Antes de começar a o capítulo dessa história, gostaria de deixar meus sinceros agradecimentos a:

- Natália Gualberto, que realmente existe, pelas incontáveis horas escutando meus planos e ouvindo minhas leituras dos rascunhos dos capítulos.

-Rafma (demorou, mas saiu! =P), Freeze, Kana-Chan, Akiratakeda, Lie-Chan, Yuhmmi, Kyhetha, Shakermaker, Estrela, Shakinha, , pelas reviews feitas da fan fic!^^

-Nai-chan, por ter criado uma família tão divertida de se trabalhar.

- Aos demais leitores da fic que acompanham com paciências minhas lentas atualizações!^^

Obrigada a todos.

Capítulo III

Ovelha Negra da Família

Vamos recapitular, certo?

Meu nome é Gabriel Mont'Alvert V e tenho 15 anos. Nasci dia 16 de Janeiro, pertenço ao signo capricórnio (mas sofro ascendência em touro e tenho alua em sagitário), meu tipo sanguíneo é AB negativo. Sou inteligente pacas, minha menor nota na escola foi 9,5 (porque o professor, obviamente, era um idiota e não percebeu que a alternativa que assinalei TAMBÉM era correta). Nada muito interessante, já que nesta sociedade maluca pessoas como eu recebem a terrível estigma de CDF, ou seja, Cú De Ferro, enquanto caras burros, porém populares não são chamados de CDM, que quer dizer, Cabeça de Merda, mas deixa para lá.

Tem quatros coisas nesta vida que amo: minha família, Natália Gualberto, livros e mulheres. O primeiro item desta lista é composta por três mulheres malucas e lésbicas e um deus grego que é absolutamente gay. A Natty, minha melhor amiga e amor da minha vida, é uma ruiva tão linda e tão má que poderia muito bem fazer o papel da vilã da novela das oito. Quanto à literatura, é um hobby bem legal, desde que você não entre na internet e comece a ler as coisas que as pessoas escrevem e dizem pertencer a LÍNGUA PORTUGUESA (para mim, pertence a língua EMO!!). Por fim, as mulheres me dão um extremo prazer...

... e estresse porque TODAS ELAS PENSAM QUE EU SOU GAY!!!! O quê é uma puta de uma sacanagem, se você quer saber minha opinião. Tipo, só porque você é uma versão loira do Frodo, é tímido, gosta de estudar, de ler, tem um caderno arrumadinho e com letra bonitinha e vem de uma família onde todos seus membros são homossexuais, inclusive seu irmão que tem tudo para ser um tremendo Don Juan mas é uma Vera Verão, isto não dá NENHUM direito das pessoas acharem que você é gay, caralho!!!

Agora que já fiz um breve resumo da minha vida, vamos ao que : o Thomas me convidou para ir ao cinema dois dias depois de ter me dado o conselho jedi de ajudar minha "amiga" Gabriela. Como se fosse POSSÍVEL uma cara como eu, da quinta-feira para o sábado, ter resolvido esse "problema". Não era um ser como o Thomas que já tinha atingido o topo da escala da evolução humana e agora estava orientado os seres menos desenvolvido a fazer o mesmo. Eu não era praticamente perfeito fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Ao contrário, era meramente um hobbit que tinha tido seu braço quase arrancado na ÚLTIMA vez que tentou ajudar a pobre princesa guerreira. Era de se esperar que não conseguisse superar meu trauma em um prazo de tempo tão curto, né?

Ainda assim, topei a ida ao cine, afinal era tudo "free" com direito a um acompanhante. Acho que ele tinha intenções que eu chamasse a Gabriela. O quê, é claro, não fiz. Estava tão desesperado para fugir do assunto que convidei a Natália. Afinal, sabia que ela passaria a tarde toda dando em cima do Thomas, tentado corrompê-lo para o lado hetero da força.

Não que me orgulhe disso. E também não é nada divertido ver a mina que você ama dando em CIMA do seu irmão. Só que seria HUMILHANTE demais admitir minha incapacidade de ajudar a Gabi para o Th. Especialmente porque ele estava sendo super compreensível e gente fina comigo! Portanto, fugi do assunto, me concentrando em ser simpático com o André. E olha que é HUMANAMENTE impossível gostar do André. Deixa explicar o motivo.

Pense em um asiático. O típico olho puxadinho e negro, com cabelos negros e bem lisos... SÓ que eles quase chegam na sua cintura e tem FRANJINHAS. Não é uma cabeleira estilo de Jet Lee, em A Múmia: A Tumba do Imperador Dragão que ainda assim dá um ar MÁSCULO no cara. Não, o André está mais para Suzuka Ohgo de Memórias de Uma Gueixa! Sim, ele parece com uma garotinha, especialmente porque usa umas roupas bem folgada e tem uma voz fininha, então, você pode jurar que é uma garota magrinha, se não for provido de um bom sensor gay como eu.

Além de ser totalmente andrógeno, o André NUNCA olha nos seus OLHOS. Ele cora o tempo todo, olha para baixo, fala em sussurros e, praticamente, pede desculpas por tudo. Minhas mães, meu irmão e a Uri acha isso mó fofo, porém acho isso um SACO! Qual é!!! Aquele garoto é surreal e chato demais para existir. Não é a toa que namora com meu irmão!!!

Ainda assim, aturei o André direitinho. Acho que ele até se surpreendeu por está sendo super bacana. Ou talvez tenha sido o fato de um monte de gente no cine perguntar se eu e o André éramos namorados ou ficantes. O quê até dá para entender. Ele é do meu tamanho e parece muito uma garota fofa de 14 anos. É muito mais lógico imaginar que ele está tendo algo com um cara de 15 anos que se parece com o Frodo do quê o semi deus grego de 21 anos. Quero dizer, a Natty é quem tem tudo a ver com o Thomas porque, como ele mesmo disse, ela tem uma beleza ruiva que rivaliza com a dele. Justamente por isso, as pessoas nunca acreditam que ela é um ano mais nova que eu...

