Lamento pelo final do outro capítulo, mas tinha mesmo de ser… Mas agora, sem mais demoras, a continuação do drama de Rose…

Culpa

Rose sentiu como se os seus pulmões tivessem sido perfurados duma forma extremamente dolorosa. Olhou para a enfermeira, que aparentemente continuava a falar, mas Rose não conseguia ouvir nada: era como se tivesse enfiado algodão nos ouvidos. Sentia-se isolada do ambiente em redor e quando a enfermeira estendeu a mão para lhe tocar, deu um passo atrás e desatou a correr.

" A culpa é toda minha, devia tê-lo ouvido, deixado explicar-se. Se não fosse eu ser uma cabra idiota e estúpida, poderiamos ter estado juntos e ele não teria caído e não teria..." A mente de Rose encontrava-se num turbilhão de emoções, as lágrimas jorravam como uma cascata e continuava a correr, sem olhar para onde ia, até que embateu em algo e caiu para trás. Afastou o cabelo dos olhos e abriu a boca para pedir desculpa, quando as palavras lhe ficaram presas na garganta. Em toda a sua gloriosa vivacidade, à sua frente, como se não tivesse qualquer preocupação no mundo, encontrava-se Scorpius Malfoy.

"Pronto, pirei de vez!", pensou Rose e desatou a chorar ainda mais.

- Porque é que estás a uivar? - perguntou Scorpius, confuso e chocado.

"Uau, até a voz é igual! Pelo menos a minha imaginação tem uma grande capacidade", pensou Rose e ao sentir o toque da mão dele no seu ombro, um flash de realização passou pela sua mente.

- Tu não estas morto, pois não?

- Não - afirmou Scorpius, enquanto uma expressão de compreensão lhe passava pelo rosto.

Então Rose levantou-se subitamente e começou a bater com os punhos no peito de Scorpius.

- És um idiota! Porque é que andaste a beber e foste passear para os penhascos? Eu pensei que tinhas morrido! És um parvalhão! Que ideia estúpida de apanhares uma bebedeira e se te tivesses magoado a sério? E se... - então Rose tomou noção do que estava a dizer e lançando os braços em torno do pescoço dele, começou a soluçar violentamente - Eu s-sou uma cabra, uma idio-ota, uma a-anormal, não era de estranhar q-que quisesses acabar co-comigo. Acusei-te s-sem provas e e-ela podia sim-simplesmente ter-te confundido ou da-dado uma poção, mas depois eu tive m-medo e não fui f-falar contigo e... - mas o resto tornou-se incompreensível quando Rose enterrou a cara no manto dele.

Scorpius estava tão chocado com a explosão de Rose que continuava a olhá-la com a mesma expressão aparvalhada.

Rose afastou a face para o olhar e ao ver a expressão dele, foi como se um punho tivesse agarrado as suas entranhas e as torcesse.

- Desculpa, não vou voltar a incomodar-te - e começou a afastar-se dele.

Quando Scorpiu finalmente tomou noção do que se passava, agarrou o pulso de Rose e puxou-a novamente contra si, enterrando a face no seu cabelo revolto. Esta apertou os braços em torno do seu pescoço, enquanto se sentia a ser levantada do chão. Rodeou a cintura de Scorpius com as pernas, quando este começou a caminhar e fechou os olhos, sentindo o fardo dos últimos dias a pesar-lhe sobre as pálpebras.

- Rose, acorda!

Os seus olhos tremeram e abriram-se ao som daquela voz. Era doce e não fria como a última vez que a ouvira.

- Scorpius! - exclamou Rose, ao vê-lo debruçado sobre si. Este sorriu-lhe e deitou-se a seu lado.

Rose olhou em redor e viu que estavam na sala dos requerimentos, deitados num enorme e confortável sofá de pele carmesim.

- Scorpius, por favor perd... - Scorpius colocar um dedo sobre os lábios de Rose para a impedir de continuar.

- Somos os dois culpados do que aconteceu. Tu não deverias ter desconfiado de mim e eu não devia ter dito aquelas coisas idiotas - afirmou ele - Bem sei que aquilo que viste, se fosse no meu caso, me faria ficar furioso, mas tens de perceber que és a única rapariga para mim! Podes ter uma merda de um temperamento, podes ser sabichona, chata, mas és a minha sabichona e a minha chata!

- E não te esqueças que o teu temperamento também não é nada fácil - retorquiu ela, sorrindo.

- Mau, era a minha vez de falar. A menina não sabe que não se deve interromper os superiores? - Scorpius disse isso com uma expressão tão séria, que Rose não se conteve e desatou a rir às gargalhadas. Também ele começou a rir e quando finalmente pararam, suspiraram simultaneamente.

- Tinha saudades disto... - murmurou Rose, beijando o queixo de Scorpius, a parte mais superior a que conseguia chegar sem se mover - E tu? Já sentias falta desta chata sabichona?

Scorpius olhou-a directamente nos olhos e foi assaltado pelas memórias dos dias posteriores ao jogo.

