As personagens élficas aqui reconhecidas não me pertencem, mas sim a J.R.R Tolkien, mas a originalidade da história e algumas personagens pertencem somente a mim... e talvez à minha amiga que me ajudou, indirectamente, nos nomes das personagens.
– VI –
A noite chegou e o banquete estava prestes a começar, os convidados começaram a entrar no enorme salão branco pelas duas portas principais, ao lado de cada porta estendia-se ao comprido um tapete com os brasões e as cores dos Reinos de Valinor, os convidados também começaram a instalarem-se nas mesas vestidas com toalhas brancas e decoradas em dourado, as enormes mesas estavam postas como um quadrado sem um lado, com a mesa principal, um pouco mais pequena que as outras duas, na vertical. Na principal mesa sentavam-se Elrond e os seus filhos, Galadriel e Celeborn, Telas, esposa de Elrohir, Nhatas e Elros, filhos de Elladan, e Sónia. Na mesa à direita sentavam-se Legolas e o seus netos, Thünir, Culion e Friêr, os companheiros de viajem de Legolas e os representantes dos Teleri de Aman. Na mesa à esquerda sentavam-se os representantes dos Noldor e dos Vanyar. Mas na mesa principal duas cadeiras encontravam-se vazias, Nhatas e Sónia não se encontravam na mesa, Elrond e mais alguns começavam a ficar impacientes pela demora das duas, principalmente da mortal, então Elrond olhou para o seu filho mais velho Elladan e perguntou-lhe pela sua neta.
– Eu avisei-a para que não demorassem. – defendeu-se Elladan – Vou ver o que as atrasa tanto. Peço permissão. – Elrond aceitou e Elladan levantou-se pedindo desculpas aos presentes na mesa fazendo que vários resmungos baixos, principalmente vindos da mesa à esquerda, soassem pelo salão enquanto que Elladan saia de uma das portas inferiores. – Não devia confiar a Sónia à Nhatas nestas ocasiões. – resmungou Elladan enquanto avançava pelos corredores, finalmente chegou à porta do quarto de Sónia, a porta estava entreaberta e Elladan entrou vendo a sua filha à frente da porta fechada do quarto de tomar banho e de se vestir.
– Sónia, por favor. – dizia Nhatas – Sai daí, o banquete já começou e estão à nossa espera, devem estar furiosos pelo o nosso atraso.
– Eu não vou. – respondeu Sónia do outro lado da porta – Aquilo está cheio de elfos, ainda por cima superiores.
– Sónia, não sejas... Pai! – Elladan aproximou-se e perguntou o que se passava – A Sónia fechou-se ali dentro e agora não quer sair.
– Quem está aí? Nhatas?
– Elladan é o meu nome. – respondeu Elladan – Diz-me a razão por não quereres sair.
– Eu não quero ir ao banquete.
– E porquê?
– Porque... porque aquilo está cheio de elfos. Eu não quero ir para lá.
– Oh Sónia, Sónia. – riu-se Elladan – Estás com vergonha de ir ao banquete.
– Eu não estou com vergonha. – defendeu-se Sónia sabendo que era um pouco de mentira – Só não gosto de salas com muita gente. Ainda por cima cheia de seres maravilhosos e superiores, e eu? No meio dessa gente não passo de...
– De outro ser maravilhoso. – disse Elladan sorrindo adivinhando os sentimentos de Sónia – Não devias pensar assim da tua raça. Devias ter orgulho dela.
– E quem disse que não tinha? Só que... eu não quero ir, pronto.
– Está bem. Fica aí, assim não ouvirás histórias e belas melodias. Um maravilhoso jantar nossa companhia. – fez-se silêncio – Vamos embora Nhatas, deixemos Sónia sozinha e vamos transmitir aos nossos convidado, que vieram de tão longe só para vê-la, que ela não quer os ver e a nossa família ficara mal vista nos reinos. – fez-se outro silêncio, depois Sónia falou.
– Está bem. Eu vou... não quero ficar com remorsos depois. E já comia alguma coisa. – Elladan sorriu vitorioso.
A porta abriu-se e Sónia saiu, estava muito bela com o vestido que Legolas e Thünir ofereceram, com os cabelos arranjados e apanhados atrás numa espécie de rabo-de-cavalo, mas como os cabelos estavam escadeados, a beira ficava solta deixando-a ainda mais bela, claro que não era tão bela como uma donzela élfica, mas estava bonita. Elladan arregalou os olhos apreciando a beleza que Sónia transmitia, quando esta olhou para Elladan abaixou os olhos envergonha e rosou levemente. Nhatas sorriu e depois de elogia-la, levou-a para o salão do banquete juntamente com o seu pai que não falara ainda impressionado com Sónia. Quando Sónia entrou no salão, todos os olhos puseram-se nela e esta abaixou a cabeça envergonhada, sentou-se entre Nhatas e Elros sem dizer uma única palavra. Depois de Elladan se sentar e de explicar muito brevemente o que acontecera ao seu pai e ao seu irmão, Elrond levantou-se e falou muito respeitadamente.
