As personagens élficas aqui reconhecidas não me pertencem, mas sim a J.R.R Tolkien, mas a originalidade da história e algumas personagens pertencem somente a mim... e talvez à minha amiga que me ajudou, indirectamente, nos nomes das personagens.

&& - O mesmo Tempo, mas em Espaço diferente.


XII –

Sónia sentia-se gelada, não conseguia dormir e pensava constantemente na sua casa, da sua casa lá na "Terra Média". Suspirou. Olhou de soslaio para o elfo escuro que cravava um coelho num espeto para assá-lo na lareira que fizera perto na entrada da gruta, continuou a olhá-lo mais algum tempo, como aquele elfo era irritante. À algumas horas atrás, Sónia poderia ter fugido quando o elfo fora caçar deixando-a sozinha, mas o enorme e fiel cão negro havia-lhe barrado o caminho.

– Toma! – o elfo interrompeu os pensamentos de Sónia estendendo-lhe um pouco de carne praticamente crua.

– Que é isso? – Sónia olhou a carne tão mal assada, que até o sangue ainda escorria pela folha que servia de suporte.

– Não faças perguntas e come a carne.

– O quê? Mas estás louco? Eu não vou comer isso.

– Estavas à espera do quê? De comida requintada?

– Não! Mas carne crua? Nem mesmo para uma pessoa nojenta e hedionda como tu... – os olhos do elfo brilharam de cólera, era um pessoa de ódio e de fúria, demónio o chamavam. Jogou a carne para o chão e agarrou violentamente Sónia pelos os cabelos, fazendo-a levantar-se e olhando directamente para os olhos do elfo.

– COMO TE ATREVES SUA PORCA! – o elfo bateu na Sónia com uma bofetada violenta, jogando-a para o chão onde as folhas secas da sua cama a apararam, mas no entanto não aparando a dor do embate. Sónia olhou assustada para o elfo que continuava a olhá-la com cólera e loucura. Sónia gemeu e deitou lágrimas de medo. O elfo sorriu maliciosamente e avançou até Sónia que recolheu-se tentando se proteger de algum mal.

&&

Elros continuava a andar pela escuridão da noite e da floresta, nenhuma criatura se havia presenciado, nem mesmo algum sinal, uma pequena pista onde poderia estar a sua amada, nada... Mas Elros sentia que, por alguma razão, estava no caminho certo, infelizmente o seu corpo resmungava, pedindo sempre que descansasse, e Elros parava durante algum tempo para recuperar o fôlego, mas embora o seu corpo suplicasse para que deixasse ficar, a sua mente, o seu espírito, o seu coração davam-lhe forças para que continuasse, para não desistir.

&&

A porta do quarto de Elros abriu-se devagar, com medo que algum barulho se fizesse ouvir naquele quarto de silêncio.

Nhatas entrou devagar trazendo um prato com alguma comida, com esperanças que o cheiro gostoso dos alimentos fizesse trazer Elros à Vida.

– Trouxe um pouco de comida para ti. – Nhatas arregalou os olhos ao ver a cama do seu irmão vazia, deixou o prato cair no chão enquanto que corria pelo corredor avisando que Eros havia desaparecido.

– –

Elros insistiu na sua caminhada, desta vez sem descansar, mas nunca encontrara nada. O seu coração pesava-lhe cada vez mais, se não encontrasse Sónia depressa, Elros iria ter um ataque de loucura e de desespero, não queria acreditar que Sónia podia estar em perigo, ferida ou doente, a sua Sónia... a sua Sónia podia estar a morrer. Elros afastou tais pensamentos com raiva, Sónia estava bem... somente perdida, nada mais.

Cambaleou e segurou-se numa árvore grande e forte, olhou à sua volta, estava tudo escuro e um pouco turvo, seus olhos estavam cansados, e tal como o seu corpo, pediam descanso, um descanso longo, mas não agora, depois, tinha que primeiro encontrar Sónia. Inspirou uma lufada de ar fresco da noite e continuou a caminhar, caminhou e caminhou, ainda nada. Caminhou até chegar a uma clareira enorme, com grandes árvores a rondá-la, como se tivessem medo de penetrar a clareira, Elros caminhou até o centro da clareira, mas as suas pernas o enganaram e o pobre elfo caiu estendido no centro da clareira sem se mover, estava cansado, muito cansado, cerrou os olhos, queria dormir, só mais um pouco. Respirou com dificuldade e abriu um pouco os olhos turvos e por cima dele viu pequenos pontos brilhantes, bem lá em cima, abriu os olhos por completo, o céu escuro da noite o sorria, o abençoava com lindas estrelas brancas e vermelhas, o céu estava lindo.

"Quem me dera que Sónia estivesse aqui comigo a ver esta maravilha.", pensou Elros com um pequeno sorriso, mas deixando-o depois morrer, "Mas não está.".

Elros levantou-se furioso, não iria descansar nem dormir, não agora.

Saiu da clareira sem olhar para trás, continuou sempre em frente até passar pelas grandes árvores que pareciam barrar o seu caminho, mas conseguiu penetrar por entre as árvores que diminuíram de tamanho.

