Fechou os punhos e começou a socar a barreira, gritava para que qualquer um deles a ouvisse, mas era inútil, Sesshoumaru e Kikyou continuavam seu ritual de morte como ela não estivesse ali, como se ninguém estivesse assistindo-os. Sua mão começava a doer, a barreira era invisível, mas era sólida como pedra, a impressão que Kagome tinha era que Kikyou havia rodeado toda a área como uma grande cúpula de vidro blindado. Olhou ao redor, esperando que Inuyasha ou Kouga aparecessem, mas nenhum deles parecia ter dado por sua falta, os lobos que a seguiam também haviam sumido. Saber que estava totalmente sozinha para impedir que aquilo continuasse fez com que suas pernas tremessem e ela caísse sentada, ainda olhando para tudo o que acontecia lá dentro.

O céu fez um barulho alto. Kagome sabia que deveria tapar seus ouvidos ou ficaria surda, mas a compreensão do que aquele som era impediu qualquer ação, estava estática, com o corpo mole prestes a cair.

- Oh, Deus, não! – sussurrou olhando agora para o nada. – Ela vai matá-lo!

Capítulo 28 – O último adeus

Inuyasha sentiu seus órgãos se remexendo dentro do seu corpo, algo não estava certo, mas ele não sabia exatamente o que era. Ergueu seus olhos e encontrou Kouga avançando novamente, aquilo estava ficando irritante, não agüentava mais aquela brincadeira de gato e rato. E aquele sensação estranha... Ela simplesmente não o deixava em paz, não conseguia se concentrar no que estava fazendo, desviava dos ataques de Kouga automaticamente e sua mente estava longe tentando entender o que estava lhe fazendo lhe afligindo tanto.

- Pare de fugir! – gritou Kouga irritado após outra esquiva de Inuyasha.

O hanyou cerrou os olhos.

- Claro, porque não me pede para ficar parado enquanto rasga meu corpo em dois? – respondeu irritado.

- Está me fazendo perder tempo.

- Você é quem está me impedindo de subir! Eu não tinha que estar aqui, você não entende...

- Não, é você que não entende, o que está acontecendo lá em cima é problema deles, isso é muito mais antigo do que você! Se não consegue passar por mim, não será de utilidade alguma!

- Eu sei! – retrucou Inuyasha. – Acha que não sei disso? Sei melhor do que qualquer um, não preciso que um yokai nojento como você me diga isso!

Embora eles conversassem, a brincadeira de gato e rato continuava, Kouga atacando e Inuyasha escapando, tantos anos podendo apenas se esquivar de ataques tinha feito com que desenvolvesse uma rapidez incrível, era como se pudesse prever os movimentos do yokai e estava sempre à frente na defesa.

- Então o que está fazendo aqui? – disse Kouga.

Inuyasha parou parecendo pensativo, seus olhos correram ao redor e finalmente se deu conta de que algo estava faltando, algo muito importante. Esfregou as têmporas com a mão e tentou organizar seus pensamentos, mas sentiu um impacto forte no rosto. Ergueu a cabeça e encarou Kouga.

- Você é idiota? Porque fez isso?

- Estamos lutando! – respondeu Kouga revirando os olhos.

- Não, não estamos, seu idiota, você não sentiu falta de nada?

Kouga imitou os movimentos de Inuyasha e teve a mesma compreensão: Kagome não estava ali. Merda, pensou, ela deve ter subido, Sesshoumaru vai me matar. Inuyasha cerrou os olhos, fechou o punho e socou o rosto do yokai enquanto ele olhava ao redor.

- Porque fez isso? – vociferou Kouga ao receber um soco no rosto.

- Idiota. – respondeu Inuyasha.

Para quem visse a cena de fora, teria certeza que eles haviam combinado aquele movimento, ao mesmo instante eles levaram a mão direita até o rosto e massagearam a região que havia sido atingida pelo soco.

- Você não deveria estar cuidando dela? – disse Kouga.

- Como se ela deixasse alguém cuidar dela! – retrucou Inuyasha ainda massageando o rosto. – E quem resolveu bancar o guardião dos portões do inferno foi você, se não tivesse se enfiado no meio eu ainda estaria com ela!

- Não faço idéia como ela pôde escolher você, que espécie de homem é você que não protege sua mulher porque ela acha que pode se cuidar sozinha? – resmungou Kouga.

- Talvez ela tenha me escolhido porque tomo banho. Ou porque uso roupas de gente. Ou talvez porque eu respeite as decisões dela e não ache que sou o Rambo e devo zelar pela segurança dela, se conhecesse realmente a Kagome saberia que ela não precisa de alguém que a proteja, mas de alguém que esteja ao lado dela. Idiota.

- Eu sou o idiota? Você me dá o sermão do ano de "a garota que nós dois gostamos me prefere porque estou ao lado dela" e olha que incrível, você não está ao lado dela, está comigo!

Inuyasha fez uma careta e respirou fundo antes de continuar. Não gostava de Kouga, mas o problema agora ia muito além de ele ser um yokai lobo e todos os problemas que envolviam as duas raças. Kouga era irritante porque amava Kagome e Inuyasha sabia que não era por causa do instinto, ele sabia que aquele yokai poderia ser muito mais útil para ela do que ele mesmo o era, ele podia lutar, tinha força e mais um clã inteiro disposto a dar a vida por ele. De forma racional, ele sabia que Kouga era melhor para ela.

- Eu não vou conseguir passar por você. – disse finalmente e sua expressão demonstrava como estava contrariado ao dizer aquilo. – Eu não tenho força para te derrubar e conseguir abrir passagem e como você mesmo disse, se eu chegar até lá em cima, não terei utilidade alguma. Você é mais forte do que eu e deveria ser você a ficar com ela, mas por algum motivo que eu não consigo entender ela escolheu a mim e talvez ela precise de mim lá com ela agora. Realmente não sei o que fazer para protegê-la quando não sou sequer capaz de te vencer.

Kouga suspirou e cruzou os braços, esperava qualquer coisa de Inuyasha, mas nunca uma declaração daquela. Era óbvio o porquê de Kagome ter escolhido o hanyou, não que em algum momento houvesse realmente uma escolha, ele entendia aquilo, já passara antes. Nunca estivera na competição, porque ela nunca existira. Desde o começo sempre fora Inuyasha.

- Eu sei que vou me arrepender disso, mas pode subir.

- Não preciso que tenha dó de mim! – Inuyasha parecia ofendido com aquela atitude.

- Só saia da minha frente antes que eu me arrependa. Eu adoraria dar outro soco na sua cara e te deixar desmaiado aqui enquanto ganho o dia subindo essa maldita montanha e arrastando Kagome para baixo, mas duvido muito que seja isso que ela queira. Não é de mim que ela precisa.

Dessa vez, quem suspirou foi Inuyasha.

- Obrigado por tê-la trazido para casa quando eu não pude fazer.

- Tá, ótimo, agora...

O som alto de algo se partindo em dois fez com que eles calassem, Kouga olhou para o céu e resmungou alto. Aquilo era obra de Kikyou, tinha certeza, as coisas pelo jeito estavam piores do que ele imaginava.

- Suba essa porcaria e traga Kagome inteira. – disse Kouga. – E vá logo!

Inuyasha não respondeu e antes que Kouga pudesse obrigá-lo a subir logo, ele já havia sumido em meio aos seus saltos.

- Tenho certeza que vou me arrepender disso depois... – resmungou sozinho.


Kagome olhava horrorizada através da barreira, suas mãos sangravam de tanto socar a parede invisível que agora protegia Sesshoumaru e Kikyou. Tentou até mesmo quebrar a barreira, mas não tinha mais poder, não era mais um anjo e mesmo que fosse, aquilo era obra de Kikyou, ela jamais conseguiria ter tanto poder.

Fechou as mãos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, queria ser capaz de alguma coisa, qualquer coisa que fosse, não agüentava mais ver aquilo. Tinha certeza que Kikyou iria matar Sesshoumaru no momento que fizera o céu quase cair em terra, mas ela apenas continuara com os ataques. Eles estavam se matando, o sangue de ambos jorrava e manchava o chão, era possível ver o cenário de destruição; árvores caídas, parte da entrada da mansão destruída, fogo em pequenas áreas e a fumaça que ele fazia começava a turvar a visão da garota, afinal com a barreira, a fumaça não tinha para onde ir.

