Princípio do Fim
Com o recomeço das aulas, Rose e Scorpius aproveitavam as suas actividades enquanto prefeitos para estarem juntos, no entanto, para responder às suas necessidades de privacidade que um corredor, onde qualquer um poderia andar, não disponibilizava e evitar sair do castelo durante a noite, correndo o risco de facilmente serem apanhados, tentaram encontrar uma outra solução. E essa solução, por estranho que pareça, surgiu a Rose durante uma calorosa noite na sala comum dos Gryffindor.
James e Fred tinham, ultimamente, com o auxílio de outros alunos do sétimo ano e até de um relutante Albus, uma animada Lily e um confuso Hugo, recriado certos episódios que os seus pais lhes haviam contado, ocorridos durante a sua passagem pelo castelo. O da noite de hoje era sobre o grupo de defesa que Harry, Ron e Hermione haviam criado aquando do seu quinto ano para lutar contra o poder opressivo do Ministério e, especialmente, de uma professora cuja obsessão em negar o regresso de Voldemort raiava a loucura. E fora assim que Rose se deparara com a solução para o seu problema, enquanto via o pobre Albus a representar o seu homónimo, usando uma espectacular barba branca que James enfeitiçara para ser impossível de tirar até ao final da noite.
Cansado do riso dos colegas cada vez que olhavam para a sua barba, Al recolheu-se cedo para o dormitório, mas não antes de Rose o apanhar e como quem não quer a coisa, o questionar sobre a Sala dos Requerimentos.
- Oh, é fácil de encontrar! Conheces a tapeçaria de Barnabás, o Louco, a ensinar trolls a dançar? É precisamente por detrás dela! Sabias que durante os primeiros anos do Teddy, a sala não abria? Pelo que o meu pai me disse foi destruída durante a batalha e demorou muitos anos a recuperar - agora que ninguém se ria dele, Al voltara ao seu jeito jovial e falava alegremente com a prima até…
- Ei, velhote, não é demasiado tarde para estares acordado? - berrou James, do outro lado da sala, fazendo os punhos de Al tremerem e este afastar-se, resmungando sobre irmãos idiotas que não sabiam onde se tinham metido.
Rose dirigiu um olhar agastado a James e também ela se encaminhou para o seu dormitório, pronta a informar Scorpius, através do diário, dos novos desenvolvimentos sobre os seus locais secretos.
Na manhã seguinte, Rose foi acordada por um berro estridente que fez todos os Gryffindor acorrerem à sala comum, local proveniente do barulho.
- Oh meu… - Rose não conseguiu dizer mais nada, ao deparar com James a correr de um lado para o outro da torre, a tentar arrancar fotografias da parede. A seu lado, Fred encostava-se à parede, enquanto batia com os punhos na pedra, a chorar de tanto rir. De todos os cantos, um sorridente James, em diversas fases de crescimento, ao colo do pai ou da mãe, mascarado de formas estranhas para o Halloween, a deglutir-se com chocolate ou simplesmente a fazer caretas para a câmara, movia-se nas fotografias que teimavam em não serem arrancadas por mais tentativas que este fizesse.
- Tu! Seu traidor da tua própria carne! - acusou James, dramaticamente, apontando para alguém, alguns degraus acima de Rose que, olhando em redor, se deparou com Al, também ele, como Fred, entregue às lágrimas.
- Já que gostaste tanto daquela barba branca, pensei em mostrar um pouco de juventude - respondeu Al, fazendo os restantes Gryffindor rugir de riso.
Dando um berro de impaciência, James saiu pelo retrato da Dama Gorda, com Fred na sua peugada, ainda a lutar para recuperar o controlo. Aos risinhos, os restantes leões regressaram aos seus quartos, para se prepararem para o dia de aulas.
- Brilhante! - congratulou Rose, enquanto subia a escada para o seu dormitório.
Albus que a seguia, sorriu abertamente.
- Eu sabia que ele queria continuar com aqueles teatros idiotas, por isso, durante as férias preparei-me antecipadamente para a vingança…
- Se eu alguma vez te impuser uma barba branca, lembra-me deste episódio, está bem? - pediu Rose, enquanto desaparecia através da porta do dormitório.
