Título: Um Lugar Para Recomeçar
Gênero: Padackles / J2
Autora: Mary Spn
Beta: Eu mesma! Os erros são todos meus.
Conselheira: TaXXTi
Avisos: Contém cenas de relação homossexual entre dois homens. Não gosta, não leia!
Sinopse: Dois homens feridos pelo passado. Enquanto um deles está disposto a recomeçar, tudo o que o outro quer é fugir. Estariam destinados a curar as feridas um do outro ou a machucarem-se ainda mais?
Um Lugar Para Recomeçar
Capítulo 8
Jared continuou abraçando-o até perceber que Jensen havia se acalmado e parado de soluçar. Então se afastou um pouco e encarou-o por alguns instantes, com o coração apertado. Sabia exatamente como o loiro se sentia.
- Como você consegue? – Jared perguntou baixinho, quebrando o silêncio.
- O quê?
- Como você conseguiu seguir com a vida? Depois do que aconteceu?
- Cada dia... Tem sido uma luta pra levantar da cama, pra tentar seguir em frente. Não tem sido fácil, mas eu nunca desisti de tentar. Acho que eu sou mesmo um cara muito teimoso - Jensen riu fracamente.
- Sim, você é - Jared sorriu com tristeza.
- Você também deveria tentar.
Jared virou o rosto sem dizer nada e Jensen puxou-o levemente pelo queixo, o trazendo de volta. Sua mão, ainda um pouco trêmula, deslizou pelo maxilar do moreno, sentindo a barba por fazer. Seus rostos se aproximaram devagar e iniciaram um beijo, muito suave no início, que foi se aprofundando aos poucos.
Jensen sentiu a língua de Jared invadir sua boca e pensou que só poderia estar sonhando. O que tanto desejara estava acontecendo, e da maneira mais inesperada possível. Jared sempre o surpreendia, mas nem sempre era de um jeito bom.
- Espera... Eu não... Eu não posso! – Jared quebrou o beijo e se afastou de Jensen, caminhando até a porta da estufa.
- Jared, o que... – Jensen estava confuso, não sabia o que tinha feito de errado.
- Eu tenho coisas a fazer, Jensen – Jared virou as costas e foi saindo.
- Qual é o seu problema? – Jensen foi atrás do moreno, furioso.
- O meu problema? – Jared passou a mão pelos cabelos, nervoso.
- Sim, o seu problema! Uma hora nós estamos bem, a gente conversa, se abraça... Aí você me beija e sai correndo, como se nada tivesse acontecido aqui?
- Foi um erro! Está bem? Foi um erro! – Jared alterou a voz.
- Um erro? Você quer dizer que eu sou um erro? Vai querer me dizer que não sente nada por mim, é isso? Que não se sente atraído? Nem um pouquinho? – Jensen tinha ironia na voz.
- Me desculpe. Eu me deixei levar pelo momento, mas...
- Mas?
- Eu não sinto nada por você, Jensen. Eu já disse que não quero envolvimento e isso não mudou. Nem vai mudar. É melhor você ir embora daqui e não voltar mais.
- Você é um idiota, Jared! Um idiota! – Jensen balançava a cabeça, incrédulo.
- É, talvez eu seja.
- Acha que vai conseguir fazer isso pelo resto da sua vida? Se esconder aqui para fugir do que sente?
- Você não sabe nada sobre mim, Jensen. Só vá embora, por favor.
- Eu senti, Jared! Quando você me beijou... Não foi apenas o momento. Você quis, só não quer admitir. Você gostou!
- É, pode ser que eu esteja há tempo demais aqui sozinho. Devo estar carente mesmo. Não vou dizer que não gostei quando você me chupou àquela noite... Mas eu não sou gay, Jensen. Eu nem cogitaria a ideia de me relacionar com um homem. Agora faça um bem para si mesmo e caia fora daqui.
Jared falou de uma forma grosseira e saiu, deixando Jensen ali parado, com lágrimas nos olhos. O loiro engoliu o nó na garganta, juntou suas telas, pincéis e tintas e levou para o seu barco. Voltou mais uma vez para buscar o cavalete e sua mochila, então foi embora, com muita mágoa e com o orgulho ferido.
Jared ficou algum tempo na beira da praia, sentado sobre uma pedra, até ver o barco de Jensen se afastando. Correu até a estufa e viu que o loiro tinha mesmo levado todas as suas coisas embora.
