Epílogo
Aquela era uma noite de verão, a correnteza de ar estava especialmente forte, mas Tókio era grande demais para aquela brisa e a música que o vento fazia ao dançar por entre os prédios não era alta o bastante para acordar uma cidade que nunca dorme. Já passava de duas da manhã e as ruas encontravam-se cheias, o céu escuro e nublado tornava as luzes da cidade ainda mais brilhantes e vivas, fazendo dali moradia de um céu falso recheado de estrelas artificiais.
O homem, que até então olhava para milhares de papéis e fotos em cima da mesa, ouviu uma batida na porta tirando-lhe a concentração. Levantou-se irritado, sabiam que estava trabalhando e que não queria ser incomodado. Ficou encarando a porta alguns minutos em uma tentativa inútil de fazer quem quer que fosse ir embora, desistiu suspirando. Andou por toda a sala até chegar ao objeto de toda a irritação, olhou para um sorriso animado e sentiu cheiro de café, estava prestes a fechar a porta quando algo lhe chamou atenção.
Era uma sacola do Mc Donald's. Deu um passo para trás, dando passagem para aquele que lhe interrompera e logo fechou a porta, correndo de volta para a mesa.
- Achei que estaria com fome e que precisaria de uma ajuda extra pra ficar acordado. – disse entregando-lhe a sacola.
- Que droga é essa? Isso é quadrado! – disse depois de remexer a sacola e chacoalhando o hambúrguer. – É isso que chama de ajuda, Miroku? Me trazer um McFish?
- Teoricamente é o lanche mais saudável de lá. Sango disse que você não tem se alimentado direito há dias, garanto que o McFish ajudará mais do que você tem se ajudado.
Inuyasha girou os olhos e forrou a mesa com guardanapos, sem ao menos tirar seu material de trabalho. Revirou novamente a sacola, dessa vez procurando pelas batatas e pelo refrigerante, mas só encontrou uma porção de cenouras e um copo de água.
- Deixe-me adivinhar... É o mais saudável?
Miroku acenou com a cabeça e puxou uma cadeira, sentando-se em frente à mesa. Olhou enquanto Inuyasha pegava uma cenoura e tirava o molho do McFish, jogou tudo de volta na sacola e mordeu o hambúrguer, fazendo careta e deixando óbvio seu descontentamento com aquilo.
- Frango é mais saudável que essa porcaria quadrada. – resmungou.
- Simplesmente não entendo como a Sango consegue trabalhar pra você. – comentou Miroku.
- Dinheiro. Ta, falando sério agora, você conhece sua mulher, ela sempre gostou de viver perigosamente, no limite eu diria.
- Eu sei, mas entre tantas coisas no mundo e tantas pessoas para trabalhar, ela foi logo escolher você e essa porcaria de emprego. Sem ofensas, mas sabe quantos telefonemas tenho recebido no meio da noite? Com o que estão mexendo agora?
- Sigilo. Se souber, terá que morrer. – disse com a boca cheia de comida.
- Grande piada, com a Sango enfiada no meio disso é claro que sobra pra mim.
Inuyasha mexeu os ombros e jogou-se na cadeira que de tão grande o abraçou de volta. Pegou um guardanapo na mesa e limpou as mãos e o rosto, respirou fundo antes de revirar os papéis que se misturavam à embalagem de hambúrguer e guardanapos sujos. Encontrou a foto de um homem de terno que não aparentava ter menos do que oitenta anos, jogou-a para Miroku e disse:
- No mínimo, os tataranetos do Ramsés II é que estão te enchendo. Estou atrás dele há meses e só agora consegui pegá-lo, dá pra acreditar que essa múmia controla todo o tráfico de órgãos dessa região? E pelo o que a Sango descobriu a polícia está metida nisso. É o tipo de caso que quanto mais revira, pior fica.
Miroku jogou a foto na mesa e respirou fundo, levou as mãos às têmporas massageando-as.
- Você não está indo longe demais? Você começou com essa história de jornalismo investigativo para encontrar a Kagome, mas já se passaram sete anos e nunca encontramos sinal de que ela esteja aqui. Eu já disse antes, não adianta você procurá-la, Kagome é o tipo da pessoa que só será encontrada quando quiser.
- E você quer que eu faça o que com todas essas pessoas que morrem porque o Sr. Múmia do Ramsés II acha interessante ganhar dinheiro roubando seus órgãos? – retrucou Inuyasha. – Eu sei que está preocupado com a Sango, mas esse é um caso que vai além do que eu ou você queremos, é claro que eu preferia estar gastando esse tempo revirando o mundo inteiro atrás dela, estou quase há um ano preso nisso e sempre que deito na cama me pergunto se aquele foi um dia perdido, um dia que eu poderia tê-la encontrado, mas não pude. Uma das coisas que aprendi com minhas escolhas é que infelizmente não podemos ter tudo.
