Inuyasha chorava, não se importava mais com a imagem que tinha. Seu ego estava esmigalhado, não havia mais por que tentar aparentar indiferença. Suas lágrimas escorriam de seu rosto e caíam no corpo inerte de Kagome, não a abraçava mais, não conseguia lidar com a idéia de tê-la tão perto e ser incapaz de dizer o quanto sentia por tudo aquilo.
Apoiou sua testa na mão da garota e suas lágrimas ensoparam-na e logo as lágrimas escorreram pelo braço. Ele segurou o braço dela com força por uma última vez, seria sua última tentativa.
- Sei que já te pedi coisas demais, mas juro que essa é a última, por favor, Kagome, eu lhe imploro, não me deixe, não agora que sei o quanto preciso de você, não agora que sei o quanto amo você, não faça isso comigo, por favor, Kagome, sei que tem forças para voltar. Volte pra mim.
##
Kagome chorou pela pessoa que morria no fogo. Agora sabia quem ele era, sabia onde ficava aquela casa, sabia o que acontecia. Fechou os olhos. Era hora de acordar. Era hora de voltar para Inuyasha.
Capítulo 27 – Lutas e Pedidos
Inuyasha respirou fundo. Ela havia partido, agora aceitava sua derrota. Precisava falar com Sesshoumaru, talvez quem sabe se juntar à ele na missão maluca de matar Kikyou. Naquele momento ele não conseguia pensar na sua posição, não era capaz de lembrar que não era uma opção lutar, pois ele se tornaria um fardo. Não podia lutar, não conseguia livrar-se daquele poder que o sangue de sua suposta mãe tinha sobre ele, mas o que ele tinha a perder agora? Certa vez conversara com Miroku e lhe contara que às vezes sentia que estava prestes a ir para o outro lado e deixar sua humanidade para trás, no fundo nunca acreditara que seria realmente capaz, mas Bankotsu havia dado a pista, não havia? Ele não havia dito algo sobre Inuyasha perder a cabeça? Então era possível, ele precisava se agarrar àquela idéia ou enlouqueceria.
Inuyasha mataria Kikyou e vingaria Kagome, não importando o que lhe aconteceria. Ele não se importava mais em ser humano ou meio humano ou o quer que ele fosse, pela primeira vez ele percebeu que não existia mais sentido em continuar vivo e se no meio de sua busca por vingança ele morresse, bem, não seria algo tão ruim, não é mesmo? Não teria que se preocupar em terminar com sua própria vida.
Limpou o rosto que estava úmido graças às lágrimas e levantou-se da cama, não olhou para o corpo deitado, não conseguia encarar a morte tão de perto, não a dela. Saiu do quarto e rumou para a sala em busca de um telefone, suas ações eram automáticas e mecânicas, não sabia ao certo o que estava fazendo, mas seu corpo apenas seguia em frente, agindo por conta própria. Discou o telefone sem ao menos perceber qual era e surpreendeu-se ao ouvir a voz do outro lado. Ele ligara para Miroku.
- Inuyasha? – disse Miroku com um leve tom de preocupação na voz.
Ele não respondeu. O que diria? Não fazia idéia do porquê ter ligado logo para Miroku num momento como aquele, ele era amigo de Kagome no final das contas, não tinha que lidar com aquele problema, não agora.
- Inuyasha, o que aconteceu? Responda! Está me deixando preocupado.
Nada. Nenhuma palavra saía da sua boca.
- Se não disser nada entenderei que está na merda e irei até ai agora mesmo!
- Não. – respondeu Inuyasha automaticamente. – Não, você não tem que vir para cá agora, eu estou... Eu estou bem.
- Não está bem! – retrucou Miroku. – Você está nessa casa com a Kagome há dias e se isolou de todos, agora me liga misteriosamente e diz que está tudo bem? O que está me escondendo?
- Não sabia para quem eu estava ligando. – confessou Inuyasha. – Só percebi quando atendeu.
Miroku ficou em silêncio por alguns instantes e quando voltou a falar sua voz era receosa.
- Inuyasha, cadê a Kagome?
- Estou sozinho agora.
- O que aconteceu? Onde ela está?
Silêncio novamente. Inuyasha esfregou o rosto, os olhos começavam a arder novamente, tinha que desligar aquele telefone e voltar a se focar na sua missão. Não tinha o direito de sofrer uma morte que era culpa sua.
- INUYASHA, RESPONDA! – gritou Miroku.
- Eu não sei, não sei onde ela está, não sei o que aconteceu, está bem? – respondeu Inuyasha apertando o fone com mais força do que o necessário. O aparelho quebraria a qualquer momento se ele não afrouxasse o aperto. – Uma hora ela estava bem e na outra tinha partido!
- Estou indo para sua casa.
Inuyasha não teve tempo de responder, Miroku desligou o telefone na sua cara.
##
Kagome olhou ao redor, aquilo era realmente ridículo. Estava em uma espécie de corredor que parecia não ter fim e ao invés de paredes existiam apenas portas, uma ao lado da outra. Quilômetros e quilômetros de portas destrancadas apenas esperando para serem abertas. Suspirou e virou-se para a direita, existia um número 7 na porta.
- Mas que maravilha, número sete de um milhão. Um dia eu chego lá!
Colocou a mão na maçaneta e virou-a. Mesmo que já tivesse passado por isso nas seis portas anteriores, ainda se sentia surpresa com o que encontrava atrás daquelas portas. Era sua vida. Cada uma daquelas portas a levavam para um momento da sua vida, tudo o que havia perdido estava ali, á sua disposição.
Sorriu a se ver correndo pelo templo dos anjos, mais ou menos com sete anos. O corpo era minúsculo, o cabelo negro curto e bagunçado e os olhos azuis já eram enormes e brilhantes desde aquela época, usava um vestido azul claro na altura dos joelhos e estava descalça. Parou ao notar a presença da Kagome adulta e a encarou de maneira curiosa, era possível notar reconhecimentos nos olhos da pequena criança. Ela sabia quem Kagome era.
- Não pode estar aqui. – cochichou olhando ao redor. – Se Kikyou te pegar estará com grandes problemas.
- Acho que ela não nos encontrará. – respondeu Kagome.
- Ela sempre nos encontra. – respondeu a garota mordendo o lábio.
- Sim, eu sei.
- Está perdida? – perguntou a garota. – Espero que esteja ou eu estou ficando louca. Sou uma criança, mas sei que não é normal pessoas do futuro nos visitarem, ainda mais eu mesma. Aconteceu alguma coisa?
Kagome riu.
- Você não faz nem idéia de quanta coisa aconteceu!
A garota sentou no chão e olhou para cima, como se esperasse que Kagome fizesse o mesmo, quando ela não imitou seus movimentos, cruzou o braço e disse:
- Achei que me contaria o que está acontecendo.
- Desculpe, eu não tenho tempo, existem milhões de outras como nós que preciso visitar. – disse Kagome.
- Isso é estranho.
- Nem me fale! – disse Kagome.
- Estou curiosa, é maldade fazer isso com uma criança.
- Você não fala como uma criança. – retrucou Kagome.
- Mérito seu. – respondeu a garota. – Agora, por favor, me diga o que está fazendo aqui. Posso te ajudar.
Kagome suspirou longamente.
- Vou resumir, está bem? Você ainda não é um anjo, mas vai se tornar um, um dos bons, eu diria que a melhor entre nós, modéstia à parte. Isso porque a Kikyou te treinou melhor do que as outras só porque ela precisaria de você no futuro. Existe um monte de blábláblá no meio da história, mas resumindo as coisas, eu meio que me apaixonei pelo yokai que eu deveria matar, renunciei minha posição de anjo por ele e pelo irmão dele – a garota pareceu confusa e Kagome sorriu. – longa história, não importa agora. Como eu renunciei ser um anjo, perdi minhas asas, parte da minha alma e todas minhas memórias e vim parar aqui. No momento não sei ao certo o que estou fazendo, mas acredito que preciso visitar tudo o que já passei na vida até agora para recuperar minhas memórias.
A garota pareceu chocada com a história, ela mordeu o lábio inferior por alguns instantes e disse, franzindo as sobrancelhas.
- Você fez tudo isso por causa de um menino? Ah, meu Deus, vou me tornar uma apaixonada bobona!
- Não foi só por ele, mas isso não importa agora. Entende porque preciso ir embora agora? Existe um milhão de coisas que preciso ver.
- Quantas coisas já viu?
- Estou na porta sete.
- Estou com sete anos.
- Sim, eu imaginei. Irei embora agora, nos encontraremos logo...
A garota acenou e Kagome virou-se de costas, mas antes que pudesse abrir a garota a chamou.
- Sim?
- Kagome, você lembra-se de toda a sua vida agora? – perguntou a garota, suas sobrancelhas ainda estavam franzidas.
- Sim, por quê?
- Por que sou um gênio. – disse a garota sorrindo. – Sente-se aqui, tenho um plano.
Kagome suspirou. Não achava que o que ela tinha a dizer ajudaria muito, mas não custava nada ouvir. A garota estava melhor do que ela, tinha um plano.
Miroku esmurrava a porta da frente com força. Tentara a campainha, mas não obtivera resultados. De dentro da casa, Inuyasha olhava para a porta com expressão de poucos amigos, achou que se ignorasse Miroku ele iria embora, mas o rapaz parecia decidido. Olhou para as escadas, se ele entrasse não poderia deixar que fosse para o andar de cima, ver uma pessoa morta não era o tipo de lembrança que Inuyasha gostaria de deixar para o amigo. Revirou os olhos, aquela insistência estava começando a irritar.
- Já vai! – gritou.
O rapaz não deixou de esmurrar a porta, mesmo ouvindo o berro de Inuyasha. O hanyou saiu batendo o pé até a porta e a escancarou, deixando Miroku entrar. Ele ficou parado, olhando confuso do hanyou para a casa.
- Não queria entrar?
