter feito aquilo.

Ouviu passos apressados atrás de si e isso só fez com que corresse mais rápido, sentiu seu corpo subitamente travando e sendo puxado para trás pelos braços. Era Miroku. Ele ofegava e sou rosto brilhava com pequenas gotas de suor, obviamente ele odiava esportes.

- Você... – disse ofegando. –Eu não lembrava que você era tão rápida.

Ela não respondeu. O tambor voltava a soar em sua cabeça. Miroku acalmou a respiração e limpou o suor com a manga da blusa.

- O que foi tudo isso? – disse finalmente.

- Sabe que para um gênio você chega a ser pateticamente burro, não sabe? – retrucou Sango rispidamente.

- Porque agora?

- Quem sabe? – disse Sango revirando os olhos, queria fingir calma. – Você é um saco, Miroku, de verdade. Está sempre me confundindo, agindo ao contrário do que eu espero. Primeiro nos beijamos e então você me afasta, agora eu digo que te amo...

Mais uma vez, Sango não pôde terminar sua frase, Miroku já a puxara pela cintura e a beijara.

Bem, esse é outro exemplo do que eu estava tentando dizer, mas deixa para lá.

Ela segurou a nuca do rapaz com a mão e o puxou para mais perto. A mesma intensidade, o mesmo desespero, o mesmo desejo. Sabia que se não parasse de pensar logo estaria chorando. Juntou forças e se afastou, porém Miroku a segurou pela cintura, deixando-a ainda perto do seu próprio corpo.

- Eu sempre imaginei como você finalmente iria se declarar para mim, mas isso foi mais dramático do que todos os meus sonhos mais loucos. – disse rindo.

Sango franziu o cenho, mas logo começou a rir também. Ele a segurou pela mão, parecendo levemente nervoso e disse:

- Precisamos conversar.

Os olhos de Sango desviaram-se dos de Miroku e ela fitou o chão por longos minutos, sentou-se no degrau da escada e olhou pela grande janela que ocupava toda a parede, era um vitral do céu com anjos.

- Eu sei o que você vai falar, - disse e soava derrotada. – e não te culpo. Quando eu disse agora pouco que gostaria que você ficasse eu não estava mentindo, eu realmente adoraria que isso acontecesse, mas não consigo me imaginar nesse papel daqui alguns anos.

- Papel? Que papel? – disse Miroku sentando-se ao lado de Sango.

- Miroku, consegue dizer sinceramente que quer continuar nessa cidade pelo resto da sua vida?

Os olhos do rapaz olharam pelo vitral a cidade lá fora. Ele parecia frustrado.

Sango sorriu.

- Eu sei que não, ninguém normal com menos de 65 anos sonha em passar o resto dos dias nesse lugar. Ele não oferece futuro ou qualquer estimativa de mudanças drásticas na vida. O que estou querendo dizer é que por enquanto está tudo bem continuar aqui comigo, você é jovem e tem a vida inteira pela frente, mas vai chegar um momento – e mesmo que você diga que ele não vai chegar, eu sei que vai. – que vai se perguntar o que está fazendo aqui, por que não fugiu quando teve oportunidade. A idéia de viver sem você a partir de agora me deixa louca, mas a idéia de um dia me tornar aquela pessoa que fez com que você desistisse de seus sonhos é pior ainda, eu não conseguiria viver sabendo disso.

- O que está querendo dizer com tudo isso? – a voz de Miroku era um misto de curiosidade e medo.

- Estou dizendo para seguir em frente. – disse Sango e embora sorrisse, parecia deprimida. – E para confiar em mim. Acho que você já fez bastante por mim, talvez seja minha vez de fazer algo por você.

Miroku suspirou e revirou os olhos.

- Sango, você continua sendo um completo mistério para mim.

Sango gargalhou.

- Ai está algo que nunca imaginei ouvir de você, sempre achei que soubesse tudo sobre mim.

- Eu só sei aquilo que você me deixa ver. – disse simplesmente. – um bom exemplo disso é seu amor enlouquecedor. Eu sempre o vi.

Sango deu um tapa de leve no ombro do rapaz e disse sorrindo.

- Idiota.

Miroku sorriu e a beijou novamente, não conseguia assimilar a idéia de que agora estava livre para beijá-la sempre que quisesse, finalmente Sango havia se rendido. Ela aceitara seu amor sufocante, seus beijos desesperados, seus abraços longos. Poderia parar o tempo naquele momento. Seu amor por Sango sempre fora inexplicavelmente grande, mas só agora conseguia compreender as dimensões.

Era maior do que ele mesmo.


Mesmo que não pudesse ver, sabia que era espesso e escuro, muito escuro. Podia sentir aquele líquido em sua nuca, escorrendo por suas costas. Levou a mão até o ponto que doía e depois olhou para seus dedos. Era sangue.

Um berro ecoou e era tão alto que ela sentia como se estivesse dentro da sua cabeça.

- Você está tendo um pesadelo, é só um pesadelo, Kagome.

Ela estava dormindo e aquele som ensurdecedor saía de deus lábios. Arregalou os olhos e procurou por Inuyasha instintivamente, ele estava sentado no chão ao lado da cama e parecia cansado. E preocupado.

- Você está bem? – perguntou pousando a mão no rosto da garota.

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Pessoas estão morrendo e eu as conheço, - disse e sua voz era trêmula. – não sei como são seus rostos ou seus nomes ou sequer quem são, mas sei que as conheço.

- Sim, elas estão, – disse Inuyasha em um suspiro. – dizem que é o começo de uma guerra.

- Não é uma guerra, - disse Kagome enquanto sentava-se na cama. – é só um monte de mortes sem sentido algum.

- E não é exatamente isso que uma guerra é? Um monte de mortes sem sentido?

Kagome suspirou e levou novamente a mão até a nuca, só que agora não havia nada ali. O sangue sumira assim que acordara.

- Queria que isso tudo terminasse logo, estou cansada.

- Às vezes acho que nunca vai terminar. – confessou Inuyasha.

- Eu também.

Os dois se encararam. Ambos pareciam abatidos, estavam dormindo o mínimo possível graças à memória de Kagome, as olheiras quase engoliam os olhos de tão fundas e escuras que estavam. E Kagome, ela estava começando a ter sutis mudanças, Inuyasha conseguia notar, parecia levemente mais alta e seu rosto, por algum motivo estranho, parecia menos infantil. Como uma versão poucos anos mais velha dela mesma. Se ela também notava aquelas mudanças, fazia questão de não comentar.

Os olhos de Kagome se estreitaram e ela olhou pela janela.

- Está sentindo essa sensação estranha?

Inuyasha não precisou responder, sabia exatamente sobre o que ela falava. Levantou-se e quando já estava na porta ouviu a campainha tocar, antes de sair do quarto olhou para trás e disse:

- Fique aqui.

Kagome cruzou o braço e encostou o corpo na parede, yokais eram realmente seres desprezíveis. Quem toca a campainha da casa de alguém às três da manhã?

Inuyasha desceu as escadas sem ânimo algum e abriu a porta da frente, deixando um vão grande o bastante para ver Bankotsu. O yokai tinha não só as roupas como todo o corpo coberto de sangue.

- O que quer?

- Vocês quase foram atacados agora, - disse parecendo pouco preocupado. – a desgraçada estava a poucos metros da sua casa. Claro que já resolvi o problema, mas tenho ordens do Sesshoumaru para avisar que não podem sair daqui sem permissão.

- E por que isso agora? – retrucou Inuyasha.

- Não é óbvio? – disse Bankotsu revirando os olhos. – Se eu não estivesse aqui e garotinha teria invadido sua casa e sabe-se lá o que teria feito, não é hora para ficarem passeando por ai. Elas estão atrás da sua namoradinha, eu seria mais cuidadoso se fosse você.

Inuyasha ouviu a respiração desritmada de Kagome atrás de si, virou-se apenas o bastante para encará-la com o canto dos olhos, ela tinha uma expressão furiosa no rosto.

- Não acha irônico que eu tenha salvado a garota que espero ansiosamente para ver morta? – disse Bankotsu e sua voz era doentiamente animada.

- Psicopata. – disse Kagome entre dentes.

- Ah, você está ai? – disse Bankotsu fingindo surpresa e sorriu. – Ótimo, me evita trabalho. Sesshoumaru odeia quando peço para que outros façam o que pediu para que eu fizesse. – e ele empurrou a porta o bastante para entrar, mas não entrou. – Elas não estão nada felizes com você, parece que resolveram entrar todas juntas na TPM e você é o saco de pancadas. Se não quer morrer, fique dentro dessa casa até que digamos que pode sair. Elas realmente querem te matar.

