Título: Um Lugar Para Recomeçar
Gênero: Padackles / J2
Autora: Mary Spn
Beta: Eu mesma! Os erros são todos meus.
Conselheira: TaXXTi
Avisos: Contém cenas de relação homossexual entre dois homens. Não gosta, não leia!
Sinopse: Dois homens feridos pelo passado. Enquanto um deles está disposto a recomeçar, tudo o que o outro quer é fugir. Estariam destinados a curar as feridas um do outro ou a machucarem-se ainda mais?
Um Lugar Para Recomeçar
Capítulo 7
Enquanto o barco avançava em direção ao clube náutico, Jensen tentava desviar seus pensamentos de Jared e do que acontecera na noite anterior. As férias que Misha praticamente o obrigara a tirar, estavam se transformando em quase uma obsessão por aquela maldita ilha.
Não eram estes os seus planos, deveria estar se divertindo, descansando e esvaziando sua cabeça dos problemas. Mas ao invés disso, tinha conseguido arranjar mais alguns para acrescentar à sua coleção.
Ao chegar à praia, deixou o barco aos cuidados de um dos atendentes do clube e rumou com seu carro de volta para o chalé.
Jensen era um homem prático. Enquanto viveu com Julian nunca tiveram problemas. Brigavam, como todos os casais, discordavam um do outro, mas resolviam tudo conversando. Por mais que as palavras pudessem machucar algumas vezes, era assim que funcionava, era assim que se entendiam. Mas como lidar com alguém que não quer saber de conversa? Que não quer se abrir? Isso era um enigma, um mistério...
Jensen abriu a porta da varanda e ficou alguns minutos olhando para a ilha.
O mistério da ilha... Jensen pensava a respeito e o que sentiu em seguida o surpreendeu. Não era um sentimento novo, mas algo que estava trancado dentro dele desde a morte de Julian.
Correu para a sala e ligou seu laptop. A euforia que sentia dentro do peito era tão grande que se não começasse a escrever naquele exato momento, achou que poderia explodir.
Permaneceu algumas horas ali, sentado na sala, digitando sem parar. As ideias fluíam com tanta facilidade que Jensen quase não podia acreditar. Sua inspiração tinha voltado, e com força total.
Só parou de escrever quando seus dedos já doíam e seu estômago começou a roncar, anunciando que a hora do almoço já havia passado há algum tempo.
Preparou um lanche rápido e discou o número tão conhecido em seu celular. Alguém com certeza ficaria contente com a notícia...
- Misha?
- Hey Jen! Como vão as coisas por aí? – Misha atendeu animado, como sempre.
- Eu tenho novidades, mas também preciso te pedir um favor.
- Novidades? Por que será que eu estou com medo de ouvir? Tem a ver com o faroleiro?
- Misha!
- Ok, pode falar – Misha rolou os olhos.
- Eu consegui.
- Conseguiu... O quê? Ir pra cama com ele?
- Não, Misha, eu estou falando do meu trabalho. Eu voltei a escrever!
- Você... Voltou... A escrever? Quando?
- Hoje. E também estou pintando.
- Isso é... Você está falando sério? Ou é alguma piada? – O moreno estava desconfiado.
- Piada? Você sabe que eu jamais brincaria com algo assim.
- É verdade. Mas sobre o que você está escrevendo? Vai me mandar um rascunho?
- Só quando eu terminar. Vai ser surpresa desta vez. Até para você.
- Uau! Agora você me deixou mesmo curioso. E a pintura? Já está pronta? É o chalé? A ilha? – Misha era curioso ao extremo. Tinha sempre um batalhão de perguntas.
- Controle a sua curiosidade! Eu não vou te contar!
- Como é que eu vou arranjar comprador se você não me mostrar?
- Em primeiro lugar, ela não está pronta. Em segundo, esta pintura não está à venda.
- Jensen, você está bem?
- Estou! Quero dizer, na medida do possível.
- É que você tem agido de uma maneira estranha. Eu estou começando a ficar preocupado.
- Eu te liguei pra contar uma boa notícia e você está preocupado?
- Você se apaixonou? – Misha era sempre direto.
- O quê?
- Deixa pra lá... Qual era o favor que você queria me pedir?
- Ah, sim... Eu preciso que você obtenha informações sobre uma pessoa.
- Informações. Que tipo de informações?
- Tudo o que você puder. Eu preciso saber quem ele é, o que fazia e se ele é casado ou divorciado, ou... Seja lá o que for.
