Foi o som alto de um grito que acordou Inuyasha. Droga, Kagome deveria estar tendo outro pesadelo, abriu os olhos e procurou pela garota na cama, mas se surpreendeu ao notar que ela estava encolhida no canto do quarto. Parecia aterrorizada.

- Kagome, está tudo bem, você já acordou. Foi um pesadelo.

Ele levantou-se e caminhou até ela, ajoelhou-se em sua frente e ela se encolheu com a proximidade.

- Viu? Acabou, estou aqui.

Os olhos de Kagome pareciam completamente perdidos e confusos.

- Eu sei que acabou, - ela disse finalmente. – eu só não sei quem é você.

Capítulo 26 – Esquecimento

A força que mantinha Inuyasha reto se esvaiu de seu corpo e ele tombou para o lado, caindo sentado, seus olhos encaravam Kagome sem acreditar naquelas palavras.

Não, por favor, não agora, não agora...

- Sei que estou na casa de um amigo, - continuou Kagome olhando ao redor parecendo confusa. – mas não lembro quem ele é. Quem é você? O que está acontecendo?

Inuyasha fechou os olhos por alguns instantes e respirou fundo, precisava de calma, precisava ser forte. Talvez ela pudesse se lembrar, talvez esse fosse só outro dia em que ela acordava confusa, se ela sabia que estava na casa de um amigo significava que não tinha esquecido tudo, talvez se desse algumas horas ela se lembraria. Sim, ela certamente lembraria-se dele.

- Seu amigo saiu e pediu que eu ficasse aqui para caso você acordasse, - disse. – estarei no andar de baixo, se precisar de alguma é só me chamar, meu nome é Inuyasha.

As feições de Kagome se fecharam em uma careta e ela levou as mãos até a cabeça.

- Está se sentindo bem? – perguntou Inuyasha se esforçando para não tocá-la.

- Eu... É só que... Estou bem, obrigada. – disse Kagome ainda com as mãos na cabeça.

- Posso trazer um remédio se não estiver bem. – insistiu Inuyasha.

- Não, de verdade, estou bem. É só que seu nome não me é estranho, mas isso não faz sentido, eu saberia se te conhecesse, não é?

- Sim, saberia. – a voz de Inuyasha não era nada além de um sussurro. – Pode voltar a dormir, estarei lá em baixo.

Kagome respirou fundo e acenou positivamente com a cabeça. Inuyasha ficou alguns segundo encarando Kagome, tentando fazer com que ela reconhecesse seu rosto, mas não havia reconhecimento nenhum naqueles olhos azuis. Levantou-se sentindo seu corpo inteiro mais pesado do que o normal e se arrastou para fora do quarto, fechou a porta atrás de si e escorregou pela parede, caindo sentado no corredor.

Merda, por favor, ainda não, me dê um pouco mais de tempo.

Kagome levantou do canto onde estava e andou por todo o quarto, analisando cada pequeno detalhe do cômodo, abriu gavetas, revirou roupas e papéis e enfim deitou-se na cama. Por algum motivo sabia que aquele quarto era daquele homem que estava com ela, como era mesmo seu nome? A palavra Inuyasha pareceu gritar dentro da sua mente e ela se encolheu em baixo do edredom. Sua cabeça doía e estava realmente confusa, agora que estava sozinha naquele quarto começou a pensar e nada fazia sentido. Sabia quem era, mas não sabia de onde tinha vindo. Não existia nada além de seu nome e a existência daquela casa; nenhuma pessoa, nenhum lugar, nenhuma sensação, absolutamente nada.

Enfiou o rosto do travesseiro evitando que as lágrimas escorrerem, o que era tudo aquilo? Por que suas lembranças eram tão vagas e incompletas? O que ela era? Quis gritar, atacar alguma coisa na parede, chorar até suas lágrimas secarem, quis ter forças para fazer qualquer coisa além de se afundar cada vez mais naquela cama, mas quanto mais ela tentava se lembrar de qualquer coisa que fosse, pior ela se sentia. Sua cabeça doía, seu estômago se embrulhava e surgia nela aquela necessidade de lembrar, aquele alarme em sua cabeça dizendo que havia esquecido algo muito importante, mais importante do que qualquer outra coisa.

Esfregou o rosto de maneira impaciente e rolou pela cama, estava inquieta. Queria lembrar, queria ser alguém, queria estar com alguém. Olhou para a porta do quarto e percebeu que mesmo assustava não se sentia tão perdida quando Inuyasha estava no quarto, por algum motivo estranho ela se sentia tranqüila perto dele. Pensou em chamá-lo, mas um bocejo ocupou seus lábios e quando percebeu já estava dormindo.

##

Inuyasha estava sentado no sofá da sala e olhava para o telefone, tinha que ligar para Sesshoumaru, tinha que avisá-lo que não conseguira salvar Kagome daquela coisa, tinha que aceitar que tinha perdido, mas nenhuma daquelas opções lhe parecia o certo. Não queria aceitar que falhara, ainda tinha esperanças, aceitar que tinha falhado era o mesmo que assinar o atestado de sua morte, não imaginou que não ser reconhecido por Kagome doeria tanto. Estava preparado, sabia que isso aconteceria, mas o choque de ver aqueles olhos não o reconhecendo doía mais do que ele havia previsto. Era absurdo, era como se o mundo parasse e só ele continuasse a girar e girar e girar caindo em um buraco sem fim. Não, não ligaria, não ainda, não estava disposto a aceitar o fim da sua vida.

Levantou-se indo até a cozinha, continuaria com sua rotina normal: lavar os pratos da noite seguinte, fazer o café da manhã, comer, esperar Kagome o chamar e levar o café da manhã para ela. Olhou a geladeira e a única coisa que poderia fazer era omelete, respirou fundo ao lembrar que já havia feito aquele mesmo prato para Kagome há poucas semanas. Quebrou os ovos e jogou na frigideira sem ânimo algum, estava no piloto automático, embora seu corpo fizesse aquelas ações perfeitamente sua mente estava perdida, tentando encontrar uma solução para o desastre que sua vida estava se tornando. Como deixara isso tudo chegar tão longe? Quando havia se tornado tão dependente da presença de Kagome?

Se focou no problema real deixando suas queixas de lado, não era hora para perguntas estúpidas, estava prestes a surtar dessa maneira por que não tinha sido capaz de lidar com esse problema antes e a hora finalmente tinha chegado: era tudo ou nada. Ou ele se esforçava para resolver aquilo ou jamais poderia fazer nada e levaria isso por toda a sua vida.

Voltou para a sala sem tocar na omelete ou no café, ligou a TV e encostou a cabeça. Tinha feito café da manhã, mas percebeu que não sabia que horas eram. Suspirou e fechou os olhos, o sono estava vencendo aquela batalha. Inuyasha não pôde deixar de rir internamente, era uma piada, queria salvar Kagome, mas não conseguia nem ganhar do sono.


O som alto preencheu todo o aposento, ecoando por entre as paredes e dominando a mente de Kikyou. A mulher olhou o relógio de parede e bateu os dedos da mão na mesa, demonstrando impaciência, ele marcava meio-dia. Kagome já teria esquecido tudo. Bateu novamente os dedos na mesa.

Estava sozinha, completamente sozinha. O templo antes tão cheio de vida agora parecia apenas um prédio abandonado de uma cidade fantasma, os anjos a haviam abandonado, como sabia que o fariam. Yokais eram desprezíveis, mas anjos não eram muito diferentes assim, sabia disso, era um deles. Quisera ter a coragem de Kagome, mas aquilo não a salvaria. Ser livre, perder suas memórias e asas não a faria feliz, o poder de sua salvação estava nas mãos de Inuyasha.

Era por causa dele que estava sozinha. Por sua obsessão com o hanyou havia traído sua própria raça, deixando de lado sua posição de líder apenas para protegê-lo. Não havia mais motivos para mentir agora que não existia ninguém para testemunhar sua fraqueza, ela o protegia. Desde o dia que ele nascera sabia que sua missão era salvá-lo, talvez até por saber que precisaria dele agora, mas duvidava muito. Inuyasha era sua única conexão com o mundo, aquilo que a mantinha presa com vida nesse lugar que a tanto ela desprezava. Sabia que devia odiá-lo por tudo aquilo que ele representava, mas era impossível. Jamais o odiaria.

Suspirou longamente, não queria dormir, encontrar Rin, Midoriko ou qualquer outro anjo cheio de compreensão e lições de moral era a última coisa que queria no momento. Sua vontade real era levantar e ir até Kagome, parar aquela desgraça que estava destruindo sua vida, por que afinal de contas ela era a culpada, ela quem tinha enviado Kagome para essa missão sabendo o que aconteceria. Sim, desde o começo ela soubera o que aconteceria, ela sabia que Kagome era o reflexo* de Inuyasha e por mais que eles tentassem se manter afastados, nunca conseguiriam. Era sempre assim, Rin havia sido o reflexo de Sesshoumaru e nem mesmo a morte havia conseguido separá-los.