Assim, desde aquela noite, Rose e Scorpius haviam usado a Sala dos Requerimentos por duas ocasiões, em que haviam aproveitado sábados em que Al tinha treino de Quidditch para desfrutarem de um tempo relaxante e romântico, depois das lições de Aparição.
- Rose, que colar é esse? - perguntara Scorpius, reparando, pela primeira vez, no segundo fio que adornava o corpo de Rose, em companhia do seu próprio presente.
Estavam ambos no seu primeiro encontro na sala e haviam sabido aproveitar a enorme cama que se materializara, segundo os seus desejos.
- Realmente Malfoy, que mente a tua! - ralhara Rose, ao ver a peca de mobiliário - Eu apenas desejei um local onde pudéssemos desfrutar de um belo tempo de estudo.
A expressão envergonhada de Scorpius fora substituída imediatamente por um sorriso altivo, ao ver que Rose não estava ofendida e apenas se estava a aproveitar das suas hormonas de adolescente e de um desejo inconsolável por ela para o ridicularizar...
- Sabes como é, querida - começara ele, aproximando-se dela - umas horas de marranço não são nada sem um profundo estudo anatómico - e os seus lábios atacaram os de Rose, não lhe dando mais espaço para retorquir, durante muito tempo.
Para sua grande surpresa, Rose corou ate à raiz dos cabelos, o que apenas serviu para acicatar a sua curiosidade. Esta, vendo a sua expressão, abriu o medalhão e Scorpius viu-se e a Rose a rirem e a fazerem caretas um ao outro.
- A Lily mostrou-me as fotos que ela tirou durante o Natal e sem que se apercebesse eu fiz uma cópia para mim... - explicou Rose, corando ainda mais. Era uma das coisas que mais fascinava Scorpius em Rose: depois de terem partilhado momentos de intimidade a todos os níveis, não só física, mas também emocional, ela ainda se conseguia mostrar envergonhada por algo que qualquer rapariga normal se teria regozijado em ter feito. Mas também, Rose não era uma rapariga vulgar e fora por isso que Scorpius Malfoy se apaixonara por ela.
- Sabes, a Lily deu uma foto igual a essa ao Al e quando ele ma mostrou eu também fiz uma cópia sem ele se aperceber - confessou Scorpius, sorrindo, enquanto Rose abria muito os olhos.
- Uau, o Scorpius Hyperion Malfoy virou mesmo um lamechas... - comentou Rose, enquanto fechava os olhos e encostava a cabeça ao peito nu dele. Scorpius sorriu e murmurou-lhe ao ouvido "Só por ti", provocando-lhe um arrepio que nada tinha a ver com o frio.
- Desculpa, Scorpius, podes ajudar-me numa coisa? - uma voz feminina interrompeu a linha de pensamento dele, enquanto se atarefava em finalizar os trabalhos, na segunda de manhã. Olhando em redor, Scorpius deparou-se com Anita Elliot, uma rapariga do quinto ano, que ultimamente lhe tinha começado a pedir ajuda ao nível dos trabalhos de Defesa. Afinal, não era por acaso que era o segundo melhor, empatado com Albus e suplantado por Rose.
- Claro que sim - e dirigira-lhe um sorriso, sem se aperceber que todos os seus movimentos estavam a ser seguidos por dois olhos que quase lançavam chispas de fogo.
- Rose, porque estas a usar a tua expressão "vou matar alguém, por isso saiam todos da frente antes que ceda à minha raiva voldemortesca"? - perguntara Maria, uma colega do sexto ano, ao ver a expressão de Rose e a forma como esfarelava o pão de forma violenta.
Rose olhou em redor e viu que ela e Maria eram as únicas do seu ano na mesa, então, levantando-se bruscamente, puxou a rapariga, que usava uma expressão aparvalhada, e obrigou-a a ir atrás dela, enquanto se dirigia apressadamente para a próxima aula.
- Scorpius, deves achar-te muito bom! - retorquiu asperamente Rose.
