Título: Um Lugar Para Recomeçar
Gênero: Padackles / J2
Autora: Mary Spn
Beta: Eu mesma! Os erros são todos meus. Mas a TaXXTi me ajuda a aprovar os capítulos (minha pseudo-beta relâmpago! rsrs).
Avisos: Contém cenas de relação homossexual entre dois homens. Não gosta, não leia!
Sinopse: Dois homens feridos pelo passado. Enquanto um deles está disposto a recomeçar, tudo o que o outro quer é fugir. Estariam destinados a curar as feridas um do outro ou a machucarem-se ainda mais?
Um Lugar Para Recomeçar
Capítulo 4
Ao retornar, Jensen deixou o barco no Clube Náutico, fez o registro e os deixou responsáveis por ele, algo que facilitaria sua vida por ali.
Não que cogitasse a idéia de voltar à maldita ilha, mas de repente poderia querer passear, ou quem sabe até pescar.
O loiro teve que rir com o pensamento. A quem estava querendo enganar? Nunca gostou de pescar e não seria agora que passaria a gostar.
O que tinha vontade mesmo era de voltar para aquela ilha e socar o maldito homem das cavernas até ver o sangue escorrendo por sua face. Talvez não chegasse a tanto, mas sentia o seu orgulho ferido e a sede de vingança falava mais alto nessas horas.
Também não conseguia entender por que a opinião de Jared sobre ele o incomodava tanto. Poderia simplesmente esquecer, deixar para lá. Afinal de contas, Jared não era ninguém. Mas o seu cérebro às vezes lhe pregava peças, quando se dava conta, estava pensando naquele monumento de olhos verdes e cabelos sedosos novamente.
Na verdade nem sabia se os cabelos dele eram sedosos. Mas sentia uma vontade incontrolável de descobrir.
Felizmente tinha feito a coisa certa. Por maior que fosse a sua curiosidade a respeito daquele homem, não iria ficar insistindo. Jared tinha deixado bem claro que não era bem vindo por lá.
Já no chalé, Jensen foi até a varanda. Já estava escurecendo e o ventinho frio o fez arrepiar-se. Olhou em direção ao farol e lembrou-se que Jared o espionara com o binóculo, se divertindo às suas custas enquanto se matava para colocar o barco na água. Sua raiva do moreno só aumentou com a lembrança.
Decidiu que era melhor mesmo esquecê-lo e voltou para dentro do chalé. Tomou um banho demorado e depois preparou macarrão à carbonara, seu preferido. Sentou-se sobre o tapete, diante da lareira, com o prato sobre a mesinha de centro e uma taça de vinho.
Jensen não gostava da solidão. Gostava de jantar acompanhado, com uma boa música, um bom vinho. Gostava de ficar conversando até madrugada, quando era vencido pelo sono. Gostava de ouvir seu companheiro ler trechos dos seus livros e de lembrar o momento em que os escreveu. Gostava de deitar a cabeça em seu peito e deixar-se abraçar, sentindo o calor do corpo do outro.
As lágrimas rolaram por sua face enquanto pensava nisso. No quanto tinha sido feliz. Era um homem realizado, tanto na vida profissional quanto pessoal. Mas de repente tudo tinha acabado. Sua felicidade fora arrancada sem que estivesse preparado para isso. E a partir dali tudo desandou...
Como poderia escrever romances, sendo que já não era amado? Como poderia pintar sem ter o brilho dos olhos de alguém que amava para avaliar seu trabalho? Não, não conseguiria mais... Jamais voltaria a ser o que era e talvez tivesse que dar um novo rumo em sua vida.
Tinha se deixado levar pelos encantos do chalé, da ilha, pensando que isso pudesse resgatar sua inspiração, sua capacidade de escrever ou de pintar.
Claro que não podia negar que o lugar lhe trazia paz, o fazia sentir-se bem, mas não poderia mais enganar a si mesmo. Não seria a bela paisagem que traria a sua vida de volta. Aquele enorme vazio, aquele buraco em seu peito que o sufocava todas as noites era o responsável pelo seu fracasso. E sabia que enquanto este vazio não fosse preenchido, nada seria como antes.
Jensen estava perdido em seus pensamentos quando ouviu o toque do seu celular. Era a primeira vez que tocava desde que chegara ao chalé.
- Hey Misha! Já está morrendo de saudades? – Ao ver que era o amigo, Jensen atendeu com uma animação forçada.
- Eu estou na sua casa, Jensen.
- Está? Aconteceu alguma coisa? – O loiro estranhou.
- Aconteceu... Eu não estou encontrando o seu laptop. Imagino que isso queira dizer que...
