Título: Um Lugar Para Recomeçar
Gênero: Padackles / J2
Autora: Mary Spn
Beta: Eu mesma! Os erros são todos meus.
Avisos: Contém cenas de relação homossexual entre dois homens. Não gosta, não leia!
Sinopse: Dois homens feridos pelo passado. Enquanto um deles está disposto a recomeçar, tudo o que o outro quer é fugir. Estariam destinados a curar as feridas um do outro ou a machucarem-se ainda mais?
Um Lugar Para Recomeçar
Capítulo 5
Jared sentiu um frio na barriga ao ver o pequeno barco se aproximando da ilha. Quando Jensen fora embora, há quatro dias, achou que o loiro não fosse mais voltar. Talvez estivesse vindo apenas para buscar os seus pertences.
Sim, provavelmente era só isso, por que outro motivo ele voltaria? - Jared pensou.
O moreno ajudou Jensen a arrastar o barco para cima da areia, o que fez Jensen estranhar a gentileza.
- Sentiu saudades? – Jensen perguntou com um sorriso, brincando.
- Pensei que você não fosse mais voltar – Jared falou com sinceridade.
- Eu não desistiria tão fácil. Hoje eu vim preparado! – Jensen ergueu uma mochila grande do barco.
- O que é isso? – Jared franziu o cenho.
- Barraca, mantimentos...
- Você não está pensando em...
- Eu vou dormir no meu canto, quietinho, você não vai ouvir nem a minha respiração, eu prometo!
Jared não disse nada, apenas ficou com uma expressão de incrédulo, o encarando por algum tempo, depois voltou para o farol.
- Pelo jeito as coisas não mudaram muito por aqui – Jensen falou para si mesmo e carregou suas coisas até a estufa.
Sabia que não iria conseguir pintar nada naquele dia, mas dois interesses o tinham trazido de volta àquela ilha, e apenas um deles tinha a ver com a pintura.
Jensen armou a barraca próxima à estufa, se assegurou de que tudo estava em perfeita ordem, então foi caminhar pela ilha.
Não encontrou Jared em lugar algum – não que o estivesse procurando – mas às vezes achava que o moreno tinha algum esconderijo secreto por ali.
Quando anoiteceu, o cheiro de peixe frito vindo do farol fez a barriga de Jensen roncar. Meio desanimado, o loiro tirou seu sanduíche da bolsa térmica e o comeu, sem muito apetite.
Ainda tinha a impressão, ou melhor, a certeza de que Jared o evitava. Isso só aumentava ainda mais a sua curiosidade para saber da sua história. Mas não podia se precipitar. Se quisesse conquistar a confiança do moreno teria que ter muita paciência. Não seria nada fácil derrubar aquele muro de pedras que ele tinha construído em volta de si mesmo.
- x -
Como em todas as noites nos dois últimos anos, Jared preparou sua refeição e jantou sozinho. Não iria quebrar sua rotina só porque Jensen tinha decidido acampar por ali. Na verdade, não via a hora em que o loiro fosse embora do chalé, para que a sua vida pudesse voltar ao normal.
Jensen parecia ser uma boa pessoa, inteligente, perspicaz e como era escritor, deveria ter muitas histórias pra contar. Seria uma boa companhia, sem dúvida, mas Jared não queria se envolver. Sabia que com a aproximação só acabaria se machucando ainda mais. Logo Jensen iria embora e a solidão só se tornaria ainda mais insuportável. Portanto, era melhor manter as coisas como estavam, era melhor manter-se longe.
Diferente das outras, àquela noite não estava fria. Jensen não sabia dizer se era lua cheia, mas ela estava enorme e clareava toda a ilha. O céu estava limpo e estrelado e Jensen ficou aliviado ao pensar que pelo menos não iria chover.
Já era tarde, mas não tinha sono. Saiu da barraca e se dirigiu ao outro lado da ilha, onde ficava a prainha de águas calmas.
Ao se aproximar, ouviu um barulho e se escondeu atrás de uma pedra, tentando ver o que acontecia por ali.
Ficou de boca aberta e mal pôde acreditar na imagem que tinha a sua frente...