Andou durante mais algum tempo, sempre na mesma direcção, não sabia para onde se dirigia, mesmo sem que nenhuma pista lhe apontasse o caminho, mas uma coisa ele sabia que, para onde quer que fosse que se dirigia, Sónia estaria lá. Finalmente parou perto de uma escarpa cheia de arbustos miúdos e relva húmida, e onde existia um pequeno rio no sopé, o elfo semicerrou os olhos cansados para ver melhor à sua volta, mais ao longe conseguiu ver uma catarata, não muito grande, a brilhar ao luar. Uma forte sensação cresceu-lhe no coração dizendo-lhe que estava perto, mas Elros não via Sónia em lado nenhum. Meteu o pé com cuidado na relva húmida para descer a escarpa, mas a terra era matreira e lamacenta, fazendo que o seu pé se afundasse na lama e que ele se rebolasse pela escarpa até chegar à margem rio castanho, sujo pela lama que vinha junto com o elfo. Elros estava cansado e dolorido, deixando-se ficar onde havia caído, com metade no corpo dentro da margem baixa do rio. Deixou-se ficar mais um pouco, a água gelada mantinha-lhe acordado e de uma certa forma mais acalorado, gostaria de ficar mais um pouco ali, deitado, sem nada que o preocupasse, mas... Sónia invadiu-lhe a mente e o coração, e Elros mentalizou-se que não encontraria Sónia e começou a derramar lágrimas, cria gritar, berrar em plenos pulmões, correr a floresta inteira e por fim acabar com aquilo tudo. Foi então que ouviu um latido ao longe, o pobre elfo abriu os olhos e levantou-se a custo, os seus cabelos molhados escorreram pela sua face suja de lama e olhou na direcção dos latidos. Estranhamente, os latidos vinham da direcção da fina catarata e Elros conseguiu ver por fim uma luz por detrás da parede de água brilhante e límpida, era a luz de uma fogueira, luz essa que aqueceu e deu esperanças ao elfo.

&&

O enorme cão negro roía um pequeno osso ao pé do calor da fogueira ignorando o pequeno cão que corria e ladrava ferozmente em volta de Sónia e do elfo de cabelos de fogo. Este tentava paralisar Sónia, queria possuí-la naquele momento, que ela fosse só dele.

– Larga-me. – gritava Sónia arrastando-se para tentar fugir daquele louco, já se debatia algum tempo e começava a ficar cansada – Mas o que estás a fazer! LARGA-ME.

O elfo agarrou a mortal no ombro direito e puxou-a ferozmente para si, fez uma carícia na face da mortal, beijando-a sofregamente logo de seguida. Sónia tentava se libertar, mas estava exausta e o elfo era mais forte que ela, começou a deitar lágrimas de desespero, ninguém jamais lhe iria encontrar. O elfo deitou-a violentamente na cama de folhas e prendeu-a debaixo de si, olhou fixamente para o corpo de Sónia e o quis sem mais demoras.

– Por favor... – gemeu Sónia cerrando os olhos enquanto que o elfo rasgava o vestido, deixando os seus seios à mercê do elfo – Deixa-me em paz! Por favor.

– Mas minha linda! – disse o elfo olhando para os olhos inchados de lágrimas – Para quê adiar algo inevitável?

– Não... eu não... LARGA-ME... SOCORRO... ALGUÉM... – gritou Sónia em socorro, embora que em vão, pois ninguém estaria ali para ajudá-la.

– Minha linda... – sorriu desejosamente o elfo – Não grites... simplesmente aprecia e habitua-te. Quando eu matar Elladan, tu serás minha.

– O quê? – a desesperada mortal olhou horrorizada o que acabara de ouvir. Aquele elfo queria matar Elladan!

Quando o horrível elfo preparava-se para roubar forçosamente mais um beijo, o seu cão negro rosnou de raiva e ganiu dolorosamente, o elfo voltou-se rapidamente e viu o seu cão com uma espada de treino trespassada na garganta, levantou os olhos para poder ver quem o tinha morto e viu um elfo de cabelos negros, molhado, sujo, pálido e ofegante. O elfo esbugalhou os olhos e levantou-se instintivamente fitando o intruso, aquele rosto lembrava-lhe alguém, já o tinha visto em algum lado, mas não se lembrava onde ou quando. O intruso dirigiu o seu olhar para o detestável elfo que ainda o olhava surpreendido e depois olhou Sónia que tapava o seu peito com a roupa rasgada.

– O que tu lhe fizeste? – disse Elros cheio de raiva vendo Sónia descomposta e temendo o pior – Seu animal nojento... eu mato-te. – Elros tirou a sua espada da garganta do animal morto e dirigiu-se para o elfo cheio de ódio por aquele ser.

– Elros... Não. – pediu Sónia, ela sabia o quanto o elfo de olhar odioso era louco e não queria que Elros se ferisse.

– Elros! – disse surpreendido o elfo olhando Elros com mais atenção. Aquele era Elros, sim... agora lembrava-se do Elros, filho de Mirïan e Elladan. Esboçou um sorriso diabólico e falou enigmaticamente – Vejo que cresces-te muito desde da última vez que te vi, Elros. – Elros parou chocado, ele conhecia aquela criatura!

– Como é que sabes o meu nome?

– Simples... eu peguei-te ao colo quando eras pequeno. – sorriu o elfo – E eras tão pequeno.

– Mas que diabos estás a dizer?

– Elros. Elros. Elros. Claro que não te lembras de mim... afinal... eu fui embora quando tinhas cinco anos. Assuntos a resolver lá na minha antiga casa...

– Cala-te... eu nunca te vi antes. – impacientou-se Elros.

– Elros, afasta-te. Ele só está a distrair-te – pediu Sónia.

– CALA-TE. – ordenou o elfo louco, desembainhado a sua espada – Bem... Mas não interessa. Eu tenho a mortal e agora, por sorte dos Valar, eu tenho-te a ti, filho de Mirïan e Elladan. Agora Elladan tem que vir ter comigo, senão vocês os dois morrem, começando por ela. – o elfo apontou a espada ao pescoço de Sónia que gemeu com medo.

– DEIXA-A EM PAZ. – gritou Elros cheio de raiva contra aquele ser odioso. – Não sei o que queres com o meu pai, mas não vais ficar com ninguém... Principalmente não com a Sónia.

– E vai ser tu que vai impedir-me? Olha só o teu estado. Quase que não te aguentas em pé, muito menos para lutar.

– Não me subestimes!