– Meus Senhores, minhas Senhoras. Teleri, Noldor, Vanyar, Rei Legolas Greenleaf, Senhor da Floresta Nova e dos Teleri da floresta, e Galadriel e Celeborn. Agradeço a todos que tenham vindo à minha casa conhecer Sónia Abreu, a mortal que os Valar deixaram viver entre nós. Sei que muitos vós a sua presença não agrada, enquanto a outros ela é estimada, mas peço aos restantes que não a odeiam por ser humana, por ser diferente. Peço-vos que, antes de odiá-la e antes de tirarem conclusões precipitadas, que venham conhecer a sua história e mesmo conhecê-la a ela própria, apesar de muitos de vós não puderem ficar por mais algum tempo, visto que alguém se atrasou. – Elrond olhou para Legolas e alguns risos fizeram-se ouvir – Mas agradecia que os representantes dos líderes dos reinos élficos de Aman transmitissem as minhas palavras aos vossos Senhores. – fez uma breve pausa – Agora que se dê início ao banquete que vocês, meus Senhores e minhas Senhoras, devem estar a crer comida, que depois do banquete irá haver uma festa no Salão do Sol. – assim que Elrond sentou-se, vários criados entraram no salão com bandejas e jarros com vinho, e começaram a servir os convidados. Algum tempo depois os convidados e anfitriões começaram a conversar alegremente, mas Sónia continuava calada e parada no seu canto sem ainda ter tocado na comida.
– Não comes? – perguntou Elros subitamente, Sónia olhou-o – A comida não está ao teu agrado?
– Como posso eu saber. – disse Sónia sentindo-se mais aliviada – Ainda não a provei... e estou cá com uma fome. – Sónia começou a comer e Elros observou-a por algum tempo sorrindo, gostava de vê-la feliz e sentia-se feliz sempre que estava junto a ela, não importasse as circunstâncias, mas Elros não era o único que a olhava, Elladan, seu pai, também a olhava frequentemente, desde que a vira no quarto que a sua imagem não saia da cabeça, pois ficara fascinado na maneira como Sónia deslumbrava nessa noite.
Sónia olhou para Nhatas e viu-a a olhar fixamente para a mesa da direita, Sónia, discretamente, olhou também na direcção do olhar de Nhatas e viu Thünir, Nhatas olhava fascinada para Thünir, e quando este a olhava sorrindo, que o fazia sempre que ninguém estava a falar com ele, Nhatas abaixava o olhar e remexia a comida mal tocada com as bochechas levemente rosadas. Sónia sorriu para si mesma e continuou a comer com um leve sorriso nos lábios.
O jantar decorreu com muitas conversas alegres até que Elrond anunciou que o Salão do Sol já estava preparado para o fim do jantar, então os convidados começaram a levantarem-se e a dirigirem-se para o Salão, deixando Sónia a conversar, ou melhor, a resmungar com Elrond e com Elladan.
– Festa? – disse Sónia – Ninguém me disse que ia haver festa depois do jantar. Era só um banquete e...
– A festa faz parte do banquete. – disse Elrond ficando impaciente e aborrecido – Tanto trabalho a preparar um banquete decente para ti, e só refilas, estes mortais... como eu esqueci-me que podiam ser tão mal-agradecidos.
– Eu não sou mal-agradecida. – defendeu-se Sónia cruzando os braços e depois falou na sua língua nativa – Vamos lá dar numa curte, quero sentir o people na vibe.
Elladan riu-se ao ver a cara do pai que não entendera nada, então conduziram Sónia até ao Salão do Sol, assim chamado por ser um gigantesco salão branco com uma enorme lareira dourada e o tecto dourado representando um caloroso sol. Numa das paredes do salão estendia-se uma enorme mesa com várias iguarias e bebidas, ao lado da lareira estava elfos com instrumentos que Sónia nunca vira na sua vida, e este salão tinha uma ligação, através de portas de vidros, a um jardim ainda mais magnífico que o que existia debaixo da varanda do quarto de Sónia. Música maravilhosa fez-se ouvir no salão enquanto que os convidados riam e conversavam muito alegremente, Sónia afastou-se para um canto, mas foi logo buscada por Elhorir para falar com os convidados, principalmente da parte de Legolas, os representantes dos Teleri, que estimaram-se à mortal, e a Galadriel e Celeborn, mas algum tempo depois, quando começou a haver danças no salão, Sónia aproveitou e sentou-se numa cadeira que lá havia, olhou em volta e sorriu quando viu os elfos contentes nas suas danças, viu Elrond a dançar com Galadriel, Elrohir com a sua esposa Telas, acariciando-a frequentemente, Legolas com uma elfa dos Noldor de cabelos tão negros como a noite e mais alguns elfos a pares a dançar. Sónia divertia-se ao vê-los dançar até que viu Thünir sozinho ao pé da mesa a beber algo, então percorreu o salão com o olhar em busca da sua amiga Nhatas, e lá estava ela, sozinha no canto olhando Thünir, Sónia esboçou um sorriso endiabrado e foi ter com Elros que conversava vivamente com uns Vanyar.
