Only in the agony of parting do we look into the depths of love.
George Eliot

1

O som do gatilho é seco, mas o sangue dele que espirra no seu rosto, no seu vestido novo, é molhado e viscoso.

Ele se chamava Keith ou Kevin dessa vez. Ela não prestou muita atenção quando ele disse, sua mãe sempre lhe ensinou a não prestar muita atenção no que selvagens tinham a dizer, mesmo os estripados de seu verdadeiro nome e criados na civilização como ele, você pode vesti-lo como um de nós, ensina-lo a falar como um de nós, mas ele nunca será um de nós. É engraçado, o tempo passa, a existência é absolutamente diferente, mas a retórica é a mesma.

Assim como reação a morte dele. Ainda que sempre agente da causa, nunca é fácil. A arma roubada do cofre de seu pai cai das mãos dela que desta vez responde por Mary Grace e deveria estar neste momento recebendo do xerife a coroa de rosa do deserto e não assassinando o líder do bando que vem aterrorizando o povoado no celeiro de seu pai.

Ela cai de joelhos e se arrasta em direção ao corpo, o vestido que sua mãe mandou trazer da capital arruinado no processo. Ela se deita ao lado dele, a cabeça em seu peito silencioso e se alonga o adeus que ela sabe, se repetirá.

2

Dessa vez ela o perde no mesmo dia em que o vê pela primeira vez.

Ele pescava na praia quando os tubarões atacaram, ela desceu do sol e o carregou nos braços para a segurança da areia. Ele tinha pinturas pelo copo e os olhos cor de espuma do mar. Ela tinha os cabelos feitos de luz e num rosto um sorriso. Havia renascido assim como ele, mas não como sua igual, era deusa novamente, Manuriki era como chamavam por ela nos rituais, Kotund foi quem ele disse que era um pouco antes do primeiro beijo.

Beijo que foi interrompido pela dor lancinante do arpão dele entrando em sua carne.

Manuriki arfou, se afastando dele, no rosto estampada a traição, da ferida e do sangue que pingava na areia quente flores nasciam. No olhar dele, ela podia ver agora, Metalia.

Então ela avançou, seu olhar cheio de piedade, sua luz crescendo e a tomando, com raios cegantes, esplendorosos dando a ela terrível aura divina.

Ele queria correr, mas não podia sair do lugar, as flores nascidas do sangue derramado haviam crescido e seus caules se enroscado ao redor dos pés de Kotund subindo por suas pernas e ao redor dos braços, cobrindo seu peito até a altura do coração.

E quando ela o beijou novamente, ele sabia que o veneno seria doce.

3

Ele havia sido considerado traidor no país dele e exilado para o seu, ainda assim era um general Romano, eles davam a ele o crédito da vitória sobre ela, mas Makara jamais deixaria transparecer seu rancor. Ela havia fingido bem, dando a ele falsa sensação de poder. Não foi difícil, o homem exilado de seu pais, sem exércitos para comandar, nenhum golpe de estado para liderar, era muito diferente do Centurião que invadiu seu reino anos atrás. Então, não havia sido difícil convencê-lo a aceitá-la como consorte. Bastou só um pouco das duas artes das quais ela era tão talentosa: sedução e política.

Logo ele estava em sua cama e sentado ao seu lado no trono e o Egito continuou a ter sua legítima faraó encarnação viva de Hator. E se ela fosse sincera, poderia dizer que o havia amado. De alguma forma havia conseguido abrir uma exceção para ele de todo ódio que tinha direcionado aos outros de sua raça. E poderia dizer que por alguns anos, haviam sido felizes.

Então, os sonhos começaram e ela soube que embora pudesse ser chamada pelo mesmo nome, a vida da Deusa que ela havia sido em sua existência anterior não era nada como os sacerdotes contavam, mas tinha um ponto em comum com sua vida atual.

No país dele, ou melhor, em um dos países que assim como dela havia sido invadido por homens como Kaeso Protus, se contavam a história de uma mulher que guardava todos os males do mundo numa caixa e a de Makara havia sido aberta. E ela mal conseguia compreender como havia se deixado enganar, se deixado esquecer toda humilhação sofrida, todo horror causado a seu país. Como havia caído no feitiço que ela própria havia jogado naquele homem que lhe havia feito tão mal em existências sucessivas?

E a forma que achou para perdoar a si mesma foi colocar pessoalmente uma víbora dentro da banheira antes dele entrar.

Mas assim que ele passou por ela em direção a sala de banhos, um sorriso no rosto e um beijo de despedida em sua bochecha, Makara sentiu o terror a dominar e talvez tenha sido o mesmo terror que a fez congelar enquanto seu cérebro gritava para que ela se movesse. Mas quando ela o fez, quando ela correu atrás dele, a súplica morrendo em seus lábios para que ele não entrasse nas vis águas se transformando no grito que saiu arranhando de seu peito ao vê-lo imóvel, em seu rosto a máscara da morte numa expressão de dor, olhos abertos, sem brilho, mas acusadores.

E, ao se afundar junto a ele, molhando suas vestes e manchando suas joias, se sentando no colo dele e murmurando condenações a si mesma, ela agradeceu quando sentiu os dentes da víbora.


N/A: Essa fic é a que eu menos gostei. Eu tentei fazer aquelas fic numeradas que geralmente vão até cinco, mas me cansei na terceira. Ainda iria ter uma em que o Kunzite era um rei coreano e a Minako uma concubina e o último eu nem me lembro HAHAHA.Foi mal pela fic deprimente em tempos tão deprimentes, a próxima é um pouquinho melhor, mas também só um pouquinho.