As personagens élficas aqui reconhecidas não me pertencem, mas sim a J.R.R Tolkien, mas a originalidade da história e algumas personagens pertencem somente a mim...


Todas as frases/palavras em itálico são palavras da língua nativa de Sónia.

E Desculpem o atraso...


X –

Sónia encontrava-se deitada na cama olhando o tecto, para variar, com Potchi deitado ao seu lado, sendo carinhosamente afagado pela sua dona. Potchi fora o primeiro a levantar a cabeça e olhar Elros, depois voltou a deitar a cabeça vendo que não era do seu interesse. Elros aproximou-se da cama e ficou em pé fitando Sónia que tinha o rosto sem expressão, olhando simplesmente o tecto, mas Nhatas tinha razão, Sónia estava triste e o ódio tomava-lhe o olhar. Elros suspirou fazendo Sónia olhar para ele, esta sorriu e sentou-se na cama, o elfo de cabelos negros tremeu e desviou o olhar pronto a falar.

– Hum... – falou Elros, a voz parecia não obedecer-lhe e por momentos a sua mente ficou em branco – Hum... Já não nos vemos à algum tempo. – Elros esforçou um sorriso, fazendo Sónia olhasse para ele de soslaio um pouco divertida.

– Pois é... – disse Sónia esforçando um pequeno sorriso. Fez-se silêncio. Elros olhou Sónia e abriu a boca, mas voltou a fechá-la, queria tanto saber o que havia se passado, mas não queria aumentar mais a dor de Sónia nem faze-la sofrer como ele havia sofrido – Óh elfo... podes falar. Eu não mordo. – disse Sónia por fim.

– Nhatas está muito triste e preocupada contigo Sónia. – falou Elros enchendo-se de coragem. Sónia desviou o olhar e diminuiu o seu sorriso.

– E tudo por minha culpa.

– Sabes que não tem de ser assim Sónia. Se contares...

– Eu não posso contar.

– Não podes? Ou não queres?

– Elros... Eu... – fez uma pausa – Eu não posso.

– O Silêncio é horrível Sónia... – Sónia deixou o seu sorriso morrer e suspirou. O suspiro era tão triste que Elros não aguentou e cerrou os olhos furioso de si próprio, porquê que ele não ficou calado. Porquê? Já não bastava ele próprio sentir-se miserável, e ainda tinha que trazer mais tristeza à mais pessoa que amava. Olhou Sónia com carinho e viu-a triste, tinha desviado a cabeça...

– IDIOTA... – gritou Sónia de repente assustando o desprevenido Elros. Sónia ajoelhou-se em cima da cama e o seu corpo tremia de raiva – EU SOU UMA PARVA... IDIOTA. COMO É QUE PUDE SER TÃO CEGA? ARGH! EU NÃO MEREÇO ISTO... ISTO SÓ ACONTECE A MIM... SEMPRE A MIM... SOU MESMO IDIOTA... EU... EU... – Sónia voltou a sentar-se na cama, Elros ainda a olhava de olhos arregalados, não se atrevia aproximar-se de Sónia com tanto ódio, mas Sónia começou a chorar e levou as mãos à cara escondendo os seus olhos – Elros... vai embora – Elros olhou-a – Por favor – não iria embora, queria abraçá-la, envolver no calor dos seus braços e dizer que tudo estava bem, queria tanto vê-la feliz e envolvê-la em carinho. O seu corpo começou a emitir uma luz branca, mas muito bela, era a primeira vez que Elros transmitia tal luz. Sónia afastou as mãos do rosto dando conta que havia uma estranha luz atrás dela, olhou de onde Elros estava e viu que a estranha luz vinha do corpo do elfo que lhe sorria, a luz era quente e muito confortável. Elros sorria gentilmente e aproximou-se de Sónia, não iria deixá-la sofrer, não ela, não como fez com aqueles que também amava. Elros aproximou-se perigosamente de Sónia que tinha os olhos arregalados de espanto, nunca vira nem sentira tal sensação, nem mesmo à presença dos Valar.

– Sónia... – Elros aproximou-se ainda mais de Sónia começando a envolver os seus braços no corpo da mortal

– AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH – gritou Sónia apavorada enquanto que se levantara num pulo, o brilho de Elros desapareceu após o grito.

– Sónia... eu... Desculpa... eu... bem... hum. – Elros não sabia o que dizer e nem muito menos o que havia se passado. Fez-se silêncio enquanto que Sónia se acalmava respirando grandes bufadas de ar. – Sónia? – disse o elfo por fim – Tu estás... bem?

– Óptima! Acho eu... – respondeu Sónia, parara de chorar e olhava confusa para Elros – O que raios é que foi aquilo? – Elros olhou-a magoado pelas duras palavras.

– Não sei! – mentiu por fim e desviando o olhar triste – Aconteceu... – cerrou os olhos com força, doía-lhe tanto lembrar-se da dor, tinha tanta dificuldade em perguntar... – Aconteceu algo entre ti e... e meu pai?

Sónia olhou-o de olhos arregalados e uma tremenda dor encheu-lhe o coração que aos poucos foi substituída por um ódio frio.

– Elros... eu não gosto que brinquem comigo. – disse Sónia furiosa, voltou-se e dirigiu-se até à varanda em passos largos e sendo seguida pelo o cão Potchi.

– Então... houve?

– Tu és um idiota, parvo e estúpido. – Sónia voltou-se com uma expressão muito séria no rosto, porém incomodativa – O que é que o teu pai tem a ver com a minha desgraça? – Mentira – Mas que raio te passou pela cabeça?

– Desculpa, eu pensei que...

– Pensas-te mal...