Sua cabeça doeu e precisou apoiá-la na mesa, sentiu os olhos arderem e os fechou com força. Pediu desculpas à Kagome, mesmo que ela nunca ouvisse suas palavras. Queria chorar, mas isso só a tornaria mais miserável. A solidão estava matando-a, precisava de Inuyasha, precisava dele mais do que qualquer coisa, afinal como ela mesma havia pensando anteriormente, o amor tem um poder incrível e contava com esse poder para se reerguer.


Miroku estava em pé na sala de sua casa com seus braços cruzados e os olhos cerrados. Olhava para seus pais e tentava ignorar os sons irritantes que seu avô insistia em fazer, não fazia muita questão do ancião naquela pequena reunião familiar, mas quando ele soube do motivo se instalou na sala e ninguém conseguia movê-lo de lá. Sorria e repetia como seu neto era inteligente. Para um homem com quase 92 anos seu avô tinha um humor bastante irônico.

- Não é nossa vida, - disse Hana pela milésima vez. – não podíamos nos meter.

- Ah, pelo amor de Deus, mãe! – disse Miroku incrédulo. – Quantas vezes vai usar essa desculpa? Vocês sabiam quem era a mãe do Inuyasha o tempo todo, viram a angústia dele por não saber suas origens, que direito tinham de esconder esse segredo?

- Não era nossa função fazer isso, Miroku. – disse Mushin, seu pai.

- E de quem era essa função? Dela? Do Sesshoumaru?

- Eles tinham medo de perder o Inuyasha, - disse Yamamoto, o avô, revirando os olhos. – acharam que se falasse para ele quem era sua mãe, ele iria atrás dela.

- A decisão de ir ou não atrás dela nunca foi de vocês, mas que droga, como foi que o Inuyasha veio parar na nossa casa para começo de conversa? Se a mulher está viva, andando por aí, por que diabos vocês tiveram que cuidar dele? Sequer somos parentes!

- Você não entende nada, - respondeu Hana irritada. – Inuyasha nunca deveria ter nascido, mas nasceu. Nunca deveria ter sobrevivido, mas sobreviveu. Acha que ele está bem lá fora? Aquelas mulheres odiosas querem matá-lo desde o dia em que ele nasceu, matariam sua mãe se conseguissem, apenas para destruí-lo! Sesshoumaru o deixou aqui para que o protegêssemos.

- Isso é ridículo! – retrucou Miroku, ele não conseguia acreditar em tudo aquilo. – Por que o Sesshoumaru entregaria o Inuyasha para vocês se ele é o yokai mais poderoso que existe? Como humanos comuns seriam mais aptos a salvarem alguém do que um yokai? Não faz sentido! Isso sem contar que não consigo acreditar na idéia do Sesshoumaru tentando salvar alguém além dele mesmo e agora que soube da história, sua mulher.

- Sesshoumaru sempre amou Inuyasha como um próprio filho. – disse Mushin.

- Agora querem que eu acredite que tudo o que foi feito, foi feito por um bem maior? Pelo poder de amor? Pra mim chega, vocês não precisam mais continuar com esse teatro estúpido!

- Fale direito comigo, - disse Hana e seus olhos estavam cerrados. – ainda sou sua mãe e exijo respeito.

- E o que vocês - Miroku fez um movimento que englobava todos da sala. – fizeram para merecer meu respeito? Mentiram para mim a vida toda e insistem nessa porcaria, não consigo acreditar que ainda acham que sou uma criança que vai acreditar em toda história que contarem para mim. Quero respostas, quero explicações, quero entender o motivo de terem feito tudo o que fizeram.

- Sesshoumaru não conseguia viver com Inuyasha. – disse o avô respirando fundo. O ancião parecia agora achar toda aquela discussão completamente sem graça agora. Já tinha idade o bastante para saber que tudo aquilo era uma perda de tempo sem tamanhos. – Aquela criança correndo pelos corredores daquela mansão sem vida e morta dele fazia com que ele lembrasse da coitada que o pai dele matou e do filho que ele nunca chegou a ter. Inuyasha era basicamente isso, o filho que lhe roubaram.

- PAPAI! – Hana soltou outro de seus gritos agudos. – Isso não diz respeito a nós, não fique falando esse tipo de coisa como se fosse sua própria vida!

- Hana, eu sou velho e sei que todos vocês acham que eu sou gagá e mais perto da morte do que da vida, mas pelo amor de Deus, sou o único aqui a perceber que o garoto tem direito a respostas? O que vai acontecer se falarmos a verdade? Sesshoumaru irá nos matar? Bem, se ele quiser se vingar de alguém que me mate, já estou velho mesmo, não fará diferença. Digo mais, ele me fará um grande favor.

Miroku piscou algumas vezes e esfregou o rosto. Agora as coisas estavam realmente confusas, se arrastou até uma poltrona no canto da sala e encarou seu avô de maneira incrédula.

- Me explique isso. – disse e sua voz denunciava toda a sua confusão.

- O que quer que eu te explique além do que já falei? – disse o ancião. – A história toda? Ok, contarei a história toda...

- Yamamoto, não é nossa função contar essas histórias antigas, eles irão descobrir eventualmente. – disse Mushin.

- E o que impede desse eventualmente ser agora? – disse Yamamoto cruzando os braços. – Já fiquei quieto muito tempo, não agüento mais essa ladainha, tenho quase cem anos, não tenho idade para brincar de teatro.

- Vovô, pode me contar, por favor, aquilo que o senhor sabe? – disse Miroku. Seu avô era sua única esperança.

- Como você já descobriu a algum tempo em suas pesquisas, monges costumavam trabalhar ao lado dos anjos. Meu bisavô matava yokais, anjos matavam yokais, logo era uma união óbvia. Mas a aliança não durou muito tempo, os anjos não tinham escrúpulos, matavam crianças hibridas como o Inuyasha apenas por terem nascido, matavam yokais inocentes que só queriam viver em paz e meu bisavô dizia que não conseguia lidar com isso. O único anjo o qual ele simpatizou foi Rin, a esposa do Sesshoumaru, nessa época ela já estava grávida e os dois serviam como exemplo para os monges de que yokais podiam ser bons e não mereciam a morte sem motivo algum. O que é ridículo, Sesshoumaru sendo exemplo de bondade é realmente o fim dos tempos, mas como eu ia dizendo... Ele acompanhou toda a história do Sesshoumaru, a morte de Rin e o trauma que o yokai sofreu e nunca mais superou. Lembro dele me contar as histórias do Sesshoumaru não como um demônio sem escrúpulos que matava por prazer, mas como um yokai que viveu como tal em sua época e depois conseguiu se adequar ao mundo humano. Amando, vivendo com uma mulher, tendo sonhos de ter filhos e tendo tudo isso arrancado de suas mãos por seu próprio pai, depois daquele dia Sesshoumaru nunca mais foi o mesmo e meu bisavô sempre dizia isso. O Sesshoumaru que ele conheceu morreu quando Rin morreu.

- Já é o bastante... – Hana tentava intervir.

- Com todo respeito... Mãe, cale a boca. – disse Miroku.

Yamamoto sorriu e todas suas rugas se tornaram mais aparentes com aquela expressão. Miroku pôde notar quão velho e cansado seu avô estava mesmo sendo tão lúcido e vivo.

- Obrigado. - disse Yamamoto. – Onde eu parei? Oh sim, na morte da Rin. Soube que naquela época Sesshoumaru chegou a jurar seu pai de morte, mas nunca teve coragem de fazer isso, querendo ou não era seu pai, yokais têm a ligação de sangue muito forte, muito mais do que nós humanos. A relação entre eles piorou muito quando Inu-Taisho conheceu a mãe do Inuyasha, sei que sabe quem ela é, mas não consigo sequer dizer o nome daquela mulher odiosa, então a chamarei de ahn, Odiosa. Quando Inu-Taisho e Odiosa resolveram viver juntos foi o cúmulo para Sesshoumaru, como ele conseguiria aceitar tanta hipocrisia? Seu pai matara Rin por não achá-lo boa o suficiente e agora dizia ter encontrado o amor logo em Odiosa, era inaceitável. Quando Odiosa engravidou de Inuyasha, Inu-Taisho foi pessoalmente até Sesshoumaru e ajoelhou em sua frente, dizendo que jamais conseguiria se redimir do erro que havia cometido e que somente agora conseguia entender a dor que lhe causara, a idéia de perder Odiosa o deixava louco. Ele nunca amara a mãe de Sesshoumaru, você sabe, naquela época não existia amor entre yokais, eles procriavam por necessidade de manter uma linha sanguínea forte, era a lei do mais forte.

- Desculpe interromper a história, mas qual o seu problema com a mãe do Inuyasha? O que ela fez de tão odioso para que sequer possa dizer seu nome? – disse Miroku, seus olhos estavam vidrados em seu avô.

