Desmaio

A sexta-feira da primeira semana do sexto ano de Rose escoava lentamente, como as nuvens negras que se iam aproximando de Hogwarts.

Ao sair da aula de Herbologia, Rose sentiu o desabar da chuva forte sobre si. No entanto, em vez de correr para o castelo, caminhou devagar até este, desfrutando da inúmeras gotas que lhe escorriam pelo cabelo encaracolado e pela face pálida.

- Estás doida? – a voz de Albus voou até ela, recriminatória, ao entrar no Grande Hall.

- Que é? – retorquiu Rose, sentindo imediatamente o seu temperamento a tomar conta do discernimento. Detestava quando usavam aquele tom com ela.

- Está a chover a potes e tu na boa, como se fosses a andar por um campo de flores! – Albus ralhava constantemente com Rose sobre esta sua mania de andar à chuva, mas ela não se importava: adorava a sensação da chuva sobre a pele.

Rose deitou-lhe a língua de fora e encaminhou-se para as masmorras, onde decorreria a sua aula de Poções. Ao aproximar-se da sua mesa habitual, apercebeu-se de que um rapaz de cabelo loiro platinado já lá se encontrava, escrevinhando algo num pedaço de pergaminho.

- Olá Scorpius! – cumprimentou, educadamente, Rose, colocando a sua mala no chão e tirando o livro de preparação de Poções.

- Ei Ruiva!

Scorpius guardou o pergaminho e olhando para Rose sorriu-lhe de um modo formal, os seus olhos cinzento-azulados brilhando intensamente.

- Então, companheiro! – berrou Albus do outro lado de Scorpius, batendo-lhe nas costas.

Para qualquer um exterior àquela mesa, a amizade entre Scorpius e Albus seria tido como uma loucura, uma impossibilidade, mas depois de três semanas cheias de duelos e partidas, durante o 1º ano, e depois de uma detenção longa em conjunto, ambos se haviam apercebido do quão idiota se estavam a comportar e colocando os velhos preconceitos de lado, passaram a ser tão próximos como se fossem irmãos. Quanto a Rose e a Scorpius não eram grandes amigos, mas sendo ambos Prefeitos tinham uma boa relação, apesar das muitas ocasionais picardias.

- Está um gelo aqui! – queixou-se Rose, a meio da aula. Apesar de ter secado as roupas com a varinha, continuava a tremer de frio, pois não se atrevia a fazer o mesmo com o cabelo, quem sabe que juba ficaria de tal secagem!

- Toma! – disse Scorpius, tirando o casaco que vestia sobre o uniforme – Assim não tens tanto frio.

- Mas e tu? Não quero que fiques doente por minha causa – retorquiu Rose, corando, afinal, aceitar roupa de um rapaz não era o mesmo que lhe dizer que lhe pertencia?

Scorpius continuou a empurrar o casaco na sua direcção e suspirando, Rose aceitou-o. Ao vesti-lo, apanhou Albus a olhar para ela e a rir de uma forma que não pressagiava nada de bom.

- Que se passa? – perguntou ela ao primo, que se apressou a trocar um olhar significativo com Scorpius.

- Nada priminha – respondeu ele, porém, era claro que Scorpius não concordava com a sua resposta, pois as suas faces tinham adquirido um leve tom de rosa.

Quando o professor Hannibal entrou na sala, cumprimentou-os com um aceno de cabeça majestoso e começou a descrever diversas poções em que trabalhariam, mostrando amostras de cada uma delas. Ao chegar à Amortencia, Rose sentiu-se invadir por um bem-estar geral e o cheiro de pinheiros e menta, juntamente com chocolate e livros novos invadiu os seus sentidos. Sentiu Albus e Scorpius a seu lado relaxarem e ouviu este último murmurar campo de quidditch, baunilha e rosas, e sentiu-se corar, pois os últimos faziam parte dos seus dois perfumes favoritos, que usava constantemente.

Apenas no final da lição se apercebeu de algo ao baixar a cabeça para guardar os livros e cheirando o casaco de Scorpius: este cheirava a pinheiro e menta.

- Hugo, eu tenho de ir jantar! – queixava-se Rose ao irmão pela enésima vez. Desde que saíra de poções tinha estado a ajudá-lo a fazer o longo trabalho de Defesa Contra as Artes das Trevas que, como um digno filho de Ron, tinha deixado para a véspera.

- Espera, espera! Como é que se escreve…

- Chega! Já viste que horas são? Tenho de fazer as patrulhas sem jantar! Só mesmo tu, seu idiota preguiçoso! – barafustou Rose, saindo da sala comum de Gryffindor com as mãos a tremer de raiva e as faces extremamente vermelhas.

Ao chegar à grande escadaria, viu que Scorpius já lá se encontrava e apressou-se a ir ter com ele.