Os seus colegas não sabiam como reagir ao verem a sua expressão à chegada ao dormitório: os seus olhos pareciam pertencer a um cadáver, estavam vazios e sem vida. Durante diversas noites não conseguiu adormecer, brincando com o anel e o colar que ela lhe oferecera, e durante o dia tentava esconder o seu estado de espírito rindo de piadas de forma muito mais exuberante do que o normal, quando na verdade, só queria chorar. Mas ele não diria isso a Rose, não queria ver novamente aquele desespero de culpa em que a encontrara.

- Claro que sim, porque achas que ia jantar e almoçar ao mesmo tempo que tu? - perguntou ele.

- Ias ao mesmo tempo? - repetiu Rose, apercebendo-se de que evitara olhar, inconscientemente, para a mesa dos Slytherin, com receio de encarar Scorpius.

Ele sorriu-lhe de forma compreensiva e baixou a cabeça para a beijar. Nunca um beijo fora tão doce e nunca ele amaldiçoara tanto a incapacidade humana de suster a respiração indefinidamente.

- Scorpius! - exclamou Rose, subitamente, fazendo-o pular.

- Que foi?

- Que idiotice foi essa de te andares a embebedar? – questionou ela, de forma grave.

- Com tudo o que te podias lembrar de dizer, tiveste mesmo de me fazer recordar esse momento vergonhoso? Na verdade, tens de agradecer ao teu primo, foi ele que teve a ideia...

- Podias ter-te magoado a sério ou m... ou pior! Eu vou dar cabo daquele idiotazinho! - vociferou Rose, fazendo tenções de se levantar.

Scorpius segurou-lhe os braços e impediu-a de se afastar dele.

- Rose, na verdade devias mesmo agradecer-lhe. Se não fosse toda essa trapalhada, não estariamos aqui, juntos... - afirmou Scorpius, fazendo jus às suas palavras e segurando-a mais contra si.

Rose adquiriu um expressão pensativa e acabou por anuir, apesar de um pouco contrafeita. Não gostava sequer de imaginar o que poderia ter acontecido caso Scorpius não tivesse sido encontrado.

- Scor, como foi que te encontraram? - perguntou Rose, curiosa.

- O Al já andava à minha procura com o Charles, para me trazerem de volta, quando ouviram um grito e acorreram à espera de me encontrarem a vomitar ou algo do género. Quando viram o que tinha acontecido, levitaram-me e trouxeram-me para o castelo e pronto!

- Mas isso não seria perigoso? Poderiam ter agravado o teu estado...

- Eles não queriam deixar-me sozinho e correr de regresso ao castelo, o sítio mais próximo onde havia alguém treinado com conhecimentos curativos; levaria demasiado tempo, mas se te deixa mais descansada, quando acordei e a Madame Pomfrey me contou isto tudo assegurou que eles foram muito gentis - afirmou Scopius, com um sorriso - E tu? Como descobriste a minha funesta aventura?

Rose apressou-se a explicar tudo desde o momento em que falara com Maria e Jessica ao seu encontro.

- Então foi por isso que ao princípio pensaste que estava morto?

- Pois, talvez devesse ter ouvido tudo o que a Madame Pomfrey disse, em vez de ficar imediatamente em estado de choque... - disse Rose, envergonhada – Ou então ela não deveria ter olhos de choro…

No entanto, apesar da voz de Rose demonstrar que esta estava chateada com a sua reacção despropositada, Scorpius sentia-se estranhamente orgulhoso em ter despertado tais demonstrações em Rose.

- Sim, eu fui testemunha das suas lágrimas, mas não fui o causador – informou Scorpius e vendo o ar confuso da rapariga, apressou-se a explicar – A Madame Pomfrey é fã de uma rubrica da rádio em que se dedicam poemas pirosos e acho que um deles foi demais para ela. Quando me mandou embora estava a suspirar por um qualquer Dean…

Rose riu, com vontade, mas foi quase imediatamente interrompida pelos lábios de Scorpius que se lhe colaram aos seus. Passava com as mãos pelos seus cabelos e só a muito custo conseguia reprimir as lágrimas de cada vez que se lembrava do que poderia ter acontecido.

- Oh, já me esquecia! – exclamou Scorpius, subitamente, após alguns minutos de silêncio, e beijando Rose, acrescentou – Feliz Dia dos Namorados!

Rose sorriu e fechou os olhos, deitando a cabeça sobre o peito dele e desfrutando daquele momento pacífico.

Quando, a meio da madrugada, finalmente se separaram, ao caminharem para as respectivas salas comuns sentiam que um enorme peso lhes havia sido retirado de cima, e apesar de saberem que estavam bem, tinham a noção de que nem tudo poderia ter corrido pelo melhor. Sabiam que a confiança era algo que devia ser trabalhada e tendo em conta os seus temperamentos vincados teria de ser, antes de mais nada, amplamente temperada com uma dose de paciência. Rose sabia isso, mas também sabia que quando visse Al novamente o esmurraria e depois o abraçaria e se Anita Elliot se voltasse a intrometer no seu caminho e no de Scorpius, seria muito bom para si e muito mau para ela.