- Você chorou. – disse Miroku de forma acusadora. – O que diabos está acontecendo aqui?
Inuyasha virou as costas e voltou para o sofá, jogou seu corpo pesadamente por entre o estofado e afundou. Miroku fechou a porta atrás de si e andou até Inuyasha, sentando-se ao lado no sofá.
- A Kagome, Inuyasha, o que aconteceu com ela? – disse.
Ele não respondeu. Seus olhos continuavam fixo na televisão que estava desligada, era como se Miroku não estivesse ao seu lado. Miroku ao notar a expressão do hanyou pegou-o pelo braço e balançou-o com força.
A expressão que recebeu de Inuyasha fez Miroku soltar seu braço. Era um misto assustador de raiva e dor, seus olhos transbordavam de agonia, mas todas suas feições pareciam prestes a matar se fosse preciso. Encarar aquilo era desolador, para Miroku que sempre conhecera Inuyasha, ver tanto desespero chegava a ser doloroso.
- Onde ela está? – sua voz agora era calma, solidária.
- Quer saber onde ela está ou o que sobrou dela? – respondeu Inuyasha, sua voz era amargurada.
- Quero saber onde ela está. – repetiu Miroku sem mudar seu tom.
- Você não precisa fazer isso, não precisa estar aqui, não precisa ver nada disso. – disse Inuyasha. – É um problema meu.
- Já disse que essa história de querer ser herói não combina com você. - retrucou Miroku.
- Não, realmente não.
- Deixe-me vê-la.
- Ela está morta, Miroku, não há nada para ver, acabou.
Ele esperava por essa resposta, por algum motivo soubera que ele diria desde que atendera o telefone, mas era por isso que estava ali. Miroku não acreditava realmente que ela estava morta, as palavras de sua última conversa com a garota ecoavam em sua mente de forma tão clara, era como se ela tentasse lhe dizer que ele estava certo, que ela conseguiria superar aquela situação toda, que a lembrança de Inuyasha havia sido forte o bastante para mantê-la salva. Ele simplesmente não conseguia acreditar que Kagome desistiria de Inuyasha.
- E se ela não estiver morta?
Novamente, a expressão doentia tomou a face de Inuyasha quando ele encarou Miroku, só que dessa vez seus olhos brilhavam perigosamente, era como se não tivesse ao lado do seu melhor amigo e sim de alguém ameaçador.
- Eu sei o que eu vi, eu sei o que eu senti! – respondeu entre dentes. – Se quer tanto assim ter de vê-la morta, então vá, suba as escadas e veja com seus próprios olhos.
Miroku olhou para a escada e depois para Inuyasha, levantou-se e parou em frente ao hanyou. Respirou fundo agarrando-se àquela sensação e disse:
- Não vai subir comigo?
Kagome olhou maravilhada para sua versão criança, não conseguia acreditar que não pensara em algo tão simples. Era tão óbvio! Claro que o plano dela era infantil e não incluía a peça principal, afinal como ela encaixaria Inuyasha se ela sequer fazia idéia da sua existência?
- Acha que vai funcionar? – perguntou a garota. – Na hora pareceu bastante inteligente, mas agora é meio idiota. Não seria tão simples, seria?
- Não custa tentar, não acha? – disse Kagome sorrindo.
Ela balançou a cabeça e encarou Kagome.
- Se não der certo pode ficar aqui comigo. Seria divertido.
- Dará certo, confio em você.
A garota sorriu.
- Então confia em si mesma.
Kagome ajoelhou-se em frente a garota e disse:
- Eu não sei se isso é uma memória ou minha mente falando comigo mesma, mas obrigada por sua ajuda.
- Vai saber o que está acontecendo aqui, não é? – disse a garota e logo ela riu. – Estou conversando comigo mesma, ninguém vai acreditar quando eu contar.
Kagome beijou-lhe a testa e sorriu.
- Boa sorte. – disse a garota.
Ela agradeceu e abriu a porta, deixando sua infância para trás. Olhou para o final do corredor e respirou fundo, aquilo parecia infinito, mas ela não se importava, era sua única esperança. À principio ela apenas andava, mas notou que as portas repetiam os números, deveria realmente ter todas suas lembranças, ao concluir isso começou a correr. Precisava da última porta, ela seria sua salvação.
Kagome correu e correu sem ter noção do tempo, novamente aquela sensação horrível de estar andando em círculos tomou conta do seu corpo, mas o caminho era reto, não havia como ela estar perdida. Ela se agarrou nesse pensamento e continuou em frente, suas pernas começavam a doer, assim como seu pulmão que dava pontadas, não deixou de achar engraçado que sentisse dores em um lugar como aquele, precisava se concentrar em alguma coisa e a dor era a única coisa que conseguia dominar sua mente.
Ela não soube exatamente quanto tempo correu por aquele corredor até finalmente achar seu final, a porta, ao contrário das outras, não estava ao lado, estava em sua frente e não tinha número nenhum. Ficou parada ali por um tempo, tentando recuperar o fôlego e se livrar das dores que sentia, agora em frente à porta sentia medo do que iria encontrar. Poderia ser apenas outra lembrança e não uma saída. Fechou os olhos, respirou fundo e abriu a porta.
Era Inuyasha. Ela ainda tinha os olhos fechados, mas sabia que era Inuyasha quem estava ali, sua presença dominava todo o lugar, era quase possível senti-lo. Ao abrir os olhos sentiu suas pernas bambas, ela também estava ali, mas estava morta. Estava no quarto de Inuyasha, deitada em sua cama e ele estava ao seu lado, chorando, implorando para que ela vivesse. Então essa era a última lembrança que tinha de sua vida? Estava realmente morta?
Kagome ajoelhou-se ao lado da cama e tocou o braço de Inuyasha, tentando fazer com que ele a visse, assim como a garota a tinha visto, mas ele não respondeu. Era como se ela não estivesse ali e realmente não estava.
- Inuyasha, estou aqui, - sussurrou em seu ouvido. – estou viva, ande, olhe para mim!
Nada. Inuyasha estava tão absorto em todo seu desespero, em toda sua dor que não conseguia sequer notá-la. Ela levantou-se e olhou toda a cena, sentindo-se uma intrusa em suas próprias memórias, não tinha direito de ver toda aquela dor que provavelmente ele só demonstrava porque ninguém podia ver. Foi só então que ela percebeu que ele chorava, sim, de seus olhos escorriam lágrimas pesadas que caíam em sua mão inerte e gelada em cima da cama.
Kagome olhou para sua própria mão e sentiu seus olhos queimando. Ele a havia salvo do incêndio, o alívio que ela sentiria quando estava rodeada pelas chamas era as lágrimas de Inuyasha, estava viva graças a ele. Quis chorar ao presenciar aquela cena, era doloroso demais vê-lo de culpar por não poder salvá-la quando havia feito exatamente o contrário. Ela se aproximou novamente do hanyou, mas antes que pudesse falar ouviu o sussurro que saía dos lábios de Inuyasha.
"Sei que já te pedi coisas demais, mas juro que essa é a última, por favor, Kagome, eu lhe imploro, não me deixe, não agora que sei o quanto preciso de você, não agora que sei o quanto amo você, não faça isso comigo, por favor, Kagome, sei que tem forças para voltar. Volte pra mim."
Ele a amava. Ele também a amava! Pela primeira vez ouvira aquelas palavras vindas de Inuyasha, o desespero começou a tomar conta do seu corpo, tinha que dizer para ele que estava ali, tinha que livrá-lo de todo aquele desespero.
- Eu estou aqui, Inuyasha, por favor, não desista ainda, por favor, eu estou aqui, olhe pra mim, perceba que eu não te deixei. Anda, Inuyasha, não faça isso comigo, não agora.
Novamente, nada. E dessa vez ela chorou. Chorou porque não conseguia pensar direito, porque a dor de Inuyasha a afetava de maneira tão profundo, tão absurda que ela não conseguia mais se controlar. Seu corpo balançava para frente e para trás, enquanto soluçava alto e ainda tentava fazer com que Inuyasha a percebesse, mas era inútil, todos seus esforços para ser notada eram em vão. Ele havia desistido.
Inuyasha levantou-se da cama e arrastou-se para fora do quarto, sem sequer olhar para trás. Kagome sentiu um arrepio correr por seu corpo. Uma porta, aquilo era um porta. Limpou o rosto antes de levantar e usou a parede como apoio para andar, estava tonta e sua vista estava embaçada. Agarrou-se na maçaneta como se ela pudesse salvar sua vida e era nisso que ela acreditava, atrás daquela única porta estaria sua salvação. Ou o seu fim.
Abriu-a sem delongas e olhou confusa. A porta levava para o mesmo quarto que estava antes, mas agora Miroku também estava ali. Esfregou o resto tentando se livrar das lágrimas queria ver o que estava acontecendo. Ela estava perto da janela e agora era Inuyasha quem estava perto da porta, olhando tudo de longe, com uma expressão indecifrável.
Miroku olhou para o corpo de Kagome deitado na cama e virou seus olhos para Inuyasha.
- Ela não está morta.
O coração de Kagome acelerou. Aquilo não era uma lembrança, estava acontecendo, ela estava vendo tudo o que estava acontecendo no quarto. Precisava voltar para seu corpo, precisava provar que estava ali.
- Do que você está falando? – disse Inuyasha grosseiramente. – Ficou maluco?
- Venha ver por conta própria. – disse Miroku.
Inuyasha hesitou, Kagome percebeu que ele não queria olhar para seu corpo supostamente sem vida, mas mesmo assim virou seus olhos para encará-la, ele segurou com força no batendo na porta, parecia prestes a cair.
- Ela está respirando. – sussurrou.
Kagome andou até Inuyasha e parou ao seu lado.
- Sim, eu estou viva, eu voltei pra você, confie em mim! – disse.
Miroku e Inuyasha se encararam mutuamente, a sobrancelha de ambos estava franzida.
