Quando finalmente parou de gritar, Kagome notou que o lugar estava silencioso, ela era a única que fazia qualquer barulho que fosse. Olhou ao redor confusa, a dor começava a ecoar em sua mente roubando sua sanidade. Um ponto brilhante no céu chamou sua atenção, ele movia-se muito rapidamente e quanto mais chegava perto dela, mais cegante se tornava. Kagome teve de cerrar os olhos quando o ponto se transformou em uma macha enorme e borrada em sua frente, a luz agora furta-cor cega-lhe de tão brilhante.

O som de uma risada ecoou e logo em seguida uma voz feminina se fez presente.

- Eu sempre soube que seria você a fazer isso.

Kagome arregalou os olhos. Ela estava errada, não fora parar no seu universo pessoal de pseudo morte, dessa vez estava realmente morta, afinal, para que mais um anjo de verdade viria até ela?

Capítulo 29 – Reflexos

Minha história começa há muitos anos atrás, muito antes de você pensar em vir para a Terra. Você, Kagome, está livre para ser o que quiser, mas antes precisa compreender toda a sua vida e para isso é preciso que saiba quem eu sou e o que eu fiz.

Eu fui criada no céu, como todos os outros anjos o são. E por anos lá foi minha casa, meu lugar no universo e eu era imensamente feliz, eu cuidava dos humanos, recebia-os com músicas e repreendia aqueles que não se adaptavam às regras do paraíso. Para mim, a idéia de ir até a Terra e viver longe de tudo o que eu conhecia era inadmissível, foi quando recebi a notícia de que tinha a missão mais importante que já se ouvira falar. Um anjo, o melhor de todos, teria de ir para a Terra, viver como um humano para salvá-los dos demônios que lá viviam. Você hoje os conhece como yokais, mas é isso que eles sempre foram, demônios.

Jamais recusaria uma ordem direta e foi assim que acabei me tornando humana, ao menos foi o que pensei por anos. Eu nasci na Terra sem memórias da minha vida no céu, muito menos da minha missão, fui criada por humanos de uma aldeia e mesmo sentindo que nunca me encaixaria, fazia de tudo para ser aceita, para retribuir a bondade que aquelas pessoas haviam feito por mim ao me criar, mas os problemas começaram a aparecer. Eu não era como os outros humanos, eu podia prever catástrofes, eu sabia quando yokais atacariam o vilarejo, sabia quando alguém morreria e quando uma doença assolaria todos.

Quando tinha cinco anos avisei que a anciã mais amada do vilarejo morreria, disse que iria para um lugar lindo e que estaria bem, mas ninguém me ouviu, só quando ela morreu lembraram-se das minhas palavras e naquele momento eu me tornei uma criança amaldiçoada. Toda chuva que caía, toda pessoa que morria, todo ataque de yokai sempre era minha culpa e eles me repreendiam, me batiam, me deixavam sem comida. Com o tempo eu fui me tornando amarga, odiando todos ao meu redor, desejando secretamente que todos sumissem e me deixassem em paz, não conseguia mais pensar como a criança inocente de anos atrás, tanto sofrimento transforma você e a transformação nunca é boa. Anos se passaram enquanto eu era maltratada até que ele aparecesse.

Eu já tinha previsto ataques antes, já tinha visto yokais, mas nada nunca seria como ele. O poder que ele exalava, o ódio e confusão em seus olhos, o descontrole em suas ações. Ninguém seria capaz de pará-lo, nem eu. E foi assim que meu vilarejo inteiro virou pó e fogo, aquele yokai com brilhantes olhos dourados como o sol destruira todos em questão de segundos e só restava eu. Não importa quantas vezes relembre aquele momento, eu sei que nunca senti medo. Eu já sofrera tanto nas mãos dos humanos que eu tinha certeza que aquele yokai não conseguiria me causar mais mal, pelo contrário, ele seria capaz só de causar mal a si mesmo. Eu sentia isso, sentia seu pai se aproximando com a maior fúria que já vi na vida, pela primeira vez eu senti milhares de coisas ao mesmo tempo e não soube mais no que acreditar.

Não temo-lo foi a escolha mais sabia que fiz durante toda minha existência, por algum motivo estranho eu confiava nele, sentia paz e compressão ao seu lado como nunca sentira antes. Naquele dia ele poderia ter fugido sozinho, mas escolheu me salvar. Eu, uma garota humana comum sendo salva por um yokai. E ele sofreu tanto! Enfrentou o pai e quase perdeu a vida, tudo para me defender, quando um daqueles aldeões faria isso por mim ou por qualquer outra pessoa que não fosse de sua família? Eu senti que se eu tinha de fazer algo na vida certamente envolveria um yokai e não um humano, eu estava fascinada por ele.

Creio que essa história lhe soe bastante familiar, afinal quem lhe contou foi o próprio yokai que estou descrevendo agora. Sesshoumaru salvou minha vida e fez com que eu fosse capaz de lembrar que estava aqui por um motivo. Sim, eu sou um anjo, eu fui a primeira a vir para a Terra e toda minha vida e escolhas aqui definiram seu destino e de todos os outros anjos.

Quando senti que morreria eu percebi que ainda não era minha hora, que eu tinha alguma coisa a fazer e precisava de algo que me mantivesse ligada à Terra e foi a primeira vez que bebi sangue de um yokai. Eram os demônios que me prendiam aqui, logo, nada melhor do que seu sangue para me manter viva. Eu não tinha certeza se funcionaria, mas funcionou melhor do que eu imaginava. Quando acordei era como se tivesse revivido e acredito que tenha sido isso mesmo que aconteceu.

Depois daquele acontecimento eu mudei toda minha maneira de ver o mundo, eu tinha um propósito e deveria encontrar outras como eu, eu sentia que havia milhares de mulheres como eu por ai que ainda não haviam compreendido sua existência. Minha primeira missão foi encontrá-las e reuni-las e quando nos encontramos pela primeira vez foi tão emocionante, reconhecíamo-nos mesmo que jamais tivéssemos nos visto antes, nossas almas se reconheciam e sempre chorávamos nesses encontros. Meu encontro com Sesshoumaru limpou o ódio que existia em mim e meu único desejo verdadeiro era poder viver em paz com minhas irmãs, porque naquela época era assim que nos víamos, como verdadeiras irmãs.

Nós escolhemos nos isolar, fizemos um vilarejo escondido dos humanos e dos yokais e vivemos ali por anos, cuidando umas das outras, sem compreender o motivo de nos sentirmos tão vazias e solitárias, não queríamos humanos em nossas vidas, mas faltava algo. Algo que só foi preenchido quando Sesshoumaru me encontrou novamente.

O que aconteceu depois da sua chegada com um bando inteiro foi algo que jamais imaginei ser capaz de acontecer, minhas irmãs e aqueles demônios se encantaram de tal forma que nosso vilarejo inteiro se tornou inabitável, em todos os cantos você encontrava um casal atracado, todas as casas estavam cheias pessoas fazendo sexo. Eu não compreendia aquilo, quando eu vira Sesshoumaru pela primeira vez o que eu sentira fora tão diferente! Eu não queria me deitar com ele, queria dividir minha vida, meus sofrimentos, queria compreendê-lo e ser compreendida. E quando reencontrei aquele yokai chamado Naraku, me senti da mesma maneira.

Passamos por bons momentos, nós três, mas para nós começou a ficar óbvio que Sesshoumaru não se encaixava ali. Cada dia mais eu sentia vontade de estar lado ao Naraku, de conhecê-lo, de compreender cada mínimo detalhe de sua existência e parecia que ele tinha o mesmo interesse em mim. Nós não sentimos luxuria um pelo outros, nós nos apaixonamos e provamos para todos os outros que isso era possível, que yokais poderiam amar. Sesshoumaru tentou lidar com aquilo da melhor maneira, mas nossa ligação era diferente de todas as outras, quanto mais perto ficávamos um do outro, mais nossas mentes se confundiam em uma só. Eu podia ouvir seus pensamentos e sentir suas emoções e tenho certeza que ele também sofria essas confusões e por isso se afastou. Confesso que perdê-lo daquela maneira foi doloroso, ele era parte de mim, meu melhor amigo, mas não podia prendê-lo, não quando ele era o único infeliz em todo o vilarejo.

Nossa vida era tranqüila e realmente nos amávamos, ao andar na rua eu sentia que todas minhas irmãs estavam felizes e que finalmente o vazio que sentíamos havia sido suprido. Nós sentíamos no fundo de nossos corações que aquilo era o certo, que nós e os yokais deveríamos ficar juntos e que ninguém poderia interferir nisso. Quando achei que nada poderia me tornar mais feliz descobri que estava grávida! E não foi só comigo, todas as outras mulheres começaram a engravidar quase na mesma época, para nós, era só o que faltava para rechear nossa vida de alegria e amor. Reuníamos-nos para discutir nomes, brincar de fazer berços e caminhas, durante nove meses eu e minhas irmãs vivemos plenamente, usufruindo da alegria que somente um filho da pessoa amada pode trazer.

Mas eles não pareciam tão felizes quanto nós, quando penso hoje sobre aqueles dias, é bastante óbvio que eles estavam assustados. Como você aprendeu, yokais só podem ter filhos com mulheres yokais e lá estávamos nós, grávidas, esperando algo que ninguém sabia ao certo o que era. Naraku não era mais o mesmo, eu sentia isso e durante todo o tempo minha mente tentou me avisar que algo estava errado, que yokais eram traiçoeiros e por mais que eu amasse aquele homem, eu deveria me preparar para o pior, porque era isso que significava estar ao lado de um yokai: Estar sempre em alerta. Mas eu não quis ouvir, não quis acreditar no que meus instintos diziam, desde sempre eu aprendera a não temer yokais mais do que temia humanos e minha convivência com os humanos me provara que filhos sempre eram amados, crianças jamais eram mortas sem um motivo. E esse foi meu erro.

Quando minha filha nasceu, Naraku não estava lá, na verdade, pouquíssimos yokais estavam. Eu tinha certeza que algo estava errado, mas a alegria em segurar aquela criança em meus braços pela primeira vez lavou minha mente de qualquer preocupação. Ela era tão pequena, tão frágil, tão linda. Eu seria capaz de qualquer coisa para protegê-la, ao menos, era nisso que eu acreditava. Quando a encontrou pela primeira vez, Naraku agiu tão normalmente, quase como se a amasse, como se esperasse por ela tanto quanto eu e acreditei naquela atuação, pensei que ao vê-la pessoalmente todos os seus medos sumiriam e ele compreenderia que nossa filha era uma criança normal.

Pouco tempo se passou até que eu pudesse descobrir que já era tarde demais. Em uma noite acordei e percebi que ela, nem Naraku estavam em casa, sai correndo para a rua na esperança de que eles estivessem lá, mas só o que eu encontrei foi destruição. Yokais forasteiros e corpos por todos os lados, estávamos sendo atacadas e não tínhamos condição alguma de nos defendermos, estávamos apaixonadas, não tínhamos poder e nenhum dos nossos yokais estava ali. Por alguns minutos eu pensei aliviada que Naraku talvez pudesse ter levado nossa filha para um lugar seguro e isso me motivou a enfrentar aqueles yokais, a atrasá-los para que não pudessem alcançar os bebês que estariam a salvo.

Eu apanhei, vi minhas irmãs morrendo e quando estava prestes a ser estuprada e achava que nada poderia me causar mais dor, vi Naraku. Ele não tinha salvado nossa filha, nenhum deles tinha saído para salvar nossas crianças. Eu sentia o cheiro de morte exalando dele e de todos os outros, sentia o cheiro da minha filha nas garras ensangüentadas, eu senti meu coração parando e minha vida acabando. E eu senti ódio, como nunca havia sentido na vida. Tudo aquilo era culpa minha, a morte de minhas irmãs, de nossas crianças, a traição de nossos homens, tudo minha culpa! Eu tinha sido avisada para ficar alerta, o tempo todo minha mente me avisara, mas eu não quis ouvir, eu achei que o amor seria o bastante, mas não foi.