Kagome vacilou. O vazio, o buraco em sua mente começava a sugá-la, elas queriam matá-la? Quem exatamente iria querer matá-la? Já não tinha perdido suas asas e perdia agora suas memórias, isso já não era o bastante? Odiava não conseguir lembrar, sabia em algum lugar da sua mente que eram os anjos que queriam matá-la e quando tentava pensar nisso sentia-se enjoada, como sempre acontecia quando tentava lembrar-se de algo que já não habitava mais suas memórias. Será que tinha esquecido algo tão importante como estar sendo caçada pelas suas próprias companheiras?

Os olhos de Inuyasha se estreitaram deixando à mostra apenas um filete dourado.

- Entendemos o recado, vamos ficar trancados aqui. Agora pode ir. – disse parecendo rosnar.

- E lá vamos nós de novo, - disse Bankotsu cruzando os braços. – nós já passamos por isso, não lembra?

- Quem quer me matar? – disse Kagome e sua voz era uma mistura de desafio e insegurança.

- Parece que alguém andou esquecendo algumas coisas importantes.

- É o que parece, - disse Kagome, olhos cerrados. – só as coisas importantes. Os lixos, como você, continuam na minha cabeça.

- Então está mesmo perdendo a memória. - disse Bankotsu erguendo as sobrancelhas, parecia levemente surpreso e pela primeira vez soava quase como uma pessoa normal. Virou os olhos para Inuyasha e deu um leve tapinha no ombro do hanyou. – De todas as mulheres que você poderia escolher, acabou com isso. A vida é injusto para você, primeiro a psicopata da sua mãe, agora essa garota. Você não tem sorte alguma com mulheres.

Inuyasha tirou a mão de Bankotsu de si com um gesto grosseiro e bateu a porta na cara do yokai. Virou-se para Kagome e ela estava parada, os olhos ainda encaravam o lugar que antes Bankotsu estivera, os braços caídos sem vida ao lado do corpo. Ela parecia verdadeiramente abalada.

- Quem está atrás de mim? – repetiu dessa vez com firmeza.

Inuyasha suspirou e pegou Kagome pelas mãos.

- Venha, sente-se aqui comigo, vou te explicar tudo o que sei.

Kagome quis chorar, odiava aquela casca sem lembranças que estava se tornando.


- Mas, Kikyou... – a garota em pé de olhos castanhos parecia frustrado.

Era uma sala grande e bem iluminada, no centro havia uma mesa branca e redonda que ocupava metade do lugar, cadeiras estofadas em veludo azul a rodeavam. Kikyou estava sentada, os braços apoiados na mesa, os olhos no lustre de cristal no teto. Sequer parecia notar a presença da garota.

- Eu já dei minha palavra final, Akira. – sua voz era tranqüila, mas autoritária.

Os olhos de Akira encheram-se de lágrimas, mas sua voz continuou firme.

- Porque ainda gosta tanto dela? Estamos morrendo por causa da traição da Kagome, ela está do lado daqueles demônios agora e mesmo assim você a protege, porque faz isso?

Kikyou desviou os olhos do lustre apenas por um segundo e logo voltou para ele. Era como se tivesse descoberto que ele era a coisa mais interessante naquela sala.

- Deixem a Kagome em paz. – disse tão tranqüila quanto antes. – Ela não oferece risco algum no estado que está, faz idéia do que é perder as próprias asas?

- Ela mereceu! – vociferou Akira. – Kikyou, por favor, nos ouça, ela precisa ser destruída. Ela não é mais uma de nós, está com o Sesshoumaru, o Bando dos Sete e aquela aberração meio humana que deveria ter matado, nossos segredos estão em perigo, nós estamos em perigo. Não destrua a todos nós só porque a vê como sua filha, ela não merece.

A risada de Kikyou ecoou sombria pelo aposento, fazendo até mesmo o lustre tremer. Akira sentiu um arrepio correr por todo o seu corpo, era a primeira vez que se sentia dessa maneira na presença de Kikyou. Ela sempre lhe passara paz.

- Você sabe por que eu gostava tanto da Kagome? – disse e sua voz ainda ecoava naquele tom sombrio. – Por que ela nunca pisou na cabeça de quem já estava derrotado no chão. Se ela estivesse no seu lugar agora não estaria desesperada com medo de morrer, ela teria o sangue borbulhando de vontade de ir atrás do culpado de tudo isso. Ela iria querer matar o Sesshoumaru pessoalmente, iria se vingar do maldito yokai que ousou seduzir uma de nós.

- Mas ela não está no meu lugar, ela é quem foi seduzida por um yokai, não eu! – disse Akira irritada. – Não fale dela como se fosse melhor do que eu, ela te abandonou e eu ainda estou aqui! Kikyou, são as regras que você mesma nos ensinou, ela deve morrer.

Os olhos verdes de Kikyou se desviaram, saíram das luzes brilhantes do lustre, passearam pelas flores do papel de parede, se perderam no estofado de veludo azul das cadeiras até finalmente encontrar Akira.

- Eu acho que você não está entendendo o que está acontecendo aqui, - disse e seus olhos brilhavam de maneira sinistra. – eu sou a mais velha, eu decido quem morre, eu imponho ou derrubo as regras quando for conveniente para mim. E agora, o que estou dizendo como sua líder é que deixem a Kagome de lado e se foquem no problema real. Os yokais.

-Você enlouqueceu. – sussurrou Akira. – As outras tinham falado que após o ritual com a Kagome você tinha perdido a cabeça, mas não acreditei, tive que ver com meus próprios olhos.

- E encontrou o que seus olhos ansiavam ver?

- Não. O que estou vendo é a mulher que serviu como exemplo para mim durante toda a minha vida completamente louca e trazendo o fim para toda a sua raça.

Kikyou suspirou e olhou novamente para o lustre, aquelas gotinhas de cristal refletindo a luz eram realmente mais interessantes do que toda aquela conversa inútil.

- Desculpe, mas você é patética, Akira. Acha mesmo que somos tão fracas ao ponto de sumirmos porque meia dúzia de yokais no fim da vida se voltaram contra nós? Acha que existimos há quanto tempo? Acredita realmente que nunca existiram guerras entre nossas raças durantes todos esses séculos? Eu estou viva desde muito tempo e é assim que vou continuar, yokai algum vai tirar minha vida.

- Já tivemos uma baixa de mais de quinze garotas, - disse Akira tentando soar racional. – isso já aconteceu antes? Já tivemos tantas perdas em tão pouco tempo?

- É claro que já, - disse Kikyou balançando a mão de maneira impaciente. – e ainda vamos perder mais trinta ou cinqüenta, quem sabe? Sesshoumaru quer uma guerra e é isso que daremos para ele. Morreremos, mas muitos deles vão conosco.

- Você realmente perdeu a cabeça.

- Talvez eu já tenha perdido há muitos anos e nenhuma de vocês tenha notado, mas isso não importa agora. Queria saber o que eu tinha a dizer sobre tudo isso e essas são minhas palavras: não tentem matar a Kagome, você não conseguirão.

- Você sempre a super estimou! – retrucou Akira parecendo rancorosa. – Acha mesmo que não podemos matá-la se quisermos?

- Eu não acho, tenho certeza. Se tentassem há alguns meses atrás provavelmente conseguiriam, mas hoje duvido que algo possa derrotá-la, nem eu conseguiria se quisesse. O que deixo claro não querer de maneira alguma. Ela é a mais forte de nós e a que mais tem vontade de viver, por isso nos traiu, por isso aceitou perder suas asas. Por que ela realmente ama a vida e quer ser livre.

- Não, - retrucou Akira se afastando e indo em direção a porta. – ela é só outra adoradora de yokais, fraca demais para controlar os próprios instintos. Não há glória no que ela fez, somente a vergonha.

E dizendo isso fechou a porta com força.

Bem, ela avisara. Suas ordens como mais velha deveriam ser obedecidas, se as outras não quisessem mais segui-la ela não seria culpada por aquelas mortes inúteis. E elas morreriam, tinha certeza disso, qualquer um que se aproximasse de Kagome estava fadada a morrer. Sesshoumaru tinha feito um trabalho excelente em protegê-la, tinha que confessar. Achava tudo aquilo muito divertido, de todas as possíveis conseqüências de seus planos, aquela era a única que não havia previsto. Jamais conseguira imaginar Sesshoumaru se importando com outro anjo, mesmo que esse anjo pudesse salvar sua amada Rin, o ódio que ele nutria por aquela raça equivalia ao que ela própria sentia pelos yokais, tinha certeza absoluta que não era nada muito menos do que isso.

Mas o amor é mesmo uma coisa incrível, ela pensou. E suspirou deprimida.


Kouga estava encostado em uma árvore e olhava tediosamente para Sesshoumaru, estava verdadeiramente irritado com o yokai, não conseguia aceitar que ele colocara o psicopata do Bankotsu para proteger Kagome ao invés dele. Não estava nenhum pouco interessado no que ele poderia lhe dizer, na verdade, sentia uma vontade desesperada de sair daquela floresta e atacar algum anjo estúpido que ainda não tinha entendido o recado que ali não era lugar para elas.