- Você sentiu isso? – disse Miroku.
Inuyasha apenas acenou com a cabeça.
- Sou eu! Sou eu que você está sentindo!
Kagome cuspia as palavras, não acreditava que eles haviam percebido, mas o que faria agora? Como voltaria para seu corpo? Fechou os olhos forçando sua mente a pensar.
- Isso é muito estranho. – disse Miroku.
Novamente, Inuyasha apenas acenou com a cabeça. Respirou fundo e andou lentamente até a cama, ajoelhou-se ao lado e encarou o corpo de Kagome, o movimento sutil dele respirando era um milagre, poderia vê-lo para sempre.
- Você está ai, não está? Você realmente voltou? – sussurrou.
Kagome ajoelhou-se ao lado de Inuyasha e apoiou seu peso na cama.
- Voltei, eu estou aqui, me veja, por favor, eu preciso de você.
- Como você sabia? – perguntou Inuyasha. – Como sabia que ela não estava morta?
- Você a deixaria?
- Nunca.
- Ela também não o deixaria. Existe algo entre vocês, eu não sei ao certo o que é, Inuyasha, desde o primeiro momento que os vi juntos eu soube que não era normal. Eu acho que vocês agora são um só, na verdade, sempre foram, desde que se encontraram.
- Isso é loucura.
- Pode ser, mas pode dizer que estou errado? Pode dizer que se ela morresse você continuaria a viver?
Kagome esticou a mão e tocou a mão de Inuyasha, encostou sua testa no ombro dele e sussurrou:
- Eu não viveria sem você também, por isso eu voltei. Me note, veja que estou aqui.
Inuyasha levantou a mão e tocou o ombro. Seus olhos se arregalaram e ele encarou Miroku.
- Eu acho que alguém encostou em mim!
Ele voltou seus olhos para o corpo na cama e enlaçou sua mão na dela, ele abaixou a cabeça até a altura de seu ouvido e sussurrou:
- Abra os olhos, Kagome, volte pra mim antes que eu enlouqueça.
Um redemoinho. Foi isso que Kagome sentiu, era como se ela tivesse caído em um imenso redemoinho e não tivesse mais controle nenhuma do seu corpo, lembrou na mesma hora da vez em que tivera que se afogar em sangue e como conseguira voltar a vida e dessa vez, não lutou. Aceitou que aquilo a levasse, seja lá para onde fosse. Seu corpo formigava inteiro e sua cabeça doía, sua visão estava embaçada e nada do que via ou ouvia fazia realmente sentido, mas ignorou toda aquela confusão e se agarrou no único pensamento que conseguia manter:
"Eu quero viver"
Sesshoumaru cruzou os braços em cima da mesa, mas logo levou uma de suas mãos até a têmpora e a massageou na esperança de aliviar aquela insuportável dor que assolava sua cabeça desde a última conversa com Rin. As coisas estavam complicadas agora, sem Kagome estava perdido, sem um rumo, mas precisava confessar para si mesmo que não fazia idéia de como ela poderia ajudá-lo, sempre acreditara que ela poderia salvar Rin, mas acreditava nisso muito mais por Kagome ser quem era do que por alguma habilidade especial ou um conhecimento de como usá-la. A verdade é que toda sua confiança em Kagome nascera graças ao momento em que ela aparecera, era a última pessoa a quem ele poderia pedir socorro.
Suspirou e massageou novamente a têmpora. Quanto tempo ainda teria que esperar até que Kikyou chegasse? Sabia que ela não iria até Inuyasha primeiro, sua visão doentia da realidade a instigava a querer se vingar, acreditava cegamente que ele tivesse separado a vida dos dois, "como se eles tivessem realmente predestinados a ficar juntos", pensou revirando os olhos. Sabia perfeitamente que Kikyou era sua maior preocupação, se existia alguém no mundo capaz de lhe causar dor de cabeça, esse alguém era ela, toda sua pose, toda sua mania de se achar superior aos outros tinha fundamento; ela era absurdamente forte.
Sesshoumaru sempre achou que a fonte de sua força era seu ódio, o ódio que ela insistia em nutrir por qualquer um que ousasse entrar em seu caminho. Ou no de Inuyasha. O que realmente acontecia é que ela estava louca e essa era a fonte de sua preocupação, pessoas loucas não medem suas ações e tornavam-se um perigo constante. Kikyou era como uma bomba atômica só esperando para explodir. E seria ele a ativar essa bomba.
- Você me chamou pra falar alguma coisa importante ou só pra apreciar sua incrível capacidade de fazer cara de retardado?
Sesshoumaru virou os olhos para sua esquerda e lembrou-se da presença de Kouga. Não havia percebido ao certo quando ele entrada, mas em algum momento havia sentido a presença do yokai só que continuou tão perdido em seus pensamentos que o ignorou. Balançou a cabeça revolvendo ignorar o comentário do lobo, afinal ele não estava tão errado em reclamar, até esperara bastante.
- Os anjos não virão mais. – disse finalmente.
- E como sabe disso? – retrucou Kouga.
- Porque a Kikyou está vindo. É o final de tudo.
- Finalmente, o chefão do jogo.
Sesshoumaru arqueou a sobrancelha.
- Chefão do jogo? Pra quem odiava o mundo dos humanos você parece bastante informado.
Kouga mexeu os ombros mostrando indiferença.
- Odeio humanos, não odeio o que eles criam. Vídeo-game é uma das criações mais geniais deles, você tem que concordar comigo.
Sesshoumaru se perguntou como diabos Kouga jogava vídeo-game se ele vivia no meio do mato com um bando de selvagens, mas deixou isso de lado, não era hora para aquelas perguntas estúpidas. Voltou a cruzar os braços na mesa e continuou a falar:
- Está aqui porque conhece essa região melhor do que ninguém. Kikyou virá até mim e não quero que ninguém se intrometa, essa luta é minha, sempre foi.
- Ta, mas o que isso tem a ver comigo? – respondeu Kouga soando verdadeiramente confuso.
- Preciso que você e seus companheiros vigiem a área ao redor da minha casa, impedindo que qualquer um chegue aqui, seja humano ou yokai. Vocês conhecem cada canto desse lugar, ou seja, são os melhores guardas que alguém poderia ter.
- Olha, não estou querendo ser paranóico nem nada do tipo, mas nunca fomos parceiros de vida, amigos do peito que dão a vida um pelo outro, então porque está pedindo que logo eu guarde sua luta? O Bando dos Sete ainda não foi embora, eles são leais a você, protegeriam seja lá o que você quer proteger muito melhor do que eu. – disse Kouga.
Sesshoumaru respirou fundo e mais uma vez levou suas mãos à têmpora. Como diria aquilo sem soar arrogante, sem menosprezar o yokai? Sabia que ofender o ego de um yokai era o pior que poderia fazer e não faria isso com um que precisava.
- Sim, você tem razão, eles seriam mais indicados para isso do que você e o seu bando exatamente pela lealdade que têm para comigo, mas mesmo que sejam leais não seriam capazes de obedecer a ordem que eu daria. O que estou fazendo com você aqui não é uma ordem, é um pedido.
Kouga arqueou a sobrancelha.
- O grande Sesshoumaru fazendo um pedido para mim? O que poderia ser?
- Isso tem a ver com a Kagome. E com o Inuyasha.
As feições do yokai se desmancharam e ele apertou os punhos com força, seus olhos cerraram e ele encarou Sesshoumaru por um longo tempo. Não gostava de estar ali para ouvir algo sobre eles, na situação que estavam nenhuma notícia que envolvia os dois era boa para ele.
- Eu não sei se Inuyasha pôde salvar Kagome, - disse Sesshoumaru tentando soar controlado. Kouga soltou um som gutural e suas garras se alongaram até perfurar sua carne. – eu realmente não sei o que está acontecendo lá nesse momento. Mas eu sei que se ele não puder salva-la virá para cá, procurará vingança, se intrometerá na minha luta. E vai morrer.
- Está querendo que eu o proteja, é isso? – a voz de Kouga era pura raiva. – E porque eu faria? Porque eu salvaria o desgraçado que matou a Kagome?
- Não estou pedindo nada disso, - disse Sesshoumaru. – quero apenas que o mantenha afastado da minha luta. Se precisar desacordá-lo, faça.
- E o que garante que eu não o matarei?
Sesshoumaru balançou a cabeça num movimento rotineiro.
- Se o matar, me livrarei da Kikyou e perseguirei você e todo seu clã, até não restar nada além de tufos de pêlo de lobo queimado voando.
- Foda-se você! – retrucou Kouga. – Acha que somos seus soldadinhos de brinquedo? Acha que pode nos usar como bem entende? Não estamos aqui para servi-lo, muito menos para agir em seu bel prazer, não usa o bando porque eles matariam seu irmãozinho com um suspiro e então, teria o trabalho de matar todos os sete à troco de nada.
- Agora você está se menosprezando, - disse Sesshoumaru sem mudar em nada sua calma. – o que lhe faz acreditar que daria mais trabalho matar apenas sete yokais do que todo o seu clã, que tem mais de trinta?
- A diferença é que não o servimos, - retrucou Kouga na mesma hora. – matar meu clã não destruiria toda sua agendinha de contatos. O que aconteceria se você se virasse contra seus sete lacaios mais puxa-sacos? O que os outros pensariam de você? Perderia todos os anos de glória.
Sesshoumaru ficou em silêncio alguns minutos, apenas tentando acompanhar toda a linha de pensamento de Kouga, para ele nada daquele fazia sentido, não pensava no futuro ou em precisar de yokais 'lacaios' para fazer suas vontades, nada daquilo passara por sua mente. De maneira estranha, era até óbvio que ele pensasse daquela maneira, mas para o yokai aquilo tudo não passava de bobagens, não tinha a ver com ele, com seus planos. Revirou os olhos relutante, não queria ter de falar sobre aquelas coisas logo com Kouga, mas seu tempo estava esgotando e era preciso.
