As personagens élficas aqui reconhecidas não me pertencem, mas sim a J.R.R Tolkien, mas a originalidade da história e algumas personagens pertencem somente a mim
– VII –
Três meses haviam se passado e Sónia e Elladan continuavam a encontrarem-se, davam longos passeios pelos jardins durante a tarde, excepto nos dias em que Sónia tinha aulas com Friêr, que foram reduzidas por três aulas por semana, e nos dias em que Elladan tinha assuntos que resolver, o que deixava com poucos dias para os seus passeios, mas o amor entre os dois aumentava e todas as noites, ou maior parte delas, Elladan visitava Sónia e amavam-se tal como na primeira vez. Haviam sido discretos para que ninguém se apercebesse o que realmente se passava entre os dois e eram muito poucos os que sabiam, não por terem visto ou por terem ouvido pelas bocas dos dois amantes, mas sim pela alegria que ambos transmitiam quando estavam juntos no mesmo lugar. Mas nem todos estavam contentes, Elros mostrava-se furioso e triste cada dia que se passara, raramente falava e quando falava, as suas palavras eram duras e muitas vezes magoava a quem as ouvia. Elros não aguentava o facto de Sónia passeasse com o seu pai, pois sempre que ele pedia para passearem juntos, Sónia rejeitava e Elros pensava que eles se amavam, pois, devido à sua fúria causada pelo o ciúme e por se culpar a si próprio de sentir ciúme do seu próprio pai, Elros ainda não descobriria que a sua amada e Elladan realmente se amavam, então afastou-se de todos e espiava constantemente Sónia de longe.
O dia deu lugar a uma noite fria e chuvosa, e Sónia encontrava-se no seu quarto com o vestido que vestira no banquete, oferecido por Legolas e pelos seus filhos, mirando-se à frente do espelho de corpo inteiro ao lado do tocador, o vestido ficava-lhe um pouco apertado na cintura e nas ancas, e por uns momentos achou-se mais gorda e quando mais voltas dava à frente do espelho, mais gorda se achava, pouco depois Elladan entrou e dirigiu-se directamente à sua amada agarrando-a muito carinhosamente por detrás e beijando-lhe o pescoço nos intervalos da fala.
– Minha querida... estás muito bela... com esse... vestido. – Sónia continuava olhando preocupada para o seu reflexo – A noite está... fria... Queres que... te aqueça? – Sónia não respondeu e continuou olhando o espelho mais atentamente, depois falou.
– Elladan.
– Sim.
– Posso perguntar-te uma coisa?
– Sim, minha amada.
– Achas-me mais gorda? – Elladan arregalou os olhos de tão surpreendido que estava e por momentos não falou – Eu sabia, eu estou gorda. – soltou-se dos braços de Elladan e sentou-se amuada numa cadeira.
– Minha querida, aos meus olhos estais cada vez mais bela.
– Gorda queres tu dizer.
– Sónia, agora preocupas-te com essas coisas? Humanos! No tempo em que eu ainda pisava a Terra Média, as mulheres mais apreciadas eram as rechonchudas.
– Pois... Sorte a delas. E dos elfos. Vocês não precisam de se preocupar com estas coisas. Estão sempre na mesma. – levantou-se antes que Elladan pudesse falar e voltou a olhar para o espelho – Olha para isto. Estou gorda, este vestido quase não me serve... Olha para aqui. Estou ficando com uma banhinha aqui... – Elladan revirou os olhos e esboçou sorriso divertido, embora Sónia tivesse engordado um pouquinho, não se notava quase nada e continuava com a sua própria beleza, voltou a enrolar os braços em volta de Sónia e falou suavemente ao ouvido.
– Pois quando nós casarmos, eu quero que fiques mais gorda.
– O quê? Porquê?
– Ora, quando ficares grávida não vais ficar assim, vai crescer-te uma barriguinha aqui. – Elladan levou a mão gentilmente ao ventre fazendo Sónia sorrir.
– E quem disse que eu vou ter filhos teus? – brincou Sónia.
– De quem mais haveria ser? – Elladan fingiu-se surpreso – Existe mais alguém?
– Hum... – Sónia voltou-se ficando de frente para Elladan – Não. Mas posso arranjar alguém.
Elladan e Sónia sorriram-se e quando iam dar um beijo, Potchi, o cão de Sónia que dormia no quarto, agarrou as calças de Elladan e puxou-as querendo brincar.
– Potchi! – disse Sónia chamando o cão – Larga isso. Não sabes por onde isso andou.
Elladan soltou uma gargalhada e beijou Sónia, deitando-a logo de seguida na cama e ambos tiveram mais uma noite de amor, mas o Potchi não gostou muito da atitude da dona por não ter brincado com ele e urinou nos sapatos de Elladan, tendo este uma pequena surpresa quando se levantou antes do nascer do sol.