– Desculpem meus Senhores. – disse Sónia cordialmente quando agarrou Elros pelo o braço – Mas preciso do vosso amigo. Obrigado.
– Sónia, o que se passa? – falou Elros quando se afastaram do grupo dos Vanyar.
– Ora, só vou fazer uma coisa muito inocente. – respondeu Sónia aproximando-se de Nhatas – Nhatas amiga. Olha, aguenta aqui o teu irmão um pouco, tenho uma coisa a fazer. – Sónia virou para Elros, que não entendia nada o que se passava, e falou baixo – Se tens amor à vida, por favor não a deixes seguir-me com o olhar. – e saiu do pé dos seus amigos tão rápido quanto chegou, indo na direcção de Thünir.
Thünir olhou-a quando esta aproximou-se com um sorriso inocente nos lábios, este olhou-a franzindo um sobreolho, não gostava nada daquele sorriso, então quando Sónia aproximou-se falou.
– Thünir... Eu gostaria que me acompanhasses até ali.
– E porque eu deveria fazer isso? – perguntou Thünir ainda mais desconfiado – E ali onde?
– É perto. Anda... Eu só quero que você convide alguém para dançar.
– Se quer dançar é só pedir.
– Não sou eu. É ela. – apontou para Nhatas que falava com Elros, Thünir arregalou os olhos e fixou-os demoradamente em Nhatas – E então?
– Ela quer dançar comigo?
– Se quer? Claro que quer. Anda... não sejas tímido.
– Mas... – Thünir preparava-se para falar, mas Sónia agarrou num braço e puxou-o até Nhatas e antes que chegassem mais perto, Sónia parou e fez sinal a Thünir que fizesse o resto sozinho, este respirou fundo e aproximou-se de Nhatas.
– Minha bela donzela. – disse Thünir amavelmente fazendo Nhatas virar-se surpreendida e com o coração aos pulos – Permite-me esta dança?
– Eu... eu... – gaguejou Nhatas ainda meia surpreendida e sem saber se aceitava ou não, mas essa decisão foi decidida pela sua amiga mortal que aproximou-se empurrado-os para a pista de dança.
– Claro que ela aceita. Divirtam-se. – voltou-se para Elros que a olhava sorrindo.
– Tu... sabias? – disse Elros, ele já sentira antes que Thünir havia atraído a sua irmã, e a sua irmã a ele – Mas... Onde? Como? – riu-se sem encontrar mais palavras.
– Eu sou mortal, mas não burra. – respondeu Sónia cruzando os braços fingindo-se ofendida, então alguém falou por detrás dela.
– Permite-me esta dança? – Sónia olhou para quem a convidara, era Elladan.
– Hein? – disse Sónia surpreendida – Eu... bem... eu não sei dançar.
– Eu ensino... é fácil – Elladan agarrou na mão de Sónia, fazendo-a corar levemente e levou-a perto da pista, levou os braços da sua parceira ao seu peito e agarrou-a na cintura – Agora só segues o que eu faço. Está bem?
Sónia não respondeu, mas acenou com a cabeça e começou a seguir a dança que Elladan conduzia, era calma e muito harmoniosa com a música que se fazia ouvir no salão, muitos olhares fixaram no elfo e na humana dançando juntos e Sónia abaixou a cabeça olhando para o lugar onde estava Elros, mas ele já não estava lá, tinha indo para um canto da sala encostando na parede e parecia aborrecido com algo, quando Sónia ia perguntar a Elladan o que se passava com Elros, Elhorir e Telas apareceram no seu campo de visão e lembrou-se que, desde que chegara à Casa de Elrond, e desde que conhecera Elladan, nunca o tinha visto com a mulher ou sabido algo sobre ela, então perguntou hesitando um pouco.
– Elladan, posso perguntar-te uma coisa? Mas não que eu precise mesmo de saber, mas é que, eu acho estranho e depois...
– Claro que podes perguntar. Perguntar não ofende.
– É que, bem. Desde que o conheço eu nunca vi a sua esposa. E eu gostava de saber...