- Aquela mulher só sabe trazer desgraça, acho que ela é amaldiçoada, tudo o que ela toca morre, sofre, enlouquece. – explicou Yamamoto. – O que ela fez com o próprio filho é inaceitável. Abandoná-lo, jamais vê-lo, mesmo estando viva. Que espécie de pessoa fria consegue fazer isso com sangue do seu sangue? Ela matou o marido, mataria Sesshoumaru se tivesse tido a oportunidade. Teria nos matado quando invadiu nossa casa atrás dele sem pensar duas vezes. Já vivi muito, meu filho, posso dizer que o que vi nos olhos daquela mulher era maligno. Era cheio de ódio e de vingança.

- Ela veio atrás dele? – disse Miroku.

- Oh, veio. Foi quando fritou seu cérebro e o garoto nunca mais foi o mesmo. – disse Yamamoto acenando com a cabeça, parecendo lembrar-se da cena. – Mas chegarei nesse ponto, não se preocupe.

Hana soltou um chiado baixo e Mushin a abraçou pelos ombros, os dois encaravam Yamamoto com pura negação, não conseguiam acreditar que o ancião estava realmente contando aquelas coisas. Segredos guardados por tantos anos jogados ao nada, simplesmente.

- Bem, então Odiosa estava grávida e Inu-Taisho tentava se redimir com seu filho de qualquer maneira. Ele estava tão centrado em conseguir o perdão de Sesshoumaru que só notou os planos dos outros yokais quando Inuyasha já nascera e corria risco de vida, ao menos é o que eu acho. Tenho a impressão do que aconteceu com Inu-Taisho foi exatamente o que aconteceu com Sesshoumaru e Rin, os outros yokais não aceitavam seu relacionamento com Odiosa, mas tudo o que aconteceu após o nascimento de Inuyasha é um mistério, só temos suposições e palpites, o que disse agora é minha versão para os acontecimentos, talvez não seja a verdade mas realmente acredito nisso. Ninguém sabe ao certo o motivo, mas yokais invadiram a casa do casal, mas ninguém sobreviveu exceto Odiosa, Inu-Taisho inclusive não saiu vivo de lá. Ela assumiu a culpa da morte de todos os yokais, mas como eu disse, ninguém sabe ao certo o que aconteceu.

- E o Inuyasha? Onde ele estava?

- Isso faz marte do mistério, Inu-Taisho deixou o Inuyasha na casa do Sesshoumaru naquele dia, disse que era o último pedido que faria à ele. E isso é tudo o que eu sei dos acontecimentos do nascimento do Inuyasha, depois disso é claro que ele viveu naquela mansão com o Sesshoumaru, mas ele não conseguia lidar com a criança. Por algum motivo ele se lembrou do meu bisavô e o procurou, acho que yokais não tem muita noção de tempo, ele não fazia idéia de que meu bisavô tinha morrido há mais de 70 anos e então ele veio parar aqui, com aquela criança confusa e no mesmo instante seus pais o adotaram como filho, você era novo, mas tenho certeza que lembra da manhã em que ele simplesmente estava aqui e todos o tratamos como da família.

Miroku acenou com a cabeça, sim, lembrava perfeitamente daquele dia. A principio estranhara tudo aquilo, mas com o tempo passou a considerar Inuyasha como seu irmão e era assim até hoje.

- Então, imagino que também se lembre do dia em que ele simplesmente acordou sem memória nenhuma. – disse Yamamoto. – Isso aconteceu logo depois de Odiosa invadir nossa casa no meio da noite dizendo que tínhamos roubado seu filho e que ela nos mataria se não o devolvesse, tirei seus pais do caminho daquela mulher louca, ela se trancou no quarto e a ouvimos chorar alto por horas. Saiu de dentro do quarto de Inuyasha depois de quatro horas ainda chorando e novamente nos ameaçou de morte, mas não o levava com ela. Quando sua mãe entrou no quarto, Inuyasha não tinha mais lembrança de nada. Não sabemos o que aconteceu lá dentro ou o porquê dela tê-lo deixado para trás, nunca entendemos isso. Quando Sesshoumaru soube o que aconteceu pensou em levá-lo novamente para sua casa, mas ele tinha ataques de choro sempre que via o yokai e precisamos deixá-lo em um orfanato, para o nosso próprio bem. Sesshoumaru disse que ela voltaria por ele e talvez realmente nos matasse, não queríamos correr esse risco, não com você na casa. Esse é o motivo dele não ter lembranças, de estar conosco todos esses anos e não com Sesshoumaru e por odiarmos Odiosa.

- Por que Sesshoumaru maltratou Inuyasha por todos esses anos? – perguntou Miroku.

Yamamoto balançou os ombros.

- Sinceramente, não sei te responder. – disse. – Mas acredito que esse tenha sido o único meio que ele encontrou de estar perto do garoto sem que ele chorasse. Por isso ele grudou naquele discurso idiota de "seja forte, seu maricas", por que ele queria que o Inuyasha superasse o trauma que Odiosa o tinha feito sofrer e pudesse ficar ao lado dele sem sofrer. Mais uma vez, Sesshoumaru se tornou a personificação da bondade, o mundo está mesmo acabando. Que ano estamos mesmo? 2010?

- E o ódio? Ele não tinha ódio do Inuyasha por tudo o que ele representava?

Dessa vez Yamamoto sorriu.

- Não é óbvio? Sesshoumaru percebeu que Inuyasha era como ele, alguém que tinha perdido tudo. No final das contas, eles só tinham um ao outro.

Miroku afundou-se no poltrona e fechou os olhos por longos minutos. A história fazia sentido, por incrível que parecesse, a história fazia um sentido absurdo para ele. Tudo se encaixava, as lembranças soltas que por tantos anos o atormentaram agora se uniam em uma visão nítida. Compreendeu todos os acontecimentos confusos de sua vida ao lado de Inuyasha.

- O que ela quer dele? – disse subitamente.

- Matá-lo! – gritou Hana parecendo louca. – É isso o que ela quer, quer terminar o que não conseguiu naquele dia!

- Acho que ela quer perdão e amor. – disse Yamamoto balançando o ombro. – No fim das contas, é tudo o que mães querem quando erram. Hana, sabe que ela o teria matado antes se quisesse.

-Ela não conhece o amor. – grunhiu Hana. – E você, Miroku, já tem todas as respostas que gostaria? Agora me diga, irá contar para Inuyasha? Irá até lá, baterá em sua porta e lhe contará toda essa porcaria?

Miroku arqueou a sobrancelha.

- O quê? – disse.

Mushin respirou fundo.

- O que sua mãe está querendo dizer é que agora que você sabe a história também sabe que não é algo que devemos nos intrometer. Isso é entre eles, não cabe a você ir até o Inuyasha e contar a história de sua vida. Foi apenas por isso que não contamos antes tudo isso, por que sabíamos como seria difícil para você não contar para ele.

Miroku respirou fundo e se afundou novamente na poltrona. Droga, eles estavam certos, não sabia o que faria agora com tudo aquilo.

- Alguém sabe onde está o controle da TV? É hora do meu programa.

Todos viraram os olhos para Yamamoto, o ancião balançou os ombros.

- O quê? Já falei o que tinha para falar, agora verei meu programa. Com licença.


Algo sobre você que faz eu me sentir mal

Eu não estava lá quando uma linha fina destruiu sua alma

Eu procuro em cada esquina

Não há onde esconder como eu me sinto

Ignorância é um sacrifício

Alguns dias são mais difíceis

Vamos encarar, é tudo sobre mim

Profundamente dentro de você própria

Inuyasha abriu os olhos assustado com o som da TV, não se lembrava de tê-la ligado, mas talvez tivesse deitado em cima do controle enquanto dormia. Revirou os olhos para o anime infantil que passava, pegou o controle e desligou o aparelho. Espreguiçou-se e saiu do sofá, precisava ver como Kagome estava. Subiu as escadas com passos lentos, a verdade é que não queria entrar no quarto, sabia que ela não havia se lembrado e provavelmente nunca mais lembraria. Algo naquela situação fazia com que ele se sentisse mal, voltou a pensar que seria mais feliz se também pudesse apagar todas suas lembranças, se pudesse tirar Kagome de sua mente, saber que não estava presente quanto haviam tirado-lhe suas asas, quando haviam destruído sua alma o deixava louco.

Respirou fundo em frente à porta do quarto, tentou ouvir algum som vindo de lá de dentro, mas não conseguiu perceber nada, bateu uma, duas, três vezes. Nada. Sentiu seu corpo gelar inteiro, aqueles poucos segundos já haviam sido o bastante para aterrorizá-lo, voltou a respirar fundo, tinha que sumir com aquele desespero, tinha que esconder como se sentia, ela não precisava do seu medo. Abriu a porta e o cheiro dela o abraçou, olhou para a cama e ela estava deitada, parecia dormir. Inuyasha andou até ela e ajoelhou-se ao seu lado.

- Achei que não voltaria.

O som da voz de Kagome foi um soco na cara de Inuyasha, era tão distante e... Morto.

