Músicas de inspiração para o capítulo: Talking to the Moon, do Bruno Mars & A drop in the ocean, do Ron Pope

A Queda

Desde aquela fatídica tarde, em que Rose deixara Scorpius, sozinho, no meio do corredor, que uma sensação de mal-estar profundo se instalara no seu ser. Não conseguia comer, parecia que os alimentos se transformavam em lixa na sua boca e acabava por deixar a mesa rapidamente e não querendo preocupar a sua familia que poderia reparar começara a ir jantar a horas diferentes. De noite, os seus sonhos eram constituidos pela voz de Scorpius, suplicante e arrependida e pela sua própria, transformada num rugido desumano. Por isso, passara a colocar um feitiço em redor da sua cama, poupando as colegas dos seus pesadelos e permitindo-lhe privacidade para chorar ou então berrar até lhe doer profundamente a garganta. Ouvia regularmente a caixa de música, o que para alguns poderia ser uma idiotice, mas para Rose era uma forma de punição: um castigo pelo seu erro de não ter tentado ouvir a explicação de Scorpius. Sim, porque ela sabia que ele a amava e sabia que Anita não era idiota nenhuma, por isso, o mais provável era ter sido tudo uma armação, ela poderia tê-lo confundido ou mesmo servido-lhe um copo de água, regado com uma poção de amor... Agora que a sua cabeça estava fria podia ver uma miríade de opções, mas naquele momento de raiva pura nada lhe viera à mente. E se havia algo que ela sabia sobre Scorpius era que ele detestava ser acusado de algo que não fizera e muito provavelmente fora essa a razão de lhe ter atirado à cara a possibilidade de andar com Anita há mais tempo do que aquele de que ela o acusava. Sabia também quão orgulhoso ele era e o quão desiludido ficara pela sua falta de confiança e era o medo da rejeição que a impedira tantas vezes de desatar aos berros com ele e dizer-lhe que o amava. Scorpius poderia não a querer mais, se ela desconfiara uma vez dele, o que a impedia de repetir o feito? E o imaginar a expressão dele, distante e fria, deixava-a petrificada, sem conseguir obrigar o seu cérebro a tomar a decisão que o seu coração precisava.

Al estava desconfiado, já encetara diversas conversas com ela sobre o amigo, mas esta, irritada e deprimida, dissera-lhe para tomar atenção à aula e deixá-la em paz, e de cada vez que o via apressava-se na direcção contrária.

Rose sabia que sábado seria um dia especialmente mau, e para piorar o primo resolvera quase obrigá-la a ir com ele à vila e, decidida a desmarcar à última da hora, acedera ao pedido. Se lhe tivessem perguntado há um mês se passaria o próximo sábado sozinha, iria mentir e dizer que sim, mas na verdade, estaria a contar os minutos para se encontrar com Scorpius... O seu primeiro dia dos namorados juntos! E agora tudo isso fora aniquilado! E era nestes momentos que Rose se afastava de toda a gente, com medo de esmurrar a primeira pessoa que se aproximasse dela...

No sábado de manhã, acordou com um forte mal estar no estomâgo e um aperto no peito. "Pelo menos não vou ter de mentir", pensou Rose, enquanto tentava ignorar a dor de cabeça que se começara a instalar.

- Al! - chamou Maria, ao chegar à mesa para o pequeno-almoço.

Este olhou para ela e ao ver que Rose não descera juntamente com ela e Jessica, adivinhara o que a colega lhe ia dizer.

- A Rose não vem a Hogsmeade?

- Não, ela está doente - declarou Jessica e vendo a expressão céptica de Albus, acrescentou - Ela está mesmo doente, com dores de cabeça e mal-disposta...

- Ela não tem comido nada - murmurou Maria - Eu e a Jessica reparámos e andamos a ficar preocupadas - Jessica anuia com a cabeça a cada palavra da amiga.

Al suspirou e encolhendo os ombros, levantou-se da mesa dos Gryffindor e dirigiu-se à dos Slytherin, onde Scorpius o esperava.

Scorpius caminhava trôpegamente pelo caminho lamacento da vila. Al e ele haviam passado a tarde no Cabeça de Javali e apesar do amigo só ter bebido uma cerveja de manteiga, Scorpius ingerira repetidos goles de licor, o que provavelmente poderia explicar o porquê do caminho estar constantemente a desviar-se dos seus pés.

Não se lembrava exactamente de tudo o que acontecera naquela tarde, mas se havia algo que não conseguia esquecer era o olhar de preocupação do amigo. Este tentara, repetidamente, pará-lo de continuar a beber, e recorrendo a todo o tipo de ameaças, desde escrever à sua mãe a roubar-lhe a vassoura, acabara por desistir e saíra a correr para procurar Charles ou outro amigo de Scorpius para o ajudar a levá-lo de volta para o castelo. Ao ver o Gryffindor sair, apressara-se, apesar de atabalhoadamente, a pagar a conta e a sair também: não lhe apetecia ter uma ama a cuidar dele e da sua bebedeira e se havia algo que não queria ver naquele momento era alguém que pudesse estar remotamente ligado a Rose! Nem mesmo o feiticeiro que poderia ter passado por ela na última visita!

