Um Natal muito gelado
A última semana do período aproximava-se a passos largos e Rose deu consigo e Scorpius a aproveitarem todos os segundos que tinham para estar juntos. As suas rondas eram agora feitas de mãos dadas e partilhando beijos, uma vez que a rapariga conseguira pedir "emprestado" o mapa dos Salteadores a Albus e poderia, assim, manter debaixo de olho surpresas desagradáveis.
- Podias ir ter connosco no jantar a seguir ao Natal… -sugeria Rose, enquanto ela e Scorpius caminhavam pelo corredor do terceiro andar.
- O Albus falou nisso – comentou Scorpius, massajando o queixo, pensativamente – Ele disse que tu e os teus pais iam jantar a casa dele…
- Sim, passamos o dia de Natal com os meus avós, mas eles vão à Roménia ver o meu tio Charlie e a Roxie que está lá a trabalhar com ele, por isso o meu tio George e a tia Angie também vão e deixam o Fred com o tio Harry, o tio Bill vai para França…
- A sério, Rose, como consegues lembrar-te do que todos vão fazer… - suspirou Scorpius, olhando-a fixamente. Ao vê-la discorrer todos os membros do sexo masculino da sua família, lembrou-se de como seria recebido quando finalmente contassem a alguém que estavam juntos e esse pensamento fê-lo tremer.
- Memória fotográfica – respondeu ela, com um sorriso atrevido. Scorpius retribuiu-lhe o sorriso e naquele momento, em que aproximava o seu corpo do dela soube que valeria a pena todas as maldições de que seria alvo.
- Preferes mesmo não receber a tua prenda hoje? – perguntou Scorpius, enquanto se encaminhavam de regresso para a Torre dos Gryffindor.
- Não, quero ter a certeza de que vou receber uma carta tua – retorquiu Rose.
- Até parece que eu sou assim desnaturado – comentou Scorpius – Eu iria escrever-te pelo menos uma carta a perguntar quais as respostas para o questionário de Poções…
Rose virou-se para ele, deitou-lhe a língua de fora e com uma gargalhada correu em direcção ao retrato de uma dama gorda de cor-de-rosa, deixando Scorpius especado no meio do corredor. Abanando a cabeça com exasperação, regressou à sala comum dos Slytherin.
A casa dos Weasley, na altura do Natal, transforma-se num antro de gargalhadas e ruídosas explosões por parte de Hugo e Ron que tentavam ganhar um ao outro em jogos sucessivos de cartas explosivas. Hermione observava-os com ar de exasperação, mas Rose podia ver um brilho nos olhos da mãe que apenas via quando esta observava Ron, Hugo e Rose a rir, era um brilho de esperança e descrença ao mesmo tempo, como se não conseguisse acreditar no que estava a ver, como se fosse tudo bom demais para ser verdade.
- Mãe… - murmurou Rose, tocando ao de leve no braço dela. Hermione deu um salto como se tivesse levado um choque ao ser arrancada do seu devaneio e olhando em redor, sorriu à filha calorosamente.
- Por vezes pergunto-me quem é o miúdo de quinze anos – confessou ela, voltando os seus olhos a cair sobre Ron e Hugo.
- Querida, tu não me quererias de outro modo – retorquiu Ron, enquanto sorria abertamente a Hugo que olhava com cara de poucos amigos para as suas cartas.
- Tens sorte de eu ter uma queda por jogadores de quidditch – retorquiu Hermione, com uma gargalhada, fazendo com que Ron corasse profundamente e resmungasse algo entredentes que se parecia estranhamente com "idiota maldisposto", deixando Rose e Hugo a olhá-los curiosamente, enquanto Hermione se desfazia em gargalhadas e dava um rápido beijo na bochecha de Ron, que pareceu recuperar parte do seu vigor, antes de voltar para a cozinha para acabar de preparar o jantar.
Scorpius estava sentado em frente a uma lareira sumptuosa, no seu colo um grosso livro de contos e a seu lado uma menina de dez anos que o olhava como se ele soubesse todas as respostas no mundo.
- Elise, devias ir dormir – murmurou Scorpius, fechando o livro. Esta olhou-o, pronta a reclamar, quando uma voz forte e grave se fez ouvir atrás deles.
- O teu irmão tem razão – ambos se viraram e viram o pai encostado à ombreira da porta, de forma indolente.
- É má educação ouvir as conversas alheias – respondeu Elise, vivazmente, fazendo um dos cantos da boca do pai erguer-se, como se ele estivesse a tentar conter o sorriso.
- E é má educação responderes ao teu pai assim – ralhou uma outra voz, desta vez feminina e uma mulher de cabelo loiro, mais escuro, apareceu atrás de Draco e colocou-lhe as mãos nos ombros.
- Mas mamã, o papá estava a ouvir a conversa e isso é má educação – queixou-se a menina, numa voz determinada, fazendo tanto Scorpius como Draco rir e a expressão severa de Astoria suavizar-se.