O reflexo da lua sobre o mar já era uma imagem espetacular, mas Jared estava ali parado, completamente nu, de costas, e Jensen pensou que nada podia ser mais perfeito. Os cabelos um pouco longos esvoaçavam ao sabor do vento, a claridade do luar tornava visível cada músculo das costas, das nádegas, das pernas... Enfim, daquele corpo perfeito.
Foram só alguns instantes até que o moreno se atirasse na água, mergulhando e sumindo das vistas de Jensen, mas o loiro tinha certeza que aquela imagem ficaria guardada em seu cérebro para o resto da vida.
Saiu dali rapidamente e voltou para a sua barraca, pois não queria que Jared descobrisse que estava sendo espionado. Jensen deitou em seu colchonete com um sorriso de satisfação no rosto e assim acabou adormecendo.
Ao acordar pela manhã, Jensen levantou disposto como há muito tempo não havia se sentido. Não teve coragem de perturbar Jared e pedir-lhe para usar o banheiro, então urinou na beira do mar e lavou seu rosto e escovou os dentes em uma pia que havia ali mesmo, na estufa.
Sentiu falta de uma xícara de café, mas poderia sobreviver sem ela, então arrumou rapidamente seus materiais, escolheu uma boa tela e começou a pintar.
A imagem ainda estava nítida em sua cabeça e para a surpresa de Jensen, suas pinceladas estavam surtindo o efeito desejado. Sentiu vontade de gritar, mas não ousou fazer nada que quebrasse a sua concentração.
Parou alguns minutos para admirar sua obra e ouviu os passos de Jared se aproximando.
- Café? – Jared perguntou e colocou uma das canecas que segurava sobre o balcão, ao lado de Jensen.
- Uau! – Jensen exclamou, sem conseguir acreditar.
- O quê?
- O que eu fiz pra merecer isso? Fui um menino bonzinho e não te incomodei durante a noite?
- Ah, cala essa boca! – Jared falou de mau humor.
- Obrigado. Foi muito gentil de sua parte.
Jared ficou calado por alguns instantes, como se estivesse pensando no que iria falar.
- Aquilo que eu falei sobre o chalé... Que os últimos inquilinos se enforcaram, você sabia que era brincadeira, não sabia?
- Eu imaginei. Mas por que você está me perguntando isso agora?
- Porque... Sei lá. Acho que eu fiquei meio encucado. Vai que você coloca isso na cabeça e resolve fazer alguma besteira... Tudo o que eu menos preciso é de mais uma culpa pra carregar.
- Jared, eu posso te fazer uma pergunta? – Jensen ficou muito sério de repente.
- Perguntar você pode, mas eu não garanto que vou responder.
- O que aconteceu de tão grave na sua vida para fazer você se enfiar aqui, nesta ilha, completamente sozinho?
Jared não respondeu nada, apenas se virou de modo que pudesse olhar pela janela da estufa, seu olhar fitando o horizonte, sem focar em nada específico.
- Devo presumir que esta é uma pergunta que você não vai responder, não é?
- Não.
- Posso ter uma segunda chance? Algo que não seja assim tão pessoal?
- Você não vai desistir mesmo, vai? – Jared bufou.
- O que você fazia? Antes de vir para cá, você tinha um emprego, não tinha? Eu presumo que você não fazia manutenção de faróis a sua vida toda.
- Eu era engenheiro. Engenheiro mecânico. Projetava máquinas de grande porte em uma empresa metalúrgica.
- E você tinha uma namorada, ou...
- Você já fez a sua pergunta, Jensen - Jared já ia saindo da estufa.
- Pelo visto, você não gosta mesmo de falar, não é?
- Engraçado, as pessoas costumavam me criticar pelo contrário - Jared riu fracamente.
- Mesmo? Bom, isso só confirma as minhas suspeitas.
- Que suspeitas? - Agora Jared é quem estava curioso.
- De que você não é quem aparenta ser. Ou quem você quer que eu pense que você seja.
- O quê? – Jared franziu o cenho, confuso.
- Você se esconde atrás desta máscara de frieza, e eu entendo que deve ter os seus motivos para isso, mas...
- Mas?