- Eu não me importo com o que os outros vão pensar se eu tiver que matar meia-dúzia de yokais que puxam o meu saco, eu não preciso deles, mas eu preciso de você. Chamei você aqui porque achei que seria o único a entender meus motivos, eu estou velho, Kouga, vivi demais e tudo o que eu fiz foi merda atrás de merda, eu não quero essa vida para ele. Se Kagome realmente morrer é isso que irá acontecer, o ciclo de ódio e vingança vai começar de novo e talvez nunca tenha fim, se deixar que ele passe estará destruindo sua vida, assim como Kikyou destruiu a minha ao negar ajuda à Rin. Você passou por isso, você sabe o que acontece quando as perdemos, mas quantos anos eu ou você tínhamos quando passamos por isso? Ele não passou por tudo o que passamos, não vai conseguir sobreviver.
- Eu não vou cuidar dele. – retrucou Kouga irritado, mas muito mais calma do que antes.
- Não estou pedindo isso, a verdade é que eu não sei o que acontecerá em breve, não sei se estarei aqui para orientá-lo quando a hora chegar, e não é justo que eu te peça isso, mas é o único yokai que posso pedir isso. Vocês irão compartilhar a mesma dor.
- Essa foi a coisa mais imbecil e homossexual que ouvi na minha vida. Poderia simplesmente falar que está com medo de morrer e deixar o lesado do seu irmão sozinho de novo no mundo, louco por vingança por alguém que ele não pode matar. – disse Kouga cruzando os braços e revirando os olhos.
- É uma maneira simples e vergonhosa de ver as coisas. – retrucou Sesshoumaru.
- Ta legal, vou ficar de olho no otário, mas farei isso só porque sei que durará pouco tempo. Você vai ter o lugar livre pra brincar com a Kikyou e quando terminar o serviço te entrego o garotão de volta.
Sesshoumaru esboçou algo que lembrava um sorriso.
- Obrigado.
Kouga simplesmente deixou o queixo cair e seu rosto assumir uma expressão chocada. Sesshoumaru sorrira. Sesshoumaru agradecera. Naquele instante, Kouga percebeu que ele talvez realmente acreditasse que iria morrer. Ou simplesmente estava velho o bastante para ficar caduco.
Um imenso e cegante céu azul. Foi isso que Inuyasha achou ter visto quando Kagome finalmente abriu os olhos, havia vida ali, havia brilho, havia o que ele tanto amava e conhecia, havia Kagome. Seu corpo fugiu do seu controle e ele sentiu o colchão macio tocando suas costas, estava deitado com um sorriso tímido nos lábios.
Kagome piscou algumas vezes se acostumando com a claridade, odiava aquela cegueira que assolava sua visão logo depois de passar horas com os olhos fechados. Revirou-se na cama, tateando o colchão, procurando por alguma coisa e antes que pudesse sentir qualquer coisa que fosse, uma mão enlaçou a sua e ela sorriu. Estava viva.
- Bem vinda de volta. – disse Inuyasha.
- Obrigada por esperar. – respondeu Kagome.
- Bem, acho que meu papel aqui já está feito e posso ir embora. – disse Miroku andando em direção à porta.
- Miroku, obrigada por lembrar da nossa conversa. – disse Kagome encarando o rapaz. – Você também me salvou.
Ele sorriu e mexeu os ombros, parecendo tímido.
- Está tudo bem, não precisa agradecer, só não invente de morrer novamente. Da primeira vez é legal, da segunda a gente até aceita, mas a terceira não tem graça nenhuma!
- Nem me diga, se depender de mim, vou demorar muito pra morrer de novo. – disse Kagome revirando os olhos.
- Espero que saibam que parecem malucos conversando sobre isso. – disse Inuyasha.
- Bem, essa é a novidade da sua vida: somos todos malucos. – disse Miroku. – Deixarei vocês sozinhos, mais tarde volto, precisamos conversar.
- Hei, Miroku?
O rapaz arqueou a sobrancelha e encarou Inuyasha.
- O quê?
- Obrigado. – disse simplesmente.
Miroku sorriu e balançou a cabeça.
- Você destruiu meu amigo, senhorita Arashi, espero que resolva esse problema.
- Farei o possível. – respondeu Kagome sorrindo.
Inuyasha acompanhou de olhos fechados o som da porta abrindo e logo depois fechando. Virou seu corpo de lado, afim de ficar de frente para Kagome e deu um meio sorriso quando percebeu que ela fazia a mesma coisa.
- Como você está? – perguntou.
Kagome respirou fundo antes de responder.
- Estou bem e você? Sua cara está péssima. – e ela esticou a mão para tocá-lo no rosto, acompanhando todo o seu formato.
- Achei que você tinha morrido. – respondeu como se tentasse se justificar. – Não faz idéia em tudo o que passou pela minha cabeça.
- Sim, eu faço, - respondeu Kagome. – tenho certeza que as mesmas coisas passariam pela minha se eu te perdesse agora.
- Como conseguiu voltar? O que aconteceu lá?
Kagome sorriu e repousou a mão no rosto dele, fazendo círculos com o dedão.
- Você me salvou, Inuyasha. Quando eu estava perdida eu buscava por alguém, mesmo sem saber quem era. Quando eu estava perto de sumir, suas lágrimas me salvaram. Quando eu precisava de uma memória, foi a sua memória que me trouxe. Foi você, desde o começo.
Inuyasha fechou os olhos e respirou fundo.
- Achei que fosse o culpado, achei que não conseguiria te salvar.
- Sesshoumaru disse que somente você poderia me salvar, ele estava certo. Ninguém mais teria o poder de me tirar de lá, eu não tenho motivos para voltar, eu não tenho nada aqui forte o bastante, nunca tive, só teria significado eu voltar se você me quisesse na sua vida. Você é a única coisa que eu tenho agora.
Inuyasha apenas curvou sua cabeça para frente e encostou seus lábios no de Kagome, num toque suave e gentil. Os dois continuaram deitados na cama, apenas se encarando, com as mãos entrelaçadas, era como se buscassem guardar na memória todas as feições do outro, como se quisesse uma comprovação de que aquilo era real. Os últimos dois dias tinham sido tão complicados, tão cruéis com ambos. Kagome e Inuyasha tinham noção da sua pouca idade, compreendiam perfeitamente que seus sentimentos e tudo o que haviam passado até aqui ia muito além do que qualquer outra pessoa da sua idade poderia sentir, mas mesmo que não falassem em voz alta sabia que não era algo que pudessem controlar.
Desde o primeiro momento que haviam se encontrado a atração tinha sido tão forte, tão arrasadora que era impossível conseguir viver normalmente depois daquilo, eles não eram como as outras pessoas. Ele era um hanyou e ela um anjo, talvez seus sentimentos fossem diferentes, talvez toda aquela intensidade entre eles era resultado de suas condições, humanos não podiam sentir aquilo. Humanos não conseguiam depender tanto de outro ser humano para viver, o que existia entre chegava a não ser saudável, mas era tarde demais. Suas vidas já estavam entrelaçadas, assim como seus destinos.
- O que acontecerá agora? – perguntou Kagome subitamente.
- Sobre o que você está falando agora? – disse Inuyasha.
- Tudo. O que faremos a respeito do que temos? O que farei para salvar a Rin? O que farei com Sesshoumaru? O que será da minha quando tudo isso terminar? O que eu sou agora?
- Talvez você devesse apenas dormir por enquanto, você precisa descansar. Amanhã nos preocuparemos com isso. – disse Inuyasha.
- Vai ficar aqui comigo? – perguntou Kagome soando como uma criança manhosa.
- Como se eu pudesse ir para outro lugar. – retrucou Inuyasha olhando para sua mão, que ela agarrava como se fosse sua própria vida.
Kagome sorriu e arrastou seu corpo para frente, encostando sua testa no peito de Inuyasha e se aninhando perto do corpo do hanyou. Existia um milhão de coisas que queria dizer para ele, mas ele tinha razão, precisa descansar, sentia-se tão cansada que poderia desmaiar.
Sesshoumaru olhou pela janela, o sol já estava sumindo por entre as montanhas e o céu tinha uma coloração avermelhada muito forte, respirou fundo e olhou para Kouga que ainda estava ao seu lado, mesmo que já tivesse dito que deveria ter ido embora há horas.
- Parece que sua espera serviu para alguma coisa. – disse o yokai.
Kouga sorriu vitorioso.
- Ela chegou, não é? Eu sabia que ela chegaria hoje.
- Como tinha tanta certeza?
- Kikyou sempre chega cedo. Algumas pessoas pecam por atraso em um encontro, ela sempre pecou por antecedência.
- Não temos um encontro. – retrucou Sesshoumaru.
Kouga balançou os ombros e levantou-se da cadeira.
- Que seja, - disse. – vigiaremos todo o seu terreno.
- Conto com isso.
Kouga hesitou um pouco e pareceu pensar muito se falava ou não, mas balançou a cabeça e resmungou um "dane-se" antes de falar.
- Sabe que se precisar de ajuda estaremos por perto. Não é o único que quer matá-la.
Pela segunda vez no dia, Sesshoumaru sorriu. Kouga não achou que aquilo era um bom sinal, mas não ficaria sentado conversando sobre sua teoria de que o ataque de Sesshoumaru era mais como uma missão suicida, realmente não acreditava que ele era capaz de morrer, não nas mãos de Kikyou. Mexeu novamente os ombros e disse:
- Estou só falando, sei que não precisa, mas é egoísmo guardar o anjo mais odiado só para você.
O yokai não respondeu e Kouga entendeu o recado, revirou os olhos e saiu da casa. "Que se dane também, não estou preocupado com um lunático como ele" pensou enquanto procurava por seus companheiros.