– Eu? Eu nunca subestimei alguém... Somente... – o elfo calou-se cheio de ódio enquanto que os seus olhos brilhavam como as chamas dançarinas da fogueira. Elros olhou o elfo aproximando-se devagar enquanto que o elfo estava distraído com as suas memórias, mas o elfo não estava assim tão distraído e com um movimento rápido, agarrou Sónia encostando a espada na garganta, ameaçando a sua vida.

– AFASTA-TE FILHO DE ELLADAN. – gritou o elfo extremamente furioso – Mais um passo... e ela sofre.

– Deixa-a em paz! Ela não te fez mal algum... – pediu Elros afastando-se.

– Ela não... ela não.

– Então por que a queres? Meu pai virá só por mim. Deixa-a ir.

– Não! Não! – fez uma pausa – Não a deixarei ir. Ela vai ficar comigo... Elladan virá para salvá-la e a ti também. Nada pode correr mal desta vez.

– Desta vez?

– Oh sim... desta vez tudo correrá às mil maravilhas, e depois de Elladan estiver morto... eu te soltarei, mas Sónia... – esboçou um sorriso diabólico – Sónia será minha esposa.

– QUAIS OS TEUS ASSUNTOS COM O MEU PAI? – gritou Elros furioso ao ouvir que o elfo pretendia matar o seu amado pai e desposar Sónia, ameaçando-a à morte.

– Meus assuntos? Meus assuntos? Não tenho nenhum assunto com Elladan, mas sim a sua morte. Só a sua morte é que me interessa.

– Mas porquê? – gaguejou Sónia, sentia-se tão assustada ao ouvir tais horríveis ameaças.

– Porquê? PORQUÊ? – o elfo jogou Sónia para o chão violentamente, olhou para ambos os presentes com um autêntico olhar diabólico – Porque esse maldito elfo roubou-me a única elfa que alguma vez amei! E além de ma ter roubado, ele matou-a.

– Matou-a? Mentiras... meu pai não roubou nem matou ninguém, muito menos a tua amada...

– EU AMAVA MIRÏAN. – Sónia e Elros regalaram os olhos surpreendidos. Elros cambaleou ao ouvir o nome da sua falecida mãe ser pronunciado com tanto ódio e raiva, estava cansado, não queria ouvir histórias para o fazer cansar-se e angustiar-se mais, já bastava o que ele sentia no momento, mas o elfo não parou, continuou a sua narrativa sem parar, sem se importar com o estado de Elros – Durante anos eu a amei e durante anos eu supliquei que casasse comigo, mas ela sempre rejeitou. Dizia que nós éramos tão bons amigos que nós não nos podíamos casar. Ficava destroçado sempre que ela dizia que Não, mas nunca me importei muito com isso, Mirïan iria estar sempre ali, comigo, até que aquele nojento elfo de cabelos negros apareceu. ARGH! Como eles passaram tempos felizes... e depois... DEPOIS ELES SE CASARAM E FORAM EMBORA. – fez uma pausa, transformando o seu rosto cheio de ódio para um rosto tranquilo, como que se lembrasse de uma bela recordação – Mas Ela estava feliz. Participei na patrulha que os acompanhou até o Vale. Mirïan estava feliz, era tudo o que me importava. Depois teve um pequeno bebézinho tão lindo. Nunca vira Mirïan tão feliz. Brinquei com o bebézinho muitas vezes, mas por azar tive que voltar para casa passado sete anos desde que chegara ao Vale. Voltei. As anos foram se passando e nunca voltei, sabia que Mirïan era feliz e que tivera uma filha. Passaram-se mais alguns anos e então... – o rosto tranquilo do elfo voltou a ter uma face de cólera, de raiva, de tristeza, de angústia, lágrimas formaram-se nos seus olhos e rolaram pela sua face – E SOUBE QUE MIRÏAN HAVIA MORRIDO POR CAUSA DE ELLADAN.

– Meu pai não a matou. – gemeu Elros, estava tão cansado – Foi... foi uma aranha...

– NÃO! FOI ELLADAN... ELE NÃO PROTEGEU MIRÏAN... ELE NÃO A PROTEGEU.

– Mas ele tentou curá-la...

– MAS NÃO CONSEGUIU... EU DESTA VEZ VOU MATÁ-LO. E TU... tu não vais impedir-me, esperei muitos anos para matá-lo, para fazê-lo sofrer, e tu não vais impedir-me. – o elfo aproximou-se de Elros perigosamente, Sónia pediu para que Elros fosse embora, chorou para que ele fosse embora, mas Elros não iria, não depois de ter ouvido tais palavras contra seu pais, e não podia deixar a sua amada ali com aquela coisa.

– Afasta-te seu demónio! – ordenou Elros cambaleando, ele não iria encontrar forças para lutar, estava fraco, tanto de corpo como de espírito.

– Demónio de facto... – sorriu o elfo ignorando as palavras de Elros – Os Guardas da minha prisão, da maior fortaleza de Valinor, deram-me um novo nome. Carauko Demónio Vermelho me chamaram e Carauko sou reconhecido.

Carauko. Elros já ouvira aquele nome e lembrou-se, fora um assassino que havia fugido fazia alguns anos, cativo por ter tentado matar alguém importante, alguém que lhe era chegado, alguém como o seu pai.

– Tu! Foi tu que tentou matar meu pai dois anos depois da morte da minha mãe! Eu lembrou-me do teu nome. Tu cegas-te um Guarda e ele chamou-te Demónio Vermelho.

– Hum! Afinal tu lembras-te de alguma coisa.

– Tu não passas de um louco sem vida.

Carauko lançou-se contra Elros com grande velocidade que o jovem elfo teve dificuldade em bloquear o ataque, Carauko afastou-se sorrindo maliciosamente para Elros, ele sabia que Elros não estava em condições para lutar, a luta iria ser fácil. Voltou a atacar Elros com força, descarregando toda a sua raiva e dor no choque das espadas, Elros cambaleou, mas recompôs-se e atacou o inimigo, mas Carauko não estava ferido fisicamente e desviava-se e bloqueava os ataques de Elros muito facilmente.