Sesshoumaru remexeu-se no chão, tentando se livrar das raízes que o prendiam. Estava preso ao chão com algo que lembrava raízes grossas e antigas, seu pescoço estava envolto pela corda de madeira e cada vez que se mexia, ela apertava mais o deixando sem ar. Kikyou, por sua vez, estava encostada em uma árvore, seus braços abraçavam a barriga e ela tentava, inutilmente, estancar o sangue que saía do corte que Sesshoumaru fizera. Seus olhos não desviavam do yokai e Kagome sabia que era para manter controle nas raízes, se ela piscasse a força se esvairia, mesmo que por segundos, e Sesshoumaru conseguiria escapar.

- Que maneira patética de morrer. – disse Kikyou e ela parecia estar falando sozinha.

- Não vou morrer agora. – retrucou Sesshoumaru.

- Seu pai disse a mesma coisa. – provocou Kikyou.

- Meu pai era um babaca.

- Nisso precisamos concordar.

- Não se sente culpada por tê-lo matado? – disse Sesshoumaru.

- Eu deveria? Seu pai era um yokai baixo e asqueroso como todos os outros.

- Então, Inuyasha...

Kikyou andou até onde o yokai estava e deu-lhe uma bicuda nas costelas, ele fechou a cara em uma expressão de dor, mas não soltou um som sequer.

- Não fale dele, - ela disse. – não ouse compará-lo ao lixo do seu pai, ele não escolheu o destino que teve!

Sesshoumaru riu e realmente existia humor naquele ato, ele estava se divertindo com o comentário de Kikyou.

- Claro que não, desde o início você manipulou a vida dele! Fez o que bem entendeu com o garoto esperando pelo dia que ele viria até você e agradeceria por tudo. Sabe qual é a grande novidade pra você? Não adiantou de nada. Ele te odeia.

Kikyou voltou a chutar Sesshoumaru nas costelas, mas dessa vez era com muito mais raiva, se ela se empolgasse um pouco mais quebraria alguns ossos.

- Inuyasha é meu! Ele irá entender! – dizia enquanto o atacava.

Kagome fechou os olhos com força, porque estava sozinha ali? Queria alguém ao seu lado impedindo que fosse a única a presenciar aquela cena, não conseguia imaginar-se sozinha vendo qualquer um dos dois morrendo. E eles se matariam, ela sabia disso, faltava pouco até que um deles se cansasse daquela brincadeirinha.

Ouviu algo se aproximando e soltou o ar do pulmão todo de uma vez. Era Inuyasha, parecia até mesmo que ele ouvira seus os pensamentos e apareça lá para salvá-la.

O hanyou parou ao lado de Kagome, mas era como se ela não estivesse ali, seus olhos só conseguiam ver o que acontecia entre Sesshoumaru e Kikyou. Sentiu seus músculos se repuxando dentro do seu corpo, era ódio, o tipo de ódio que fazia com que perdesse o controle, o tipo de ódio que ele evitava com medo de não conseguir se agarrar a sua humanidade, colocou força em suas pernas e saltou de uma vez, iria tirar aquela mulher de cima de Sesshoumaru e se houvesse alguma chance de se tornar um yokai, a mataria. A realidade, porém, foi outra. Seu corpo pareceu trombar com algo no ar e ele voou para trás alguns metros.

- Uma barreira. Estamos impotentes. – disse Kagome ajoelhada com a cabeça encostada na barreira.

- O quê? – disse Inuyasha levantando-se e indo até ela.

- Kikyou criou uma barreira, - Kagome bateu no ar com os nós dos dedos e a barreira brilhou com um roxo intenso por apenas alguns segundos. – não podemos atravessá-la. Eu tentei quebrá-la, mas é forte demais para mim. Eles não podem nos ver, não sabem que estamos aqui.

Inuyasha olhou novamente para Sesshoumaru e virou seus olhos para encarar Kagome. A garota estava sentada no chão e suas mãos estavam manchadas de vermelho, deveria ter percebido antes apenas com o cheiro, o cheiro do sangue de Kagome ainda era muito característico para ele, o reconheceria em qualquer situação.

- O que aconteceu? – disse sentando-se ao lado dela, porém suas costas usavam a barreira como apoio.

- Eu não sei, quando eu cheguei eles já estavam se matando, - disse Kagome. – tentei gritar e...

Inuyasha pegou as mãos de Kagome e indicou-as com a cabeça.

- Não estou falando deles, estou falando de você.

- Ah, isso... Não foi nada, burrice minha na verdade, tentei quebrar a barreira com força, mas isso nunca iria funcionar.

Inuyasha fez um som que lembrava muito um suspiro desanimado, mas voltou seus olhos para a blusa que usava, rasgou um pedaço pequeno na barra e enrolou-a em volta dos dedos de Kagome. Ela não disse nada, só de saber que não estava sozinha, que conseguia desviar seus olhos daquela desgraça já era um alivio, não conseguia sequer reclamar da leve ardência que sentia quando o pano roçava nas feridas de sua mão.

- Você tinha razão, - disse Kagome com seus olhos ainda voltados para suas mãos. – eu deveria ter ficado lá com você, não temos utilidade alguma aqui.

- É, parece que não. – respondeu Inuyasha.

- Desculpe.

- Não vai poder se desculpar para sempre. Uma hora vou me cansar do seu egoísmo, - disse Inuyasha e sua voz era calma, porém alta. Era como se ao conversar com Kagome ele tentasse abafar o som que Kikyou e Sesshoumaru faziam em sua própria luta. – você pode usar sua história de que foi traída e que sempre viveu sozinha, mas minha vida não foi muito mais fácil do que a sua. Eu amo você e dizer isso agora, enquanto o único parente que já conheci na minha vida está atrás de mim morrendo só prova o quão disposto eu estou a abrir mão de tudo o que sou só para estar com você. Nunca achei que teria essa necessidade tão grande de estar ao lado de alguém e às vezes odeio mais a mim do que odeio a você, como acha que me senti ao pedir que ficasse e você, mesmo assim, foi embora? Eu disse que não a aceitaria de volta e aqui estou eu. No fim, você não precisou se incomodar com o fato de eu não aceitá-la de volta, porque na verdade eu nunca renunciei a você e sabia disso o tempo todo. Acho que tem a certeza que estarei sempre aqui para você, mas não importa o quanto sejamos ligados e exista sei lá, alguma espécie de linha vermelha idiota unindo nossos dedinhos, eu não vou suportar isso por muito tempo.

Kagome mordeu o lábio para não se desculpar novamente e apenas arrastou seu corpo até poder encostar a testa no ombro de Inuyasha. Respirou profundamente e tentou não se concentrar nos grunhidos de dor que agora Sesshoumaru soltava.

- Eu sou uma idiota, não é? Você deveria ter me dado um pé na bunda há muito tempo.

O corpo de Inuyasha levantou-se um pouco e Kagome soube que era porque ele estava respirando fundo.

- Sim, você é uma idiota, mas uma idiota com fã clube. Eu te daria um pé na bunda agora mesmo se soubesse que ia ficar sozinha amargando a minha falta, mas tem um yokai lobo há menos de 10 minutos daqui que só está esperando que eu faça isso. Qual o ponto em me livrar de você se não irá entrar em depressão?

Kagome riria se a situação não fosse tão tensa, não queria virar seus olhos para trás e encarar a luta, mas sabia que não conseguiria simplesmente levantar e ir embora. Estava presa ali como uma telespectadora de um programa proibido e que não tinha um controle para trocar de canal.

- Se essa é sua preocupação, acho que pode dar o pé na bunda agora. – respondeu com o pouco ânimo que ainda tinha. – Não tenho interesse algum no yokai lobo há menos de dez minutos daqui.

- Eu sei, quem sairia com alguém que se veste como uma lunático?

- Ele é um yokai selvagem, é assim que deve se vestir, mas confesso que seria complicado ir ao cinema com ele.

Os dois ficaram em silêncio, o assunto que tentavam desenvolver para ignorar o que acontecia atrás da barreira era superficial demais, na verdade não faziam questão de conversar, Inuyasha queria derrubar aquela coisa invisível e ir para cima de Kikyou sem pensar duas vezes. Aquela mulher parecia ter entrado no seu destino apenas para destruir sua vida, primeiro matando seu pai, depois enviando-lhe Kagome e obrigando-a a passar por tudo aquilo, fazendo com que ele se sentisse culpado por tudo o que assolava a vida da única pessoa que ele se importava de verdade, a única pessoa que lembrava de já ter amado. E agora, estava ali, terminado o serviço, esforçando-se para matar a única conexão de Inuyasha com o mundo, tirando a vida do único yokai que poderia guiá-lo, que poderia ensiná-lo qualquer coisa que fosse sobre a vida. Ele sabia que agora o yokai o ensinaria, não sabia explicar quando isso acontecera ao certo, mas Sesshoumaru era agora o seu irmão e aquela maldita mulher o estava tirando dele também.