Elros olhou-a mais magoado, Sónia realmente tinha ódio no coração e podia ser muito fria, tal como ele fora. Levantou-se e aproximou-se de Sónia, colocou a mão no ombro da mortal obrigando-a a voltar-se. Elros esboçou um sorriso e Sónia corou levemente.

– Diz-me a verdade. – Sónia suspirou e esboçou um sorriso caloroso, não queria que ninguém soubesse do sucedido, muito menos Elros.

– Não Elros... não sei onde foste essa ideia disparatada, mas não houve nada. Aliás... O teu pai só tem sido simpático comigo. – como mentir podia ser tão doloroso.

Elros afastou-se e olhou Sónia, a sua dor havia se acalmado ao ouvir tais palavras, mas não deixava de se sentir inquieto, afastou-se de Sónia sem tirar os olhos dela, era tão linda visto nos seus próprios olhos.

– E então? – disse por fim

– Então o quê?

– Vais contar-me o que se passa? – Sónia olhou Elros, ele não iria desistir, suspirou e por fim teve que contar.

– Tenho muitas saudades de casa. Tenho imensas saudades da minha família e... e não sou propriamente feliz aqui. – os olhos de Sónia diziam a verdade, mas faltava algo, algo que justifica-se o ódio. Mas Elros sentiu pena mesmo assim e sentiu-se triste. Esboçou o seu mais belo sorriso e falou com todo o carinho que o seu coração transmitia.

– É triste e doloroso ficar separado da família e das pessoas que amamos, mas não te esqueças que Nhatas, Friêr e os outros todos estão aqui para que tu não te sintas só, para que sejas feliz... Eu também estou aqui... – Sónia corou levemente enquanto que Elros se aproximava e uma pontada de dor tomou-lhe o coração. Como Elros era parecido ao pai, tão parecido. Sónia afastou-se e voltou as costas a Elros escondendo as lágrimas que rolavam pelo o rosto.

– Peço desculpa... mas...

– Não peças... – Elros afastou-se em direcção à cama, sentou-se e olhou Sónia que o olhava de soslaio e o elfo pode ver as lágrimas brilharem ao luar.

Fez-se silêncio

Não havia mais que dizer, tudo, ou quase tudo, estava explicado, apesar de ainda sentir-se tristeza nos corações. Sónia olhou mais uma vez Elros de soslaio, desta vez com uma expressão estranha no rosto, ele iria ficar ali a noite toda ou o quê?

– Elros...

– Sim.

– Não estás a pensar ficar aí sentado a noite toda, pois não? – Elros levantou-se de repente um pouco envergonhado, ele estava a amar ficar tanto tempo na presença da criatura que roubara o seu coração, e ademais, ele havia se esquecido completamente do banquete.

– Não que eu não desejaria. – murmurou Elros recompondo-se rapidamente.

– O quê?

– Eu disse que adorava ficar aqui e continuar a conversa. – disfarçou Elros – Mas tenho que voltar para o banquete... E gostaria que a Senhora me acompanhasse. – disse fazendo uma pequena vénia fazendo Sónia sorrir, um sorriso verdadeiro.

– Alegras-me... – respondeu Sónia, mas deixou o seu sorriso morrer e sentou-se na cama – Mas não me apetece. – Elros cerrou os olhos levemente e abriu-os pouco depois, dirigiu-se à porta – E mais uma coisa – disse Sónia antes que o elfo saísse – Senhora é minha mãe. – Elros esboçou um leve sorriso e depois de despedir-se, saiu do quarto ao encontro do seu banquete.

– –

Elros deambulou pelos corredores com a mente perdida e só voltou a si depois de esbarrar contra a porta que dava para a sala onde decorria o banquete, estacou olhando a porta, ouvindo as vozes alegres dos seus entes amados, esboçou um pequeno sorriso e entrou na sala, sendo recebido por uma salva de vozes alegres fazendo Elros aumentar o seu sorriso, e esquecendo-se por momentos o que restava da dor que antes lhe invadira a alma. Pouco depois a música começou a fazer-se ouvir pela sala, ocupando cada espaço de cada canto da sala, e um ou outro elfo começara a cantar vivamente canções históricas de heróis, lendas e criaturas estranhas. Era um ambiente fantástico, muito quente e alegre.

– Elladan. Pára de... Elladan. – ouviu subitamente Elros no meio daqueles sons agradáveis, voltou o rosto onde anteriormente estava seu pai, mas lá só se encontrava Nhatas sentada a mirar um canto da sala com um ar um pouco preocupado. Elros olhou para o canto e viu seu tio falando ferozmente para Elladan. – Elladan. Pára de beber. O pai já está enervado com essa tua atitude estranha. – Elladan, para admiração de muitos, estava cego com a bebida e parecia que não tinha intenções de parar a embocar o vinho quente que segurava na mão.

– É melhor ires até lá. – disse uma voz detrás do jovem elfo, era Thünir – O teu pai não parou de beber depois que ausentas-te do banquete, parecia um sôfrego... bebendo e enchendo o copo depois de cada golada. – Elros olhou para Thünir com os olhos de poucos amigos, Thünir havia chamado o seu pai de sôfrego? Elros afastou-se de Thünir sem responder e dirigiu-se até o canto onde se encontrava o seu pai e o seu tio, passando primeiro pela Nhatas e pelo Elrond sentado na sua habitual cadeira visivelmente perturbado com Elladan.

– Elros... – Elrohir voltou-se para o seu sobrinho com o rosto procurado – Graças a Eru que voltas-te. – voltou-se outra vez para Elladan com a face um pouco rosada – Dá-me já a garrafa Elladan.

