Ruptura
O plano de Scorpius para manter Anita afastada era colocado em prática de cada vez que ela abria a boca para lhe tentar falar: inventar uma desculpa plausivel que lhe permitisse sair dali o mais rapidamente possivel. E a verdade, é que as histórias já lhe começavam a faltar e a rapariga parecia não desistir. Sempre que se encontravam no salão ou no meio da multidão de alunos, conseguia encontrá-lo e a sua voz ecoava a chamá-lo, o que, por mais do que uma vez levara a piadas sobre a rapariga criar um clube de fans. No entanto, havia duas pessoas que não estavam nada satisfeitas com tais demonstrações: Rose, que desenvolvia pensamentos mortais cada vez que olhava para Anita e Scorpius, que se sentia cada vez mais envergonhado; era óbvio que ele gostava de ser apreciado pelas raparigas, que elas comentassem o seu aspecto e atitude, não fosse ele um orgulhoso Malfoy, mas mesmo aquela miúda já lhe mexia com os nervos.
- Devo ter que passar a usar um repelente de raparigas! - queixou-se Malfoy, enquanto ele, Al e Rose se encaminhavam para as masmorras.
- Sinto-me tão acarinhada por gostares assim tanto da minha companhia... - comentou acidamente Rose, mas por dentro suspirava de alivio.
- Ora, Cenourinha, tu tens sempre um lugar especial no meu coração! - retorquiu ele e apesar de o fazer num tom gozão, Rose conseguia ouvir a verdade ecoar nas suas palavras.
- Se já acabaram com o namorisco, será que podemos ir para a aula? - insurgiu-se Al, sorrindo. Rose corou e ultrapassou os dois rapazes, que riam abertamente.
- Sabes, aposto que ela vai aceitar sair contigo antes do final do ano... - comentou Albus, trocando um olhar conspiratório com Scorpius. Este observou-o de olhos semicerrados, forçando os lábios a manterem-se numa fina linha e não no sorriso que ele gostaria de demonstrar.
Nos últimos dias, o tempo que Rose e Scorpius tinham para estar juntos diminuíra consideravelmente, não devido a Anita, mas aos treinos cada vez mais regulares que este obrigava a equipa de Quidditch dos Slytherin a ter. O encontro com os Ravenclaw estava perto e se queriam alcancar os Gryffindor e ter a chance de vencer a taça no último jogo da época, teriam de se esforçar.
No entanto, enquanto para Albus e James ir ao jogo era uma absoluta necessidade para, segundo palavras do último, observar o inimigo, para Rose tratava-se de uma forma de poder olhar para Scorpius durante um tempo considerável e ainda ter uma boa desculpa para isso, a única coisa que tinha que se lembrar era de torcer pelos azuis e não pelos verdes, pelo menos verbalmente. Por isso, fora com a moral em alta que se dirigira ao campo com os primos, o irmão e os restantes Gryffindor, todos envergando cores azuis.
James observava cada passe, escrevinhando furiosamente num papel, enquanto Fred comentava o encontro, sob o olhar observador da professora McGonagall, que ao mínimo desvio do que era correctamente aceitável o advertia. Scorpius era sem dúvida um dos melhores jogadores de Quidditch que Rose já vira, mas naquele jogo parecia estar especialmente inspirado. Voava com certeza, procurando incessantemente a snitch, enquanto conseguia observar simultaneamente os outros jogadores e lhes dava indicações, como o dedicado capitão que era. Apesar da equipa dos Ravenclaw ser boa, não conseguiam bloquear os passes entre os chasers e viam o seu empate a 10 começar a transformar-se numa derrota. James e Al torciam-se de cada vez que os Slytherin marcavam e Rose via o primeiro começar a fazer contas num canto do pergaminho.
No entanto, com o apoio de três equipas, os Ravenclaw começavam a acordar e os seus jogadores aumentavam cada vez mais a velocidade, dificultando em muito o trabalho dos adversários. Quando apenas 10 pontos separavam as equipas e Al roía as unhas nervosamente, Rose viu a expressão de Scorpius mudar. Transformara-se numa de concentração para uma de vitória, no entanto, ninguém conhecia as expressões dele como Rose, por isso, não foi de estranhar que quando este estendeu a mão, agarrou algo e começou aos berros, entusiasmado, a multidão demorou alguns momentos a aperceber-se de que a snitch fora apanhada. James atirou o cachecol azul ao chão, furioso, enquanto Fred anunciava o resultado numa voz esmorecida e deprimida e Al abanava a cabeca e murmurava "Foi só estender a mão, eu tenho de fazer mergulhos fatais para a apanhar e com ele quase que lhe entrou pela manga, não é justo, não é nada justo!"
Os Slytherin invadiram o campo e tomaram o seu capitão aos ombros, enquanto Rose o observava a ser transportado pela multidão. Mas ao sair do estádio, Rose deparou-se com uma imagem que a fez estacar e por momentos sentiu-se como se fosse desfalecer. Anita corria em direcção a Scorpius e este observava-a com um sorriso, mas com uma ruga de preocupação na testa. Então, esta passou-lhe os braços pelo pescoço e beijou-o! E os braços de Scorpius rodearam-na e puxaram-na contra si. Vários colegas dos Slytherin assobiaram, mas Rose já só os ouviu ao longe, pois desatara a correr como se a sua própria vida dependesse disso.