- Sim, ele está aqui comigo.
- O que nós combinamos, Jensen? Descansar, você deveria descansar! - Misha parecia mesmo aborrecido.
- Misha, eu sei que você não vai entender, mas... Cara, eu precisava trazê-lo! Mas eu juro que ele está guardado dentro do closet, eu nem sequer toquei nele - Jensen mentiu, pois o tinha bem na sua frente, era uma espécie de vício do qual não conseguia se livrar.
- Eu vou fazer de conta que acredito. Como vão as coisas por aí? Você está se divertindo?
- Muito! - Jensen respondeu rápido demais.
- Jensen? – O moreno o conhecia como ninguém mais, não adiantaria tentar mentir para ele.
- O lugar aqui é incrível, Misha. O chalé é super aconchegante, na beira do mar. Há alguns quilômetros daqui tem uma pequena ilha, com um farol.
- É mesmo? Tem um farol? - Misha tinha um ar de deboche nas palavras - O que é bem compreensível se você vai à Praia do Farol, não é?
- É, parece um pouco óbvio, não é? - Jensen falou sem graça - Eu fui até lá, tem um barco aqui no chalé.
- Sozinho?
- Eu não sou mais uma criança, não sei se você já percebeu.
- Jensen, como é que você vai a um lugar desses, praticamente no fim do mundo, sem ter alguém pra te acompanhar? Por que não pegou um guia turístico ou algo assim?
- Porque nós estamos no inverno. E não existe uma alma penada por aqui neste período.
- Então, o que tinha na ilha? Além do farol, eu quero dizer.
- Pedras, areia, algumas árvores, uma prainha maravilhosa... E um faroleiro gostoso de quase dois metros de altura.
- Espera, você está me dizendo que tirou o atraso de um ano, fazendo sexo selvagem com um faroleiro que você nem conhece?
- Não! Quero dizer, bem que eu gostaria, mas...
- Mas?
- Digamos que, além de ser quase um neardental, ele não joga no meu time e deixou isso bem claro - Jensen não conseguia esconder a mágoa na voz.
- Talvez seja melhor você ficar longe desse tipo de gente, Jensen. Se ele vive em um lugar assim, nunca se sabe, ele pode ser um assassino, um psicopata, sei lá. É melhor você não correr o risco, eu não quero ter que ir até aí para identificar o seu corpo, cara!
- Fica frio, Misha. Eu não vou mais voltar lá. Mas eu não sei, eu não consigo entendê-lo. É um enigma pra mim.
- Como assim?
- Ele não é má pessoa. O olhar dele não me engana. Eu não sei há quanto tempo ele vive lá, mas acho que tempo suficiente pra ter se desacostumado a lidar com as pessoas. Ou criou algum tipo de fobia, eu não sei.
- Eu gosto desta sua mania de analisar as pessoas, mas às vezes isso me dá medo.
- O interessante é... O que leva alguém a viver completamente sozinho em um lugar como aquele? Completamente isolado de tudo?
- Não sei, amigão. Infelizmente eu não tenho essa sua sensibilidade, eu sou péssimo em ler as pessoas. Mas, pensando bem... Bom, é melhor deixar pra lá.
- Fale de uma vez, Misha!
- Digamos que depois do acidente, se você tivesse a oportunidade de se isolar em uma ilha, você não o faria?
Jensen ficou pensativo por um tempo - É, eu acho que você tem razão.
- Desculpe-me por tocar no assunto, eu sei o quanto isso ainda te machuca, mas... A gente nunca sabe como as pessoas podem reagir diante de algumas situações. Algumas procuram ajuda, superam numa boa, outras preferem fugir, se esconder. Mas talvez ele seja só um psicopata mesmo. – Misha finalizou com uma brincadeira, tentando fazer Jensen se descontrair.
- Então acho que eu não preciso me preocupar – Jensen deu risadas voltando a falar sério em seguida – Se não fosse você me tirar do fundo do poço, Misha, eu estaria lá até agora. Não sei o que seria de mim sem você.
- Feliz? – Misha gargalhou – Para isso servem os amigos, Jensen. E depois, eu preciso dos seus livros pra vender, esqueceu?
Depois de desligar o telefone Jensen tomou alguns comprimidos para dormir e foi para a cama. Sabia que tentar dormir, tendo a cabeça tão cheia de dúvidas, seria tempo perdido. Ainda estava magoado e não queria mais pensar em Jared. Pelo menos não naquela noite.
Durante os três dias seguintes, Jensen aproveitou para ir à cidade e também para conhecer as outras praias da redondeza.