– Não... eu não dou. Quero esquecer de... ... coisas. – Elros olhou com os olhos tão tristes para o pai, que sofria – Elros? O que... ... o que fazes aqui? – Elros não respondeu não tirando os olhos amargurados do seu pai, atitude essa que "mexeu" com Elladan, este levantou-se de repente e colocou as mãos nos ombros do seu filho – Porquê que olhas o teu ... o teu pai assim? Não gostas de vê-lo bêbado? ... ... Mas gostas de vê-lo sofrendo! – fez-se silêncio, ambos os elfos sãos não compreenderam tais palavras e Elladan começou a rir afastando-se – Não faz mal... não faz mal... ... não me importo que o meu próprio filho goste de ver o seu pai sofrer, mas... ... não faz mal... afinal eu sou seu pai, não é? – tanto Elhorir como Eros olharam Elladan completamente horrorizados, era certo que Elladan estava bêbado, mas... que palavras eram aquelas que quebrava os corações daqueles que tanto o amavam e se preocupavam! Fez-se novamente silêncio – Eu vou cantar. – disse Elladan de repente e indo para o meio da sala, cambaleando um pouco, e sendo impedido pelo o seu gémeo.

– Tu não vais cantar coisa nenhuma... ficas aqui comigo e com Elros...

– Eu quero cantar.

– Não cantas nada.

– Mas... ... Eu vou cantar. Quero cantar sobre aranhas, Orcs, Trols... ... Quero cantar sobre Sauron.

– Elladan... não sabes o que estás aí a dizer.

– Eu... ... – mas Elladan calou-se mirando uma bela e jovem empregada que atravessava a sala, despertando desejo em Elladan, queria tanto esquecer – Eu vou cantar sobre flores e a história de Luthien e Beren... – Elhorir olhou na direcção do seu gémeo e a jovem elfa entrou no seu campo de visão.

– Elladan... Tu não vais fazer corte a nenhuma donzela.

– Corte? Eu não preciso de fazer corte e... ... Olha... ela já foi...

Os gémeos continuaram a discutir, deixando Elros só nos seus pensamentos, ainda muito magoado e confuso com as palavras do seu pai, que havia lhe atingido o coração como adagas muito afiadas. Era uma certa dor incompreendida, como se ela não tivesse encontrado o seu lugar no espírito do jovem elfo, vagueando por todo o ser e por toda a mente de Elros, tão triste. Olhou outra vez seu estranho pai, que agora não passava de um estranho, de um alienado que lhe havia dito palavras difíceis de compreender e de sentir. Elros sinto-se frustado. Deu meia volta ouvindo ainda as vozes dos gémeos e seguiu para a porta, querendo sair dali o mais rápido possível, mas Nhatas barrou-lhe o caminho vendo o seu irmão transtornado. Os irmãos se olharam e Nhatas fez uma carícia nos rosto do irmão, não era preciso palavras para compreender que Elros estava triste, bastava olhar nos olhos, e Nhatas não tinha coragem para perguntar o que o pai de ambos, agora tentando subir para cima de uma cadeira para cantar, lhe tinha dito para que tanto magoa-se o irmão. Elros desviou-se e saiu da sala a passos largos, deixando que Elrond o seguisse como o seu olhar incrédulo que depois suspirou vendo o seu filho mais velho tentando "fugir" de Elhorir.

– Por quanto tempo esta Casa ainda terá que sofrer? – disse Elrond cerrando os olhos e lembrando-se de todas as suas perdas.

Nhatas ainda olhava a porta não fazendo caso ao estado do seu pai e não notando que o seu amando Thünir se aproximava, gostava de abraçá-la, mas não o fez, simplesmente limitou-se a dizer algumas palavras de conforto, tentado apaziguar o coração sofrido de Nhatas.

– É difícil vê-los assim. – disse Nhatas olhando Thünir – Nunca pensei que o meu pai tivesse coragem de magoar-nos, principalmente Elros.

– O teu pai deve estar a sofrer. É compreensível que magoe os outros, mas é sem intenção, principalmente os que realmente ama.

– O meu pai não tem razões de sofrer Thünir. Elros restabeleceu-se, já não está fechado... é livre. Sempre o foi. Porque razão meu pai sofreria? – Thünir olhou-a sem resposta.

– Talvez a dor não seja do Presente, mas sim do Passado. – falou Thünir, lembrando-se que a mãe de Nhatas morrera, provocando dor entre os corações. Os olhos de Nhatas brilharam com lágrimas, nunca pensara que o seu pai ainda sofresse tanto pela perda de quem mais amava. O que não era completamente mentira, mas sofria agora a perda de alguém que realmente amava para que não perdesse alguém que amava igualmente, mas o pior era o ódio habitava no coração da sua perda.

– –

Elladan fora colocado na cama, mais calmo, por Friêr e por Culion, seu irmão havia se fartado imenso das atitudes do seu gémeo, anteriormente mais ajuizado, e fora embora do banquete furioso, levando consigo a sua mulher Telas que também não havia gostado da atitude fora do habitual do seu cunhado. Culion não se demorou muito no quarto, deixando o seu irmão mais novo sozinho com Elladan. O efeito da bebida já havia passado um pouco, e Elladan começou a lembrar-se das palavras horríveis que dissera ao seu filho e o quanto envergonhou o seu pai e o seu irmão. Agarrou o braço de Friêr impedindo-o de ir embora, mas nenhuma palavra fora emitida, somente emoções foram sentidas, por fim Friêr, cedendo ao olhar de súplica e de tristeza do seu amigo, sentou-se ao lado de Elladan.

– Foi muito desagradável o teu comportamento de hoje, meu amigo. – disse Friêr, libertando-se por fim da mão fria de Elladan. Este desviou o rosto, fixando-o na chama dançarina de uma vela – Até conseguis-te enervar Elhorir.