– Ela morreu... – Sónia olhou para Elladan, este fechara os olhos com força cheios de dor e de saudades, apertou Sónia junto de si e esta desejou ter estado calada.
– Lamento. Eu... desculpa.
– A culpa não é tua, simplesmente perguntaste, tu não podias advinhar.
– Perguntar não ofende, mas por vezes magoa.
Fez-se silêncio entre os dois, Elladan sabia que Sónia estava a culpar-se por ter perguntado e ele próprio sentiu que não era justo ela se culpar sem razão.
– Só existe três seres nestas terras que matam, as shelobs, os jaggos e os elfos. – disse o elfo e Sónia levantou a cabeça olhando-o – As shelobs são aranhas cujo o veneno é mortal para qualquer criatura, são aranhas pequenas descendentes da terrível Shelob que aterrorizou esta terra à muitos anos. Mirïan morreu com uma picada de uma shelob. – fez uma pausa, suspirou e continuou – Os jaggos são peixes venenosos que, apesar do veneno actuar muito lentamente, deixa qualquer criatura com horríveis dores e em pleno sofrimento.
– E também disse... elfos?
– Sim. Existem elfos com corações negros e por vezes são muito cruéis quando pretendem adquirir algo, seja poder ou amor de alguém.
– E porquê está a dizer-me isso? Se o deixa triste?
– Só quero avisar-te dos perigos. Mesmo em Valinor a vida não é muito fácil. – Sónia olhou-o e uma pergunta veio-lhe à cabeça: "Porquê é que ela levou uma picada?". Mas Sónia já tinha feito uma pergunta que havia provocado dor a Elladan, portanto calou-se, mas Elladan apertou Sónia contra si e, parecendo advinhar os pensamentos da mortal falou com uma certa mágoa na voz. – Eu levei-a ao lago onde nós costumávamos ir juntos quando éramos comprometidos um ao outro. Ela estava tão feliz nesse dia, desde que ela concebeu os nossos filhos, nunca mais tínhamos ido a tal lugar, e isso deixou-a muito feliz. Encostamos a árvore onde namorávamos e algum tempo depois ela levantou-se esfregando o braço, disse que tinha sentindo uma picada e que o braço lhe doía. – fez uma pausa enquanto engolia um suspiro triste e cheio de angústia – Olhei rapidamente para o tronco e lá vi... uma shelob tão negra como a escuridão, olhei para minha esposa a tremer e a ficar cada vez mais pálida. Carreguei-a nos meus braços e corri... corri como nunca havia corrido antes. Eu, meu irmão e meu pai fizemos os possíveis para curá-la, mas passado três dias de dor, de tremores e horrores, ela faleceu nos meus braços. Só sobrevivi graças aos meus filhos que também sofriam, e não queria que eles sofressem mais se eu também partisse. – fez mais uma pausa fechando os olhos com força e apertando Sónia tanto contra si que já a custava a respirar – Sinto tanto a falta dela. Tenho imensas saudades.
Sónia atormentou-se a si própria por ter buscado tal assunto e lembrou-se da sua família e dos seus amigos, como eram felizes, apesar de às vezes ter tido alguma discussão, e como se divertiam imenso. Ao lembrar-se de tais recordações uma enorme e fria saudade encheu-lhe o coração e o espírito, sentiu-se fria e o seu coração doeu-lhe como nunca antes havia-lhe doído, começou a deitar finas lágrimas e soluçou, afastou-se de Elladan limpando os olhos e falou com a sua voz cheia de tristeza e escondendo os olhos.
– Desculpa Elladan, mas não quero dançar mais. Desculpa. – depois seguiu para o jardim sem chamar atenção dos restantes elfos, só sendo seguida por Elladan até a um banco onde Sónia se sentara longe das portas de vidros e começou a chorar devagarinho.
– Perdoe-me se a fiz chorar. – disse Elladan sentando-se – Não tinha essa intenção.
– Não te preocupes. – falou Sónia entre alguns soluços – Só que... eu lembrei-me da minha casa e... Tenho saudades. – e começou a chorar descontroladamente. Elladan abraçou-lhe e apertou-a contra si dizendo palavras de conforto enquanto que eram observados por Elros, que manteve a dança entre seu pai e Sónia sobre o seu olhar e seguiu-os até ao jardim, cerrou os olhos de raiva e ciúme, não entendo a razão, mas depois abanou a cabeça e falou para si.
– O que estou fazendo? Sentir raiva e ciúmes do meu próprio pai é tão vergonhoso e cruel, mas porém... – olhou para Sónia que chorava e sentiu-se triste, não sabia a razão por ela estar triste, mas desejava fazer algo por ela, só para vê-la feliz, abanou a cabeça com raiva e voltou para o salão.
