Já que hoje é o meu dia de aniversário, decidi dar-vos um pequeno presente! Aproveitem!


Normalidade

Scorpius sabia que os seus pais quereriam falar com ele em privado, por isso, ao chegar com Al à grande escadaria, deixou o amigo ir treinar Quidditch e decidiu esperar por eles. Revia mentalmente a conversa que tivera com o rapaz.

- Eu sabia! - exclamou o jovem Potter, dando um murro no ar, assim que sentiu a porta fechar-se.

Scorpius ignorou-o durante toda a descida.

- Isso explica o monstro... - murmurou Al, fazendo Scorpius erguer as sobrancelhas.

Haviam ambos chegado ao fim da escada em caracol, onde a sua conversa não poderia ser ouvida pelo grupo no gabinete da directora.

- O gato da Rose adora-te - explicou Albus perante a expressão do companheiro - Ele não gosta de mais ninguém, com excepção da minha prima...

- Sim e que quer isso dizer? - perguntou Scorpius, fingindo-se confuso.

- Scorpius, por favor, não insultes a minha inteligência mais do que tens feito - retorquiu Albus e de repente desatou a rir à gargalhada - Espera só até o meu tio Ron saber! Oh! Estás tão morto!

- Vais dizer-lhe? - perguntou Scorpius, sem pensar.

- Ah! Então sempre tinha razão! - exclamou Al, de forma dramática, apontando um dedo ao amigo.

Scorpius revirou os olhos e suspirou - Tu já sabias que tinhas razão, porquê o dramatismo?

- Magoas-me profundamente, caro amigo... tu e aquela traidora! A esconderem-me algo deste tipo! Ah! Mas eu fui mais esperto que vocês! Ao Albus Potter não conseguem enganar!

- Al, estás a falar na terceira pessoa e a fazer pouco ou nenhum sentido... - comentou Scorpius, fazendo o amigo dar-lhe um murro no ombro.

- Sabes, continua com esse tipo de conversa e não serei o vosso advogado de defesa quando o dragão sair do saco! - afirmou Al - Afinal, eu sou o preferido do tio Ron...

- Pensava que era a Lily... - retorquiu Scorpius, rindo ironicamente.

- Idiota!

- Mas agora a sério, nós não te contámos, não por não confiarmos em ti, mas para não teres tu também de andar com esse segredo... Que diria a mãe da Rose se soubesse que ela te tinha contado a ti e não a ela?

Al mexeu os pés, envergonhado - Pois, tens razão...

- E além disso, se te tivessemos contado e a nossa relação não tivesse dado em nada? Ficarias do lado de quem? Assim, através da tua ignorância não serias obrigado a escolher um lado...

Al anuiu, pensativo, mas ao olhar para o relógio, deu um salto e desatou a correr, escadaria abaixo.

- Treino de Quidditch... James mata-me... Depois falamos! - berrou ele, enquanto desaparecia através das enormes portas de carvalho.

Quando, finalmente, surgiram por entre as sombras dos corredores, parecia que a sua mãe vinha a dar um sermão ao seu pai, que a escutava atentamente. No entanto, ao depararem-se com o filho, correram a abraçá-lo, demonstrando um carinho familiar que tinham ocultado na presença dos outros.

- Scorpius, ficámos tão preocupados com a carta da McGonagall! Andares a beber! Podias ter morrido! - guinchou Astoria, perdendo toda a compostura, enquanto o apertava contra si.

- Nós ouvimos a tua explicação - interrompeu Draco, ao ver que o filho se preparava para dizer algo - Mas nada te devia levar a esse extremo - e por sua vez, também ele afogou o filho num abraço, resgantando-o de uma análise escrutinosa da mãe.

- Trataram bem de ti? Já comeste hoje? - questionava ela repetidamente - Pareces pálido! Nem sabes o quanto me contive para não dar um par de estaladas àquelas duas pirralhas!

- Eu vou ter uma conversinha com os pais delas... - asseverou Draco, numa voz ameaçadora.