A manhã veio fria e chuvosa, dando depois lugar a uma tarde ainda mais chuvosa, fazia três dias que não parara de chover e todos na Casa de Elrond encontravam-se dentro do palácio ou nas suas casas no vale, quem olhasse pela janela da mais alta torre do palácio, não viria viva alma no vale, somente um ou outro elfo que fazia as suas tarefas e que precisasse de sair do seu abrigo por alguns momentos.
Sónia encontrava-se nessa tarde no quarto de Nhatas a conversarem sem que as aias de Nhatas andassem por perto, conversavam sobre os mais variados assuntos, mas Nhatas mostrava-se constantemente distraída e pouco falava, sempre a olhar preocupada para o vazio enquanto que penteava suavemente os seus longos cabelos sem razão e sempre no mesmo pedaço de cabelo. Sónia apercebeu-se que algo se passava e olhou-a demoradamente, fez uma pergunta sem algum motivo e Nhatas não respondeu, então Sónia passou a mão à frente dos olhos de Nhatas chamando-lhe a atenção.
– Terra chama Nhatas. – disse Sónia e Nhatas olhou-a – O que se passa? Estás aí pior que uma múmia, não falas, não te mexes, a não ser esse cabelo que já tá bem penteado, e olhas para um lugar que não existe.
– Oh! Não é nada – disse Nhatas parando de pentear e sentou-se na cama.
– Quem nada são os peixes. Vá lá... o que tens?
– Estou preocupada com o Elros. Ele anda tão distante... triste. Não sei o que se passa. Já tentei falar com ele, mas ele não me fala.
– E já falas-te alguma coisa ao Elladan, isto é, ao teu pai?
– Não. Já tentei, mas raramente o vejo, está sempre ocupado. Ontem à noite foi falar com ele, mas ele não estava no quarto. – Sónia desviou o olhar para o chão envergonhada e sentiu-se mal por estar a separar Elladan dos seus filhos – E depois há o Thünir. – Sónia olhou para Nhatas e viu-a corar e a olhar sorridente para o outro lado da sala.
– O que é ele fez?
– Ele pediu-me para comprometer-me com ele.
– Oh! E tu?
– Eu disse que aceitaria depois da permissão do meu pai.
– E o teu pai?
– Thünir ainda não teve a oportunidade de falar com meu pai, está sempre ausente. – Sónia voltou a envergonhar-se, mas resolveu que ela própria iria falar com Elladan sobre os filhos dele.
A tarde passou lenta e no final da tarde, quando parou chover, as nuvens afastaram-se e o pôr-do-sol, reluzente e vermelho, brilhou sobre o vale, Elladan convidou Sónia para um passeio nos jardins, onde os raios sol eram suavemente reflectidos nas gotas de chuvas que enfeitavam as folhas verdes e as flores de todas as cores do jardim, passeavam entre as pedras brancas calcetadas molhadas do jardim enquanto que falavam e sem se aperceberem que alguém olhava-os de uma janela.
– Olha para aquilo. – disse Elhorir subitamente vendo o seu irmão passeando, conversando e rindo com Sónia – Elladan está mesmo apaixonado por Sónia.
– Pois é. – Friêr aproximou-se também da janela – Parecem dois jovens apaixonados.
– Estás a chamar-me de velho? Olha que sou da mesma idade que Elladan. – brincou Elhorir, estava feliz pelo o seu irmão.
– Elhorir, tu entendes-te o que quis dizer. – Friêr afastou-se da janela e sentou-se numa poltrona perto da lareira com fogo brando.
– Se o meu pai descobre, vai ficar fulo.
– Não entendo o porquê que o teu pai tem que ficar fulo.
– Ele perdeu uma filha, minha irmã, para um humano. Ele sofreu apesar de saber que ela era feliz. Ele não quer passar por isso outra vez, e eu também não quero voltar a ver o meu pai sofrer. É por isso que faço os possíveis para que ele não descubra o amor entre Sónia e Elladan assim tão cedo, o que não é fácil, pois de todos os elfos que aqui vivem, o meu pai é que nos conhece melhor.
Friêr olhou para o seu amigo que ainda estava na janela olhando lá para fora, sorriu e levantou-se em direcção à porta.
– Bem meu amigo, eu vou esticar as pernas. Até mais tarde. – e Friêr saiu fechando a porta atrás de si.