- Bati na porta, por que não atendeu? Te acordei? – perguntou Inuyasha.

- Não, apenas queria ficar sozinha. – respondeu Kagome.

- Quer que eu vá embora?

- Faça o que quiser.

- Não sabe quem eu sou, não é?

- Disse seu nome mais cedo, se chama Inuyasha e sei que é dono desse quarto. Afora isso não sei nada relevante.

- Como sabe que sou dono desse quarto?

- Apenas sei.

- Mas como sou dono desse quarto se essa casa é do seu amigo?

- EU NÃO SEI, TÁ LEGAL? – gritou Kagome saindo da posição apática que estava. – VÁ EMBORA, ME DEIXE SOZINHA. VAI! AGORA!

Bem, a vida era uma droga, pensou Inuyasha, alguns dias eram realmente muito mais difíceis do que outros. Levantou-se sem dizer nada e foi até a porta, fechou-a atrás de si e sentou-se no corredor. Fizera besteira, sabia disso, sabia que não podia pressioná-la com perguntas confusas, mas aquilo tinha sido uma esperança, uma fenda naquela muralha de esquecimento que rodeava Kagome e tinha que se agarrar a ela. Por um momento Inuyasha sentiu-se verdadeiramente egoísta, tudo aquilo era sobre ele, precisava salvar Kagome para continuar vivo. Kagome já estava profundamente dentro dele.

###

Duas horas do mais puro silêncio se passaram até que Inuyasha ouviu Kagome chamando-o. Ainda estava sentado no corredor à porta do quarto, não havia outro lugar para ficar além daquele, era o mais perto que poderia estar dela. Esperou que ela o chamasse novamente, para ter certeza que não estava delirando e quando a voz o chamou pela segunda vez ele se levantou e entrou no quarto. Kagome estava sentada na cama e abraçava um travesseiro, seus olhos estavam vermelhos, mas não chorava.

- Me chamou? – perguntou Inuyasha se aproximando da cama lentamente.

Ela acenou com a cabeça sem soltar o travesseiro, Inuyasha imitou a mesma posição de antes e ajoelhou-se ao lado da cama, encarando Kagome.

- Precisa de alguma coisa?

- Quem eu sou? – ela disse e sua voz estava embargada pela dor. – Por que estou aqui? Por que você está aqui? Quem é você?

- Não se preocupe, está tudo bem, estou aqui para cuidar de você. – disse Inuyasha. – Por isso ambos estamos aqui, para que eu possa cuidar de você.

- E por que você está cuidando de mim? Por que preciso que cuide de mim?

- Estou cuidando de você por que está um pouco confusa no momento, Kagome, apenas isso. Logo você ficará bem.

Inuyasha se sentiu um lixo ao dizer aquelas palavras, não havia dito isso na noite anterior? E agora olha como as coisas estavam. Jurara que iria impedir que ela se esquecesse de tudo e lá estava ela, parada em sua frente com provavelmente nada além de um nome e confusão em sua mente.

- Não vou ficar bem. - disse Kagome.

- Por que não dorme um pouco?

- Não tenho sono.

- Quer conversar?

Kagome acenou positivamente com a cabeça. Inuyasha suspirou e começou a pensar em algo para falar com ela, mas o que falaria? Se jogaria aos seus pés implorando para que se lembrasse dele? Voltaria a forçar sua memória? Ficaria em silêncio até que ela resolvesse falar? Aquela lhe pareceu a idéia mais decente, todas as outras envolviam de alguma maneira implorar que ela lembrasse ao menos dele.

Ao notar o silêncio de Inuyasha, Kagome fez uma espécie de careta e começou a falar, mesmo sem entender exatamente o motivo de dizer aquelas palavras. Só de colocá-las para fora já sentia vontade de chorar.

- Eu simplesmente não sei por que tudo tem que partir, simplesmente não sei por que tudo tem que desaparecer. Eu não posso escapar, não é? Não há nada mais que eu possa fazer para poder recuperar aquilo que eu perdi. Eu simplesmente não sei, por que eu preciso de você?

Inuyasha levantou-se do chão e sentou-se na cama, ao lado de Kagome. Outra esperança. Talvez aquilo nem pudesse ser considerado um esperança, mas qualquer coisa naquele momento servia para lhe animar, para lhe dar forças para lutar por Kagome.

- Você precisa de mim por que preciso de você. - disse Inuyasha.

- Mas por que precisa de mim? O que eu sou para você?

- Certa vez lhe disse que era meu reflexo e ainda é, mesmo que não saiba disso. Não quero te perder, Kagome, não quero me perder, por isso preciso de você.

- Você me ama? – a voz de Kagome soava confusa.

- O que temos é diferente. – disse Inuyasha simplesmente, não era hora para perguntas confusas como aquela.

Isto é um conto de fadas

E a história acabou

Nada que eu não teria tentado dizer

Você sabe que a estrada é sozinha

Eu vou precisar de ajuda

- Não entendo.

- Kagome, sua vida até agora não foi fácil e é por isso que não se lembra de nada agora, suas escolhas te trouxeram onde está agora. Nós ficamos juntos por vários momentos, mas a nossa história acabou, pelo menos por enquanto. Nosso tão sonhado conto de fadas não é importante agora, tenho tentado te salvar sozinho, mas preciso da sua ajuda.

Kagome puxou a mão se libertando de Inuyasha, lançou-lhe um olhar magoado.

- Acha que não tento lembrar a droga da minha vida o tempo todo? Acha que não estou me esforçando para ser alguém? O que o faz acreditar que está sofrendo mais do que eu?

- Desculpe, não foi o que quis dizer. – disse Inuyasha.

- Mas foi o que disse, - respondeu Kagome. – não sei o que significava para mim, mas como disse, a história acabou. Agora se me der licença sairei dessa casa e você nunca mais irá me ver, não se preocupe em perder seu tempo tentando me salvar, vou fazer isso sozinha.

Inuyasha sentiu novamente seu corpo gelar, droga, não era nada daquilo que ele queria. Mesmo sem memórias Kagome era uma porcaria de garota teimosa e arrogante que tentava fazer tudo sozinha.

Kagome atacou o travesseiro na cama e levantou-se, seus pés bateram com força no chão e ela encarou Inuyasha com os olhos cerrados. Caminhou até a porta sem olhar para trás sentindo todo seu corpo latejar de maneira estranha, embora seu corpo lhe obedecesse, sua mente gritava que não deveria sair daquele quarto, que não deveria se afastar daquela pessoa. Resmungou algo e abriu a porta.

Merda.

A visão de Kagome se encheu de pontos brancos e suas pernas ficaram bambas, segurou o batente da porta com força e nada mais lhe veio à mente. Estava apagada.

Inuyasha acompanhou toda a cena como se ela tivesse ocorrido rápido demais para seus olhos, uma hora Kagome estava batendo os pés, outra estava na porta e outra sua cabeça quicava no chão fazendo um barulho alto e doloroso. Ele correu até ela segurando-a no colo e colocou-a novamente na cama, ela estava absurdamente pálida e seu corpo estava gelado. A primeira reação de Inuyasha foi sentir seu pulso.

Deus, que ela não tenha morrido, não, por favor...

A pulsação existia, mas estava fraca. Forçou sua mente a acreditar que ela não estava morrendo, não, não era isso que estava acontecendo. Ela apenas estava fraca, não havia comido nada há mais de um dia, era a explicação mais plausível. Respirou fundo e correu até o banheiro, buscando uma garrafa de álcool e uma toalha, embebedou o pano com o álcool e voltou para o quarto, colocou o pano no nariz de Kagome e ela balançou a cabeça, querendo inconscientemente se afastar, mas Inuyasha segurou sua cabeça e voltou a encostar o pano em seu nariz.

Kagome abriu os olhos parecendo confusa. Inuyasha soltou um suspiro aliviado em encostou sua cabeça no ombro da garota.

- Por favor, não faça isso de novo. Não sei se eu agüento.


Sesshoumaru dormia, embora o sol entrasse pela janela do seu quarto e não tivesse sono algum. Estava respondendo ao chamado de Rin, sabia que ela precisava conversar com ele e tinha certeza que ela não tinha notícias boas.

Seu amado jardim estava destruído, o céu estava negro como o infinito e não existia som algum. Olhou ao redor procurando por Rin e ouviu sua voz, chamando-o. Seguiu a voz até encontrá-la sentado em um balanço de dois lugares de um ferro muito laranja, estava nitidamente enferrujado. Sesshoumaru cerrou os olhos.

- Essa coisa está pobre, não deveria estar sentada ai! – resmungou.

- É um sonho, - disse Rin sorrindo bondosamente. – e ambos sabemos que não posso mais me machucar.

- Não me importo, não gosto de você sentada nessa coisa.

Rin encostou o pé no chão dando impulso no balança, fazendo a cadeira ir para frente e para trás, para frente e para trás. Sesshoumaru notou no mesmo instante que ela estava nervosa, a conhecia bem demais para deixar esses detalhes passarem despercebidos.