- Se bem me lembro, eu avisei que você estava fazendo a escolha errada naquela época. – disse Miroku revirando os olhos.
- E que diferença isso faz agora? – retrucou Inuyasha voltando sua atenção para os papéis. – E antes que eu me esqueça, o que diabos está fazendo aqui? Sango disse que você tinha uma cirurgia neurológica ou qualquer que seja o termo médico idiota que ela usou.
- Era a retirada de um meningioma, ou se preferir, de um tumor no cérebro. – disse Miroku que logo suspirou. – Ele morreu antes chegar ao hospital para operar. De pneumonia! Dá pra acreditar nisso? Tem gente que ainda morre de pneumonia hoje em dia.
- Gente que tem um meningi qualquer coisa na cabeça ainda por cima. Me diz como uma pessoa que paga uma cirurgia dessa não cuida de uma pneumonia? – perguntou Inuyasha indignado.
- Provavelmente achou que se um tumor no cérebro não pôde matá-lo, uma gripezinha de nada também não poderia. – respondeu Miroku. – Falando em tumores no cérebro, como está sua mãe?
Inuyasha largou a caneta que segurava e voltou a jogar-se na cadeira, aquela era uma mania que adquirira com o tempo, sempre que estava incomodado com algo se afundava na cadeira e ela sempre o abraçava de volta.
- Já falamos sobre isso. – respondeu. – Ela tem um nome, não precisa ficar dizendo o tempo todo que é minha mãe, está cansado de saber como odeio isso.
- Achei que tivesse superado a história toda.
- E superei! – retrucou Inuyasha. – Mas não significa que queira uma mãe. E respondendo sua pergunta, pelo o que Kouga me disse, ela está ótima. Como você sabe, ela já está acordada do coma há quatro anos e até agora parece que não teve seqüela nenhuma, mas isso era esperado, não é? Afinal, ela não é humana.
- Sinceramente, não faço idéia se isso era o esperado. Eu nunca examinei o cérebro de um anjo, será se quando encontrarmos a Kagome ela deixaria que eu desse uma olhada?
Inuyasha suspirou voltando sua atenção para os papéis, em meio a fotos de velhos senhores engravatados estava várias fotos de silhuetas, de sombras femininas e olhos azuis.
- Onde a Kikyou está vivendo agora? – perguntou Miroku chamando-lhe a atenção. – Da última vez que ouvi algo sobre ela, ela estava vivendo com o Kouga, mas não acho que esse seja o lugar dos sonhos de qualquer mulher que seja.
- Parece que ela foi para o templo dos anjos, Kouga disse que ela está em jejum há quase um mês, só tomando água e comendo pão. Deve estar tentando provar que pode voltar para o céu depois de tudo o que fez, espero que ela seja aceita de volta, o lugar da Kikyou nunca foi aqui.
- Isso é meio cruel de se falar, ainda mais quando é sua própria mãe.
Inuyasha sorriu.
- Você diz isso porque sempre pertenceu aqui. Eu falei sério quando disse que superei isso tudo, eu a perdoei pelo o que fez e espero que possa descansar em paz, mas aqui na Terra ela nunca conseguirá. Ir para o céu é ir para casa.
Miroku cruzou os braços no peito e revirou os olhos.
- Você fala como se fosse alguma aberração, já olhou pra você? Um humano perfeito, sem tirar, nem por.
- Eu não sou humano, você sabe disso, não tem sangue humano em mim. – retrucou Inuyasha.
O som de alguém batendo na porta fez com que os dois desviassem a atenção da conversa, Inuyasha olhou para a porta parecendo bastante irritado, voltou os olhos para os papéis e bufou alto.
- Eu nunca vou terminar isso.
- Eu abro, pode deixar. – disse Miroku.
- É claro que você abre, é pra você!
Miroku levantou-se e foi até a porta, abriu e sorriu ao deparar-se com Sango, ela tinha a cara amassada e parecia ter acabado de acordar, mas seus olhos brilhavam de maneira irritada.
- Você finalmente consegue uma folga daquele maldito hospital e o que você faz? – disse Sango entrando na sala e sentando na cadeira que antes Miroku usava. – Vem visitar seu amigo com comidinha e café e deixa sua linda e maravilhosa mulher sozinha em casa.
- Boa noite, Sango. – disse Inuyasha sem tirar os olhos dos papéis. Ele agora escrevia em uma folha e fazia vários rascunhos.
- O que essa noite tem de boa? – retrucou Sango.
Inuyasha pegou a mesma foto que antes mostrara para Miroku e mostrou para Sango, a mulher pulou em cima da mesa e agarrou a foto com uma expressão incrédula.
- É ele! Você conseguiu!