Sónia derramava lágrimas de medo e de desespero, não queria que Elros se magoasse, muito menos que morresse, mas a luta não lhe era favorável. Carauko desvia-se tão facilmente e agilmente atacava Elros que se debatia corajosamente, mas Elros estava muito fraco, estranhamente fraco, Sónia não compreendia a razão de ele estar tão pálido e débil, certamente que a caminhada não fora assim tão dura, havia algo mais. Então lembrou-se do que Nhatas lhe havia dito no mesmo dia em que Carauko lhe raptara. "Elros não está bem. Ele está muito doente. Ele dorme e não acorda. Sónia, por favor, abre a porta. Por favor!", as palavras de Nhatas ecoaram na sua cabeça, Elros estava doente e Sónia culpou-se por ele estar ali e por alguma razão, culpava-se por ele estar doente.

Carauko voltou a atacar Elros, mas este fora lento a defender-se e foi atingido no ombro esquerdo caindo no chão deixando-se ficar quieto e respirando ofegantemente. Sónia soltou um gritou e correu ter com Elros, a luta havia sido renhida e Carauko estava deslumbrante por ter ferido o filho de Elladan, já não tinha razões para se preocupar com o seu inimigo caído, ferido e exausto. Olhou Sónia que falava desesperadamente para Elros, tentando que ele dissesse algo, que dissesse que estava tudo bem. Carauko agarrou a humana e puxou-a para trás de si, levantando depois a espada em direcção às pernas de Elros.

– Primeiro vou ferir as tuas pernas para que não fujas e para que não me aborreça enquanto eu estiver a passar uma noite maravilhosa com Sónia. – Carauko riu-se e quando preparava-se para atingir Elros, que o olhava com o olhar turvo suportando a dor e o sangue da sua ferida, Sónia acertou com um pedaço de madeira pesado na cabeça do elfo louco, este cambaleou, mas a pancada não fora o suficiente para o pôr inconsciente ou que caísse no chão. Olhou para Sónia cheio de ódio e com o cabo da sua espada bateu com raiva na cabeça de Sónia, fazendo-a cair inconsciente com o sangue a manchar o chão negro da gruta. Carauko reganhou os dentes com a dor na cabeça e voltou-se para Elros para acabar com que estava a fazer, mas encontrou o seu inimigo sentado e de olhos extremamente horrorizados olhando a figura moribunda de Sónia. Várias lembranças, vários sentimentos percorreram a sua mente, o seu espírito, o seu coração. Viu visões do seu pai chorando quando a sua mãe fora descansar para as Mansões de Mandos, de ele rir sempre com muito gosto noutros tempos, viu seu pai a chorar por ele nessa mesma noite. Viu Sónia a rir quando encontrou o cão branco e a cavalgar junto dele, viu Sónia a chorar quando ele disse que a amava. A sua mãe também lhe assombrou o espírito, rindo e cantando para o pequeno elfo que também retribuía o belo sorriso, mas agora ela estava morta. Tal como seu pai. Sónia. Nhatas... Não! Ninguém tinha morrido, não iria perder mais ninguém, principalmente a sua irmã, pai e amada. Uma raiva, um ódio, uma loucura e um grande Amor invadiram o seu corpo e o seu coração, não sentiu mais dor, não sentiu mais nada sem ser o desejo de ter que acabar com aquele elfo nojento. Não iria deixar que aquele ser o magoasse mais. Levantou-se, ergueu a sua espada agarrando-a com força e olhou directamente para os olhos de Carauko, este não desviou o olhar e esboçou um pequeno sorriso.

– Que assim seja Elros, filho de Elladan. – disse Carauko preparando-se para a investida – Este será o teu túmulo, juntamente com o teu pai.

– Então... vamos a isso.

Elros levantou um pouco a espada e ficou imóvel esperando o ataque de Carauko que o atacou longe de seguida, mas Elros estava diferente, estava estranhamente mais forte e já não estava fraco apesar de continuar pálido e com aspecto decadente, Elros conseguira bloquear o ataque facilmente, desta vez foi a vez de Elros esboçar um sorriso. Afastou o seu oponente com força, atacando-o de seguida. Esta sim iria ser uma luta muito renhida.

A noite tranquila de alguns animais que descansavam perto da catarata fora perturbada pelo o som estridente das espadas, o som de metal ecoou pela gruta e pela escarpa, e o brilho das espadas eram visíveis através da pequena catarata que chocavam entre si violentamente.

Algum tempo depois da luta começar, Elros começou a ficar cansado e sem forças, não conseguiu defender-se de um ataque mais forte de Carauko que o golpeou no peito, fazendo um corte pouco profundo. Elros gemeu de dor e deu dois passos para trás, ficando perigosamente à beira da entrada da gruta. Carauko sorriu uma vez mais e empurrou Elros, que caiu juntamente com a água límpida da catarata, espatifando-se nas águas pouco profundas do rio, por entre as pedras que bebiam a catarata enchendo o rio de cor do sangue. Mas Carauko não estava satisfeito, queria ver o corpo desfeito de Elros lá embaixo, talvez recuperasse o corpo para depois mostrar ao desprezível Elladan, fazendo-o rebolar-se de sofrimento. Carauko desceu agilmente pelo o estreito caminho de pedras e atravessou o pequeno rio até às pedras da catarata com esperanças de ver o corpo morto de Elros, seguiu o sangue na água até um grande espaço entre duas enormes pedras onde notou que a água era mais funda, enrugou a testa e procurou algum sinal de Elros, mas apesar de ver sangue na água, não via corpo algum, até que um brilho na água chamou-lhe a atenção vindo do seu lado direito, aproximou-se e agarrou no objecto que emitira tal brilho, sentiu aço pouco afiado nas suas mãos e viu que era a espada partida que Elros havia trazido, certamente se havia partido ao embater em alguma pedra. Sorriu. Olhou mais uma vez à sua volta sem deixar morrer o seu sorriso, foi então que viu um outro brilho, vindo por entre as pedras detrás da catarata, provavelmente era o cabo com o resto da espada partida. Aproximou-se, sempre com esperanças de encontrar também o corpo de Elros. Quando estava mais perto sentiu-se estranho, como se algo o olhasse, então de repente, o brilho do cabo da espada moveu-se rapidamente e cortou o rosto do elfo louco, da testa até o queixo, um grande corte raiado de sangue. Carauko gritou em plena agonia, ecoando por entre as árvores circundantes da escarpa, o corte ardia-lhe imenso sem sinal de parar. Por entre os seus dedos que apertavam o seu rosto ferido, olhou Elros coberto de sangue sorrindo maliciosamente e satisfeito. Voltou a gritar, desta vez em plena raiva e numa loucura sem precisão, saltou em cima de Elros.

