Regresso a Hogwarts
Enquanto o comboio se começava a afastar, Scorpius podia ainda ver a mãe a acenar-lhe, de mão dada com Elise, que o olhava de forma censurável, como se a questionar-se porque a deixava mais uma vez sozinha e o seu pai, que mantinha um braço protector sobre os ombros da mulher. Mas apesar de o seu olhar estar fixo neles e de lhes dirigir um sorriso de despedida, a mente do rapaz estava algumas noites atrás, a recordar a sua primeira conversa com Rose após o fiasco que foram as suas festas natalícias em comum.
- Scorpius… - murmurara ela, ao abraçá-lo, quando este lhe entrara pela janela pela segunda vez.
- Achei que deveríamos conversar sobre o que aconteceu – retorquiu ele, sentando-se num confortável sofá, ao lado da janela e puxando Rose para o seu colo. Esta repousou a cabeça no ombro de Scorpius e suspirou, ao senti-lo abraçá-la com força, verificando que ela ainda se encontrava ali, com ele, e que não fugira com medo de que este se revelasse um monstro sanguinário.
- Sim, não vale a pena lutarmos contra uma conversa que tem de ocorrer… caso contrário só vamos piorar as coisas – concordou Rose, enquanto afagava a mão que o namorado tinha em cima das suas pernas.
- Uau, por momentos parecia mesmo que ias acabar comigo – retorquiu Scorpius, fingindo tremer de horror, enquanto se ria.
- Sim, porque eu estaria ao teu colo, a fazer-te festas na mão, tudo para largar a bomba de que estava farta de ti – respondeu, sarcasticamente, Rose.
- Sim, é assim que eu normalmente acabo com as raparigas… - afirmou Scorpius, com uma expressão séria, que denotava a sua falsidade pelos cantos dos seus lábios que tremiam devido à sua vontade de rir.
- Oh, então sentas-te ao colo das raparigas? Elas devem ser bem fortes para aguentarem contigo… - comentou Rose, rindo em silêncio.
Scorpius fez um barulho de impaciência e começou a fazer cócegas a Rose. Este conhecia os seus pontos fracos e sabia que ela detestava que lhe fizessem tal coisa, chegando, em criança, a pontapear o pai, fortemente, no queixo, quando este se recusara a parar com as cócegas e segundo o que esta lhe contara, nunca mais ninguém tentara repetir tal proeza… até agora.
- Scorpius Hyperion Malfoy! – rosnou Rose, saltando do colo dele e correndo para lançar um Muffliato no seu quarto.
Scorpius sorriu-lhe ironicamente, enquanto a observava em busca da varinha e a lançar o feitiço.
- Pensava que estavas aqui para ter uma conversa séria, não para seres apanhado pelo meu pai e pendurado na cave por teres desencaminhado a filha dele! E tens sorte dos feitiços de protecção da casa permitirem a entrada àqueles que queiram bem à nossa família e não proíbam todos, caso contrário, ainda estarias naquele raio de vassoura desde o Natal a bater no vidro! – explodiu Rose.
Quando esta se calou, a arfar, Scorpius riu-se abertamente, sabendo que não seria escutado e fez-lhe sinal para que se aproximasse. Rose cruzou os braços e manteve-se, teimosamente, no mesmo lugar. Suspirando, Scorpius levantou-se e aproximando-se, ajoelhou-se e obrigando-a a descruzar os braços, pegou-lhe numa das mãos e recorrendo à sua voz mais sedutora, disse-lhe:
- Miss Weasley, peço perdão por ter recorrido ao seu ponto fraco e quase ter feito o seu pai encontrar-nos e mandar-me para a cave, por isso, por favor, perdoa-me?
Rose sentiu o coração falhar uma batida e quase atacou Scorpius, mas conseguindo manter a dignidade dirigiu-lhe um sorriso que claramente lhe dizia que estava perdoado. Este levantou-se repentinamente e pegando em Rose, ao colo, levou-a novamente para o sofá.
- Rose, gostavas de… não, gostar não é a palavra certa, terias interesse em ler o diário do meu pai, onde ele descreve o que aconteceu naquela noite? – perguntou Scorpius, enquanto brincava com uma das madeixas de Rose.
- Não… - respondeu Rose – O meu tio contou-nos o que aconteceu e ler sobre isso não julgo ser a melhor forma de concluir o assunto. Prefiro que tentemos aprender com os erros que os nossos pais cometeram e nunca os venhamos a repetir.
- Então, por piores que tenham sido os horrores que a minha família perpetrou contra outras pessoas, não vais deixar de sentir por mim aquilo que sentes neste momento? – perguntou, esperançosamente, Scorpius.
- Claro que não, é como te disse no jardim do Al, já aguentei demasiadas coisas de vocês dois para te deixar ir sem pelo menos me vingar uma vez…
- E eu a pensar que estavas comigo pela minha fantástica aparência física! – Scorpius fingiu fazer beicinho, fazendo Rose sorrir.