- O faroleiro?
- É Misha! É o faroleiro. O nome dele é Jared Tristan Padalecki.
- Você disse que não ia voltar lá.
- Mas eu voltei. Eu voltei e... Caralho, Misha! Você não vai acreditar no que eu fiz.
- Jensen, você nem sabe quem ele é!
- Eu sei disso! Porra! Você não precisa me lembrar.
- Pra se esconder desse jeito, ele deve estar fugindo da polícia ou algo assim – Misha ficou pensativo por um instante - Ou talvez não, mas é melhor você não se arriscar.
- Eu não sei. Parece mais que ele está fugindo de si mesmo. Eu preciso saber o que aconteceu na vida dele, uma tragédia, uma separação dolorosa, algo que o deixou daquele jeito. Faz um esforço, Misha, por favor. Eu sei que você tem os seus contatos.
- Eu vou fazer o possível, amigão. Mas só se você me contar o que rolou pra deixar você assim tão inspirado.
Jensen gargalhou.
- Você não vai mesmo querer saber...
- Ah, eu vou sim, acredite.
- Foi tudo muito... É estranho até de pensar, você vai me achar um louco.
- Tudo bem, não vai ser a primeira vez.
- Mas é a primeira vez que eu agi desta forma. Ele deve estar achando que eu sou, sei lá... Uma vadia!
- Jensen...
- Eu estava pronto pra sair da ilha, quando vi que ele tinha se machucado. Um corte feio na coxa, ele estava sangrando. Aí eu o ajudei a entrar, ele foi se lavar e depois se deitou na cama, só de cueca...
- Jen, me diz que você não estuprou um cara indefeso ou inconsciente! – Misha falava sério, mas seu tom era de deboche.
- Eu não estuprei ninguém, eu o costurei, e...
- Você o quê? – Agora o seu tom era de indignação.
- Pois é, você consegue ver o quanto ele é estranho? Ele precisava de pontos e não quis de jeito nenhum ir até o hospital. Pediu que eu mesmo o costurasse.
- Eu estou começando a achar ele cada vez mais suspeito... Mas e daí, depois de costurar, você... – Misha não conseguia conter a sua curiosidade.
- Ele bebeu vodka e logo apagou. Estava fraco e com todo aquele álcool... Então eu resolvi passar a noite ali mesmo, pra ter certeza de que ele não teria uma infecção.
- Certo...
- E depois eu fui verificar se ele estava com febre.
- Ele estava?
- Não, mas eu... Fiz questão de verificar o corpo todo, sabe. Só pra ter certeza.
- Claro...
- Era como se tivesse um imã me puxando e eu não conseguia tirar as mãos do corpo dele... Nem a minha boca – Jensen falou constrangido - Aí ele acordou e não fez nada, absolutamente nada pra me parar. Então eu continuei e de repente já estava com o... Sabe, na minha boca, e... Puta merda, Misha! Foi tudo tão louco e tão intenso... E o pior é que eu faria tudo de novo se o tempo voltasse atrás.
- Jensen, você tem sérios problemas.
- Eu sei! Porra! Eu não devia ter feito isso, eu... Depois eu acabei pegando no sono e quando me levantei ele não estava mais na ilha. Provavelmente não quer mais me ver nem pintado depois do que aconteceu.
- Mas ele... Gostou, não gostou? Quero dizer, quem é que não gosta de um boquete?
- Misha!
- Mesmo que ele não seja gay, isso deve ter mexido com a cabeça dele.
- Talvez, mas isso não quer dizer que ele tenha gostado. O fato de ter ido embora sem nem falar comigo não é um bom sinal.
- E o que você vai fazer? Vai voltar lá?
- Eu nem sei se ele ainda vai querer falar comigo. Mas de qualquer maneira eu vou ter que voltar à ilha. Minhas telas ficaram lá. Droga!
- O que foi?
- A pintura... Se ele ver aquela pintura é capaz dele jogar no mar ou tocar fogo.
- O que tem na pintura?
- Nada de especial, só... O corpo dele nu.
Misha gargalhou novamente.
- Você é inacreditável, Jensen!
- É, eu sou. Bom, amanhã eu vou ter que voltar lá de qualquer jeito. Me deseje sorte!
- Boa sorte, amigão! E assim que eu descobrir algo sobre o seu homem das cavernas eu te ligo. Só tome cuidado, ok?
- Fica tranquilo. Cuidado é o meu nome do meio. – Jensen riu e desligou o celular.