- Isso significa que vou precisar de você. – disse Sesshoumaru finalmente, após um longo discurso que Kouga ignorou veemente.

O yokai lobo revirou os olhos, cruzou os braços e encarou Sesshoumaru.

- Significa? – disse.

- Significa. – repetiu Sesshoumaru com a mesma calma de antes. – Eu tenho a sensação que a Kikyou virá atrás de nós e não o contrário, preciso que a proteção da Kagome seja reforçada. Bankotsu está pouco se importando para o que acontece com ela, mas sei que você daria sua vida se fosse preciso e no momento acredito que é o que ela precisa.

- Acha que a Kikyou virá atrás da Kagome? Pessoalmente, mesmo depois de tudo o que fez? Ela não é louca, sabe o que espera por aqui. – disse Kouga.

Sesshoumaru revirou os olhos e respirou fundo.

- A Kikyou é mais forte do que você imagina, pode destruir todo seu clã com um piscar de olhos, literalmente.

- Não somos tão fracos assim.

- O ponto não é vocês serem fracos, é ela ser forte. – respondeu Sesshoumaru. – Agora me diga, vai ou não ajudar a vigiar a Kagome?

- Acha que eu já estou fazendo isso? – retrucou Kouga.

Sesshoumaru ficou em silêncio alguns minutos, parecia estar travando uma luta mental para resolver se falava ou não. Escolheu falar.

- E como ela está?

- Parece cansada. E mais velha. – disse Kouga. – Mas isso já era o esperado.

O yokai de cabelo prateado não respondeu, apenas acenou com a cabeça. Estava frustrado, tinha certeza onde Kikyou estava se escondendo, sua vontade era sair dali e correr ao encontro daquela mulher odiosa, mas isso só poderia acontecer depois que Kagome superasse o que estava passando. Precisava dela, não era só sobre matar Kikyou e se vingar de tudo o que ela fizera, precisa salvar Rin e para isso Kagome precisava estar ao seu lado, boa o bastante para ter forças para lutar não só por sua vida, mas pela vida da mulher que ele tanto amava.

Sabia que era um pedido egoísta, que não tinha o direito de exigir que Kagome superasse toda aquela dor o mais rápido possível para que finalmente o libertasse, mas não conseguia evitar pensar naquilo. Era como se uma força tomasse conta de sua mente e fizesse com que ele odiasse a garota com toda a força do seu corpo por ela não ser capaz de se recuperar mais rápido, por ela não ser tão forte quanto gostaria que fosse. No fundo, tinha medo que ela não sobrevivesse, que a pressão de tudo que a aguardava só ajudasse a levá-la para o fundo de um poço que com o tempo só se tornaria mais e mais impossível de sair.

E se Inuyasha não conseguisse ajudá-la? E se ela não fosse tudo o que esperava e simplesmente desistisse de viver? Mesmo odiando, precisava começar a pensar em outro plano, uma opção alternativa para salvar Rin, uma que não dependesse de Kagome e de sua frágil situação.

- Ela continua esquecendo as coisas. – continuou Kouga. – Talvez Inuyasha não seja a pessoa certa para essa missão, talvez a gente tenha errado, talvez eu seja a pessoa certa para salvá-la.

- Sei o quanto você gostaria que isso fosse verdade, mas não é. – disse Sesshoumaru.

Kouga fechou o punho com força e cerrou os olhos.

- Como tem tanta certeza?

- O Inuyasha é o reflexo da Kagome. – disse Sesshoumaru.

Os olhos de Kouga se estreitaram, só que dessa vez em uma expressão confusa.

- Ele é o quê?

- Não é hora para explicações de velhas histórias. - disse Sesshoumaru.

- Nunca é. – disse Kouga revirando os olhos. – Agora sei como o Inuyasha e a Kagome se sentem.

- Realmente ótimo, - Sesshoumaru soava irônico. – agora vocês são um trio que se entende, se ama mutuamente e compartilha sentimentos, muito interessante, mas o que importa para mim é se pode garantir que vai deixar a Kagome viva não importa o que aconteça com você.

- Como se você precisasse vir até aqui para pedir algo assim. – retrucou Kouga.

Sesshoumaru virou os olhos mesmo sabendo que não conseguiria ver o que estava atrás de si, era mais como um ato involuntário do seu corpo, ele procurava pelo intruso. Parecia que alguém escutara mais do que deveria, ele voltou os olhos para Kouga e o yokai tinha uma expressão decidida no rosto.

- É assim o tempo todo agora, - disse Kouga não se preocupando em falar baixo e esconder a conversa do intruso. – não respeitam mais nada, não tem mais noção do perigo.

- Estão chegando tão perto assim? – perguntou Sesshoumaru e ele parecia realmente surpreso.

- Por que não pergunta para ela? – disse Kouga indicando com a cabeça.

Sesshoumaru revirou os olhos e girou nos calcanhares, sentia presença da garota atrás de si. Não era muito antiga, nem muito poderosa, talvez até fosse só um peão de Kikyou com alguma mensagem de guerra, na verdade torcia para que fosse isso. Estava achando estranho aquele silêncio por parte da mulher, ela já aparecera antes por muito menos, o que esperava para vir e soltar todo seu discurso estúpido sobre o que deveria fazer sobre sua vida?

Cerrou os olhos ao perceber que a garota o encarava, ela era como todas as outras. Parecia uma criança entrando na adolescência, com um comprido cabelo negro e olhos grandes, só que sem brilho algum. Era escuro o que significava que não cumpria missão alguma, garotas como ela nunca eram enviadas para a batalha, serviam de outra maneira. Imaginava que eram como secretárias e não conseguia pensar em função mais patética para alguém cumprir por toda a eternidade.

- E então? – disse finalmente soando mais amigável do que o esperado. – O que quer de nós?

Os olhos dela cerram-se e ela deu um passo à frente, saindo da sombra de uma árvore e mostrando-se para os yokais. Deveria ser apenas uns 5 centímetros mais alta do que Kagome e tinha uma expressão dura no rosto, parecia furiosa.

- Eu é que deveria fazer essa pergunta. – cuspiu as palavras.

Kouga soltou um assobio alto e logo sorriu.

- Parece que temos um anjo furioso aqui. – disse.

- Cale a boca, demônio! - gritou a garota encarando furiosamente Kouga e logo virando seus olhos para Sesshoumaru. – Você é o desgraçado que causou tudo isso, você é o Sesshoumaru, não é?

- Não sei o que você acha que eu causei, mas sim, eu sou quem você procura. – disse o yokai.

- Pare com essa guerra, - grunhiu a garota, sua respiração estava descompassada, parecia prestes a ter um ataque. – ela é inútil! Se o que quer é a Kagome, fique com aquela traidora, não precisamos de coisas como ela!

Sesshoumaru precisou segurar Kouga com força pelo braço, seus olhos nada mais eram do que um risco e suas garras estavam para fora, prontas para destruíram aquela garota antes que ela pudesse racionar o que estava acontecendo.

- Se acalme, - disse autoritariamente. – parece que ela tem um recado da nossa querida Kikyou, estou certo?

O rosto da garota se contorceu em uma careta e por um momento ela pareceu muito mais velha do que sua aparência de anjo costumava transparecer.

- Não, yokai, você não está certo. Minha líder não tem nada a ver com que estou tentando fazer.

A sobrancelha de Sesshoumaru se ergueu até quase tocar o final da sua franja.

- Não? Então o que uma garota fraca como você está fazendo aqui?

- Eu não sou fraca, - ela voltava a gritar. – e meu nome é Akira. Se desejar se dirigir a mim novamente, use meu nome.

- Está bem então, Akira - a voz de Sesshoumaru soava desdenhosa. – diga-me, o que veio fazer aqui.

- Já disse! Fique com a traidora e nos deixe em paz.

- É só isso que tem a me dizer? – Sesshoumaru parecia verdadeiramente decepcionado.

Akira vacilou. Deveria dizer que sua líder estava louca? Que aquela era uma guerra sem sentido, pois toda a sua raça já estava derrotada, perdida e sem um rumo? Não, não tinha ido até lá para se entregar daquela maneira, queria apenas sua antiga vida de volta, queria cuidar do templo e servir à Kikyou como sempre fizera. Não precisava de mais mortes, somente a de Kagome era o bastante.

- Vamos matá-la. – disse Akira tentando fazer sua voz soar firme. – Não importa quanto tempo isso demore, nós mataremos aquela que tanto nos fez mal.

- Sua desgraçada, - disse Kouga se debatendo nos braços de Sesshoumaru, tentando alcançar a garota. – como ousa dizer que ela fez mal a vocês quando na verdade foi aquela sua líder louca que a usou desde o começo e que destruiu a vida que ela poderia ter tido?

- Kikyou ama Kagome! – gritou Akira e seus olhos brilhavam com lágrimas. – Sempre a amou mais do que qualquer outra! Não ouse dizer que ela destruiu a vida daquela traidora, quando o que aconteceu foi exatamente o contrário.