Desejava muito poder sentir alívio, mas tudo o que sentia era um aperto no peito. Sabia que tinha magoado Jensen, e esta era a sua intenção quando falou aquelas palavras duras. Mas não pensou que fosse doer tanto saber que Jensen não voltaria.
Lembrou-se do olhar triste com que o outro o encarava ao ouvir aquelas palavras. Talvez aquilo tivesse doído mais em si mesmo do que em Jensen. Mas precisava ser feito. Já tinha se aproximado demais e as coisas estavam fugindo do seu controle. O que tinha sentido quando o beijara... Era como se acendesse algo dentro dele que estava morto e enterrado há dois anos. O cheiro do loiro, as mãos dele em seu pescoço, os seus lábios macios... Tudo em Jensen era tão perfeito e tentador que fazia o corpo de Jared arrepiar só em pensar. A vontade que sentiu de agarrá-lo e sentir mais daquela pele quente e tentadora... A vontade louca de sentir os seus toques, o seu calor, como sentira aquela noite em que tinha colocado tudo a perder.
O que tanto temia durante todo o tempo em que estava ali sozinho estava acontecendo agora. Sempre evitara o contato com as pessoas porque sabia que só acabaria se machucando mais uma vez.
Jensen era um homem importante, um escritor famoso. Tinha sua vida, amigos, família... Jared era apenas alguém perdido e desesperado que já estava há tempo demais ali, sozinho, e já não sabia se conseguiria se acostumar novamente a viver entre as pessoas. Era melhor esquecê-lo. De qualquer maneira, sabia que Jensen jamais voltaria...
- x -
Jensen voltou para o chalé completamente desolado. Pensara ter encontrado em Jared um novo sentido para a sua vida, e mais uma vez a realidade o tinha atingido e feito o seu coração em pedaços. Chegava a ser irônico, se não fosse triste. Se não doesse tanto a ponto de querer gritar.
Sentou-se na escadaria da varanda do chalé e se permitiu chorar mais uma vez. A angústia e o sentimento de abandono sufocavam seu peito e o único jeito de colocar para fora era através das lágrimas.
Depois de acalmar-se, Jensen entrou e sentou-se em frente ao seu laptop. Podia não aliviar a dor, mas escrever o que sentia tornava tudo de certa forma mais suportável. Era como se o seu personagem estivesse vivendo a sua dor, e não ele mesmo.
No dia seguinte Misha apareceu no chalé. Os dois foram até o centro da cidade procurar um lugar para almoçar. Não havia muitos restaurantes na região, mas encontraram um lugar agradável que era especializado em frutos do mar.
Conversaram muito, Misha contou algumas novidades e Jensen lhe falou por alto sobre a história que estava escrevendo, sem entrar em detalhes.
O loiro ficou feliz por estar na companhia do amigo, afinal, tinha conseguido se distrair um pouco e dar muitas risadas, depois de tudo.
Só quando retornaram ao chalé que Misha lhe entregou um jornal antigo, que a princípio Jensen não entendeu do que se tratava.
- Parece que o seu homem das cavernas tem uma história parecida com a sua. Talvez um pouco pior...
- Eu não estou entendendo, o que...
- Senta aí, Jensen - Misha apontou para o sofá - Tem muita coisa que eu preciso te contar.
Jensen ficou um tanto desconcertado mas se sentou, esperando pelo que Misha tinha a dizer.
- Eu consegui bastante coisa sobre o Jared. Ele é natural do Texas, formado em Engenharia Mecânica, como você já sabia. Mas... Aconteceram algumas tragédias ao longo da vida dele que talvez sejam responsáveis por ele ter se isolado daquela maneira.
- Que tipo de tragédias? Então não foi apenas uma?
- Quando ele tinha 14 anos de idade, os seus pais e o seu único irmão morreram em um acidente de automóvel. Eu não sei o paradeiro dele depois disso, mas anos depois ele se casou e teve uma filha. Um furacão atingiu a cidade onde eles moravam e ambas morreram. Isso foi há mais ou menos dois anos.
- Isso é... - Jensen se levantou e andou pela sala, transtornado.
- Ele não é um fugitivo, não é procurado pela polícia, nem nada. É só um cara comum.
Jensen pegou o jornal, vendo que a notícia sobre a tragédia ocupava a primeira página. Sabia como era a dor de perder alguém que amava. Tinha passado por esta provação e mal conseguira se manter de pé. Imaginava o quão pior deveria ser a dor de perder uma filha. Lembrou-se do porta retratos que Jared tinha no balcão em frente a cama. Agora estava tudo explicado... O desespero em seus olhos, a amargura em suas palavras... Assim como Jensen, ele também havia perdido tudo. Tudo o que amava.