Sesshoumaru respirou fundo e caminhou até o jardim nos fundos da casa, tocou as cadeiras de ferro, o chafariz, regou as plantas, inspirou o ar leve e perfumado daquele lugar que por tantos anos ele cuidara como se fosse sua vida, como se fosse a personificação de Rin. Deixou-se aproveitar as sensações de paz que só sentia ali, até que a presença de Kikyou se tornasse tão intensa que era impossível ignorá-la. Ela estava lá em frente, pronta para enfrentá-lo. E ele não deixaria que ela esperasse muito mais.
Atravessou a casa pelo jardim lateral e chegou até a porta da frente, Kikyou alargou os lábios em um sorriso ao ver o yokai e cruzou os braços.
- Achei que teria de buscá-lo em seu santuário a força. – disse.
- Não lhe daria tanto trabalho, - respondeu Sesshoumaru. Sua calma e indiferença continuam presentes em sua voz. – já fiz que viesse até aqui, seria uma falta de educação, não é?
- Sem dúvidas. – respondeu Kikyou. – Fico feliz que ao menos saiba disso.
- O que realmente espera vindo até aqui? – perguntou Sesshoumaru. – Sei que deseja me matar, mas o que há além disso? O que está buscando?
Kikyou gargalhou alto, sem emoção ou diversão alguma.
- E desde quando você resolveu se tornar psicólogo? – perguntou com os olhos cerrados.
- Apenas fiz uma pergunta, acho que está aqui por causa do Inuyasha, não é?
Os olhos verde de Kikyou faiscaram e ela pareceu completamente louca por alguns segundos.
- Não fale dele! – disse entre dentes.
Dessa vez, foi a vez de Sesshoumaru gargalhar, mas sua risada tinha um tom realmente divertido.
- Você é uma piada, Kikyou, será que ainda não entendeu que não é de você que ele precisa? Ele nunca precisou, nem nunca irá precisar. É você que precisa desesperadamente dele para ser feliz, mas isso não irá acontecer. Você nunca será feliz. Trazer Kagome para cá foi o pior erro que você poderia cometer, acha mesmo que com ela ao seu lado, Inuyasha vai querer alguém destroçada como você? Você perdeu sua oportunidade, Kikyou, e é hora de aceitar isso.
- CALE A BOCA! – gritou Kikyou furiosa. – CALE A BOCA, SEU DEMÔNIO, VOCÊ NÃO SABE NADA SOBRE MIM!
Sesshoumaru sentiu o ar ao seu tomar tomando forma, sabia o que viria a seguir, mas apenas sorriu.
- Perdendo o controle tão rápido? Você está mesmo desesperada.
O vento tornou-se afiado como lâminas, cortavam a pele de Sesshoumaru que apenas mantinha o sorriso no rosto. O corte tinha apenas um segundo para sangrar antes que a pele voltasse ao normal.
- Você vai se arrepender! – rosnou Kikyou. Seus olhos verdes brilhavam de forma pouco humana, naquele momento ela estava mais perto de se tornar uma guerreira do que ser uma simples mulher comum.
- E o que está esperando, estamos aqui para isso, - provocou Sesshoumaru. – como veio de tão longe, deixo ter as honras de começar.
Kikyou cerrou os olhos e jogou o casaco preto que usava no chão, ele era pesado demais e só iria lhe atrapalhar. Seu rosto tinha uma expressão de ódio que se misturava a sua concentração, de seus lábios surgiu um sorriso provocativo. Ela voltara a se controlar.
- Isso vai ser interessante.
Sesshoumaru sentiu um baque forte direto em suas costelas e deu passos para trás, graças ao impacto. Kikyou continuava perfeitamente imóvel onde estava antes, com o mesmo sorriso nos lábios. O yokai sabia o que ela estava fazendo, Kikyou era antiga, conhecia todos os truques que os anjos usavam, qualquer um deles, ela podia controlar qualquer coisa que quisesse, tinha poder para comandar o ar daquela maneira. O que sentira em suas costelas nada mais era do que um pequeno tufão de ar concentrado, acertando-o com força. Aquele tipo de ataque era o que mais lhe irritava, era o mais covarde de todos, afinal, ela não se aproximava, usava o ar como um escudo impenetrável.
Novamente o soco de ar o atingiu, mas dessa vez ele não se moveu, seus pés estavam fincados no chão e tinha controle sobre seu corpo. Tentou investir um ataque direto na mulher, mas como imaginara que aconteceria, fora repelido, o ar criou uma barreira e o empurrou para longe. Ele cerrou os olhos se odiando por não ter se preparado para isso.
- O que foi, Sesshoumaru? Difícil me alcançar? Estou aqui. – disse Kikyou com um tom risonho na voz.
Ele não respondeu. Fazia tempo que não usava aquela sua arma, mas era a única maneira de chegar até Kikyou, era parte do seu corpo, mesmo depois de todos essas décadas sem usar, ele saberia controlar aquele poder. Esticou seu braço direito e encarou a mão, novamente um soco o atingiu, mas dessa vez o queimou, ela agora também estava usando o fogo. Revirou os olhos pulando toda a parte dramática em usar aquilo, sentiu como se seus ossos saíssem de seu braço e se materializassem em suas mãos, mas era apenas uma energia que se concentrava ali. Um brilho amarelo começou a crescer e antes que Kikyou entendesse o que estava acontecendo sentiu uma espécie de corda enrolando-se em sua perna e a derrubando, olhou para Sesshoumaru com ódio enquanto era arrastada até o yokai. Quando ela estava perto o bastante, Sesshoumaru ergueu o pé com vontade e afundou no rosto de Kikyou, o sangue jorrou alto quando o nariz quebrou.
Ela urrou de dor e Sesshoumaru sentiu seu corpo sendo jogado para longe com muito mais força dessa vez, ele voou alguns metros antes de perder o impulso e cair no chão, raspando as costas durante todo o caminho. Enquanto tentava se levantar, Kikyou sentou em seu peito e fechou a mão e socando seu rosto com força, o sangue saiu de sua boca já no primeiro golpe. Kikyou era mais alta do que um anjo comum e mais velha, isso fazia com que tivesse mais força física do que qualquer outra, ainda assim ela sabia que em uma luta corpo-a-corpo não teria chances. Tinha que sair de cima do yokai se quisesse ter alguma vantagem, mas sua vontade de machucá-lo com suas próprias mãos, de feri-lo, assim como ele tinha ferido-a por anos era tão incontrolável que não conseguia agir racionalmente. Ela queria derramar o sangue de Sesshoumaru e queria que suas mãos fizessem isso.
Sesshoumaru sentiu seu sangue ferver ao estar naquela posição, mas precisava de Kikyou perto, só assim poderia vencê-la. Sentiu suas garras crescendo e juntou os dedos, formando uma espécie de lança com a própria mão, a mulher estava tão ocupada em descontar sua raiva que não notou o movimento rápido de Sesshoumaru, somente quando a dor tomou conta do seu corpo ela olhou para baixo e deparou com um rasgo em sua barriga. Sesshoumaru tinha a mão inteira dentro de sua barriga e agora rasgava seus órgãos, o som que saiu de sua garganta como um urro de um animal. Segurou o braço do yokai, tentando tirá-lo de dentro de si, mas seu esforço era inútil, arranhou o braço com suas próprias unhas e depois o rosto dele, mas ele continuava imerso em sua missão de destruí-la de dentro para fora. Literalmente.
Kikyou controlou o horror que a visão daquilo tudo lhe causava e colocou toda sua força em seus pernas, tinha que sair dali, tinha que manter uma distância segura. Antes que conseguisse finalmente se livrar das garras de Sesshoumaru, ele fez questão de lhe dar um soco na cara, fazendo seu maxilar estalar de forma dolorosa. Kikyou correu como um animal acuado e curvou o corpo tentando aliviar a dor insuportável que sentia, não queria sequer olhar para si mesma ou vomitaria.
Sesshoumaru levantou-se, o brilho amarelo ainda se mantinha em sua mão e agora era possível ver que era uma linha fina e comprida. Kikyou abriu a boca, parecendo chocada com a visão da arma.
- O chicote! – ela disse. – O chicote do seu pai! Como você tem isso?
O yokai arreganhou os lábios em um sorriso satisfeito.
- Parece que conhece a herança da família!
- Eu destruí isso! – disse Kikyou tentando não soar infantil.
- Inu-Taisho não te contou? – a expressão de pavor no rosto de Kikyou só serviu para deixar Sesshoumaru ainda mais sorridente. – Esse não é o chicote do meu pai, esse é meu. Essa arma está no nosso sangue, pensei que anjos soubessem disso.
Kikyou soltou um som de surpresa, mas logo que recompôs. Sua barriga doía e podia sentir o sangue escorrendo pelo seu corpo, seu maxilar parecia que estava fora do lugar e seu nariz não parava se sangrar.
Sesshoumaru balançou sua mão e o chicote imitou o movimento, Kikyou acompanhou com os olhos enquanto a luz amarela chegava até ela, o ardor em sua bochecha lhe avisou de que ele havia acertado o alvo. E provavelmente levado um pedaço do seu rosto junto.
- Isso vai ser realmente interessante. – disse Sesshoumaru.
Kikyou quase explodiu de ódio. Ele estava zombando de sua cara.
Existia fogo por todos os lados. Ela conhecia aquele sonho, sabia o que estava acontecendo, mas quando prestou atenção notou que dessa vez algo diferente aconteceria. Ela estava lá, só que presa, ela esmurrava alguma coisa que simplesmente não estava ali. E sua boca se mexia como se gritasse, como se implorasse para ser ouvida, mas nada além do som do fogo destruindo tudo era ouvido.
Então ela enxergou além do fogo e do seu desespero. Ela viu o que tinha para ser visto. E um alarme soou em sua mente.
Kagome abriu os olhos assustada. Desde quando estava dormindo? Ela sequer lembrava-se de ter caído no sono, sentou-se na cama tentando organizar sua mente, tinha que fazer um plano. Algo iria acontecer, algo grande demais para ser deixado de lado e ela sabia que seu lugar não era ali à salvo, ela tinha que estar lá fora lutando, seja lá pelo o que fosse. Talvez tivesse que lutar por si mesma pela primeira vez.