Miroku bateu a porta e voltou para dentro arrastando uma cadeira e sentando-se perto de Sango.
- E lá vamos nós para o maravilhoso mundo de Sherlock Holmes. – murmurou Miroku.
- Ah, cale a boca, Miroku, todos nós sabemos que você usa falas de House com seus pacientes! E sequer somos detetives, somos jornalistas! – retrucou Sango revirando os olhos.
- Você não é jornalista, é psicóloga! – disse Miroku. – E o House é um infectologista, não tenho como usar as falas dele já que eu sou neurologista!
- Olha, se você quiser levar seu marido para casa, eu não me importo. Tenho muita coisa para terminar... E ah, antes que eu me esqueça, é para você que devo agradecer pelo Miroku ter me trazido um maldito McFish?
Sango desviou os olhos da foto e encarou Miroku incrédula.
- Você comprou um McFish? O que há de errado com você, você não é médico? Aquilo sequer deve ser peixe!
- Qual o problema de vocês com McFish? É gostoso!
- Não fale isso, é motivo pra divórcio. – respondeu Inuyasha voltando a escrever no papel. – Enfim, eu estava aqui me perguntando... Hoje é algum dia especial? Há quanto tempo não conseguimos nos reunir assim?
- Te vejo todos os dias. – disse Sango.
- Eu sei, mas parece que faz anos que não nos encontramos assim, sem um motivo especial, sabe? Me faz lembrar da época do colegial. – disse Inuyasha.
Miroku sorriu.
- Você está muito sentimental hoje, o que aconteceu?
Sango acotovelou Miroku e balançou a cabeça em negação.
- Idiota. Inuyasha está certo, eu venho pensado bastante sobre isso, mas sinto como se tivéssemos perdido um pouco do que tínhamos naquela época e antes que pense qualquer coisa, eu não estou te culpando por isso, Inuyasha, eu tenho muito orgulho do que você fez, mas ultimamente nós temos deixado nosso objetivo de lado.
Inuyasha fechou o caderno que estava escrevendo e pegou a foto do senhor de volta, colocando-a numa pilha de fotos.
- Está falando da Kagome? O que isso tem a ver com estarmos nos afastando? – perguntou.
- É claro que estou falando dela! Eu não me importo com o tempo que tenha passado, eu ainda sinto falta dela aqui, eu sinto que jamais seremos os mesmos sem ela. E de um tempo pra cá, nós simplesmente esquecemos de que um dia ela existiu, que fez parte das nossas vidas de maneira tão profunda. Quando nos encontramos aqui em Tókio, prometemos que iríamos encontrá-la, mas parece que essa promessa se perdeu ao longo dos anos.
- Sango, você já ouviu aquela frase que diz que você não deve ir atrás das borboletas e sim plantar um jardim e esperar que elas venham até você? – disse Miroku. – Eu tenho certeza que é o mesmo com a Kagome, nunca falei nada porque achei que vocês desanimariam, mas acredito que ela só irá aparecer quando sentir que é a hora. Por exemplo, se ela aparecesse há uns 3 anos atrás, o que teria acontecido? Nós quase nos separamos porque não tínhamos tempo um para o outro, eu precisava me focar no estudo e no emprego, você estava enfiada numa investigação maluca que te levou pra China e o Inuyasha namorando aquela garota estranha. Sinceramente, vocês acham que estaríamos prontos para ela? Nós mudamos e ela certamente também mudou muito, é infantilidade achar que quando nos encontrarmos tudo será lindo e perfeito. E vocês precisam aceitar que também existe a possibilidade de ela ter voltado para o céu, eu não acredito nisso, mas ainda é uma possibilidade, não dá pra basear toda uma vida em cima de uma situação tão hipotética.
Sango ficou encarando Miroku com os lábios entreabertos, numa visível expressão de incredibilidade enquanto Inuyasha virou para o lado e começou a revirar em várias gavetas, ele parecia procurar por algo em especial e somente o som dele era ouvido.
- Desculpem, mas é só o que eu acho. – disse Miroku.
- Quando foi que você se tornou um babaca tão grande? – retrucou Sango irritada cruzando os braços. – Se alguém aqui mudou, esse alguém certamente foi você!
Inuyasha atacou um envelope em cima da mesa e olhou para Miroku, segurando seu olhar o mais alto possível.
- Leia.
Miroku pegou o envelope já sabendo o que estaria escrito, lembrava-se perfeitamente daquela carta.
"No tear que tece a nossa vida, não há pontas soltas. Todos os fios estão entremeados entre si e revestidos de significados.
O que o destino lhe reservou para o presente é apenas uma ponta que quando se entrelaçar com toda a sua vida lhe trará o que realmente merece. Não pense que acabou, esse é apenas o começo, tenho certeza disso.