Elladan apertava Sónia tentando consolá-la, por fim o choro amainou tornando-se fracos soluços, afastou-se de Elladan, limpou os olhos e olhou-o sorrindo. Este também sorriu enquanto que um calor cresceu-lhe no coração e aquecendo-o o espírito, tal calor também afectou Sónia. Ficaram mais algum tempo no banco a conversar sobre a família até que Elladan resolver que era melhor voltar para a festa antes que dessem por falta deles e os mandassem buscar.
– –
Já havia passado cinco dias desde o banquete e todos os que tinham vindo já tinham ido para as suas terras, menos Thünir que deixou-se ficar querendo ficar na companhia dos seus irmãos durante mais algum tempo.
A manhã nasceu com algumas nuvens escuras no céu e um vento frio começou a soprar, Sónia ainda dormia docemente quando foi subitamente acordada pela criada dizendo-lhe que Friêr já a esperava fazia duas horas.
– Mas quero dormir mais... – resmungou Sónia embrulhando-se nos cobertores – E está frio.
– Senhor Friêr espera-a na biblioteca. – respondeu a criada colocando um vestido vermelho escuro em cima da cama – Vou buscar água quente para o banho que a outra já está fria.
– Nunca posso dormir. – resmungou Sónia na sua língua nativa depois da criada ter ido embora – Preciso de férias... – e voltou-se na cama, abriu os olhos e olhou para a porta, uma figura acabara de entrar, mas Sónia não a viu bem e pensou que fosse a criada. – Lëan, deixa-me dormir mais um pouco. Tenho sono, tenho frio e não tenho paciência de apreender.
– Friêr não vai gostar se ficares na cama. – disse uma voz que definitivamente não era de Lëan. Sónia levantou-se rapidamente e viu Elladan a dirigir-se para a varanda sorrindo.
– Elladan. – falou Sónia com o coração a bater depressa transtornada pela entrada do elfo – Mestre Elrond nunca o ensinou a bater à porta? Imagine se eu estava a trocar de roupa.
– Peço perdão minha senhora. – disse Elladan fazendo uma vénia divertido.
– Senhora é a minha mãe. – fez uma pausa enquanto cobria-se mais no cobertor – O que fazes aqui?
– Venho pedir que me acompanhasse para um passeio nesta manhã tão bonita.
– Tá escuro, tá frio e tá... escuro. Realmente, muito bonita.
– Gostas muito de usar sarcasmo.
– Não tanto quanto gosto de... jogar almofadas. – Sónia agarrou na almofada e jogou-o ao elfo, mas este desviou-se sem alguma dificuldade. – Não é justo... os elfos são chatos quando se trata de jogar almofadas.
– Gostarias de acertar-me com uma?
– E porque não? Até ia ser uma sensação boa.
– Ainda na cama? – Lëan entrou com toalhas nos braços e outras duas criadas carregavam terrinas com água quente dirigindo-se até ao quarto de se banhar. – O Senhor Friêr vai ficar impaciente e... – olhou Elladan arregalando os olhos fazendo-o rir.
– Não é o que você está pensado Lëan. – disse Elladan dirigindo-se à porta passando por Lëan – Pensei que Sónia já estivesse pronta e só queria que ela me acompanhasse num passeio matinal. – voltou para Sónia fazendo uma vénia divertida – Então espero por si nas portas do jardim, e leva o seu maravilhoso sentido sarcástico. – e saiu, deixando a criada de olhos arregalados e Sónia levemente corada.
Algum tempo depois Sónia já estava de pé, para seu desgosto, e já vestida, pronta para se encontrar com Elladan, quando Lëan lembrou-lhe que Friêr a esperava na biblioteca no mínimo à três horas. Sónia soprou e dirigiu-se à biblioteca, sabia que ia receber uma bronca por não ter aparecido às suas lições fazia três dias e iria chegar tarde naquele dia cinzento. Bocejou e parou em frente de uma enorme janela de vidro que iluminava o corredor onde estava, olhou para a floresta escura devido às negras nuvens e continuou a olhar até vozes de criadas lhe chamaram a sua atenção e continuou pesadamente até à biblioteca.
– Bons olhos que te vejam. – disse Friêr mal-humorado sentado junto à janela.
– Hum... Desculpa. – Sónia tentou pedir desculpas, mas Friêr levantou-se repentinamente.
– Três dias! Três dias... e hoje? Tarde. Tarde.
– Por favor Mestre Friêr – disse Sónia dirigindo-se à mesa onde estavam as suas coisas de estudo intocáveis fazia três dias – Irei compensar-te. Desculpa.
Friêr olhou-a, Sónia olhava-o com um olhar de "inocente", o elfo suspirou e não conseguiu continuar o seu olhar sério e grave.