- Inuyasha não conseguiu. – disse Rin enquanto tocava novamente o chão dando impulso.

Sesshoumaru ficou em pé a observando, o balanço fazia um barulho irritante e parecia prestes a quebrar a qualquer momento. Ele cruzou os braços e respirou fundo.

- Kagome esqueceu tudo. – continuou Rin.

O yokai novamente não respondeu, embora aparentasse calma sua mente estava trabalhando sem parar. Não contava com aquilo, não realmente, sempre acreditara que Inuyasha seria capaz de reverter aquela situação. Se existia uma pessoa no mundo que pudesse salvar Kagome de qualquer coisa que fosse, essa pessoa era Inuyasha, se ele falhara o que havia restado de seus planos?

- E ela está vindo. – completou Rin, dessa vez parando o balanço e encarando Sesshoumaru. – Kikyou está vindo.

- Não existe esperança? – Sesshoumaru parecia ter ignorado a última informação que Rin havia lhe dado.

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Não há nada que ele possa fazer por ela nessa situação, - disse Rin. – as memórias mais importantes foram perdidas, não há volta.

- Sempre há volta. – retrucou o yokai entre dentes.

- Sabemos que não é assim, Sesshoumaru. – disse Rin.

- Quem disse que há nada que se possa fazer? – disse Sesshoumaru. – Enquanto ela estiver viva ainda podemos tentar, enquanto ela respirar ainda existirá uma chance de Inuyasha poder salvá-la.

- Desista, você não pode mudar o que já aconteceu. – a voz de Rin era bondosa.

- Não, eu não posso mudar o que já aconteceu, mas posso – e vou! – mudar o que está para acontecer. Sei que o Inuyasha sente pela Kagome o mesmo que eu sinto por você e é por isso que acredito neles, Rin. Não há nada que eu faça por você, mesmo agora. Ele não desistirá e eu também não, Kagome é nossa única esperança.

- Ela é só uma criança, não pode suportar o peso de tantas vidas em suas costas. Não vê o que fizemos com ela? Primeiro Kikyou a usou como bem entendeu, criando-a como se fosse como todos aqueles outros anjos confusos e sem destino, depois a mandou para o lado de Inuyasha sem explicar absolutamente nada sobre o que aconteceria quando o encontrasse. A matou apenas para que a ligação deles se tornasse mais forte, como se o que tivessem por natureza já não fosse forte o bastante. E então você resolveu que ela tinha a missão de me salvar, de nos salvar, fez com que escolhesse seu lado e usou o amor que ela sentia por Inuyasha como uma moeda de troca e o que ela fez? Escolheu Inuyasha, claro. Perdeu suas asas, perdeu parte de sua alma, perdeu suas memórias. Quando deixaremos essa criança em paz? Quando deixaremos Kagome realmente livre para viver sua vida?

- Já fomos longe demais, não podemos voltar atrás. – disse Sesshoumaru.

Rin sorriu.

- Sempre há volta.

Sesshoumaru esfregou o rosto de maneira impaciente.

- Então tudo bem para você ficar presa nesse buraco para sempre? Tudo o que fiz até hoje foi por e para você, se continuo vivo é apenas por que quero encontrar um meio de te salvar, não me importo com o que vai acontecer com as outras pessoas, se todos os anjos tiverem que morrer para que eu te livre desse inferno? Ótimo, matarei todos, um por um. Pode pedir que eu desista de qualquer coisa, menos de você.

- Está dizendo então que se for preciso você mataria a Kagome ou até mesmo o Inuyasha apenas para me tirar daqui?

- Se fosse a única maneira, sim. Eu os mataria.

Rin suspirou e voltou a se balançar.

- Não quero isso, é isso que você não entende. – disse Rin e quando o yokai fez menção de falar, ela levantou a mão e o impediu. – Sesshoumaru, meu amor, eu sei que sua dor é imensurável, pois também a sinto. O que aconteceu conosco não foi justo, ninguém tinha o direito de destruir nossos sonhos e nossas vidas daquela maneira, mas não temos controle de tudo. Existem coisas que vão além da nossa compreensão e do nosso poder e essas são as coisas que não podemos mudar, minha morte é uma delas. Não havia nada que pudéssemos fazer para impedir isso e eu aceitei essa tragédia como meu destino, mas não precisamos repetir isso sempre e sempre e sempre. Você pode libertar o Inuyasha do mesmo destino que você teve, sabe que quando Kagome morrer ele se juntará a você nessa loucura toda. Por que prendê-lo nessa roda infinita de dor? Se preciso causar sofrimento às outras pessoas para ser livre, prefiro ficar aqui para sempre.

- Você está desistindo?

- Não, nunca. Só não concordo com o que está fazendo, está na hora de parar com isso, Sesshoumaru. Há quantos anos tenta me salvar da mesma maneira e não consegue? Talvez se você aceitar seu destino, assim como aceitei o meu, você nos liberte dessa vida infeliz.

- Se fosse tão simples assim... – disse Sesshoumaru.

- O que fará?

Sesshoumaru caminhou até Rin e sentou-se ao seu lado, apoiando a cabeça em seu ombro.

- Sabe que não falei sério quanto a matá-los, não sabe?

Rin sorriu.

- Sim, eu sei.

- Ela está mesmo vindo?

- Sim. Foi abandonada e rejeitada por todos os anjos, não dorme mais para não me encontrar, está prestes a ficar louca. Resolveu que era hora de terminar com isso.

- Vou impedi-la de chegar até eles, tentarei dar mais tempo ao Inuyasha.

- Confia tanto assim nele?

O yokai respirou fundo e pareceu pensar um pouco na resposta que daria.

- Não sei, mas não quero que ele termine como eu. Se Kikyou chegar até eles tudo estará perdido, sabe disso tanto quanto eu.

- Acho que transformei você em um frouxo mesmo. – disse Rin e ela ria alto.

Sesshoumaru não riu com a mulher, apenas a olhou com o canto dos olhos.

- Estou velho, Rin, muito velho.

- Não se preocupe, tudo dará certo. – disse Rin. – Talvez você tenha razão, talvez exista salvação para Kagome e para nós, não quero acreditar que após tantos anos terminaremos dessa maneira.

- Se algo der errado quero que me prometa que não vai desistir de sair daqui.

- Você precisar ir agora. – disse Rin olhando para trás, parecendo ver alguém.

- Falo sério.

- Eu também. Me descobriram, não posso ficar mais tempo.

Rin tocou levemente na mão de Sesshoumaru e sorriu.

- Nosso final será feliz, confie em mim.

Sesshoumaru não pôde responder, pois quando percebeu já estava sendo sugado pelo mundo real. Odiava quando tinha de acordar depois desses encontros com Rin, era sempre como se alguém o puxasse pelos pés de um lugar muito alto e ele caísse com tudo no chão. A realidade era mesmo uma droga.

Olhou para a janela e ainda estava claro, não fazia idéia quanto tempo conversara com Rin, mas pelo visto não demorara mais do que uma hora. Precisava levantar, precisava se preparar. Sua guerra estava prestes a começar.


A luz que entrava pelas frestas da janela era a única coisa que trazia a mínima noção de tempo para Inuyasha, ele não tinha idéia há quanto tempo havia acordado e todo aquele pesadelo começara, parecia um século, mas pela claridade tinha certeza que não passara mais do que quatro horas. Olhou para Kagome deitada na cama e ela encarava o nada com uma expressão pouco interessada, não havia dito uma palavra sequer desde que desmaiara e ele também não tentara insistir em uma conversa.

Estava começando a se render, cada minuto daquele silêncio faziam com que ele perdesse a confiança, não que ainda lhe restasse alguma. Mas novamente, eram os olhos de Kagome que o aterrorizavam, sequer conseguia olhar para eles e encontrar tamanha profusão de... Nada. Não existia nada no olhar de Kagome, nenhum brilho, nenhuma esperança, apenas o absoluto e desesperador nada.

- Acho que estou com sede.

Inuyasha piscou algumas vezes encarando Kagome, tentava esconder a surpresa de ouvi-la falar, mas sua empolgação era nítida.

- Quer que eu pegue água?

- Acho que sim.

Kagome acompanhou com os olhos Inuyasha saindo do quarto e quando a porta se fechou soltou um suspiro alto. Não tinha sede, na verdade não sentia nada além de angustia, sabia que precisava daquele homem estranho ao seu lado, mas aquele silêncio estava deixando-a louca. Não tinha o que falar, sobre o que falaria? Era uma casca vazia, um corpo estranho com uma mente problemática e confusa, qualquer coisa que falasse seria absurdo e sem sentido algum, como ela mesma era. Não conseguia aceitar realmente, mas sabia que no fundo sua vontade era fechar os olhos e nunca mais acordar.