E ao perceber isso, eu o matei. Quando percebi que o amor não seria capaz de nos salvar, eu o matei, porque não existia mais espaço para amor em mim, só para ódio e vingança. Eu peguei uma flecha no chão e quando ele tentou me abraçar para me confortar, eu atravessei seu peito com a ponta da flecha.

Essa é a parte importante, peço que não me julgue e que entenda o que fiz. O que aconteceu naquele dia definiu o destino de muitas pessoas e se eu soubesse disso jamais teria feito o que fiz...

Matar Naraku não foi o bastante para mim, eu precisava de vingança, precisava cumprir minha missão na Terra, precisava acabar com aquele mal para nunca mais ninguém se enganar como eu havia feito. Peguei a flecha que tinha usado para matar Naraku e lambi o sangue que estava lá e essa foi a segunda vez que bebi o sangue de um yokai, mas dessa vez não fiz com a intenção de viver. Eu iria morrer, ma levaria todos aqueles demônios comigo.

Eu usei o sangue dele como oferenda para pedir aos céus ajuda para matar todos aqueles yokais, alguém lá em cima – acho que Deus – tentou me avisar que eu estava errada, enviaram a chuva mais forte que já tinha visto na minha vida, mas eu ignorei e continuei pedindo, implorando pela morte. Depois de um tempo, acho que alguém resolveu me ouvir e pouco a pouco os yokais começaram a cair, mortos.

Quando todos estavam mortos e eu era a única respirando percebi que aqueles não eram os únicos yokais do mundo, eu estava fraca e jamais conseguiria me livrar todos, por isso, naquele momento eu me amaldiçoei, joguei em mim mesma e em todos que viriam a ter o mesmo sangue que eu uma maldição. Todo anjo que viesse para a Terra teria como missão matar yokais, não importando o que lhe custasse ou o tempo que levasse, e eles jamais teriam liberdade até que todos os yokais do mundo tivessem sumido.

Como punição o céu lançou um raio em minhas costas e me marcou, fez a marca da maldição que eu criei. As asas em suas costas nada mais são do que a prova de que está amaldiçoada como todas as outras. Eu comecei isso, mas você terminou.

Kagome abriu os olhos e olhou ao redor, não havia nada, seu corpo flutuava em um infinito espaço branco. Sentada ao seu lado estava uma mulher com longos cabelos negros que balançavam como se estivessem dentro da água, seus olhos prateados, quase brancos, olhavam para um ponto indefinido e pareciam bastante curiosos. Kagome piscou mais algumas vezes tentando fazer sua mente se acostumar àquele lugar, mas só conseguia prestar atenção na mulher, era certamente a pessoa mais bonita que já vira na vida, sequer conseguiria descrevê-la, qualquer comparação iria menosprezá-la.

- Onde estou? – perguntou confusa.

Ela virou os olhos prateados para Kagome e sorriu.

- Você olhou direto para mim. – explicou a mulher. – Não é a coisa mais indicada a fazer quando estou descendo do céu.

- Eu morri de novo? – reclamou Kagome revirando os olhos. – Sério, isso já perdeu a graça!

A mulher riu alto, se divertindo com a irritação da garota.

- Não se preocupe, você só está aqui para poder se adaptar. Quando me olhou diretamente, seu corpo reconheceu o céu e quis voltar para lá, ainda mais depois de perder suas asas. Agora está aqui para poder voltar para a Terra.

Kagome girou o corpo tentando se sentar odiava conversar com alguém enquanto flutuava deitada, não que sempre fizesse isso, mas a situação era bastante incomoda, tinha que confessar. Cruzou as pernas e apoiou as mãos no joelho.

- Certo, vou pedir explicação para isso depois. – disse. – Antes preciso saber se era você quem estava falando na minha cabeça até agora, quero dizer, aquilo foi muuuuito estranho mesmo! Era como escutar a conversa de alguém!

- Achei que seria mais fácil contar tudo e deixar que fizesse as perguntas depois, imagino que queira entender muita coisa, estou certa?

Kagome fechou os olhos e percebeu que a história inteira estava intacta na sua mente, era como se aquela história, na verdade, fosse dela e ela relembrasse cada mínimo detalhe, sentisse cada emoção, derrubasse cada lágrima.

- Você é Midoriko, certo? – perguntou.

Ela sorriu.

- Sim, eu sou.

- O que quis dizer com "eu comecei isso, mas você terminou"? – perguntou Kagome. – O que foi que eu terminei?

- Você é um anjo, Kagome, e se tornou um pela maneira como morreu em vida. Dizem na Terra que você não se torna anjo, nasce um, mas essa não é a verdade. Uma pessoa pura pode sim se tornar um de nós e foi o que aconteceu com você. Você morreu sem ao menos ter a chance de viver, você nasceu filha do medo e da insegurança e carrega isso até hoje.

- Calma, vamos com calma... – disse Kagome. – Do que você está falando agora?

- Kagome, era para você ser a minha filha. – disse Midoriko olhando-a de maneira tão protetora e amorosa que Kagome sentiu o rosto queimando. – Você foi a criança que Naraku matou e mais do que qualquer um deveria carregar o ódio para sempre, mas não foi isso que aconteceu. Você morreu tão pura quando nasceu e por isso se tornou um anjo.

- Eu sou um hanyou, é isso? – perguntou Kagome.

- Já foi um. – disse Midoriko. – Hoje é um anjo. Seu destino nunca foi quebrar minha maldição, você deveria ficar o mais longe possível disso, mas parece que não somos capazes de escolher pelos outros, não é?

- De novo isso? Como foi que eu quebrei a maldição? Eu não fiz nada! – retrucou Kagome.

- Ah, você fez! Fez muito mais do que qualquer um! Você sabe o que te difere da Kikyou? – perguntou Midoriko e Kagome acenou negativamente. – Ela é um anjo caído, foi banida do céu e como castigo vive na Terra na esperança de um dia de redimir e ser aceita novamente. Você não, você escolheu abandonar o céu.

- Todos os anjos da Terra são anjos caídos? E pelo amor de Deus, porque é que eu largaria o céu?

- No momento, sim, você é a única fugitiva. – disse Midoriko rindo. – E realmente não consegue imaginar o que veio fazer na Terra?

Kagome revirou os olhos e cruzou os braços.

- Não pode ser o que eu estou pensando!

- Inuyasha? É, foi ele mesmo. Quando Kikyou ficou grávida dele você ficou louca, disse que não ficaria mais um minuto sequer no céu, que sua vida agora era lá embaixo e que se alguém se metesse no seu caminho, você quebraria todos os dentes da pessoa. Foi uma confusão só. Todo mundo tentou te impedir, mas na menor brecha, puf! Você sumiu e apareceu na Terra.

- Isso é sério? Não é nenhum tipo de piada? – disse Kagome incrédula. – Ta, eu gosto do Inuyasha, mas dizer que minha vida só existe onde ele está? Ele é só um cara!

- Seria bonitinho se você realmente acreditasse nisso, mas não é hora de falarmos sobre ele. Não quer saber sobre sua vida? – disse Midoriko com as sobrancelhas erguidas.

- Ah, sem dúvidas! Você amaldiçoou todas nós, certo? – a mulher acenou com a cabeça. – Então é por isso que temos de matar os yokais, eles não são nossos inimigos? O que você estava fazendo aqui na Terra se não era para matá-los?

- Minha missão na Terra envolvia yokais, mas eu levei muito tempo para compreender o que de fato eu tinha de fazer. Eu nunca tive de matar yokai nenhum, minha missão era fazer o bem vencer o mal, usando um bom clichê e como isso seria possível?

- Poder do amor? – disse Kagome como se aquilo fosse brega demais para verbalizar.

Midoriko riu do tom de voz da garota antes de continuar.

- Isso. Nós somos anjos, não guerreiras, só temos o amor para modificar seres que são demônios. Na minha época, yokais eram seres selvagens que não conheciam compreensão, nem amor, quando se juntavam era por interesse, inclusive nos relacionamentos. Era raro que eles se apaixonarem, é por isso que sentem uma atração tão fatal por nós. Imagine viver anos e anos num deserto sem água e então, colocarem uma garrafa de água na sua frente, ela irá te hipnotizar e é o que acontece conosco. Quando nos vêem, yokais sentem o amor pela primeira vez, essa é a verdadeira atração, não é proteção contra ataques, como lhe ensinaram.

- E o que isso tem a ver com podermos controlá-los? E porque perdemos nossos poderes quando nos apaixonamos? E porque temos que parecer crianças para sempre? Isso tudo é muito confuso.

- Antigamente, nós não controlávamos os yokais. Eles nos obedeciam porque queriam, o que eles sentiam era que éramos sábias e poderosas demais para sermos ignoradas, ninguém que tem tanto influência sobre um yokai deve ser ignorado. Só que com a minha maldição, isso se tornou uma maneira de derrotá-los, mas havia um preço a ser pago, o sangue que você oferece aos céus para controlar um yokai é esse preço. O livre arbítrio de um ser vivo jamais deve ser tirado. – explicou Midoriko. – A maldição é culpada por vocês não crescerem, jamais se tornaram mulheres na aparência, jamais poderiam ter uma vida adulta como a minha, ao menos esse era o plano.

- Não existia pedofilia na sua época, não? – disse Kagome revirando os olhos.

- Eu estava amaldiçoando toda uma espécie, não dá para pensar em todos os detalhes. – retrucou Midoriko. – Sobre perdermos nossos poderes, isso eu nunca entendi, mas acho que é porque é exatamente isso que acontece com todos aqueles que se apaixonam. Pessoas apaixonadas abaixam a guarda, entregam a vida para o parceiro, se tornam imprudentes, talvez nossos poderes até estejam lá, mas não temos motivos para usá-los.

- E porque envelhecemos quando nos apaixonamos? Outra falha na maldição? – disse Kagome ironizando.

- Vocês envelhecem porque ao se apaixonar criam uma brecha na maldição. Eu não esperava que um anjo se apaixonasse por um yokai e ao fazer isso, vocês se tornaram livres, pelo menos por um tempo.

- A chuva e a cicatriz nas costas é o céu tentando me impedir de matar inutilmente e me marcando como uma assassina, certo, isso eu já entendi. O que a cor do olho influencia? Dizem que sou mais poderosa que a Kikyou por causa disso e que atraio certos yokais também.

- A cor do olho, na verdade, não influência na atração dos yokais, eu diria que é uma preferência que eles têm, nada regrado, mas a cor realmente serve para separar os anjos. Meus olhos são dessa cor porque fui para a Terra com autorização, sou uma líder. Seu olho é azul porque não é um anjo caído, mas fugiu e perdeu parte dos poderes. Kikyou tem olhos verdes que indicam que ela caiu e tem um determinado prazo pra tentar se redimir. O olho indica a hierarquia terrestre dos anjos, quanto mais escuro for o olho, pior foi o pecado que cometeu e menor o tempo pra conseguir se redimir.

- O céu é meio rancoroso, não? – disse Kagome. – Imagino o que farão comigo quando voltar...

- Não é ser rancoroso, Kagome. As pessoas erram e precisam de uma segunda chance, o problema é que às vezes elas não querem essa chance, anjos acham que estão acima do bem e do mal e somente quando encontram as dificuldade de uma vida térrea que compreendem seus erros e tentam melhorar. Ao menos, é o que acontece com a maioria.

- Kikyou não está no time dos que tentaram melhorar, estou certa? – disse Kagome.

Midoriko negou com a cabeça e pareceu frustrada.

- Eu sinto muito por ela. Acho que se prendeu demais à minha história e esqueceu que os tempos haviam mudado, Inu-Taisho jamais teria matado Inuyasha, mas ela achou que ele era como Naraku e que sua missão era matá-lo.

- Ela sabia da sua história? Sabia que não éramos malucas assassinas de yokais?

- Ela sabe somente da traição, não sabe da maldição. – disse Midoriko. – Você é a primeira a saber disso.

- Você disse que quebrei a maldição, mas o que eu fiz de tão especial que alguém já não tenha feito antes? A Rin, por exemplo, fez muito mais do que eu. – disse Kagome e logo mordeu o lábio. – Ela está bem? E o Sesshoumaru?