Sesshoumaru suspirou derrotado.

- Você é realmente um peão. – disse enquanto ainda segurava Kouga. – Nada do que você me disse é útil, só fez com que eu perdesse tempo e você não faz idéia de como odeio perder tempo.

Akira sentiu toda a atração que corria por seu corpo congelar, naquele momento não conseguia achar aquele yokai bonito ou digno de sua preocupação, ele se tornara um demônio completo. Um arrepio subiu por sua coluna e se depositou em todo seu corpo, fechava a boca com força para que seus dentes não rangessem. Por um pequeno instante compreendeu tudo o que aconteceria com seu corpo, pensou nos anos que passara no templo com as outras e em como era feliz naquele tempo. Tempo esse que não voltaria, jamais, mesmo que ela já não estivesse aqui. Era o fim de sua raça. E muito provavelmente, o seu fim.

Kouga de um passo para trás quando sentiu a energia que emanava de Sesshoumaru, conhecia muito bem aquilo e não gostaria de estar no lugar daquela garota. Quantos anos fazia desde que Sesshoumaru liberara sua energia maligna, desde que se libertara de todas as amarras e lutara? Talvez já tivesse passado alguns séculos. E aquilo era descomunal, assustadoramente perigoso e mortal, sentia até mesmo seus ossos respondendo àquela força. Somente um yokai como Sesshoumaru poderia ter tamanho poder.

Apesar de sentir o sangue fervilhando em suas veias com a idéia de finalmente poder matar alguém, Sesshoumaru mantinha sua expressão impassível, era como estivesse apenas vendo o tempo passar. Mas não era isso que estava acontecendo, ele iria tirar uma vida. Havia chegado a hora e não havia nada que Rin pudesse fazer, era o momento de se libertar e aceitar sua natureza, só assim estaria preparado para Kikyou. E mais do que qualquer coisa, ele desejava estar preparada para Kikyou, como nunca em toda a sua vida.

Andou alguns passos na direção de Akira e parecia simplesmente flutuar, seus gestos eram certeiros, mortais e de alguma maneira, graciosos. Era um assassino nato,sua natureza estava acostumava com aquilo, era natural que se tornasse até mesmo belo enquanto a necessidade de destruir crescia dentro dele. E tudo ao redor parecia responder àquela necessidade, a grama a qual passava sem nem ao menos parecer tocar, se retorcia e morria, o vento parecia ter cessado. Nem mesmo um animal ousava fazer barulho.

As garras se esticaram e ele estalou os dedos, um sorriso doentio brotou em seus lábios deformando toda a expressão humana que ele costumava ter. O som que saiu da sua boca nada mais era do que a voz de um demônio.

- Deveria ter ficado em casa lavando a louça, garotinha.

Akira pensou momentaneamente que o yokai era absurdamente machista, mas que estava certo. Deveria ter lavado pratos até que seus braços caíssem, ao menos estaria viva. Respirou fundo e fechou os olhos, não queria que a última coisa que seus olhos vissem fosse o sorriso daquele demônio. Kagome era mesmo uma aberração, jamais compreenderia como ela traíra seu povo por causa de um monstro como aquele. Sim, sem dúvidas, ela era uma aberração.

A dor, a princípio, não lhe pareceu nada mais do que um arranhão no ombro esquerdo, mas então precisou abrir os olhos tamanho o desespero que tomava conta do seu corpo. O braço não estava mais lá, o sangue jorrava pelo buraco do seu ombro e ela soltou um urro alto, procurou Sesshoumaru ao redor, mas não o encontrava. O desespero começava a levar toda a sua lógica embora, Deus, ela iria morrer da maneira mais horrenda que já ouvira entre os anjos. Logo ela, que nem era uma guerreira.

Sesshoumaru apareceu em sua frente subitamente, fazendo com que Akira cambaleasse e tropeçasse nos próprios pés, ele mantinha o sorriso em seus lábios, mas seus olhos pareciam duas esferas mortas grudadas naquele rosto que por um breve momento lhe parecera tão bonito. Ele chutou o corpo de Akira forte o bastante para levantá-lo no ar e enquanto ela flutuava, ele enfiou as garras com força no meio do peito, segurando-a pelos ossos na costela, a pele havia sido rasgada facilmente.

Oh, Deus, tanta dor, tanto horror. Que ao menos termine logo

A boca do yokai se abriu e ele se curvou na direção do pescoço de Akira, mordeu com força a região e arrancou um pedaço enorme de carne, o sangue jorrou em sua boca e ele cuspiu no chão, enojado. Repetiu a ação em vários pontos do corpo da garota, no braço que ainda tinha, no peito, no abdômen, mas pernas. Não fazia isso para sentir o gosto do seu sangue ou para se alimentar, a idéia dava-lhe náuseas, fazia apenas por que era seu instinto. Era um animal, era um yokai canis e sua raça, no estado mais puro, agia daquela maneira.

Não sabia dizer se a garota ainda estava viva, mas duvidava que sobrevivesse muito tempo após a primeira mordida, apenas por garantia girou a cabeça de Akira facilmente em suas mãos, quebrando-lhe o pescoço. Quando soltou o corpo inerte no chão percebeu que um dos ossos da costela ainda estava em sua mão, jogou-o longe e limpou as mãos na calça e passou a manga da blusa na boca, limpando o sangue.

A respiração estava ofegante, o gosto metálico em sua boca o irritava, mas sentia-se vivo. Como há muito não se sentia, queria sair daquela floresta naquele exato momento e voar em direção ao templo dos anjos, matando todo ser que ousasse entrar em seu caminho. Queria mais sangue, queria mais morte, queria mais vida.

- Você devia ter pegado mais leve com a menina. – disse Kouga, os braços cruzados passavam uma falsa imagem de despreocupação. Estava aterrorizado.

Sesshoumaru deu nos ombros.

- Sei tudo sobre essa garota, - disse e sua voz era novamente calma e indiferente, muito diferente da demoníaca de poucos minutos atrás. – Akira, mesmo sendo bem mais nova que o esperado, era a subordinada direta da Kikyou, quando ela não estava, era Akira quem resolvia tudo. Nada mais do que um peão, se Kikyou se importasse realmente, não deixaria que a garota saísse de seu lado. Talvez até quisesse se livrar da puxa saco.

- Ainda assim, - disse Kouga. – ela sequer era uma guerreira.

Os olhos de Sesshoumaru se estreitaram.

- Não, ela não era uma guerreira, mas mataria Kagome se tivesse uma mísera oportunidade. Qual o problema, lobo? Está com pena dos anjos agora?

Kouga caminhou até o corpo, ou o que restara dele no chão e deu um leve chute, como fazem as pessoas quando querem se certificar de que o animal está morto.

- Não tenho pena de nenhuma delas. - disse firmemente. – Muito menos daquelas que pensam que podem matar a Kagome.

Sesshoumaru cruzou os braços, o sangue começava a secar em seu corpo, precisava voltar para casa e se limpar, aquele cheiro apenas o instigava a sair desvaiarado pelas ruas, destruindo qualquer um que ousasse olhá-lo nos olhos.

Kouga encarou Sesshoumaru por alguns momentos. Apesar de estar chocado com a brutalidade que yokai matara aquele anjo praticamente inocente, sentia-se agradecido de que alguém tão poderoso precisasse de Kagome e estivesse disposto a salvá-la. Sabia que era forte, mas nada que se comparasse ao poder avassalador do yokai, saber que todo aquele poder não estava voltado contra Kagome fazia com que se sentisse mais tranqüilo, quase aliviado.

- Eu garanto que darei minha vida se for preciso.

Sesshoumaru não precisou perguntar sobre o que Kouga estava falando, sabia exatamente pelo o quê yokai seria capaz de dar a vida.

- É uma boa resposta, lobo. – disse Sesshoumaru dando nos ombros. – Até por que, o mesmo que aconteceu com Akira irá acontecer com você se Kagome acabar se machucando.

Kouga sorriu da mesma maneira despreocupada e zombeteira de sempre e disse:

- Eu sou só um pouco mais difícil de matar do que Akira!

Sesshoumaru soltou o ar pelo nariz, algo que era para ser uma risada.

- Sim, eu sei. Por isso vai ser bem mais divertido.

Kouga curvou os ombros e encarou mais uma vez o corpo desfigurado no chão. Sentiu-se momentaneamente feliz, não era um yokai vaidoso, mas bem, no mundo dos yokais aquilo não costumava acontecer. Sesshoumaru acabara de dizer que o achava forte e isso, vindo de alguém tão poderoso quanto ele, era motivo de orgulho.

Ouviu os passos de Sesshoumaru se afastando e ergueu os olhos, o yokai acenou com a mão ensangüentada e disse:

- Até mais, lobo. Livre-se do corpo por mim.

Kouga olhou do corpo para Sesshoumaru e resmungou. Estava bom demais para ser verdade. Simplesmente odiava sumir com os corpos.