- Não! - exclamou Scorpius, afastando-se dos pais para olhar bem para eles - Não quero que dês estaladas a ninguem - olhou para a mãe - nem que fales com os pais de ninguém; - e para o pai - é a minha vida e tenho de ter a capacidade de me defender! Não são voces que estão sempre a dizer que um Malfoy não pode esperar a ajuda de ninguém, porque o mais provável é morrer antes? Então, deixem-me seguir esse lema e tratar dos meus problemas sozinhos! Já não sou uma criança e por isso não posso correr para o vosso colo a cada contrariedade! - Scorpius calou-se, espantado por ver os olhos da mãe marejados de lágrimas e um sorriso orgulhoso no rosto do pai.

- No dia de Natal, em que colocaste o bem-estar do teu avô à frente do teu comecei a ver que já não eras o meu rapaz e agora mais do que nunca vejo que tornaste um homem, muito mais cedo do que eu, o que é algo de que me arrependo, mas... Estou muito feliz por nos teres dito isso... - Draco deu uma palmada acolhedora no ombro do filho, quando uma voz se fez ouvir ali perto.

- Malfoy! - viraram-se os três e Scorpius deparou-se com Rose que se aproximava deles.

- Bom dia, Mr. e Mrs. Malfoy - saudou Rose, e Scorpius não pode deixar de notar a rigidez dos seus ombros quando o olhar de Draco caiu sobre ela.

- Bom dia - retoquiu Astoria, enquanto Draco fazia um gesto com a cabeça.

- Malfoy, viste o Albus? Estou farta de andar à procura dele! - perguntou ela, virando-se para Scorpius.

- Foi jogar Quidditch, acho que o Potter tinha marcado um treino ou algo do género - informou Scorpius. Rose agradeceu e apressou-se a descer as escadas e a sair para os campos.

- É a filha do Weasley e da Granger, certo? - questionou Draco. Scorpius anuiu - Realmente é parecida com eles - e algo na voz do pai, fez Scorpius pensar que isso não era um elogio.

- Pareceu-me uma rapariga muito educada - retorquiu Astoria, e o filho não pôde deixar de reparar que esta apertava mais do que o normal o braço do pai, como que a contê-lo de fazer mais comentários.

Mas também eles, tal como Al, ao olharem para o relógio, deram um salto e despedindo-se do filho com apertados abraços que o deixaram envergonhado e sem ar, dirigiram-se às enormes portas de entrada.


- Elise! - chamou Astoria, ao chegar a casa. A filha veio a correr dos andares superiores e recebendo um leve beijo da mãe, olhou-a fixamente.

- O Scorpius meteu-se numa alhada, não foi? - perguntou ela, com toda a calma.

- Se algum dia fizeres o que ele fez, deserdo-te! - afirmou Draco, olhando-a fixamente.

- Que injusto! A ele não o deserdaram!

- Elise - interrompeu a mãe, ao ver a filha abrir novamente a boca para continuar a retaliar - Sabias que o teu irmão tinha uma namorada?

- Claro que sim - afirmou Elise, num tom inocente - Não reparaste que a caixa de música da avó Greengrass desapareceu do quarto dele?

Astoria e Draco ficaram a olhar para a filha com um ar vago, enquanto as memórias de tal presente lhes regressavam à mente.

A avó Greengrass, mãe de Astoria, era uma mulher imponente, cuja presença se fazia sentir sempre que entrava numa qualquer divisão. Quando os netos nasceram, a sua longa cascata de cabelo castanho arruivado ja estava parcialmente prateado e fora sempre com esse aspecto que as criancas a haviam conhecido. Como tradição da família Greengrass era passada uma pequena caixa de música aos membros do sexo masculino. Caso em alguma geração não houvesse rapazes, como fora a de Astoria, a herança seria dada ao rapaz mais velho da geração seguinte e apenas se os actuais possuidores da caixa morressem antes do nascimento de tal rapaz, teriam as raparigas direito a esta. Isto porque, a caixa de música deveria ser entregue pelo rapaz à rapariga que conquistasse o seu coração, como prova de tal afecto.

Astoria anuiu, recordando o dia em que a mãe dera a Scorpius o pequeno objecto. O rapaz tinha acabado de receber a carta de Hogwarts e a sua avó não andava bem de saúde. Então, numa das suas últimas visitas e com as mãos trémulas e enrugadas depositara o objecto nas mãos expectantes do menino.

Astoria podia ver, como se tivesse sido ontem, a cara um pouco decepcionada do filho ao ver do que tratava. Mas, escondendo tal sentimento da avó que adorava, agradeceu-lhe repetidamente.