– Mas isso não foi o pior. – falou Elladan esfregando o seu rosto. Friêr olhou-o triste, não entendera o que Elladan quis dizer, nem tinha coragem de perguntar.

– Vá. Tenta dormir.

– Não posso. Eu... Por Ilúvatar. O que é que eu fiz? – Elladan levou ambas as mãos ao rosto e começou a chorar, aquele dia fora um momento cheio de emoções fortes. A perda de Sónia, o regresso de Elros, amor, ódio, tristeza, alegria...

– Elladan? O que se passou? – perguntou Friêr realmente preocupado – O que te magoa tanto? – Elladan limitou-se a olhar Friêr com os olhos brilhantes cheios de lágrimas, não querendo responder, não querendo acreditar no que acontecera – Elladan?

– Eu... – começou Elladan, queria ficar só, sem ninguém. Estava cansado e o efeito da bebida começava-lhe a pesar na cabeça – Eu quero descansar. Quero dormir. – Friêr olhou-o, aquele dormir significada um sono puro, um sono renovador. Friêr não deteve Elladan e saiu do quarto em silêncio, mas sem antes lançar um olhar triste e de certa forma curioso ao seu amigo amargurado.

– –

A manhã nasceu cheia de luz, rompendo da beleza da noite para voltar a aquecer suavemente os seres que caminhavam e floriam em Valinor. A vida tomou conta do Vale e todos faziam as suas tarefas com prazer de devoção, mas o belo prazer da vida não havia chegado a todos no Vale.

Sónia ainda dormia abraçada à almofada, tinha se deitado por cima das cobertas abraçando a almofada e assim adormecera. Acordou com Lëan e levantou-se sem mais demoras, deixando Lëan surpresa.

– A Menina deseja tomar o pequeno almoço com os Senhores da Casa? – perguntou a criada ajudando Sónia enxugar-se com uma toalha fofa – A Menina levantou-se cedo...

– Onde está Nhatas? – perguntou Sónia sem responder à pergunta feita pela Lëan.

– Eu não estou autorizada em conviver com a Menina Nhatas. Eu não sei onde ela está.

– Pena... – Sónia acabou de se vestir e sentou-se para Lëan pentear os seus cabelos, que era algo raro – E Elros?

– Vi o Menino Elros no jardim. Parecia um pouco triste. Coitado do Menino! O banquete de ontem não causou grande felicidade para o Menino Elros... nem para o seu pai pelo o que se conta. – uma pontada de dor fez-se sentir no coração de Sónia e esta olhou repentinamente para Lëan.

– Elladan? Senhor Elladan? O que aconteceu?

– Eu não sei, eu não compareci ao banquete, mas as empregadas que serviram os Senhores ontem no banquete, contaram que o Senhor Elladan estivera a beber bastante, ficando bêbado. Uma das empregadas foi cortejada por ele... – Sónia inspirou uma lufada de ar cheia de raiva, raiva de si mesma por ter deixado o seu coração aberto àquele... ser, e raiva de Elladan por a ter usado e jogado fora, deixando-a sofrer daquele jeito enquanto que a versão élfica de D. Juan se divertia como se nada tivesse acontecido.

Sónia suspirou e sorriu triste para o espelho enquanto que Lëan acabava de a pentear, fechou os olhos e pensou na conversa que tivera com Elros na noite anterior, voltou a sorrir.

"Eu não posso ficar triste para sempre.", pensou Sónia "Não posso ficar viver a minha vida com um peso no coração. Embora que..." suspirou "Eu o realmente o ame. ARGH! Maldito ser... Quem me dera que ele estivesse agora de ressaca, a vomitar por todos os cantos, jogado na cama feito um desgraçado e com a cabeça a explodir. É um grandíssimo... "

– Menina Sónia? – Lëan roubou os pensamentos de Sónia vendo-a sorrir estranhamente – A Menina está bem?

– Estou óptima. – Sónia levantou-se olhando-se pormenorizadamente ao espelho, com o seu cabelo apanhado atrás numa traça e enfeitado com uma tranca em forma de uma flor branca e dourada – UAU Lëan! Está lindo... Obrigado. Não merecia tanto.

– Obrigado Menina. – Lëan ajuntou umas peças de roupa no chão, juntamente com um trapo completamente desfeito por Potchi e que anteriormente parecia ser umas túnica que Sónia usava para dormir, e dirigiu-se para porta, mas antes de desaparecer, voltou a perguntar se a Menina queria tomar o pequeno almoço com os Senhores.

– Sim, porque não? – respondeu Sónia mirando o seu cabelo – É raro eu os ver. Tomarei o pequeno almoço com eles. Desde que haja Lembas com doce... Nhumi... Doooceeee... – Lëan esboçou um sorriso divertido e fechou a porta, deixando Sónia olhando o seu cão que mastigava uma coisa irreconhecível.

Algum tempo depois, Lëan voltou a chamar Sónia para tomar o pequeno almoço, juntamente com os Senhores, mas quando Sónia chegou à sala habitual das refeições, somente encontrou Elrond sentado no fundo da mesa e envolto nos seus pensamentos, sendo quebrados pela mortal que entrara graciosamente na sala e sentando-se três cadeiras afastadas de Elrond.

– Bom dia jovem mortal. – disse Elrond olhando Sónia com um sorriso, raramente a havia visto ultimamente, e a presença da jovem mortal deixava-o radiante.

– Bom dia Mestre Elrond. – Sónia sorriu mirando Elrond que retribuía o sorriso.

– Sente-se aqui ao pé de mim. – pediu Elrond, mostrando a cadeira ao seu lado. Sónia obedeceu. Levantou-se de onde estava e sentou-se na cadeira ao lado de Elrond. Fez-se um breve silêncio entre ambos, mas sem que Elrond deixa-se de sorrir e mirando Sónia – Presumo que a Menina teve algum infortúnio para que não comparecesse ontem ao banquete de Elros.