Perguntou-se o que poderia ter feito de tão terrível para ela para que o odiasse tanto, não entendia porque Kikyou se importava tanto com ele, não via nada de especial em si para chamar atenção de alguém como ela. Tudo o que acontecera até então em sua vida parecia tê-lo levado até ali, sentia como se cada passo que dera desde que entendera o que era estar vivo fora para encontrá-la. E destruí-la. Naquele momento, ele não era capaz de odiar nada além daquela mulher. Talvez esse fosse o seu destino, perder tudo aquilo que lhe era importante apenas para ser capaz de liberar o yokai que vivia adormecido dentro de si.

Kagome olhou para o rosto de Inuyasha com o canto dos olhos e sentiu um arrepio correr por seu corpo, embora ele não demonstrasse nada de anormal ela sabia que algo estava muito errado, os braços do hanyou estavam tensos, assim como todo o seu corpo. Sua respiração era ofegante e descompassada e tinha algo errado com sua energia, parecia descontrolada, fora de foco. Remexeu-se ao lado do hanyou, na esperança de fazê-lo prestar atenção nela, mas qualquer que fosse seu plano foi por água a baixo quando a voz de Kikyou ecoou aguda e quase ensurdecedora.

- QUE ESCOLHA ELE TEM A NÃO SER ME ACEITAR? ELE ME DEVE A VIDA!

Se Kagome não tivesse se afastado com o som de Kikyou provavelmente estaria caída agora, Inuyasha levantou-se do chão tão bruscamente que foi como se ele não se lembrasse que a garota estava ali apoiada nele. Seus olhos dourados pousaram na mulher, ela não precisava dizer seu nome para ele saber que estava falando dele. Era de Inuyasha que Kikyou estava falando e isso só aumentava seu ódio, a maneira como ela falava, como se ele tivesse que ser grato à ela por qualquer coisa que tivesse feito o enojava. Para ele, aquela mulher não era sequer digna de pena.

Inuyasha não falou nada, mas não precisava, seus olhos diziam tudo por ele. Era nítido o desprezo e angústia que sentia de estar preso ali, ouvindo alguém falando sobre ele e não poder fazer nada. Kagome levantou-se e parou em pé ao seu lado, não conseguia se acostumar direito com a idéia de ter quase a altura de Inuyasha e poder estar realmente ao seu lado, como uma companheira deveria estar. Sentiu-se idiota por estar feliz com algo tão bobo, ainda mais em uma situação com aquela.

- E agora ele não pode sequer fazer as próprias escolhas? – disse Sesshoumaru. Os dois notavam que seu rosto estava manchado de sangue. – Age como se tivesse feito um grande favor deixando-o viver por todos esses anos.

- Ele é um hanyou! – retrucou Kikyou. – Nossa regra é matar qualquer hanyou assim que ele nasça.

- Regras, regras, você não cansa dessa idiotice? – disse Sesshoumaru revirando os olhos. Para alguém preso ao chão, todo ensangüentado e provavelmente com algum osso quebrado, ele estava agindo bem naturalmente. – E sinto dizer que não é merecedora de tantos créditos assim, se não fosse meu pai, Inuyasha teria morrido quando ainda era um bebê.

Os olhos de Kikyou se arregalaram e não de surpresa, mas ódio. Uma menção como aquela lhe parecia um absurdo tão grande que fez questão de dar outro chute em Sesshoumaru, como para lembrá-lo da posição que estava e de que não deveria dizer besteira.

- Inu-Taisho? – disse entre dentes. – Se dependesse do seu pai, ele estaria morto há anos.

Inuyasha fechou seu punho com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, Kagome encostou a testa na barreira e esticou a mão para tocar a de Inuyasha, mas não recebeu nenhum movimento semelhante em troca, mesmo assim ela segurou-o pelo braço. Tinha a impressão que ele não sentia seu toque e muito menos se lembrava de que ela estava ali, mas não o recriminava, era por sua culpa que ele estava vendo aquilo e por mais que tentasse não pensar no que estava acontecendo, tinha um pressentimento horrível.

- Acho que nunca vou descobrir se seu problema é burrice ou ignorância. – disse Sesshoumaru.

- Seu problema eu sempre soube: arrogância. – disse Kikyou. – Foi essa sua arrogância que matou Rin, não eu ou seu pai ou um anjo ou qualquer um que fosse. Você achava que ninguém a tocaria porque era sua mulher, não é mesmo? Tinha tanta confiança em si mesmo e na fama que não achou que algo aconteceria com ela quando saísse para atender àquele chamado falso. E vai ser essa mesma arrogância que vai te matar.

Os olhos de Sesshoumaru brilharam de maneira tão doentia que era como se os orbes antes dourados agora dessem lugar para duas bolas de fogo, o que de fato parecia ter acontecido. Como se o corpo inteiro do yokai pegasse fogo as raízes que antes o prendiam ao chão começaram a soltar uma fumaça escura e logo se tornaram cinzas escuras e só foi possível perceber que Sesshoumaru se movera porque atrás de si existia um rastro de cinzas. Uma hora ele estava deitado no chão, na outra estava em pé com as mãos ao redor do pescoço de Kikyou.

A mulher mexia as pernas tentando se livrar daquele ataque, não contava com nada parecido, suas mãos agarravam as de Sesshoumaru e suas unhas estavam enfincadas com força na carne, o sangue escorria pelo braço do yokai, mas ele parecia não notar. Na verdade, ele parecia não notar nenhum dos seus ferimentos, a expressão em seu rosto dizia que ele se preocupava com pouca coisa além de quebrar o pescoço que tinha entre suas mãos.

- Deixe-a fora disso. – disse entre dentes.

Kikyou não respondeu, só conseguia fazer sons engasgados e ininteligíveis. Seu rosto começava a ganhar uma coloração arroxeada quando o yokai a puxou para trás, apenas para pegar impulso o bastante para atacá-la com força para longe. O corpo de Kikyou voou alguns metros floresta à dentro e levava com si alguns troncos, só parou quando sentiu uma rocha enorme contra suas costas. Ergueu os olhos tendo a visão embaçada e só teve tempo de sentir a dor se espalhando como lâminas em brasa tocando sua pele, Sesshoumaru estava chutando-a na costela, exatamente como fizera com ele anteriormente, seu corpo rolava com cada impacto e agora assumia uma posição fetal, tentando inutilmente se proteger.

- Como ousar dizer o nome dela com essa sua boca imunda? – disse em meio a um chute. – COMO OUSA?

Quando cansou de chutá-la Sesshoumaru abaixou-se e segurou-a pelos cabelos, levantando-a em uma altura que era boa o bastante para encará-la nos olhos.

- Você quer falar sobre arrogância? Falemos sobre arrogância! – disse Sesshoumaru encarando-a com tanto ódio que ela sentia um arrepio em sua coluna. – Sabe o real motivo do Inu-Taisho ter morrido? Sua arrogância! Achou que era boa demais, achou que os anjos estavam acima do bem e do mal, achou que era a justiceira enviada pelos céus para matar os demônios sujos que atrapalhavam a paz, mas na verdade a única que merecia ter morrido naquele dia era você. Inu-Taisho sumiu porque viera até minha casa, ele pediu que eu cuidasse de Inuyasha só até as coisas estarem seguras para ele voltar, mas na sua mente doente você achou que ele tinha ido atrás de outros yokais para matar aquela criança. Em nenhum momento passou pela sua cabeça de que ele sozinho poderia ter matado uma hanyou bebê sem problemas? Que ele não precisava de um exército de yokais para fazer isso?

- Do que é que eles estão falando, Kagome? – disse Inuyasha e sua voz não era nada além de um sopro.

Kagome balançou a cabeça em negação, estava surpresa por ele ter lembrado de que estava lá e agora até mesmo apertava sua mão de volta, mas com tanta força que ela teve certeza de que ele esquecera que a mão estava machucada.

- Eu não sei, Inuyasha, realmente não sei . – disse a garota

- Como se aquele exército fosse para matar Inuyasha! – disse Kikyou e sua voz saía embolada, talvez tivesse sangue na boca. – Eles estavam lá para destruir qualquer um ousasse entrar no caminho deles!

Sesshoumaru deixou-a cair novamente no chão e seu rosto virou-se de maneira tão estranha que Kagome teve certeza que aquele movimento fora para encará-los, mas aquilo não era possível. A bolha que a barreira criava deixava o mundo externo completamente inexistente, era como se o mundo inteiro se limitasse àquela área que a barreira cobria.

- Aonde quer chegar com toda essa falação? – disse Kikyou do chão com a maior dignidade que conseguia juntar em seu corpo. – Achei que estivéssemos aqui para uma luta de vida ou morte.