- Jensen? – Misha chamou sua atenção, preocupado com o seu silêncio repentino – Você está bem?
- Sim, eu... Eu só estou tentando digerir isso tudo.
- O que você pretende fazer? Vai falar com ele?
- Não sei se tem algo que eu possa fazer, Misha. Ele praticamente me expulsou de lá. Eu não quero bancar o orgulhoso, mas...
- Eu entendo. Talvez seja mesmo melhor esquecê-lo, não é? Você já tem problemas o suficiente. Não precisa de mais um.
- Você acha que eu estou sendo egoísta? Quero dizer, ele está lá sozinho, e... Quem sabe o que teria sido de mim se não fosse por você, a Vicky e os outros...
- Jensen, ele não é responsabilidade sua.
- Eu só queria poder ajudar, sabe?
- Você tentou, não tentou?
- Talvez eu devesse ter tentado de outra maneira.
- O que houve entre vocês, afinal? - O lado curioso de Misha falou mais alto.
- Eu me abri com ele... Contei tudo sobre o acidente, sobre o Julian.
- Como ele reagiu?
- Foi compreensivo, ficou comovido, é claro. Ele tinha lágrimas nos olhos, me abraçou, me permitiu chorar em seu ombro. Mas aí as coisas ficaram um pouco... Ele me beijou. Ou eu o beijei, sei lá. Não importa. Quando nos separamos ele caiu em si, e...
- O que ele fez?
- Disse que era melhor eu ir embora, que não era gay e jamais iria se relacionar com um homem, algumas grosserias desse tipo.
- Uau!
- É.
- Acho que você precisa mesmo esquecê-lo, Jen. Por que não volta comigo? Hein? Depois você pode fazer outra viagem, para algum lugar um pouco mais movimentado. O que acha?
- Não. Eu não vou sair daqui enquanto não finalizar o meu livro. Posso até não ver mais o Jared, mas eu vou continuar por aqui.
- Você é quem sabe. E eu é quem vou apanhar da Vicky por não ter conseguido levar você de volta. Ela também está preocupada, Jen!
- Olha, você e a Vicky são uns amores, mas tem coisas que eu preciso fazer sozinho. Eu já fiz um grande progresso por aqui, não fiz?
- Tudo bem. Quando eu chegar em casa vou te ligar e você diz isso a ela, ok?
Jensen deu gargalhadas. Misha e Vicky viviam juntos há anos e ele ainda morria de medo dela. Formavam um casal perfeito, afinal Misha era um cara incrível, mas precisava que alguém estivesse sempre no controle. E Vicky era a mulher certa para isso.
- x -
Jared não conseguiu dormir a noite inteira, e durante o dia não conseguiu deixar de pensar em Jensen. As palavras duras que havia proferido martelavam em sua cabeça como um mantra.
Pensou na história de Jensen, no quanto o loiro já sofrera e lutara para se manter de pé. Era um vencedor, disso Jared não tinha dúvidas.
Mas a culpa por tê-lo magoado agora apertava seu peito, o fazendo sufocar. Não queria se envolver, mas nem por isso tinha o direito de machucá-lo ainda mais. Jensen merecia no mínimo o seu respeito e admiração.
Passou o dia andando de um lado para o outro naquela ilha, tentando criar coragem de ir atrás de Jensen. Precisava ao menos esclarecer as coisas, se desculpar pelo que tinha dito. Talvez Jensen não o perdoasse, mas de qualquer maneira se sentiria mais aliviado depois disso.
Colocou seu barco na água e rumou até o clube náutico. De lá, seguiu caminhando pela praia, já que não ficava assim tão longe do chalé. Também poderia ganhar tempo, porque na verdade nem sabia o que diria a Jensen. Só ao pensar em olhar naqueles olhos verdes novamente já o fazia sentir um frio na barriga. Estava nervoso e nem sabia por quê.
Ao chegar em frente ao chalé, parou alguns minutos na beira do mar, respirou fundo e foi até a varanda, batendo de leve na porta.
Esperou alguns minutos, as mãos nos bolsos da calça, ansioso. Logo a porta se abriu e Jared estranhou e também sentiu-se incomodado ao ver que não era Jensen, mas sim um homem moreno, de olhos azuis, semi nu, com apenas uma toalha em volta da cintura, que veio atendê-lo.