Obrigado por ter feito parte da minha vida, nos encontraremos em breve.
P.S: Lembre-se sempre que você é a pessoa mais burra do mundo. Esperamos que os anos te melhorem."
- Eu não sei o que foi que te ensinaram naquela faculdade de medicina, mas você era muito mais sábio antes. Não há pontas soltas, Miroku, quem me ensinou isso foi você, mas parece que você mesmo já esqueceu isso.
Miroku suspirou e colocou o envelope de volta na mesa, massageou novamente as têmporas e disse:
- Eu não esqueci, mas parece que quem não entendeu foi você. Não é você que entrelaça esses fios, não adianta tentar tecer sua própria vida, tudo tem a sua hora e o seu motivo. Se ainda não encontramos a Kagome é porque ainda não é hora, é nisso que eu acredito, independente do que vocês acham de mim.
- E o que você acha que devemos fazer? Ficar aqui esperando por ela? – disse Inuyasha irritado. – Pra você é fácil falar, a Sango esteve ao seu lado esse tempo todo, mas eu a perdi e a culpa é minha, não posso esperar que ela volte, tenho que lutar e merecê-la.
- Todos nós fazemos escolhas erradas, Inuyasha. – respondeu Miroku. – E é nossa capacidade de lidar com esses erros que nos faz crescer, que faz de nós quem somos, talvez esteja na hora de você se perdoar pelo o que fez e seguir em frente.
- Está dizendo pra ele esquecer a Kagome? – perguntou Sango perplexa.
- É claro que não, só acho que ele deveria ter aprendido com a história do Sesshoumaru. Ele a Rin viveram presos a uma vida idiota só por causa da culpa, se culpar não leva ninguém a lugar nenhum.
Dessa vez, quem massageou as têmporas foi Inuyasha, ele tateou a mesa atrás do café que Miroku trouxera, mas ao beber percebeu que estava frio e fez uma careta.
- Eu falo sério, Inuyasha, e isso serve pra você também, Sango. Vocês precisam seguir em frente, precisam aceitar que nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos e na hora que gostaríamos, mas isso não significa que não irão acontecer nunca. Se vocês se preocupam tanto assim com ela, a amarão do mesmo jeito não importa o tempo que passe.
- Não deveria ter comentado que fazia tempo que não nos encontrávamos pra falar bobagem, olha lá, assunto trágico de novo. – resmungou Inuyasha.
- Desculpe por isso, - disse Sango mordendo o lábio. – eu que puxei o assunto.
- Não, tudo bem, essas discussões poéticas com o Miroku também me fazem lembrar o colegial, incrível como desde aquela época ele era um maldito sabe tudo. – disse Inuyasha.
- Tenho um QI elevadíssimo, por isso me formei em medicina em apenas dois anos. – respondeu Miroku. – Isso deve explicar muita coisa.
- Só explica você ser um nerd que deixa a mulher sozinha em casa. – respondeu Sango. – Afinal, que horas são?
Inuyasha olhou para o relógio e fechou os olhos em desaprovação.
- Já é quase quatro da manhã e eu nem terminei isso! – disse soando meio desesperado.
- Que horas começa seu plantão? – perguntou Sango encarando Miroku.
- As nove. – respondeu parecendo desanimado.
Sango suspirou e virou seus olhos para Inuyasha.
- Eu sei que você não vai dormir até que isso esteja pronto, mas desmaiar não vai te ajudar em nada, a uma quadra daqui tem uma cafeteria e quando passei por lá estava um cheiro de canela ótimo, desça, coma um pouco e volte para o trabalho. Vou estar por aqui às nove para te ajudar, ok?
Miroku apoiou a cabeça na mão e encarou os dois, o sono e o cansaço começava a lhe incomodar.
- Não precisa se preocupar, eu termino isso sozinho. – respondeu Inuyasha.
- Essa matéria é nossa. – retrucou Sango autoritária. – Tenho em casa as últimas coisas que descobri, trago e vemos o que fica melhor. Nós fazemos nosso próprio prazo, lembra? Investigação é diferente de matérias comuns.
- Eu sei, mas enquanto perdemos tempo essas pessoas morrem. – respondeu Inuyasha em meio a um bocejo.
Sango encarou Inuyasha e sorriu.
- Está certo, entendi, terminamos isso amanhã. E para celebrar você vai lá pra casa para comemorarmos!
- Ah não! – resmungou Miroku. – Ela vai ficar bêbada de novo!
- Mesmo vinho da última vez? – perguntou Inuyasha sorrindo.
- Pode ter certeza! – respondeu Sango animada.
- Eu tenho operação amanhã. – avisou Miroku.
- Ótimo, é sempre melhor quando você não está, agora levante daí e vamos embora! – disse Sango.