– Comecemos a trabalhar...
– Tenho fome.
Friêr olhou-a de uma maneira pouco surpreendido, abanou a cabeça e olhou-a ameaçadoramente, antes de lhe dar uma maçã da travessa com frutas que havia na biblioteca.
– Comecemos agora o... – a porta abriu-se e Elladan entrou.
– Aqui estás tu. – disse Elladan com um sorriso lindíssimo e como não esboçava em anos. – Pensei que fosses ter comigo!
– Bem... Eu... – falou Sónia, desde da noite do baile que ficava contente com a presença de Elladan.
– Elladan. – interrompeu Friêr cruzando os braços – Sónia tem deveres, e tem de ser eu a inspeccionar se ela os faz, mas... no entanto... eu não posso inspeccioná-la, e ensiná-la, se ela não estiver presente. – Elladan olhou-o e sorriu.
– Pois é. Fui descuidado e não reflecti nos deveres de Sónia. – fez pausa olhando Sónia que também o olhava sorrindo – Então levar-te-ei no passeio num outro dia.
– Desde que esteja tão bonito com hoje. – respondeu Sónia.
– Que assim seja. – Elladan fez uma breve vénia despedindo-se dos presentes e saiu.
Friêr e Sónia começaram nos estudos, mas Sónia passou praticamente nas nuvens durante todo o estudo, e Friêr notou que algo se passava com ela, mas não lhe lia nem lhe compreendia a mente, porque gostava muito de Sónia e lendo-lhe a mente era como se tivesse a invadir e a roubar algo de muito precioso, Friêr até não se importou muito pela distracção, Sónia estava feliz e isso também deixava-o alegre, porém um pouco zangado, pois ela não estava mesmo nada dentro da biblioteca, ou até mesmo em Valinor.
– Por hoje chega. – disse Friêr fechando o livro.
– Já? – perguntou Sónia surpreendida – Só passou pouco de uma hora do meio-dia.
– Pois já é hora de almoço e... parece que hoje não chegaremos a lado nenhum. – olhou para Sónia esboçando um pequeno sorriso – Embora o dia esteja escuro, tu tens viajado para bem longe. – Sónia abaixou o olhar envergonhada e repreendida. – Vamos lá almoçar.
Saíram os dois da biblioteca e dirigiram-se até à sala onde os Senhores da Casa comiam. Pelo o caminho entre os corredores, Friêr perguntou algumas coisas sobre a Terra Média e Sónia fazia os possíveis para que Friêr compreendesse de tudo o que falava, claro que não entrou em muitos detalhes, só falava do geral e também do que sabia explicar.
– Então dizes que vocês, os Homens, na Terra Média conseguem fazer imagens se mexer? – perguntou Friêr um tanto divertido.
– Pois é verdade. São chamados de desenhos animados... – respondeu Sónia.
– Que vocês vêm numa caixa que dá imagens?
– Pois é verdade... e chama-se "televisão". – Friêr olhou-a esboçando um sorriso trocista, pois não acreditava em muitas das coisas que Sónia contava.
Finalmente chegaram à sala e quando Sónia entrou esbarrou em Elros que saia sem ter reparado que Sónia estava a entrar. Sónia sorriu ao vê-lo embaraçado por ter chocado com ela, deixando o elfo corando.
– Peço as minhas sinceras desculpas. – disse Elros – Eu não a vi.
– Não há problema. A sério.
– Um passeio.
– O quê?
– Um passeio. Nós os dois... para compensar-te. Depois do almoço.
– Oh, pois... É que eu já tinha um passeio com o Elladan, isto é, com o teu pai. – Elros deixou o seu sorriso morrer e fez uma cara triste, mas depois forçou um sorriso – Desculpa. Fica para uma outra altura. Está bem?
Elros olhou-a antes de responder e aceitou, iriam passear numa outra altura que parecia a Elros que nunca iria acontecer.
Sónia entrou na sala deixando o elfo de cabelos negros no corredor ainda mirando a porta que Sónia fechara triste e zangado, sabia que algo se passava entre o seu pai e Sónia, pois desde o baile eles pareciam tão próximos que já começavam a levantar rumores entre os criados da Casa, deu meia volta e seguiu o corredor até ao Pátio dos Treinos para ocupar a sua mente. Ao chegar lá dirigiu-se até onde os arcos estavam guardados com as respectivas flechas e começou a treinar a sua pontaria, mas falhara em todas as vezes que lançara as flechas. Os restantes elfos que também treinavam a arte do arco e da flecha, entreolharam-se, pois Elros era o melhor dos archeiros da Casa de Elrond e não era normal que Elros falhar tantas vezes seguidas.