- A rapariga devia ser mesmo especial... - comentou Astoria, pensativa.

Draco anuiu, sem se conseguir livrar de um vago sentimento de irritação. Nao sabia porquê, pois não se recordava do aspecto da caixa, mas algo lhe dizia que havia qualquer coisa que o irritava profundamente em tal objecto.

Elise, satisfeita pela sua participação na demanda dos pais, afastou-se em direcção à escadaria que levava aos andares superiores.


- Rose... - murmurou Scorpius, de repente, chamando-lhe a atenção. Ambos estavam na sua caverna, a terminar os trabalhos do fim de semana. Esta afastou os olhos do livro de encantamentos e fixou-os nele.

- Odeias o meu pai? – perguntou ele, de chofre.

Scorpius sabia que a namorada tinha conhecimento dos actos do seu pai enquanto adolescente e perdera a conta às vezes que ela lhe dissera que ele era totalmente diferente dele. Então, se ela para o fazer sentir melhor lhe apontava as diferenças entre ele e o pai, poderia siginficar que o ódio que Scorpius pensara que Rose poderia ter por ele por ser um Malfoy, se manifestava em relação ao seu pai? Desde o momento que vira a forma como Rose e Draco se comportavam perto um do outro fora atacado por essas dúvidas.

Rose demorou algum tempo a responder.

- Sim e não...

Scorpius olhou-a de sobrancelhas arqueadas, à espera de uma clarificaçãoo.

- Odeio aquilo que ele fez à minha familia e odeio-o por ter sido um apoiante do Voldemort, mas não o consigo odiar, pois se não fosse ele tu não estarias aqui... Faço algum sentido? – perguntou ela, olhando-o com uma expressão de dúvida.

Scorpius anuiu. Ele podia compreender a posição de Rose. Ser-lhe-ia extremamente dificil aceitar se os pais dela tivessem magoado os seus, ainda que guiados por ideais errados. Mas poderia ele odiar os responsáveis pela melhor coisa que tinha na vida? Seria capaz de afastar Rose dos pais dela só para não ter de lidar com eles? Scorpius sabia a resposta a essas perguntas e também sabia a de Rose. Por isso ela fora cumprimentar os seus pais sabendo de antemão que o mais provável era ser tratada com frieza e por isso não fizera qualquer comentario maldoso a Draco, do género que o rapaz sabia bem ela ser capaz. Ela amava-o e exactamente por essa razão não o afastaria dos pais dele, por mais que lhe fosse dificil aguentar o olhar escrutinador de Draco Malfoy.

- Desculpa ter perguntado, mas quando vi a forma como te comportaste perto dele...

- Ficaste com medo que não o convidasse para o casamento? - completou Rose e ao aperceber-se do que dissera corou profundamente, pigarreou e voltou a olhar fixamente para o livro.

Scorpius foi apanhado de surpresa, no entanto, ficou agradavelmente surpreendido ao ver que Rose os via juntos durante um longo período de tempo e não foi capaz de controlar a sua imaginação antes desta lhe mostrar uma Rose mais velha, de vestido branco e de braço dado com o pai a aproximar-se dele; quase podia sentir o aroma das flores de laranjeira no ar e ouvir o riso de Albus a seu lado. Abanando a cabeça de repente, fez por se afastar de tais devaneios e tentou concentrar-se no trabalho presente.


O dia da prova de aparição aproximava-se a passos largos e Scorpius deu consigo e Albus a transpirarem e a tremerem de cada vez que alguém falava sobre o assunto. James, conhecendo o irmão, aproveitava para continuar a sua vingança depois da cena das fotografias. Tal como Al havia previsto, no dia do seu castigo bibliotecário, o irmão e Fred apareceram a bambolear-se na biblioteca, com as mãos nos bolsos e sorrisos matreiros. No entanto, a Madame Pince, farta das partidas daqueles dois e apercebendo-se das suas verdadeiras intenções expulsara-os antes destes poderem dizer ou fazer qualquer coisa. E visto esse plano ter dado para o torto, James divertia-se agora a ver o ar exasperado do irmão a contorcer-se em concentração para se lembrar dos 3 D's e só parou de rir quando Rose o ameaçou com uma praga.