Inuyasha a encarou confuso, Kagome fechara os olhos por menos de cinco minutos e agora parecia agitada.
- O que foi? – perguntou sentando-se também.
Kagome olhou para o lado surpresa, parecendo lembrar-se que Inuyasha estava ali. Ele percebeu o a surpresa e franziu o cenho. Ela não poderia estar perdendo a memória de novo, poderia?
- Que horas são? – disse Kagome olhando ao redor atrás de um relógio.
- Não sei, talvez sete. – disse Inuyasha. – Por quê? O que está acontecendo?
Ela olhou para a janela, mas a cortina cobria sua visão, revirou os olhos e levantou-se indo até lá, olhou diretamente para a montanha que Sesshoumaru vivia, procurando por algum sinal. Não havia nada. "Pelo menos, por enquanto" pensou.
- Temos que sair daqui. – disse Kagome olhando Inuyasha seriamente.
- Do que é que você está falando? – disse Inuyasha confuso.
Kagome mordeu o lábio.
- A Kikyou está aqui, não me pergunte como eu sei, eu apenas sei. Você consegue senti-la?
Antes de responder, Inuyasha se concentrou, tentando reconhecer no ar aquela sensação estranha que só sentia quando Kikyou estava por perto. Nada. Acenou negativamente com a cabeça.
- Ela está escondendo a presença, - disse Kagome e ela parecia falar sozinha. – sei que ela pode fazer isso, mas porque ela estaria escondendo? O que ela está escondendo da gente?
- Kagome, do que você está falando?
Kagome apontou para fora da janela em direção à casa de Sesshoumaru.
- Tenho que estar lá, - disse. – ou melhor, temos que estar lá. Sesshoumaru precisa de nós agora.
A expressão de Inuyasha assustou Kagome, ele parecia aborrecido com aquele comentário, como se ele tivesse dito algo horrível que o ofendesse.
- Você não pode estar falando sério. – disse entre dentes.
- E por que não? – retrucou Kagome cruzando os braços.
- Kagome, essa é a luta do Sesshoumaru, ele nos deixou isso claro inúmeras vezes, acha mesmo que iríamos ajudar de algum jeito? O que podemos fazer? Você não é mais um anjo, não pode lutar. Eu sou um hanyou, não posso fazer nada além de me esquivar de ataques.
- Tenho que ir lá. Como espera que eu salve a Rin?
Inuyasha levantou-se da cama e começou a andar de um lado para o outro do quarto, parecendo irritado. Enquanto falava, gesticulava com os braços inteiros da maneira dramática,
- Você não precisa salvá-la! Essa não é sua missão! Acabou, Kagome, já cumprimos nosso destino e estamos livres dessas brigas, isso não tem mais nada a ver conosco. Anjos, yokais, atração, maldições... Nada disso faz parte das nossas vidas.
- E só por que eu não sou mais um anjo eu devo abandoná-la lá? Eu dei minha palavra para o seu irmão, ela não vale nada? – a voz de Kagome estava aguda demais, demonstrando sua irritação.
Inuyasha grunhiu.
- Você ao menos faz idéia de como salvá-la? Tem certeza de que precisa estar lá, NO MEIO DA LUTA – Inuyasha gritou essa última parte. – para salvá-la? Não pode simplesmente esperar que ele mate a Kikyou e venha te procurar?
- E se ele não conseguir matá-la? E se eu nunca tiver a oportunidade de cumprir minha palavra enquanto ele está vivo?
- E se ele sobreviver? E se ele vier e te pedir ajuda?
- Qual é o seu problema afinal de contas? Estou dizendo que seu irmão pode morrer e você continua parado aqui, discutindo comigo como se isso pudesse realmente mudar minha decisão. Eu vou até lá, com ou sem você.
Inuyasha parou de andar pelo quarto e encarou Kagome tão profundamente que ela chegou a sentir o peso de todo o ódio dele caindo sobre si. Ele piscou algumas vezes e andou até ela, ficando em sua frente, agora que Kagome crescera era possível encará-la frente a frente.
- Você não vai até lá. – sua voz soava como uma ordem.
- Não? Então veja!
Kagome desviou de Inuyasha e caminhou em direção à porta, mas sentiu-o prendendo-a antes que conseguisse sair. Ele voltou a encará-la daquela maneira e instintivamente, Kagome encolheu os ombros, tinha certeza que ele nunca a machucaria, mas era impossível não temer aqueles olhos.
- Mas que merda, Kagome, por que você nunca muda? Por que não consegue deixar de ser egoísta? – resmungou.
- Eu sou egoísta? EU? – disse Kagome em tom de deboche.
Inuyasha suspirou fracassado.
- Não consegue perceber que não quero vê-la em perigo? Se formos até lá, eu não terei como protegê-la! Sabe o que eu passei quando achei que estava morta? Eu estava disposto a tirar minha própria vida! Você diz que imagina minha dor, porque se sentiria do mesmo jeito, mas você nunca passou pelo o que eu passei, você não compreende a dimensão do desespero, é como se alguém arrancasse seu coração com a mão e você fosse obrigado a continuar vivendo do mesmo jeito! Você imagina, mas não sabe realmente como é sentir isso.
Kagome respirou fundo e tocou a mão de Inuyasha, gentilmente.
- Eu não vou morrer, eu prometo.
- Não prometa algo que não depende de você. – disse Inuyasha sério. – Estou pedindo, por favor, não vá até lá, espere que ele venha até você.
- Inuyasha, eu tenho que estar lá. Eu sei disso.
Inuyasha parecia frustrado.
- Porque você nunca pensa em mim?
- Está sendo injusto.
Ele riu, mas somente a ironia conseguia ser percebida naquele ato.
- Injusto? Há menos de duas horas eu estava pensando em me matar por que eu acreditava que você estava morta e agora sou injusto por não querer perdê-la novamente? Desculpe se não quero arruinar minha vida só porque você não consegue ficar longe de problemas!
- Você não entende, - disse Kagome. – eu vi o que vai acontecer lá. Lembra do meu sonho? Aquele que eu tive quando estava no hospital? Vai acontecer, Inuyasha, eu vi de novo.
O sangue gelou no corpo de Inuyasha. Ele lembrava perfeitamente do sonho, como se esqueceria de alguém dizendo que ele iria morrer no meio do fogo?
- Você só pode estar louca, - disse Inuyasha. – sabe o que vai acontecer e quer ir para lá? Vamos morrer!
- Não, não vamos. – disse Kagome com firmeza.
Inuyasha não respondeu, sua vontade foi gritar para que se ela quisesse se matar, que fosse sozinha, que saísse de uma vez daquele quarto e de sua vida e o deixasse em paz, mas a certeza de que nada aquilo funcionaria o deixava simplesmente louco. Às vezes, realmente se odiava por ter amado alguém como Kagome, ela ainda o levaria à ruína.
- Estou indo, se quiser venha comigo. – anunciou a garota finalmente.
O hanyou não respondeu, apenas a soltou. Quando ouviu o barulho da porta abrindo fechou os olhos com força e disse:
- Se sair por essa porta agora, não precisa voltar mais.
Kagome segurou com força o batente da porta, que opção mais baixa e cruel! Respirou fundo querendo chorar, sabia que iria se arrepender de sua decisão, mas seu corpo estava sendo atraído por aquele lugar com tanta força que tinha certeza que nem se resolvesse ficar, ela conseguiria.
- Sinto muito. – disse antes de sair.
Inuyasha cerrou seu punho com força, novamente Kagome o deixava.
Sesshoumaru estava girando numa espécie de redemoinho, sua cabeça pendia para o lado e não tinha controle nenhum do seu corpo, tentava sair daquela armadilha que Kikyou o havia prendido, mas era difícil sequer pensar. Batia ora contra o chão, ora contra algumas árvores, ora contra pedras. Sua cabeça sangrava e latejava, sua visão estava começando a se tornar turva, não sabia se era por causa da velocidade com que se debatia no ar, pelas pancadas ou pelo sangue que perdia.
Kikyou, por sua vez, estava encostada em uma parede da entrada da mansão, seu corpo estava curvado devido ao corte na barriga, mas não tirava os olhos de Sesshoumaru, sequer piscava ou respirava, precisava de toda sua concentração para mantê-lo ali naquela velocidade. Tinha que mantê-lo afastado do chicote, afinal era a única arma que ele tinha. E a única que ela não podia destruir.
O yokai tentou forçar sua vista, buscava algo que servisse como apoio para tirá-lo dali, algo em que pudesse se agarrar, mas tudo estava borrado e confuso. Teria que usar seu instinto, tentou que seu chicote prendesse em algo várias vezes, sem sucesso. Até que uma árvore surgiu em meio a todos os borrões e ele usou o chicote para grudar na planta com toda a força que tinha, o baque de sair do redemoinho estalou seu pescoço alto o bastante para Kikyou achar que o tinha quebrado.
Ele não tinha tempo para descobrir o que tinha acontecido com seu pescoço, correu até onde Kikyou estava tentando novamente forçá-la a uma luta corpo-a-corpo, ao vê-lo se aproximando a mulher ergueu o corpo, como se sua barriga não tivesse um rasgo enorme, e se preparou para o baque. Naquele momento, não tinha força para usar o ar como barreira ou qualquer outra elemento ao seu favor.
Sesshoumaru tinha as garras expostas e usava-as para desferir cortes profundos em Kikyou, que conseguia apenas se esquivar dos ataques. A mulher tinha movimentos lentos e raramente conseguia escapar das investidas de Sesshoumaru, usava a mão para proteger o rosto, ao menos era nisso que o yokai acreditava. Quando percebeu o plano de Kikyou, já era tarde demais, ela levara a mão que tinha um corte profundo até os lábios. No mesmo instante, Sesshoumaru se afastou, deveria ter previsto que isso aconteceria, mas achou que conseguiria derrotá-la antes que tivesse chances, agora estava realmente preocupado. Precisava de um plano.