Culion, que observava o que se passava sentado de uma das árvores, aproximou-se de Elros e fê-lo parar de treinar perguntando se passava algo.
– Não... – Elros esticou o arco e soltou a flecha, falhou – Não se passa nada. – Culion olhou-o pensativo.
– Estás completamente desconcentrado na tua tarefa com o arco. Certamente que se passa algo. Conta-me o que se passa.
– Já disse que não se passa nada. – Elros começava a ficar furioso.
– Pois a mim tu não me enganas, até os teus colegas já notaram que algo se passa. Não deixes guardar rancor por algo e conta o que se passa. É por causa da tua irmã? Do teu pai? – Elros voltou-se para Culion furioso e falou zangado.
– Tu não és meu conselheiros nem pedi que fosses. Vai dar conselhos a quem realmente precisa, pois eu não quero nada de ti, muitos menos conselhos. – largou o arco e as flechas no chão e foi embora zangado, resmungando e bufando pelo o caminho, nem parou quando passou pela sua irmã nem lhe falou quando esta lhe falou.
– –
– O Elros? – perguntou Sónia surpreendida.
– Sim, o Elros, meu irmão. – afirmou Nhatas – Ele parecia mesmo zangado com algo, a minha aia disse que o viu a gritar com Culion.
– Que estranho, eu falei com ele quando fui almoçar e ele parecia bem. – Sónia sorriu quando reparou que Thünir se aproximava – Não olhes agora, mas vem aí uma certa pessoa que tu conheces.
Nhatas olhou-a sem entender, olhou para trás deixando o seu rosto ruborizar e voltou-se rapidamente para Sónia que sorria, cumprimentaram Thünir e este cumprimentou-as, Nhatas em especial, e quando o elfo de cabelos loiros se foi embora, Nhatas olhou-o até desaparecer na porta.
– Estás mesmo apanhada pelo Thünir. – Nhatas olhou Sónia chocada.
– O que queres dizer com isso?
– Que estás apaixonada por ele.
– Eu... eu não estou...
– Por favor Nhatas. Até o teu irmão diz isso. – Nhatas olhou-a corada e sorriu afirmando que se que se apaixonara por ele numa visita à Floresta Nova, começaram a andar pela varanda.
– E tu? Estás apaixonada por alguém? – Sónia estacou e Elladan veio-lhe ao pensamento, não tinha a certeza a razão porque Elladan assombrava-lhe os pensamentos e sempre que tentava perceber a razão, Sónia ficava confusa com os sentimentos – E então?
– Eu... eu. Bem. – suspirou e disfarçou uma calma falsa – Não Nhatas, eu não estou apanhada por ninguém. – Nhatas olhou-a desconfiada, mas não levantou mais questões, mas Sónia levantou mais questões sobre Elladan não sair-lhe dos pensamentos, distraindo-se constantemente com a conversa que mantinha, ou tentava manter, com Nhatas.
Á noite, depois do jantar e do breve passeio tardio com Elladan, pois Sónia afastou-se de Elladan e da conserva entre os dois durante o passeio tornado-o desconfortável, deitou-se na cama às escuras e falou baixinho, na sua língua nativa, esfregando as mãos na cara.
– Raios partam. Porquê que Elladan não me sai da cabeça? Mas porquê? – tirou as mãos da cara – Será que... estou apaixonada por ele? Mas, logo Elladan? Que amou uma donzela élfica, e que certamente ainda a ama, tem dois filhos, que é um respeitável elfo, descendente de sangue nobre e forte, com uma bela linhagem e... – começou a chorar – Eu não posso estar apaixonada por ele. Não posso. – fez uma pausa suspirando e parando de chorar – Mas estou. Estou apaixonada por ele e sinto-me feliz. – sentou-se na cama e olhou para a varanda – Se sinto feliz, como é que ao mesmo tempo sinto-me miserável? Será que é por não tê-lo? – olhou confusa para o vazio e sorriu tristemente – Mirïan, apercebi-me agora que invejo-te, tiveste muita sorte... e Elladan também, pois encontrou alguém que nunca irá substituir no coração. – olhou novamente para a varanda, e olhou durante muito tempo envolta nos seus pensamentos.
A noite já havia escurecido mais, então Sónia acendeu uma vela para que não mergulha-se totalmente na escuridão, e deitou-se olhando o tecto, até que bateram à porta do seu quarto, Sónia sentou-se na cama surpreendida por alguém ter batido à porta àquela hora da noite.
– Entre. – disse Sónia e por seu espanto Elladan entrou no quarto com preocupação cravada no rosto – Elladan? Mas? O que estás aqui a fazer?
– Eu... – disse Elladan fechando a porta, aproximando-se e ficando em pé em frente da cama – Quero falar contigo.