Eu e o André nos divertimos MUITO antes de voltamos para casa. Não podemos dizer o mesmo de Th e da Natty. Primeiro, porque um monte de gente ficou encarando e apontado para eles. Mesmo quê você já esteja acostumado em chamar atenção por ser gostoso, isso deve ser chato pacas. Depois, teve gente que até perguntou se eles eram atores e tal. Acho que isso não incomodou tanto a Natty já que ela aproveitou para fazer propaganda de uma peça que vai participar, mas o Th detesta quando perguntam essas coisas. Por fim, eles ficaram olhando estranho para gente, como se eu e o André estivéssemos dando uma de Frodo e o Sam e não conversando sobre histórias em quadrinhos que é um assunto totalmente másculo e sem interpretações DÚBIAS.

Só sei que quando chegamos em casa, acabei sendo transportado para uma outra dimensão. Embora nossa mesa de jantar permanecesse no mesmo lugar, as cadeiras haviam sido substituídas por pequenos bancos de superfície convexa de madeira escura. O chão estava coberto por uma tapeçaria macia azul, totalmente preenchida por desenho em padrão de medalhões dispostos em diferentes formatos e tamanhos. Na parede, havia um quadro de um casarão peculiar, com telhado de empena ripada, beirais sobressalentes sustentados por masu-gumi, em frente a um lago enorme. Espalhado aleatoriamente pela casa tinha algumas plantas e, perto da escada que levava para os quartos, uma enorme (quase do meu tamanho), estátua do magro Buda sentado.

Eu, Thomas, Natty e André ficamos parados, totalmente chocados, nossos cérebros tentando absorver o quê tinha acontecido na sala nas quatro horas em que estávamos fora.

-Ah, olá! – Minha mãe Naiara nos cumprimentou, normalmente. Seus cabelos castanhos e cacheados estavam amarrados em um elegante rabo de cavalo e percebi que sua pela permanecia com o tom trigueiro que adorava, mesmo ela estando quase um ano sem ir à praia. Ela usava uma saia jeans e uma blusa de bata roxa que caia muito com seu corpo esguio de modelo e qualquer que a visse ali poderia achar que era uma pessoa normal. O quê era um grande equívoco, vale a pena ressaltar.

- O quê foi que aconteceu aqui?- Thomas indagou, visto que conseguiu se recuperar. Eu, por outro lado, estava tentando entender qual mente perturbada havia feito essa decoração tão maluca. Afinal, ela devia ter escolhido APENAS uma cultura, ao invés de sair misturando objetos chineses, persas e japoneses!!

- Não sei. Quando eu e a Anne chegamos, já estava tudo assim...- Naiara respondeu, só que não estava chateada. Longe disso, estava achando tudo curioso e divertido. Acho que isso se deve a mania dela de querer psicanalizar tudo que acontece a sua volta...

- URIEL!- berrou uma voz irada e eu imediatamente desviei meu olhar para a figura que fechava a porta da geladeira violentamente. Era minha mãe Anne. Seus cabelos lisos e negros eram bem curtos, na altura do ombro, a pele era branca e cheia de tanta tatuagem e piecieng que somente a Naiara saberia ao certo o total. - Cadê a porra do saquê???

- O quê faz você pensar que ela teria comprado saquê, amor?- Naiara perguntou, franzindo o cenho, intrigada, parando de observar a Natty que havia se recuperado do choque e aproveitando a nova decoração para forçar o André a tirar umas fotos novas para seu Orkut. Afinal, um de seus grandes hobbies era psicanalizar a Anne.

- Não é essa a tal bebida alcoólica asiática?- a Anne respondeu de volta, sentando em um banquinho ao lado da Naiara.

- Sim, mas a nossa filha é menor de idade...

- E desde quando isso impede de curtir as coisas BOAS da vida?- Anne respondeu, com um sorriso maroto nos lábios que fez a Naiara lhe lançar um olhar repleto de cumplicidade.

- Concordo com você, tia Anne. – a Natália falou, cansando de brincar de modelo e indo se sentar em frente de minhas mães.- Quando mais cedo formos iniciadas nos prazeres da vida, melhor!

- Se pensa assim, quando você vai virar lésbica e namorar a Uriel?- Anne perguntou no jeitão despachado de sempre.

- Ihhhh, está ruim, hein!!!- a Natty exclamou naturalmente.

- Pelo bem da sua saúde física, não encararei isso como uma ofensa pessoal.- A Uriel falou, quase em tom de ameaça, enquanto descia das escadas, absolutamente deslumbrante em seu quimono vermelho escuro estampado com flores douradas. Estava usando uma peruca que deixava com uma cabeleira parecida com a do André e sua maquiagem era tão bem feita que podia jurar que seus olhos estavam um pouco puxados!

- Deixe de melodrama, Uriel!- Natty censurou, enquanto revirava os lindos olhos verdes- Você sabe muito bem que é o sonho de consumo de qualquer garota bi ou homo. Não tenho culpa por ser hetero.

-Em outras palavras, você é uma idiota que gosta de sofrer com um produto de baixa qualidade...- minha irmã continuou, passando por nós com a elegância e displicência de uma gueixa.

- Sugiro então que dê uma entrada no site do Inmetro porque na sua casa reside um produto que está MUITO acima da qualidade exigida pelo mercado de consumo...- a Natty devolveu, maldosamente, dando um olhar de relance para nossa direção. Eu nem me empolguei. Era ÓBVIO que ela estava falando do Thomas.

- Eu só me pergunto se os "produtos" pretende ficar o dia todo em pé na porta da nossa casa ou vão dá o prazer de se sentar conosco...- a Naiara brincou.

O André foi o primeiro entre os "Três Mosquiteiros" a ter coragem de se sentar. Isso porque ele tem menos tempo de contato com elas e não sabe o quanto insano e perigoso aquele quarteto podia ser. Eu e o Th precisamos trocar um longo olhar até reunirmos coragem o suficiente para juntarmos a elas.

- Certo. Agora que está todo mundo reunido, sentadinho e feliz, vamos fazer a pergunta que não quer se calar: CADÊ O SAQUÊ????- Anne praticamente ameaçou, perdendo a paciência.

- Eu não comprei saquê.- Uriel admitiu bravamente.

- O QUÊ?????

- Anne, acalme-se...

- COMO ASSIM VOCÊ NÃO COMPROU O SAQUÊ????