Fez compras de mantimentos na Mercearia Farol, comprou analgésicos na Farmácia do Farol, percebendo que naquela cidade, tudo o fazia lembrar o maldito farol.
Pensou em tomar uma cerveja para espairecer, procurou por um bar e finalmente encontrou um que não mencionava Farol em seu nome.
Sentou-se na banqueta em frente ao balcão e pediu primeiro uma dose de uísque, que bebeu quase em um gole só, sentindo-o queimar sua garganta. Depois pediu uma cerveja e ficou por ali, bebericando e observando as pessoas que estavam no local.
Haviam alguns pescadores, alguns homens que deveriam trabalhar na construção em frente, devido à roupa com a logo de uma construtora que vestiam, e uma prostituta se insinuando no lado oposto do bar.
A atendente, que estava com os cotovelos apoiados no balcão, o olhava fixamente, como que esperando uma oportunidade para lhe fazer perguntas.
Jensen resolveu puxar conversa, pois há dias não conversava com mais ninguém a não ser Misha e aquelas conversas estranhas e monossilábicas com Jared.
- Eu estou passando as férias por aqui e fiquei curioso, durante o verão, vem muita gente aqui visitar o farol? – Jensen se dirigiu à atendente.
- Não, poucos turistas aparecem por aqui. Mas por que o senhor escolheu esta praia para passar as férias? É tudo tão parado por aqui - A mulher aproveitou para perguntar.
- Eu vim em busca de descanso. Este lugar é exatamente o que eu preciso.
- E o senhor veio sozinho?
- Sim, sozinho.
- Se estiver precisando de companhia... - A prostituta se prontificou.
- Não, obrigado. Eu estou bem assim - Jensen tentou ser gentil.
- É uma pena. Mas se mudar de ideia, eu estou sempre por aqui.
- Tem um homem que trabalha lá no farol, ele é um tanto estranho, não é? - Jensen mudou rapidamente de assunto.
- Ele é um bom garoto, aparece por aqui uma ou duas vezes por mês, toma uma cerveja e vai embora. É muito calado, mas sempre muito gentil.
- Gentil? - Jensen estranhou.
- Sim, o pobrezinho deve ter uma cruz e tanto pra carregar, em quase dois anos, não o vi sorrir nenhuma vez.
- A senhora disse quase dois anos? Ele vive esse tempo todo sozinho naquela ilha?
- Sim, mas ninguém sabe muita coisa a seu respeito.
- A senhora sabe de onde ele veio?
- Não, ele nunca fala sobre si mesmo e se alguém faz perguntas, ele logo disfarça e foge do assunto.
- Você parece bem interessado no garotão, hein? - A prostituta se manifestou, tinha um sorriso debochado no rosto.
- E você? Sabe mais alguma coisa a respeito dele? - Jensen saiu da banqueta e se aproximou. Era uma loira bonita, na faixa dos vinte e cinco anos. Usava uma saia curtíssima, uma blusa vermelha decotada e maquiagem pesada, contrastando com a sua pele clara.
- Não muito. Mas ele já saiu com uma amiga minha que trabalha na cidade vizinha.
- É mesmo?
- Sim. Mas ele não contou nada a respeito da sua vida pessoal para ela. Ela só me disse que... Bom, que ele sabe como tratar uma mulher. Se é que você me entende.
- Você sabe se ele costuma levar mulheres pra ilha? - Jensen baixou o tom de voz para que ninguém mais ouvisse, já que a atendente do bar tinha ido servir uma mesa.
- Não que eu saiba. Ele mal sai de lá e está sempre sozinho. E ele também não parece o tipo que tem interesse por homens.
- Por que você está dizendo isso? - Jensen tentou disfarçar.
- Por nada não, baby. Eu ia te oferecer um pouco de diversão para esta noite, mas acho que você curte outro tipo de brinquedo, não é? - A loira sorriu e piscou.
- Eu... Eu preciso ir - Jensen pagou por sua bebida e foi embora sem dizer mais nada.
Depois de estacionar o carro na garagem do chalé, Jensen tirou os sapatos e foi fazer uma caminhada pela praia. Quando já tinha se afastado, parou para observar a paisagem. Uma angústia cresceu dentro do seu peito. Não podia desistir. Estava tão confiante nos primeiros dias, tão esperançoso, não podia simplesmente sentir pena de si mesmo e se entregar desta maneira.
Virou-se na direção da ilha com um sorriso em seus lábios. Sabia muito bem o que precisava fazer...
Continua...
**Joanna Beth, Cleia, Bia, lene e Elisete... Obrigada por suas reviews! É muito importante saber a opinião de vocês. Adorei cada uma! Beijos!