Silêncio.

Durante o momento, o ar frio fez-se sentir no ar e não era a água gelada, alguém acabara de ser morto.

Carauko olhou Elros com os olhos quase sem vida e sem brilho enquanto que o jovem elfo retirava do peito o resto da sua fiel espada partida que trespassara o pulmão. Carauko cambaleou esganado-se com o seu sangue que lhe escorria pela boca, revirou os olhos e não viu nada, tudo parecia-lhe fugir, envolver-se na escuridão, somente via Elros em pé, olhando ofegante para o elfo que caíra nas águas, manchado-as de sangue, tornando-as da cor dos cabelos de Carauko.

Elros respirou forçosamente, o seu peito ardia-lhe tal como o ombro lhe doía, quando lutava, o fervor da luta tinha feito se esquecer da dor do ombro, mas quando caiu, o corpo gemeu de dor e de descanso, precisava de descansar agora que se lembrava que estava exausto, mas lembrou-se de Sónia e um sentimento de desespero invadiu-lhe o coração fazendo-se esquecer uma vez mais das suas dores. Subiu o estreito caminho de pedras até à gruta, não caindo por pouco, quando chegou à gruta, olhou para Sónia que não se mexera, estando no mesmo lugar que caíra, aproximou-se rapidamente de Sónia, segurou-a nos seus braços desesperadamente e com pavor a crescer-lhe no coração. Chamou Sónia várias vezes, mas sem resposta, Sónia mantinha-se ali, nos seus braços, sem se mexer, sem falar. Elros estava muito transtornado para que tentasse fazer algum tratamento e mesmo verificar se Sónia estava viva. Começou a chorar e gritar por Sónia, não podia acreditar que Sónia tivesse partido, que o tivesse deixado naquele momento. Continuou a gritar e a chorar incisivamente, a gruta aumentava-lhe os lamentos e toda a escarpa e circundante podia-se ouvir os seus lamentos.

Algum tempo depois, depois do choro e dos gritos cessarem, sendo engolidos em agonia pelo o elfo, um vulto trepou pelo o caminho de pedras e entrou na gruta, olhou em volta, a fogueira ainda tinha lume, mas já fraco, viu um cão negro morto e mais um cão pequeno recolhido num canto, e mais dentro da gruta viu Elros abraçando e balançando o corpo ensanguentado de Sónia, Elros estava ainda mais pálido e apesar de chorar cheio de mágoas, nenhum som saia-lhe da garganta, o vulto arregalou os olhos e dirigiu-se até à entrada urgentemente.

– AQUI EMBAIXO. ENCONTREI-OS. ESTÃO AQUI. – gritou o experiente batedor acenando para com que outros batedores e soldados o vissem, desceram a escarpa, mas não subiram para a gruta. Os soldados ficaram de vigília enquanto que os batedores retiraram o corpo de Carauko da água para o examinarem melhor, somente dois elfos de cabelos loiros e outro de cabelos negros subiram até onde o batedor os esperava. A mesma visão que o batedor havia encarado, Elhorir e Culion também a viram, mas não perderam tempo e se apressaram a examinar os dois corpos.

– Oh Meu Eru! Oh Meu Eru! – invocava Elhorir examinado o seu sobrinho com o pior estado que poderia imaginar – Elros. Elros. Estás bem? Elros!

– Sónia... Sónia... ela está morta. – choramingou Elros sem abrir os olhos – Ela está morta. Ela está morta. – Elhorir examinou Sónia cuidadosamente. Sónia estava feriada na cabeça, mas não morta, não estava em bom estado, mas Elros apresentava-se pior.

– Elros. Sónia está bem. Ela não está morta.

– Sónia... Sónia... – continuou Elros ignorando as palavras do seu tio, mas o seu corpo não aguentou, estava cansado, cheio de dores e o seu espírito não estava bem, nada bem, abriu os olhos gemendo, desmaiando logo de seguida, deixando os três elfos muito preocupados.

– Elhorir! – chamou Culion preocupado temendo o pior.

– Ele não está morto, mas vai estar se não nos despachar-nos. Chama os soldados, precisamos de uma padiola.

Culion levantou-se rapidamente, deixando Elhorir cuidar dos ferimentos dos dois feridos com a ajuda do batedor, o elfo de cabelos loiros ordenou que uma padiola fosse construída o mais rápido possível, quatro soldados e um batedor subiram a escarpa e penetraram pela floresta em busca de material para a padiola. Culion por sua vez aproximou-se do corpo morto de Carauko e o examinou, logo recordou-se quem ele era e recordou-se o quanto ele era estimado por Mirïan.

– Oh valoroso elfo... Que Mandos abra os seus portões, que te receba com as suas graças e que Mirïan te perdoe. – e sem mais demoras, Culion fechou os olhos ainda abertos de Carauko.