- Eu dificilmente me engano com as pessoas. E você com certeza não é má pessoa. Não é essa pedra de gelo e esse sujeito amargo e sarcástico que finge ser. Você se importa com as pessoas. Inclusive comigo.
- Com você? - Jared forçou uma risada.
- Tudo o que você fez desde que eu cheguei aqui, me ignorar, se divertir às minhas custas, inventar coisas sobre os inquilinos do chalé... Você só queria que eu desistisse e fosse logo embora daqui. Que eu te deixasse em paz.
- Que bom que você entendeu o recado.
- Eu entendi. Mas isso não quer dizer que eu vou fazer a sua vontade.
- Eu sei disso. Você é mais teimoso do que eu pensava. E eu não me importo que você fique aqui, desde que não me perturbe.
- O mais estranho é que, qualquer pessoa que vivesse sozinha num lugar como este, ficaria feliz em ter companhia, em pelo menos ter alguém com quem conversar por algum tempo.
- Claro. Isso parece ser ótimo. Só que sou eu quem vai ter que reaprender a se acostumar com a solidão quando você for embora! - Jared virou as costas e foi embora, furioso.
Depois da breve conversa, ou discussão, Jensen sentia-se incomodado e decidiu não pintar mais nada naquele dia. Não queria acabar estragando o belo trabalho que tinha começado com tanto esforço.
As coisas pareciam estar melhorando, tinha conseguido manter uma conversa por mais de dois minutos com Jared, para depois estragar tudo com um comentário idiota. Tinha percebido que atrás daquela casca grossa que Jared se escondia, tinha alguém muito sensível. Jared parecia ser do tipo que se magoava facilmente. Devia ter sido muito machucado pela vida para estar assim.
Jensen ficou tentando encontrar um jeito de remediar as coisas, mas não conseguiu pensar em nada que não pudesse piorar ainda mais a sua situação.
À tarde decidiu que o melhor seria voltar para o chalé, ter uma boa noite de sono e voltar no dia seguinte. Quem sabe o humor de Jared estivesse melhor no outro dia e conseguisse mais algumas respostas.
Quando se aproximou do farol ouviu um gemido e pensou que, a não ser que Jared estivesse se masturbando, aquilo não era um bom sinal.
Encontrou o moreno sentado na escada, segurando a coxa esquerda, que ao se aproximar mais, Jensen percebeu que estava sangrando.
- O que aconteceu? – Jensen perguntou, vendo que Jared estava branco.
- Hmm?
- Você se cortou?
- Eu... Acho que sim.
- Jared, você... Dá pra me contar o que aconteceu? Você está me assustando, cara!
- Água. Eu preciso de água.
Jensen correu para dentro do farol e pegou uma garrafinha de água na geladeira, voltando rapidamente e a entregando ao moreno, que bebeu alguns goles.
- Melhor agora?
- Um pouco. Eu tenho problemas com... Sangue.
- Você precisa me deixar ver esse ferimento, Jared. Isso pode ser grave.
- Eu... Eu já vou ficar bem.
- Não é hora de bancar o teimoso, cara. Se precisar de pontos, eu vou ter que te levar a um hospital.
- Eu não vou a lugar algum. Eu posso dar um jeito nisso.
- Claro, isso se você não desmaiar primeiro. Eu vou te ajudar a entrar, vamos! – Jensen ajudou Jared a se erguer da escada e caminhar para dentro do farol.
Jared caminhou com dificuldade, sentindo dor e Jensen notou que o sangramento ainda não havia parado, afinal a calça jeans do moreno estava cada vez mais empapada de sangue.
- Eu preciso tirar essa roupa e me lavar, me dá um minuto.
Jensen fez menção de ajudar Jared a entrar no banheiro, mas este o encarou com um olhar ameaçador, então o loiro achou melhor esperar ali mesmo.
Já tinha entrado antes para pegar água, mas só agora tinha reparado em como eram as coisas do lado de dentro do farol. O ambiente era pequeno e não tinha divisões, a não ser o banheiro.
Logo na entrada tinha uma mesinha com uma cadeira, um balcão de pia, um fogão e uma pequena geladeira. Do outro lado, uma cama de casal não muito grande, um balcão que ficava na frente da cama, um pequeno armário e um baú de madeira.
Tudo muito simples, mas extremamente limpo e organizado.