- Falta de tempo. Eu tive que, em quatro horas, transformar nossa sala no Japão antigo. Além, é claro, de me caracterizar a rigor. Não tive tempo de comprar nem a comida e nem a bebida.- minha irmã explicou, dando de ombros.

- Isso aqui não tem nada haver com o Japão. – comentei, ligeiramente intrigado com o equívoco de minha irmã. Percebi que todos olharam para mim intrigado e continuei. – Os banquinhos em que estamos pertencem à cultura chinesa. Os tapetes são persas, essa estatua de Buda é uma replica da escultura de Amitaba, da Disnatia Tang, encontrada nas grutas da Índia. O seu kinomo é coreano. A única coisa japonesa aqui, além do André, seria esse quadro que, acho, retrata o Byodo-in um templo budista próximo a Kyoto. Mas, não tenho certeza, porque acho que a arquitetura japonesa é tudo parecida e essa construção pode ser outra coisa...

Creio que meu nível de nerdísse, com certeza, superou. Eu podia ver que todo mundo me fintava surpreso com que tinha acabado de dizer. Exceto a Natália. Também, ela era minha colega de classe!!! Já estava bastante acostumada com esses meus "ataques de nerdisse"...

- Para mim, aquele quadro era chinês!- admitiu, simplesmente, inclinado um pouco sua cabeça ruiva adornada com os fios brilhantes e sedoso.

- Bom, isso acontece porque a arquitetura japonesa foi influenciada pela China, especialmente com...

- Eu acho que já chega de History Channel por hoje, não?- disse minha irmã bruscamente, interrompendo minha explanação sobre distinção de arquitetura japonesa e chinesa.

- Uriel, deixe de ser má perdedora!- o Th devolveu, calmamente- Só porque Gabriel acabou com sua brincadeira de gueixa não precisa ficar toda chateada.

- Cala a boca, Thomas!

- Ah, foi mal, Uri!- me desculpei, fazendo um irresistível olhar de "me perdoe ou vou chorar". O quê não era muito difícil, já que me semblante está sempre com essa expressão.

-Então, Uriel, em suma, você não fez o jantar e nem arrumou a casa, que são suas tarefas do dia, para redecorar a minha sala de estar?- a Naiara perguntou de jeito calmo, mas totalmente assustador, que só ela sabia fazer.

- E também me caracterizei a rigor!!!- a Uriel acrescentou, levemente chateada por nossa mãe ter se esquecido desse detalhe.

- Mocinha, após o jantar, nós vamos ter uma séria conversa!!- Naiara avisou, porém sabia que não era nada demais. Ela só ia psicanalizar Uriel... de novo.

- Não se esqueça de colocá-la de castigo por causa do saquê!- Anne brincou.

- Ah, vai, porque eu sou tratada como o ser estranho da casa que deve está sendo SEMPRE psicanalizada?- minha irmã protestou- Só temos pirados aqui! Um cara que podia ganhar fortuna trabalhando como modelo, mas quer salvar vidas, uma doida viciada em saquê..

-... na verdade, sou viciada em bebidas alcoólicas em geral!- Anne retificou, com semblante sério.

- ... uma outra que só sabe psicanalizar as pessoas, uma ruiva que se acha uma deusa, um japonês andrógeno e o garoto mais gay da Escola Barão de Mauá, mas que sabe-se lá porque ainda é bv.- ela concluiu, olhando PARA MIM.

Sério, tantos "defeitos" que minha irmã poderia ter dito, desde pudle toy da Natty até "nerd", ela simplesmente optou por me chamar de GAY!

- Uriel, não envolva o Gabriel no seu melodrama idiota!- o Thomas interferiu para me proteger.

- Não é melodrama! Estou dizendo a realidade! Ele já tem quinze anos!! Vamos, Thomas, quando você deu seu primeiro beijo?

- Aos 13 anos...

- E eu aos 11!!! E vocês duas? Quando vocês deram o primeiro beijo?- ela inquiriu as nossas mães com um ar de inspetora policial. Mas as duas apenas trocaram olhares constrangedores e permaneceram mudas. O quê, na linguagem delas, significa que foram bem precoces- Viu que tem algo errado?

É claro que tem algo errado. Minha vida toda era um erro. Eu não sou homossexual, mas sim um cara hetero e louco por mulher. Só que não conseguia dizer isso para minha família. Não com todo mundo me olhando daquele jeito, esperando que falasse que tudo aquilo era mentira, que eu era uma biba sim, que tinha beijado e feito bem mais que isso.

E eu não queria fazer isso. Não sabia que reação eles teriam e se aceitariam bem ter um hetero na família. Além disso, nunca fui do tipo heróico. Não sei enfrentar os problemas de frente. Sei apenas ignorar e fugir deles. E era o quê queria fazer nesse exato momento. Fugir desse assunto, fugir daquela sala.

- Estou com fome. Não seria melhor a gente pedir pizza?- a Natty falou, quebrando aquele silêncio perturbador e atraindo as atenções para ela. Eu pisquei, surpreso, e virei o rosto para encará-la. Ela parecia ter feito de propósito, como se tivesse lido minha mente e percebido como estava incomodado.

- Ah, não! Não comece, Gualbertinha!!!

- O quê foi que eu fiz, Uriel?

- Toda vez que tocamos no assunto de arranjar um namorado para o Gabriel, você sempre dá um jeito de distrair a família para outra coisa!

Eu franzi o cenho. Parando para pensar, aquilo era TOTALMENTE verdade. Sempre que a Uriel tocava nesse assunto de arranjar algum homem para mim, tentando ver se achava algum apoio da família à idéia, a Natty sempre dava um jeito de mudar de assunto.

- Você está exagerando!- a ruiva se defendeu e simulou tão bem sua inocência que, somente se você a conhecesse como eu perceberia que ela estava mentindo.

- Além disso, quando alguém faz uma brincadeira ou diz algo a respeito do Gabriel ser gay, você perde a cabeça e faz algo para sacanear com a pessoa! A Catarina me contou do pequeno desentendimento de vocês...

