A.S.P.
Albus Severus Potter, apesar de sempre julgar que os seus pais deviam estar bêbedos quando tinham escolhido o seu nome, tinha a perfeita noção do que dizer e não dizer em frente à mãe, dom que James ainda não desenvolvera e em que Lily fora sempre uma mestre, isto porque sempre se vira rodeado por mulheres de personalidade vincada e humores instáveis. A sua mãe tinha o chamado temperamento Weasley, que quando espicaçado podia deixar encolhido de medo o mais corajoso dos homens, neste caso o seu pai, como ele já vira acontecer. A sua tia Hermione era capaz de ultrapassar a sua mãe e se já de si isso era um enorme feito, a capacidade de ultrapassar Molly Weasley levava o seu tio Ron ao desespero quando começavam uma qualquer discussão. Por isso, desde cedo, Albus desenvolvera um certo instinto para perceber as emoções das mulheres, ou melhor dizendo, saber quando devia fugir da sala o mais rapidamente possível. Ora, Al sabia que se passava algo de errado com Rose: esta quase não passava tempo nenhum na sala comum, as suas refeições eram completadas em cinco minutos e todo o tempo que tinha livre era passado no dormitório e não na biblioteca, e fora esse pormenor, mais do que outra coisa que o fizera desconfiar. Tentara conversar com ela, mas Rose parecia um furacão, correndo sempre que o avistava a tentar falar-lhe. Al chegara mesmo ao limite de falar com as colegas de dormitório e ficara a saber que Rose passava o tempo na cama, com as cortinas corridas e por mais que estas a chamassem não lhes respondia, o que as levara a desconfiar que colocara um feitiço imperturbável no dossel.
Al tentara discutir isto com Scorpius, mas a partir da palavra Rose, este negara-se a ouvir o que quer que fosse, afirmando que não tinha nada a ver com a vida dela e de que ele, Albus, devia fazer a mesma coisa e preocupar-se apenas com os seus próprios assuntos.
Albus sabia que Scorpius andava chateado desde o jogo, mas pelo que lhe tinham contado, este mostrara-se bem animado a beijar Anita Elliot à frente de uma multidão. E isto, era o que o deixava ainda mais confuso. Sempre pensara que o amigo gostava da sua prima e que, até ao final do ano, também ela se aperceberia de que todas as brigas não passavam de tensão sexual reprimida, não que Al tivesse qualquer desejo em pensar na prima e no melhor amigo nesses termos, muito pelo contrário; tremia ao imaginar que algum dia os poderia encontrar numa posição comprometedora, o que agora, parecia uma idéia descabida. No entanto, ao longo do ano não deixara de lado a teimosa impressão de que Rose e Scorp lhe estavam a esconder algo... Ao início pensara que fosse uma relação secreta, com a história da relva nas mochilas e a fita desaparecida da mala do amigo, mas as brigas haviam-se tornado piores e por isso colocara essa idéia de lado, porém, durante o Natal, ao ver como Rose apoiara incondicionalmente Scorpius, sem nunca colocar em causa a sua opinião, alguma da sua velha desconfiança regressara, mas agora com toda a história de Anita, ja não sabia o que pensar.
Assim, Albus Potter via-se entre duas pessoas que podiam ou não estar apaixonadas, que podiam ou não ter tido uma relação secreta e que podiam ou não estar a passar por um problema com uma causa comum. E era isto que deixava Albus ainda mais chateado: a possibilidade de lhe terem escondido durante um qualquer período de tempo algo tão importante. Tudo bem que ele se fartaria de afirmar "Eu disse-te!", até ambos os amigos o terem de enfiar num armário de vassouras para o poderem calar ou tocar uma canção melosa, do tipo que tanto Rose e Scorpius detestavam e que a sua avó adorava, cada vez que eles entrassem no salão... Mas depois disso, ele seria aquele que se colocaria entre o tio Ron e Scorpius para impedir um homicídio ou que avisaria o casal das partidas de James, Fred e Hugo e que impediria Lily de estar sempre a chatear Rose pelo segredo... então, se realmente eles tivessem mantido segredo provavelmente só impediria o homicídio. No entanto, era algo que ele não podia discutir com nenhum dos dois sem que ambos ficassem extremamente irritados, como acontecera na Terca-Feira a seguir ao jogo, em que conversara separadamente com Scorpius e Rose, embora brevemente com esta durante a aula e ambas as reacções haviam sido idênticas. Mas se havia algo que Al sabia era que o amigo não teria traído a prima com Anita; ele podia ser o maior playboy do castelo, mas nunca enganava as raparigas com quem andava, por mais curto que fosse o relacionamento e esse era um dos pontos que realmente deitava abaixo a teoria do romance secreto...
Com o passar da semana, Al ia vendo as olheiras de Rose crescerem e não podia deixar de reparar que as gargalhadas de Scorpius se apresentavam num tom forçado e desprovido de qualquer humor. Sim, ao chegar à sexta-feira, Al estava certo de que algo mau acontecera entre os seus amigos e ainda que a relacão pudesse não ter existido para além do platónico, algo de muito mau acontecera entre os dois para os deixar daquela forma derrotada e se havia algo que ele não suportava ver era os seus dois melhores amigos a sofrer. Então, um plano começou a formar-se na sua mente, um plano que envolvia Hogsmeade e uma extrema quantidade de licor de fogo e, esperançosamente, uns bons gritos que acabassem com aqueles horríveis sentimentos que pairavam sobre eles, pois se havia algo que pertencer ao clã Weasley-Potter lhe ensinara, é que não havia melhor forma de libertar os ressentimentos como uma boa bebedeira à moda antiga e uma bela competição de berros.
Felizmente para Al, que naquela semana se vira despojado do mapa dos salteadores e do manto, sábado era dia de visita a Hogmeade. Apanhando Rose ao jantar de sexta à noite, chateara tanto a prima que esta acabara por concordar em ir ter com ele, à vila, ainda que de forma contrariada e quezilenta.
Scorpius, por seu lado, fora muito mais fácil de convencer: bastara pronunciar as palavras licor de fogo e bebedeira para ele aceitar imediatamente. Isto deveria ter indicado a Al que o plano poderia resultar bem demais em termos da bebida e demasiado mal em todos os outros termos, mas este nem ponderara a possibilidade da sua ideia poder falhar. Estava certo que sábado, à noite, todo o castelo estaria a borbulhar com um novo mexerico. Se pelo menos ele pudesse ter adivinhado que a bisbilhotice teria, simultaneamente, tudo e nada a ver com a bebedeira de Scorpius, teria, indubitavelmente, pesado novamente os prós e contras e recuado em relação à colocação em prática do plano. Mas a verdade é que Al não poderia sequer imaginar as repercussões que a sua idéia viria a ter e por isso, continuara com toda a sua boa vontade a planear a sua estratégia.