Estava mesmo ferrado. Muito ferrado!
Quando Jared voltou para a ilha sentiu certo alívio ao ver que Jensen tinha ido embora. Esperava que o loiro estivesse desistido de uma vez e que não voltasse nunca mais. Seria melhor assim.
Jensen era uma pessoa especial e Jared não queria que se machucasse. Ele merecia recomeçar a sua vida e ser feliz com alguém que realmente valesse à pena. E ele, Jared, não era essa pessoa.
Pensou em todas as pessoas a quem já tinha amado e que tinham sido arrancadas de sua vida. Era como se carregasse uma maldição. Viver ali sozinho, longe de tudo, era a decisão mais acertada que tinha tomado.
Se Jensen tivesse juízo, ficaria longe dele e longe daquela ilha. Se bem que – Jared sorriu, lembrando da noite anterior – Não, definitivamente Jensen não tinha nenhum juízo.
- x -
Na manhã seguinte Jensen acordou empolgado. Era muito cedo ainda, então tomou seu café e sentou-se diante do laptop, escrevendo mais algumas páginas. Releu o que tinha escrito com um sorriso no rosto. Fazia muito tempo desde que não sentia-se assim. Escrever não era um trabalho, mas sim uma realização. Sentia que aos poucos sua vida estava voltando ao normal. Ainda tinha um buraco muito grande dentro do peito, mas aos poucos a ferida estava cicatrizando.
Digitou mais algumas linhas e deixou o laptop de lado. Podiam chamá-lo de maluco, inconsequente, ou de qualquer outra coisa, menos de covarde. Enfrentaria o que viria pela frente, mesmo que Jared quisesse expulsá-lo daquela ilha à pancadas.
De qualquer maneira, não tinha como fugir. Além da tela que estava pintando, tinha deixado lá todos os seus materiais, pincéis, tintas e precisava mesmo buscá-los. Talvez Jared nem estivesse por lá, mas no fundo, torcia para que estivesse.
Fez novamente o percurso de carro até o clube náutico e rumou com seu barco pela praia, avançando através das ondas até chegar à ilha.
Chegando lá, seu coração disparou só de ver que o barco de Jared estava ali. Pegou sua mochila e caminhou devagar, rumo à estufa. Nem sinal de Jared pelas redondezas. Deveria ficar feliz de não ter que cruzar com o grandão, mas no fundo sentia-se decepcionado.
Ao entrar na estufa, colocou sua mochila sobre o balcão e parou diante da pintura que estava no cavalete. Suspirou aliviado, por sorte ela ainda estava ali, sinal que Jared ainda não a tinha visto.
- Você não vai vender isso, vai? – A voz de Jared parado na porta fez Jensen pular de susto.
- Caralho! – Cara, você ainda vai me matar de susto! Como você consegue andar por aí com esse corpo todo e não fazer barulho?
Jared deu risadas.
- Eu faço barulho, você é que estava concentrado.
- É, eu.. Eu estava...
- Você não respondeu a minha pergunta.
- Ah, sim. Quero dizer, não. Eu não vou vendê-la. Embora se eu quisesse, teria vários compradores e eu poderia ganhar um bom valor por ela.
- Não vai vender mesmo? - Jared parecia desconfiado.
- Não.
- Menos mal.
- Por quê?
- Seria estranho, sei lá... Imaginar a pintura do meu traseiro pendurada na parede de alguém.
Jensen se segurou para não rir.
- Isso é arte!
- Arte ou não, é o meu traseiro que está aí – Jared apenas falou e já ia saindo.
- Jared? – Jensen o chamou de volta.
- Hmm?
- Sobre aquela noite, eu...
- Eu prefiro não falar sobre isso, Jensen.
- Tudo bem, se você não quiser falar, eu respeito a sua vontade, eu só... Só queria que você não ficasse com uma impressão errada sobre mim.
- Impressão errada? – Jared franziu a testa, confuso.
- Eu não queria que você pensasse que eu faço... Que eu saio por aí fazendo isso com qualquer um – Jensen forçou um sorriso, constrangido.
- Eu... Eu não pensei isso. Você pode ficar tranquilo - Jared falou com sinceridade.
- Ok.
- Jensen – Jared hesitou antes de falar – Eu não sei o que faz você voltar aqui, mas... Se você tiver em busca de diversão, já deve ter percebido que... Que eu não sou a pessoa certa pra isso.