Sesshoumaru estava surpreso com o que a morte de Akira causara, era como se todos os anjos só estivessem esperando uma morte em especial para aceitarem a guerra. Até então, ele sentia que por mais que estivessem lutando não existia uma vontade real de que aquilo acontecesse, talvez os anjos achassem que todo aquele sangue derramado era inútil. Pelo o que se lembrava das palavras de Akira, Kagome era o problema, não os yokais. Isso explicava a relutâncias de todas elas em lutarem com todas as suas forças, estavam morrendo por motivo algum, não tinham uma motivação real para toda aquela chacina.

Isso até Akira morrer. Sesshoumaru não tinha muita certeza, mas acreditava que o que gerara a ira nos anjos não tinha nada a ver com ordens de Kikyou e sim de todas elas mesmo. Querendo ou não, a morte de Akira ia além de tudo o que estava acontecendo por que ela não era uma guerreira, ela não tinha como se defender de tudo aquilo que estava acontecendo, aos olhos de todos os anjos, a garota era inocente e não merecia o que sofrera. A principio elas lutavam para chegar até Kagome, agora lutavam para sobreviver e se vingar. Quem diria, seres tão nobres quanto anjos se rebaixando ao ponto de quererem se vingar, elas eram uma piada pronta.

O resultado de tais sentimentos era, definitivamente, a guerra que Sesshoumaru imaginara. Tinha que confessar que estava surpreso com todos os yokais que se juntaram ao seu "exército particular" era como se todos tivessem vontade de se libertar, de sentir novamente a sensação de tirar uma vida. O yokai perdeu a conta de quantas vezes precisou intervir e matar um yokai que perdera a cabeça, não podia permitir que tudo o que planejara fosse por água a baixo por causa de alguns selvagens que não conseguiam se contentar em matar anjos. Eles queriam humanos, queriam cidades inteiras, queriam uma rebelião para voltar aos velhos tempos.

Seres inúteis, perda de tempo. Por isso logo morriam. Não era um revival do passado que Sesshoumaru queria, era apenas vingança e quem não fosse capaz de entender algo tão simples pagaria com a vida. Era um preço plausível.

A floresta onde deixara os restos de Akira se tornara praticamente o cenário de um filme de terror barato. Ali se tornara o palco da maioria das lutas e a sepultura daqueles que não tinham forças para sobreviver, os corpos estavam espalhadas por entre as árvores, tanto de anjos quanto de yokais. Era possível ainda ver membros e até mesmo órgãos, isso sem falar no cheiro. A floresta exalava o odor da morte, da decomposição, de tudo aquilo que os humanos mais temiam. Uma de suas maiores preocupações era como sumir com todos aqueles corpos, humanos eram burros, mas o cheiro chegaria até a cidade. Eles descobririam o que estava acontecendo ali e isso atrapalharia todos os seus planos.

Revirou os olhos pensando na dor de cabeça que tudo aquilo estava lhe dando, mas pensaria sobre isso depois. Precisava se concentrar na pequena garota de olhos verdes parada em sua frente. Ela carregava uma espécie de pacote comprido de pano preto nas costas.

- Parece que já você finalmente aceitou o que é. – ela disse.

- Eu sempre aceitei, - respondeu Sesshoumaru. – ao contrário de vocês.

- Conheço sua história e tenho aqui algo que tenho certeza que lhe pertence.

Sesshoumaru estreitou os olhos, conseguia imaginar sobre o que ela falava, mas não era possível.

- O que acha de termos uma luta limpa? Posso ser uma guerreira, mas não sou um animal, prefiro manter o sangue longe de mim. – ela disse.

- Sua oferta é muito interessante, imagino que tenha algo para mim nesse pacote em suas costas?

Ela sorriu e desamarrou a fita que prendia o pacote e duas espadas rolaram até o chão, os olhos de Sesshoumaru se arregalaram. Ele conhecia uma daquelas espadas, era a sua Toukijin que a muito havia sido roubada pelos anjos, tinha certeza que ela tinha sido destruída há milhares de anos atrás. Mas lá estava ela, como ainda se lembrava, pulsando por dentro da bainha, o chamando. Era a espada mais perfeita que já colocara suas mãos, ela era feita para matar e pedia por isso.

O rosto do anjo se abriu em um sorriu zombeteiro e ela disse:

- Vejo que reconhece sua espada.

- Estou honrado com seu ato, jamais achei que devolveriam minha espada.

- Treinei minha vida inteira para o dia em que enfrentaria um yokai com habilidades tão boas quanto as minhas. Não sei se sairei viva dessa floresta, mas quero fazer minha vida valer a pena, quero que todos os anos que desperdicei servindo aquela maníaca da Kikyou tenham um sentido. É por isso que estou devolvendo sua espada. A ironia da vida é uma coisa incrível, não? Estou recorrendo a um yokai para dar sentido a minha vida.

Sesshoumaru arqueou a sobrancelha. Alguma coisa estava acontecendo entre os anjos, tinha certeza, nunca um anjo falaria de Kikyou daquela maneira se não houvesse um problema grande. Sua espada estar em sua frente era outro sinal de que as coisas estavam mudando e saindo do controle, ninguém em são consciência entregaria aquela arma em suas mãos se não esperasse por um fim trágico.

Ele andou até a espada no chão, abaixou-se e pegou-a. No mesmo momento ela reagiu, pulsou e brilhou dentro da bainha, ainda era a mesma arma que criara com o dente de um dos yokais de Naraku. Ainda era a sua espada.

- Eu gostaria que isso terminasse e alguém se lembrasse de mim, então saiba que meu nome é Ai. E eu daria tudo para poder estar livre como a Kagome.

Realmente algo estava muito errado entre os anjos, Akira queria matar Kagome e agora essa garota chamada Ai a invejava. Talvez o conflito interno fosse pior do que a guerra contra os yokais, mas bom, aquilo não era problema dele. Tirou a espada da bainha e ela brilhou numa cor avermelhada. Ai abaixou-se rapidamente e pegou a outra espada que estava no chão e imitou os movimentos do yokai e posicionou-se.

A velocidade com os dois se chocarem foi tão incrível que olhos humanos não conseguiriam acompanhar, o som do embate do metal ecoou pela floresta alto e ensurdecedor. Sesshoumaru tinha que confessar, a garota era boa com a espada, não sabia qual espada era aquela em especial, mas pela maneira como batia na sua podia dizer que era muito mais pesada do que aparentava e Ai a segurava facilmente com uma única mão. Sua agilidade e perspicácia estavam muito acima da média dos outros anjos com quem precisara lutar daquela maneira, ela pareceria prever seus movimentos.

Sempre que investia contra ela, ela já estava preparada e se defendia. Cerrou os olhos quando se afastou para encará-la, ela sorria.

- Surpreso? – disse.

- Muito. – respondeu Sesshoumaru.

Ai apenas alargou o sorriso e fincou os pés com força no chão para então pegar impulso e ir contra Sesshoumaru, o yokai virou a espada de lado e protegeu suas costelas, pois era exatamente lá que a garota mirava seu ataque. Arregalou seus olhos quando sentiu o impacto, o chão sob seus pés afundou e ele precisou usar a outra mão para segurar a arma. Ai fez o mesmo, segurou sua própria espada com as duas mãos e girou seu corpo completamente, numa rapidez inumada, tentava acertar o outro lado do corpo do yokai.

Sesshoumaru virou a espada para se defender, mas recebeu o impacto da sua própria espada em si, não conseguira bloquear totalmente o ataque de Ai, tinha certeza que se a lâmina o tivesse encostado os ossos das suas costelas estariam quebrados e à mostra. Ela pareceu não se importar com a leve vantagem e continuou tão concentrada quanto antes, o encarou num misto de ódio e excitação e então deu um pulo para trás, se afastando para novamente pegar impulso. Sesshoumaru levantou a espada e deixou-se entorpecer pela dor momentaneamente, aquela era outra sensação que ele adorava, fazia-o sentir-se vivo e pronto para lutar. Tinha esquecido como lutar com sua espada era excitante, poderia gargalhar de alegria naquele mesmo instante, mas enquanto se deixava levar pelas emoções que lhe eram privadas há anos, Ai voou novamente em sua direção, buscando agora seu pescoço.

O yokai desviou e sentiu a lâmina da espada raspando em sua bochecha, virou a espada rapidamente e usou o pomo para acertar as costas de Ai, ela sofreu o impacto no meio da coluna e curvou o corpo, mas não cedeu. Virou nos calcanhares e voltou a atacar Sesshoumaru, o som alto do ferro se chocando ecoou novamente. Ele voltou a se defender, de seu rosto escorria uma fina linha de sangue e seus olhos brilhavam, estava empolgado.

- Quer mesmo continuar com isso? – disse Sesshoumaru.