- E estamos. – retrucou Sesshoumaru. – Mas gostaria de ser eu a te dizer a verdade sobre tudo o que aconteceu, não gostaria que mais ninguém roubasse essa oportunidade como você fez comigo ao matar meu pai no meu lugar.

- Não o matou porque era fraco demais para isso! – retrucou Kikyou. Ela não fazia esforço algum em levantar-se.

- Provavelmente está certa quanto a isso, durante toda minha vida tive diversas oportunidades de matá-lo, mas nunca o fiz. Talvez por falta de coragem, talvez por esperar demais pelo momento certo. Na verdade, esse momento até chegou, mas eu o deixei passar.

- E eu fiz o serviço que você não foi capaz. – disse Kikyou e não existia orgulho na sua voz, até um pouco de amargura.

Kagome não tinha mais sensibilidade na mão, talvez por isso naquele momento ela apertou a mão de Inuyasha com tanta força que ele até mesma a encara e ao perceber isso, ela soltou sua mão e levantou-a, num gesto como quem pede desculpas.

Ele pensou em responder, mas qualquer momento discutindo sobre o motivo de Kagome estar nervosa seria um momento a menos para ouvir a conversa dos dois. Odiava admitir, mas agora seu peito doía de tão forte que seu coração batia, era como se pudesse quebrar-lhe as costelas a qualquer momento ou simplesmente pudesse sair por sua boca. Nunca aguçara tanto sua audição quanto naquele momento, podia até mesmo ouvir o som da respiração dos dois.

- Acho que espera que eu agradeça por isso, - disse Sesshoumaru. – mas isso não irá acontecer. Nunca. Eu deveria tê-lo o matado e saber que você o fez sem motivo algum me dá ainda mais ódio.

- Você teria feito a mesma coisa! – retrucou Kikyou.

- Mas não fiz, talvez seja por isso que Rin está morta. – a expressão que Sesshoumaru sempre fazia ao falar de Rin estava lá, mas piorada em pelo menos duas vezes. – Sabemos que nenhum de nós agüentará isso por muito mais tempo, não tenho mais porque esperar para contar o que aconteceu naquele dia.

Novamente a sensação de estar sendo observada por Sesshoumaru assolou Kagome. Ela piscou algumas vezes encarando o yokai e a voz de Inuyasha o trouxe de volta.

- Ele está nos encarando. Você não disse que eles não podiam nos ver de dentro da barreira?

- E não podem. – retrucou Kagome.

- O que te faz achar que quero ouvir suas histórias? – Kikyou parecia tão irritada que não conseguia conter o tom agudo em sua voz.

- Você não tem escolha, não é? – disse Sesshoumaru.

Kikyou tentou-se levantar pela primeira vez desde que fora jogada, mas cerrou os olhos com ódio ao descobrir que estava presa ao chão. Olhou suas mãos e notou, pela primeira vez que o chicote que Sesshoumaru usava no combate agora servia como uma espécie de corda, prendando-a e impedindo que saísse dali.

- Você sabe por que Inu-Taisho matou a Rin? – Sesshoumaru era frio e direto.

- Por que ele era um desgraçado egocentrista. – disse Kikyou e seus olhos eram furiosos, não conseguia acreditar que se deixara enganar com todo aquele falatório, estava presa daquele jeito por culpa da sua distração.

- Essa é uma boa opção. – disse Sesshoumaru. – Mas não, não foi isso. Você deve saber muito bem que quando eu e a Rin resolvemos viver juntos os anjos – e ele dizia isso com desprezo. – já acreditavam que éramos caças e vocês caçadores. Por anos eu fui visto como um dos yokais mais poderosos de todos, até mais do que meu pai, eu tinha respeito entre os da minha raça, era visto como um líder a quem todos gostariam de seguir e obedecer, acho que até hoje sua raça me vê como o maior vilão de todos e ainda tenta me matar. Só que naquela época, quando eu aceitei Rin em minha vida eu virei as costas para a minha raça, eu estava me unindo ao meu inimigo, algo muito semelhante com o que vocês fizeram com a Rin, só que eu era forte, tinha como defender.

- Onde exatamente você está querendo chegar? – disse Kikyou revirando os olhos.

- Vocês simplesmente viraram as costas para Rin, mas os yokais queriam minha morte, queriam meu sangue. Quando descobriram que ela estava grávida planejaram invadir minha casa, com um bando tão grande que deixaria aquele que atacou Inuyasha parecendo piada de criança e então eles nos matariam. Eu, Rin e nosso bebê.

- Nosso bebê? Meu Deus, quem é você?

Sesshoumaru pareceu perder o controle, mas isso durou apenas um segundo, ele voltou seus olhos para Kikyou e o dourado demonstrava desprezo de todas as formas.

- Inu-Taisho não deixou. Ele disse que se alguém tinha direito de se livrar de nós, esse alguém era ele. Disse que eu estava sob o feitiço de uma bruxa e que os anjos não eram nada, além disso, você deve imaginar que o medo irracional que ele sentia de vocês provinha do encontro que teve com Midoriko há muitos e muitos anos atrás, ela deve ter sido a mais forte e ele nunca pôde esquecer aquele encontro.

"Mas como eu dizia, a verdade é que ele realmente acreditava que eu estava sob algum feitiço e quando impediu que aquela horda de yokais invadisse minha casa foi apenas porque não queria que eu morresse, ele não tinha intenção de matar Rin, muito menos, mas só descobri isso anos depois. Ele só não aceitava aquela criança, eu poderia casar-me com uma cabra que ele não se importaria naquela época, mas a idéia de sujar seu sangue sagrado com uma coisa como Rin o deixava louco. Para ele, um herdeiro com sangue sujo era pior do que eu me relacionar com o lixo da sociedade.

Foi por isso que naquele dia, ele foi pessoalmente até minha casa, teve o esforço de me afastar de Rin e não a atacou com a intenção de matá-la. Ele queria apenas matar a criança, ela era o problema.

Aqueles yokais que planejavam me matar nunca perdoaram meu pai pela traição, minha morte deveria ter acontecido para servir como exemplo para todos os outros yokais que ousassem fazer o mesmo que eu. Se eu, o grande Sesshoumaru, havia morrido, o que aconteceria com eles?"

Kikyou cerrou os olhos. E sua respiração estava tão descompassada que parecia prestes a entrar em colapso a qualquer momento..

- Isso explica ele ter tentado matar Inuyasha. Que homem asqueroso.

- Bem, isso é o que qualquer um pensaria, óbvio. – disse Sesshoumaru. – Ele mataria o próprio filho apenas para manter o sangue das altas linhagens yokais puro.

- O que quer dizer com "é o que qualquer um pensaria"?

- Inu-Taisho e eu nunca fomos próximos, como pai e filho, e ainda assim ele não me matou naquela situação. Qualquer um que o conhecesse de verdade, pelo menos naquela época, saberia que ele não tentaria matar Inuyasha.

- Não me importo com o que você diz. – disse Kikyou e sua voz vacilava. Kagome podia ver algum brilho estranho nos olhos dela, talvez medo.

- Sabe todos aqueles yokais que queriam se vingar dele? – continuou Sesshoumaru ignorando os comentários da mulher. – Bem, ele não foram muito originais em seus planos e meu pai logo descobriu que eles tramavam o mesmo tipo de ataque que haviam planejado contra mim.

- Você está mentindo. – dizia Kikyou enquanto Sesshoumaru continuava sua história.

- Quando ele descobriu o que aconteceria a única coisa que pôde pensar em fazer fora levar Inuyasha até minha casa. Quando chegou em casa, ajoelhou-se e pediu que eu cuidasse do seu filho até que tudo estivesse seguro o bastante para voltar e buscá-lo.

- Eu não quero ouvir, cale a boca...

- Eu tentei dizer não, disse que não queria mais fazer parte de sua vida, que não me importava com o que aconteceria com Inuyasha. Na verdade, seria até melhor que ele morresse, assim meu pai poderia sofrer um terço do que tinha me feito passar. E então ele implorou, disse que eu fizesse aquele favor, eu nunca mais precisaria vê-lo, é engraçado pensar nisso hoje, porque foi exatamente o que aconteceu.

- Você acha que eu vou acreditar nessa sua história? Acha mesmo que...

- Você deve saber bem que a mãe de Inuyasha não poderia lutar, como um anjo apaixonado, ela perdera seus poderes e não era nada além de uma humana indefesa. Meu pai achou que se continuasse com Inuyasha lá teria de escolher alguém para salvar; o filho ou a mulher que ele amara pela primeira vez. Uma escolha um tanto quanto dura, se quer saber minha opinião. E então lá estava eu, segurando um bebê nos meus braços enquanto Inu-Taisho voltava para proteger sua amada mulher.