Miroku balançou a cabeça negativamente e levantou-se, se arrastando até a porta, parou e a segurou aberta.
- Boa noite, Inuyasha, pense no que eu falei. Nos vemos amanhã.
Sango levantou, mas antes de acompanhar Miroku, curvou-se na mesa e sussurrou:
- Não ligue para o Miroku, ele também sente falta da Kagome, ele só tinha que fazer cena de homem monge rei do conhecimento. Estamos todos tão bem que ele deve sentir faltar de dar conselhos pra todo mundo.
- Você não vem? – resmungou Miroku. – Sério, se eu não conhecesse bem vocês dois, teria certeza que era o maior corno do Japão!
Sango sorriu e foi até a porta.
- Boa noite, benzinho, nos vemos amanhã.
Inuyasha riu pelo nariz e logo abriu os lábios em um sorriso.
- Boa noite, querida, amanhã no mesmo horário, heim? O corno do seu marido não pode nos descobrir!
- Há há, engraçadinhos.
Sango beijou de leve os lábios de Miroku e disse:
- Sem ciúmes, vamos para casa e resolvemos essa insegurança.
Miroku acenou uma última vez antes de sair da sala e levar Sango. Inuyasha suspirou ao perceber o silêncio que agora reinava, girou sua cadeira e pela parede de vidro encarou a rua, com suas luzes cegantes e suas milhares de pessoas andando de um lado para outro. Olhou novamente o relógio e ouviu o estômago roncando.
- Porcaria de McFish, não serve nem pra matar a fome. E o café está gelado...
Levantou-se da cadeira, pegou a jaqueta que estava jogada em um pequeno sofá no canto da sala e saiu. Forçou a mente a pensar onde tinha uma cafeteria ali perto, pela primeira vez percebeu como passava sempre pelos mesmos lugares sem jamais enxergá-los, afinal, existia mesmo uma cafeteria por ali? Andou alguns minutos até que o cheiro de canela o indicasse onde ficava o lugar.
Era uma porta grande de vidro escuro com a inscrição "Paradise Café", entrou e uma mistura de cheiros o acertou, era canela, caramelo, pão fresco, pimenta e mais uma infinidade de aromas. O lugar era iluminado por pequenas luminárias espalhadas pelas paredes e o teto era pintado de azul com inúmeras nuvens brancas, procurou por uma mesa vazio e sentou-se, algo pontiagudo espetou no seu bolso e só então percebeu que seu bloco de anotações estava ali.
- Bom dia, o Sr. vai querer café? – perguntou uma atendente sorridente.
- Por favor. – respondeu Inuyasha. – Se puder me trazer alguns pães... E o que é isso que cheira a canela?
- Nosso pão doce especial. Aceita um?
Inuyasha acenou positivamente com a cabeça e isso foi o bastante para a atendente o deixá-lo sozinho, virou sua atenção para o bloco de anotações, folheando folhas antigas e se surpreendeu ao encontrar uma anotação que fizera há muito tempo. Não fazia idéia que tinha aquele bloco há tanto tempo, mas sorriu ao começar a ler.
Ser jovem é acreditar que temos o mundo inteiro aos nossos pés, que temos tempo o bastante para corrigir todos nossos erros, que a vida vai se estender à nossa frente infinitamente, sempre nos dando chances de recomeçar. Hoje, eu que já não sou tão jovem, nem tão sonhador, lhe digo que a verdade é muito mais dura. A vida é muito mais dura.
Eu tive que aprender sozinho, afinal, escolhi abrir mão de tudo o que tinha por causa de um sonho. Sonhos são traiçoeiros, eles fazem com que você acredite que nada além deles é necessário, que quando você realizá-los sua vida estará plena e será como se tivesse cumprido sua missão na vida. Nada mais lhe importará depois que realizar seus sonhos.
O problema é que ninguém nunca me disse que não podemos viver só de sonhos. Às vezes o que temos é precioso demais para ser deixado de lado, mas diga isso a um jovem e veja a resposta que terá.
Era o rascunho de uma crônica que estava escrevendo para um jornal qualquer, mas que nunca terminara. A verdade é que nunca conseguira escrever ou publicar nada sobre aquele assunto, sentia-se desprotegido em tornar público algo tão pessoal, algo que lhe marcara tão profundamente.
- Tem alguém sentado aqui?
Inuyasha não desviou os olhos do bloco e apenas acenou com a cabeça.
- Tem sim, estou esperando uma amiga.
O som de alguém sentando na cadeira fez Inuyasha erguer a cabeça irritado, mas seu corpo inteiro travou e seus olhos se arregalaram tanto que pareciam prestes a pular para fora de órbita, a respiração pareceu ter lhe abandonado e o coração parado. Não importava quão diferente à pessoa a sua frente estava, ele sabia perfeitamente quem era.