A resposta de Ai veio em forma de ataque, estava totalmente concentrada na luta, talvez até nem tivesse ouvido o que ele falara, mas ele insistiu.

- Não precisa morrer agora, pode ser como Kagome.

Ela parou por um momento e se distanciou, parecia pensar no que ele falava.

- Do que está falando? Está com medo de morrer? – seu tom era provocativo.

Sesshoumaru riu alto.

- Não, só acho um desperdício alguém como você morrer. Quem eu quero é a Kikyou, qualquer outra pessoa é só um passatempo.

- Imagino que ao menos eu esteja sendo bem divertida, não?

- Não faz idéia quanto.

- É para isso que estou aqui! – disse Ai e ela sorriu. – Eu sei o que está acontecendo com a Kagome, eu não sobreviveria a tudo aquilo. Quero morrer com dignidade, não como um fantasma sem memórias.

- É isso mesmo o que você quer?

- Não foi para isso que te procurei? Agora, podemos voltar a parte interessante? Nunca fui boa com conversas.

- Eu também não.

Ai balançou o ombro, como quem diz "fazer o quê" e voltou a atacar Sesshoumaru, o yokai mais uma vez desviou e chutou-a na costela, fazendo-a voar alguns metros. Ela levantou e cerrou os olhos.

- Isso não é uma luta limpa! – resmungou.

- Eu nunca disse que seria. – respondeu Sesshoumaru sorrindo maliciosamente.

A garota ergueu a sobrancelha e revirou os olhos, esquecera de um ponto importante em toda aquela baboseira em ser um anjo: nunca confie em um yokai. Bom, se ele não iria seguir as regras, ela também não precisaria. Jogou a espada o mais alto que pôde em direção a Sesshoumaru e correu até o yokai, com as mãos livres deu um soco no rosto de Sesshoumaru e pulou, pegando a espada que caía em sua direção, girou nos calcanhares, abaixou-se e cortou superficialmente a canela dele que pulou ao sentir a lâmina. Sesshoumaru usou o tronco de uma árvore para pegar impulso e voltar contra Ai, sua espada raspou no braço dela antes que pudesse escapar, o corte foi profundo e jorrou sangue.

Ela jogou a espada para o braço que estava bom e lançou-o para frente, tentando perfurar a barriga de Sesshoumaru, mas o máximo que conseguiu foi rasgar a blusa do yokai, ele pulou para o lado e devolveu o soco em Ai, que cambaleou para o lado com o impacto e perdeu o equilíbrio. Sesshoumaru fincou a espada no chão e perfurou o pé de Ai, que soltou um grito alto e agudo.

Ai jogou o corpo para frente e tirou a espada do seu pé e levantou-se, a dor se espalhou por toda a sua perna quando ficou em pé. Não duraria muito mais tempo naquele estado, sabia disso. Fechou os olhos e respirou fundo, odiava fazer aquilo, mas era um anjo afinal de costas. Mordeu o lábio com força e o sangue ocupou toda a sua boca, abriu os olhos e encarou Sesshoumaru, era seu último ataque, o último truque que poderia usar. A espada que estava em sua mão começou a brilhar como a do yokai fizera anteriormente, só que era azul e pulsava, fazendo ondas de ar atingir Sesshoumaru. Ela abriu as pernas e colocou todo o peso no pé bom e novamente impulsionou para frente, mas dessa vez era muito mais rápido, muito mais forte. Sesshoumaru levantou a espada e se defendeu, mas sentiu seu corpo sendo atingido por uma energia estranha, era como se estivesse queimando, olhou para seus braços e a pele por cima dele pareceria se contorcer. Quando notou, já estava sendo arremessado para longe e Ai estava em seu encalço, a ardência voltou com força quando seu corpo acertou o chão e ela perfurava seu braço com a espada.

Sesshoumaru pegou sua espada com mais força e ela respondeu, tornando-se vermelha no mesmo instante, com o braço livre acertou a lateral do corpo de Ai e ela voou alguns metros e bateu a cabeça em uma árvore. O yokai levantou e correu até Ai, esperava que ela levantasse, mas isso não aconteceu, olhou o corpo inerte no chão e percebeu que sua espada havia agido sozinha. Quando acertara a garota fizera mais do que cortar-lhe o tronco, a energia maligna que liberara se infiltrara no corpo de Ai, espalhando-se por seus órgãos. Ela estava deitada e ergueu os olhos para encarar Sesshoumaru, sua cabeça sangrava e sua respiração era cansada.

- Acho que você me pegou! Por isso não queriam lhe devolver essa espada...

- Eu acho que sim. – respondeu Sesshoumaru e por incrível que pareça, ele também estava ofegante.

- Você precisa terminar isso. – disse Ai.

- Vai morrer com o ataque que lhe dei. – disse Sesshoumaru.

Ai cerrou os olhos e soltou um gemido de dor e logo cuspiu um pouco de sangue.

- Não quero sua piedade, termine logo!

Sesshoumaru olhou sua espada e ela voltara ao normal, olhou mais uma vez para Ai e disse soando sincero:

- Pessoas como você não deveriam morrer.

Ai sorriu e provavelmente disse algo como "obrigada", mas Sesshoumaru não ouviu. Sua espada já estava no coração de Ai e ela não emitia mais nenhum som. O yokai deixou seu corpo cair pesadamente ao lado da garota, aquela tinha lhe dado trabalho, tinha que assumir. Olhou para seu braço sangrando e levou a mão até a bochecha, o sangue ainda escorria por seu rosto. Seu corpo ainda ardia como se estivesse pegando fogo e achou aquilo realmente interessante, nunca tinha visto um anjo com aquela habilidade. E provavelmente, nunca mais veria, afinal Ai estava morta. Fechou os olhos e encostou-se em uma árvore, mas teve pouco tempo de sossego.

- Essa foi por pouco.

Sesshoumaru abriu os olhos e deparou-se com Miroku, ele estava parado em sua frente com o mesmo semblante despreocupado de sempre, as mãos dentro do bolso da calça.

- O que pode querer em uma hora dessas?

- Preciso falar com você, está difícil te encontrar.

- E o que pode ser tão urgente?

- Sei quem é a mãe do Inuyasha, quero que me explique exatamente o que isso significa.

O yokai teve vontade de fechar os olhos novamente, aquele humano lhe daria dor de cabeça pelas próximas horas, sabia disso.

- E antes que pergunte, minha família não disse nada. Descobri sozinho, na verdade, me pergunto como levei tanto tempo para perceber, é tão óbvio.

- Bem, as pessoas não costumam perceber exatamente o que lhes é óbvio. – disse Sesshoumaru. – Se não se importar com os corpos, explicarei a história aqui mesmo.

Miroku balançou os ombros e sentou-se. Sesshoumaru suspirou, Miroku era mesmo um humano muito irritante.


Kagome levantou-se da cama e olhou ao redor, estava sozinha e aquilo lhe angustiou. Não sabia que dia era ou onde estava exatamente, sua mente estava confusa – como todos os dias de manhã – e ao pensar no motivo daquela confusão, seu estômago se embrulhou e ela precisou correr até o banheiro.

Curvou-se no vaso sanitário e vomitou, sentindo-se cada vez mais enjoada e confusa. Sentiu um par de mãos puxando seu cabelo para trás e soube imediatamente quem era, mesmo que não compreendesse como sabia aquilo ou por que podia se lembrar perfeitamente daquela pessoa. A situação tinha tudo para se constrangedora, mas Kagome sabia que já tinha passado por aquilo antes, mesmo que não lembrasse. De repente a compreensão do que estava acontecendo preencheu a sua mente, ela estava perdendo a memória e aquele enjôo era reflexo da sua tentativa frustrada de recordar as coisas mais simples.

Sentiu seu cabelo caindo novamente por seus ombros e logo viu uma toalha úmida ao seu lado, esticou o braço e pegou-a, limpando o rosto. Levantou-se e foi até a pia, enxaguou a boca e escovou os dentes, sentindo nojo daquele gosto azedo.

- Pesadelo?

Kagome olhou pelo reflexo de espelho a figura de Inuyasha atrás de si, ele tinha grandes olheiras em baixo dos olhos e parecia muito cansado e preocupado. Ela balançou a cabeça positivamente.

- Foi tão ruim dessa vez que te deixou enjoada? – perguntou Inuyasha.

- Não foi o pesadelo. – disse Kagome.

- Entendo. – disse Inuyasha e ele esticou o braço e ofereceu sua mão para a garota. – Estamos no meio da madrugada, venha, eu fico com você no quarto até que durma.

Ela sabia que deveria achar aquela proposta estranha, mas nada em seu corpo lhe dizia que havia algo de errado em ir para um quarto com Inuyasha, mordeu o lábio inferior e segurou a mão do hanyou, ele sorriu e a guiou até o cômodo, deitando-a na cama e sentando-se no chão, ao seu lado.

- Sabe quem eu sou?