- Um anjo, minha mãe é um anjo? – a voz de Inuyasha soava tão incrédula e baixa que era quase inaudível.

Kagome sentiu seu estômago embrulhar tão rapidamente que precisou se curvar, tentando evitar que aquela sensação se espalhasse por todo o seu corpo. Tremia da cabeça aos pés e não entendia porque estava tendo aquela reação.

- Só que ao chegar em sua casa ele percebeu que poderia ser tarde demais, o lugar estava cheio de yokais e conseguia sentir o cheiro do sangue de sua adorável mulher. Correu para a sala e encontrou-a lá, sentada, rodeada de yokais, abraçando uma roupinha de bebê suja de sangue. Sua mulher chorava e acreditava cegamente que seu filho estava morto e que Inu-Taisho era o culpado, mas ela estava tão fora de si, tão possuída por sua loucura, por sua cegueira, por sua arrogância, por sua insegurança que perdeu o controle. Ela, que não deveria ter poder algum, evocou o poder mais antigo conhecido entre os anjos, aquele que Midoriko usara para se vingar de todos os yokais que haviam matado seus filhos. A tentativa de proteger o próprio filho o matou.

- Mentira! – gritou Kikyou.

- Naquele dia em que deixou Inuyasha comigo, Inu-Taisho disse que estava deixando-o comigo porque se realmente fossem atacados ele não conseguiria escolher o filho. Se precisasse proteger alguém, ele protegeria você.

Qualquer que fosse a força que mantinha Inuyasha em pé naquele momento se esvaiu completamente e ele caiu de joelhos no chão, seus olhos estavam vidrados em Sesshoumaru e Kikyou, mas realmente não os via. As palavras do yokai se repetiam de maneira tão absurda em sua mente que ele não conseguia raciocinar, achava que ouvira alguma coisa errada, talvez tivesse entendido aquilo tudo de maneira equivocada. Kikyou simplesmente não podia ser sua mãe.

Kagome soltou um soluço tão alto que jurava que os dois mesmo presos na barreira conseguiram ouvir. Estava tão chocada, tão perdida, nada daquilo parecia real, como? Como era possível que alguém como Kikyou pudesse ter se relacionado com um yokai, logo ela que os desprezava tanto? E, Deus, ela era mãe de Inuyasha! Era a mulher odiosa que o havia abandonado a vida inteira, que jamais se importara com ele. Se em algum momento da sua vida ela acreditara ter odiado Kikyou, naquele momento ela teve certeza que fora apenas impressão, somente agora ela compreendia profundamente o que era odiar alguém.

- E você acha que isso muda o que? – Kikyou gritava. Ela lembrava muito um animal amarrado, pois se agitava no chão tentando escapar do chicote. – Acha que qualquer coisa que fale será verdade para mim? Eu não acredito em você!

- Como explica Inuyasha estar vivo? Como explica ele ter vivido os primeiros anos comigo? Você matou Inu-Taisho porque acreditou que ele não a amava, que ele só a usara! Você achava que ele só tinha feito que você se apaixonasse por ele para deixá-la fraca e matá-la depois, não é? Oh, sim, claro! A grande Kikyou, a poderosa Kikyou, a invencível Kikyou! Até você mesma sabe que é tão asquerosa que alguém só se aproximaria para tirar vantagem, mas meu pai, aquele idiota, se apaixonou de verdade por você.

- SEU PAI NUNCA ME AMOU!

- Pergunto novamente, como explica Inuyasha estar vivo? Você o protegeu após ter descoberto que vivia com a família de monges, mas até então sequer acreditava que ele tinha sobrevivido ao ataque imaginário de Inu-Taisho. Nunca se perguntou o que realmente tinha acontecido naquele dia ou teve medo demais de encarar a verdade?

- O que aconteceu naquele dia não me interessa! – disse Kikyou e estava tão fora de si que chegava a cuspir quando falava. – Eu sei o que vi, sei o que senti, não me arrependo do que fiz! E faria de novo com qualquer um que ousasse encostar em Inuyasha, como fiz diversas vezes nesses anos.

- Jamais vai aceitar que errou, não é? Jamais vai assumir que matou Inu-Taisho sem motivos. – disse Sesshoumaru.

- Não, eu não vou! Se já acabou sua história acho que podemos terminar logo com isso!

Sesshoumaru movimentou seus ombros como se não se importasse em continuar falando, mas disse:

- Tudo bem, podemos terminar. Já fiz minha parte.

Kikyou cerrou seus olhos e encarou o yokai desconfiada.

- Do que você está falando agora?

Sesshoumaru virou seus olhos exatamente para o ponto onde Inuyasha e Kagome. Naquele instante Kikyou sentiu como se o tempo tivesse parado, não sabia exatamente como Sesshoumaru conseguira ver além da barreira, muito menos como conseguira deixá-la visível daquela maneira, mas nada disso importava. Seu coração batia com tanta força contra seu peito que era até mesmo difícil pensar com todo aquele barulho, seu corpo inteiro começou a se inundar de um calor estranho e conhecido. Ela estava furiosa.

O plano de Sesshoumaru era tão claro para ela agora, era por isso que insistia em conversar, era por isso que estava falando aquele monte de bobagens naquele exato momento. Ele sabia desde o começo que Inuyasha estava lá, a manipulara para revelar seu segredo do modo mais cruel possível, tinha certeza que se Inuyasha pudesse perdoá-la, essa certeza havia se esvaído do seu corpo. Ele não acreditaria nela, não acreditaria em seus motivos para tê-lo deixado, a imagem que teria de sua própria mãe era aquela mulher arrogante da história de Sesshoumaru. Como pôde ser tão idiota? Depois de tantos anos destruindo yokais ela deveria saber que ele estava tramando alguma coisa.

Sesshoumaru sorriu ao notar o desespero nos olhos de Kikyou, aquela reação era o que estava esperando. Ela vira Inuyasha e sabia que seu plano de ganhar o prêmio de mãe do ano tinha ido por água a baixo, ele não acreditaria na versão dela da história, nos últimos dias ele e Inuyasha haviam desenvolvido uma espécie de laço familiar, se tratavam como irmãos e se ele precisasse escolher alguém, ele escolheria Sesshoumaru.

Kagome prendeu o ar nos pulmões por tanto tempo que sequer notou quando seus pulmões começaram a gritar por oxigênio, a única coisa que tinha noção era o desespero que agora assolava cada pequena parte de todo o seu corpo, era uma sensação tão trágica, tão devastadora que seu cérebro começou a funcionar sozinho ligando tudo o que acontecera até então. Arregalou os olhos quando compreendeu o que aconteceria, levantou-se em meio a tropeços e agarrou o braço de Inuyasha:

- Precisamos sair daqui. Agora!

Inuyasha não a ouviu. Na verdade, Inuyasha não conseguia fazer nada além de seguir Kikyou com os olhos, sentia raiva e frustração em níveis tão altos que era mais forte do que qualquer coisa que já sentira na vida antes. Por tantos anos ele se perguntara como seria sua mãe, quem era ela, quais motivos teriam sido fortes o bastante para tê-lo abandonado e agora que tinha as respostas preferia continuar com seu conto de fadas, com a imagem que tinha da própria mãe. Kikyou não era sua mãe, não era nada além de uma mulher louca que destruíra sua vida.

- Por favor, Inuyasha... – choramingou Kagome.

- Me deixe! – gritou Inuyasha puxando o braço que Kagome puxava.

Kagome encarava Inuyasha de maneira derrotada, mas seus olhos ainda suplicavam. Queria dizer que ele não tinha que estar lá, queria ter força o bastante para arrastá-lo dali a força apenas para protegê-lo.., Mas não havia mais tempo, com um arrepio lhe avisando que deveria encarar os dois virou os olhos e acompanhou toda a cena. Tudo acontecera muito rápido, porém tinha a sensação que estava em câmera lenta, cada movimento, cada olhar, cada palavra demorava tanto para ser compreendida que a velocidade de tudo era diminuída em pelo menos três vezes.

Kagome se encolheu no chão tapando os ouvidos, mas Inuyasha continuou impassível, em pé encarando tudo o que acontecia, ignorando completamente o som que agora o céu fazia.

Kikyou já não estava mais no chão, seu corpo inteiro emanava uma espécie de luz escura, quase preta e seus olhos verdes pareciam vermelhos agora. Seus passos no chão queimavam a grama e afundavam a terra, deixando-a escura e sem vida, levara apenas um segundo para escapar do chicote de Sesshoumaru, estava tão possuída pelo ódio que sentia que era como se apenas uma fina linha que a prendesse ao chão. Destruir o chicote não fora um problema real.