- Pois não? – Misha falou, um pouco constrangido.
- Eu... Eu procuro pelo Jensen – Jared respondeu, um pouco desconcertado.
- Ah, o Jen está no banho. Espera, você deve ser o neardental! Quero dizer... Jared, não é? – Misha tratou de se corrigir rapidamente.
Jared fez apenas um maneio de cabeça. Já estava arrependido de ter ido até ali.
- Eu... Só vou me vestir e avisar o Jen. Entre e fique à vontade, ok?
Jared entrou, meio à contra gosto. Sua vontade era de ir embora, mas isso seria um pouco estranho. Se bem que já se sentia estranho o suficiente, isso não faria diferença.
Andou pela sala, tentando pensar no que diria a Jensen quando seus olhos bateram em algo que chamou a sua atenção. Um jornal antigo, largado em cima da mesinha de centro. Se aproximou e o tomou nas mãos apenas para ter certeza, pois reconheceria aquela reportagem há quilômetros de distância.
Um misto de dor e decepção o atingiram feito uma avalanche. Como se todo o sofrimento que estava tentando enterrar por dois anos naquela ilha, de repente viesse à tona, sem um mínimo de piedade. As lembranças que tanto queria esquecer, e ainda faziam seu coração sangrar... Sua casa parcialmente destruída, o corpo sem vida de sua amada esposa debaixo dos escombros, sua filhinha sendo tirada dos braços dela e levada às pressas para o hospital, vindo a falecer algumas horas depois.
Sentiu suas pernas fraquejarem e caiu de joelhos no chão da sala. Não tinha forças para sair dali, e só conseguiu se erguer quando substituiu a dor pela raiva. Raiva e decepção. Jensen não tinha o direito de invadir sua vida desta maneira. Não tinha o direito de desenterrar os fantasmas do seu passado.
Suas mãos tremiam e seu coração estava disparado... Precisava respirar, precisava de ar. Largou o jornal no chão e foi para fora do chalé, na beira da praia, onde apoiou as mãos nos joelhos, tentando respirar e manter o equilíbrio...
- Jared? – Jensen já vestido, descalço e com os cabelos molhados, foi até a sala, procurando pelo moreno.
Estranhou o fato dele não estar ali, afinal Misha disse que ele o estava esperando na sala, quando finalmente viu o jornal largado no chão perto da porta...
- Não! Por favor, me diz que você não viu isso, Jared! – Jensen falou para si mesmo, passando as mãos pela cabeça, desesperado.
Largou o jornal e correu para o lado de fora, encontrando Jared parado na beira do mar, ele não parecia estar passando bem.
- Jared? – O chamou e o moreno foi se afastando.
- Fica longe de mim, Jensen! – Jared falou com dificuldade, Jensen pôde perceber que ele tinha chorado.
- Jared, eu... Eu posso explicar.
- Pode explicar? Pode explicar o quê? O porquê de você estar xeretando na minha vida?
- Eu não estava...
- Claro que não! – Jared o interrompeu - Foi por acaso que aquele jornal estava na sua sala, não é? Não seja tão cretino!
- Não, não foi por acaso. Eu só queria saber mais sobre você, eu precisava saber!
- Ótimo! E o que mais o seu namoradinho descobriu sobre mim? Hein?
- Ele não é meu namorado.
- É mesmo? Vocês estavam tomando banho juntos, mas não são namorados? - Jared riu com sarcasmo.
- Nós não estávamos...
- Não me interessa, Jensen! Quer saber? Você faz o que quiser da sua vida, só me deixa em paz, está bem? Cuide da sua vida e não da minha!
- Não foi essa a minha intenção, Jared. Eu só estava procurando saber o que aconteceu pra tentar te ajudar.
- Se eu precisasse da sua ajuda, eu teria pedido.
- Não, você não teria. Eu contei tudo a você, compartilhei do meu sofrimento, do meu passado, só esperava que você fizesse o mesmo. Mas você não fez...
- Você já pensou que se eu não disse nada é porque talvez não estivesse pronto pra falar no assunto?
- E quando você estaria pronto, Jared? Nunca, não é mesmo?
Jared não disse mais nada, apenas se afastou, andando de costas e olhando para Jensen com tristeza, depois se virou e foi embora, caminhando em direção ao seu barco.
Continua...
Obrigada pelas reviews! *-*