- A Rin nunca se desvencilhou totalmente dos anjos, nunca foi capaz de romper os laços. Se casou com Sesshoumaru, engravidou, mas nunca conseguiu deixar de lado a culpa que sentia de trair suas irmãs, mesmo depois de morrer, continuou carregando essa culpa que a deixou presa naquela lugar onde você a encontrou. A Rin nunca caiu, apenas fugiu como você, o lugar dela é no céu, mas ela não conseguia se libertar dos próprios medos e culpas e esse amontoado de sentimentos conflitantes a prendeu lá. A verdade é que ela sempre esteve livre, mas nunca conseguiu aceitar isso, não se achava digna de ser feliz quando traíra suas irmãs, abandonara o homem que amava, não conseguiria salvar seu filho, nem ela mesma. E ela simplesmente não conseguia abandonar Sesshoumaru, daquele lugar ela era capaz de falar com ele, o que nunca aconteceria do céu. Tenho certeza que ela acreditava cegamente que seu lugar era ali, esperando por ele, por isso nunca se libertou, ninguém nunca a prendeu lá, somente ela mesma. E posso garantir que os dois estão ótimos agora.

- Sabe que estou bastante irritada agora, certo? – disse Kagome.

- E porque estaria irritada? Eles estão bem.

- Exatamente por isso! – retrucou Kagome nitidamente irritada. – O tempo todos eles estavam bem! Rin não estava presa sendo escrava, Sesshoumaru estava só esperando a morte finalmente chegar para ele... Era só isso! E eles me fizeram acreditar que eu tinha de salvá-los, que minha missão era libertar a Rin de uma droga de prisão imaginaria! Que eles estavam sofrendo e não havia solução para os problemas deles!

- Menosprezar o sofrimento alheio é sempre um erro. – disse Midoriko. – Viver séculos sabendo que se é culpado pela morte da pessoa que ama nunca é fácil. Lidar com todos aqueles sentimentos confusos, muito menos. Eles não sabiam de nada, o mesmo desespero que você sentiu, eles sentiram, nunca brincaram com você.

- Ainda acho isso uma droga! Poderia ter evitado muita coisa! – disse Kagome e agora dava pra ver que sua irritação era só uma fachada. Ela parecia aliviada. – Tipo, eu ter morrido, ter perdido minhas asas, quase ter perdido as memórias, Kikyou morrendo, Inuyasha se tornando um yokai completo. Tudo poderia ter sido evitado!

- Sim, poderia. – concordou Midoriko. – Mas foram todas essas coisas que te trouxeram até aqui hoje, você quebrou a maldição porque foi a primeira a cumprir a missão que deveria ser minha. Você se sacrificou não por um yokai, mais por dois. Decidiu ajudar Sesshoumaru, mesmo ele não sendo seu reflexo perfeito. Deu sua vida pelo Inuyasha e fez isso por amor. É muito fácil amar uma pessoa quando ela é feita para ser amada por você, qualquer um pode fazer isso, mas se colocar na frente de alguém que não significa nada para você? E você não fez isso só com o Sesshoumaru, fez com Kouga também.

- Eu não fui sempre boazinha assim, eu matei yokais, não sou melhor do que os outros. – disse Kagome sendo honesta. – Me arrependo disso, mas não muda o fato de eu ter feito.

- Você fez tudo isso, mas por minha causa. – disse Midoriko. – Você tinha uma escolha, poderia continuar fazendo o que fez ou seguir sua vida da maneira que achava certo. Você confiou nas suas escolhas, nos seus sentimentos, foi em frente e aceitou perder as asas por yokais! E mais do que ninguém, você era aquela que tinha tudo para odiar yokais, você carrega na sua alma o trauma de ser assassinada por um deles, qualquer outro no seu lugar teria medo, ódio, pavor. Não amor, nunca amor. E é só o que você tem por todos eles.

- Você faz parecer que sou a deusa do amor. Eu fiz tudo sem pensar, apenas achando que era o certo a se fazer. – disse Kagome.

- E é isso que te torna tão especial. – disse Midoriko. – Fazer o certo é algo natural, não deveria ser planejado.

- Então é isso? Eu quebrei a maldição com o poder do meu amor e da minha capacidade de agir sem pensar? – disse Kagome. – Ah, a Kikyou vai adorar saber disso, ela sempre reclamou da minha impulsividade!

Midoriko curvou os lábios em um sorriso fraco, seu rosto tinha uma expressão neutra, mas seu olhar parecia preocupado.

- Acho que merece saber que ainda tem suas asas, quando retornar para o céu elas estarão intactas. O que a Rin retirou foi uma parte da sua memória que estava adormecida, por isso você quase esqueceu tudo, mexer com as memórias é algo muito perigoso.

Kagome abriu o sorriso mais radiante desde o começo da conversa. Mal conseguia acreditar que ainda tinha suas asas, sentia como se o vazio que sentia desde que as perdera começasse a diminuir.

- Acho que agora temos de falar sobre o Inuyasha, não acha?

- Isso é alguma daquelas conversas de mãe e filha sobre namoro, sexo e proteção? Se for, eu acho que não estou preparada para isso. – disse Kagome fazendo careta.

- Bem, teoricamente, eu não sou mais sua mãe, então podemos dizer que essa não é uma conversa familiar. – disse Midoriko sorrindo. – Quero apenas discutir seus sentimentos, prometo não falar nada constrangedor.

Kagome revirou os olhos e cruzou os braços, aquilo era mesmo necessário? A última coisa que queria era se preocupar com seus sentimentos começava a achar que estava perdendo tempo demais lá, o que estaria acontecendo no mundo real? Inuyasha já matara Kikyou? Eles estavam bem? E Sango e Miroku? E Kouga e todos os outros?

- Precisamos mesmo disso? Eu acho que já entendi o mais importante, eu quebrei a maldição, anjos são felizes para sempre sem matar ninguém e o amor prevaleceu.

- Você não tem curiosidade nenhuma de porque resolveu largar o céu por causa do Inuyasha? – disse Midoriko.

- Claro que tenho, mas...

- Não se preocupe, - cortou a mulher. – não está acontecendo nada lá em baixo.

- Está bem, então. – disse Kagome soltando um suspiro longo demais. – Fale logo o que quer dizer essa história toda de reflexo.

Midoriko ergueu a sobrancelha e olhou-a parecendo confusa.

- Ah, não faça essa cara! Inuyasha já falou isso várias vezes e também ouvi você dizendo que ele era meu reflexo.

- Inuyasha não sabe realmente o que é ser um reflexo para alguém. Ele foi bastante esperto usando isso como exemplo para definir você, afinal, é isso mesmo que você é.

- Certo, e o que é isso?

- Na Terra, os humanos acreditam em almas gêmeas, acreditam que existe apenas uma metade no mundo inteiro capaz de fazê-lo se sentir bem, mesmo se relacionando com inúmeras pessoas ao longo de suas vidas. Culpam o destino por suas falhas, dizem que se o relacionamento não funcionou é porque "não era sua alma gêmea", quando na verdade é apenas uma desculpa para encobrir todos os erros que cometeram.

"Você pode se olhar no vidro de um carro e ver seu reflexo e mesmo deformado, escuro, ainda assim é seu reflexo. É assim com as pessoas também, você pode se relacionar com várias pessoas e elas serão capazes de te entender em diferentes níveis e o fato de não te entenderem por completo não as torna menos merecedoras de estarem ao seu lado, milhares de pessoas vivem suas vidas inteiras com alguém que não passa de um reflexo embaçado de si mesmas e são felizes.

"Encontrar um espelho é diferente de encontrar um reflexo qualquer, pois encarar a si mesmo de maneira tão perfeita, tão crua, às vezes é difícil para as pessoas. E elas preferem fechar os olhos, ignorar que estão tão próximas da felicidade. O que acontece com você é exatamente isso, Inuyasha é seu reflexo perfeito, ele reflete você exatamente como um espelho refletiria."

- Tudo isso é muito interessante, muito bonito, mas o que significa? – disse Kagome.

- Inuyasha é alguém que sempre te entenderá, independente do que aconteça, mas não quero que pense que o ama só por causa disso. Nem sempre você se apaixonará por seu reflexo, o fato dele ser como um espelho para você só faz com que se compreendam, que aceitem que a vida é melhor com o outro, mas bons amigos também pensam assim. Quem escolheu amar Inuyasha foi você, Kagome, e mais ninguém. Você veio para a Terra por que quis e se apaixonou não porque era para ser assim, mas porque foi capaz de perceber que ele, entre todos os outros, era aquele que poderia te fazer feliz.

Kagome esfregou o rosto parecendo confusa com tanta informação, aquele estava sendo um dia longo, muuuuito longo. Suspirou e voltou a encarar Midoriko.

- Se ele ser meu reflexo não muda em nada, o que isso importa, então?

- Nada. Eu só queria que soubesse que escolheu direito, ninguém é mais perfeito para você do que ele. Kouga, Miroku, Sesshoumaru... Todos eles eram capazes de te refletir, mas desde o começo, você só tinha olhos para Inuyasha. Você seguiu seu coração, quebrou minha maldição e agora está verdadeiramente livre.

- Eu posso voltar? Tudo estará bem?

- Isso não é algo que eu possa dizer, mas tenho certeza que ficará bem.

Kagome abriu a boca, mas só conseguiu gritar assustada. Seu corpo inteiro estava sendo puxado para baixo, sentia-se como água escorrendo ralo abaixo, o branco que antes dominava toda sua visão começou a se mesclar com milhares de borrões brilhantes e coloridos, fechou os olhos com força tentando evitar o enjôo que logo se formaria se continuasse a olhar para aquele turbilhão de cores e quando o abriu novamente, a sensação subitamente parou e ela estava de volta a Terra. Sua barriga doía por causa do ataque que sofrera de Inuyasha e sua nuca tinha alguma coisa com consistência estranha, demorou a perceber que era sangue seco. Esfregou os olhos tentando se adaptar a tudo, mas só conseguiu fazer sua cabeça doer mais ainda, olhou ao redor e sentiu o sangue sumir de suas veias.

Inuyasha tinha Kikyou em seus braços novamente, a mulher parecia uma boneca de pano mole e desengonçada, a cor de seu rosto indicava que já tinha perdido sangue demais e a posição estranha de alguns membros deixava claro que estavam quebrados. Mas o choque era encarar Inuyasha. Seus olhos que agora pertenciam a um yokai transmitiam tanta dor que era possível senti-la só de encará-lo, embora suas mãos prendessem o pescoço de Kikyou, ele não a atacava, segurava-a quase com nojo, sem coragem de tocá-la realmente. Para Kagome, era tão fácil ver como tudo aquilo estava ferindo-o, como lutava dentro daquele monstro que se tornara. Ele não queria aquilo.

Kagome levantou-se e se aproximou o mais vagarosamente possível, não queria assustá-lo e sofrer outro ataque, mas agora ele era um yokai e assim que ficou em pé ele a encarou. Seus olhos foram um misto de alivio e confusão, mas logo voltou a encarar Kikyou.

- Vá embora. – disse e sua voz grossa causou arrepios em Kagome.

Ela o ignorou, não queria ir embora. Midoriko havia lhe dito que fora capaz de destruir uma maldição milenar e libertar várias pessoas de um destino terrível só por acreditar em si mesma e continuar em frente, se conseguira algo tão incrível, trazer Inuyasha de volta não seria uma tarefa tão impossível. Era só fazer o que estava fazendo até agora e tudo ficaria bem.

Andou mais alguns metros até chegar perto do yokai, fechou os olhos e esticou os braços. Era agora, aquela era sua única chance.


Miroku olhou ao redor. O mundo parecia ter voltado ao normal, sua família andava de um lado para o outro agitadamente, perguntou-se se somente ele tinha sido capaz de notar aquilo. Tinha certeza que o tempo parara por alguns segundos, talvez até minutos, mas a idéia estava confusa na sua mente, não sabia se tinha tido um sonho muito real ou se aquilo de fato acontecera.

O dia estava estranho o bastante para que algo como aquilo fosse possível, procurou seu avô com os olhos e a expressão confusa que o idoso tinha dava-lhe a certeza que não fora o único a perceber. Se alguém naquela casa era capaz de sentir uma mínima mudança no ar, esse alguém era seu avô.