– –

Dois dias se passaram desde que Elhorir e Sónia chegaram feridos da Floresta, fora uma alegria os encontrarem vivos, infelizmente feridos. Elrond e Elhorir não dormiram até que Elros, que descansava nos aposentos próprios para feridos graves, tratado pelos os dois Mestres para que não corresse algum perigo. Sónia, devido ao seu ferimento não tão grave, fora tratada no seu quarto por uma boa curandeira. E Elladan voltara a rejuvenescer depois de um longo banho quente e uma noite em seco e sem preocupações graves ao lado do seu filho, sempre acompanhado por Nhatas.

O sol deitou-se no terceiro dia, os restante raios calorosos entraram pelas enormes janelas do quarto onde Elros se encontrava, envolto numa luz branca e com muito bom aspecto. No quarto já não se encontrava Nhatas, Elladan ou algum dos curadores, somente Sónia estava no quarto, pois já tinha permissão de sair do quarto. Estava sentada numa cadeira branca ao lado da cama e olhando para a restante luz que batia nas enormes vidraças das enormes janelas abertas, deixando entrar um pouco de fresco, respirou fundo e sentiu-se triste e culpada por ter acontecido tantas coisas a Elros, lamentou por ter sido tão cruel com Elros que só lhe queria bem e que a amava, que a amava como ela havia amado Elladan. Acusou-se por ser estúpida e besta por ter magoado duramente Elros por causa de Elladan que lhe havia ferido o coração, mas que não queria magoar-se outra vez. Suspirou fortemente e voltou o seu olhar as copas das árvores lá fora que brilhavam no pôr-do-sol, de repente sentiu um gemido e olhou preocupada para Elros, este tinha aberto os olhos, pela primeira vez desde que chegara ferido.

Elros moveu o seu rosto procurando ver alguém, não importasse quem, e voltou a cabeça na direcção de Sónia, vendo quem o coração ansiava por ver. Sónia estava ali, viva, sorrindo para ele com uma ligadura branca na cabeça, não podia acreditar no que via, a sua última lembrança era Sónia, morta nos seus braços, mas como se enganara, e ainda bem.

– Sónia. – Elros levantou-se bruscamente fazendo com que o seu peito doesse, reprimiu o rosto com dores e Sónia o ajeitou para que voltasse a se deitar.

– Fica quieto que ainda te dói mais. – disse Sónia gentilmente e Elros obedeceu sorrindo alegre.

– Oh Sónia... pensei que tivesses morrido. Tive... tive tanto medo.

– Chiu... não digas nada. Agora não.

– Sónia... eu...

– Chiu... não digas nada. – os dois entreolharam-se, até que lágrimas vieram aos olhos de Sónia, que rapidamente as limpou com as mãos.

– Sónia... Sónia o que foi!

– Nada... é que... é que eu... Perdoa-me Elros. – Sónia lançou-se no pescoço de Elros e choramingou.

– Perdoar-te? Porque havia de perdoar-te?

– Tu ficas-te ferido por minha causa, lutas-te e quase que morrias por minha causa... e eu... e eu foi tão estúpida contigo. Eu não merecia que me salvasses. – Elros sorriu afagando os cabelos castanhos de Sónia, ela havia-lhe magoado sem dúvida, mas agora, nada mais se importava, não iria sofrer nem deixar de lutar, pois se ele partir, mais ninguém iria proteger Sónia – Eu sou uma idiota. Eu não mereço...

– Mereces isso e muito mais. – disse Elros afastando Sónia para lhe ver o rosto e limpando as suas lágrimas.

– Porquê? Eu magoei-te imenso. Eu feri-te... Porquê?

– Porque eu amo-te. – Sónia corou e olhou estupefacta para Elros que esboçava o mais belo sorriso que Sónia já vira, o seu coração aqueceu-se e sentiu-se como uma miúda atrapalhada, desviou o olhar envergonhada enquanto que Elros sorria divertido.

Sónia não olhou mais para Elros, talvez por vergonha talvez por culpa, um pouco de tudo era como Sónia se sentia, não estava preparada para ouvir tais palavras vindas de Elros e não sabia como deveria agir, não queria perturbar Elros com nada e não queria fazê-lo sofrer. Elros olhou Sónia sempre com o sorriso encantador, estava feliz por Sónia estar ali, por estar viva. Olhou pela janela e viu o sol sendo engolindo pela escuridão, um ar mais fresco invadiu o quarto esfriando o corpo da mortal que se recolhia com frio, levantou-se para fechar a enorme janela, mas Elros pediu-lhe que a deixasse aberta, para sentir tranquilo pela primeira vez em algum tempo, o ar refrescante da noite.

– Não tens frio! – perguntou Sónia recolhendo-se no seu leve vestido azul.

– Não. – respondeu o elfo directamente olhando para o lado e vendo um prato com comida mal tocada – Vais comer isso!

– O quê?

– Se vais comer isso? – apontou para o prato que destinava-se a Sónia, mas que pouco tocara.

– Não. Mas a comida está fria. Vou chamar alguém para vir trazer comida quente.

– Não. – pediu Elros agarrando o braço de Sónia que se levantara – Fica comigo. Eu não me importo comer a comida fria, desde que estejas comigo.

Sónia corou e voltou a sentar-se, ajudou Elros sentar-se na cama, trazendo logo de seguida o prato com a comida fria, mas que não perdera o seu sabor. Elros começou a comer sendo observado por Sónia que esboçara um pequeno sorriso ao vê-lo comer com tanto gosto, deleitando cada pedaço de carne e cada pedaço de legume. O jovem elfo parou embaraçado, estava tão entretido com o sabor da comida que não se apercebera que estava sendo observado, sentiu-se envergonhado por não partilhar a comida, mas Sónia não tinha fome, só sentia-se cansada, desde que tinha vindo visitar Elros, que não tinha descansado devidamente.

– Está uma delícia. Tens a certeza que não queres? – disse Elros aproximando um naco de carne à boca de Sónia.

– Já disse que não tenho fome Elros. – Sónia desviou o naco de carne e continuou a sorrir.