Os olhos antes tão azuis quanto o céu num dia de verão estavam brilhante de maneira diferente, embora o azul ainda estivesse ali, agora puxava muito mais para o prata. O cabelo escuro estava preso em um rabo de cavalo, o que deixava aquele rosto que ele tanta sonhava à mostra. Suas feições haviam envelhecido, ela não parecia mais uma criança, muito menos uma adolescente, era uma mulher adulta, com maçãs do rosto altas e olhos afiados, os lábios pareciam mais chamativos e carnudos do que nunca. Inuyasha nunca reparara como o nariz dela era empinado, como se estivesse com a cabeça erguida o tempo todo, mas agora era óbvio. E agora ela tinha asas, um par de asas tão brancas e brilhantes que chegava a cegar.
Olhou ao redor assustado, se perguntando como ninguém via aquilo, como ninguém estava em choque ao ver um anjo, mas era como se Kagome não estivesse ali e então ele compreendeu, aquela era só mais uma alucinação sua, uma brincadeira cruel que sua mente hora ou outra insistia em fazer.
Voltou a respirar em um suspiro e apoiou a cabeça com as mãos, encarou Kagome, mas logo voltou seus olhos para seu bloco de anotações.
- Uma amiga, uh? – disse Kagome. – Devo me preocupar com essa amiga?
Inuyasha ergueu os olhos e sorriu, sempre ficava impressionado com o poder que sua mente tinha, até o tom de voz de Kagome ela conseguia reproduzir perfeitamente. Aquele era o sinal de que estava trabalhando demais, sempre que passava dos limites, via Kagome. Jamais contara isso para Miroku ou Sango, porque eles certamente achariam que ele estava louco e talvez estivesse mesmo, mas aqueles momentos sempre faziam com que se sentisse bem.
- Desculpe por te fazer esperar tanto. – disse Kagome.
- Tudo bem, sabe que eu espero o tempo que for. – respondeu sem se preocupar em parecer um maluco falando sozinho.
Kagome sorriu e olhou ao redor.
- Esse lugar é ótimo, mas não acredito que você viria aqui por conta própria. Está mesmo esperando uma amiga?
- Como se conseguisse esperar alguém, - retrucou Inuyasha revirando os olhos. – desde que você foi embora não consigo me relacionar com ninguém por muito tempo, não sei nem porque eu tento.
- Isso porque essas mulheres também são seus reflexos. – respondeu Kagome e ela logo mordeu o lábio. – Sou uma pessoa horrível por ficar feliz em ouvir isso?
- Eu seria uma pessoa horrível por ficar feliz em ouvir que você não consegue ficar com outros homens? – disse Inuyasha.
Kagome apoiou a cabeça nas mãos e pareceu pensar um pouco.
- Seria, afinal, quem escolheu me abandonar foi você.
Inuyasha fechou os olhos e afundou na cadeira. Talvez estivesse sonhando, talvez Miroku estivesse certo e ele precisava parar de se culpar e seguir em frente, talvez aquele encontro com Kagome fosse sua mente dizendo para ele se perdoar. Suspirou e encarou a mulher.
- Você tem razão, sinto muito. Mas se for assim, você também é uma pessoa horrível, afinal você poderia ter ficado comigo, mesmo eu sendo um yokai, mas escolheu ir embora.
- Eu estava brincando, - disse Kagome. – na verdade, você fez a escolha certa. Eu teria ido embora mesmo se você tivesse me escolhido, eu ter partido não teve nada a ver com você ter se tornado um yokai.
Inuyasha, que olhava distraído para seu bloco, ergueu os olhos e encarou Kagome. Ela olhava para os desenhos de nuvem no teto e parecia completamente alheia ao que acontecia ao redor.
- Do que você está falando? – disse Inuyasha confuso.
- Esse tempo todo você achou que o motivo de eu ter ido embora era porque eu não conseguia aceitar que você era um yokai, claro que um dos motivos foi esse, mas não foi principal. – respondeu Kagome ainda olhando para o teto.
Inuyasha abriu a boca, mas a atendente foi mais rápida, ela sorriu parecendo sem graça.
- Desculpe atrapalhar, aqui está seu pedido. – disse.
O homem sorriu em resposta sabendo que a atendente estava sem graça por interromper o monologo do maluco da cafeteria, mas ergueu a sobrancelha quando ela se virou para onde Kagome estava sentada.
- Bom dia, senhorita, aceita café?
Kagome sorriu e balançou a cabeça negativamente.
- Eu dispenso o café, mas aceito um chocolate quente.
- Está certo, trago em um instante.