- Ei Cenoura! Pensava que tinhas adormecido ou assim, não te vi ao jantar… - comentou Scorpius. Rose bufou de impaciência, as alcunhas sobre o seu cabelo ruivo já começavam a ficar velhas.

- Foi o idiota do meu irmão! Tive que o ajudar a fazer os trabalhos de casa e por causa disso não pude jantar!

Scorpius tendo noção do humor que imperava sobre Rose decidiu que o melhor seria não a contrariar muito naquela noite e decidiu-se a começar a patrulha pelos corredores, em busca de alunos incautos.

Rose caminhava a seu lado, mais parecendo marchar do que outra coisa e durante mais de duas horas não proferiu uma única palavra. Scorpius não aguentava muito mais aquele silêncio forçado e preparava-se para lançar uma piada que a deixasse a brigar com ele durante meia hora, quando se apercebeu de que Rose já não se encontrava a seu lado. Olhou para trás e deparou-se com ela, encostada à parede, bastante pálida e com suor a correr-lhe pelas faces.

- Rose! – gritou ele, ao vê-la cair para o lado, porém, antes de ter batido no chão, Scorpius conseguiu agarrá-la. Colocou-lhe a mão na testa e sentiu-a a escaldar e lembrando-se da briga desta e de Albus apercebeu-se de que a chuvada associada à falta de comida provavelmente a fizera desmaiar.

Pegando na rapariga inconsciente, Scorpius encaminhou-se para a Enfermaria, sentindo o calor do corpo de Rose contra o seu peito e vendo mais perto do que alguma vez sonhara a sua face, se quisesse podia mesmo contar as sardas que a adornavam, mas este não era o momento oportuno e a rapariga que tinha nos braços, a rapariga mais importante que existia para ele, naquele momento, precisava de ajuda. Confuso com este tipo de pensamentos, apressou-se em direcção à Ala Hospitalar, onde a Madame Pomfrey, se apressou a indicar uma cama para Scorpius colocar Rose. Ao senti-la a afastar-se de si, sentiu um vazio que não conseguia explicar e que só o fez corar ainda mais, o que de si era muito raro.

- Ela apanhou uma chuvada hoje à tarde e não jantou – apressou-se Scorpius a explicar, esperando que esses pedaços de informação pudessem ajudar.

Atarefando-se a recolher dois frascos de poções, Madame Pomfrey aproximou-se novamente da cama de Rose e apontando-lhe a varinha, murmurou:

- Enervate!

As pálpebras de Rose tremeram e abriram-se para revelar uns olhos castanhos bastante confusos. Scorpius, naquele momento, pensou nunca ter visto cor mais bonita que aquele castanho, mas imediatamente afastou esses pensamentos da cabeça, afinal ele era um Slytherin, capitão de Quidditch ou uma miúda que lê romances de cordel?

- Scorpius? O que se passa? – perguntou Rose, olhando em redor e apercebendo-se do local onde estava.

- Toma isto, minha querida. Vais sentir-te bem melhor! – Madame Pomfrey aproximou de Rose dois copos, que esta tomou de seguida.

- Bom, acho que o melhor seria ficares aqui a noite para descansares totalmente e amanhã logo veremos como te encontras, está bem? – sugeriu Madame Pomfrey, num tom que dizia claramente "Não te atrevas a desobedecer".

- Tudo bem – anuiu Rose, encostando-se às almofadas – Mas o Scorpius pode ficar, se ele quiser claro? – pelo que Rose o olhou e ele anuiu com a cabeça imediatamente - Já é tarde e se Mr. Filch o descobre a estas horas…

A enfermeira olhou Scorpius de alto a baixo, mas acabou por o autorizar a ficar, avisando-o de que não queria nenhuma "gracinha" da parte dele, o que levou tanto Rose como Scorpius a corarem.

- Desculpa lá ter-te impedido de ires a um encontro com uma das miúdas que anda sempre atrás de ti – murmurou Rose, fechando os olhos.

- Quem disse que eu tinha um encontro? – perguntou Scorpius abismado, aquela miúda podia mesmo sair-se com os maiores disparates sem mais nem menos.

- É sexta-feira, à noite, imaginei que o Don Juan dos Slytherin teria uma miúda com quem curtir – continuou Rose, de olhos fechados, apenas saboreando a suavidade da voz do seu companheiro, que a pouco e pouco a ia fazendo flutuar até ao mundo dos sonhos.

- Quem é o Don Juan? – questionou ele, mas já era tarde de mais, pois a respiração de Rose já acalmara e ela adormecera.

Observando a mão de Rose, estendida na sua direcção, Scorpius, sem ligar à voz que lhe dizia para não a agarrar, agarrou-a. Sentiu os dedos pequenos e um pouco desproporcionais a agarrarem a sua mão, mas apesar desses pequenos defeitos, Scorpius gostou ainda mais dela por causa disso. Sentando-se numa cadeira ao lado da cama de Rose e deitando a cabeça na sua cama, adormeceu, embalado pelo respirar da ruiva.