Sim, ela queria morrer, afinal viver daquela maneira não era vida. Pensar nisso fez com que ela se questionasse há quanto tempo não tinha memórias, será que sempre fora assim? Se não pudesse se lembrar de nada nunca então por que aquele homem insistia em ficar ao seu lado, mesmo que ele não estivesse em sua mente ainda sentia uma sensação estranha a seu lado, como se o conhecesse e provavelmente conhecia, mas o que isso importava agora? Estava sem esperanças, não sentia vontade de lutar por qualquer coisa que fosse por que sentia que era uma batalha perdida, estava cansada e nem sabia o porquê!

Inuyasha voltou com uma bandeja e Kagome sentiu cheiro de comida, seu estômago não reagiu, mas agradeceu mentalmente que ele pensasse nisso. Ele colocou a bandeja na cama e ela pôde ver torradas caseiras, um pote de geléia de morango, uma omelete fumegante, água e um jarro de suco de laranja.

- Fiz a omelete mais cedo para você, mas não reclamou de fome, tive que esquentar no microondas agora. Desculpe, estamos com a dispensa vazia. – disse Inuyasha.

Kagome balançou a cabeça negativamente.

- Tudo bem, não me importo. – disse.

A garota sentou-se na cama, iria comer mesmo que não sentisse fome, sentia-se obrigada a colocar algo para dentro de seu estômago, Inuyasha tinha tido trabalho em fazer aquilo para ela, não queria ser má educada. Espetou a omelete com o garfo e a levou até a boca.

Inuyasha voltou a sentar no canto do quarto, longe da cama e de Kagome, ela ergueu a sobrancelha com aquela atitude, mas não disse nada e voltou a se concentrar em comer. A comida não tinha gosto e a água parecia deixar sua boca mais seca.

- Você não foi sempre assim, sabe?

Kagome desviou os olhos da torrada e encarou Inuyasha confusa, do que ele estava falando? Percebendo a confusão da garota, Inuyasha deu um sorriso tímido e continuou:

- Sua memória. Até ontem você tinha consciência de que estava perdendo as memórias lentamente, mas acho que hoje que você já não consegue ter essa noção.

Ela balançou a cabeça. Estava espantada, não conseguia imaginar como ele sabia que ela havia se perguntado aquelas coisas, ele lhe conhecia assim tão bem? Sentiu o enjôo voltando e se concentrou em ouvir Inuyasha, não pensaria no passado, não por enquanto.

- Quando eu disse que nossa história tinha acabado eu estava mentindo, na verdade eu acho que nossa história nunca irá acabar, mesmo que você não se lembre mais de mim e eu acabe sozinho...

- Nós moramos juntos há muito tempo? – disse Kagome balançando o suco dentro do copo.

Inuyasha riu pelo nariz.

- Se dependesse de você nunca moraríamos juntos, você é muito teimosa e tende a querer fazer tudo sozinha, sabe? Ainda agora é assim. – disse Inuyasha com um sorriso no canto dos lábios. – Mas não, estamos juntos só há algumas poucas semanas, quando meu irmão disse que eu deveria cuidar de você e salvá-la dessa coisa.

Kagome sentiu um estranhamento ao ouvir a palavra irmão sair dos lábios de Inuyasha, mas achou que era besteira sua, no estado de estava qualquer coisa a impressionava.

- Como pode ver, eu não me dei muito bem com a missão que recebi.

- Não. – concordou Kagome.

- Ai, acho que eu podia passar sem essa. – disse Inuyasha.

- Não acho que seja culpa sua, na verdade não tenho muita esperança em sair bem dessa.

- Bem, então somos dois, também não tenho muita esperança em sair bem quando tudo isso terminar.

- Eu sempre quis ter um gato.

Inuyasha arqueou a sobrancelha e encarou Kagome como se ela estivesse completamente louca, mas ela apenas lhe sorriu em resposta em continuou.

- É uma das coisas que ainda está na minha mente. Eu sei que queria ter um gato persa bem gordo e preguiçoso, gosto de tomar sorvete no inverno e de marshmallows no meu chocolate quente. Fui sozinha minha vida inteira e tenho medo da morte. Acredito em anjos, mesmo que isso não faço sentido algum e me sinto segura perto de você. Por que me lembro dessas coisas inúteis e não sei quem você é?

- Você sabe, só não se lembra agora. – disse Inuyasha sorrindo de maneira triste. – Acreditar em anjos é uma coisa boa, eu acho.

- Não sou religiosa, sequer acredito em Deus.

- Acreditar em anjos seria mais como acreditar em você mesma. – disse Inuyasha.

- Isso não faz sentido.

- Imagino que pouca coisa faça sentido para você agora.

Kagome juntou as sobrancelhas em uma careta e cruzou os braços.

- Estou satisfeita.

- Entendi o recado, estou saindo.

Inuyasha pegou a bandeja fazendo questão de não tocá-la no meio do processo e voltou a sair do quarto, mas dessa vez Kagome não o olhou, tinha a impressão de que ele demoraria muito a voltar e isso a deixava inquieta. Bocejou e ficou surpresa de que pudesse sentir sono, tinha a sensação que não podia sentir mais nada. Dormir lhe pareceu uma saída perfeita para a confusão de sua mente, talvez seu desejo de não acordar nunca mais se realizasse.

Escorregou para baixo voltando a se deixar, cobriu o rosto com o edredom e esperou até o que sono a derrubasse. Inuyasha não voltou mesmo depois que ela pegara no sono.

##

O hanyou tinha o telefone na mão e sua expressão estava em branco, era como se não sentisse nada, lembrava muito Kagome quando fixava seus olhos na parede e parecia não notar nada ao redor. Inuyasha parecia não ter vida nenhuma.

Discou o celular de Sesshoumaru, perguntando-se se um yokai como seu irmão realmente usava aquelas coisas tecnológicas. Yokais como Sesshoumaru tendiam a ser antiquados. Surpreendeu-se ao ouvir a voz do seu irmão respondendo.

- Não achei que me ligaria. – ele disse.

- Também não achei que ligaria. – respondeu Inuyasha.

- Desistiu? – a voz de Sesshoumaru soava sem nenhuma crítica ou maldade.

- Acho que ela desistiu.

Inuyasha ouviu o som de algo que lembrava uma risada.

- Elas sempre desistem. – disse Sesshoumaru. – Mas e você? O que pretende fazer?

- Não sei. Achei que saberia me responder.

- Não consegui salvar nem minha mulher, como conseguiria salvar a sua?

- Você já viveu muitos anos, disse que eu poderia salvá-la, mas não me disse como fazer isso.

- Não menti quando disse que somente você poderia salvá-la, mas isso significa que você é o único que sabe como fazer isso.

- Se soubesse como fazer isso, já teria feito, não acha? – resmungou Inuyasha. – E espera um pouco, como você sabe que ela...

- Rin me disse. Olhe, Inuyasha, eu não sei como salvar a Rin, mas nunca desisti mesmo depois de todos esses anos, infelizmente você não tem todo esse tempo...

-Do que é que você está falando agora?

- Kikyou está vindo. – disse Sesshoumaru e sua voz agora tinha um tom irritado. – Vindo por você, não sei quando chegará, mas tenho certeza que não demorará muito. Preciso da Kagome, mas sei que precisa dela muito mais do que eu e por isso tentarei atrasar a Kikyou, não acredito que ela queira lhe fazer mal, mas não sei o que esse encontro de vocês faria com a sua cabeça. Você precisa estar bem para salvar a Kagome, se Kikyou chegar até você teremos perdido tudo.

- Vindo por mim?

- Não pense nisso, não é importante agora. Se concentre no que tem que fazer e apenas nisso, eu cuidarei de Kikyou.

Inuyasha juntou as sobrancelhas, aquela conversa tinha tomado um rumo completamente diferente, podia sentir Sesshoumaru tenso do outro lado da linha, mas não sabia se isso tinha a ver com o fato de Kagome mais parecer um vegetal ou com a vinda de Kikyou.

- Ela não pode te matar, não é mesmo? – perguntou sentindo-se como uma criança.

- A não ser que eu queira que ela me mate, o que definitivamente não quero agora. – disse Sesshoumaru.

- Certo.

- Certo.

Os dois ficaram em silêncio só ouvindo a respiração um do outro, passou pela cabeça de Inuyasha que aquilo era absurdamente esquisito e até mesmo um pouco gay, mexeu os ombros de maneira incomoda lembrando que estava falando com seu irmão, não existia nada demais no que estavam fazendo.

- Bom, acho que é isso. – disse Sesshoumaru finalmente.

- É, - respondeu Inuyasha. – hm, bom, obrigado por me dar mais esse tempo com ela.

- Eu ficaria feliz se alguém tivesse me dado mais um tempo com a Rin. Boa sorte.

- Obrigado, para você também.

Sesshoumaru sorriu.

- Eu não preciso de sorte, adeus, Inuyasha.

Duas coisas naquela conversa marcaram Inuyasha profundamente. A primeira é que ele considerava Sesshoumaru realmente seu irmão, por algum motivo estranho, não conseguia odiá-lo como antes e ele era apenas um irmão mais velho problemático e implicante.