A voz de Inuyasha era tão cheia de dor e desesperança que fez Kagome sentir vontade de chorar, apenas a acenou com a cabeça respondendo que sim, sabia quem ele era. Pensou em dizer que jamais conseguia esquecê-lo, mas seu enjôo voltou e soube que aquilo não era verdade.

- Ótimo. Sei que odeia isso mais do que tudo, mas pode me listar as pessoas que ainda se lembra? – disse Inuyasha.

Os olhos de Kagome cerraram-se, não se lembrava dele já ter lhe perguntado algo como aquilo, na verdade, não se lembrava exatamente sobre o que eles conversavam nos últimos dias. Sabia que estava em sua casa, mas não conseguia entender exatamente o porquê, nem ter lembranças exatas do que acontecera.

Começou a pensar na pergunta do hanyou e só então notou que poucas pessoas ainda lhe eram familiar, poderia contar nos dedos da mão. E a idéia de que Inuyasha era um hanyou soou-lhe estranha, o que era um hanyou afinal de contas? Ele deveria ser um yokai, afinal tinha orelhas de cachorro.

- Kagome, os nomes. – disse Inuyasha chamando-lhe a atenção gentilmente.

- Você, - disse começando a listar. – Kikyou, Sesshoumaru, Miroku, Sango e Bankotsu. Sei que tenho que ir atrás de uma pessoa chamada Rin, mas não sei quem ela é.

Inuyasha suspirou. Não tinham tido avanço algum, Kagome continuava a esquecer tudo sobre si mesma, repetia aquela ação todos os dias de manhã, tentando descobrir se havia alguma mudança no estado dela, mas a única mudança que percebia é que ela estava se perdendo cada vez mais. Quando lhe chamara a atenção, pedindo para que dissesse os nomes é por que sabia que ela estava se perdendo em seus pensamentos, conhecia aquela expressão e aqueles olhos desfocados, os vira várias e várias vezes nos últimos dias.

- Como sabia que eu estava tendo um pesadelo? – perguntou.

- Você está sempre tendo pesadelos, sente as mortes que vê em seus sonhos como se fossem em você mesma, se pergunta quem são aquelas garotas tão parecidas com você e por que elas estão morrendo de maneira tão brutal. Temos passado por isso todos os dias, mas quando chega a noite e você dorme, esquece tudo e renova toda a angustia com mortes novas.

- Todo dia? – disse Kagome.

- Todos os dias, várias vezes ao dia, na verdade. Sempre que uma delas morre, você sente. E se está dormindo, vê. Não foi isso que viu essa noite, garotas morrendo?

Kagome acenou positivamente com a cabeça, parecendo assombrada.

- Quem são elas?

- Pessoas como você, como Kikyou. – disse Inuyasha. – Mas isso não é importante, o que acontece lá fora não nos afeta, não interfere em nossas vidas.

- Por que estou aqui, com você?

Kagome se assustou com a expressão no rosto de Inuyasha, ele parecia profundamente magoado, o sorriso em seus lábios era o retrato da tristeza, por mais irônico que isso soasse.

- Estou cuidando de você. – disse. – Tentando de alguma maneira te salvar do que está acontecendo, mas como percebeu, estou falhando.

- E por que quer me salvar? – Kagome não sabia ao certo o motivo, mas seu coração batia com força no peito.

- Por que me importo o bastante para não querer te perder. – disse Inuyasha.

Kagome sentiu sua cabeça girar e doer, odiava aquilo tudo. Queria se lembrar de sua vida, de quem era e principalmente, queria lembrar-se de tudo que envolvia Inuyasha. Ela sabia ainda quem ele era, mas não sabia dizer como se conheceram ou o motivo dele se importar tanto, tudo o que tinha em sua mente e estava ligado a ele eram momentos. Eles conversando, eles brigando, eles rindo, eles se encarando profundamente, ela prometendo que não o esqueceria. Não havia nada lógico ali, nada que explicasse sua angustia ao vê-lo sofrendo ou até mesmo uma explicação para ele estar cuidando dela. E mesmo com todo aquele vazio, com toda a falta de sentido ainda assim sabia que ele era importante, mais do que o normal.

E o que sabia do outros que ainda não esquecera não era muito diferente, sabia que Sango e Miroku eram um casal amigo que lhe ajudaram em algum momento e que sentia uma enorme vontade de proteger. Kikyou era a mulher que a criara e a mandara atrás de Inuyasha. Bankotsu era um yokai odioso que continuamente batia à porta de casa para provocá-la, Sesshoumaru era o yokai poderoso que precisava dela por algum motivo. E existia Rin, a mulher misteriosa que ocupava sua mente o tempo todo, como um aviso desesperado de socorro. Todos eles eram apenas personagens de uma peça de teatro pela metade e essa peça era sua própria vida.

- O que vai acontecer comigo? – perguntou Kagome finalmente soando receosa.

Inuyasha respirou fundo e apoiou sua cabeça na cama parecendo verdadeiramente cansado. Ele demorou alguns minutos para responder.

- Sinceramente, eu não sei.

- Você disse que eu sonhava com garotas parecidas comigo, - disse Kagome tentando mudar o rumo daquela conversa. – mas sinceramente não acho que elas pareçam comigo.

Inuyasha dessa vez sorriu verdadeiramente, tinha que concordar com Kagome, já passara os dias em que ela se parecia com um anjo. Ela se tornara uma mulher tão maravilhosa que Inuyasha achava difícil não tocá-la, achava inclusive que chegava a doer ter de manter aquela distância toda. Kagome finalmente deixara de lado sua aparência infantil e se desenvolvera, era tão ou até mais alta do que Sango, seu corpo fazia jus a sua idade, tendo curvas e proporções perfeitas. E seu rosto, seu rosto era como uma versão melhorada da antiga Kagome, coisa que Inuyasha achava pouco provável de acontecer. Seus lábios antes pequenos e infantis se desenharam em um formato um pouco mais alongado e um pouco mais fino, o nariz manteve o mesmo formato arrebitado e fino, as maçãs do rosto se suavizaram, não eram mais como a de um rosto redondo de criança. Era adulto e infinitamente mais bonito, o formato dos seus olhos continuava o mesmo e Inuyasha ousava dizer que estavam mais azuis do que antes, mas agora não eram mais o destaque. Antigamente ele tinha a impressão que os olhos de Kagome eram a única que lhe tornava adulta, que lhe dava um ar maduro, mas agora eles se encaixam as novas feições da garota, um complemento perfeito para a beleza dela. Antes Kagome era um anjo com olhos que tentavam ser livres, no momento ela era apenas ela mesma e isso era o suficiente para torná-la perfeita aos olhos de Inuyasha.

- Desculpe, você está certa. É que elas costumavam parecer com você. – explicou o hanyou.

- Kikyou não se parece comigo. – disse Kagome.

- Ela é uma exceção, como você.

- Inuyasha, o que essas pessoas tiraram de mim? – perguntou Kagome. – Eu não sei por que estou perguntando isso, mas sinto como se parte de mim estivesse faltando e não estou falando das memórias, é algo que dói mais ter perdido.

Ele novamente respirou fundo, Kagome fazia aquela pergunta todos os dias, por vezes acordava chorando durante a noite, dizendo que estava incompleta e que se ele não a salvasse acabaria sendo engolida pelo vazio, assim como suas memórias estavam sendo engolidas.

- Elas tiraram seu direito de viver como bem entendesse.

Aquela era sua resposta padrão, como explicaria que ela perdera asas?

- Vou morrer?

- Eventualmente todos irão morrer, não se preocupe com isso agora. – disse Inuyasha.

- Responde isso para mim todos os dias, não é? – disse Kagome o encarando.

Inuyasha sorriu.

- Basicamente. Alguns dias você não quer me ver, então fico na sala esperando seu humor melhorar.

- Isso costuma acontecer?

- O quê? Você não querer me ver?

- É.

- Ultimamente tem acontecido com mais freqüência, acho que não se lembra de mim nesses momentos.

Kagome fechou a mão com força sentindo-se frustrada, a maneira como Inuyasha dizia tudo aquilo parecia tão falsamente despreocupada. Sentia que ele também estava sendo afetado por sua perda de memória, se não estivesse sofrendo qual a explicação para aquelas olheiras, para o semblante cansado e a cara de dor? O enjôo voltou com força quando tentou se lembrar de quem ele era para ela.

- Mas por algum motivo, você sempre se lembra. – continuou Inuyasha percebendo as feições de Kagome. – E quando seu humor melhora você me chama angustiada, pergunta onde eu estava e por que a deixei sozinha. Conta-me seus pesadelos e normalmente temos essa conversa que estamos tendo agora.

- E sempre responde minhas perguntas, não importando quantas vezes eu já as repeti? E sempre fico falando sem parar sobre minhas angustias e não ouço nada do que você tem a dizer?

- Não tenho muito que dizer, minha vida tem sido cuidar de vocês nos últimos dias.