– Sobre o quê?
– Eu estou preocupado contigo. No nosso passeio tu parecias tão... distante. Nem sequer sorriste nem usas-te sarcasmo. – Sónia desviou a cara.
– Não vejo porquê devias te preocupar.
– Passa-se algo?
– Não.
– É comigo? – Sónia olhou-o surpreendida e surpreendeu-se mais quando viu o olhar do elfo triste.
– Não... não, mas que ideia. – forçou um sorriso, mas Elladan continuou com o olhar triste e sério fazendo com que Sónia desvia-se o olhar.
– Eu sabia que se passava algo, e eu sou o problema.
– Elladan... não se passa nada, vai dormir – lágrimas escorreram pela face de Sónia, Elladan sentou-se ao lado de Sónia e agarrou-a no rosto virando-o para si.
– Se não se passa nada, então porque choras? – mais uma vez Sónia desviou o rosto.
– Por favor, vai embora.
– Eu não vou sem me dizeres a verdade.
– Não nada para dizer.
– Eu sei que há.
– Vai embora.
– Sónia, diz-me.
– Deixa-me. – a paciência de Elladan esgotou-se e falou zangado.
– Diz-me.
– Eu amo-te. – Sónia levou a mão à boca, não sabia porque é que tinha dito aquilo, desviou a cara formando-se lágrimas nos olhos e disse suavemente – Elladan, vai... vai embora.
Elladan, que não tirara os olhos de Sónia iluminada pela fraca e dançarina luz da vela, acariciou-lhe a mão e depois o rostos paralisando Sónia, depois voltou o rosto da Sónia até olhar directamente nos olhos e disse sorrindo.
– Fico feliz ao ouvir isso, pois... eu também partilho o mesmo sentimento que tu. – Sónia mostrou-se confusa – Eu amo-te.
Fez-se silêncio entre os dois enquanto que Elladan olhava feliz para Sónia e esta o olhava confusa, Elladan acariciou-lhe o rosto e aproximou os seus lábios aos de Sónia, mas esta afastou-se.
– Não Elladan.
– Porquê?
– Porque é tudo tão rápido e... e a tua esposa... – Elladan sorriu, mas não afastou-se de Sónia.
– Ela morreu, e já era tempo de me apaixonar outra vez. Ainda a amo, mas ela está noutro lugar, e eu estou aqui, só podendo chegá-la quando eu morrer. E agora eu amo-te, e quero-te.
Elladan roubou um profundo beijo a Sónia, sido correspondido pela mesma maneira. Acariciou o corpo de Sónia lentamente enquanto que decorria o beijo e quando parou, deitou-a suavemente e acariciou-lhe o corpo mais intimamente, começando a tirar o leve vestido de dormir de Sónia, mas esta hesitou.
– Não Elladan. – Elladan aproximou-se os lábios mais uma vez aos de Sónia, mas antes de lha beijar, disse com a voz ansiosa.
– Queres que pare?
Sónia não respondeu, queria que Elladan continuasse, então o elfo beijou-lhe e assim tiveram uma noite de amor entre os dois.
– –
Elladan vestia a sua camisa prendendo-a com o cinto enquanto que esboçava um sorriso nos lábios, tinha se levantado antes do sol nascer porque tinha assuntos a resolver, olhou para Sónia sentada na cama com o lençol a esconder-lhe o corpo, esta olhava-o com um ligeiro sorriso, então Elladan aproximou-se dela através da cama e beijou-lhe.
– Gostaria de ficar contigo agora, mas não posso. – disse Elladan acariciando o rosto de Sónia.
– Não faz mal, tens deveres. – Elladan sorriu e dirigiu-se até à porta, até que Sónia o chamou – Elladan... eu estive a pensar. Eu gostaria que... bem. Que os nossos sentimentos, e esta noite, fosse segredo. Não quero originar, como dizer, confusões sobre o nosso relacionamento. – Elladan sorriu-lhe.
– Não te preocupes que não direi nada, embora vá ser difícil de esconder... – Elladan sorriu-lhe e abriu a porta – Vejo mais tarde minha querida. – e saiu depois da sua amada ter-lhe mandado um beijo.
Sónia voltou-se a deitar na cama sorrindo completamente feliz, olhou para o tecto e suspirou, voltou a sua cara para o lado e viu o lençol um pouco sujo de sangue e de sémen, sentou-se e agarrou o lençol com uma cara meia aterrorizada e de olhos arregalados.
– Eu não acredito que ele sujou o lençol. – disse na sua língua nativa e fez uma pausa pensativa olhando para o lençol – O sangue ainda posso inventar alguma coisa, mas agora como é que vou explicar ISTO à Lëan? E ainda por cima sujou o meu lençol favorito.