- Vamos, menina, para o quarto, que já passa da tua hora de dormir.
Elise levantou-se, agarrou no enorme livro com dificuldade e seguiu a mãe com passadas pesadas.
Draco aproximou-se de Scorpius e sentou-se ao lado deste, a contemplar as chamas.
- Pai, há problema em jantar em casa do Al dia 28? – Scorpius sabia que o pai dele e o de Al tinham sido inimigos na escola, e apesar de serem civilizados um com o outro presentemente, sempre que se dizia a palavra Potter ou Weasley, ele podia ver uma ruga formar-se na testa do pai, de que este provavelmente nem tinha conhecimento.
- Claro que não, filho. Desde que não seja incomodativo para os Potter, não quero ouvi-los queixarem-se do meu filho… - respondeu Draco, enquanto agarrava num livro que estava pousado no braço do sofá.
Scorpius observou o pai durante mais alguns momentos, mas este parecia estar imerso no livro e decidiu deixá-lo em paz com os seus pensamentos. Ao ouvir o filho sair da sala, Draco levantou finalmente os olhos e durante muito tempo fixou as chamas com uma expressão de descrença, até que a voz da mulher o sobressaltou.
- O Scorpius disse-me que vai jantar a casa dos Potter no dia 28 – a sua voz era suave e ajudava Draco a acalmar-se.
- Não gosto que ele seja tão amigo do miúdo, um Potter e um Malfoy melhores amigos – resmungou Draco – Não quero dever mais nada ao Potter, ele salvou-me a vida e a minha mãe salvou a dele, pronto!
- Draco… - murmurou Astoria, massajando-lhe os ombros – A guerra acabou há muitos anos…
- Não, aí é que te enganas, aquela guerra nunca vai acabar… está demasiado embrenhada em nós para pudermos esquecer e perdoar – retorquiu ele – Nunca vou conseguir ser mais do que tolerante em relação ao Potter, ao Weasley e à Granger, o ódio não se esquece, pode atenuar-se, mas nunca morre – suspirou Draco, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça sobre as mãos. No exterior da sala, oculto pelas sombras, Scorpius suspirou e afastou-se em direcção ao seu quarto.
Rose dormia profundamente, quando um ruído arrepiante se propagou pelo seu quarto, como se alguém estivesse a raspar com unhas contra um quadro. Esta mexeu-se, desconfortável, até não aguentar mais e abrir os olhos. Estes procuraram a razão do barulho e ao caírem sobre a sua janela, por onde entrava a luz da lua, por pouco não lhe saltaram da cara. Para lá do vidro, com um sorriso velhaco, Scorpius acenava-lhe alegremente.
- Scorpius! – guinchou Rose, ao abrir a janela, de forma atabalhoada.
- Shiu! Ou queres acordar os teus pais e explicar porque estou eu à tua janela a uma hora destas? – admoestou-a Scorpius, enquanto saltava como um gato da sua vassoura para o chão atapetado do quarto de Rose.
- Sabes, eu também gostava de perceber, por isso, talvez vá mesmo chamá-los… - retorquiu Rose, virando-se na direção da porta. Scorpius agarrou-a bruscamente por um braço e esta girou, batendo no peito deste e ficando a milimetros da sua face.
- E antes de me entregares à morte às mãos do teu pai, não és capaz de me dar um beijo? – perguntou ele, lambendo os lábios e fazendo com que Rose corasse. Esta aproximou a sua boca dele e como se fosse puxada por um íman, os lábios colaram-se, movendo-se em sincronia. Rapidamente o beijo se tornou mais do que um ligeiro selo e quando se afastaram, ambos respiravam pesadamente.
- Sabia que sentia saudades tuas por algum motivo – comentou Rose, enquanto lhe rodeava o pescoço com os braços e a sua cabeça descansava sobre o peito de Scorpius. Sentiu o seu peito tremer ao rir-se e os seus lábios a beijarem-lhe o topo da cabeça – Mas afinal, que estás aqui a fazer?
- Ora, vim entregar-te o teu presente… - respondeu ele, com toda a calma. Rose olhou-o, boquiaberta.
- Tu atravessaste metade do país, numa vassoura, a nevar, só para me trazeres o raio de um presente? Scorpius, podes ficar doente ou cair na neve e magoares-te e depois, como és tão pálido ninguém te vai encontrar e … - mas o resto da frase foi sufocada pelos lábios de Scorpius e Rose sentiu-se a ser direccionada para a cama, onde caiu com um baque seco. Scorpius, sem nunca afastar os seus lábios dos dela, caiu sobre ela, assentando o peso nas mãos que estavam em redor da cabeça de Rose e sobre a cama.
- E então? Vais continuar a reclamar? – perguntou ele, com um sorriso altivo, quando se afastou de Rose e se deitou ao lado desta, brincando com os seus caracóis.