Sentiu uma mão gelada tocando seu braço e não precisou virar-se para descobrir quem era.

- O que foi, Sango? Porque está tão gelada?

- Estou preocupada. – disse Sango mordendo o lábio. – Inuyasha e Kagome não atendem ao telefone e seus pais não me deixam sair, quero ir até lá saber como eles estão! A chuva já parou, não tem mais perigo.

Miroku puxou Sango para perto e a abraçou, ela apoiou sua cabeça no peito do rapaz e suspirou.

- Algo está acontecendo, não é? – disse Sango – Eu sei disso, eles estão em perigo.

- Eu não sei, mas não podemos fazer nada. A chuva pode ter parado, mas não sabemos os estragos que ela causou ou se pode voltar.

- Odeio não poder fazer nada.

O rapaz abriu a boca para falar, mas seu avô levantou-se com uma expressão maníaca no rosto. Miroku arqueou a sobrancelha e disse:

- O que foi, vovô?

Sango virou a cabeça e encarou o velho senhor, ele andava em círculos pela sala parecendo um maluco.

- Primeiro aquele anjo maluco destrói a cidade e agora isso! Yokais lobos rondando por aqui, o que aqueles selvagens querem agora? Já não basta tudo o que agüentamos hoje? Ah, mas eu já deveria ter morrido, não posso mais ver isso, o mundo está todo errado.

- Kouga! – disse Sango. – Kouga é um yokai lobo, talvez ele saiba algo sobre o Inuyasha e a Kagome!

Miroku acenou com a cabeça e disse:

- Está certo, vou lá fora atrás dele, você fica...

- Nem começa! – retrucou Sango já na porta, segurando um casaco. – Eu não vou ficar aqui esperando, quero ajudar também!

O rapaz balançou a cabeça e suspirou, não pôde deixar de pensar em Inuyasha agüentando Kagome se enfiando em problemas dia após dia, tinha certeza que já teria enlouquecido no lugar do amigo.

- Ande logo, Miroku! – repreendeu Sango.

- Estou indo, estou indo. – disse Miroku caminhando até a porta.

O avô de Miroku olhou para os dois e balançou a cabeça, jovens idiotas, deveriam ficar em casa, mas quem era ele para dizer aquilo?

Sango apertou a mão de Miroku com força quando viu o estado de sua cidadezinha. Destruição era a palavra que definia aquilo, por todos os lugares que olhavam viam casas destruídas pegando fogo, árvores caídas, crateras no chão. Era como se uma guerra tivesse acontecido ali, se perguntava como uma chuva tinha sido capaz de causar tamanho estranho.

- Tivemos sorte. – disse Miroku encarando a cidade. – Minha casa é protegida espiritualmente, por isso ficamos bem, essa chuva não pôde nos afetar.

- O que os lobos estão fazendo aqui? – perguntou Sango ao notar que lobos vasculhavam os escombros.

- Eles parecem procurar por alguma coisa... – disse Miroku confuso.

Como se tivesse sido capaz de ouvir a conversa dos dois, uma rajada de vento se aproximou do casal e de dentro do vento surgiu Kouga, seus olhos estavam cerrados e ele parecia cansado. E até mesmo assustado com alguma coisa.

- O que vocês dois estão fazendo na rua? – disse irritado. – Voltem pra casa, aqui não é seguro!

Sango arqueou a sobrancelha, o yokai estava mesmo preocupado com ela?

- Seus lobos parecem estar procurando alguma coisa. – disse Miroku ignorando o conselho do yokai.

- Não é óbvio? Eles estão procurando pessoas que possam estar soterradas! – disse Kouga revirando os olhos. – Kikyou perdeu completamente a cabeça!

- Kikyou? Ela quem fez isso tudo? – disse Sango arregalando os olhos só de lembrar naquela mulher.

- Quem mais teria feito? – respondeu Kouga como se dissesse o óbvio, novamente.

- Você sabe onde a Kagome está? E o Inuyasha? – perguntou Sango aflita.

A expressão cansada de Kouga pareceu piorar ao ouvir aquela pergunta, a impressão é que o yokai agora fosse um ancião.

- Eles estão lá em cima. Com a Kikyou. – disse Kouga. – É por isso que precisam voltar pra casa, se algo acontecer com vocês, Kagome nunca irá me perdoar. Tenho muito trabalho na cidade, preciso procurar feridos e levá-los para o hospital...

- Porque está fazendo isso por nós? – disse Miroku. – Você odeia humanos.

- Porque vocês não têm culpa do que aconteceu aqui. – respondeu Kouga. – Humanos não deveriam ser colocados no meio da luta de anjos e yokais. Tenho meus motivos para odiá-los, mas não significa que acho certo deixar que inocentes morram.

Sango olhou para a montanha de Sesshoumaru e depois para a cidade destruída. Queria subir correndo, encontrar Kagome, saber se ela estava bem, mas não conseguia tirar da mente que seus pais, seus amigos, todas as pessoas que conhecia pudessem estar em baixo daqueles escombros.

- Eles estão bem? – disse repentinamente.

Kouga balançou a cabeça.

- Já faz meia hora que não consigo sentir a presença de nenhum deles. Nem mesmo de Kikyou. Seja lá o que aconteceu entre eles naquela montanha, já acabou. As pessoas daqui precisam mais de ajuda do que eles.

Miroku sentiu quando o corpo de Sango inteiro tremeu, sabia no que ela estava pensando, porque ele mesmo tinha pensado naquilo. Para um yokai não sentir a presença de alguém, significa que essa pessoa está morta, ao menos era isso que ele sempre ouvira falar e a expressão de Kouga não demonstrava que ele estava errado. Respirou fundo pensando no que deveria fazer, mas as palavras do yokai pareciam tão sensatas... Ele tinha razão, aquelas pessoas precisavam mais dele. E Inuyasha estava com Kagome, Miroku tinha certeza que desde que eles estivessem juntos, tudo estaria bem.

Forçou-se a acreditar naquilo e disse:

- Como podemos ajudar?

Sango mordeu o lábio, mas não disse nada. Pelo jeito tirara a mesma conclusão daquela situação toda.

- Ajudam não entrando em confusão. – disse Kouga. – Mas vocês conhecem a cidade melhor do que nós, vão saber onde procurar mais pessoas.

- O bairro das lojas! – disse Sango.

- Certo, vão para lá. Um lobo irá acompanhá-los, ele me chamará se algo parecer suspeito.

Antes que eles pudessem responder, o yokai sumiu em seu redemoinho de vento, deixando para trás um lobo que olhava para os dois ansioso.

- Fizemos o certo, não é? – perguntou Sango.

- Fizemos, somos mais úteis aqui. Só iríamos atrapalhar lá em cima. – disse Miroku.

- Espero que isso seja verdade.


- Você já pode soltá-la, está tudo bem.

Kagome tinha a cabeça apoiada nas costas de Inuyasha e seus braços envolviam a cintura de yokai, ele ainda segurava Kikyou, mas naquele momento sua mente parecia prestes a entrar em colapso. Sentia o toque de Kagome e sua voz lhe dizendo que tudo estava bem, mas não conseguia acreditar nisso, nada nunca ficaria bem depois daquele dia. Aquela mulher que ele agora tentava matar era sua própria mãe e ao mesmo tempo a pessoa que arruinara sua vida, matara seu pai, o abandonara e agora matara seu irmão, como algum dia as coisas estariam bem? Nada ficaria bem quanto ela existisse.

- Matá-la não fará as coisas ficarem melhores, - continuou Kagome. Sua voz tinha um tom trêmulo de quem não tem certeza do que está fazendo, confiava em si mesma e nas suas palavras, mas não imaginava a reação de Inuyasha e isso a assustava. – não trará de volta quem já morreu, nem apagará o passado.

- Ela precisa pagar pelo o que fez a mim, - disse Inuyasha e ele parecia mais do que nunca como o hanyou que realmente era. – pelo o que fez a nós. Só assim ficarei em paz.

- Não ficará! – retrucou Kagome. – Matá-la não resolve seus problemas, eu não que você se torne esse tipo de pessoa, não quero te perder.

Inuyasha deixou Kikyou cair no chão e seu corpo se espalhou como um saco de batatas, Kagome fechou os olhos e o abraçou com ainda mais força, mas ele apenas segurou suas mãos e se desvencilhou do abraço. Inuyasha virou-se para encarar Kagome e o yokai estava lá novamente e por instinto, a garota se afastou alguns passos.

- Eu quero ser um yokai. Sempre quis. Minha vida inteira vivi me perguntando o que havia de errado comigo, de onde vinha tanto ódio, tanta frustração, tanta fraqueza, tanta dúvida. E nesse momento não sinto nada disso, somente a vontade de destruir aqueles que me causaram todo esse sofrimento.

- Você está mentindo! – disse Kagome com seu tom de voz mais agudo e histérico. – Eu vi a maneira como você a olhava, você estava sofrendo, estava com dúvidas! Se tornar um yokai, matar a Kikyou... Nada disso vai livrá-lo de quem você é, suas angústias, frustrações, ódios são reais porque você está vivo! Não importa se acha que se tornar um yokai te livrará disso tudo, pois não irá, você só está fugindo dos seus problemas! Quando tive de fazer uma escolha, eu a fiz e não fugi, eu perdi minhas memórias e quase morri por isso, mas levei até o fim! Por que está sendo tão covarde? Por que não aceita que só quer ser amado como todos os outros?

- Você não sabe o que é estar na minha pele! – retrucou Inuyasha gritando. – Não fale sobre o que não entende, quem é que está fugindo?

- Você! Você está fugindo! – gritou Kagome em resposta. – Eu sei o que é se sentir deslocado, sei como é viver sempre se questionando, se perguntando o que me difere dos outros. Eu já estive no seu lugar, não se lembra? Eu também me senti sozinha e achei que me tornar forte era a saída para me livrar de todos meus problemas, eu matei yokais inocentes e virei as costas para você, mas ao escolher a Kikyou percebi que eu poderia me tornar mais forte, mas isso só aumentaria minha solidão, meu desespero. E eu voltei atrás, porque sabia que tinha você, mas agora o que eu tenho?

- Eu nunca fui seu! – retrucou Inuyasha. – O que você acha que eu sou? Alguma espécie de brinquedo que você pode sair mostrando para os outros?

Kagome deixou os braços caírem e piscou algumas vezes encarando o yokai. Será que tinha mesmo o direito de discutir aquilo? Afinal, Inuyasha estava certo. Ele não era dela, nunca fora, pessoas não são objetos para pertencerem assim umas as outras. Quando resolvera deixar de ser um anjo fora por conta própria, ninguém a forçou a nada, inclusive o próprio Inuyasha respeitara sua decisão, deixando-a partir e ali estava ela, insistindo para que ele deixasse de um yokai. Não era justo, estava mais uma vez sendo egoísta.

- Desculpe, - disse sendo o mais sincera possível. – você tem razão, não vou mais tentar fazer as escolhas por você. Eu só quero que você me deixe levar a Kikyou para um hospital, enquanto discutimos aqui ela está morrendo.

- Por quê? Porque quer salvá-la? Você a odeia!

- Talvez eu odeie mesmo, mas não quero que ela morra. Acho que agora nossos caminhos se inverteram, desde o dia que nasci Kikyou me ensinou que eu deveria matar yokais, que essa era a única vida que eu poderia ter. E nesse tempo todo, ela te protegeu, fez com não precisasse viver dessa maneira, deu a oportunidade de ter uma vida normal. Em algum momento da minha história eu percebi que não precisava disso, eu escolhi não matar, já você, escolheu o caminho reverso ao meu. Kikyou pode ter errado muito, mas não merece morrer assim. Hoje eu posso escolher não matá-la.

- Quando te ataquei você encontrou alguém, não foi? – disse Inuyasha. – Você acordou diferente, fala como se soubesse de tudo, não vejo mais em você as dúvidas que via antes.

Kagome sorriu. Era incrível como Midoriko estava certa, mesmo Inuyasha sendo um yokai conseguia perceber aquela diferença tão sutil nela. Ele realmente a conhecia melhor do que ninguém, era mesmo seu reflexo.

- Eu só descobri que estava certa, que tudo isso que aconteceu entre nós teve um motivo.