A atendente se afastou e Kagome esticou a mão, pegando o único pão doce que ela trouxera. Inuyasha encarava a mulher sem saber ao certo o que fazer, até agora acreditava cegamente que estava falando com sua imaginação, que aquele era um encontro que só existia em sua mente, mas a atendente vira Kagome, não vira? Ela era real? Esfregou o rosto tentando organizar os pensamentos, tentando raciocinar. Não era possível, seu encontro com Kagome depois de tanto tempo não seria tão casual.
Esticou a mão, um pouco receoso, mas ela apenas largou o pão ao perceber a atitude dele, esticou a própria mão e enlaçou os dedos nos dele.
- Finalmente percebeu que sou eu mesmo?
Inuyasha apertou com força a mão de Kagome ao sentir seu toque, fechou os olhos sentindo aquela sensação que só Kagome era capaz de fazê-lo sentir. Era como se milhões de wolts percorressem seu corpo e fizessem com que ele ficasse vivo, pela primeira vez em anos, ele sabia que estava vivo. Abriu os olhos sentindo um misto de alegria e desespero que jamais sentira na vida e quando encarou os olhos de Kagome, seus próprios se encheram de lágrimas. Ela estava chorando.
Procurou palavras para dizer, na verdade, durante todo aquele tempo ele pensara no que diria quando se encontrassem de novo, mas naquele momento ele percebeu que não existia mais nada para dizer além de agradecimentos.
- Obrigada por voltar. – disse num sussurro.
Kagome usou a mão que estava livre para limpar o rosto e respirou fundo.
- Desculpe, - disse em meio a um soluço. – eu tentei por tantas vezes voltar, mas sempre me encontravam, sempre diziam que não era a hora e que eu ia estragar tudo.
- Quem te encontrava? Do que você está falando? – disse Inuyasha confuso. – Onde você esteve?
- No céu! – respondeu Kagome. – Quando eu disse que teria que ir embora mesmo que você me escolhesse, era a verdade. Eu fugi do céu há anos e isso é proibido, eu não tinha certeza absoluta, mas de algum modo eu sabia que eu teria que voltar um dia o outro.
- É por isso que você está com essas asas e seus olhos estão diferentes! – disse Inuyasha.
Kagome acenou com a cabeça e soltou a mão de Inuyasha, pousando suas mãos no colo, seus olhos ainda estavam vermelhos, mas as lágrimas não escorriam mais. Inuyasha também tinha os olhos vermelhos, mesmo que não tivesse chorado, acompanhou o movimento da mulher com os olhos e percebeu que só aqueles instantes já tinham sido o bastante para ele saber que não conseguiria voltar a viver sem ela.
- Quando fui embora, encontrei todos os anjos que ainda estavam vivos e expliquei que estavam livres e quando terminei essa missão, Midoriko veio até a Terra me buscar, disse que meu tempo tinha acabado e que eu precisava me reportar para os arcanjos. Eu pedi apenas mais uma semana, disse que precisava me despedir, mas realmente não havia mais tempo.
"Quando cheguei ao céu ouvi que minhas decisões imprudentes haviam feito com que o destino de milhares de pessoas fosse modificado, que milhares de anjos e yokais morressem sem motivo algum. Para eles, eu ter quebrado a maldição não foi mérito algum porque eu não havia feito aquilo com consciência, eu tinha sido egoísta e pensado em mim e em você o tempo todo. Por mais que eu tentasse argumentar, eles não me ouviam.
"Eu queria voltar a todo custo, mas eu já tinha fugido antes e por isso me vigiavam. A primeira vez que eu consegui fugir foi quando você tentou se matar e sinceramente, Inuyasha, eu não sei se essa foi a coisa mais estúpida que você já fez ou a mais corajosa."
Inuyasha desviou os olhos e encarou um ponto escuro na mesa. A verdade é que nunca imaginara que Kagome um dia descobrisse sobre aquilo.
- Você sabe que era minha única escolha.
Kagome suspirou e concordou com a cabeça.
- Eu sei, mas poderia não ter dado certo, você poderia ter morrido de verdade.
Ele fitou Kagome por alguns instantes e sorriu.
- Você também sabe que não teria feito diferença pra mim. Foi uma escolha que eu fiz, qualquer que fosse o desfecho, eu sairia vencendo.
- Você é capaz de vê-las? – perguntou Kagome curiosa.
- Ver o que?
- Suas asas.
Inuyasha balançou a cabeça negativamente e sentiu-se estranho ao ouvir aquilo, era a primeira vez que falava com alguém sobre ter tentado se matar.
- Elas são maravilhosas. – respondeu Kagome sorrindo. – De um dourado mais brilhante que ouro, lembra muito a cor dos seus olhos. No céu, todos estão muito curiosos sobre você, ninguém nunca soube sobre um anjo dourado antes.
- Não é grande coisa.