Sesshoumaru não pareceu surpreso com isso, na realidade parecia até mesmo esperar por aquela atitude. Quando o céu começou a trovejar tão alto que poderia facilmente estourar os tímpanos de alguém ele apenas elevou os olhos para cima, acompanhando o caminho que os relâmpagos faziam, como faria ao acompanhar um pisca-pisca de Natal. Somente quando Kikyou começou a falar que voltou a encará-la.

Kikyou usara sua unha para rasgar a pele do seu braço, levara o sangue até a boca e começara a falar naquela língua estranha que os anjos usavam quando queriam evocar algum tipo de poder, ela levaria tempo até terminar de recitar as palavras e Sesshoumaru tinha tempo de sobra para atacá-la caso quisesse, mas apenas continuou em seu lugar com os braços cruzados em frente ao peito.

O céu agora era totalmente preto, como se um balde de tinta negra tivesse sido jogada para cima e grudado em cada pedaço do céu, aquela escuridão toda só tornava os relâmpagos mais sinistros e brilhantes, eles caíam no chão e cada vez que tocavam o solo o som, já insuportável, se elevava a níveis inumanos, era como se o mundo estivesse acabando. E de fato, era o que parecia mesmo.

Kagome começou a tremer no chão. Entendia tudo o que Kikyou estava falando, ela entendia aquela língua, a estudara sua vida inteira, ela estava pedindo desculpas aos céus pelo o que estava prestes a fazer, pedia forças para derrubar o inimigo e evocava os poderes mais antigos conhecidos, aqueles que eram proibidos e ela jamais tivera contato. Sabia que eram os poderes proibidos apenas pela maneira como a voz de Kikyou soava, era maligna e livre de qualquer humanidade. Se alguém em algum momento acreditara que ela era um anjo, naquele momento acharia que era um demônio.

- O que ela está fazendo? – exigiu Inuyasha. Ele estava tão agitado que já planejava derrubar a barreira por conta própria, mesmo que não fizesse idéia de como.

Kagome não respondeu, tentava se concentrar na voz de Kikyou, tentando compreender exatamente o que ela estava fazendo, talvez pudesse impedir como fizera com Inuyasha há meses atrás, se ao menos soubesse o que eram aquelas evocações proibidas! E aquele som... O som ensurdecer atrapalhava sua compreensão das falas de Kikyou. Deixando de lado todo o horror que sentia, encarou Kikyou tentando ler seus lábios, o que foi inútil e apenas fez com que visse quando o primeiro raio caiu no chão e se transformou em uma bola enorme de fogo incandescente.

- Oh, meu Deus. – Kagome levou as mãos trêmulas até a boca.

- KAGOME! ME DIGA O QUE ESTÁ ACONTECENDO! – gritou Inuyasha e ela não soube se era porque estava com raiva ou para ser ouvido por cima dos trovões.

- Fogo.

Foi a única palavra que ela disse e ele entendeu no mesmo instante, seus olhos se arregalaram e começou a esmurrar a barreira.

Kikyou continuava em pé, envolta pela energia maligna, enquanto o mundo começava a ruir em fogo. Raios caíam continuamente em cima da floresta, espalhando o inferno por todos os lugares, porém nenhuma faísca se aproximava dela. Embora Inuyasha gritasse para Sesshoumaru sair logo dali, ele ainda estava parado olhando tudo de maneira bastante curiosa, como se tudo aquilo fosse uma espécie de show e fosse terminar em breve quando as cortinas abaixassem. O fogo o circulava e ele o encarava e revirava os olhos, demonstrando como aquilo o irritava.

- Certo, - disse finalmente e sua voz não era um berro, mas mesmo assim era claramente ouvida em meio ao caos. – o mesmo que fez com meu pai, muito original.

Mas ela não o ouviu, ela sequer parecia lembrar-se da existência dele, estava tão ocupada em seu ritual que o caos ao seu redor nada lhe significavam. Os raios continuavam caindo, mas agora ao invés de espalhar fogo, apenas criavam crateras no chão, o fogo por si só já parecia ter força suficiente para se manter. Ele que começara com uma bola, agora se espalhava como uma praga destruindo tudo que entrasse em seu caminho, mas por algum motivo estranho ele não se aproximava da mansão de Sesshoumaru. Apenas algumas faíscas encostavam na casa e escureciam a madeira onde tocavam, a impressão que dava era de que havia outra barreira dentro daquela onde eles estavam, mas aquela era para proteger a casa.

- Porque está sentada ai? Faça alguma coisa! – gritou Inuyasha furioso.

Ele não estava com raiva de Kagome, não de verdade, mas estava tão frustrado em assistir tudo aquilo sem poder fazer nada que gritava com Kagome por ser a única pessoa perto o bastante para ouvir sua revolta. Ela não respondeu, muito menos se moveu e Inuyasha voltou a ignorá-la, socando a barreira, tentando derrubá-la de alguma maneira.

- Ah, merda, - a voz de Kouga soou tão alta que Kagome e Inuyasha pularam assustados. – Kagome, derrube essa porcaria de barreira!

Novamente ela não respondeu, seus olhos estavam focados em Sesshoumaru e a lembrança do seu sonho agora estava vívida em sua mente. Não entendia direito o porquê, mas sabia que Sesshoumaru queria aquilo, quando estava no hospital e falara para o yokai sobre o sonho ele sorrira quando ela havia dito que não tinha certeza se era Inuyasha, apenas que os olhos eram dourados em meio ao fogo. Agora ela compreendia que naquele instante ele soube que o par de olhos dourados eram dele e não de Inuyasha e não fez nada evitar, pelo contrário, parecia que tudo o que tinha feito tinha sido para chegar naquela situação.

- Kagome! – gritou Kouga histérico.

Novamente, a voz de Kikyou chamou atenção para si.

- É aqui que nossa história termina! – sentenciou a mulher.

E Kagome soube que ela estava certa. Sesshoumaru ainda tinha a pose relaxada de quem não se importa com nada, mas agora Kagome apenas encarava seus olhos e reconhecia neles a dor que vira em seus sonhos, o medo, a desgraça. Estava tudo lá, era só olhar para enxergar nitidamente.

- Foi uma boa luta.

E dizendo isso Sesshoumaru começou a ser envolvido por raízes que saíam do chão e o arrastavam para baixo, lembravam mãos de morto-vivos saindo de seus túmulos. Ele não relutou, sequer mexeu um músculo, seu corpo era cada vez mais puxado para o solo e ele nada fazia além de encarar o local onde agora o trio estava. Ele parecia querer dizer alguma coisa com o olhar, mas somente Kagome percebia e para ela, ele tentava se desculpar.

Kikyou continuava olhando para Sesshoumaru enquanto ele definhava em meio ao caos de raízes que ela criara, o fogo se aproximava tão rápido que era como se o yokai o atraísse e na verdade, era isso mesmo. Era Kikyou quem controlava o fogo, fazendo-o rodear Sesshoumaru. Ela não piscava e parecia até mesmo ter deixado de respirar, o ar estava pesado com a fumaça que o fogo fazia e tudo dentro da barreira exalava a morte. E então Kikyou voltou a falar, tão centrada nos olhos de Sesshoumaru que parecia querer usá-los como entrada para a alma do yokai, sua voz não era nada mais do que um sussurro, uma ordem silenciosa. A mulher poderia até mesmo ser um anjo dos céus com aqueles poderes, mas era um anjo da morte, suas palavras tinham esse poder e cada vez que as repetia a vida deixava o corpo de Sesshoumaru.

Nem Kouga, nem Inuyasha conseguiam aceitar aquilo. Sesshoumaru não estava lutando, não estava sequer tentando, era assim que o grande Sesshoumaru morreria? O yokai mais poderoso que se tinha notícias há milhares e milhares de anos? Nenhum dos dois acreditava no que seus olhos viam, mas o cérebro de Kagome novamente começou a funcionar sozinho e a levou para caminhos que ela sequer sabia que existiam.

Sesshoumaru realmente queria aquilo. Todas as vezes que dissera que estava muito velho, mesmo quando era para zombar dela, era um sinal. Como pudera esquecer? Há muito tempo ouvira uma história de que yokais poderia sim morrer de causas naturais, que se eles fossem bons, anjos não precisariam existir, pois eventualmente eles morreriam, assim como acontecia com os humanos. Era isso que ele tentara lhe dizer todo esse tempo, Sesshoumaru poderia levantar e lutar, talvez até pudesse vencer Kikyou, mas estava velho, quantos anos ele deveria ter? Talvez mais de mil! Não pôde deixar de pensar quão trágico era aquilo, viver mil anos sem um motivo, viver mil anos tendo encontrado o amor e perdendo-o em tão pouco tempo, viver mil anos apenas esperando o momento de sua morte para descansar, para não se remoer mais com a culpa de tudo o que tinha feito. Mil anos que provavelmente foram de solidão. Queria chorar, mas não por ele estar morrendo em frente aos seus olhos, mas por tudo o que ele deveria ter sofrido naqueles anos todos.