– O quê? Oh! Sim. Um infortúnio. Foi isso sim... – Sónia não podia deixar que Elrond descobrisse o que realmente a incomodava e a verdadeira razão de não ter aparecido ao banquete.

– E posso saber qual foi esse infortúnio?

– Bem... sabe... Dores de cabeça, de barriga... enjoos... Coisas de mulher. – mentiu Sónia.

– Ah! Mas receio que não conheça essas "coisas". – disse Elrond divertido, sem deixar morrer o seu sorriso divertido.

– Sabe... Coisas...

– Que tipo de "coisas"? – Elrond nunca havia se divertido tanto com uma conversa.

– O Senhor sabe o que é a menstruação? – Sónia tinha que inventar alguma coisa e Elrond olhou-a não compreendendo aquela estranha palavra.

– Infelizmente não conheço tal palavra. Pode descrevê-la? – entretanto Elhorir e Telas haviam entrado na sala, com a pequena Arwen ao colo ainda meia adormecida – Bom dia meu filho. Bom dia Telas.

– Bom dia Elhorir. Bom dia Telas. – cumprimentou Sónia rapidamente, satisfeita de eles terem interrompido a conversa.

– Bom dia – Elhorir e Telas estranharam a presença de Sónia logo pela manhã.

O casal sentou-se no outro lado da mesa, com Elhorir sentado ao lado do pai e a sua esposa ao seu lado, disseram uma palavras reconfortantes entre os recém-chegados e os presentes até que Elrond, que não se esquecera da conversa com Sónia, decidiu continuá-la divertido.

– Continuando... – disse Elrond olhando Sónia – Calculo que a Menina ia explicar-me uma palavra na sua língua nativa.

– Errr... – Sónia enrubesceu levemente, não sabendo como iria explicar tal coisa, principalmente com mais gente a ouvir, que por acaso estavam atentos – Eu não sei como explicar...

– Bom dia a todos. – Nhatas entrou sorridente na sala, trazendo consigo uma luz de alegria. Todos na sala cumprimentaram-na, e mais uma vez Sónia ficou satisfeita pela conversa ter sido quebrada.

– Sónia! – Nhatas abraçou-a levemente – Estou tão contente por ver-te. Estás bem?

– Estou óptima.

– Ainda bem... – Nhatas sabia que não era completamente verdade e depois de acabar de abraçar sua amiga, sentou-se a duas cadeiras de Sónia.

– Por favor. Continua Menina Sónia... – pediu Elrond, deixado Sónia ainda mais embaraçada.

– O Senhor tem mesmo que saber?

– Claro. Além de gostar de descobrir coisas novas, tenho que saber o que é essa tal de "menstriasuação" que te aflige tanto.

Menstruação. – corrigiu Sónia – Menstruação é... – todos os presentes, excepto Nhatas que ainda não entendera o que se passava, que estavam um tanto divertidos, olharam Sónia com um sorriso divertido e mantiveram-se atentos. – Menstruação é... é... – duas criadas e três criados entraram na sala trazendo bandejas e terrinas com iguarias inimagináveis, sendo imediatamente servidas aos presentes.

– Por favor continue... – pediu Elrond.

Menstruação é... – Sónia respirou fundo enquanto que todos, incluindo os criados que discretamente ouviam a conversa, então decidiu dizer tudo de uma só folgada – É um curso natural da mulher que se dá todos os meses, na qual se sangra do órgão sexual feminino. – todos os presentes pararam de fazer o que estavam a fazer, olhando horrorizados para a mortal. Elrond já tinha ouvido sobre tal coisa e sabia que não era muito apropriado existir aquela conversa.

– A sério? – perguntou Nhatas curiosa, a única na sala curiosa sobre tal facto. Sónia olhou-a estranha, porquê que ela fez tal pergunta? Certamente que ela já deveria ter a menstruação, aliás, Nhatas já tinha idade. – As humanas realmente sangram da...

– Nhatas... já chega. – disse Elrond rispidamente – Não incomodes a Menina Sónia com essas perguntas.

– Não é nenhum incómodo... – Elrond olhou Sónia seriamente, fazendo-a calar instantaneamente. Ninguém da sala deveria querer ouvir tal repugnante coisa.

Começaram logo a comer depois de os criados irem embora, ficando somente um afastado da mesa se caso fosse necessário servir algo dos Senhores em outros assuntos.

Algum tempo depois a porta abriu-se e entrou Elladan, visivelmente preocupado e triste, suspirou antes se voltar e enfrentando os presentes, e teve uma enorme pontada de dor quando viu os olhos odiosos de Sónia cravados nos dele, depois ela simplesmente virou a cara e mirando o seu parto.

– Bom dia meu filho. – falou Elrond tomando a atenção de Elladan.

– Bom dia Pai. Bom dia a todos. – os restantes cumprimentaram-no, todos excepto Sónia que continuava a olhar o seu prato furiosamente. Elladan olhou para as cadeiras e viu o seu lugar ocupado pela sua amada que o odiava tão profundamente, não tendo outra hipótese senão... sentar-se ao seu lado. E assim fez, sentou-se ao lado de Sónia, que sentira uma dor no peito e querendo jogar-se para os braços daquele odiável ser.

Elladan olhou para Elhorir, visivelmente chateado com o seu irmão pela noite anterior, não só o seu irmão, mas todos na sala.

– Peço perdão. – disse Elladan colocando comida no prato incomodado por estar ao pé de Sónia.