Elhorir olhava os dois amantes com um lindo sorriso nos lábios, adorava ver o seu irmão feliz, pois já à muito tempo, desde que Mirïan morrera, que Elladan não sorria da mesma maneira que sorria naquele momento. Elhorir sorriu ainda mais e olhou distraído para a patamar, viu Elros encostado numa das colunas olhando Elladan e Sónia, parecia miserável e completamente triste, olhava directamente para Sónia, foi então que Elhorir percebeu o que se passava. Elros amava Sónia. Elhorir deixou o seu sorriso morrer e sentiu uma dor e enorme pena do seu sobrinho a inundar-lhe o espírito, voltou a olhar Elladan e Sónia sem sorrir e olhou Elros outra vez, este tinha colocado a mão nos olhos e abanava a cabeça furiosamente, parecia chorar, depois fugiu dali sem que Elladan e Sónia o vissem.
– –
Elladan aproximou-se de Sónia enquanto que acabavam o passeio ao pôr-do-sol no jardim.
– Antes de deixar-te por agora, querias falar comigo sobre algo? – disse Elladan.
– Sim. – respondeu Sónia olhando-o – Tens falado ultimamente com os teus filhos?
– Com o Elros e com Nhatas?
– Claro, ou tens mais algum que não conheça? Mas não é essa a questão. Devias mesmo falar com Elros.
– Porquê?
– Ora, porque ele anda estranho e Nhatas anda preocupada com o irmão, aliás, ela tentou falar contigo ontem à noite, mas tu estavas comigo e eu sinto-me mal quanto a isso. Acho que tu estás a despreocupar-te dos teus filhos.
– Disparate. Eu amo imenso os meus filhos, e amo a ti também. Mas nunca pensei que...
– Pois... nunca pensem nos filhos. Eles que ficam por último.
– Eu não...
– O quê? Tu dás mais importância a mim do que os teus filhos!
– Eu já te disse que os amo tanto quanto eu amo a ti, e vou continuar a ama-los até que o céu tomba e que a terra nos engula. – olhou furioso para Sónia.
– Então vai falar com Elros... Hoje à noite... – Elladan bufou.
– Está bem, eu vou.
– E já agora. Podes dar uma palavrinha ao Thünir?
– Porquê? Ele não é meu filho!
– Faz isso pela Nhatas, a tua filhinha... – Sónia esboçou um sorriso inocente e foi embora devagar pelo corredor, Elladan voltou-se para Sónia e falou confuso.
– Nhatas? Thünir? Mas... Sónia! Mas o que... – Sónia riu divertida e não respondeu indo em direcção ao seu quarto, Elladan abanou a cabeça e seguiu o corredor até ao escritório do seu pai.
À noite, Elladan foi até ao quarto de Elros para lhe falar, tal como prometera à Sónia, bateu à porta e depois de ter tido resposta, entrou. Encontrou Elros na varanda olhando as poucas estrelas por entre as nuvens e viu-o triste, quando Elros o olhou, Elladan tremeu, o seu filho tinha um olhar miserável e zangado, chegou-se perto de Elros e falou calmamente, com uma voz doce, porém preocupado.
– Filho, nós não temos falando muito ultimamente, o que tens feito?
– Nada, está chuva, não há muito para fazer. – voltou as costas furioso, não aguentando olhar nos olhos do pai.
– Há algum problema contigo?
– Não, porque haveria de ter algum problema? – respondeu Elros com uma voz dura.
– Filho, sei que andas a comportar-te de uma maneira estranha. – fez uma pausa e continuou com uma voz calma e doce – Pareces triste, distante... zangado com algo. Eu sou teu pai, sei que algo se passa contigo. Apercebi-me disso desde que entrei pela porta e te olhei assim. Perdoa-me por não ter estado contigo ultimamente. – pausa novamente – Eu quero o melhor para ti e...
– Queres o melhor para mim? – disse Elros voltando-se furioso – Então deixa-me em paz. Eu não quero a tua doce voz, eu não quero nada de ti ou de ninguém. Só quero que me deixem em paz. – Elladan olhou-o surpreendido pelas palavras duras e furiosas de Elros.
– Falas como se eu fosse o inimigo. Falas com se o problema fosse eu e o Mundo que te rodeia. – fez-se um longo e frio silêncio entre os dois, até que Elladan o quebrou sinto-se ainda mais miserável do que Elros, pois era duro ver o seu filho assim – Está bem, queres ficar só? Eu te deixarei só. Mas lembra-te que eu sou teu pai e amo-te, a ti e à Nhatas, e quero que tu saibas que eu estarei sempre aqui para te proteger e te amar. Adeus e boa noite.
Elladan deixou Elros só, saindo do quarto que parecia gelo. Elros ficara mais furioso e miserável que já se sentira e uma enorme dor e tristeza caiu sobre o espírito de Elladan, que foi directamente para o seu quarto descansar, mas que não conseguira adormecer a noite inteira, somente de manhã quando a chuva abateu-se sobre o vale.