Outra verdade que nunca tinha percebido até agora!! Sim, a Natty não suportava que alguém comentasse a respeito da minha "suposta" opção sexual. Ela fica puta da vida. E agora que minha irmã comentava, aquilo era muito esquisito.

- Eu estava defendo seu irmão de pessoas preconceituosas! Era de se esperar que você fosse compreender!

- E você olha intimidador para qualquer garoto gay que tente se aproximar do Gabriel.

- Lamento de não ir com a cara de garotos que não saibam admirar minha beleza!

- Você não faz isso com Thomas!!- Uriel insistiu.

Eu desisti de franzi o cenho. Nem em um milhão de anos eu conseguiria entender o Código Morse das mulheres. Especialmente se as duas ainda o usam em hebraico, como a minha irmã e a Natty.

Lancei um olhar para Naiara do tipo "O barraco está rolando na sua casa e você não vai fazer nada?". Todavia, ela parecia que estava simplesmente se divertindo, como se com aquela discussão, ela pudesse penetrar nas profundezas da alma das litigantes. A Anne, por sua vez, estava apostando com Thomas qual das duas mataria a outra primeiro.

-... ridículo! Só falta você querer fazer uma festa gay debutante para o Gabriel!!!- a voz da Natty me trouxe de volta a briga.

- Isso me parece uma ótima idéia!- A Uriel exclamou, satisfeita, o rosto iluminado com o sorriso.

- Tenha santa paciência!- a ruiva bufou, mas foi ignorada.

- E então, mães? O quê acham?

- Eu apostei cinqüenta reais que você mataria a Natty primeiro, filhota. Não me desaponte!- foi tudo o quê Anne falou, seus olhos castanhos esverdeados impregnados de maldades.

Minha irmã revirou os olhos.

- Mãe, isso é um assunto S-É-R-I-O! Então, o quê você acha?- ela tentou mais uma vez, desta fez encarando a Naiara.

- O Thomas não precisou de uma festa gay debutante...- ela respondeu, dando de ombros.

- Mãe, ele é o Thomas.

- E...?

- Não deve julgar Thomas como um SER NORMAL.

- Isso é verdade...- a Natty concordou.

- Heeeeeeeeeeeey!- Thomas protestou.

- Só porque sou bonito...

-...perfeito.- retificou Uriel.

-... isso não quer dizer que é fácil achar um namorado. Ao contrário, complica muito. Porque é difícil saber quando o cara quer só transar com você ou realmente te ama.

- Isso é uma verdade universal...- a Natty concordou de novo.

- Mas, o Gabriel não é tão bonito quanto o Thomas, portanto não sofre desse problema. Por isso, acho que deveríamos dá uma Festa Gay Debutante para apresentar o Gabriel aos homossexuais machos do mundo e arranjar um namorado para ele. – concluiu Uriel.

- Eu acho que o ritmo do Gabriel é diferente dos outros gays e é só dá mais tempo para ele que logo teremos mais um integrante na nossa o família!- falou Naiara.

- Eu acho que o Gabriel tem medo que a gente vai comparar o namorado nerd dele com o André. Está tudo bem, amor, você não é nenhum Thomas da vida, então não esperamos muito de você!- essa frase "animadora" foi de minha mãe Anne.

- Eu acho que o Gabriel é um cara monogâmico e romântico, como eu, que só precisa achar a pessoa certa!- disse o Thomas.

- Eu acho que o Gabriel é heterossexual...- comentou o André.

Houve um pequeno silêncio na sala, antes do Thomas, Uriel, Naiara e Anne explodirem em gostosas gargalhadas.

Fala sério, Deus, com 6,6 bilhões de pessoas no mundo, por que o Senhor só sacaneia comigo????

- André, meu anjo...- Thomas falou, docilmente, acariciando a nuca do namorado-... isso é impossível.

- Todo mundo sabe que Gabriel é um Frodo que anseia pelo encontro de seu Sam...- a Uriel esclareceu e, aproveitando o ensejo, acrescentou-... então, devemos fazer a festa de debutante gays!

- Não na minha casa. A última vez que você fez uma festa aqui, você destruiu quase tudo e tivemos que reformar a casa!- a Naiara proibiu, olhando feio para minha irmã. Ela adorava festa, só que amava muito mais o conforto de seu lar, coisa que era impossível após as festas de Uriel. - Bom, eu vou pedir para entregarem em casa comida tailandesa e bebidas.

- Não se esqueça de pedir meu saquê!- Anne lembrou, quando a Naiara se levantou, lançando um dos seus olhares pidões que, com certeza, ela não resistiria.

- E eu vou pegar um remédio para meu estomago!- murmurei, aproveitando a desculpa de ter refluxo para sair daquela sala. Estava com raiva de todo mundo. Como podiam achar engraçado a pura realidade? Era tão patético assim o fato de eu ser hetero?

Não, pior do que isso. Eu era patético por, ao invés de berrar com todo mundo revoltado e me assumir, simplesmente me recolher para meu quarto absolutamente derrotado de uma luta que nem sequer travei.

Me joguei de qualquer jeito na cama e podia sentir que estava prestes a chorar quando uma voz suave me chamou do batente da porta.

- Gabriel?- era o André. O idiota que estragou meu dia.

Não respondi na esperança que isso o desencorajasse e o fizesse sair do meu quarto, mas o efeito foi o contrário. Ele simplesmente entrou e se aproximou da minha cama.

- Eu só queria dizer que entendo como é...

- Como é o quê?- perguntei, ríspido.

- Ser...hm... a ovelha negra da família. Ser o diferente.

-Eu não estou a fim de conversar com você sobre como é chato parecer um dos membros dos Ursinhos Carinhosos...- escarnei, referindo ao fato de nós dois termos caras de bebê chorão e sermos extremamente "fofos" pra o padrão masculino.

- Não... eu...hm... queria dizer...hm... o fato de você ser o único hetero em meio a uma família de homossexuais. Eu era o único gay na minha família de heteros.

Eu pisquei. Me levantei e sentei na cama rapidamente, fintando o André como se ele tivesse me contado que ele era um enviado do Charlies Xavier para me convidar a entrar nos X-Mens.

- Como...?

- Eu apenas senti...- ele respondeu, misteriosamente.