A segunda foi a que mais lhe doeu, ele teve certeza que Sesshoumaru havia se despedido dele. Provavelmente para sempre.


Kagome acordou com uma sensação de dèjá-vu que a deixou verdadeiramente irritada. Não estava no quarto de Inuyasha, não existia uma cama em baixo de si e ao perceber isso caiu com força no chão. Olhou ao redor achando tudo aquilo muito estranho. Parecia com sua mente; não havia nada ali. Não importava para qual direção ela olhava a única coisa que via era um infinito negro e obscuro. Olhou para baixo e ao notar que não existia chão sentiu seu corpo novamente caindo, só que dessa vez muito rápido e parecia que a queda não tinha fim.

Demorou a se acostumar com aquele lugar, pois não havia nada ali. Ficava em pé quando acreditava que existia chão sob seus pés e quando aprendeu isso ficou mais fácil se locomover, tentava encontrar uma brecha naquela escuridão, um filete de luz qualquer que lhe desse uma dica de como sair daquele lugar.

- Eu odeio sonhos drogados. – resmungou para si mesma. – Eu poderia acordar logo.

Há um lugar abaixo

A escuridão interior

É um lugar, eu não pertenço a ele

Venha me libertar desse esquecimento

Aquele pensamento acendeu uma luz na mente de Kagome, era como se seu desejo de não acordar mais se realizasse, porém a única coisa que desejava naquele momento era acordar, não pertencia àquele lugar.

Andou pelo o que ela acreditava terem sido horas e não viu nada além da escuridão, sentia-se cansada e derrotada, então era assim que suas memórias se sentiam em sua mente? Girando em um infinito monte de nada. Quis sentar e chorar, mas idéia de parar de andar a aterrorizava, tinha que se mexer para acreditar que ainda estava viva e aquilo não era uma espécie de inferno particular.

Pensou em Inuyasha, pois era a única pessoa que ela conseguia se lembrar e implorou que ele viesse lhe libertar, mas nada aconteceu. Estava sozinha.

Tudo dentro de mim

Na borda da agonia

Não há nada que eu possa fingir

Você sabe que a estrada é sozinha

Eu vou precisar de ajudar

Teve certeza que se continuasse vagando ficaria louca, mas não conseguia parar. Quanto tempo agüentaria ainda? Ficaria ali para sempre? Seus olhos se encheram de lágrimas com a possibilidade de seu destino ser aquele, se perguntou o que havia feito de tão horrível em vida para merecer aquilo. Buscou dentro de si, mas tudo o que encontrou foi agonia, a falta de memória dava espaço a sentimentos cruéis que a angustiavam e faziam seus olhos arderem.

Não se importou em chorar e gritar e amaldiçoar, não existia mais maneira dela fingir, pois não havia nada ali para registrar sua loucura. Estava tão sozinha que chegava a doer e por algum motivo se lembrou das palavras de Inuyasha e elas fizeram sentido para ela. Ele havia dito que tentara salvá-la, mas estava sozinho e que precisaria de ajuda. Era exatamente o que acontecia com ela agora, estava sozinha naquela estrada e precisaria de ajuda, mesmo sem saber como conseguiria pedir.

Isto é um conto de fadas

E a história acabou

Nada que eu não teria tentado dizer

Inuyasha abriu a porta do quarto e olhou para Kagome, ela finalmente voltara a dormir. Aquilo de certa maneira era bom, poderia se aproximar sem medo de sua reação. Sentou-se no chão e apoiou o queixo no colchão, olhando-a dormir, mas a expressão que ela tinha no rosto fez com que ele percebesse que algo estava errado. Inuyasha tocou-lhe a mão e um arrepio correu por todo o seu corpo: ela estava gelada.

Alguma coisa estava acontecendo com Kagome, algo sério, ele podia sentir isso. Ela estava viva, conseguia sentir sua pulsação e sua respiração, mas ainda assim ela estava gelada, pálida, sem vida. Esfregou o rosto tentando se acalmar, mas o desespero começava a levar sua razão embora. Ela estava morrendo, não entendia como, mas tinha certeza. De novo Kagome estava morrendo em sua frente e não havia nada que ele pudesse fazer.

Pensou em todas as coisas estúpidas que pessoas desesperadas pensam em situações como essas, lembrou-se até de contos de fadas onde princesas dormiam e esperavam pelo beijo de seus príncipes. Estava desesperado, não havia nada que não tentasse. Subiu na cama e beijou-lhe os lábios. Encarou-a por alguns segundos. Nada. Continuava gelada, continuava sem vida.

- Merda, Kagome, não faça isso comigo! Não de novo!

E eu

E eu continuo vagando pra longe

Estou tão confuso

Eu continuo vagando

Kagome achou ter ouvido alguma coisa, mas certamente era alucinação. Descobrira que aquele lugar também podia lhe pregar peças, ouvira miados de gatos ao longe e não importava o quanto procurasse por eles, não os encontrava. Concluiu que qualquer outro som também era parte de sua loucura. Sua mente antes tão lúcida começava a ficar confusa e perdida, somente alguns pensamentos lhe regiam: não pare, continue andando, você achará a saída.

Mas às vezes, se perguntava que saída era aquela e para onde deveria andar. Nessas horas o primeiro pensamento lhe gritava: NÃO PARE! E ela não parava, não importando quão sem sentido toda aquela caminhada havia se tornado. Sabia que chorava, mas não sabia mais o porquê, na verdade percebeu que não sabia de mais nada, quem ela era? O que estava fazendo? Existia alguma maneira de lhe libertarem daquele lugar?

Eu continuo vagando (me libertar)

Venha me libertar (me libertar)

Eu continuo vagando (me libertar)

Venha me libertar desse esquecimento

Ela continuava andando e pedindo apenas para que alguém lhe ajudasse, para que alguém viesse lhe libertar daquele esquecimento. Ela não conseguiria sozinha. Ela não queria conseguir sozinha.

##

Inuyasha sentiu quando a mão de Kagome apertou-lhe, durou apenas um segundo, mas foi o bastante para saber que seja lá o que estivesse acontecendo com ela, ela estava lutando. Sim, ela estava lutando e ele também deveria lutar, mas não havia mais armas, não havia mais palavras ou salvação. Não sabia o que fazer, sequer tinha idéia.

O corpo gelado de Kagome fez com que ele finalmente aceitasse o que tentava com tanto afinco negar, o medo de perdê-la se tornou tão grande se sufocou o medo que tinha de amá-la. Não se importava mais com que aconteceria com ele se a amasse, nada no mundo poderia ser pior do que perdê-la sendo o único a poder salvá-la. Se ela morresse seria sua culpa. Terminaria como Sesshoumaru. Compreendeu naquele momento toda a amargura de Sesshoumaru, todo o ódio que ele sentia pelo mundo, pela maneira que ele tratava as outras pessoas, pela primeira vez na vida entendeu seu irmão por completo e quis chorar por ele. E também por si mesmo, por que era aquilo que estava destinado para ele.

Amava Kagome mais do que amava a si mesmo e iria perdê-la antes mesmo de ter oportunidade de dizer isso.

Respirou fundo sabendo que não teria o destino de Sesshoumaru, naquele momento compreendeu que não viveria sem ela e que se ela partisse, ele iria atrás. Não era tão forte quanto seu irmão, não lidaria com nada daquilo. Deitou-se na cama ao lado de Kagome e a abraçou acreditando cegamente que seria a última vez que faria isso com vida.

- Sei que isso pode lhe soar idiota agora, mas prometo que eu estarei lá quando não houver nada sobrando, noite e dia te abraçando. Sei também que não se lembra de mim agora, mas procure no mais profundo de sua alma e encontre-me lá. – Inuyasha dizia em seu ouvido. Sua voz era dolorosa e por vezes parecia que iria chorar. Ainda a abraçava. – Você pode me sentir aqui com você?

##

Kagome arregalou os olhos, sentia algo quente tocando seu corpo, mas não existia nada lá, mas logo o calor sumiu. Ainda podia ouvir sons que lembravam muito um sussurro, a voz não lhe era estranha, mas não distinguia o que exatamente estavam lhe dizendo. Esforçava-se para compreender a mensagem, mas não resultava em nada, era como um rádio com interferência. Tocou o braço onde estivera quente há poucos segundos e continuou a andar.

##

Inuyasha trouxe o corpo inerte de Kagome mais contra seu corpo. Ela não reagiu ou demonstrou qualquer sinal de compreender o que acontecia.

- Eu não quero desistir de você, Kagome, então por favor também não desista. Eu a seguirei onde você for, mas não me deixe para trás, volte nem que seja para partimos juntos.

Nada. O corpo de Kagome parecia mais sem vida a cada instante, ela respirava, seu coração batia, mas ela não estava lá. Inuyasha não sentia como se Kagome estivesse ali com ele e era isso que o desesperava mais, não fazia idéia do que acontecia com ela ou onde ela estava e não estar ao seu lado o destruía.