Scorpius vira Rose correr na sua direcção, abraçá-lo entusiasticamente e beijá-lo como fazia quando estavam sozinhos, e apesar de a ter abraçado, uma voz ao fundo da sua mente advertia-o de que algo de estranho se passava. O corpo que os seus braços rodeavam estava diferente e os lábios dela não tinham o mesmo sabor doce… E então começaram os assobios. Scorpius sabia que no momento em que se descobrisse a sua relação com uma Gryffindor seria acusado de traição e provavelmente renegado, porém, ouvia gargalhadas e foi isso que o fez afastar-se de Rose e olhar em redor e então... os seus olhos caíram em Rose a correr em direcção ao castelo... mas não era possível, Rose estava ali ao pé dele...
- Olá Scorpius! - saudou a voz de Anita e ao voltar os olhos novamente para a rapariga que tinha nos braços, deu um salto para trás como se tivesse levado um choque. Rose fora miraculosamente substituida por Anita e por momentos fitou-a, confuso; então, na sua mente algo fez clique e ele desatou a correr na peugada de Rose. Enquanto recorria à reserva de energia que lhe sobrava depois de um jogo de Quidditch, ia elaborando mentalmente uma reconstituição do que acontecera. Uma rapariga dos Slytherin do quinto ano dera-lhe água à saída do jogo, em seguida Anita aparecera, mas este vira Rose no seu lugar, e por loucos momentos pensara que esta estava a mandar o segredo aos ares, mas então, apercebera-se do terrível erro e o pior de tudo é que Rose vira! Vira-o beijar Anita sem saber que ele a via a ela! Provavelmente a outra rapariga seria amiga de Anita e entregara-lhe uma qualquer poção que fazia com que alguém, neste caso aquela vaca, adquirisse o aspecto do que o coração dele desejava, mas apenas aos seus olhos, um pouco como aplicar o aspecto odorifico da amortencia num estimulo visual... E ele caíra como um bébé!
Scorpius aproximava-se cada vez mais da figura de cabelos arruivados e quando esta alcancou um dos corredores vazios de Hogwarts, este conseguiu agarrar-lhe o pulso e impedi-la de continuar.
- Rose, por favor! - suplicou Scorpius, quando ela se negou a olhar para ele - Eu não tive culpa...
Aquelas palavras pareciam ter provocado uma qualquer reacção, porque os ombros de Rose enrijeceram e esta voltou-se, fazendo com que Scorpius desse um passo atrás. As lágrimas marcavam-lhe a cara, mas não fora isso que o fizera o recuar, os olhos de Rose, sempre doces quando olhavam para ele, mesmo quando discutiam, apresentavam agora uma tal fúria e frieza que Scorpius receou que ela o atirasse pela janela.
- Não tiveste culpa? Tu não tiveste culpa? - repetiu ela acidamente, num murmúrio furioso - Eu vejo-te a curtir com outra gaja e tudo o que me dizes é que não tiveste culpa?
- Rose, devias conhecer-me melhor, sabes que não te faria isso. Foi ela, ela é que foi a culpada - as palavras de Scorpius eram catapultadas, atropelando-se umas às outras e não o deixando explicar correctamente.
- Sim, claro - anuiu sarcasticamente Rose - os teus braços em torno dela também foram culpa dela? Ela obrigou-te? Coitadinho do Scorpius Malfoy! Há quanto tempo isto anda a acontecer? Desde que voltámos de férias? Desde que a começaste a ajudar nos trabalhos? - Rose sabia que era errado dizer aquelas coisas, que deveria esperar por uma explicação de Scorpius e só depois começar a barafustar, mas vê-lo beijar outra fora demais para si e se havia algo mais forte do que o seu lado Granger era o lado impetuoso, irracional e emotivo do seu pai. E nesse momento esse lado era o seu pior inimigo, expulsando todos os seus medos sob a forma de acusações.
Scorpius sentiu-se inchar de raiva pelas injustiças de que Rose o acusava e as palavras "Ela deu-me uma poção que me fez ver o meu verdadeiro amor em vez dela" acabaram por perder-se dentro da sua boca e o que saiu foi muito diferente.
- Talvez sim, até pode ser há mais tempo…
Rose sentiu como se os seus pulmões colapsassem. Ela esperava que ele negasse, que mostrasse outra alternativa que, na raiva, ela não vira, mas não, ali estava ele quase a admitir que a tinha traído.
Scorpius viu com alarme a alteração no rosto da rapariga e por momentos pensou que ela fosse desmaiar, mas então, esta olhou novamente para ele e a sua expressão foi o que mais aterrorizou Scorpius: parecia apática, como se não pudesse sentir qualquer dor ou qualquer prazer e os seus olhos, normalmente quentes, pareciam pertencer a um cadáver, sem se focarem em algo, parecendo que ela estava perdida num espaço escuro.
- Então se é assim, talvez devessemos acabar a nossa relação - murmurou Rose, deixando Scorpius petrificado, enquanto ela lhe virava costas e se afastava.
Quando Rose desapareceu da sua vista, Scorpius caiu de joelhos no chão e começou a chorar, não como alguém que se magoa ao cair, mas sim de uma forma mais profunda, como se parte do seu ser tivesse sido arrancada.
E a partir daqui só vai piorar…