- É sim, - disse Kagome e sua voz tinha um certo tom de orgulho. – anjos e yokais se relacionam há milhares de anos, mas nunca antes um hanyou escolheu se tornar um anjo. Lá em cima eles sentem como se o bem estivesse vencendo o mal ou qualquer bobagem do tipo.
Inuyasha pegou um dos pães e começou a brincar com els.
- Não é nada disso, - respondeu Inuyasha. – eu só achei que se escolhesse o sangue da Kikyou eu poderia estar mais perto de você. Eu não fiz uma escolha entre ser um demônio vindo do inferno ou um anjo gay com asinhas, quando tentei me matar pensei que um anjo viria me buscar, pensei na Kikyou até e essa era minha chance de pedir ajuda, de poder escolher a parte de mim que eu tinha negado.
- Você teve sorte de ter sido a Midoriko a vir te buscar.
- Eu sei. Ela deixou bastante claro que precisou arrumar confusão com uns anjos da morte no céu, Midoriko disse que era um favor que ela fazia pra você, já que se eu morresse, eles não nos deixariam juntos no céu.
- Não, não deixariam. Ao longo desses anos eu consegui fugir algumas vezes, mas sempre que conseguia me aproximar de você, um anjo me encontrava. Para os anjos que cometem erros lhes é dado como castigo vir para a Terra, mas comigo foi o contrário, eu fiquei presa no céu. Foi só depois de muito tempo lá em cima que eu entendi o motivo de me prenderem e tentarem me ensinar aquele monte de bobagem, acho que era o destino.
- Destino?
- Quando você escolheu se tornar um yokai, seu destino mudou. Existia um plano para você, mas é assim que o destino funciona, são vários caminhos e conforme você escolhe qual seguir é que seu caminho vai sendo trilhado. Eu fui chamada de volta para o céu porque precisava estar preparada para a escolha que você faria, sendo yokai, você poderia se tornar um assassino. E eu teria de matá-lo. Ou você poderia escolher se tornar um anjo. E eu teria de guiá-lo. Qualquer que fosse sua escolha, eu tinha que estar preparada.
- Sou um anjo há pelo menos seis anos, eu não preciso ser guiado. – respondeu Inuyasha.
- Você pode ter se tornado um anjo, mas tem vivido como humano. Eu sou aquela que vai te guiar na nova vida que escolheu.
Inuyasha arqueou a sobrancelha e tomou um pouco do café que a atendente trouxera, acompanhou com os olhos quando ela trouxe o chocolate quente de Kagome e foi embora.
- Você diz que eu mudei meu destino quando escolhi me tornar um yokai e que por isso foi chamada para o céu, mas antes disso, você disse que teria que ir para o céu de qualquer jeito. Isso não faz sentido.
- Meu destino sempre foi voltar para o céu, sua escolha só aumentou o tempo que eu precisava ficar lá. Se continuasse hanyou, eu voltaria porque só poderia ficar na Terra com você com autorização.
- Isso significa que você voltou de vez? – perguntou Inuyasha.
Kagome sorriu e balançou o ombro.
- Quem sabe, não é?
Inuyasha bocejou e logo sentiu os olhos pesando, olhou o relógio e se assustou ao perceber que já passava das seis da manhã.
- Coma um desses pães e vá para casa, você precisa dormir. – disse Kagome.
Sem pensar duas vezes, Inuyasha comeu os pães, sem sequer olhar para o café, ele não queria nada que o deixasse acordado. A verdade é que estava morrendo de sono e cansaço.
- Você vai comigo? – perguntou Inuyasha soando como criança.
- É claro, para onde mais eu iria? – respondeu Kagome.
- E vai estar lá quando eu acordar?
Novamente Kagome sorriu.
- Eu sempre estarei lá, Inuyasha.
Inuyasha despertou assustado com o celular tocando, mas seus olhos continuavam fechados. O gosto forte de canela continuava na sua boca, fazendo-o se lembrar do encontro que tivera há poucas horas atrás, o celular continuou tocando, mas dessa vez ele não fez questão de atender, virou-se para o lado e cobriu a cabeça com o travesseiro.
Não queria abrir os olhos e descobrir que Kagome não estava lá.
O celular tocou de novo, mas dessa vez não durou muito.
- Alô? Sango? Sim, sou eu. Não precisa chorar, fique calma, está tudo certo!
Inuyasha sorriu antes de voltar a dormir. Naquele momento ele não sabia se imaginara Kagome atendendo seu celular, mas dormir sabendo que ela estava ali fora o bastante para ter a certeza que agora sua vida começaria. Ele não se importava em ter de aprender a viver como um anjo, não agora que ele tinha Kagome.
A vida que por tanto tempo esquecera-se de tecer as pontas soltas de Inuyasha agora parecia ter se lembrado dele. Sua vida estava sendo tecida, finalmente ele poderia voltar a viver.
