A mão dele apertou com mais força o cabo da espada quando o farfalhar da lona denunciou a entrada dela na barraca.
Ainda assim, ele não se levantou, apenas ergueu os olhos em fendas para dar boas-vindas a invasora.
E lá vinha ela, translucida e em tons dourados – a luz dela era a única que via há meses – tão fácil e, ao mesmo tempo impossível de confundir com a mulher que ele iria enfrentar muito em breve.
Ela andou até ele, ainda que seus passos não marcassem o chão, seu rosto contorcido de preocupação e pesar.
— Você está bem?
Ele não tinha acesso há espelhos desde que a guerra havia começado, não havia ninguém para impressionar, nenhuma corte para manter as boas aparências, nenhuma amante para cortejar... Então somente imaginava qual seria sua aparência depois de um dia inteiro de carnificina, de um dia inteiro matando pessoas do planeta dela. Sem mudar de posição, ele desviou o olhar para sua espada, mas a lâmina havia se tornado opaca depois de um dia inteiro cortando gordura e carne humana.
— Você não deveria se preocupar comigo – ele disse num tom de voz baixo e sem sentimentos — ou sequer deveria estar aqui.
— Kunzite... – ela ficou ainda mais próxima dele e ameaçou tocá-lo na mão que ainda empunhava a espada, mas notar o olhar feroz que ele lhe lançou ela recuou.
Ela fez silêncio por alguns segundos, o estudando, ele fez o mesmo. Como ele, um traidor coberto de sangue, deveria parecer a aquela versão dela? A mulher com que ele havia se deitado, a mulher que ele enfrentaria no próximo dia, aquela ele conhecia bem, daquela ele sabia o que esperar, naquela ele confiava para acabar com toda a loucura que havia se iniciado quando o céu se cobriu de trevas e seu príncipe o abandonou em prol de uma estrangeira.
Mas essa criatura diáfana a sua frente? Dela ele nada sabia.
Ela havia parecido em breves lampejos como um presságio da tragédia que acometeria seus dois reinos.
No primeiro dia ele achou que ela era somente uma donzela perdida nos jardins, tal errôneo julgamento conduzido pelas lágrimas que caíram livremente quando ele se apresentou e então ela desapareceu. Ele achou que ela havia sido um delírio até que o encontro se repetiu mais uma vez e então sucessivas vezes em que eles tinham longas conversas e ela demonstrava saber sempre mais sobre ele do que ele mesmo, mas sem nunca deixar nada sobre si mesma escapar, sempre dizendo que ainda não era a hora certa.
E então ela apareceu.
A princípio ele se sentiu traído e até questionou que tipo de zombaria havia sido aquela, mas ao notar que Sailor Venus não mentia quando dizia que jamais o havia visto antes ele baixou um pouco a guarda ou pelo menos suspendeu a ofensiva, afinal, não tinha muito o que fazer, não com Endymion fazendo tanta questão da presença da Princesa da Lua.
Quando viu sua misteriosa amiga novamente, a versão que se tornava translúcida e desaparecia sem aviso, ela revelou que havia vindo do futuro, de outra vida com uma missão que não podia revelar a ele, mas ela jurou que não pretendia fazer nenhum mal a ele ou a seu reino e ele se pegou confiando nela mais uma vez.
Eram diferentes as duas Venus, a com quem ele havia se deitado tinha um ar de superioridade que de alguma forma fazia com que se tornasse realmente difícil de resistir a ela ao mesmo tempo que despertava um asco no fundo de seu estômago cada vez que ela dizia algo que para ela era nada, mas para ele era uma amostra clara do que ela pensava dos como ele e, ainda assim, havia qualquer tipo de inocência nela que lhe despertava um instinto protetor e uma parcela de pena. Sailor Venus era ingênua. Já a mulher para quem ele havia entregado o coração sem perceber tinha olhos envelhecidos e mesmo que se dobrasse de rir das próprias piadas ruins, quando sorria, tinha uma nota de tristeza e quando ela olhava para ele era como se não houvesse mais nada no mundo.
Ele agradecia que fosse impossível de tocá-la e que ela não pertencesse a seu mundo, pois ele não seria capaz de trair a mulher estranha que lhe aparecia nos momentos mais inoportunos e o forçava a pensar sobre suas ações naquela guerra.
— Vem comigo.
Ele ergueu os olhos para ela, haviam lágrimas rolando pelas bochechas dela outra vez e ele achou que era justo para um assassino como ele que ele jamais fosse capaz de secá-las, talvez nem se pudesse, afinal, como alguém como ele poderia tocar algo tão puro?
— Da onde eu venho, você não precisa matar ninguém.
E ele talvez teria aceitado, se ela tivesse perguntado antes, mas agora era tarde demais.
N/A: Cês acharam que eu tinha desistido? Não desisti não!
Mas mês VK não funcionou meeeesmo pra mim em novembro, a faculdade tá montada em mim e minha inspiração foi pro espaço.
Essa fic era pra ser bem mais longa e devia englobar o tema de Viagem no Tempo lááá do primeiro mês VK.
As fics dos outros dias virão, só não sei quando porque tô cheia de prova Ç.Ç