Essa era sua real missão, o que Sesshoumaru queria desde o começo era alguém para ocupar seu lugar, ele sentia que a morte estava chegando, que não era mais o yokai de antes e precisava de alguém para continuar aqui, disposto a salvar Rin. Quis dizer para ele que finalmente havia entendido, que aceitaria aquela missão e que ele poderia finalmente descansar, mas o brilho dourado e hipnótico dos olhos de Sesshoumaru lhe mostravam que na verdade não precisava dizer uma única palavra.

A compressão entre eles era tão grande, mesmo que apenas com os olhares, que por alguns segundos o mundo inteiro ao redor sumiu. Era somente Kagome e Sesshoumaru, encarando-se como se dependessem daquilo para viver e quando a garota acenou com a cabeça demonstrando que o libertara de sua tortura, o yokai deixou seu pescoço cair e encontrar o chão.

Inuyasha ficou tão chocado com aquela ação do yokai que parou de lutar contra a barreira. Seus braços caíram sem vida ao lado do seu corpo e só conseguiu encarar a cena a sua frente porque não raciocinava direito, não conseguia pensar que devia desviar os olhos, que já vira o bastante e não tinha mais ali para ser realmente visto.

Kikyou respirou fundo e andou até Sesshoumaru, a energia escura que emanava do seu corpo destruindo tudo o que tocava, e parou a poucos metros dele. Encarou o yokai e teve a sensação de que era a primeira vez enxergava quem era Sesshoumaru, seus olhos eram mais expressivos do que qualquer frase que ele tenha dito durante sua vida. Aqueles olhos diziam "Termine logo com isso". E foi o que ela fez.

Um minuto havia vida nos olhos de Sesshoumaru, no outro não existia mais nada. Bastou uma palavra de Kikyou para o coração dele parar e seu corpo perder toda a vida. O fogo agora consumia o corpo do yokai, mas não existia dor, não existia sofrimento, não existia nada. Somente uma casca vazia servindo de combustível para as chamas.

Foi então que o corpo de Kikyou desmoronou de uma só vez. O movimento que fez lembrava muito um saco vazio se desmanchando ao chão, os braços se esticaram e o cabelo cobriu seu rosto. A energia não a envolvia mais e o céu começava a adquirir novamente o tom normal, não existiam mais trovões e raios, estava tudo calmo. Parecia finalmente ter terminado.

Kagome tocou a barreira esperando que ela tivesse sumido, queria entrar no meio do fogo e arrastar Sesshoumaru de lá antes que não houvesse mais nada para salvar, mas a barreira continuava intacta, tão forte quanto antes. O silêncio entre eles era absoluto, somente o som do crepitar das chamas era ouvido, eles sequer pareciam respirar.

- O que foi que aconteceu ali? – Kouga foi o primeiro a falar, sua voz saía falha.

Ninguém respondeu. O silêncio voltou a se formar entre eles, mas não durou muito, ele foi quebrado pela voz de Kagome. Kouga olhou-o confuso, ela estava falando a língua dos anjos e tinha sangue nos lábios, não sabia o que ela queria com aquilo, afinal não era mais um anjo, não tinha mais poderes.

Naquele instante começou a chover. E a chuva ultrapassava a barreira e escorria pela casa, pela mata, pelos corpos dos dois, pelo fogo. Era uma água tão gelada e brilhante que até mesmo Inuyasha saiu do seu transe olhando ao redor para ver o que acontecia, olhou para o chão ao seu lado e deparou-se com Kagome ajoelhada, os lábios ensangüentados e os olhos fechados. Era ela que estava trazendo aquela chuva? Sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo, se ela podia fazer algo como trazer chuva porque não destruíra a barreira? E como se aquele pequeno sentimento que brotou em seu peito fosse um botão de disparo e seu corpo inteiro começou a tremer de ódio, sua visão ficou embaçada. Kouga arregalou os olhos e deu um passo para trás.

- Kagome, acho que devemos sair daqui agora.

Kouga agora usava o mesmo conselho que Kagome tentava usar antes com Inuyasha, mas ela continuava em sua posição, parecendo completamente alheia ao que estava acontecendo. Inuyasha voltou seus olhos para os corpos, agora ensopados no chão e sentiu uma explosão em seu peito quando Kikyou começou a se levantar cambaleante.

- Anda, Kagome, levanta! – disse Kouga agora ajoelhando-se ao seu lado.

Kagome abriu os olhos e encarou Kouga por alguns instantes.

- Vá para a cidade, veja se tudo está bem lá. – sua voz era dura e autoritária. – Não sabemos o que Kikyou causou lá em baixo.

- Mas... – tentou retrucar Kouga.

- VÁ! – gritou Kagome.

Kouga deu uma última olhada para o que estava em sua frente e entendeu que sua função ali havia acabado, Kagome tinha razão, era mais útil na cidade. Segurou a mão da garota por alguns instantes, encarando o par de olhos azuis, e então se virou de costas, tornando-se um pequeno vendaval e sumindo em meio às árvores.

Kagome levantou-se sabendo que agora era capaz de destruir a barreira, não que ela tivesse se tornado misteriosamente mais poderosa, mas Kikyou estava visivelmente fraca. Passou o dedão da mão nos lábios e desenhou uma estrela na barreira com o sangue que estava ali, fechou os olhos e voltou a falar a língua sagrada dos anjos. "Por favor, me ajudem, sei que não sou mais uma de vocês, mas preciso de sua ajuda."

Inuyasha fez um som que lembrava um grunhindo quando a barreira que o mantinha afastado do corpo de Sesshoumaru, seu corpo, porém, não se mexeu, mesmo que a barreira não estivesse mais lá impedindo-o ele não conseguia andar, estava tão concentrado em seu ódio, em sua vontade de fazer vingança que sequer conseguiu raciocinar que poderia sair correndo naquele exato momento e atacar Kikyou.

Obrigada.

Kagome levantou-se e não fez questão de chamar atenção de Inuyasha, conseguia imaginar o que estava acontecendo com ele e não queria que toda aquela raiva fosse descontada em si. Correu até o corpo inerte de Sesshoumaru, ignorando veementes os olhos arregalados de Kikyou em cima de si, travou ao ver Sesshoumaru sem vida, suas roupas e seu cabelo estavam chamuscados, fora isso era como se o yokai nunca estivesse estado em meio ao fogo. Seus olhos imploraram para ser fechados e ignorar aquela cena, mas ela apenas abaixou-se e antes que pudesse tocá-lo, Kikyou falou:

- O que pensa que está fazendo? – grunhiu Kikyou.

Os olhos de Kagome encararam a mulher com determinação e ódio.

- Acabou, Kikyou! – disse. – Não há mais nada aqui para você, já chega, conseguiu o que queria, vá embora.

Não vendo em Kagome ameaça alguma, Kikyou sentou-se no chão permitindo-se respirar profundamente. A mulher estava visivelmente fraca, tinha manchas pretas em baixo dos olhos e o corpo coberto de sangue, parecia prestes a desmaiar a qualquer momento e mesmo aparentando tanta fraqueza a expressão de liderança, de indiferença mantinha-se em seu rosto. Era como se nada tivesse acontecido, como se estivesse no templo dando-lhe aulas sobre como matar um yokai, aquela expressão encheu Kagome de raiva.

- Você está enganada. – disse Kikyou.

- Não fale comigo como se eu fosse a criança que enganou todos esses anos! – disse Kagome entre dentes. – E pensar que por pouco não fiquei ao seu lado! Você me dá nojo!

A máscara de indiferença de Kikyou falhou por apenas um momento e Kagome lembrou-se da conversa com ela no templo, quando a vira ser verdadeira pela primeira vez. Agora se questionava se ela fora realmente verdadeira naquela vez.

- Não se deixe enganar pelo o que viu aqui.

- Quer que eu acredite que não me usou para proteger Inuyasha porque ele era seu filho? – Kagome não imaginou como seria duro dizer aquelas palavras, era como se ao falar se tornasse verdade.

Kikyou fechou os olhos profundamente e ficou em silêncio alguns instantes, parecendo pensar em suas opções.

- Não, eu realmente fiz isso. – disse finalmente. – Desde o começo eu sabia que você estava destinada a isso.