Ambos estavam na biblioteca a discutirem a melhor forma de produzir uma poção do esquecimento, o projecto a que iriam deitar mãos na próxima aula de poções.
- Eu sei que sou e sei de uma fonte bastante credível que existe uma certa rapariga que também acha...
- Quem? Aquela vaca que tens ajudado nos trabalhos de casa? - Rose ficara orgulhosa ao saber que Scorpius ia ajudar um aluno mais novo, mas ao ver de quem se tratava, passara a adoptar uma expressão de raiva cada vez que a via aproximar-se de Scorpius.
- Se eu não soubesse, até diria que estás com ciúmes... - comentou Scorpius, ao mesmo tempo que desviava as pernas do pontapé que Rose lhe apontara: conhecia-a tão bem que conseguia prever todos os seus movimentos, ou pelo menos quase todos, pois quando ela se levantou e se afastou furiosa ficou a observá-la, espantado.
Nem cinco minutos tinham passado, quando Al se lhe juntou, deixando cair os livros com um estrondo em cima da mesa. Ainda vinha ofegante do treino que James o obrigara a fazer à última da hora.
- Onde está a Rose?
- Saiu daqui furiosa, não sei bem porquê... - respondeu Malfoy, num esforço de concentração para compreender a mente daquela rapariga.
Al suspirou e perguntando-se porque não se davam eles bem quando tinham sido talhados um para o outro, mergulhou igualmente no trabalho de poções.
- Desculpa, Scorpius? - a voz de Anita interrompeu novamente o pequeno-almoço de Scorpius. Este suspirou: a rapariga já lhe causara demasiadas discussões com Rose para ter paciência com ela, ainda que ela não tivesse qualquer conhecimento disso.
- Levei sem querer o teu cachecol, mas aqui está! - e estendeu-lho com um sorriso jovial que, no entanto, o deixou incomodado. Guardou-o na mala, mas não pode impedir-se de olhar para a mesa do vermelho e dourado e deparar-se com os olhos frios de Rose.
A verdade é que, apesar de inicialmente ter achado que Rose estava a ser paranóica, nas últimas semanas, Anita tinha vindo a desenvolver um comportamento estranho em relação a ele: ria de piadas sem qualquer graça, aproveitava qualquer oportunidade para lhe tocar e pedia-lhe cada vez mais ajuda nos trabalhos de casa, afinal quão burra poderia uma pessoa ser para precisar assim de tanta ajuda? No entanto, era orgulhoso e não admitia perante Rose que ela poderia estar certa e ele errado, o que por sua vez, tinha levado a mais discussões. Desde aquele dia na biblioteca, pareciam fazer mais nada senão discutir e sempre sobre o mesmo assunto: Anita Elliot. Aquilo tinha que parar ou Scorpius arriscava-se a perder a melhor coisa que tinha na vida.
- Ouve, Anita, acho que devias tornar-te mais independente. Não posso ajudar-te para sempre e nem quero - afirmara, peremptoriamente, Scorpius, uma tarde em que já passava mais de vinte minutos da hora combinada com Rose para se encontrarem e em que se vira preso, mais uma vez, à rapariga.
Anita baixara os olhos e anuíra e apesar de se sentir mal em fazer isso, Scorpius levantou-se e correu para a sala dos requerimentos, não reparando no olhar calculista que observava a sua figura.
Anita levantou-se e aproximou-se da amiga, que observara a troca de palavras e o afastamento de Scorpius de uma curta distância.
- Não quer passar mais tempo comigo - cuspiu ela, ao sentar-se num dos cadeirões.
- Então de certeza que anda com alguma gaja em segredo - retorquiu a outra.
- Então, querida Ruth, chegou o momento de fazer com que essa cabra, quem quer que ela seja, deixe de confiar no Scorpius...
- E como é que vais fazer isso? - questionou Ruth, observando a amiga de olhos semicerrados.
- Qual a pior coisa que uma rapariga pode ouvir sobre o namorado?
- Que ele a anda a trair? - sugeriu Ruth, imaginando-se na pele de tal rapariga.
- Precisamente...