– Eu perdoo-te irmão. – Elhorir olhou Elladan com um sorriso, sabendo muito bem a culpa de tal comportamento – Eu não consigo ficar chateado contigo durante muito tempo. – Elladan sorriu e olhou o seu pai, este demorou a sorrir, mas depois sorriu desculpando o seu filho e não querendo angustiar mais o filho com perguntas.

O resto do pequeno almoço decorreu calmo e com uma agradável conversa, todos participavam na conversa, excepto Sónia que continuava calada e pouco havia tocado na comida. O seu coração parecia que ia saltar-lhe do peito, a sua ferida ainda não estava curada, nem sequer cicatrizada, e estando sentada ao pé daquele que o coração tanto aclamava com ferocidade só aumentava a ferida. Começou a soluçar muito devagar chamando a atenção de Elladan, que praticamente sentia-se tal como Sónia, com o coração com uma enorme e ardente ferida.

– Sónia? – perguntou Elladan – Estás bem? – as palavras de Elladan aumentavam cada vez mais a ferida de Sónia e não aguentando, levantou-se e correu para fora da sala sem dizer nada com os olhos cheios de lágrimas.

Elladan sentiu o seu espírito ficar gelado culpando-se infernalmente pela tristeza de Sónia, desviou o rosto para o prato escondendo os seu olhos dolorosos e angustiados, mas não escampando de Elhorir que olhava o seu gémeo com tristeza.

– Sónia? – Nhatas levantou-se com intenção de ir atrás da sua amiga, mas foi impedida pelo o Mestre Elrond. – Mas avô!

– Deixa-a ir. Certamente que ela quer ficar sozinha. – tomou um gole de chá – É compreensível ela estar triste. Afinal... ela veio de outra terra e perdeu quem a ama.

Elladan esbugalhou os olhos brilhantes querendo derramar todos o sangue da alma que lhe doía e lhe atormentava.

– –

Sónia correu pelos os corredores com uma mão a tentar limpar as lágrimas que lhe escorriam pela sua face abaixo, não sabia onde iria, não queria ir para o quarto, trazia-lhe ainda mais recordações, então parou olhando em volta, mas estando num corredor vazio, só viu paredes gélidas e sem vida. Necessitava de algum calor, necessitava de alguém que a abraçasse. Deambulou pelos os corredores um pouco mais e mais calma, porém, estava ainda mais fria. Deambulou até chegar aos jardins debaixo do seu quarto, andou entre os jardins com belas flores, passou por uma linda árvore com folhas verdes e douradas, olhou em volta mirando as flores, nunca havia reparado em tal beleza floral, sentiu-se mais feliz, mas não mais quente, nem mesmo o sol a aquecia. Andou mais um pouco pelo o jardim, passando pelo o estranho monte e ouviu uma bela melodia, embora fosse triste, deixando Sónia ainda mais triste gelando o seu coração.

Mas que... – disse Sónia lembrando-se dos dois estranhos túmulos e olhou para o monte cuidadosamente – Só me faltava agora fantasmas. – mas a voz era-lhe familiar embora as palavras eram-lhe incompreendidas – Elros?

Sónia deu a volta ao monte e no noutro lado encontrou Elros deitado na relva cantando e olhando as nuvens passeando pelo céu, Sónia sorriu e ficou no sopé do monte ouvindo a bela música que Elros cantava, ele tinha uma voz magnífica. Quando Elros acabou a música, olhou para o sopé vendo Sónia olhando-o com um sorriso no rosto, mas tal sorriso não escondia a dor de Sónia.

– Sónia... – Elros sentou-se esboçando um pequeno sorriso, sentindo-se um pouco embaraçado – Estás aí à muito tempo?

– Não... encontrei-te à bem pouco tempo.

– Ah... Anda até aqui.

– Eu não sei Elros. Sabias que aí tem... campas?

– Campas? – Elros olhou-a estranho – Referes-te às campas do Tio Frodo e do Bilbo Baggins?

– Tio? – disse Sónia subindo o monte e sentando-se ao lado de Elros.

– Sim... sempre o chamei de Tio Frodo.

– Oh! – Elros riu-se.

– Mas ele não era mesmo meu tio. Era um grande amigo da nossa família. Mas infelizmente lembrou-me muito pouco dele. Eu ainda era uma criancinha quando ele morreu. – fez uma breve pausa olhando mais uma vez o céu – Mas lembrou-me muito bem de ele contar-me muitas histórias e de eu chamar-lhe de tio. – Sónia sorriu carinhosamente e olhou também para o céu.

Poucas nuvens passeavam no céu azul, deixando os dois à procura de algo impossível no céu. Elros sentia-se feliz, a pessoa que amava estava ao seu lado e era o que lhe importava naquele momento, não queria que nada, nem mesmo recordações e dores passadas, quebrasse aquele momento que ele achava único, mas bastou um suspiro triste de Sónia tirar-lhe a sua pouca felicidade. O jovem elfo olhou Sónia preocupado, Sónia simplesmente olhava o vazio com os olhos sem brilho.

– Sónia. – arriscou-se Elros – O que tens?

– Eu? – Sónia olhou Elros, mas não directamente para os olhos – Eu não tenho nada.

– Tens a certeza?

– Bem... eu até tenho fome.

– Fome? – Elros olho-a de testa semi-franzida – Não tomas-te o pequeno almoço?

– Comi pouco.

– Não era do teu agrado?

– Não era mau. Claro que ando louca de saudades de comer um cheeseburguer duplo com batatas fritas com bastante ketchup e maionese, e talvez um pouco de mostarda apimentada, um copo grande de Coca-cola e no final uma taça enorme de mousse de chocolate. – Elros olhou-a com uma sobrancelha franzida.

– E isso é bom?

– Nem por isso, faz mal à saúde. Mas faz bem à alma. – Elros sorriu e por fim riu-se.