Em cima do balcão havia um vaso com flores, as mesmas que Jensen tinha visto na estufa e um porta retratos. Jensen o pegou na mão e viu que era uma fotografia de uma mulher morena, muito bonita por sinal, e uma menina, ou melhor, um bebê em seu colo. A mulher tinha um brilho no olhar e sorria, como se estivesse realmente feliz. Como alguém que sorri para o seu amado, e isso fez Jensen sentir uma pontada de ciúmes.
- Você pode colocar isso no lugar, por favor? – A voz de Jared tirou Jensen dos seus devaneios.
- Quem são elas?
- Não é da sua conta – Jared gemeu e se deitou na cama, tomando o cuidado de colocar uma toalha em baixo da perna machucada para não sujar os lençóis.
Jensen colocou o porta retratos no lugar e sentou ao lado de Jared na cama.
- Você tem um kit de primeiros socorros por aqui?
Jared abriu a portinha do criado mudo e Jensen retirou a maletinha de lá.
O loiro não pôde deixar de correr os olhos pelo corpo de Jared, que tinha saído do banho e vestia apenas uma cueca boxer cinza.
- É na coxa.
- Hã?
- O ferimento.
- Ah, claro! - Jensen ficou vermelho ao perceber que tinha sido pego em flagrante.
- Eu estava concertando o barco e, não sei, devo ter pisado em falso e caí sobre a maleta de ferramentas.
- Isso pode dar tétano. Você foi vacinado?
- Claro que fui!
- Menos mau. Mas eu tenho uma péssima notícia – Jensen aproveitou a distração de Jared, embebeu um algodão em álcool e o apertou sobre o ferimento.
- Au! Seu filho da...
- Hey! Olha essa boca suja! – Jensen deu risadas.
- Isso dói, porra! Você ficou maluco?
- Preciso estancar o sangramento. Pelo menos até chegarmos ao hospital.
- Eu não vou a hospital algum!
- O corte foi profundo, imbecil! Vai precisar de pontos!
- Você não pode fazer isso?
- O quê? Agora pirou de vez? Eu não tenho anestesia aqui, e também não sou médico.
- Qual é Jensen! São só alguns pontos. Eu posso aguentar.
- Não mesmo, cara! Eu não vou fazer isso.
- Tem agulha e linha li na caixinha. Só me alcança aquele litro de vodka de dentro do balcão, por favor.
- Tem álcool aqui, não vai ser necessário vodka.
- A vodka é pra mim. Depois eu que sou o imbecil – Jared rolou os olhos.
- Ok. Se é isso o que você quer... Eu vou te costurar, idiota! Bebe isso logo! – Jensen estendeu o litro de vodka para Jared, que deu risadas.
Enquanto Jensen esterilizou a agulha e preparou tudo o que precisava, Jared entornou o restante da vodka que tinha na garrafa.
- Melhor você morder a fronha, baby. Porque isso vai doer! – Jensen avisou e deu a primeira espetada, que pensou doer mais nele do que em Jared.
Jared gemeu de dor, mas aguentou firme, com os dentes trincados. Jensen deu graças por serem apenas poucos pontos, pois já estava suando frio.
Depois de terminado, limpou o ferimento mais uma vez com álcool, aplicou um anti-séptico e cobriu com gaze e esparadrapo.
- Prontinho neném. Se isso não infeccionar, logo você vai estar prontinho pra outra.
- E se infeccionar?
- Talvez precise de amputação. Nada demais – Jensen brincou.
- Você está se aproveitando só porque eu não posso me levantar daqui. Espere só até eu estar melhor...
Jensen gargalhou.
- Tem razão. É melhor eu não abusar da minha sorte, não é? Bom, já que eu vou pernoitar aqui, será que posso usar o seu chuveiro?
- Pernoitar?
- Você não acha mesmo que eu vou te largar aqui sozinho com esse ferimento, acha?
- Adianta eu te mandar embora?
- Não.
- Foi o que eu imaginei...
Continua...
Quelidos leitoles do meu colação... rsrs
Vocês fizeram esta pobre autora muito feliz! Muitíssimo obrigada pelas reviews! Amo vocês!
Beijos,
Mary.