- Só tu me podes fazer deixar de gostar de ti e não o que o raio da maluca da tua família possa ter feito, isto é, desde que não concordes com o que quer que eles tenham feito… - acrescentou, rapidamente, Rose.
- E que coisas seriam essas que te fariam deixar de gostar de mim?
- Traíres-me é logo a primeira – afirmou Rose, peremptoriamente – Já me conheces, sou uma Gryffindor de corpo e alma e a traição é algo que não admito a ninguém…
- E essa traição engloba colocar partidas em prática com o Al para nos rirmos de ti? – testou Scorpius, fazendo Rose lançar-lhe um olhar irado.
- Claro que não, para isso o castigo será o de não poderes fazer nada comigo durante um logo período de tempo – respondeu Rose, sublinhando as palavras que queria que tivesse mais efeito sobre um rapaz adolescente, loucamente apaixonado pela namorada, que mal conseguia manter as mãos e o resto do corpo, longe dela.
- Isso não tem piada!
- Scorp! Scorpius! Scorpius Malfoy! – uma voz vinda de muito longe fê-lo saltar no banco e olhar em redor, ao ser arrancado dos seus devaneios.
Encontrou a cara estupidamente sorridente de Albus a observá-lo, claramente a rir-se do amigo.
- Estavas a sonhar com uma certa Weasley? – perguntou o Gryffindor, com à-vontade, enquanto se sentava no banco em frente e estendia os pés sobre o banco de Scorpius.
- Óbvio que não! – retorquiu Scorpius, num tom que, esperava ele, demonstrasse o quão abjecta era essa ideia.
- Pronto, mas vais desculpar aqui o velho Albus – Scorpius ergueu uma sobrancelha perante o tom solene e questionou-se, não pela primeira vez, se o velho Albus Dumbledore estaria às voltas no caixão devido às acções do seu homónimo – por achar que já te tinha falado do velho vampiro no sótão dos meus avós nos, não sei bem mas… seis anos que te conheço!
- Sim, e o que te leva a pensar que acreditei mais em ti quando me contaste do que na tua prima naquela noite? Eu teria de ver com os meus próprios olhos e como isso continua por acontecer…
- Seu Slytherin! – acusou Al, corando – E eu a pensar que o meu melhor amigo acreditava sempre em mim…
- Sim, Al, tudo o que tu contas é bastante verosímil, inclusive a existência de um cão de três cabeças chamado Fluffly, em Hogwarts…
- Mas é verdade! – queixou-se Albus, corando ainda mais – Podes perguntar ao Hagrid, era dele! Ou até mesmo à professora McGonagall!
- Ok, amigo, não te transformes numa lagosta por causa disso! – aplacou Scorpius, rindo abertamente. A verdade é que, apesar do que Albus dissera, este tinha receio que o amigo o tratasse de forma diferente, quando, na realidade, parecia que nada se tinha passado.
Al levantou-se repentinamente e por momentos, Scorpius pensou que o tinha ofendido, mas ao ver os seus restantes colegas de Slytherin percebeu por que o amigo decidira ir.
- Vejo-te no banquete – despediu-se Al, dando-lhe um amigável murro no ombro.
- Cuidado com o Fluffy! – atirou-lhe Scorpius, fazendo com que Al se despedisse com um rude gesto de mão.
- Fluffy? – perguntou August Xavier, enquanto se sentava ao lado de Scorpius.
- Um cão de três cabeças que supostamente existiu em Hogwarts… - explicou Scorpius, perante os olhares surpresos de Xavier e Zabini.
Quando o Expresso de Hogwarts, finalmente, parou, Scorpius saiu do seu compartimento e acompanhado dos amigos, seguiu a torrente de alunos, que se apressavam em direcção às carruagens, para fugir da chuva, que começara a cair a meio da viagem. Procurando Rose na multidão e conhecendo a sua mania de andar à chuva, preparava-se para intervir se ela tentasse repetir a proeza, mas ao vê-la a encaminhar um grupo de primeiros anos para as carruagens e a seguir depois Albus para o interior de outra, apressou-se, ele próprio, a seguir outros Slytherins e a entrar para uma carruagem.
Durante o banquete, os olhos de Rose, treinados para observar Scorpius sem que mais ninguém notasse, repararam novamente na rapariga do quinto ano que anteriormente apanhara a observá-lo. Desta vez, sentava-se mais perto de Scorpius, e mais uma vez observava-o durante longos períodos de tempo, como uma hiena esfaimada, até que, se voltara para uma amiga, com cara de cavalo e lhe cochichara algo ao ouvido, fazendo-a sorrir malevolamente. E Rose não gostou nada do que viu na expressão da admiradora de Scorpius, não gostou mesmo nada…