– Mas tens que comer.

– E tu ainda mais.

Elros olhou-a, Sónia era bonita quando sorria, muito bonita, desejou abraçá-la e beijá-la com muito carinho, mas o peito ardia-lhe e provavelmente iria doer-lhe ao tentar se mexer muito.

Limpo o prato, Elros bufou de satisfação, e apesar de sentir dores no ombro e no peito, sentia-se imensamente feliz, como à muito que não sentira, colocou o prato vazio na mesa ao lado da cama e voltou-se para Sónia. Quando comia recordou-se de uma dúvida que lhe atormentara num sonho, fixou seus olhos em Sónia que também lhe retribuíra olhar, mas Elros a olhava com um olhar duvidoso, com medo de falar.

– Elros? – perguntou Sónia preocupada – Estás bem? Dói-te o ombro ou peito? Queres que chame o Mestre Elrond?

– Não! – despertou-se Elros – Eu só estava a pensar numa coisa, mas não quero que te recordes de algum Mal.

– Diz! Eu não me importo.

– Não. Basta o que já sofres-te.

– Vá lá. Diz. – disse Sónia curiosa, sorrindo como se tivesse novamente cinco anos, mas Elros desviara o olhar em sinal de reprovação, queria tanto perguntar, mas tinha medo de ouvir uma resposta que causaria dor a ambos.

– Sabes a razão por Carauko ter te raptado? – disse por fim Elros não olhando Sónia – Porque é que ele te raptou? A ti e não a mim, ou Nhatas? Porquê logo a ti? Eu... eu não entendo. – Sónia sentiu o seu coração pesar imenso, sabia qual era a razão, Carauko havia-lhe raptado porque ele pensara que Elladan a amava e que lhe havia salvar, levando-o à sua morte ou vitória. Levantou-se angustiada dirigindo-se à janela de braços cruzados, não sabia que resposta haveria dar ao Elros, era uma pergunta que não sabia responder. Elros merecia toda a honestidade, todo o amor dela, mas Sónia receava magoar outra vez o coração de Elros ao dizer a verdade, mas ao mentir, não estava ser honesta com Elros e ele ficaria prejudicado, tal como ficaria consigo própria. Suspirou. Levou a mão à boca não sabendo o que dizer, Elros ainda esperava uma resposta olhando Sónia tristemente, então Sónia voltou a suspirar ganhando coragem, omitindo um pouco da verdade.

– Eu não vou mentir-te. – disse Sónia por fim, não olhando Elros – Eu não consigo mentir-te. – voltou a suspirar ganhando coragem e enfrentado o olhar de Elros – Eu e o teu pai passamos algumas noites juntas... – Elros olhou Sónia com tristeza e com dor – Mas foi só isso Elros... Eu juro. – mentiu Sónia vindo lágrimas aos olhos – Foi só umas noites juntos, nada mais... E Carauko deve ter pensado que nós... que nós nos amávamos ou algo assim. – chegou-se perto da cama de Elros abalada com o olhar doloroso de Elros, ajoelhou-se agarrando a mão de Elros sem desviar o olhar – Eu juro-te Elros. Eu juro pela minha vida. Foi só umas noite, nada mais... nada mais.

Sónia deitou a cabeça na cama chorando e escondendo as suas lágrimas, apesar de se sentir triste, sentiu um certo alívio no coração, mas Elros estava um tanto chocado com a resposta, sempre pressentiu que havia uma ligação entre Sónia e seu pai, mas nunca imaginaria que eles tivessem passado noites juntos.

– Olha para mim. – pediu Elros com um sorriso triste, mas sempre belo – Por favor! Olha para mim. – Sónia levantou os olhos cheios de lágrimas e olhou Elros que sorria – Não chores. O meu coração dói quando tu choras. Levanta-te... senta-te aqui comigo. – Sónia obedeceu limpando os olhos e sentando-se ao lado de Elros – Não me interessa o que aconteceu entre ti e meu pai. Eu amo-vos aos dois e nada me fará mudar de opinião. Tu serás sempre aquela que vou amar, dependente do que aconteceu ou do que possa vir acontecer, nunca mais vou deixar-te e à minha família a quem eu os amo imenso. – fez uma pausa olhando Sónia que secara as lágrimas, o seu coração aquecera com as palavras de Elros e que se recuperava cada vez que ele sorria – Eu amo-te Sónia. Amo-te muito...

Sónia alargou o seu sorriso, seus olhos brilharam, como era fantástico ouvir tais palavras com tanto carinho e afecto, só ouvira palavras iguais da boca de Elladan, mas eram mentidas e dolorosas, iria esquecê-lo para poder voltar a amar, amar o elfo que realmente merecia o seu amor. Lançou-se ao pescoço de Elros beijando-o, não se importando da surpresa que pregara ao jovem elfo que mantinha-se estupefacto e quieto como uma estátua, não a sua ideia de beijo perfeito, mas já era algo. Por fim Sónia afastou-se vendo Elros imensamente corado, era a primeira vez que tinha visto um elfo corar assim. Olharam-se algum tempo, Sónia acariciou gentilmente o rosto de Elros que fechou os olhos para conseguir sentir toda a beleza de tal carícia.

– Eu foi mesmo uma idiota. – disse Sónia afastando a sua mão do rosto ainda rosado – Tu és tão maravilhoso e eu não vi isso. – fez uma breve pausa – Tu és o único que preencheu o meu coração, tu aqueces a minha vida. Foi mesmo idiota ao não ver isso. – suspirou e aproximou-se de Elros, agora percebera as suas emoções confusas que sentira, que se esquecera da sua dor, estava feliz, Elladan já não lhe atormentava, apesar de ele ainda fazer-se sentir – Elros... Agora eu posso dizer que... Eu amo-te.