Inuyasha desviou os olhos e encarou o chão, a confiança de Kagome o incomodava, fazia com que sentisse que estava fazendo algo muito errado. Balançou a cabeça tentando afastar aqueles pensamentos, era um yokai agora, não existia espaço na sua mente para dúvidas. Apontou para o corpo de Kikyou e disse sem encará-la:

- Faça o que quiser com ela.

- Obrigada. – disse Kagome.

Os dois ficarem em silêncio, Kagome olhando para Kikyou e Inuyasha olhando para o chão. Por alguns segundos foi como se o tempo parasse, Kagome tinha a sensação que quando se mexesse nada nunca mais seria igual entre eles, salvar Kikyou era o mesmo que dizer que estava ao lado dela e contra ele. Queria tocá-lo ao menos mais uma vez, beijá-lo, senti-lo como sentira antes, mas não o fez, apenas respirou fundo e girou nos calcanhares, se afastando.

- Onde pensa que vai? – disse Inuyasha resmungando. – Achei que fosse salvá-la!

- E vou! – respondeu Kagome. – Mas não posso descer com ela nas minhas costas, estou indo procurar ajudar, Kouga talvez esteja por perto.

Inuyasha ergueu as sobrancelhas e a encarou incrédulo, como se o que ela tivesse acabado de falar fosse a coisa mais absurda do mundo.

- Isso é ridículo! – disse. – Nem terminamos e você já está correndo atrás daquele monte de pulga!

Kagome piscou algumas vezes se perguntando se aquilo era mesmo real. Estava mesmo vendo um yokai agindo como uma criança ciumenta?

- Olha, eu não estou indo atrás... Quer saber? Esquece! Eu não vou discutir isso com você, Kikyou é mais importante.

Inuyasha cerrou os olhos quando Kagome virou-se de costas e sorriu largamente ao encontrar Kouga. Não fazia idéia como o lobo chegara ali tão rápido, mas aquilo o irritava profundamente.

Kouga esticou o braço para tocar Kagome, mas ela apenas abriu os braços e o abraçou. Não havia motivos para abraçá-lo, mas Kagome sentia como se ele precisasse daquilo, sua expressão ao vê-la era como se estivesse vendo um fantasma.

- Você está viva! Mas como? – disse enquanto a abraçava confuso.

- O que há de errado com você? É claro que estou viva. – disse Kagome se afastando para encará-lo.

- Você não tem presença nenhuma, nem mesmo posso sentir seu cheiro. É como se você não estivesse aqui!

- Que ótimo, não? – disse Inuyasha. – Assim você não pode ficar seguindo-a por todos os lados.

- Acho que sei o que aconteceu, - disse Kagome ignorando Inuyasha. – explico depois, preciso que me ajude com Kikyou.

- Está falando sério? Por que eu ajudaria aquela mulher? – disse Kouga.

- Porque estou pedindo.

Kouga suspirou e concordou com a cabeça. A garota sorriu em resposta e os dois foram até o corpo de Kikyou, ela estava desmaiada e sua respiração fraca, mas ainda estava viva. Inuyasha acompanhou com os olhos enquanto eles pegaram a mulher e desciam a montanha, olhou ao redor e pela primeira vez pôde enxergar tudo o que acontecera, sentiu o peito doer ao relembrar tudo o que ouvira. Sesshoumaru ainda estava ali, morto, em algum lugar, não queria vê-lo.

Sentou-se e jogou o corpo para trás deitando no chão molhado. Pensou que poderia chorar de ódio naquele momento, mas percebeu que não era capaz, nenhuma lágrima saía de seus olhos. Então isso era ser um yokai? Aquele silêncio, aquela angústia presa e queimando os olhos sem nunca poder se libertar? Talvez não fosse tão bom quanto imaginara. Desde que conseguia ter lembranças de si mesmo queria ser um yokai para se tornar forte e nunca mais precisar se sentir indefeso, para nunca mais depender de ninguém. Durante anos e anos a única coisa que sentia era amargura por ser quem era e mesmo tendo encontrado alguém como Miroku e Sango que estavam dispostos a aceitá-lo como era, ainda assim sentia que precisava de algo mais. Achava que o sangue yokai supriria todas aquelas necessidades.

Tentou pensar em algum momento que tivesse se sentido plenamente feliz e somente uma imagem lhe veio à cabeça, o dia que vira Kagome pela primeira vez, os olhos azuis brilhando no escuro como de gatos de rua, os cabelos voando livremente e aquele cheiro de chuva que por tanto tempo o enlouqueceu, mas que agora faria qualquer coisa para poder senti-lo novamente. Aquele cheiro fazia com que se sentisse em paz, em casa. Como era possível que uma única pessoa fosse capaz de mexer tanto assim com ele? Uma vida inteira de desejos parecia não ser bastante para competir com apenas um ano ao lado de Kagome.

Levantou o corpo e socou o chão com força. Odiava Kagome, tinha certeza disso.


Sango segurava uma jarra de água quando viu Kagome, Kouga e algo que lembrava um corpo feminino. A mulher que esperava pela água olhou na direção que Sango olhava e soltou um muxoxo desanimando.

- Mais feridos. – comentou.

Sango entregou a jarra de água para a mulher e correu ao redor dos escombros procurando por Miroku. Quando o encontrou o agarrou pelo braço, fazendo-o derrubar a própria jarra que segurava.

- O que foi, Sango? – disse o rapaz confuso.

Ela apenas apontou para pedaço de rua destruída onde era possível ver os três. Miroku olhou ao redor procurando por Inuyasha e teve um péssimo pressentimento ao perceber que ele não estava com Kagome, tinha certeza de que ele estava vivo, mas não estar ali era estranho demais. Algo muito errado estava acontecendo. Olhou para os braços de Kouga e viu uma mulher, mesmo que a energia estivesse fraca demais, soube na hora que era Kikyou. Será que Inuyasha descobrira que ela era sua mãe?

Kagome olhava para a cidade completamente destruída e sentia vontade de gritar, Kikyou não pensara no estrago que estava fazendo? E aquelas pessoas inocentes que não tinham nada a ver com a história, todas feridas. Jamais conseguiria perdoar Kikyou se alguém tivesse morrido.

- Ainda quer salvá-la? – disse Kouga.

- Ela precisa viver e ver o que fez. Viver na Terra é seu verdadeiro castigo.

- Se é o que você quer. Vou levá-la até o hospital, vem comigo ou quer falar com seus amigos?

- Já na frente, eu já te encontro.

Kouga concordou e virou-se, mas antes Kagome segurou-o pelo braço e disse, olhando em seus olhos.

- Obrigada.

O yokai abriu a boca para responder, mas Sango agarrou Kagome pelos ombros e começou a falar sem parar, Kouga revirou os olhos, ajeitou Kikyou em seu colo e rumou para o hospital.

- Você está bem? Eu estava tão preocupada! O que aconteceu com todos, cadê o Inuyasha? Aquela era a Kikyou? E o Sesshoumaru?

Miroku colocou a mão no ombro de Sango, fazendo-a ficar quieta.

- Vá com calma, Sango. Não está vendo que ela também está ferida?

Kagome olhou para a barriga instintivamente, não porque doesse, mas porque lembrava que tinha sido atacada ali. O corte não doía e não jorrava mais sangue, parecia estar se curando sozinho. Pensou que aquilo talvez fosse alguma nova vantagem em ser um anjo, mas apenas balançou a cabeça e disse:

- Isso não é nada. Como vocês estão? Miroku, sua família está bem?

- Estamos todos bem. – disse Miroku. – Onde está o Inuyasha?

- Ainda está lá em cima.

- Por quê? Porque Kouga está com você e não Inuyasha? – disse Sango curiosa.

- Ele quis ficar lá. – disse Kagome simplesmente. – Muitas coisas aconteceram, acho que ele precisa de um tempo para pensar, colocar as idéias no lugar.

- Isso não é desculpa! – resmungou Sango. – Eu não ligo pros problemas dele, como ele ousa te deixar sozinha no meio de tudo isso?

- Eu não estava sozinha, - disse Kagome sorrindo. – Kouga estava comigo, mas deixe isso para lá, parece que tem muita coisa pra se preocupar aqui em baixo.

- Ah, você não faz idéia! – disse Sango revirando os olhos. – Kouga e os outros yokais encontraram todas as pessoas que estavam soterradas, por sorte ninguém se feriu gravemente, no máximo uma fratura, mas você sabe, temos muitos idosos na cidade, eles estão em pânico. Acalmar essa gente toda é um problema, não tenho jeito com essas coisas.

- Eu tenho que ir até o hospital agora, mas volto o mais rápido possível. – disse Kagome e virou-se para Miroku. – Você é amigo do Inuyasha há muito tempo, acho que mais do que ninguém merece saber que ele realizou o desejo dele, talvez seja bom encontrá-lo lá em cima, não sabemos como ele pode reagir aqui.

Sango olhou de Kagome para Miroku completamente confusa, cruzou os braços e bufou.

- Vocês não vão me contar do que estão falando, não é? – disse irritada.

- Inuyasha é o maior idiota de todos os tempos, - resmungou Miroku para si mesmo. – Sango, eu preciso ir atrás dele, você fica cuidando de todos? Kagome logo estará de volta, não é?

Kagome acenou com a cabeça e Sango fechou a cara, não queria ficar lá sozinha cuidando de todas aquelas pessoas, mas concordou fazendo uma careta.

- Estou fazendo isso só porque a cidade está um caos, ok? Vocês dois vão ter que me recompensar depois.

- Olha, eu não posso te recompensar, deixo essa para o Miroku. – disse Kagome. – Não se preocupem comigo, estou indo para o hospital, não estou vendo nada...

Miroku puxou Sango pelo braço e a beijou, Kagome sorriu e girou nos calcanhares indo para o hospital. Miroku alisou o cabelo de Sango e disse em seu ouvido:

- Prometo que depois te recompenso.

Sango revirou os olhos e tentou conter o riso, deu um tapa no ombro de Miroku e disse:

- Idiota! Agora os velhinhos vão ficar me enchendo.

- Ótimo, assim eles sabem que não é pra se engraçar com você.

- Miroku, eles não são seu avô.

- Precaução nunca é demais.

Miroku beijou novamente Sango e disse que logo voltaria. Sango respirou fundo e virou-se para as pessoas que a olhavam de maneira bastante curiosa.

- Então é isso ai, galera, quem vai querer água? – disse Sango.


O rapaz escalava a montanha xingando Inuyasha o tempo todo. Fazia idéia do que tinha acontecido lá em cima, mas se tornar um yokai completo? Era óbvio que esse era o motivo de Kagome ter descido sozinha, não conseguia acreditar que ele tinha escolhido ser um yokai, depois de tudo o que passara, depois de todas as conversas que tinham tido, era simplesmente inaceitável que Inuyasha fosse tão burro.

- O que é que você está fazendo aqui? – perguntou Inuyasha sentado no galho de uma árvore.

- Eu é que te pergunto isso! – disse Miroku. – Desça logo daí, acho que precisamos conversar.

- Você não deveria falar assim comigo...

Miroku revirou os olhos e pegou uma pulseira de contas que estava no seu bolso, jogou para o alto e quando ela voltou a cair, Inuyasha também caiu do galho.

- Sem gracinhas comigo, Sr. Yokai completo. – disse Miroku guardando a pulseira.

Inuyasha levantou o rosto da terra e encarou Miroku furioso, sabia que ele era seu amigo, mas naquele momento poderia matá-lo. Outra coisa que estava aprendendo sobre ser um yokai, todas as emoções eram potencializadas ao máximo.

- É isso mesmo que quer pra você? – disse Miroku.

- Do que está falando? – retrucou Inuyasha com a voz demoníaca se sobressaindo ao seu tom costumeiro.

Miroku sentou-se ao lado de Inuyasha, os dois estavam encostados no tronco da árvore que antes o yokai estava sentado. O rapaz respirou fundo.