- Ser guarda-costas do seu filho? – gritou Kagome. – Eu não passei de uma maldita proteção? Foi para isso que eu nasci para proteger alguém que você deveria proteger desde que nasceu?

- Você não nasceu para proteger Inuyasha, mas a ligação que existia entre vocês fez com que eu escolhesse esse caminho. – disse Kikyou.

- E Sesshoumaru? – doía olhar para o corpo ao seu lado. – O que ele tinha a ver com isso? Por que o matou?

- Se eu não o matasse, ele me mataria. – disse Kikyou. Aquele modo dela falar, quase profissional, deixava Kagome louca. – Há anos sabemos que nosso fim seria esse, ele nunca me perdoou por matar o pai dele.

- E porque você o matou, meu Deus, você matou o homem que você amava!

A máscara caiu de vez. O rosto de Kikyou estava tão duro e sério que parecia uma caveira, todos os ossos pareciam saltar para fora da pele, dando-lhe um aspecto sobrenatural, quase esquelético.

- Você não ouviu a conversa? – gritou Kikyou. – Ele me traiu, ele tirou meu filho de mim para que outros yokais pudessem matá-lo! Ele teria me matado se pudesse!

- Sim, eu ouvi a conversa, mas não foi nada disso! – retrucou Kagome. – Não foi isso que aconteceu naquele dia, não é mesmo? Você sabe disso, sabe que o matou porque foi arrogante acreditando que sua posição como anjo era mais importante do que o relacionamento que tinha!

Kikyou levantou-se do local onde estava e caminhou até Kagome com toda a calma que podia manter em seu corpo, seus passos eram firmes e lembravam uma marcha. Abaixou-se apenas o bastante para encarar Kagome nos olhos, levantou o braço e deu-lhe um tapa tão forte no rosto que Kagome virou a cabeça com o impacto. O ardor se espalhou e seus olhos se encherem de lágrimas, não por tristeza, mas por ódio.

- Criança idiota, sempre se achando dona da verdade, sempre julgando os outros, sempre achando que é melhor que os outros! – disse Kikyou ainda encarando a garota. – O que você sabe a vida, sobre mim, sobre o que eu passei?

- Sesshoumaru tinha razão, Inuyasha jamais poderá te amar! – os olhos de Kagome brilhavam com as lágrimas e com a obstinação que sentia. – E ele nunca vai te amar porque você não merece ser amada!

Kikyou levantou novamente seu braço e preparou-se para dar outro tapa no rosto de Kagome, ela não hesitou, continuou com a cabeça erguida olhando diretamente nos olhos da mulher, porém antes que as mãos de Kikyou pudessem encontrar a bochecha de Kagome algo a segurou. Kikyou arregalou tanto seus olhos que eles ficaram vermelhos e uma pequena veia estourou, deixando sua visão turva. Era Inuyasha ou pelo menos, o corpo dele.

Naquele momento Inuyasha era um yokai completo, não existia traço algum de humanidade naquele corpo. Seus olhos brilhavam inteiros com um vermelho sangue vibrante e seus caninos estavam tão grandes e pontudos que saltavam para fora dos seus lábios de maneira ameaçadora, pequenas marcas roxas marcavam suas bochechas e lembravam raios.

- Inuyasha, como...

Kikyou não conseguiu terminar, pois um som agudo e desesperado saiu de sua garganta. Inuyasha tinha quebrado seu braço com apenas um movimento. Kagome levantou-se do chão, agitada e assustava com o que acabara de ver, Inuyasha não tinha feito esforço algum e agora o braço de Kikyou pendia torto e com parte do osso para fora. Motivada por uma coragem que não sabia ao certo de onde vinha, Kagome tentou tocar Inuyasha, trazendo-o de volta para a realidade, mas apenas recebeu um empurrão tão forte que voou alguns metros caindo em cima do seu ombro e deslocando-o. Mordeu o lábio com força para não gritar.

Kikyou afastou-se de Inuyasha segurando o braço, sua visão ainda estava turva por causa da veia estourada, não conseguia entender como aquilo acontecera. Inuyasha jamais poderia ter se tornado um yokai completo, era parte da sua existência, assim como pingüins jamais poderiam voar, mesmo tendo asas, Inuyasha jamais poderia ser um yokai, mesmo tendo sangue de um em suas veias. Era errado e contra a natureza.

O agora yokai parecia não ver nada além de Kikyou e avançou pra cima dela com garras afiadas e dentes mortais, ela não teve força nem tempo para desviar e os dois caíram, ela em baixo e ele em cima. O vermelho dos olhos de Inuyasha pareceu crescer tanto que se espalharam por todo seu corpo, agindo como se fosse uma aura maligna ao seu redor.

Kagome deixou a própria dor de lado e levantou-se em meio a tropeços e correu até os dois. Ela não poderia deixar aquilo acontecer, não se importava com o que aconteceria com Kikyou, mas não queria que Inuyasha tivesse sangue em suas mãos, ele não era aquele monstro, ele não era um assassino. Quando voltasse a si – caso voltasse, mas ela evitou pensar naquilo – não conseguiria lidar com um peso tão grande, Kagome ainda lembrava como se sentira após sua primeira morte. Parou a poucos centímetros de Inuyasha pensando no que poderia fazer, talvez ele não a reconhecesse, mas era algo que tinha que arriscar. Não é pela Kikyou, forçou sua mente a pensar, é por Inuyasha.

- F-filho, por favor, não... – choramingou Kikyou incapaz de levantar a mão contra Inuyasha.

Ele pareceu não ouvir e Kagome soube que era sua deixa. Jogou-se contra Inuyasha, fazendo o yokai cair para o lado, sua mão antes pronta para atacar Kikyou levantou-se contra a garota e rasgou a lateral da barriga dela. Dessa vez Kagome não segurou o grito, a dor era tão aguda que sentia vontade de desmaiar ali e nunca mais levantar. Ótimo, vou novamente para o mundo dos mortos ou seja lá que droga de lugar é aquele.

Quando finalmente parou de gritar, Kagome notou que o lugar estava silencioso, ela era a única que fazia qualquer barulho que fosse. Olhou ao redor confusa, a dor começava a ecoar em sua mente roubando sua sanidade. Um ponto brilhante no céu chamou sua atenção, ele movia-se muito rapidamente e quanto mais chegava perto dela, mais cegante se tornava. Kagome teve de cerrar os olhos quando o ponto se transformou em uma macha enorme e borrada em sua frente, a luz agora furta-cor cega-lhe de tão brilhante.

O som de uma risada ecoou e logo em seguida uma voz feminina se fez presente.

- Eu sempre soube que seria você a fazer isso.

Kagome arregalou os olhos. Ela estava errada, não fora parar no seu universo pessoal de pseudo morte, dessa vez estava realmente morta, afinal, para que mais um anjo de verdade viria até ela?


Olá! =D

Virou rotina eu aparecer aqui pedindo desculpas, né? E dizendo "esse foi o capítulo mais difícil e blablabla", mas é a mais pura verdade. Desde o começo da idéia da fic eu tenho essa cena na cabeça, inclusive as partes mais importantes estavam num rascunho, mas quando tive que escrever simplesmente não ia. Não conseguia matar o Sesshoumaru de maneira decente, não conseguia achar a maneira certa de 'revelar' que a Kikyou era a mãe do Inuyasha, não conseguia pensar em como ele se transformaria em um yokai completo. No começo, eu sabia que tudo isso aconteceria, mas escrever foi muito mais difícil do que eu imaginei, esse capítulo foi um desafio muito grande pra mim e mesmo com a demora estou orgulhosa de ter terminado e não ter desisto 8D Claro que na minha cabeça era tudo mais dramático e perfeito, mas no fim não escrevi para ninguém chorar. A verdade é que o Sesshoumaru queria morrer, desde o começo eu sabia disso e tentei deixar a entender, mas acho que foi muito sutil, né? XD

Kikyou ser a mãe do Inuyasha é alguma surpresa? hahahahha Eu sempre achei tão óbvio! Algumas pessoas perceberam e até mesmo chutaram isso pelos comentários, mas fiquei chocada em como isso demorou para ser notado!

O próximo capítulo será o último e depois terá um epílogo. Nem acredito que cheguei tão longe e tudo graças ao apoio de vocês! Sei que estou em divida com as respostas as reviews, mas farei um capítulo após terminar a fic somente agradecendo um por um por tudo o que fizeram por mim!

Espero que não me matem pela demora e pelo capítulo, se demoro é porque não quero fazer porcaria, juro! XD

Já estou com saudades de você!

Beijos e não se nos virmos até o Natal/Ano novo, feliz Natal e um ótimo ano novo e obrigada por me acompanhar desde o começo! =D