Uma resposta muito esquisita, mas qual é! Era vinda do André! Ele era esquisito, então aquilo deveria ser normal. Além disso, parecia que ele estava tentando me ajudar.

-Hmmm...

- Você devia se assumir.

- Por quê???

- Porque não serve nada você viver uma vida que não lhe pertence. Isso só vai lhe impedir de ser feliz.

- Mas, eu sou feliz!- e era verdade. Sou um cara fudido por Deus, porém feliz. Acho.

-Eu sei. Você tem uma família bacana e amigos legais...- ele respondeu, calmamente, e eu quase o questionei sobre a parte do "amigos legais". Parece que a intuição do André não servia para dizer que a ruiva que vive dando em cima do namorado dele não é nada legal. – Mas, amorosamente, você é incompleto. Você é infeliz. Nunca vai conseguir achar sua cara metade se continuar negando quem você é.

Por um instante, uma aura de sabedoria parecia ter envolvido o André, como se ele fosse um monge dando conselho a um pupilo seu. E exercendo meu papel de bom "garfanhoto", indaguei:

- Do quê adianta ganhar uma vida amorosa e perder o carinho e respeito minha família?

- Você não vai perdê-los e sim ensiná-los a aceitá-lo como é.

- Eles vão me tratar como uma aberração!!!

- Com certeza, eles ficarão chateados com o fato de você ser diferente deles. Mas, eles vão respeitá-lo. A Naiara e o Thomas, com certeza. A Anne demorará um pouco mais. Já a Uriel...

-... vai me torturar até a morte quando descobrir que não serei o irmão andrógeno gay que ela sempre sonhou em ter!- acrescentei, engolindo em seco. A imagem da Uriel irritada atormentava meus piores pesadelos.

- Faria isso, provavelmente, se...hm... você não fosse protegido pela Natália.

-Hein?

-Você nunca percebeu que a Natalia protege você?- ele perguntou, espantado, como se eu não compreendesse que dois mais dois era quatro- E ela não achou nada divertido quando disse que você era hetero. Diria que ficou até mais irritada que você quando sua família começou a rir.

Minha cabeça estava girando. Do quê o André estava falando? Era da MESMA Natália Gualberto? Porque aquilo não fazia sentido... ou talvez, fizesse. Tipo, eu sentei do lado dela e estava tão vidrado na reação da minha família que nem reparei na ruiva.

- Eu..hm... até sinto que ela...- André começou, mas dessa vez não conseguiu terminar, porque a Natty simplesmente surgiu na porta do meu quarto, glamorosa como sempre.

- André, o Thomas está lhe chamando!- ela avisou, encarando com seu típico ar de superioridade.

- Bom, eu já vou indo. - ele falou, totalmente sem graça e intimidado com a Natália. Todavia, quando André fez menção de sair do meu quarto, eu fiz minha ultima pergunta de aprendiz de Kong Fu.

- Por quê você veio até mim falar essas coisas?

Afinal, se ele era tão intuitivo assim, já deveria ter sacado que não ia muito com a cara dele. André, por sua vez, simplesmente deu um sorriso gentil.

- Nunca deixe de ajudar alguém, se você tem a oportunidade de fazê-lo. É o quê penso.

Uau. O André era um cara esquisito, porém bem legal. Talvez, fosse por isso que o Th o amasse tanto assim. Sei lá...

Só sei que ele também me deixou bem confuso. Passei minha mão pelos meus cabelos louros cacheados, tentando digerir o quê ele havia me aconselhado. Desde o fato de me assumir como hetero até a sua filosofia de ajudar ao próximo se tivesse a oportunidade. Isso significa que deveria também ajudar a Gabriela?

Apenas me dei conta da realidade quando a voz da Natalia me censurou:

-Tarado!!!

Virei o rosto a procura da Natty só para perceber que ela havia aproveitado meu momento de distração para deitar sua cabeça no meu colo. Ela podia ser bem silenciosa e discreta e eu podia ser bem desligado e tapado às vezes. Olhei para ruiva confuso e ela continuou, dessa vez em tom acusatório:

- Dando em cima do namorado do seu irmão hoje, seu sem vergonha!

- O quê????

- Como assim, "o quê"? Primeiro, você fica todo assanhado no cinema e agora te pego no SEU quarto com o André!

- Você entendeu tudo errado!!! Eu não estou dando em cima do André! A gente estava só conversando!!!

- Sei...- ela disse, em um tom nada convencido.

- Sério, eu não gosto dele. Além disso, quem em sã consciência trocaria o Th por mim?

- Um homem que gosta de se parecer com uma garotinha fofa não me parece está em sã consciência.- ela refutou, ainda cheia de suspeitas.

- Natália!- quase gritei, exasperado.

- Eu estou brincando, sua besta!- ela declarou, rindo da minha reação- Eu sei que André não faz seu tipo.

- E qual seria meu tipo?- perguntei, meio irritado. Detestava quando ela ficava com aquele ar de sabichona, como se eu fosse um livro que ela sabia do inicio ao fim.

A Natália não respondeu. Apenas ficou me encarando com aqueles olhos verdes esmeralda como se pudesse auscultar a minha alma. Por fim, um sorriso maroto se formou nos seus lábios vermelhos carnudos.

-Eu me divirto mais fazendo com que você pense que não sei.- respondeu, toda misteriosa- E, mudando de assunto, tire aquilo da sua cabeça.

- "Aquilo" o quê?

- De ajudar a Gabriela só porque o André lhe deu alguns conselhos.

Eu pisquei. Será que a Natalia era a Jen Grey dos X-Mens e nunca me contou isso? Porque não havia nenhuma outra explicação aceitável para o fato dela conseguir ler meus pensamentos com tanta facilidade.

- Ela está passando por momentos difíceis..

- "Momentos difíceis"? Céus, Gabriel! É só um coração partido. Não é nada tão grave assim.

- Só que ela não vai ter o apoio da Catarina para superar esse momento difícil.

- Quem manda ela se apaixonar logo pela melhor amiga? Somente uma burra para se apaixonar por alguém que nunca corresponderá seu amor!

Obrigada, Natália, por me chamar de burro. E depois, você se diz minha melhor amiga.

- Mas..