##

Kagome viu finalmente uma luz. Ela parecia estar a kilometros de distancia, mas não importava, ela precisava chegar até lá, usou toda a força que ainda tinha e correu como se chegar naquela luz fosse sua vida. Porém quanto mais se aproximava mais o terror a absorvia, aquela luz na verdade era fogo. Alguma coisa estava queimando.

O fogo engolia uma mansão antiga que estava rodeada por uma densa floresta que no momento só servia para alimentar o incêndio, Kagome olhou para a cena horrorizada, alguma coisa lhe dizia que precisava salvar alguém, que precisava se aproximar daquele fogo. Algo importante estava ali dentro.

Naquele momento Kagome não era mais racional, o que lhe movia era apenas aquele pensamento doentio de que precisava salvar alguém, sabia que já tinha visto o incêndio antes, conhecia aquela casa, conhecia aquela floresta, conhecia aquele lugar. Sim, ela conhecia, mesmo que naquele momento não soubesse como. Viu uma figura distorcida encarando o fogo de longe, quis correr até ela, perguntar o que estava acontecendo, mas algo impediu. Sentia como se cordas a atraíssem até o fogo, ela precisava chegar até lá.

Ignorou a figura e correu em direção ao fogo, o calor lhe acertou e ela sentiu quando suas roupas começaram a queimar, mas nada podia impedi-la. A fumaça começava a roubar seus sentidos quando suas pernas pararam de correr e passaram a tremer.

- Oh Deus, não.

Lá estava quem ela procurava, nada além de fogo e um dourado brilhante que seus olhos reconheciam. Ele estava morrendo e a encarava, mas não pedia ajuda ou lutava contra o fogo, Kagome correu até ele e o abraçou, tentando tirá-lo daquele lugar, mas não tinha força, sua pele agora ardia por causa do fogo. Soltou um urro de dor quando as chamas destruíram suas roupas e passaram a queimar seu corpo.

Iria morrer, tinha certeza. Mas não queria morrer, não ali, não com aquela pessoa, não naquelas circunstâncias. Abraçou o corpo inerte a seu lado desejando que ele pudesse ajudá-la, que ele tivesse a mesma gana de viver, mas ele não se mexia. Kagome fechou os olhos aceitando seu destino, sua hora havia chegado. Ao menos não estaria sozinha.

O que abriu seus olhos foi o alivio repentino que sentiu em sua mão, ela não queimava, na verdade existia algum tipo de água nela que impedia que o fogo a consumisse. E o alivio veio novamente, agora por todo o seu braço. Olhou confusa para o corpo ao seu lado e pela primeira vez ele falou.

- Vá agora!

##

Inuyasha chorava, não se importava mais com a imagem que tinha. Seu ego estava esmigalhado, não havia mais por que tentar aparentar indiferença. Suas lágrimas escorriam de seu rosto e caíam no corpo inerte de Kagome, não a abraçava mais, não conseguia lidar com a idéia de tê-la tão perto e ser incapaz de dizer o quanto sentia por tudo aquilo.

Apoiou sua testa na mão da garota e suas lágrimas ensoparam-na e logo as lágrimas escorreram pelo braço. Ele segurou o braço dela com força por uma última vez, seria sua última tentativa.

- Sei que já te pedi coisas demais, mas juro que essa é a última, por favor, Kagome, eu lhe imploro, não me deixe, não agora que sei o quanto preciso de você, não agora que sei o quanto amo você, não faça isso comigo, por favor, Kagome, sei que tem forças para voltar. Volte pra mim.

##

Kagome chorou pela pessoa que morria no fogo. Agora sabia quem ele era, sabia onde ficava aquela casa, sabia o que acontecia. Fechou os olhos. Era hora de acordar. Era hora de voltar para Inuyasha.


Nota da autora: As partes em itálico, inclusive nas falas dos personagens, são músicas da banda Lacuna Coil. Não lembro agora todas que usei, mas as principais são "Oblivion" que é na parte da Kagome e "Devoted" na fala de Inuyasha.

*Outra coisa, em uma fala da Kikyou ela diz que o Inuyasha é o reflexo da Kagome. Isso é algo que só explicarei mais para frente, mas guardem a informação, é importante =)


Olá! Como então? :D

Demorei, né? Confesso que esse capítulo foi muito difícil de escrever e não ficou como eu queria, o momento da volta da Kagome deveria ser mais emocionante e deveria ser totalmente baseado na aceitação do Inuyasha de que ele a ama, mas não sei como é com vocês, mas meus personagens ganham vida própria e quando eu percebo a idéia que eu tive some e eles se escrevem sozinhos.

Como deu para notar (ou não 8D), estamos chegando finalmente ao fim da fic, chuto que teremos no máximo mais uns 5. Não me matem pelo mistério com a mãe do Inuyasha e pela tosquice do "odiosa", eu tinha que explicar as coisas, mas sem contar ainda. Não é a hora.

Entrei em época tensa na faculdade, então não se assustem se eu sumir mais do que o normal. Tenho zilhões de provas, trabalhos e seminários e não comecei nada. Tipo, essa semana que vai entrar tenho que entregar 5 trabalhos e tenho uma prova. Adoro minha vida –NOT!

Enfim, espero que gostem do capítulo mais do que eu. E agora, glória a Deus, responderei as reviews, já é quase sete horas da manhã, mas quem liga? 8D

Aninha: Obrigada, querida :) Fico feliz que tenha gostado do capítulo! :*

AdamuNaturo: HAUHSUAS Eu entendo perfeitamente, é que eu tenho mania de ler as reviews das outras pessoas nas fics alheias, daí acho que todo mundo é assim. Sabe que muita gente diz a mesma coisa? Eu gero um sentimento de ódio/amor com minhas loucuras! Mas bom, eu resolvi o problema do Inu, né? :*

Maah: Olá miiiiiinha querida! Há, eu sabia que você era das minhas e que lia as outras reviews HAIUSHIUAHS Bom, eu fiz ele chorar, mas nem ficou chorável a cena, sou uma negação na vida mimimi Fico feliz que goste das minhas confusões na hora de escrever lutas, matar pessoas aleatórios e colocar Miroku e Sango juntos 8D Beeeijos

Ana M.: HUAIHSIUHS Eu sou má? ;o; Poxa, coitada de mim, sou tão boazinha! Sei bem como é esperar a angustia de esperar um capítulo, por isso tento sempre escrever o mais rápido que posso e fazer capítulos grandes para compensar. Obrigada pelo elogio à fic, é uma alegria na vida saber que as pessoas gostam do que escrevo (r) :*

Lourenzi: Nossa, fiquei lisonjeada agora! De verdade! Sei que existe um zilhão de fics maravilhosas de Inu e você escolher a minha como a melhor me deixa muuuuito feliz! Tem teorias sobre a mãe do Inu, é? Aposto que você sabe quem ela é, juro que não sei como as pessoas não descobriram ainda hahahaha Beijos :*

Yogoto: Obrigada por gostar das cenas porcas de lutas, estou tentando me esforçar, afinal Kikyou e Sesshoumaru precisará de uma coisa MUITO boa, né? Esse capítulo todo está bem gay e "romântico" então espero que goste :**

Lecka-Chan: FINALMENTE estou te respondendo, né? HAHAHAH Obrigada, feliz dia das crianças para você também :3 Eu sou uma eterna criança, não importa quanto tempo passe, ainda mais quando dá pra ganhar presente 8D

Desculpe por ser maligna 8D Mas a gente precisa de um pouco de drama na vida, né? E falando em drama na vida, não leve fics/livros/mangas choráveis pra escola, quando eu estava no colegial levei um mangá trágico pra minha escola e TODAS as meninas leram e começaram a chorar igual loucas, foi o caos.

Ah, vai, posso dizer que sempre faço meus personagens sofrerem por um bem maior 8D Ao menos eu acho! E desista dos homens da ficção, os desgraçados não existem para odiarmos a vida, sad, but true.

Nada de mãe de Inuyasha por enquanto, desculpe HHAHAH Esse é tipo o grande mistério da fic, logo, deixarei para o final. E a mãe do Inuyasha não é uma pessoa ruim, garanto!

Ainda tem mais Miroku e Sango pela frente, será que os deixarei felizes para sempre? Será que alguém será feliz nessa fic trágica? Não perca os próximos episódios! HAIUHSIUHAS :D

E ufa, acho que consegui responder tudo direitinho! Beeeeijos :*


Como sempre, agradeço quem tem paciência de me acompanhar e esperar meus capítulos, se continuo escrevendo é só por causa de vocês k3 Aproveito para pedir desculpa por qualquer erro estúpido que aparecer, não estou tempo de revisar e isso é meu pior pesadelo, mas prefiro enviar com algum possível erro do que não enviar nada.

Tenham uma boa semana e um bom mês, até a próxima! Beeeijos.

P.S: Gostaria de dizer que se o capítulo que deveria ser dramático não saiu dramático o bastante foi por causa da trilha sonora. Te pergunto, quem consegue sofrer ouvindo a música "Turn it off" da Kesha?