- Se você tiver certeza absoluta de que é isso que quer, eu vou te apoiar, mas quero que pense bem. Vale a pena? – disse Miroku. – Você pode achar que se tornar um yokai completo é a solução dos seus problemas e eu até acho que seja mesmo, mas com o tempo você vai mudar. Eu nunca ouvi sobre um hanyou que se transformou em yokai, mas é fácil perceber que isso vai mexer com a sua cabeça, tudo em você mudou. Eu sei que agora mesmo você está fazendo um esforço imenso para não me atacar por causa do que acabei de fazer com você.

- Você está falando como a Kagome. – disse Inuyasha. – Exatamente como ela. Qual o problema com vocês? Será que não percebem que estão sendo egoístas?

- Você está continuando com isso só por orgulho! – retrucou Miroku.

- Miroku, você é o único que não pode me julgar! Sabe muito bem tudo o que passei, sabe como desejei isso por anos.

- E eu não falaria nada se você tivesse se tornado um yokai há um ano, se tivesse acontecido antes eu estaria feliz por você, mas agora você pode me dizer com toda a certeza de que é disso que precisa? Não estou nem pensando no que você quer e sim no que precisa.

- Eu ficarei bem se for um yokai. – respondeu Inuyasha,

- Não foi isso que eu perguntei. Eu posso até estar enganado, mas tenho certeza que perderá a Kagome se continuar com isso. Sabe disso, não sabe?

- Certa vez me ensinaram que é impossível ter tudo o que se quer.

- Exatamente e quando isso acontece, temos de escolher aquilo que é essencial, aquilo que não poderíamos viver sem. Você viveu como hanyou durante toda a sua vida, mas quando achou que a Kagome estava morta pensou em como tirar a própria vida. Naquela vez, sua preocupação era que você a tinha matado, dessa está fazendo o mesmo, você a está afastando.

- Você não entende, - disse Inuyasha. – eu sei que o certo seria escolhê-la, mas simplesmente não posso, não posso construir minha vida inteira em cima de uma outra pessoa. E se amanhã ela resolve ir embora? Ou pior, ela morre. O que eu faço? Eu sei que uma hora eu vou perdê-la, mas prefiro que seja como um yokai, com um corpo que vá agüentar essa dor.

- Se é nisso que você realmente acredita, vou respeitar, mas como seu amigo desde sempre gostaria de dizer que essa é a maior besteira que já ouvi no mundo. Você tem tanto medo de viver que vai acabar passando o resto da sua vida se escondendo e quando perceber, já vai ser tarde demais.

- Sou um yokai agora, lembra? Terei muito tempo para viver.

Miroku suspirou e levantou-se.

- Aonde você vai? – perguntou Inuyasha,

- Prometi para Sango que voltaria logo para ajudá-la, a cidade está destruída e tem vários feridos e ela está lá sozinha cuidando de tudo.

- Sozinha? Cadê a Kagome?

Miroku ergueu o lábio em algo que lembrava bastante um sorriso e disse:

- Isso não importa mais, amigão. Acho que é melhor não aparecer lá em baixo por enquanto, as pessoas já estão assustadas demais, essa sua aparência nova só ia gerar mais caos.

Inuyasha não respondeu, apenas saltou para longe, deixando Miroku para trás.


Kagome estava no hospital e Mika estava sentada ao seu lado, segurando sua mão. A velha enfermeira que antes cuidara tão bem de Kagome, agora estava tentando apoiá-la.

- Ela ficará bem, - disse a velha senhora. – nós faremos o possível para que sua mãe fique bem.

Quando fora visitá-la, Kikyou se apresentara como sendo sua mãe. Agora era ela quem estava internada e Kagome que deveria fazer papel de filha, não que precisasse se preocupar em atuar de alguma maneira. Estava verdadeiramente preocupada, o diagnóstico de Kikyou era péssimo, ela estava em coma e os médicos não pareciam confiantes com sua volta. Somente Mika estava otimista, mas até mesmo seu otimismo parecia forçado.

- Lembra de como você chegou aqui? Achavam que não tinha esperança e mesmo assim, você está viva, - continuou Mika. – ela é sua mãe, talvez você tenha herdado sua força dela!

- Está tudo bem, Mika, não precisa fazer isso. Eu sabia que ela estava péssima, quem fez isso com si mesma foi ela, não poderia ser diferente.

- Eu não entendo o que você está dizendo. – disse Mika.

Kagome balançou a cabeça e sorriu fracamente.

- Talvez eu precise ficar fora da cidade algum tempo, isso atrapalha o tratamento de alguma maneira?

- Ela precisa de alguém responsável para autorizar os procedimentos médicos já que está em coma.

- Sem problemas, eu resolvo isso. Se me der licença agora, eu preciso ajudar minha amiga na cidade, lá está um caos.

- Tivemos muita sorte aqui no hospital, nenhum raio nos acertou!

Kagome conversou alguns minutos ainda mais com Mika, se informou melhor sobre o estado de Kikyou e saiu do hospital, encontrando Kouga na porta.

- Quão ruim ela está?

- Coma. E parece que as chances de acordar são mínimas.

- Não se preocupe, Kikyou é indestrutível. Logo ela estará em pé nos atazanado como sempre.

- É o que todos achamos, né? – disse Kagome. – Enfim, pode me levar até Sango? Precisamos ajudar aquelas pessoas... E afinal de contas, porque elas não estão no hospital?

- Elas não querem, - disse Kouga revirando os olhos. – não se preocupe, quando eles começarem a sentir dor de verdade vão pedir para vir para o hospital.

Kouga estendeu a mão e abraçou Kagome, em poucos segundos eles já estavam no meio do redemoinho e chegando ao lado de Sango. Ela cerrou os olhos ao ver dos dois abraçados, mas não falou nada.

- Pronto, eu disse que voltaria rápido. – disse Kagome.

- Miroku foi mais rápido. – retrucou Sango.

- Ele tem obrigação disso, né? Eu não. – disse Kagome.

- Kagome, se importa em nos contar o que realmente aconteceu lá em cima? – disse Kouga subitamente.

- Olha, isso seria bastante interessante. – concordou Sango.

- Não, não me importa, na verdade eu precisava mesmo conversar com alguém sobre o que aconteceu.

Kagome sentou-se no chão e Sango gritou, chamando Miroku, os dois e Kouga sentaram-se ao lado da garota e ouviram tudo o que ela tinha para falar.

Kagome contou tudo, desde o sonho que tivera prevendo que Sesshoumaru morrera, sua ida descontrolada até a montanha, o passado de Inuyasha, a morte de Sesshoumaru, a transformação de Inuyasha, o ataque, o encontro com Midoriko, toda a verdade sobre si mesma, a tentativa frustrada de trazer Inuyasha de volta. As palavras saíam emboladas às vezes pela vontade de chorar, precisava parar e respirar fundo para criar coragem para continuar. E o tempo todo eles ficaram em silêncio, até mesmo Sango que costumava interromper todo tipo de conversa.

Kagome colocava aquilo para fora num torrencial de sentimentos que era impossível encontrar brecha para comentar, no final seus olhos já estavam cheios de lágrimas ao pensar em Sesshoumaru morto, Kikyou em coma, Inuyasha um yokai completo. Parando agora para contar a história finalmente compreendia quantas coisas havia perdido para conseguir quebrar a maldição, Midoriko dizia que somente seu amor e sua força de vontade tinham feito aquilo, mas ela estava errada. Todos aqueles que tinham se sacrificado, de maneira ou outra, tinham feito aquilo, sozinha ela só teria sido capaz de continuar olhando para o próprio umbigo. Tantas coisas perdidas por causa de uma única maldição era triste demais.

Quando finalmente terminou, Sango apenas levantou e a abraçou sem dizer uma palavra sequer. Kouga olhava para ela aflito e confuso, era o primeiro yokai a saber a verdadeira história dos anjos e parecia irreal demais para ser verdade, Miroku era o única que mantinha a mesma expressão de sempre. O dom de parecer sempre confortável em qualquer situação continuava com Miroku.

- É assim que essa história termina. – disse Kagome finalmente, após vários minutos de silêncio. – Milhares e milhares de anos de história finalmente encontraram seu final.

- Você está bem? – disse Sango.

- Eu ficarei. – disse Kagome.

Miroku soltou ar pelo nariz e Kagome reconheceu aquilo como uma risada, já vira aquilo várias vezes antes numa dupla de irmãos.

- Está rindo do quê? – perguntou curiosa.

- Nada, me desculpe, eu só lembrei-me de uma coisa agora. – respondeu Miroku.

- A guerra acabou? – disse Kouga. – Não devemos mais nos preocupar com anjos?

- A guerra está oficialmente acabada e assim como eu, você está livre. – disse Kagome.

Kouga sorriu e pegou a mão de Kagome, beijando-a levemente e de maneira bastante carinhosa.

- Você é maravilhosa, Kagome. Quando superar o cara de cachorro, sabe onde me encontra, afinal, se eu entendi bem a história, eu sou seu reflexo também, não é?

Kagome riu e acenou com a cabeça.

- Pode deixar, Kouga, quando perceber que mereço um yokai tão maravilhoso quanto você, eu te procuro.

- Eu adoraria continuar aqui para provar quão maravilhoso eu sou e conquistar ainda mais seu coração, mas os outros yokais precisam saber disso. Alguém deve avisá-los. Eu contarei sua história, você será lembrada pelo o que fez.

- Não quero nada disso, Kouga, só quero viver em paz. Nós sabemos o que aconteceu e isso já basta.

- Prometo me esforçar e não falar muito de você. – disse Kouga.

- Obrigada.

Kouga beijou novamente a mão de Kagome, acenou para Sango e Miroku e sumiu, em meio ao seu conhecido redemoinho.

- Porque é que ele precisa fazer isso? – resmungou Sango. – Ele não é um demônio da Tasmânia!

- Ai está um mistério para mim também. – confessou Kagome.

Sango mordeu o lábio e fitou Miroku com o canto do olhos, respirou fundo e disse:

- Acho que isso está errado. Você tem que ficar com o Inuyasha, quem liga para o que ele quer? Vocês dois foram feitos um pro outro, até o anjo idiota que amaldiçoou todo mundo sabe disso, até eu sei disso!

Miroku tocou o ombro de Sango. Aquele estava se tornando um hábito bastante comum, sempre que ela falava de mais, ele a avisava sutilmente com o toque no ombro e ela ficava quieta.

- Somos seus amigos independente da escolha do Inuyasha, certo? – disse Miroku.

Kagome sorriu aliviada.

- É ótimo saber disso.

- Alguém pode me trazer um copo de água? O galã ai me prometeu um copo de água há duas horas e até agora nada!


Inuyasha estava desaparecido.

Já havia passado quase quatro meses desde o incidente na casa de Sesshoumaru e a cidade estava se reconstruindo aos poucos, quase não existia mais rastro daquele dia. As pessoas já começavam a achar que tinha sido só uma chuva, as especulações perdiam a força dia após dia e no dia da partida de Miroku, o acontecido havia se tornado oficialmente uma chuva, até comentavam que deveriam procurar os responsáveis pelo Guinessbook, pois aquela deveria ter sido a chuva mais forte da história.

Miroku olhava ao redor impaciente, já imaginava que Inuyasha não apareceria, depois da conversa que tivera com ele na montanha nunca mais o vira ou tivera notícias do yokai. Sabia que ele estava bem e por isso não se preocupava, mas Sango não aparecer logo no dia da sua viagem? Tinha certeza que ela estava furiosa e magoada, mas esperava que ao menos fosse se despedir.

- Não se preocupe, - disse Kagome. – ela deve estar atrasada, você conhece a Sango.

- Conheço. – respondeu Miroku. – E é por isso que estou preocupado.

- Sua namorada te abandonou? – disse o avô de Miroku. – Bom, era óbvio que isso ia acontecer, uma mulher bonita como aquela esperando por um banana como você... Que piada.

- Vovô, você não está ajudando. – repreendeu a mãe de Miroku.

- E desde quando ele ajuda em alguma coisa? – resmungou o pai.

- Vocês poderiam não causar confusão no aeroporto, por favor. – pediu Miroku.

Kagome riu e deu leves palmadas nas costas de Miroku.

- Eles só estão tentando disfarçar a tristeza em perder o filhinho amado.