- Idiota – murmurou Rose, antes de se virar de costas para ele.
- Oh, vá lá, Rosie, não sejas assim! – pediu Scorpius, num tom condescendente.
Rose virou-se para ele e deitou-lhe a língua de fora, mas antes de tomar consciência dos movimentos de Scorpius, já este a beijava novamente, com renovada paixão e Rose deu consigo a enredar as mãos na roupa deste e a puxar-lhe a camisola pela cabeça. Scorpius afastou-se e sorriu-lhe.
- Rose, eu sei que sou irresístivel, mas a casa dos teus pais não é normalmente o local adequado para esse tipo de coisas…
Rose corou profundamente e apressou-se a puxar-lhe a camisola pela cabeça abaixo.
- Então, qual é essa prenda maravilhosa que mereceu todo este risco? – perguntou Rose, quando Scorpius se voltou a deitar a seu lado.
Este sentou-se na cama e apressou-se a tirar de dentro do bolso das calças uma pequena caixa de veludo. A respiração de Rose prendeu-se-lhe na garganta... Não, ele não podia estar a… eles eram demasiado novos… o que diriam os seus pais…
- Rose, estás bem? – perguntou Scorpius, vendo empalidecer. Esta apressou-se a anuir, sem tirar os olhos da caixa. Scorpius estendeu-lha e Rose sentiu-lhe o peso, o que a surpreendeu. Era bem mais pesada do que se tivesse um simples anel e por isso, apressou-se a abri-la. Sentiu os seus pulmões descomprimirem-se ao ver que se tratava de um pequeno guarda-jóias redondo. Retirou-o da caixa e sentiu que este era mais pesado do que os guarda-jóias normais. No entanto, ao retirá-lo, viu que no fundo da caixa estava um pequeno colar em forma de flor, estranhamente plano. Rose colocou a mão sob a tampa do guarda-jóias e tentou abri-lo, mas esta não se mexia. Procurando a cara de Scorpius, viu que este sorria, como se lhe estivesse a escapar algo de óbvio.
- Usa o colar para a abrir – sugeriu ele e respondendo ao olhar confuso de Rose, pegou na flor do colar e colocou-a contra uma reentrancia com a mesma forma que existia na caixa. Rodando a flor completamente duas vezes, Rose viu boquiaberta a tampa abrir e apercebeu-se de que não se tratava de um guarda-jóias, mas sim de uma caixa de música. No seu interior existiam duas figuras, um homem de cabelo loiro e uma mulher de cabelo castanho arruivado, que dançavam sobre um espelho. A tampa era adornada no interior pela pintura de um cisne e em todo o redor da caixa existiam pérolas e pequenas pedras preciosas incrustadas rodeadas por rosas em relevo. A música invadiu o quarto de Rose, uma melodia suave e um pouco triste que a deixou arrepiada com a sua beleza. Quando a música terminou os bailarinos sorriram um ao outro, beijaram-se e a tampa fechou-se.
- Scor… - murmurou Rose, olhando finalmente para ele, sem conseguir exprimir o que sentia.
- Isto pertencia à minha bisavó materna, eu achei que ias gostar dado a aparência dos dançarinos – murmurou Scorpius, olhando-a fixamente.
- Amo-te – sussurrou Rose, pretendendo que aquelas palavras transmitissem tudo o que sentia naquele momento.
Scorpius sorriu e abraçou-a contra si, sentindo o cheiro a rosas e baunilha que a rodeava e sentindo-se em paz.
- Eu também tenho uma prenda para ti – lembrou-se Rose, de repente e saltando da cama, apressou-se até à sua cómoda e remexendo nas suas roupas, acabou por encontrar o embrulho que queria.
Scorpius aceitou a pequena bolsa de veludo e desapertando a fita que a fechava, sentiu cair sobre a sua mão um fio. Ao observar melhor, viu que se tratava de um colar de prata fino, com um anel a servir de pendente. Na parte interna do anel, Scorpius podia ler uma inscrição "Usque in sempiternum".
- Até à eternidade – murmurou Rose, passando os dedos sobre a inscrição. Scorpius sorriu-lhe e colocou imediatamente o colar, sentindo a superfície fria contra a sua pele e apercebendo-se de que não o incomodava, pelo contrário, o seu peso fazia-o sentir-se confortável.
- Queria que tivesses algo meu contigo, assim haverá sempre algo que te recordará de mim – confessou Rose, olhando para o seu colo ao sentir-se corar.
Scorpius colocou-lhe o dedo por baixo do queixo e fê-la olhar para ele. Aproximou os seus lábios dos dela e beijou-a suavemente, tentando incutir naquele beijo o que aquele gesto significara para ele.
Nota:
Para aqueles que tiverem curiosidade em ver a verdadeira caixa em que me baseei, existe um link no meu perfil.