- Não, nada de "mas"!- ela interrompeu, sentando-se ao meu lado na cama. O quê era meio esquisito, já que ela era uns 7 cm mais alta do quê eu. Outra sacanagem divina, ser mais baixo que a mulher que se ama- Escuta, nós somos a dupla dinâmica "Natália e Gabriel" assim como "Batman e Robin". Não existe "Batman, Robin e Superman" assim como não deve existir "Natalia, Gabriel e Gabriela". É ilógico!

- Mas existe a LJ para isso!- e ao ver a cara confusa da Natty, expliquei- LJ significa Liga da Justiça, saca? Onde o Batman trabalha junto com o Superman, Mulher Maravilha, o Flash, cara eu adoro o Flah, e..

- Gabriel!!!!- agora foi a vez da Natty de quase gritar exasperada.

- Ok, ok, ok. Você acha que não nós devemos ajudar a Gabriela.

- "Nós" o cacete! Eu nunca quis ajudá-la. E você deve fazer o mesmo.

- Não acho que isso seja uma atitude muito nobre...

- Desde quando deixar a Gabriela fazer todo o trabalho em equipe sozinho enquanto nós íamos para as festanças que o Zé Lambão dava era algo nobre? E ainda assim a gente fazia isso o tempo todo!- Natty lembrou e eu senti meu estômago embrulhar de culpa- Além disso, quando for uma atriz famosa, terei feito tantas doações a entidades carentes que já terei comprado meu lugar no inferno. Para quê me preocupar em ser nobre?

- "Inferno"? Você quis dizer "céu", não?

- Não, inferno mesmo. Ora, por favor! O quê uma gata como eu faria em um lugar onde só há seres absolutamente belos só que SEM SEXO? O inferno é bem mais divertido...

Eu gargalhei. Fala sério, como não ri com uma teoria tão louca assim? A ruiva pareceu satisfeita com isso e continuou, me olhando como uma gata manhosa:

- Para quê interferir na vida da Gabriela? Ela foi burra por escolher ser amiga da pessoa errada. Além do mais, já estava obvio que amizade delas não duraria muito. O quê aconteceu na casa da Catarina foi apenas uma conseqüência das coisas que estavam em processo há alguns anos.

- Que coisas?- indaguei, surpreso.

- Céus, às vezes você é tão desligado! Existe vida além dos livros e dos quadrinhos do Homem-Aranha, sabia? Primeiro, a Gabriela se apaixona no final da sexta série pela melhor amiga hetero. Ora, é óbvio que chegaria um momento em que ou ela se afastaria da Catarina para esquecê-la ou se declararia. Além disso, no início da oitava série, depois de ter participado daquela peça comigo no Show de Talentos da escola...

-... que foi muito foda por sinal!

-.... sim, eu estava espetacular. Voltando ao assunto, a Catarina experimentou uma fatia do bolo chamado "popularidade" e não quis mais parar. E todo mundo sabe que a Gabriela detesta essa coisa de popularidade, embora, sei lá a razão, ela seja consideravelmente famosa na nossa escola.

- Ah, isso porque ela é bonita. Quero dizer, dentro dos padrões normais de beleza, diferente de você - expliquei, rapidamente, quando a Natty fez uma carranca- E ela é gente fina, inteligente e rica. Acho que é natural alguém assim acabar se destacando.

- Tanto faz!- ela falou, sem dá muita credibilidade ao que tinha dito- Apesar de ser contra pessoas que fazem tudo para serem populares, a Gabriela foi agüentando tudo calada, por amor a Catarina, achando que um dia ela voltaria ao normal. Só que a anta errou feio e a bomba estourou naquele dia do trabalho da Revolução Francesa. Em outras palavras, a Gabriela poderia ter dado um fim nisso tudo inicio, afastando-se da Catarina quando ela começou a mudar, mas não fez e agora está pagando pelas conseqüências.

- Como alguém egocêntrica como você percebeu essas coisas acontecendo?

- Como alguém inteligente como você não percebeu essas coisas acontecendo?

- Acho que sou altista.

- Isso explicaria um monte de coisa!- Natty brincou, rindo. – Só que nada do quê eu disse lhe convenceu, não é?

- Não muito. Você ainda não me deu um bom motivo para eu não amenizar as conseqüências das escolhas dela.

- E se eu dissesse que sua interferência na vida de Gabriela é a escolha que vai desencadear o fim de nossa amizade?

- Eu diria que você está se drogando antes do estrelato...- respondi, sensatamente. Afinal, se desde meus 7 anos eu era maltrato pela Natty e ainda assim permanecia fiel, não seria agora, só por causa da Gabi que tudo mudaria.

- Gabriel, sua anta andrógena!- Natália falou, ríspida, dando um tabefe na minha cabeça- Coloca seus poucos neurônios para pensar. Quando a Gabriela andar conosco com quem você vai passar maior parte do tempo? É óbvio que é com ela. Conversando nerdisse sobre livros, estudos e coisas do gênero. E eu vou ficar de fora, sem entender absolutamente nada, enquanto vocês discutem sobre Harry Potter, Crepúsculo e sei lá mais o quê!

- Eu não gosto de Crepúsculo!- respondi, amargurado, acariciando o local que a ruiva batera batera. Qual a graça em um livro no qual quase todos os personagens masculinos são absolutamente perfeitos? Isso é tão surreal. Ao menos que seu nome fosse Thomas ou Natália, é claro.

- Você entendeu. O quê eu quero dizer é que vocês vão se dá super bem juntos e logo você vai preferir ficar com ela!!!!- Natty concluiu, baixinho e insegura. Por um minuto, achei que estivesse fazendo biquinho e manha, daquele jeito mimado que só ela sabe fazer. Depois percebi que não era isso. Ela olha para baixo, triste e pensativa, sem me fintar. Parecia à bela estatua esculpida por Pigmaleão.

- E se eu prometesse que não permitiria que a Gabriela interfira na nossa amizade, você acreditaria em mim?

- É claro que não!- ela respondeu, me olhando, na maior cara de pau- A menos que...

- Que...?- indaguei, de má vontade, chateado com a falta de confiança dela em mim.