– Então... se a comida te agradava, porque não tomas-te o pequeno almoço? – Sónia entristeceu lembrando-se de Elladan, o seu coração ardeu e algumas lágrimas caíram-lhe dos olhos. Elros sentiu uma pontada de dor, custava-lhe tanto ver Sónia com tamanha tristeza, mas queria tanto saber o que se passava, queria tanto abraçá-la – Sónia... O que se passou?

– Na-Nada... – gaguejou Sónia limpando as lágrimas, não queria ir embora, queria estar ali com Elros, o único que lhe acalmava um pouco, talvez fosse por Elros ser parecido com Elladan que lhe dava alguma alegria e alguma tristeza.

– Sónia... Eu... Não me escondas nada, por favor. – pediu Elros.

– Eu não... escondo nada. Não aconteceu... nada. – quanta vezes ela teria que mentir, por quanto tempo teria que guardar o que sentia...

– Sónia, diz-me o que se passa. Não te feches. – por quanto tempo ele iria insistir com ela. Sónia sentiu raiva e dor, queria estar com Elros, mas não podia porque só lhe trazia memórias que Sónia desejava esconder.

– CALA-TE! – Sónia explodiu – PORQUE RAIO TENS QUE SABER O QUE TENHO? PORQUE RAIO TENS QUE TE PREOCUPAR TANTO COMIGO? – Elros pegou na face de Sónia fazendo-a olhar bem para os seus olhos, algo despertou em Elros, algo que já não aguentava.

– Porque eu amo-te.

Sónia arregalou imenso os olhos, afastou o rosto das mãos quentes de Elros e encolheu-se no lugar onde estava sentada, colocando as mãos na cara e desatando a chorar ferozmente.

– Perdoa-me Sónia. – Elros sentiu-se aflito, nunca vira Sónia chorar com tamanha ferocidade – Por favor... Perdoe-me... Eu não sei o que me deu. Eu não queria fazer-te chorar. Sónia... – Elros colocou a mão no ombro de Sónia com intenção de acalmá-la, mas Sónia libertou-se muito violentamente da mão do elfo e levantou-se, ficando de frente para Elros.

– EU NÃO QUERO SER AMADA. EU NÃO QUERO SER AMADA POR NIGUÉM... EU NEM DEVIA ESTAR AQUI. EU NEM DEVIA ESTAR VIVA. EU ODEIO ESTE LUGAR... – Sónia acalmou-se cerrando os olhos com força, sentiu uma tontura e sentou-se ao lado de Elros, completamente magoado e horrorizado pelas palavras duras e sem vida de Sónia – Eu... não quero... – Sónia voltou a encolher-se e continuou a chorar, era muitas emoções que lhe passava pelo espírito, tantas que era quase impossíveis senti-las todas.

Elros sentiu-se o pior de todas as criaturas de Varda, queria sair dali a correr e jogar-se para abismo mais fundo que existia, mas o amor que sentia por Sónia só o incentivou fazer uma loucura, abraçar Sónia com carinho, tentando acalmá-la, tentando apaziguar a dor de Sónia, mas Sónia rejeitou o abraço com um "Deixa-me" muito frio e feroz, depois levantou-se friamente e foi embora deixando Elros petrificado com o coração partido em mais de mil pedaços e cada pedaço mergulhado em veneno da horrível Shelob, ficou pálido e por momentos pareceu-lhe que o ar também lhe pesava. Aquela dor fora a mais dolorosa que sentira desde que nascera, somente a dor da perda da mãe a igualava.

Elros levantou-se e olhou para a figura minúscula de Sónia a desaparecer por entre o jardim, desceu o monte, mas estava estranhamente cansado e sentou-se no sopé do monte, de repente o seu coração magoado libertou as lágrimas presas e Elros chorou até não existirem mais lágrimas para chorar.

– –

Sónia estava só no quarto, trancara-se o dia todo no quarto, somente Potchi fazia-lhe companhia, nem mesmo as súplicas de Lëan e de Nhatas a faziam sair, nem sequer lhes respondia.

Elros também havia ido para o quarto, mas não trancara a porta e não estava sozinho, estava lastimável, deitado na cama muito pálido e estranhamente cansado e com sono. Elrond, Elhorir e Elladan encontravam-se junto dele, a forma como Elros se encontrava não agradava aos presentes, preocupando-os imenso.

– Mas porque é que ele está assim? – perguntou Elladan sentado numa cadeira, extremamente preocupado.

– Não sei meu filho. – respondeu Elrond olhando Elros que dormia profundamente, Elrond suspirou preocupado.

– Alguma coisa haverá se passado.

– Não é veneno isso é certo. – disse Elhorir olhando o seu sobrinho – O que o criado disse?

– Que encontrou-o na cama neste estado. – respondeu Elladan. Fez-se silêncio, ninguém sabia o que realmente havia se passado, mas algo era certo, Elros não estava nada bem, estava mergulhado em dor e desgostoso.

– Elladan... – falou Elrond calmamente – Vai ter com Nhatas. Já anoiteceu e ela deve estar perturbada. Ela necessita de ti agora. – Elladan não protestou e foi ter com Nhatas que, como dissera Elrond, estava muito perturbada – Ele não vai sobreviver se continuar assim.

– Como? – Elhorir olhou seu pai horrorizado.

– Olha para ele Elhorir. Sente a dor dele. Nós não podemos fazer nada. – suspirou – A Mortal só trouxe dor desde que chegou. – Elhorir olhou muito surpreendido para seu pai, ele sabia o que se passava? – Claro que sei o que se passa Elhorir. Eu vos conheço como um livro aberto. Elladan ama Sónia, mas Elros também ama a mesma mulher. Um ciclo horrível. Elladan rejeitou Sónia para salvar o seu filho, mas Sónia rejeitou Elros por causa da dor que Elladan lhe encravou no coração. – Elhorir olhou o seu pai, ele era realmente muito sábio.