A mãe de Miroku o abraçou a acenou com a cabeça, concordando com Kagome. Desde o dia em que a família de Miroku descobrira a verdadeira história, todos passaram a tratar Kagome como um parente. A mãe de Miroku chegou a ajoelhar pedindo desculpas, coisa que fez a garota ficar roxa de vergonha.

- K-chan está certa! Vamos sentir tanto sua falta! Venha nos visitar!

- Faça a Kagome prometer que continuará freqüentando nossa casa depois de você viajar! – disse o avô.

Kagome sorriu e piscou para o vovô.

- Não te deixarei em paz tão cedo.

SENHORES PASSAGEIROS DO VÔO 323 COM DESTINO TOKIO, FAVOR SE DIRIGIREM A PORTA DE EMBARQUE.

Miroku olhou para cima, como se a voz estivesse falando com ele e fechou a cara. Procurou novamente ao redor por Sango, mas não existia nem sinal da garota.

- É seu vôo, não é? É melhor ir ou irá perdê-lo. – disse Kagome.

O rapaz revirou a mochila e retirou três envelopes e os entregou para Kagome.

- Um desses é seu, o outro é da Sango e o outro é do Inuyasha. Entregue para eles, por favor. – disse.

- Você vai ficar bem. – disse Kagome. – Já que a Sango não está por perto, será que posso te dar um abraço?

Miroku fez que não com a cabeça, mas já tinha os braços abertos para recebê-la. Kagome se aninhou em Miroku e não pôde deixar de pensar que talvez aquela fosse a última vez que iriam se ver. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela engoliu o choro.

- Isso não é um adeus. Vamos nos encontrar no futuro, eu tenho certeza. – disse Miroku.

Kagome acenou com a cabeça e se afastou do rapaz, dando espaço para a família se despedir.

ÚLTIMA CHAMADA, SENHORES PASSAGEIROS DO VÔO 323 COM DESTINO TOKIO, FAVOR SE DIRIGIREM A PORTA DE EMBARQUE.

- É minha hora. – disse Miroku.

Kagome acompanhou enquanto ele se afastava, sentiu inveja e tristeza ao mesmo tempo, sabia o que o esperava. E sabia que jamais teria isso.

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Miroku encarou sua cadeira e olhou irritado para o passageiro ao lado, ele estava com os pés na sua poltrona, como se tivesse comprado o avião inteiro. Perguntou-se porque ele usava um chapéu idiota de mexicano que ocupava mais espaço do que ele, respirou fundo tentando se acalmar. Aquela pessoa não tinha culpa por ele ter sido abandonado pela namorada no último instante.

- Com licença, o senhor poderia me dar espaço? Essa cadeira é minha.

- Você é muito chato!

Miroku arqueou a sobrancelha, aquela não era a voz de um homem, pelo contrário. Era uma voz que ele conhecia muito bem.

- Eu achei que estaria chorando, mas está ótimo! Acho que vou embora. – disse arrancando o chapéu e jogando-o no chão.

Ele ficou alguns minutos encarando a garota sentada na cadeira ao seu lado, a boca aberta e a os olhos fixos.

- Você vai babar. – disse Sango revirando os olhos. – Você estragou todo o momento.

- Mas o que é que você está fazendo aqui? – disse Miroku. Não existia crítica no seu tom de voz, somente surpresa.

- Não é óbvio? Estou indo para Tókio com você. Claro que minha faculdade não é tão boa quanto a sua, mas estaremos juntos. – disse Sango parecendo orgulhosa do seu plano.

- Você está falando sério? Você vai mesmo largar tudo e ir embora comigo?

Sango deu o sorriso mais sincero e verdadeiro que poderia dar.

- Eu largaria tudo se te deixasse ir embora.

Miroku se jogou na sua cadeira e puxou Sango para seu colo, ignorando completamente todos os outros passageiros a abraçou e beijou como se não existisse nada além deles. E para eles, realmente não existia.

- Obrigado, - disse Miroku entre um beijo e outro. – obrigado, obrigado. Sou a pessoa mais feliz do mundo, obrigado por entrado na minha vida, obrigado por tudo. Eu te amo.

- Eu que agradeço por ter me encontrado e me esperado. – disse Sango.

- Ah, pelo amor de Deus, vão para um quarto!

Sango apenas ergueu o dedo do meio e beijou Miroku de novo.

- Eu também te amo.


Kagome olhou o avião decolar e se perguntou como Miroku havia reagido à surpresa de Sango. Já sabia já meses do plano dela e manter segredo fora algo muito difícil, mas estava feliz por ter conseguido, os dois mereciam aquilo.

- Vamos? – perguntou a mãe de Miroku que estava ao seu lado.

- Vocês poderiam me deixar ao pé da montanha do Sesshoumaru? – perguntou.

- Vai visitar o tumulo dele de novo? – perguntou a mulher bondosamente.

- Sim, já faz um mês desde que fui visitá-lo

- Sem problemas, te deixaremos lá.

- Obrigada.

A família de Miroku e Kagome voltaram para a cidade em carro e como haviam prometido, o pai parou o carro no começo da montanha de Sesshoumaru.

- Não se esqueça que hoje tem jantar lá em casa, - disse o avô. – sem o Miroku e a Sango nossa casa ficará muito vazia.

- Pode deixar, vovô, estarei lá para o jantar.

- Cuide-se, Kagome. Até mais tarde.

Kagome acompanhou com os olhos o carro da família se afastando e dessa vez sentiu culpa, sentia-se péssima mentindo para aquelas pessoas, mas era sua única opção. Virou-se para a montanha e subiu-a. Sempre que chegava ao topo, Kagome sentia-se orgulhosa, melhorava a cada vez, agora conseguia subi-la em dez minutos, um feito para uma pessoa preguiçosa como ela.

Atravessou a entrada e foi direto para o jardim dos fundos, desde que Sesshoumaru morrera ela decidira que cuidaria daquele lugar. Era como estar perto dele e de Rin e uma maneira de manter a memória do yokai viva, a do verdadeiro Sesshoumaru, não aquele das lendas terríveis. Ao fundo, atrás do chafariz, escondido atrás de algumas moitas estava o túmulo do yokai e ao seu lado, estava o da Rin. Os dois estavam enterrados lado a lado, como deveria ser.

Ajoelhou-se em frente aos túmulos e fechou os olhos para pedir, mais uma vez, que eles estivessem bem, achava estranho ser um anjo e rezar, por isso apenas ficava ali, pedindo pela paz dos dois. E às vezes, jurava ouvir a voz deles conversando muito longe, mas eles pareciam felizes e era isso que importava.

- Desculpe por isso, mas não poderei mais cuidar do seu jardim. – disse Kagome como se Sesshoumaru estivesse em sua frente. – Não há mais nada aqui para mim e por mais que adore essa história de jardinagem, não diria é o bastante para me prender aqui.

Kagome juntou as sobrancelhas quando percebeu que algo a observava, não sabia desde quando, mas era nítido. Estava lá. Virou-se e deparou com Inuyasha. Ele estava encostado em uma árvore com os braços cruzados e olhava diretamente para ela.

- Falando sozinha? – perguntou.

Kagome respirou fundo ao ouvir aquela voz, era de um demônio, não a que sempre ouvia em seus sonhos. Inuyasha continuava sendo um yokai.

- Ouvindo a conversa dos outros? – retrucou.

- Miroku foi embora hoje, não foi? – perguntou e dessa vez ele desviou os olhos, encarando o chão.

- Sim. A Sango também foi, eles acharam que continuar juntos era o melhor para dois.

- Você estava falando em partir, vai embora também? – disse Inuyasha tentando soar casual, mas falhando.

- Tenho coisas a fazer.

- Que coisas?

- Como tem estado? – perguntou Kagome mudando o assunto. – Todos ficaram bastante preocupados com você, na verdade, o Miroku não ficou muito, mas isso porque ele tem aqueles poderes de monge dele que fazem dele o ser humano mais calmo do mundo.

- Bem e você?

- Bem também.

- Vai mesmo embora? – insistiu Inuyasha. – E Kikyou no hospital? Pelo o que eu ouvi, ela ainda está em coma.

- Sim, ela ainda está em coma, mas deixa-a aos cuidados do Kouga, ele se tornou responsável por ela. Posso ir embora sem preocupações, ela está em boas mãos.

- Imagino que agora você saiba muito bem sobre as mãos do Kouga serem boas ou não.

- Kouga inteiro tem sido muito bom para mim, não só suas mãos.

Inuyasha encarou-a de novo e viu que ela sorria, sentiu raiva de si mesmo por alguns segundos. Era claro que ela estava brincando com ela.

- Isso não foi engraçado. – disse irritado.

- Foi para mim. – disse Kagome sorrindo. – Olha, tenho uma oferta para fazer. Eu digo porque estou indo embora se você me disser por que sumiu.

- Não sinto mais como se lá fosse minha casa. – disse Inuyasha. – Acho que entendo um pouco a história de Sesshoumaru se tornar o maluco da montanha.

- Isso deve ser porque se tornou um yokai completo, está perdendo os laços que criou ao longo da sua vida como hanyou para criar laços novos como um yokai. Isso vai ser bom pra você, espero que esteja aproveitando.

Inuyasha piscou algumas vezes ao ouvir aquilo, não existia nenhum tipo de piada ou maldade na frase de Kagome, ela estava sendo sincera com aquelas palavras, pelo visto ela conseguira aceitar sua nova forma.

- Que seja, - respondeu revirando os olhos. – e você, porque está partindo?

- Preciso encontrar todos os anjos.

- Essa é uma missão bem grande, não? Está planejando alguma coisa?

- Nadinha, - disse Kagome negando como uma criança. – missão de paz. Tenho de encontrá-las e dizer que estão livres, Kouga tentou, mas ninguém o ouviu, parece que eu mesma terei de fazer isso.

- Os anjos estão livres?

- Sim, eu os libertei. Não somos mais obrigadas a matar ninguém. – disse Kagome orgulhosa de si mesma.

- Parece que perdi muita coisa... – disse Inuyasha e sua voz parecia chateada.

- Se quiser, posso te contar tudo o que perdeu. Não tenho horário para sair mesmo.

Kagome sentou-se no chão mesmo e apontou para um lugar ao seu lado.

- Sente-se aqui. Isso se não tiver nada mais importante para fazer, claro.

Novamente, não existia ironia ou maldade. Kagome estava sendo 100% sincera. Aquilo o pegou desarmado, esperava que ela estivesse odiando, que não conseguiria sequer olhá-lo, mas ela parecia ótima. Sentou-se ao seu lado e ouviu tudo o que ela tinha para contar, desde as coisas mais chocantes como ela ser mesmo um anjo, até as coisas mais banais, como Sango se matando de estudar escondida só para entrar em uma faculdade em Tókio.

Por horas, eles ficaram sentados ali, apenas conversando como fariam meses atrás, olhando o tempo passar, o céu mudando de cor. Naquele espaço de tempo o mundo inteiro era deles e eles nunca tinham se separado. Era apenas a velha Kagome com o velho Inuyasha, rindo e discutindo por bobagens. E foi no meio dessas bobagem que Kagome lembrou-se das cartas de Miroku, tirou-as da bolsa e entregou a de Inuyasha para ele.

- Miroku pediu para que eu te entregasse, parece que ele já sabia que iríamos nos encontrar.

- Ele sempre soube de coisas bem estranhas. – disse Inuyasha.

Inuyasha colocou a carta no chão e voltou seus olhos para o céu, que agora tinham uma coloração avermelhada, afinal, o sol já estava se pondo.

- Está escurecendo. – disse Inuyasha,

- O tempo passou rápido. – disse Kagome.

- É perigoso andar por ai no escuro, porque não vai amanhã?

Kagome encarou Inuyasha e sorriu bondosamente.

- Obrigada por se preocupar, mas posso me cuidar direitinho.

- Mas você não comeu o dia inteiro, deve estar fraca. – insistiu Inuyasha.

- Tem algo que você queira me falar? – perguntou Kagome. – Não estou te criticando, nem nada parecido, mas quando te vi achei que depois de tanto tempo, você gostaria de me dizer alguma coisa em especial.