-... que você vá amanhã comigo em um terreiro de macumba e aceite fazer uma magia negra para, caso você não cumpra sua promessa, seu pênis apodreça.

- QUÊÊÊÊÊ???????

- Ah, qual é, Gabriel! Você sabe melhor do que eu que homens só cumprem suas promessas quando as fazem usando a cabeça de baixo e não a de cima!!!- Natty falou, cruzando os delicados braços.

- Ridículo!- bufei, indignado. Não negava que o quê a ruiva afirmava tinha uma parcela de verdade, mas porque tinha que envolver meu pau nessa história? E se a porra da magia der errada e eu perdesse o dito cujo?

- Viu só???? Se você fosse homem de palavra, não se incomodaria de fazer esse pacto comigo!!!- ela protestou, fazendo beicinho.

- Porque o meu pênis entra nesse pacto doido enquanto seu clitóris fica de fora?

- Porque EU sou MULHER! Além do mais, já perdi a conta de quantos garotos absolutamente belos eu fiquei e isso NUNCA arruinou nossa amizade.

Touche!

A vilã da novela das oito atacara novamente, perfurando-me com seu florete da verdade.

- Sem contar que você é um nerd tímido totalmente sem vocação para arte da paquera. Não duvido nada que você vire um pau mandado da mulher que você ama!! - acrescentou a ruiva, não satisfeita em ver o cachorro ferido no chão sem finalizar com um pontapé.

Eu suspirei.

Os argumentos estavam a favor dela... a lógica beneficiava a Natália. As coisas estavam indo bem como estavam. Quero dizer, tirando a parte de das pessoas acharem que sou gay e a mulher que amo ser uma sádica que quer que meu pau apodreça, não tinha mais problemas nenhum. Eu tinha uma família que, embora fosse totalmente pirada, me amava e uma melhor amiga que me protegia (segundo André). Em suma, eu estava seguindo uma estrada na qual conhecia cada pedra, cada arvore, cada curva... sabia EXATAMENTE o que viria se seguisse nessa estrada.

Então... para quê mudar de caminho agora? Para que desviar e fazer algo que não é do meu feitio, como ajudar a Gabriela? Eu não faço idéia do que aconteceria... A Gabi aceitaria me ajuda? Confiaria em mim? Ou me chamaria de hipócrita? Isso poderia afetar MESMO minha relação com a Natália? Eu poderia mesmo perdê-la?

Olhei para o rosto de serafim da Natty. Os lábios vermelhos carnudos, a pele branca macia e desprovida de qualquer imperfeição, o cabelo ruivo que caia perfeitamente sobre seus olhos verdes, a sua maquiagem que, ao mesmo tempo em que ressaltava mais sua beleza, ostentava sua grande vaidade.

Ela estava insegura. Havia medo naqueles olhos felinos, embora ela tentasse encobri-lo, me encarando com desafio.

Porém...

A primeira Lei de Newton, o Princípio da Inércia, diz que na ausência de forças, um corpo em repouso continua em repouso, e um corpo em movimento, continua em movimento retilíneo uniforme.

Eu não poderia continuar seguindo o mesmo movimento contínuo e uniforme que minha tinha tomado, pelo simples fato de que agora uma força atuava em mim. A força da tristeza dos olhos de Gabriela. Não conseguia simplesmente ignorá-los.

- Natália...- chamei e senti seus olhos esperançosos pousarem sobre mim.- Eu decidi que ajudarei a Gabriela. Não se preocupe porque nada, escute bem, nada mesmo, nenhuma pessoa, nenhuma distancia, nenhuma situação vai me separar de você. Nem mesmo quando você se tornar uma atriz famosa. Eu prometo e faço essa macumba doida se isso for te deixar segura.

A ruiva ficou boquiaberta, totalmente estupefata. Acho que devia ter sido pelo fato de ter conseguido falar tudo isso sem me perder nas belas esmeraldas dos seus olhos. Ou, talvez, por ter cerrado o maxilar, sério, após dizer isso.

E já estava esperando que assim que saísse do seu estupor, a ruiva partisse para cima de mim e fizesse churrasquinho de hobbit no jantar. Porque, se tem uma coisa que a Natty odeia, é quando alguém faz pé firme e contraria suas vontades (que, na verdade, estão mais para ordens).

Qual foi minha surpresa, então, quando, ao invés de me encher de tabefes e unhadas, a ruiva simplesmente me encarou gentil e meiga e se atirou nos meus braços?

Eu não entendi nada. Tentava arranjar alguma explicação para aquilo, só que era complicado sentido o busto da Natty (ainda que coberto pelo vestido) pressionando meu peito, seus braços envolvendo meu pescoço, sua respiração fazendo cócegas no meu rosto, seu perfume atordoando minha mente...

- N...n..natty?- gaguejei.

Ela estava de TPM??? Ou será que...

... ela resolveu dá para mim para que mudasse de idéia?

"Não se esqueça, Gabriel, que comer a Natty é perigoso" censurei para mim mesmo mentalmente "Do jeito que ela é, é bem capaz que ela te mate se você não consegui fazê-la ter orgasmos múltiplos"

"Mas, e daí?" sussurrou uma voz maliciosa no meu ouvido "Você vai morrer de qualquer jeito, que seja nos braços de uma deusa!!!"

Nem preciso dizer que essa última voz venceu, não é? O meu tesão pela Natty subia e estava cada vez difícil não agarrá-la ali mesmo. Parecia que a Gabi teria que se virar sozinha porque eu ia comer a ruiva sem pensar duas vezes.

Foi aí que a porta se abriu e o Thomas entrou todo gracioso no quarto. Ele lançou um olhar desconfiado para a gente, antes de perguntar:

- O quê vocês dois estão fazendo?

- Ora, ficou com ciúmes de mim, Th?- Natty falou de brincadeira, pousando seu rosto perfeito no meu peito apenas para provocar meu irmão. Fiquei com medo que o ritmo acelerado do meu coração denunciasse que eu estava louco por ela.

Thomas apenas revirou os olhos.

- A comida chegou. Vocês dois parem de ficar se isolado do mundo e, por favor, desçam.

-Sim, meu senhor.- Natty brincou. Havia muita malicia no "Meu" quando ela pronunciou.