- Eu não estou aqui em busca de diversão, acredite. Jared, você acredita em destino?
Jared encostou-se no balcão e Jensen teve certeza que a pergunta tinha-o afetado.
- Eu... Eu já acreditei em muita coisa. Hoje eu não acredito em mais nada.
- Não sei o que aconteceu, mas deve ter sido algo muito grave pra deixar você assim.
- Eu não... Não quero falar sobre isso.
- Certo. Sabe, eu passei por maus bocados também. Semana que vem vai fazer um ano desde que a minha vida virou de cabeça pra baixo. Você vai achar que é boiolisse, mas... – Jensen sorriu com tristeza - Eu tive um namorado com quem eu vivi por três anos. Morávamos juntos, e... Eu era feliz. Muito feliz. Estávamos perto de comemorar três anos juntos e resolvemos fazer uma viagem de carro. Fomos parando de cidade em cidade, sabe... Sem destino. Foi incrível. Então no último dia, faltavam apenas quatro horas pra chegarmos em casa e já estava anoitecendo. Eu sugeri que ficássemos em um hotel e continuássemos a viagem no dia seguinte, mas o Julian... Ele era sempre um teimoso, e... Acabou me convencendo a continuar a viagem. Ele queria comemorar nosso aniversário lá, na nossa casa. Confesso que a ideia também me pareceu atraente, mas... Não tinha como eu adivinhar, não é?
- Jensen...
- Nós decidimos no pedra, papel, tesoura quem iria dirigir e como eu perdi... Ele dormia no banco do carona quando um carro invadiu nossa pista e nos atingiu. Eu não me lembro de muita coisa, foi tudo muito rápido, eu vi o carro e então só me lembro de estar preso em meio às ferragens do carro, depois acordei no hospital, com ferimentos leves e suspeita de traumatismo craniano. O Julian, ele... – Jensen engoliu o nó na garganta, tentando segurar o choro – Ele chegou ao hospital sem vida.
- Eu... Sinto muito – Jared tinha os olhos marejados quando Jensen o encarou.
- Mesmo que todos digam e eu mesmo saiba que foi um acidente, que a culpa não foi minha, eu não consigo deixar de pensar que... Se eu tivesse insistido só mais um pouquinho, ele teria concordado e nós dormiríamos no hotel. Ou se eu não estivesse tão cansado, poderia estar mais atento ao volante e desviado de alguma maneira... E ele poderia estar vivo.
- Você não pode saber, Jensen.
- Não. Eu nunca vou saber. Mas ainda hoje eu daria tudo para trocar de lugar com ele. Por algum tempo tudo o que eu queria era morrer. Os meus amigos de alguma maneira conseguiram me manter de pé. Mas eu praticamente vegetei durante este tempo todo. Não consegui mais escrever, não consegui mais pintar, eu só conseguia me sentir um inútil. E foi graças a um amigo que eu vim parar aqui, neste chalé.
- E você acha que foi o destino?
- Talvez...
- Ou talvez você só seja um sujeito teimoso – Os dois riram, com lágrimas nos olhos e inesperadamente Jared tocou a face de Jensen, secando suas lágrimas com as postas dos dedos.
Jensen encostou a cabeça no peito do moreno e chorou. Como há muito tempo não tinha conseguido chorar, como uma criança perdida, em busca de carinho.
Jared o abraçou e com uma das mãos fez um leve carinho em seus cabelos.
Ali, envolvido naqueles braços fortes, Jensen finalmente se sentiu seguro, protegido, e aos poucos a dor que sufocava o seu peito foi se abrandando...
Continua...
Respondendo as Reviews:
Bia: Não, eu nunca me canso de ouvir elogios! Toda boba aqui... rsrs. Você é um docinho, obrigada! Beijos!
lene: Jared está mesmo confuso em relação aos seus sentimentos. Tomara mesmo que o Jensen não desista, não é? Obrigada por comentar! Beijos!
Elisete: O Jensen foi mesmo safadinho, se aproveitando do Jared indefeso. Mas quem disse que ele não gostou, não é? rsrs Beijokas! Adorei seus comentários!
DWS: Uma grande mestre? hehe... Que nada! Vocês é que são uns amores por lerem as minhas insanidades! Fico feliz que você esteja achando a minha história envolvente. Obrigada! Beijos!
**Aos que leram e não comentaram: Vou ficar muito feliz em receber sua review neste e nos próximos capítulos. Elas são o meu combustível, minha inspiração para continuar escrevendo. Um abraço!