Inuyasha ficou em silêncio, apenas olhando o céu a sua frente e sua infinidade de cores. Tinha algo a falar? Na verdade, tinha tanta coisa que queria dizer para Kagome, mas não sabia como começar, não sabia ao certo o que queria dizer, um dos motivos de ter sumido era o medo de encará-la e dizer mais coisas erradas.

- Deve ser difícil pra você falar algo agora, yokais não conseguem lidar direito com emoções, ao menos foi isso que aprendi quando estava com a Kikyou. - continuou Kagome ao perceber o silêncio do yokai. – Estou certa quanto a isso?

- É, acho que sim.

- Está tudo bem, você não precisa dizer nada que não queira dizer. – disse Kagome.

- Kagome, eu...

- Estou falando sério, - interrompeu Kagome. – se você acha que é demais para você falar qualquer coisa, eu falo.

Kagome pegou seu próprio envelope e começou a brincar com ele, passando-o por entre os dedos sem ao menos olhá-lo, seus olhos estavam focados no horizonte, assim como os de Inuyasha. Ela respirou fundo e continuou.

- Você se lembra quando disse que eu era como um reflexo para você? Talvez você nunca tenha percebido, mas naquele momento você me mudou para sempre. Por mais que eu tentasse negar, eu já sabia bem lá no fundo que eu te amava, mas eu tinha tanto medo do tamanho daquele sentimento que tentei reprimi-lo, só que naquele momento eu simplesmente não consegui. Desde o começo eu temi o que você faria comigo, porque eu sentia mais do que simples atração, eu olhava nos seus olhos e sentia como se você estivesse revirando minha mente, vasculhando minha alma, descobrindo todos aqueles segredos que eu tentava esconder.

"Ainda hoje, quando olho para você, sinto como se estivesse despida de qualquer proteção, eu sei que não importa o quanto eu tente me esconder por trás de camadas e camadas de indiferença, você ainda vai ser capaz de perceber como tudo isso me magoa. Eu não vou mentir, Inuyasha, saber que não fui escolhida dói demais e às vezes, tenho a sensação que nunca vou ser capaz de aceitar isso completamente, mas eu finalmente compreendi o que significa ser o reflexo de alguém. Eu sou seu reflexo e por mais que me doa dizer isso, eu entendo sua escolha.

Talvez no seu lugar, eu faria a mesma coisa. Eu demorei em entender a diferença entre nossas escolhas, para mim foi fácil escolher você, porque eu sabia que Kikyou estava errada, eu sabia que aquela vida que tinham escolhido pra mim não era o certo, escolher você foi escolher uma vida certa, mas isso não aconteceu com você. Ficar comigo ou ser um yokai, ambas as opções estavam certas, o que você viveu até agora é que foi um erro. A verdade é que eu escolhi deixar de ser um anjo e teria feito isso mesmo que você dissesse que não estaria mais lá por mim, porque eu sentia que era o certo a fazer. E quando olho para você agora, sei que sentiu a mesma coisa.

Se eu fosse capaz de demonstrar o quanto sou grata por tudo o que fez por mim, acredite, eu demonstraria, mas sempre que penso numa maneira de fazer isso tudo parece simples demais. Hoje eu sou uma pessoa melhor e é graças a você e por isso só posso dizer obrigada, sempre que olhar para mim mesma e ver essa nova Kagome, eu lembrarei de você e agradecerei pela oportunidade de ter te conhecido.

Eu queria que nossa história tivesse sido diferente, queria que nosso final tivesse sido feliz, mas somos adultos o bastante para saber que nem sempre é assim, que nem sempre temos tudo o que queremos. Hoje eu posso dizer que realizei um dos meus maiores sonhos, que sempre foi o de ser livre, mas até agora eu não aproveitei isso. Eu esperei por você na esperança que sentisse minha falta o bastante para me procurar, sabe, eu te aceitarei mesmo sendo um yokai, porque eu sei que ainda é você, a pessoa que eu amo ainda está ai dentro, mas você não apareceu, você conseguiu seguir em frente e fui sentindo que estava ficando para trás. A Sango, o Miroku, até mesmo Kouga continuaram com suas vidas, planejaram o futuro, mas eu não. Eu parei no tempo e só agora percebo que esse foi um erro só meu.

Queria poder dizer que te amo o bastante para te esperar eternamente, mas não farei isso. Eu te amo e sei que se um dia isso mudar deixarei de ser eu mesma, porque te amar está tão intrincado em mim que seria o mesmo que perder parte de mim, mas eu sei eu posso viver só com esse amor. Eu posso seguir em frente, eu quero seguir em frente. Não importa quantas pessoas eu veja, quantos anos passem, você ainda estará comigo, mas eu não preciso estar nessa cidade para isso. Eu quero ser capaz de fazer minhas próprias escolhas, de ter uma vida normal em algum lugar sem pensar em yokais, anjos e em tudo o que aconteceu. Não pense que estou fugindo, eu só quero poder viver sem arrependimentos."

Kagome respirou fundo novamente, tentando recuperar o fôlego depois de falar tanto. Olhou para Inuyasha e percebeu que seus olhos estavam brilhando mais do que o normal, grandes poças de água que se formavam e se recusavam a escorrer.

- Eu sabia que um dia você iria embora, - disse o yokai e sua voz estava fraca. – e achei que ser um yokai tornaria a dor mais aceitável, mas eu me enganei, dói do mesmo jeito.

- Estar vivo dói, não importa o que você seja. – sussurrou Kagome.

Inuyasha virou-se para Kagome e a encarou tão profundamente que ela teve de encará-lo de volta. Naquele poucos segundos em que seus olhos se encontraram foi o bastante para se refletirem, mesmo Inuyasha sendo um yokai, eles ainda conseguiam se compreender e naquele momento, dividiam as mesmas emoções; o medo, a dor, o amor, a insegurança.

- Você vai voltar algum dia? – perguntou Inuyasha.

- Você vai?

Inuyasha engoliu em seco sentindo seu sangue correndo por todo o seu corpo, o coração batia forte no peito e pela primeira vez desde que se tornara um yokai, sentia-se como um adolescente nervoso e inseguro. Esticou o braço com cautela, como se seu toque fosse capaz de quebrar Kagome, e hesitou um pouco antes de pousar a mão em sua nuca. O toque do yokai fez o corpo inteiro de Kagome tremer e ela fechou os olhos, sentindo todos os nervos se retraindo e seu estômago girando. E então Inuyasha tocou seus lábios no dela e foi o bastante para que ela chorasse, seus olhos transbordaram e as lágrimas escorreram por seu rosto, Inuyasha a puxou mais perto e a abraçou com tamanha força que era como se quisesse tê-la dentro de si, como se tentasse absorvê-la e sugá-la para que nunca mais nada pudesse tirá-la dele.

Nunca um beijo tinha tido a capacidade de dizer tantas coisas, Kagome sabia que aquela era a maneira do yokai dizer tudo o que sentia, tudo o que seu novo corpo não permitia que ele verbalizasse. E ao mesmo tempo, sabia que aquilo era uma despedida, que ele a estava libertando, assim como ela mesma fazia com ele. Eles sentiram algo gelado e úmido molhando-os e quando se separaram perceberam que estava chovendo, Kagome olhou para o céu e logo fechou os olhos, sentindo a chuva gelada em seu rosto, limpando as lágrimas.

- Estão dizendo que é hora de partir. – disse Inuyasha olhando para o céu.

- Estão.

Kagome levantou-se, mas virou-se para olhá-lo. Os olhos começaram a queimar de novo e percebeu que não era só a chuva que molhava o rosto de Inuyasha rosto, eram também lágrimas. Respirou fundo e tentou sorrir o mais verdadeiramente que pôde.

- Adeus, Inuyasha.

Mas Kagome não esperou uma resposta, abaixou-se pegando a bolsa que ainda estava no chão e correu, deixando-o para trás. Inuyasha olhou para o céu e aproveitou que a chuva continuava caindo e chorou, ali ninguém seria capaz de ver suas lágrimas

Kagome encostou em uma árvore e curvou o corpo, seu corpo doía e os olhos ardiam, sentia vontade de gritar e chorar alto para que todos pudessem sentir o mesmo que ela sentia naquele momento, para que todos entendessem a dor de fazer uma escolha. Abriu a bolsa procurando algo que pudesse limpar seu rosto, mas só encontrou a carta de Miroku, o papel tremia em sua mão e ela demorou a criar coragem para lê-la. Quando abriu o envelope o soluço preso em sua garganta escapou, as lágrimas molhavam o papel que ela tentava proteger da chuva.

"No tear que tece a nossa vida, não há pontas soltas. Todos os fios estão entremeados entre si e revestidos de significados."

Um dia você entenderá a força dessas palavras. Eu acredito em você, Kagome, sempre acreditei. O que o destino lhe reservou para o presente é apenas uma ponta que quando se entrelaçar com toda a sua vida lhe trará o que realmente merece. Não pense que acabou, esse é apenas o começo, tenho certeza disso.

Obrigado por ter feito parte da minha vida, nos encontraremos em breve."

Kagome enxugou as lágrimas e guardou o papel na bolsa, olhou para o céu mais uma vez antes de voltar a caminhar sem olhar para trás. Seu caminho agora era seguir sempre em frente, como dissera Miroku, aquele não era o fim de nada, apenas o começo.


Ok, agora é aquele momento que me escondo das pedradas. Peço um milhão de desculpas pelo sumiço, sei que estou sempre dizendo isso, mas esse de longe foi o capítulo mais difícil que já escrevi. Reescrevi inteiro duas vezes, sendo que já primeira já tinha escrito mais de 20 páginas, reli e achei tudo tão porco, tão falso que apaguei e comecei do zero. Eu levei 3 madrugadas para escrever essa versão e confesso que não fiquei 100% feliz, mas foi o melhor que consegui.

Sim, desde o começo eu soube que eles não ficariam juntos. Sou um monstro sem coração que destrói o amor, mas simplesmente não consegui pensar em outro final, foi assim desde sempre. Sei que MUITA coisa ficou sem explicação, mas achei que uma notinha aqui resolveria o problema, afinal, é só uma fic, né?

- Miroku, Sango e Kagome se formaram na escola. Embora Kagome tenha se formado só porque o Miyouga mexeu seus pauzinhos.

- Inuyasha não se formou, um dos motivos de ele ter sumido era exatamente esse. Ele não se sentia bem indo para a escola, tendo uma vida normal depois da escolha que fez. Quando escolheu ser um yokai, ele abriu mão de todo o seu passado e começou do zero. Eu não cheguei a comentar, mas ele estava morando na casa do Sesshoumaru (logo, ele tomava banho, nada de yokai selvagem) e sempre via Kagome visitando o túmulo dos dois, mas nunca falava com ela.

- Kikyou terminou a história em coma e Inuyasha não a visitou nenhuma vez.

- Houjo arranjou uma namorada e esqueceu a Kagome XD

- Rin e Sesshoumaru estão juntos no céu, mesmo isso causando o maior caos por lá. Ninguém quer um yokai no céu XD

- Kouga continua sozinho esperando Kagome infinitamente e acaba se sentindo responsável pela Kikyou, sendo o único a visitá-lo todos os dias.

- Na carta que Miroku enviou para a Sango, tinha um passagem para Tókio e uma frase: "Não me deixe viver em você"

- A carta que o Miroku enviou para o Inuyasha era igual que a da Kagome, mas com um P.S no final: Lembre-se sempre que você é a pessoa mais burra do mundo. Esperamos que os anos te melhorem.

Se vocês perceberem algo sem resposta, podem perguntar que eu responde! :) Antes de quererem me matar, lembrem-se que ainda falta o Epílogo e todas as pontas soltas vão ser entrelaçadas. E pra quem não sabe, essa frase que usei para o Miroku é do mangá XXX Holic.

Mais uma vez, eu gostaria de agradecer a quem comenta, confesso que senti vergonha desse sumiço, mas garanto que foi para tentar fazer o meu melhor. As reviews que vocês deixam pra mim sempre me emocionam, fico feliz que minha história seja tão importa para alguns de vocês. E espero não tê-los decepcionado com esse capítulo "final".

Beijos e obrigada por me aturarem todo esse tempo (dessa vez será rápido, juro, já tenho parte do epílogo feito!)