O Th simplesmente ignorou e saiu do quarto. Ele tinha se acostumado com as cantadas da Natália, embora nunca conseguisse entender como alguém fica imune a sedução de uma beldade como ela.

Logo em seguida, a Natty se desvencilhou de mim e levantou-se. Eu fiquei puto com o Thomas. Por que ele tinha que interferir?

- Então, vamos comer?- ela convidou, olhando-me de perfil.

- Vamos...- murmurei, totalmente desanimado.

-Gabriel...- ela chamou, gentil e eu imediatamente a olhei. Será que ela ia dizer que daria para mim se não fosse fazer pacto imbecil?- ... amanhã pela manhã nós vamos ao terreno fazer a macumba, está me ouvindo?- ela ameaçou, estreitando os olhos perigosamente.

Rapidamente, coloquei a mão no meu pênis, como se o olhar da Natty fosse apodrecê-lo.

-Hmmmm... ok!- respondi, assentindo de leve com a cabeça.

Então, ela sorriu, com aqueles dentes perfeitos e brancos, o semblante uma expressão feliz.

E embora tivesse certeza que mulheres eram extremamente loucas e desprovidas de lógica, eu me senti relaxado e bem ao ver aquela expressão nela. Achei que seria capaz de enfrentar qualquer coisa, se tivesse sempre aquele sorriso ao meu lado.

Eu finalmente achei que pararia de cair naquela merda de abismo e finalmente tinha encontrado um piso para me apoiar e voltar a escalar.

Só que o piso era falso e o Gabizinho aqui que se ferrou...

PAPO FURADO

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E finalmente mais uma atualização de Ovelha Negra!^^ Por enquanto, este capítulo sendo o meu favorito, uma vez que finalmente a espirituosa e voluntaria da está Natália aceitou fazer uma participação decente nessa fic. Acho que ela está começando a ficar frustrada ao perceber que os fãs preferem Gabriela a ela^^`

Deu para perceber, com esse capítulo, que vocês não devem acreditar em 100% do que o Gabriel, diz não é? A Natty não é tão diabólica e ruim quanto ele afirma ser. Ela é o tipo de pessoa que demonstra sua afeição por ações e não palavras e como Gabriel é meio tapado, ele não saca muito bem as indiretas que a ruiva dá.

Além disso, Natália conseguiu esclarecer aquela confusão do Capítulo I. Creio que agora vocês devem entender o quê realmente houve e perceber que não foi tão exagerado assim. Ou, pelo menos, assim espero...

Por fim, gostaria de dizer que, com esse capítulo, eu encerro o início da história. O personagem principal foi apresentando, assim como seus problemas, seus amigos, sua visão de mundo, sua família e como ele se relaciona com todos. Daqui para frente, será o desenvolvimento da história, o conflito e como Gabriel vai solucioná-lo. Só que não vou adiantar nada, porque só tenho breves noções do que vai acontecer ^^'

Bom, por hoje é só, pessoal. Aguardo seus comentários para saber o quê estão achando.

Nome: Gabriel Mont'Alvert V

Idade: 15 anos

Data de Nascimento: 16 de Janeiro de 1994

Tipo Sanguíneo: AB –

Família: Naiara Cotrim Guimarães (mãe), Anne Guimarães Cotrim (mãe), Thomas Guimarães Cotrim (irmão mais velho), Uriel Cotrim Guimarães (irmã mais velha)

Cor favorita: Azul escuro.

Prato favorito: Pizza de Calabresa

Prato que detesta: Qualquer coisa que envolva pimentão

Matéria Favorita: História

Matéria que Detesta: Educação Física

Hobby: Ler livros e estudar sobre civilizações antigas.

O quê mais deseja no momento: que as pessoas parem de encará-lo como gay (e um espaço maior para sua coleção de HQs).

Opinião da autora sobre o personagem: Mesmo sendo o único personagem que já tinha sido definido antes de começar a história ("um garoto que tem fama de gay, embora fosse heterossexual e louco por mulheres"), confesso que foi uma surpresa ele ter se revelado fã de HQs e ser um CDF.

Ainda assim, Gabriel me dá algumas dores de cabeça^^'. Apesar de ser apaixonada por personagens masculinos, detesto ter que escrever tudo na perspectiva de um garoto, utilizando-me de termos que para mim são... hm... baixos, mas que sei que para alguém do sexo masculino seriam normais.

Além disso, o Gabriel é muito passivo. Talvez, o fato de Natália ser agressiva e lutar sempre no seu lugar, o tenha moldado nessa forma. Ou quem sabe é só sua falta de auto-estima mesmo. O negócio é que o Gabriel dificilmente toma uma decisão e corre atrás dela, e, quando escrevo, tenho vontade de gritar com ele, de mandar reagir, lutar, fazer alguma coisa...¬¬'

Outro problema de Gabriel é sua capacidade de provocar ódio e pena, ao mesmo temo. Assim, não é difícil, se solidarizar com a dor dele, quando tudo em sua vida vai mal, e, em algumas linhas seguintes, ter vontade de socar sua cara, por ele ser frio, calculista e interesseiro. E ter que escrever isso, imaginar essas situações e suas prováveis reações, sem que pareça forçado ou fora da maturidade de sua idade, exige muito de mim.

Sinceramente, não sei se o Gabriel vai crescer ou não ao longo dessa história. Se ele vai aprender a jogar com as cartas que recebeu, ao invés de ficar reclamando e reclamando de Deus e do mundo. Se a Gabriela vai conseguir acrescentar um pouco de cor ao seu mundo cinza ou se a Natália vai ensiná-lo que, às vezes, lutar é necessário para seguir em frente. Não sei se ele conseguiria superar seu complexo com relação a Thomas (que, em minha opinião, está mais para inveja beirando a ódio) ou se assumir perante a família.

Por ele não ser apegado a moralismo, vocês não vão encontrar em sua perspectiva de via uma bela lição de valores. No máximo, haverá algumas críticas ácidas que ele nutre por ser marginalizado pela sociedade e filosofias de vidas, umas utópicas outras até egoístas, dos outros personagens com que Gabriel relacionará.

Portanto, o quê será, será, certo, Gabriel?