Fim-de-semana atribulado

Na manhã seguinte, Scorpius acordou antes de Rose e ao aperceber-se de que os seus dedos ainda estavam entrelaçados, apressou-se a afastar-se de Rose. Equilibrando a cadeira apenas nas duas pernas de trás, começou a baloiçar, distraidamente, enquanto, vagas memórias do seu sonho o inundavam de novo.

- Assim cais, sabes? – uma voz cristalina intrometeu-se nos pensamentos de Scorpius, assustando-o e fazendo a cadeira escorregar de debaixo de si, o que o levou ao chão.

- Eu avisei-te! – a mesma voz voltou a falar, enquanto se ria às gargalhadas.

- Pois, mas a culpa é tua, Sardas! – resmungou Scorpius, enquanto batia no manto para tirar o pó. Não queria admitir, mas a sua respiração alterara-se só de ouvir a voz de Rose.

- Sou assim tão irresistível, que perdes o controlo quando estou na sala? – assim que as palavras saíram da boca dela, Rose teve vontade de abrir um buraco e esconder-se lá dentro, que raio de coisa lhe deu para dizer algo do género?

- Desculpa, minha linda, mas não fui ontem à noite que fiquei todo preocupado por causa de um certo Slytherin puder ter um encontro ou não… - a voz de Scorpius tinha a quantidade certa de arrogância, para disfarçar o sorriso que tentava tomar conta da sua cara.

E deixando Rose, corada e frustrada, abandonou a enfermaria, num passo rápido e firme.

- Scorp! – a voz de Albus chegou-lhe aos ouvidos quando ia a descer a grande escadaria, por isso esperou que o amigo se lhe juntasse.

- Ei, para onde é que tu e a Rose desapareceram ontem à noite? – perguntou ele, movendo as sobrancelhas de uma forma sugestiva.

- A tua prima desmaiou e eu levei-a à Ala Hospitalar, fim da história! – retorquiu Scorpius de mau-humor, não pelo que Albus dissera, mas pelo que ele o levara a desejar.

- Uau! Slytherin ao salvamento! Não trocaram um beijinho de agradecimento? – Albus ria às gargalhadas, enquanto Scorpius se virava para continuar em direcção às masmorras.

- Pronto, Scorp, desculpa lá, meu, mas é que… - ao ver a cara de Scorpius, impediu-se de continuar a sua linha de pensamento.

- Mas ouve, quando finalmente te decidires a beijá-la, não o faças em frente ao James ou ao Hugo ou à Lily, ok? – Albus virou-se para se encaminhar para o Salão e contando mentalmente até cinco.

…quatro, cinco…

- Ei, Al! Que queres dizer com isso? Não que a queira beijar, óbvio, mas porquê não em frentes a eles? Mas que fique saliente que não a quero beijar! – as faces de Scorpius tinham adquirido um tom rosado, que só a muito custo Albus não apontara ao amigo.

- A Lily não é capaz de guardar um segredo e depois o James e o Hugo ficavam a saber e o James e o Hugo a terem conhecimento disso seria muito mau para ti, amigo, eles capavam-te, decididamente! – Albus tremia por todos os lados, tentando conter as gargalhadas que ameaçavam escapar por entre os seus lábios.

O rosado nas faces de Scorpius desapareceu imediatamente e ele perguntou, baixinho:

- Estás a gozar, certo?

- Não, lembras-te do McCallyster?

O nome fazia algo ressurgir na memória de Scorpius, algo que o fizera rir, algo que se passara o ano passado.

- Espera, não é o Hufflepuff que apareceu coberto de…

- Precisamente, imagina o que é andar coberto de picos por toda a pele, como um ouriço-cacheiro, e isto só por o James o ter ouvido dizer que a queria convidar para ir a Hogsmeade, e claro que quando o tio Ron soube ficou muito orgulhoso do seu filho e do sobrinho – Albus começou a fazer um gesto de aspas com os dedos, para mostrar a citação de Ron – "Defender a família é o mais importante sempre, bons rapazes que eles são".

- Por isso, meu amigo, boa sorte! – Albus deu uma palmadinha no braço de Scorpius e partiu para o Salão, num passo gingão. Só quando entrou neste é que largou as gargalhadas que estivera a conter, fazendo com que metade do Salão o olhasse como se fosse louco.

Enquanto isso, Scorpius encaminhou-se para o dormitório dos Slytherin, sentindo-se um estranho peso sobre os ombros.

- Obrigadinho Albus! – murmurou ele, furiosamente.

- Falar sozinho é o primeiro sinal de loucura, sabes? – um dos quadros da parede disse-lhe, enquanto corria a seu lado, rindo às casquinadas.

Ao entrar no quarto, felizmente vazio, Scorpius atirou-se para cima da cama e suspirou, enquanto recordava o sonho que tivera, no qual, Rose apercebia-se de que nada a faria mais feliz do que passar o resto dos dias a beijá-lo, num canto recatado.

- Ei, Scorp! Boa noitada, hein? – um dos companheiros Slytherin, August Xavier, entrara sem Scorpius reparar e olhava-o de forma orgulhosa, como se fosse ele o exemplo do rapaz.

- É pá, porque hoje todos me chateiam? – explodiu Scorpius, saindo do quarto sem olhar para o companheiro.