Elros sentiu uma pontada de tontura de felicidade, não aguentou e beijou Sónia apaixonadamente, estavam felizes e quentes, queriam que o tempo parasse, abraçaram-se com mais força, mas logo Elros gemeu com dores e resmungou furioso pelas dores terem interrompido o momento. Sónia riu-se e abraçou Elros com muito cuidado, para não magoar o frágil elfo que mantinha entre os braços, pediu que ele se deitasse, para que descansasse um pouco, mas Elros não queria se libertar daqueles braços quentes.

– Elros, eu não posso ficar assim a noite toda, ainda por cima está a escurecer. – resmungou Sónia, mas que também não o queria largar.

– Deita-te aqui comigo. – pediu Elros afastando as cobertas.

– O quê? – Sónia corou – Estás louco? Eu não posso deitar-me contigo.

– Claro que podes. A cama é suficientemente grande.

– Mas e se alguém entra e pensa em alguma coisa imprópria?

– O quê? – riu-se Elros – Não sejas idiota. Quero que te deites comigo... pelo o menos até eu adormecer. Tu dizes-te que preciso de descansar.

– Eu sei o que disse. E tu podes dormir sem que eu esteja contigo.

– Por favor, minha amada. – Sónia estremeceu ao ouvir tais palavras, Elladan também a chamava assim quando estavam juntos, afastou os dolorosos pensamentos da sua mente, não iria deixar que sentimentos passados estragassem o que vivia no momento. Por fim cedeu a Elros e deitou-se bem junto do elfo que a abraçava e a abafava gentilmente. Depois de bem entrelaçados entre abraços, Elros começou a cantar baixinho, embalando Sónia que algum tempo depois adormecera sendo depois acompanhada pelo o seu amado.

Elhorir apareceu no corredor com intenção de ver como estava Elros, o corredor estava escuro pois ali não era permitido acender mais que dois archotes dourados, ao olhar com mais atenção viu que encostado à porta de Elros encontrava-se Elladan, mantinha a sua cabeça baixa, deixando os seus olhos invisíveis a quem passasse, escondia os seus olhos amargurados e lamentosos, Elladan ouvira a conversa toda entre Sónia e o seu filho, estava muito magoado e pouco feliz por Elros estar bem e alegre.

Elhorir aproximou-se devagar ouvindo pequenos soluços, posou a mão cuidadosamente no ombro do seu gémeo, não se atrevendo a falar, mas Elladan afastou-se magoado, não com o irmão, mas com o seu coração e palavra trocadas entre Sónia e Elros, e foi embora apressado para um escritório ali perto que ninguém usava, sendo seguido pelo o preocupado do seu irmão. O gémeo mais novo chegou perto da porta semiaberta e entrou no escritório cheio de pó, encontrando Elladan com as mãos revoltadas na beira da janela e com o seu rosto escondido pelas grossas cortinas escuras que não deixavam entrar algum ar fresco e luz naquele quarto abafado. Elhorir fechou a porta bem devagar com medo de ferir os ouvidos do irmão e aproximou-se lentamente ficando um pouco afastado de Elladan.

– Eu a amo. – disse por fim o elfo ferido entristecendo o seu gémeo – Eu amo-a muito.

– Eu sei meu irmão. – Elladan levou a mão ao rosto, deixando que lágrimas rolassem dos seus olhos, Elhorir abraçou o seu irmão carinhosamente e deixou que o silêncio consolasse o seu irmão.

– –

– Eles estão tão amorosos abraçados desta maneira. – disse uma voz meiga.

Sónia sentiu uma luz quente bater-lhe nos olhos enquanto ouvia a voz, abriu os olhos devagar, piscando-os várias vezes devido à forte luz, olhou para o tecto bocejando e voltou o seu rosto para o lado, vendo Nhatas e Telas com a pequena Arwen ao colo, viu-as com uns sorrisos meios estranhos e então recordou-se que estava deitada na mesma cama que Elros. Levantou-se de repente olhando as duas elfas que riram-se e depois ouviu um sussurro do outro lado da cama, olhou e para sua surpresa e descontentamento, viu o Mestre Elrond acompanhado por Erestor e os dois gémeos, Elladan com um olhar triste mas esboçando um sorriso. Sónia levantou-se com um pulo olhando de olhos esbugalhados para os presentes que não evitaram um riso.

– Isto não é o que parece. – disse Sónia atrapalhada.

– Nós não pensamos em nada. – brincou Elhorir avançado até Sónia – Apesar de admitir que é um pouco, digamos, "difícil" de entender o que aconteceu.

– O quê? Não aconteceu nada...

– Nós não discordámos. – riu-se Telas. Elrond e Erestor reviraram os olhos divertidos antes de Elrond falar.

– O que aconteceu ou não, não é da nossa vida. Mas onde está o seu respeito? Que eu saiba você não dormiu connosco. – uma rara indirecta divertida de Mestre Elrond.

– Oh! Pois... – Sónia estava muito embaraçada e envergonhada para se lembrar da devida formalidade – Muito Bom Dia Senhores e Senhoras.

– Bom Dia. – disse subitamente Elros para surpresa dos presentes.

Logo a cama de Elros foi invadida pelos os elfos divertidos, havia choros de alegria, risos, beijos, abraços. Era uma pequena festa só para Elros. Estavam todos muito contentes, todas as dores haviam sido saradas e esquecidas, tudo estava bem e desejavam que ficasse assim para sempre, mas uma mágoa não havia sido sarada e esquecida, Elladan não se esquecera da noite anterior, apesar de ter muito bom aspecto, o seu coração estava ressentido e lamentava de vez em quando. Olhou Sónia que mantinha-se afastada vendo a pequena festança e sorria, como ela sorria.

– Elladan. – sussurrou Elrohir chamando a atenção do seu gémeo – Agora não. Vive este momento de alegria. – Elhorir tinha razão, este era um momento de grande alegria e não iria deixar que o seu desgosto espírito perturbasse tal ocasião, afinal, o seu filho estava bem, forte, alegre e era amado.