O dia em Hogsmeade estava nublado, a neve há muito que deixara de cair, mas o frio ainda se fazia sentir e foi agasalhados com cachecóis e luvas que os alunos do sexto ano com idade para realizarem o exame chegaram à vila. Albus repetia tudo o que a prima dizia e até a cara de Scorpius estava mais pálida que o habitual.

Quando o examinador começou a chamá-los, por ordem alfabética, Rose viu-se a ser deixada para os últimos e sem saber como o namorado e o primo se haviam saído, roía a unhas, enervada.

- Miss Weasley! - chamou uma voz imperante e Rose caminhou em frente, aproximando-se do examinador.

Quando este a informou do sítio onde devia aparecer, Rose sorriu internamente. Era o local onde se encontrara com Scorpius no seu primeiro encontro juntos. Podia vê-lo perfeitamente, à sua espera de braços abertos, pronto a parabenizá-la, rodeado por aquelas paredes e com uma volta, sentiu a compressão por curtos momentos e quando voltou a respirar e abriu os olhos viu que estava exactamente à frente do beco, com um outro examinador a seu lado. Este observou-a fixamente, em busca de quaisquer partes em falta, mas não achando nada que criticar acenou afirmativamente, perante o enorme sorriso da rapariga. Esta correu para o grupo de outros alunos que já tinham feito o exame e ao ver tanto Al como Scorpius com sorrisos que rivalizavam com o seu, abriu os braços e apertou-os contra si, fazendo com que as cabecas dos dois rapazes batessem uma na outra.

- Au! - queixaram-se em simultâneo, o que fez com que Rose os apertasse mais, enquanto ria deliciada.

- Ah! Quero ver a cara do James quando lhe disser que passei! - exclamou Al, dando um murro no ar, enquanto se dirigia para o Três Vassouras com os amigos para festejar.

- Provavelmente vai dizer que é apenas uma prova de que és mesmo irmão dele - comentou Scorp, abrindo a porta para Al e Rose passarem.

- Sim, mas vai ficar intimamente satisfeito com a tua conquista - concluiu Rose, serenamente. Ambos os rapazes olharam para ela e desataram a rir à gargalhada - Acreditem! - afirmou ela - É uma coisa de irmãos mais velhos!

Scorpius olhou-a com descrença - Se a minha irmã tivesse feito algo do género e eu não lhe dissesse nada, provavelmente rogava-me uma praga.

- Tu não tens jeito para ser irmão mais velho - disse Al, numa voz que lembrava incrivelmente a de Rose. Esta semicerrou os olhos e lançou-lhe um olhar negro que o fez sorrir nervosamente e recuar na cadeira.

- Claro que sei e a Rose também - apressou-se Scorpius a dizer, sendo brindado com um sorriso da parte de Rose e um tossicar semelhante a "Pau-mandado" da parte de Albus.

- Oh! - exclamou subitamente Scorpius, fazendo os amigos saltarem - Não adivinham o que ouvi esta manhã na sala comum! Aquelas gajas - e pelo tom dele Rose e Albus não precisavam de perguntar a quem se referia - tiveram finalmente o castigo merecido!

- Conta! Conta! - pediu Rose, quase aos saltos na cadeira, o que lhe ganhou um olhar estranho por parte do namorado e do primo.

- O Gillian vai obrigá-las a ficar todos os dias depois das aulas acabarem a limpar as masmorras, sem magia, e para além disso vão ter de limpar os caldeirões de todos os alunos, que irão ser devidamente avisados em todas as aulas para não fazerem desaparecer as suas poções. De acordo com o professor "Vamos lá a ver se elas perdem o gosto pelas poções". E parece que a visita dos pais delas à escola não foi nem um pouco agradável... - concluiu Scorpius com ar vingativo. Albus e Rose sorriram-lhe conspiratoriamente. Realmente, a vingança sabia, por vezes, muito bem.

Ao regressarem a Hogwarts naquele dia, o humor dos três jovens não podia ser mais diferente daquele que imperava pela manhã e nem mesmo as palmadinhas condescendentes de James nas costas de Albus podia diminuir a sua boa disposição.

Parecia que finalmente a vida em Hogwarts tinha voltado a entrar nos trilhos.


Em principio já só faltam três capítulos! O momento-chave aproxima-se!