O elfo de cabelos negros acordou tarde e olhou directamente para o tecto pensando em Elros, estava perdido, não sabia o que fazer. Lembrou-se de Sónia e sentiu uma enorme necessidade de estar com ela, levantou-se rapidamente, trocou de roupa e saiu do quarto à procura da amada, encontrando-a no quarto a dormir docemente, mas já com indícios que a criada já estivera no quarto tentando acordá-la. Elladan aproximou-se da cama, deitou-se ao lado de Sónia e acariciou-lhe os cabelos até esta acordar.
– Elladan! – disse Sónia sentando-se – Mas o que... – Elladan abraçou-a, puxando-a para si e beijou-a apaixonadamente, mas tal beijo não acalmara a dor de Elladan e quando separaram-se, Sónia olhou-o e sorriu – Sentis-te tanto a minha falta durante a noite? Hein! O que é que tu tens?
– Estou preocupado com Elros. – Elladan contou a Sónia da conversa com o filho – Eu não sei o que vou fazer.
– Eu não tenho filhos, e não vou os ter assim tão cedo, mas acho que era melhor tentares conversar com ele outra vez.
– Mas nele não vai querer. Parece que ele me odeia por algo que eu fiz, mas o quê?
– Elros não te odeia. Ele deve estar a passar uma fase difícil, digámos que seja a adolescência dos elfos! – Elladan olhou-a com a testa semi franzida – OK? – fez uma pausa e olhou fingindo zangada para o seu amado – Elladan! O que fazes aqui? E se aparece alguém? O que vamos dizer? Olha que a Lëan já veio acordar-me duas vezes, ou mais...
– Direi que te amo muito. – Sónia corou.
– Tu não dirias isso?
– Claro que diria.
– Tu que não te atrevas. – Elladan riu-se apesar de sentir-se triste e preocupado.
– Da minha boca eu não direi nada, só quando tu estiveres preparada.
– Obrigado. – Elladan levantou-se e saiu do quarto observado pela Sónia, que se enrolava outra vez nos cobertores.
– –
Dois dias se passaram, a chuva continuava abater-se sobre o Vale e a situação com Elros piorara, o jovem elfo não saíra do quarto desde da conversa com o pai, nem deixava ninguém entrar, nem mesmo com comida, nem Nhatas, sua irmã, conseguiu convencê-lo a sair do quarto e comer alguma coisa, ou simplesmente contar à sua irmã o que se passava. Todos na Casa de Elrond estavam numa espécie de luto por causa de Elros, pois ele era muito amado, não só por entre os seus, mas também pelos restantes habitantes da Casa de Elrond, mas o que mais sofria era Elladan, seu pai, que até deixara de abraçar Sónia nas últimas noites frias e se não fosse por Elhorir e por Elrond a obrigá-lo a comer, Elladan não tocaria na comida.
Elladan encontrava-se sentado na cama do seu quarto com o seu rosto enterrado nas mãos, quando Elhorir entrou no quarto, este estava escuro, pois Elladan não se importara de acender a lareira e de afastar as cortinas da varanda para que a pouca luz do dia entrasse no quarto. Elhorir dirigiu-se à cama e agachou-se à frente do irmão tocando-lhe nas mãos, Elladan olhou-o e forçou um sorriso.
– Elhorir, meu irmão. – disse Elladan – Vieste me ver? Trazes boas notícias?
– Se essas boas notícias que queres ouvir é sobre Elros, então não trago boas notícias. – o sorriso de Elladan murchou – Sónia perguntou-me onde é que tu estavas. Ela está preocupada. – fez uma breve pausa enquanto se sentava ao lado do irmão – Ficares no teu quarto e não comeres, não vai ajudar a resolver o problema.
– Eu sei, mas estou perdido meu irmão. Não quero que ele se torne frio e duro. Não quero que ele desapareça. Que hei-de de fazer? – Elhorir olhou-o, sentia tristeza por Elladan e por Elros. Elhorir sabia a razão porque o seu sobrinho "adoecera", mas não queria magoar o irmão se lhe contasse, mas por outro lado, o desgosto acabaria por matar o seu sobrinho, então pensou seriamente no que haveria de dizer e por fim falou.
– Amas Sónia? – Elladan olhou-o, mas não surpreendido.
– Sim.
– Amas Elros?
– Claro que sim.
– Farias tudo para que Elros volte a ser feliz?
– Sim. Tudo.
– Ficarias a odiar-me se eu te contasse o que se passa com Elros e como o problema ficaria resolvido.
– Eu nunca te odiaria, por nada neste mundo ou no outro. – Elhorir fez uma breve pausa e levantou-se indo até às cortinas e abrindo-as, deixando entrar ar fresco e um pouca de claridade.
– Deixa Elros amar e ser amado. – Elladan olhou o rosto do seu irmão sem entender. Houve uma confusa e breve pausa entre os dois – Elros ama Sónia.
Uma dor atingiu o espírito de Elladan, pois nunca imaginaria de tal desgraça.