No mesmo instante que o corpo de Kikyou começou a liberar ondas de poder, o céu se tornou de um cinza tão escuro que parecia que anoitecera de repente. O som de trovões ecoava tão altos, tão poderosos que Sesshoumaru demorou a se acostumar com aquele som, achou que ficaria surdo a qualquer momento. E em meio a tudo isso, ainda existia o brilho cegante de milhões de relâmpagos que caiam ao redor, causando um som alto e mortal. O yokai olhou para o céu, tentando se lembrar da última vez que vira uma reação tão forte assim, a resposta que teve não lhe agradou. A última vez havia sido quando seu pai morrera.
A visão de Kikyou certamente seria perturbadora para qualquer um que a olhasse agora: tinha a face coberta de sangue e cortes, o nariz e o maxilar estavam tortos, sua barriga estava rasgada pelo menos 20cm e jorrava um liquido escuro compulsivamente, seus lábios estavam escancarados em algo que deveria ser um sorriso, mas todos os dentes estavam manchados de vermelho, graças ao sangue.
Sesshoumaru não pode deixar de dizer a si mesmo que aquela era uma figura a se temer. Kikyou estava definitivamente louca.
- Eu queria que você visse sua cara, Sesshoumaru! – até sua voz era diferente, parecia mais grossa, menos humana.
Sesshoumaru fingiu indiferença e mexeu os ombros.
- Eu queria que você pudesse a sua cara. Freddy Krueger parece gente se comparado a você.
O yokai sentiu a piadinha no próprio corpo. Antes que pudesse entender como e quando acontecera, Kikyou já estava parada em sua frente devolvendo o mesmo corte que recebera na barriga, ela usava uma faca pequena, porém comprida. Sesshoumaru livrou-se dela antes que rasgasse ainda mais, olhou para baixo em apenas alguns segundos, não tinha ido tão fundo, nem era tão largo, mas faria com que perdesse muito sangue. Tinha que acabar logo com aquilo.
- Merda! – grunhiu Inuyasha.
Ele olhava pela janela, havia sentido a presença de Kikyou. Não, a verdade é que dizer que sentira apenas a presença da Kikyou seria quase uma piada, ele sentiria a existência dela, sentira os anos que vivera, o poder acumulado durante todo esse tempo, seu ódio, sua sede de vingança. Era como se agora o anjo estivesse em sua frente. A idéia de algo tão poderoso buscando por ele fez com que fechasse o punho com força.
E o pior, ainda existia Kagome! Ela estava lá fora agora, sozinha no meio do que parecia ser o apocalipse. Quis poder ter amarrado-a ao pé da cama, trancado-a naquele quarto para sempre, para que nunca mais pudesse correr perigo, para que nunca pudesse destruir sua vida. Mas ela havia saído, não havia? Mesmo implorando, mesmo chegando ao ponto de dizer que se partisse, não poderia mais voltar, ainda assim ela foi. Não conseguia entender como podia amar e odiar tanto uma mesma característica dela, ou melhor, como conseguia odiar e amar tanto uma pessoa ao mesmo tempo. Ele sentia as duas coisas com a mesma intensidade, precisava dela para viver, mas sabia que viveria melhor que nunca a tivesse conhecido.
- Merda! – grunhiu de novo.
Não iria atrás dela, não de novo. Quantas vezes ela fizera isso com ele? Já perdera as contas, não sabia mais como lidar com aquelas atitudes, como poderia continuar vivendo daquela maneira para sempre? Sua vida seria isso então? Estar sempre esperando e sofrendo, enquanto ela vivia? Riu de quão patético ele soava, era como se ele fosse a dona de casa dedicada esperando o marido voltar para casa. Não queria isso para ele, para sua vida, para o seu futuro. Talvez conseguisse viver sem Kagome, a menos que ela estivesse viva. Sim, tinha certeza que conseguiria, amava-a, mas teria amor próprio, não rastejaria mais para que ela o amasse também.
Um raio caiu perto da sua casa tirando-o de seus devaneios. Ele olhou pela janela e viu uma grande árvore partida a poucos metros da entrada da cidade. Inuyasha fechou os punhos com força novamente, Kagome deveria estar perto da entrada à essa altura? E se o raio não tivesse caído ao acaso? E se Kikyou pudesse controlá-lo e tivesse ferido Kagome?
Inuyasha socou a parede com força antes de sair da casa.
- A quem eu estou tentando enganar? – grunhiu pela última vez, antes de sair como um desgovernado atrás de Kagome.
##
Kagome tinha os olhos arregalados, ao seu lado tinha uma árvore caída, fumaça saía do que restava do tronco e as folhas pegavam fogo. Seu coração estava descompassado, achou que morreria, que aquela coisa cairia em cima dela. Pensou em Inuyasha e como deveria ter acatado seu pedido, não era seguro para ela andar para cima e para baixo, não agora que não passava de um ser defeituoso e incompleto. Tentou não se lembrar das últimas palavras que ele havia lhe dito, não queria acreditar que ele não a aceitaria mais em sua vida por uma coisa tão pequena.
Respirou fundo buscando força para continuar, tinha toda a subida para enfrentar ainda, tinha medo de não chegar à tempo, seja lá para o que fosse. Desviou da árvore e continuou seu caminho, pedia mentalmente que estivesse fazendo a coisa certa, pedia que os sonhos não fossem apenas sonhos, apesar dos desfechos. Se tudo não passasse de um delírio seu estaria morta. Continuou tão focada na missão de continuar em frente e estar fazendo a coisa certa que sequer percebeu quando Inuyasha começou a segui-la.
Ele revirou os olhos e começou a andar lentamente com os braços cruzados. Sabia que aquela porcaria tinha caído perto dela! Tinha certeza que fora da casa era só isso que ela enfrentaria, desgraça atrás de desgraça.
- Você só atrai problemas, não é, mesmo? Não poderia ter ficado em casa?
Kagome parou e girou nos calcanhares, encarando Inuyasha incrédula.
- O que está fazendo aqui? – perguntou confusa.
- Colhendo flores, não está vendo? – retrucou. – Vamos, eu te levo até lá em cima, quanto mais rápido chegarmos, mais rápido voltaremos.
- O que fez com que você mudasse de idéia?
- Miroku me disse mais cedo que somos uma espécie de casal doente ou qualquer coisa do tipo, disse que somos um só desde que nos conhecemos. Então, trancafiado dentro daquela casa, pensando se algum raio cairia nessa sua cabeça de vento, eu pensei "dane-se, é minha vida, se ela quer se matar, problema dela, mas não quero viver igual o Sesshoumaru para o resto da minha vida".
- Muito interessante a parte do "se ela quer se matar, problema é dela". – disse Kagome.
Inuyasha mexeu a cabeça parecendo irritado.
- Ande, Kagome, você não se importa com nada além de si mesma, é por isso que não liga em morrer ou fazer coisas estúpidas. Se você morrer, ótimo, essa vida idiota acaba pra você. Já eu serei obrigado a virar o maluco das montanhas, vê que injusto? Se a vida fosse só sua, juro que deixaria você fazer o que quisesse com ela, mas agora ela é minha também e dependo dela pra ser feliz, então colabore comigo e vamos resolver isso logo pra eu voltar para casa e poder comer.
Kagome olhou para seus pés. Sabia que sempre agia de maneira egoísta, mas não queria ouvir aquilo de Inuyasha.
- Desculpe. – sussurrou.
- Pare de pedir desculpas, isso irrita. – disse Inuyasha sinceramente. Não havia nenhuma crítica na sua voz. – Apenas evite fazer coisas idiotas que resultem em pedidos de desculpas.
Kagome suspirou e acenou com a cabeça. Perguntou-se como conseguia destruir as coisas daquela maneira, há mesmo de duas horas estava deitada na cama com Inuyasha e tudo o que ela sentia era o mais puro e inocente amor e agora, o que restara daquela cena, era apenas a frustração de Inuyasha. No final das contas, ela não havia mudado nada, ainda agia como se fosse um anjo irritante e perceber isso fez com que ela cerrasse os dentes.
- Ande, vamos logo. – disse Inuyasha com a mão esticada.
Kagome segurou a mão de Inuyasha e ele puxou-a e em um movimento rápido ela já estava em suas costas. Eles não demorariam mais de quinze minutos para chegar ao tempo, mas nenhum dos dois parecia querer usar tempo para conversar, o silêncio entre eles parecia se tornar ainda mais notável, graças ao som dos raios e do vento batendo com força contra seus rostos.
- Pare! – disse Kagome subitamente.
Inuyasha voltou ao chão como uma pena, leve e lento. Sabia por que ela pedira para ele parar, conseguia perceber o que estava ao redor, se perguntou se ela achava que ele era tão inútil assim, mas achou que era melhor deixar aquela discussão para outra hora.
- Você não deveria ter perdido esses poderes estranhos? – resolveu perguntar.
- Teoricamente. – respondeu Kagome enquanto descia das costas de Inuyasha. – Não sei exatamente, nunca conheci alguém que passou pelo o que eu passei.
- Por que os lobos estão aqui? – perguntou Inuyasha mais para si mesmo do que para Kagome. – A sensação que eu tenho é que eles estão em um padrão, não espalhados pela região como sempre.
- Eu acho que é uma proteç...
Kagome não teve tempo de terminar, sentiu Inuyasha jogando seu corpo em cima de si e fazendo com que os dois rolassem no chão. Ela sentiu o cheiro característico de cachorro molhado que tanto irritava seu nariz e olhou para o lado, tentando reconhecer o lobo. Encontrou o animal encarando-a de volta, o pêlo estava eriçado, mas não rosnava e de alguma maneira estranha ela reconheceu aquele lobo. Ele tinha acompanhado-a quando Kouga havia encontrado-a. Sorriu e esticou a mão.