– E nós não podemos fazer nada. – Elhorir repetiu as palavras do pai.

– –

Sónia ainda encontrava-se só no quarto, ninguém já não a incomodava nem a chamava, Sónia deu graças por isso, ela queria ficar sozinha com a sua dor e o seu ódio por todo aquele local, só havia sofrido desde que chegara.

E eu só queria umas férias diferentes. – disse Sónia deixando lágrimas escorrerem pela suas face.

Potchi roía uma bota, ele praticamente destruía tudo o que conseguisse deitar o dente, ele não se importava com os sentimentos de Sónia e simplesmente deixava-se ao lado dela.

– Potchi, meu lindo cachorrinho... – Sónia acariciou o seu cão – Tu és mais felizardo que eu, sorte que tens. – Potchi olhou a sua dona de olhos arregalados e abanando o seu rabo, latiu uma vez fazendo Sónia esboçar um sorriso e sentou-se lembrando-se que ainda não deitara comer ao cão, que não tinha culpa de nada – Desculpa meu lindo. Eu já te trago alguma coisa. Ou melhor... eu vou levar-te até à cozinha, nunca mais saíste deste quarto. – Sónia levantou-se e dirigiu-se até à porta chamando o cão que a seguiu com muita satisfação, sair daquele quarto era uma alegria.

Atravessaram os corredores estranhamente vazios, não havia vivalma naqueles corredores, finalmente chegaram à porta da cozinha, mas estava trancada, Sónia bateu à porta duas vezes, mas ninguém a abriu.

Cá chatice... – disse Sónia olhando Potchi que não compreendera nada – Está trancada, mas ouço movimentos lá dentro. Devem estar mesmo atarefados lá dentro para não me ouvirem a bater à porta. Temos que dar a volta... Anda Potchi

A cozinha tinha duas entradas, a principal e a dos fundos, onde os cozinheiros entravam e a mercadoria era trazida, mas para chegar à porta dos fundos Sónia teria que dar a volta, e isso significava ir por fora da mansão. Sónia abriu uma das inúmeras portas secundárias da mansão e saiu colocando os braços à volta do seu corpo devido ao frio que se fazia. Afastou-se da porta em direcção à cozinha sempre com Potchi a acompanhá-la de perto, estava escuro, mas com muitas estrelas a brilhar no céu negro e com a lua luminosa a iluminar um pouco o caminho de Sónia, mas não deixava de ser um pouco sinistro, principalmente de não haver vivalma por perto.

Quem diria que isto aqui fora fosse tão sinistro. – disse Sónia passando por uma esquina e vendo as luzes da cozinha – É já mesmo ali Potchi. – Potchi abanou o rabo feliz e ultrapassou a dona em direcção do cheiro de comida que ele conseguia cheirar – A noite está linda... – disse Sónia olhando o céu estrelado – Sinistra, mas bonita. – de repente viu Potchi estancar como se fosse uma estátua olhando na direcção da floresta, Sónia olhou também para lá, mas não viu grande coisa, somente uma grande massa negra, mas Potchi abanou o rabo completamente feliz e, esquecendo-se da comida, correu em flecha na direcção da floresta – Potchi... onde é que vais? Potchi. – Sónia levantou um pouco o vestido e correu atrás do Potchi sempre o chamando ofegante – Potchi... anda cá... Potchi– parou um pouco descansando da correria, mas ainda conseguiu ver uma mancha branca continuando a correr, Sónia olhou para trás, estava bastante afastada da mansão, ou de qualquer outra habitação, olhou em frente e viu o grande negrume da floresta, correu mais um pouco, apesar de não ver quase nada, não iria deixar o Potchi sozinho, principalmente perto da floresta que lhe causava arrepios. Parou na orla da floresta e olhou-a, era realmente medonha durante a noite – Potchi! Potchi! – chamou Sónia, mas sem resposta – Potchi, vem cá imediatamente... Eu juro que te mato se eu te apanho. – sem resposta – Está bem. Fica aí só. Eu vou voltar para a mansão... – Sónia voltou-se com intenção de voltar para a mansão, mas não deixando de se preocupar com o seu cão, de repente ouviu três latidos reconhecíveis, e até estavam perto – Potchi? – Sónia olhou para a floresta e voltou a ouvir os latidos, desta vez sem cessar, Sónia enchendo-se de coragem, embrenhou-se na floresta em direcção aos latidos, andou um pouco e ficou com o seu vestido rasgado num galho – Ora bolas... – os latidos não cessaram, parando só num folgo, bem que Sónia queria voltar, mas o pensamento do seu cão lindo estar sozinho naquela floresta fazia-lhe tremer de preocupação, esquecendo-se até da sua dor. Atravessou um arbusto e lá estava Potchi, feliz e a abanar o seu rabo – Aqui estás tu. – Sónia agachou-se para pegar Potchi – Mas o que é que te deu? – de repente Sónia sentiu um movimento por detrás dela ao voltar-se deparou-se com umas pernas envoltas no negrume.

– Boa noite, Menina Sónia – ecoou uma voz bela, mas que soava que forma sinistra e ameaçadora.

– Mas o que... – o vulto agarrou Sónia tapando-lhe a boca com uma espécie de pano viscoso e verde, a mortal tentou debater-se, mas a criatura era muito forte para ela, até que sentiu-se muito sonolenta e pouco depois adormeceu nos braços daquele ser.

– Bons sonhos... que tenho planos para ti. – a criatura esboçou um sorriso maléfico olhando Sónia adormecida.