- Não correu assim tão bem? Deixa lá, há mais sereias no lago! – Xavier gritou-lhe, enquanto ele se afastava a fumegar.

- Que hipógrifos! Hoje todos me chateiam! Não me deixam pensar direito! Como se eu gostasse dela! Que estupidez! Que loucura! – Scorpius ia murmurando furiosamente para consigo, enquanto andava às cegas pelo castelo, ganhando olhares curiosos da parte daqueles com quem se cruzava. Acabou por sair do castelo e caminhar pelos campos de Hogwarts, acompanhado pelos seus pensamentos que em breve nem sequer o deixavam concentrar-se.

- Antes de te atirares à Lula Gigante devias repensar deixar-me algumas coisas! – a voz de Albus surgiu de debaixo de uma árvore, onde este brincava com uma snitch e onde, a seu lado, e o coração de Scorpius deu um salto, estava Rose, com a cabeça enfiada num livro.

- Eu quero ficar com a tua pena de pavão! – pediu Rose, sem tirar os olhos do livro e ele pode ver que os cantos da boca dela se torciam para formar um sorriso.

- Sim, e eu posso ficar com o teu livro sobre Quidditch, aquela edição de coleccionador é fantástica! – disse Albus, sonhadoramente, enquanto Scorpius se aproximava dele e se sentava a seu lado. Scorpius suspirou e encostou a cabeça à árvore, sentindo o ar frio e as folhas que caiam em seu redor, amareladas pela estação.

- Al, se o James e o Fred te forem pedir ajuda para escolher a minha prenda diz-lhes para não escolherem nada do Zonko's ou nenhuma poção de amor ou algo que me possa trazer problemas, ok? Eu ouvi-os há bocado a combinarem arranjar algo especial para mim e eu nem quero pensar o que especial pode significar na cabeça deles – Rose suspirou e fechou o livro, finalmente olhando para Scorpius, que desde que ela começara a falar a olhava fixamente.

- Só fazes anos daqui a três meses, não te preocupes com eles – sossegou-a Albus, esticando-se na relva e bocejando.

- O problema é mesmo esse, se eles já estão a falar disso, até tenho medo do que será! – Rose tremeu e sorriu em seguida.

- E tu Scorpius, a ver se me dás uma boa prenda! – disse ela, com um ar falsamente ameaçador e imediatamente a mente de Scorpius começou a criar um ambiente na Torre de Astronomia perfeito para aquela noite. Ele sentiu um sorriso malandro começar a insinuar-se na sua face, mas conseguiu conte-lo antes de Rose sonhar com o que ele estava a pensar.

- Ah e Scorpius, toma! – disse Rose, tirando algo da mala e estendendo-o na direcção de Malfoy. Este apanhou o objecto misterioso e viu tratar-se do seu casaco – Acabei por não te devolver depois da aula, mas obrigada, a sério! – os olhos de Rose brilhavam tão intensamente que Scorpius sentiu o fôlego preso na garganta, que raio se passava com ele? Deveria estar a ficar completamente louco! "Louco por ela", disse uma vozinha no fundo do seu cérebro.

Scorpius ouviu Rose levantar-se e desculpar-se com um livro que tinha de ir buscar à biblioteca para os deixar, levando consigo o aroma que quase o levava a trepar às paredes, baunilha e morangos.

- Sabes, se começares a snifar esse casaco levo-te à enfermaria! – comentou Albus, sem olhar para o amigo, que ficara petrificado.

Domingo amanheceu com um céu tempestuoso, quase como se o dia perfeito de Sábado não tivesse acontecido. Arrastando-se para a biblioteca para terminar os trabalhos de casa, Scorpius deparou-se com Rose, embrenhada num grosso livro sobre Animagus.

- Próximo projecto de transfiguração? – perguntou ele, sentando-se a seu lado na mesa.

- Não, apenas curiosidade – respondeu Rose, sem reparar no sarcasmo da pergunta. Scorpius ficou admirado por não receber nenhuma resposta irónica e por momentos ficou a olhá-la fixamente.

- Tenho alguma coisa na cara? – perguntou Rose, ao reparar em Scorpius, a fixá-la.

- Viste o Albus? – perguntou Scorpius, mudando de assunto.

- Sim, está a treinar Quidditch – respondeu, sucintamente, Rose, com um encolher de ombros. Ao mesmo tempo, um enorme trovão fez-se ouvir.

- Com este tempo? – perguntou Scorpius, olhando para a janela, com um ar de dúvida.

- Sabes como o James é, treinar quer faça sol, quer esteja a desabar o Inferno na Terra, mas eu não espero que um Slytherin perceba tais feitos corajosos – retorquiu Rose, virando a página do livro.

- Esta é a minha Rosie – murmurou Scorpius para consigo, enquanto tirava os livros da mala e começava a trabalhar.

- Ouve, nunca te cheguei a agradecer por me teres ajudado quando desmaiei, mas obrigada! – disse Rose, de chofre, apanhando Scorpius de surpresa.

- Não há problema, estou sempre pronto a ajudar uma dama indefesa! – Scorpius brindou-a com um sorriso que poucas pessoas tinham o prazer de ver: doce, inocente, sem aquela marca de arrogância de quem tem tudo o que quer ou então que faz tudo para o conseguir.