- Oi, garotão. – disse cautelosa. – Sentiu meu cheiro?
- O que diabos você está fazendo, Kagome? – resmungou Inuyasha ainda fazendo uma proteção na garota com seu próprio corpo.
- Está tudo bem, eu o conheço.
Inuyasha rolou para o lado, afastando-se de Kagome e levantou-se do chão, limpando suas roupas, revirou os olhos e resmungou 'é claro que conhece'.
Quando o hanyou de afastou de Kagome, o lobo andou até ela e lambeu sua mão, como fizera anteriormente e ela sentou-se, para poder afagar seu pescoço.
- O que você está fazendo aqui, heim? Cadê o Kouga?
O lobo pareceu lembrar-se do motivo de estar ali e afastou-se de Kagome, eriçando seu pêlo e começou a uivar. Inuyasha tapou seu ouvido em uma atitude irritada.
- Faça esse saco de pulgas calar a boca!
- Eu não sei fazer isso. – resmungou Kagome.
- Se não fizer que ele cale a boca, eu vou fazer e você não vai gostar! – disse Inuyasha soando irritado.
Kagome olhou para trás e levantou-se antes que um redemoinho de ar a acertasse em cheio, Inuyasha viu a cena com os braços cruzados e com pouco interesse. Os dois sabiam que era Kouga ali, ninguém era tão extravagante e chamativo quanto o yokai, não havia dúvidas da presença dele.
Inuyasha esticou a mão e puxou Kagome para perto, poderia estar irritado com ela, mas isso não significava que queria o saco de pulgas em cima dela. Começava a ter certeza que sair de casa tinha sido uma péssima escolha, deveria ter ficado em casa comendo onigiri e vendo a reprise de Transformers. Certamente ele ganharia mais.
O lobo parou de uivar assim de Kouga apareceu, ele abanou o rabo como um animal treinado e correu até o yokai, parecendo orgulhoso do seu trabalho, mas Kouga não tinha a mesma expressão no rosto, na verdade, ele parecia furioso. Ouvira o chamado, mas o lobo dissera que Kagome estava ali, porém ele só sentia a presença de Inuyasha, sem sombra alguma da garota, o máximo um rastro do seu cheiro grudado do hanyou. Sentiu o sangue borbulhar com um erro como aquele, Kagome estava morrendo, não poderia estar ali. Poderia?
Kouga arregalou os olhos olhando atrás de Inuyasha. Ele não sabia ao certo como tinha certeza, pois aquela pessoa atrás de Inuyasha não tinha o cheiro, nem a energia que Kagome costumava ter, mas era ela. Reconheceria aqueles olhos azuis em qualquer lugar.
- Oi, Kouga.
Kagome saiu detrás de Inuyasha, o que não agradou em nada o hanyou, ele cruzou os braços e a encarou com o canto dos olhos. Já Kouga a olhava como se fosse um fantasma. Sesshoumaru havia lhe dito que Inuyasha estava falhando, que ele não conseguiria, mas ali estava ela, mais majestosa do que nunca. O corpo alto e desenvolvido, o cabelo curto emoldurando suas novas feições maduras, tudo nela parecia melhorado e feito para atraí-lo. Ela estava mais bonita e mais atraente do que quando era um anjo e agora não existia nenhuma atração para nublar sua visão, a pessoa que ele via era realmente Kagome.
- Você está... Viva. – ele disse com a boca meio aberta. – E linda.
- Incrível o que duas semanas na minha casa fazem, não é? – disse Inuyasha revirando os olhos.
Kagome olhou para Inuyasha como se lhe repreendesse e ele apenas balançou os ombros, sem se dar o trabalho de descruzar os braços. Voltou os olhos para Kouga e sorriu.
- Obrigada. – disse. – E sim, estou viva. Por pouco.
Kouga lançou um olhar mortal para Inuyasha, mas logo de recompôs.
- O que está fazendo aqui? – disse Kouga lembrando-se da sua missão.
- Estamos tentando chegar até o Sesshoumaru. – disse Kagome.
- Sinto muito, Kagome, não posso deixá-la passar, Sesshoumaru deixou claro que essa era a luta dele e não queria ninguém interferindo. – disse Kouga.
Inuyasha sorriu vitorioso.
- O que é que foi que eu disse? Mas você não podia me escutar, não é?
Kagome o ignorou.
- Eu não ligo para o que deixou claro. Eu vou até lá em cima e pronto.
- Kagome, eu não acho que seja a melhor coisa a se fazer. – disse Kouga tentando soar sensato. – Está vendo o céu? A última vez que ficou assim foi quando Kikyou matou Inu-Taisho, não sabemos o que está acontecendo lá.
Inuyasha sentiu um calafrio correr pelo seu corpo. Aquela mulher já matara seu pai, agora também mataria seu irmão? O ódio explodiu no seu peito e pareceu correr pelo seu sangue, dominando cada parte do seu corpo.
- Eu sei o que está acontecendo lá. – retrucou Kagome. – É por isso que preciso ir.
- Saia logo da nossa frente antes que eu tenha que quebrar essa sua cara feia de cachorro pulguento! – disse Inuyasha.
Kagome olhou confuso para Inuyasha, desde quando ele queria chegar até a luta?
- Sabe por que estou aqui? – disse Kouga. – Por que seu irmãozinho ficou com medo de que algum yokai te matasse, por isso teve que pedir pra eu ficar aqui, me implorou para que não te matasse. Acha que eu tenho medo das suas ameaças?
Inuyasha não esperou seu ódio crescer mais ainda, não precisava. Sentia seus dedos formigando tamanha a vontade de sentia de rasgar a cara de Kouga, jurava que aquilo não era um bom sinal, mas sua raiva não deixava que enxergasse as coisas de modo racional. Jogou-se em cima de Kouga, agindo e lutando como um humano, usando os únicos conhecimentos que tinha. Era a primeira vez que batia em um yokai e sentia a adrenalina quase explodindo seu coração.
Kagome mordeu o lábio inferior, olhando de fora, os dois pareciam cachorros de rua brigando. Pensou em separá-los, pensou que não hora era para aquilo, mas era perfeito.
- Inuyasha, segue-o aqui! Estou subindo! – disse Kagome sem sequer olhar para trás quando começou a correr.
Nenhum dos dois a ouviu, o que ela achou bastante conveniente para a situação.
- Sabe há quanto tempo quero fazer isso? – disse Kouga?
- Provavelmente o mesmo tempo que eu! – respondeu Inuyasha.
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Kagome corria sem saber de onde tirava energia, percebia só agora que sentia fome, sono e muito cansaço. Quanto mais perto chegava da casa de Sesshoumaru, pior se sentia seu estômago estava tão embrulhado que ela teve que parar em determinado momento para tentar vomitar, mas não existia nada para colocar para fora.
Ouviu atrás de si o som de animais correndo e sabia que eram lobos tentando impedi-la de chegar, estava tão perto, tão perto... Conseguia até mesmo a cara de Sesshoumaru.
Um baque forte fez seu corpo voltar para trás e rolar alguns metros. Os olhos de Kagome se arregalaram, seu coração batia forte contra o peito, a imagem do seu sonho começou a voltar. Ela batendo em algo invisível. Merda, ela pensou, ela criou uma barreira.
Kagome levantou-se e massageou a testa, certamente nasceria um galo ali. Voltou a andar só que dessa vez com os braços esticados, procurando a barreira com a mão, quando a sentiu encostou a cabeça nela. Era como tocar em um vidro, era gelado e seco. E transparente. Ela conseguiu ver tudo o que acontecia, viu Kikyou curvada apoiada em uma parede sangrando muito e viu Sesshoumaru. O yokai estava deitado no chão e seus braços e pernas estavam esticados, ela cerrou os olhos tentando entender realmente aquela cena.
Sesshoumaru, na verdade, estava preso graças a raízes grossas que saíram do chão e circulavam seus pulsos e tornozelos, seu corpo estava tão ensangüentado quanto o de Kikyou, mas existia algo de desesperador da situação dele e não tinha nada a ver com a posição em que ele estava, era algo diferente, algum tipo de aviso em sua mente de que deveria impedir tudo aquilo.
Fechou os punhos e começou a socar a barreira, gritava para que qualquer um deles a ouvisse, mas era inútil, Sesshoumaru e Kikyou continuavam seu ritual de morte como ela não estivesse ali, como se ninguém estivesse assistindo-os. Sua mão começava a doer, a barreira era invisível, mas era sólida como pedra, a impressão que Kagome tinha era que Kikyou havia rodeado toda a área como uma grande cúpula de vidro blindado. Olhou ao redor, esperando que Inuyasha ou Kouga aparecessem, mas nenhum deles parecia ter dado por sua falta, os lobos que a seguiam também haviam sumido. Saber que estava totalmente sozinha para impedir que aquilo continuasse fez com que suas pernas tremessem e ela caísse sentada, ainda olhando para tudo o que acontecia lá dentro.
O céu fez um barulho alto. Kagome sabia que deveria tapar seus ouvidos ou ficaria surda, mas a compreensão do que aquele som era impediu qualquer ação, estava estática, com o corpo mole prestes a cair.
- Oh, Deus, não! – sussurrou olhando agora para o nada. – Ela vai matá-lo!
Desculpem a demora, o sumiço e esse comentário ridículo meu aqui. Eu estou viva ainda, um pouco enjoada da minha fic, por isso a demora. Sabe quando nada do que você faz está bom? Estou mais ou menos assim, não consigo revisar, não consigo escrever, não consigo fazer nada, só continuo por causa de vocês e porque, né? Não escrever três capítulos finais é muita, muita maldade! Falta pouco agora, juro!
Um zilhão de vezes obrigada a todos vocês que comentam e me incentivam, eu não seria nada sem vocês. Beijo no nariz de cada um.
P.S: Capítulo ridículo de grande pra compensar a demora, vocês me perdoam?