E por isso, dera consigo a afastar-se cada vez mais dos jardinzinhos bem aparados e das luzes das lojas, em direcção a uma zona mais sombria. Ele nunca fora até àquela parte da vila, muito mais selvagem do que o delicado centro habitacional. E sem Al que, provavelmente, ainda procurava um outro idiota para o tentarem obrigar a voltar, para o dissuadir, continuou em frente, ou pelo menos, tão em frente quanto a bebedeira e o terreno acidentado lhe permitiam. As silvas, tornando-se cada vez mais densas, impediam-no de ver onde punha os pés e tropeçara inúmeras vezes em raízes salientes e buracos. Até que, renunciando à sua consciência, que apesar de entorpecida pelo álcool lhe ordenava que voltasse para o castelo, Scorpius se aproximara de uma íngreme encosta. Ao longe podia ouvir as vozes de Al e de Charles, a chamá-lo, ("Finalmente Al encontrara alguém!") mas ignorando-as, observou a descida a seus pés. Não era idiota e não estava suficientemente bêbado para julgar poder voar e por isso, voltara costas à descida e preparava-se para se encaminhar em direcção aos amigos, quando sentiu algo a puxar-lhe o manto. Olhando para trás, viu que este ficara fortemente enredado numa silva e puxando com força, ouviu o tecido rasgar, mas nesse momento, ao dar um passo atrás, o seu pé encontrou ar e não chão sólido. Se estivesse sóbrio, provavelmente teria conseguido reequilibrar-se, mas começara a abanar os braços, como as velas de um moinho de vento e sentiu o seu corpo cair em direcção ao vazio. Ao cair, ouviu um grito estranho e agudo, e foi com espanto que se apercebeu de ter sido seu. Podia sentir a velocidade a aumentar cada vez mais e o seu último pensamento, antes de tudo se dissolver num vazio negro e infinito, era de que deveria ter aproveitado aquele dia dos namorados com Rose e de que mataria Al, nem que para isso tivesse de voltar dos mortos.

Rose passara o dia fechada no dormitório, para não variar dos outros dias, mas apesar da dor de cabeça e de estômago ter amainado ao ingerir algo mais do que tinha nos últimos dias, o aperto no peito não diminuía. Era como se uma nuvem negra se tivesse abatido sobre ela, como um prenúncio de tempestade...

Muito depois da hora de jantar, Maria e Jessica regressaram ao dormitório e reparando nos cortinados abertos de Rose, aproximaram-se.

- Como estás, miúda? - perguntou Maria, sentando-se na borda da cama e observando Rose, com uma ruga de preocupação.

- Melhor, mas sinto um peso no peito estranho, como um mau pressentimento - confessou Rose. Não acreditava muito nessa conversa de pressentimentos, mas não conhecia outra forma de tentar descrever aquela sensação. No entanto, ao ver as colegas trocarem um olhar sério, questionou-as imediatamente sobre o que significava.

- Bem, é que realmente hoje aconteceu algo de mau, em Hogsmeade... - começou Maria e Rose sentiu o aperto aumentar.

- Aparentemente, o teu primo e o Malfoy passaram a tarde no Cabeça de Javali e digamos que o Malfoy apanhou uma piela...

- E isso foi o que aconteceu de mau? - interrompeu Rose, sorrindo aliviada.

- Não... Parece que o Malfoy se foi embora sozinho ou o teu primo deixou-o para ir buscar alguém para o levar... bom, a verdade é que ele se pôs a cirandar pelas fronteiras da vila e tu sabes como existem alguns desfiladeiros perigosos - a cada palavra de Jessica, o coração de Rose ia ficando mais pesado, enquanto a sua respiração vinha em fôlegos ofegantes e dolorosos, esforçando-se para abandonar os lábios horrorizados - e ele caiu num deles. Foi o Al e aquele moreno grandalhão dos Slytherin, acho que se chama Charles Xavier, que o encontraram e chamaram ajuda... - Jessica interrompeu a sua narrativa, ao ver que Rose saltava da cama e se afastava com um "Vou ver o Al", a toda a velocidade.

Não, não podia ser. Ele não se podia ter magoado a sério, era so um arranhão, só isso! Mas Rose sabia quão altas poderiam ser as quedas e que as consequências dessas poderiam ser fatais. Não podes pensar assim, Rose Dora Weasley! Ele é forte e com todos os jogos de Quidditch está habituado a cair e a levar com bludgers...

Nunca o caminho até à ala hospitalar lhe parecera tão comprido e difícil como naqueles poucos minutos. Sabia que não poderia andar pelos corredores àquela hora, mas estava-se a lixar para que pudesse ser apanhada ou não. A única coisa que lhe interessava era ver Scorpius!

Ao chegar à ala hospitalar, deparou-se com a enfermeira, a fechar a porta. Esta olhou-a, surpreendida, de olhos incrivelmente vermelhos, como se estivesse estado a chorar e o coração de Rose parou. Sem dar tempo à mulher de fazer qualquer comentário, Rose, abruptamente, perguntou-lhe:

- Onde está o Scorpius Malfoy?

- Minha querida, vieste tarde demais...