- Gostaria que falasse como está se sentindo, ao menos uma vez, - disse Kagome soando sincera. – sei que vou esquecer amanhã, mas queria entender o que te motiva a continuar com isso, mesmo que por apenas algumas horas.

- Eu já disse, - disse Inuyasha. – faço isso por que você é importante demais para que eu a deixe sozinha numa hora dessas.

- Não é isso que quero ouvir. – retrucou Kagome revirando os olhos. – Falo sério, Inuyasha, quero saber o que está sentindo.

Inuyasha mais uma vez respirou fundo e repetiu aquela ação algumas vezes ainda, Kagome teve a sensação de que ele talvez pudesse chorar, mas não era possível. Deveria estar com sono demais.

- A verdade é que todos os dias têm sido um pesadelo para mim, - começou a falar Inuyasha e sua voz saía derrotada. – acordo esperando pelo momento que te perderei sem poder fazer absolutamente nada. Tento a todo instante encontrar um meio de te salvar, mas sempre que eu acho que cheguei perto, descubro que só piorei tudo. Não sabe como dói estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe, estar ao seu lado todos os dias chega a ser desesperador, pois não sei mais o que fazer com a sua indiferença, com a sua distância, com seu afastamento. Você se lembra de mim, mas não se lembra de nós. Achei que se você se lembrasse de mim eu ainda conseguiria agüentar, que seria o bastante para mim, mas não é, não chega nem perto de ser e talvez seja ainda pior, por que toda vez que diz meu nome, que me chama desesperada um fio de esperança nasce em mim achando que você melhorou, que você se lembrou de nós. E isso nunca acontece, você nunca se lembra de tudo o que passamos, do que fez por mim e de como foi capaz de dar sentido à minha vida. Você não se lembra que costumava ser meu reflexo e estou completamente perdido sem poder me enxergar em algum lugar, quando tudo isso terminar tenho certeza que não saberei mais quem eu sou e talvez não reste mais nada de mim.

Kagome sentia um nó em sua garganta, queria chorar. Talvez já até mesmo estivesse chorando.

"Não estou te culpando por tudo isso, acho até que sou egoísta por estar dizendo essas coisas quando a pessoa que mais está sofrendo é você. Queria ser capaz de fazer alguma coisa além de me lamentar e de me culpar, mas parece que não há meio de te salvar, quanto mais eu tento, mais falho. Sesshoumaru disse que estaria bem se estivesse ao meu lado, que eu era a única pessoa que poderia salvá-la, mas não consigo fazer nada além de trazer café-da-manhã na cama para você. Como eu posso salvar alguém quando eu mesmo já não tenho salvação? Como posso salvá-la se tenho medo demais de descobrir que já não se lembra mais de mim e que não significo nada? Acordo todos os dias sabendo que essa pode ser a minha última chance de salva-la e o que eu faço? Torço para ter coragem de ir até você. Imaginar que um dia entrarei por essa porta e você não saberá mais quem eu sou me dá mais medo do que qualquer coisa nesse mundo"

Inuyasha sentiu um peso em cima do seu corpo e algo úmido em seu ombro. Kagome se jogaram em cima dele e o abraçara, chorando em seu colo.

- Desculpe, - ela dizia em meio aos soluços. – desculpe por estar fazendo com que passe por tudo isso, desculpe por não ser mais forte para lutar contra essa coisa que está me matando, desculpe por estar sempre destruindo sua vida.

Inuyasha a abraçou com força, era a primeira vez que a tinha tão perto desde que se transformara naquela mulher que ele tanto admirava de longe. A sensação do corpo de Kagome em seus braços era indescritível, era como se ela tivesse sido feita para entrar ali, protegida pelo seu corpo, se encaixando perfeitamente a ele. Pela primeira desde que a conhecera tinha certeza que estar com ela era a única coisa certa de sua vida.

- Está tudo bem. - disse ainda a abraçando com mais força do que deveria. – Não me importo se acabar destruindo minha vida, ainda assim será melhor do que se nunca tivesse te conhecido.

Kagome soltou um soluço alto e choramingou:

- Eu queria tanto lembrar, eu queria lembrar tudo sobre você, por que mesmo que só existam buracos na minha mente, eu sinto e quando estou perto de você eu sinto tantas coisas. Não é junto que eu não possa lembrar.

- Você vai lembrar, - disse Inuyasha. – eu não sei ainda como vou conseguir fazer isso...

Ela não respondeu. Queria dizer para ele desistir daquela história, para esquecê-la e ser livre para viver sua vida e ser feliz com outra pessoa, mas a idéia de libertá-lo doía. Mesmo que sua memória não lhe dissesse nada, ela sabia que o amava, pelo menos naquele momento, chorando em seu colo sentia claramente o amor por todo o seu corpo. Amor não tinha nada a ver com memórias, por isso conseguia senti-lo com tanta certeza e com tanta intensidade. Chorou mais ainda quando concluiu isso, não suportava saber que iria acabar esquecendo Inuyasha, que todo aquele sentimento se perderia em algum buraco da sua mente, pois se não se lembrasse de Inuyasha, como entenderia aquele amor todo? Seria apenas um sentimento perdido, como todos os outros. Agarrou-se com forças às roupas do hanyou, trazia-o para perto em uma tentativa inútil de guardá-lo em si, aquilo só fazia com que doesse mais. Tê-lo seus braços doía ainda mais.

Inuyasha soltou seus braços e levou as duas mãos ao rosto de Kagome, fazendo-a encará-lo, ele limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto da garota e sem dizer absolutamente nada a beijou. A sensação os lábios de Kagome nos seus era intensa, dava-lhe arrepios por todo o corpo, fazia seu coração bater com força no peito, escorregou uma das mãos até o pescoço dela e então para as costas, trazendo-a para mais perto.

Kagome fechou os olhos e colocou uma de suas mãos no rosto de Inuyasha, sentia o calor da sua pele, a respiração rápida tocando a pele de sua mão. Pousou a mão livre no cabelo do hanyou, segurando-o com força. Lábios, língua, saliva. O encontro deles era perfeito, se encaixavam, tinha o mesmo ritmo. Se completavam.

Beijaram-se e se abraçaram durante o resto da noite, conversaram e agiram como se aquela tragédia não estivesse acontecendo com eles e somente se renderam quando o sono se tornou tão forte que as palavras saíam emboladas e os olhos lacrimejavam por causa dos bocejos.

- Pode dormir comigo? – perguntou Kagome de maneira embolada pouco antes de dormir.

Inuyasha levantou zonzo do chão e foi até a janela, puxando a cortina e tapando o sol que agora entrava pelas frestas da janela. Cambaleou até a cama e deitou-se no canto, longe de Kagome. A garota se arrastou até o seu lado e deitou a cabeça em seu peito.

- Sempre odiei camas de casal, fazem com que me sinta sozinha. – disse em meio a um bocejo.

- Sei exatamente o que quer dizer. – disse Inuyasha que a abraçou.

Antes de cair completamente no sono, Kagome murmurou:

- Obrigada por me salvar.

##

Foi o som alto de um grito que acordou Inuyasha. Droga, Kagome deveria estar tendo outro pesadelo, abriu os olhos e procurou pela garota na cama, mas se surpreendeu ao notar que ela estava encolhida no canto do quarto. Parecia aterrorizada.

- Kagome, está tudo bem, você já acordou. Foi um pesadelo.

Ele levantou-se e caminhou até ela, ajoelhou-se em sua frente e ela se encolheu com a proximidade.

- Viu? Acabou, estou aqui.

Os olhos de Kagome pareciam completamente perdidos e confusos.

- Eu sei que acabou, - ela disse finalmente. – eu só não sei quem é você.


Olá, meus queridos, como estão? :)

Eu estou acabada, juro, esse capítulo acabou comigo, por isso que atrasei a atualização. Sinto dizer que não vai haver muito mais de uma 'guerra' da fic além disso que postei, não tenho capacidade de escrever boas lutas como podem notar e como não é minha área, não vou fazer uma enrolação desnecessária.

Gostaria de responder a todas as reviews, mas como sempre, meu tempo não permite. Já é 6 horas da manhã e se meu pai me pegar no PC minha vida acabou. Resolvi que vou responder as reviews pelo site, na própria página de reviews, assim fica mais fácil e sempre posso me comunicar e agradecer vocês pela atenção e pelo carinho k3

Agradeço a preocupação com o Lelequinho e digo que ele voltou para casa inteiro e por vontade própria depois de uns 15 dias. A paz voltou a reinar!

Peço desculpas se acharem o capítulo muito comprido e massante, sei que escrevi demais dessa vez, mas são coisas necessárias para a história. Tá, chega de blábláblá, tenho que sair do PC!

Um beijo enorme e um super obrigada a quem comenta, lê, favorita ou só passa por aqui de vez em quando! :*

P.S: Meninas, viram que temos um menino acompanhando a fic? Nosso primeiro menino, estou tão orgulhosa!