Capítulo um: Se conhecendo.

- Ninguém? Tsc... Vocês aprenderam esta poção no ano passado. Caiu nos NOM's, como não sabem responder? Não se consideram os mais inteligentes da escola?

Os alunos se entreolharam, constrangidos. Uma garotinha muito pequena para a sua idade quase se encolheu atrás do seu caldeirão.

- Srta. Van Der Pol, será que se arriscaria a dizer, ou como seus colegas também não é capaz?

Renata sentiu as bochechas corarem quando todos olharam para ela. Já havia se sentado no fundo pois se sentia grande demais para aquelas carteiras e preferia ter ficado quieta no seu canto, odiava chamar a atenção.

Respirou fundo, tentando falar com o inglês impecável.

- De acordo com a fumaça em círculo aberto e a aparência consistente estamos diante de uma poção calmante, provavelmente alterada com uma ou duas gotas de suco de limon... limão, e talvez ainda uma folhinha de eucalipto a julgar pelo aroma adocicado.

Snape piscou, sem expressão, tão silencioso quanto o restante da sala. Renata desejou que ele não fizesse mais perguntas, para responder essa já fora lenta e complicada, no esforço de esconder o sotaque.

- Está correto - disse, por fim, sem desviar o olhar - Saberia agora informar aos seus colegas que provavelmente não sabem, o porque o limão e o eucalipto teriam sido acrescentados à poção?

Renata respirou fundo outra vez.

- Como é uma poçon calmante, muitos curandeiros precisam dela para pacientes... hum... difíceis. O saborr forrte do limão e o aroma de eucalipto dom uma ajuda excelente parra o disfarrçe da bebida.

Snape piscou de novo. Aquela informação não havia no livro. Seja quando e como foi que ela ouviu aquilo, guardou com perfeição até hoje.

Era uma resposta perfeita na sua simplicidade.

- Muito bem. Esqueceu-se de dizer que o disfarce é necessário graças ao conjunto de ervas do mato que têm um sabor muito amargo e que é o ingrediente principal dessa poção. Mas foi uma... Boa resposta. - Uma pausa. - Abram na página 23 e baseados nas informações do livro e nas palavras da colega de vocês quero que façam uma explicação detalhada sobre essa poção. Façam isso agora.

Sem reclamações, os alunos obedeceram. Renata também, desviando o olhar forçadamente, pois juraria que era capaz de passar horas só observando aquela beleza negra...

- Cinco pontos para a Corvinal e, Srta. Van Der Pol, quando souber uma resposta levante a mão e compartilhe-a com seus colegas, senão serei obrigado a descontar pontos por seu egoísmo e falta de participação.

Snape esperou a reação dela pela reprimenda, mas apenas o que recebeu em troca foi um olhar e um sorriso cativante depois.

- Sim, senhor.

Ele a observou abaixar a cabeça e voltar a atenção para o seu trabalho. Era uma jovem diferente, parecia não se incomodar com as suas alfinetadas e isso o incomodava.

Droga de Francesa...

Com um rodopio das vestes negras, ele deu uma volta e voltou à sua escrivaninha.

- Srta. Currey, cinco pontos a menos para a Lufa-Lufa por não obedecer a ordem clara de abrir o material. Está esperando o quê?


Snape já estava cansado de tanto procurar algo que não achava nunca. Depois do sexagésimo sétimo espirro - sim, ele estava contando - resolveu dar uma parada para descansar e tomar uma água.

Desceu da cadeira onde estava em pé e olhou ao redor para analisar a bagunça que fizera ao esvaziar noventa por cento das prateleiras de livros de sua biblioteca particular. Não encontrou um único que tivesse a informação que procurava. E se não havia ali, onde mais haveria? Na biblioteca da escola? Impossível. Conhecia todos os livros da área de poções que havia naquela escola de cor e salteado.

Então... Por merlim, de onde aquela francesa arrancara o conteúdo daquela redação?

Subiu outra vez na cadeira e começou a folhear os livros que faltavam. Haviam alguns que ele não abria desde que os comprara. Espirrou de novo.

Sexagésimo oitavo...

Quando arredondou com o septuagésimo ele praguejou e desistiu. Aqueles eram os livros mais insignificantes que tinha, por isso o deixara por último. Improvável que houvesse ali a riqueza do trabalho da Francesa e a tese sobre a mudança dos ingredientes para amenizar os efeitos colaterais.

Será que tudo isso pertencia a coleção de livros franceses? Porque os de lá teriam isso e os de cá não?

- Franceses... Sempre tão egoístas...

Bufando, foi até a escrivaninha e redigiu uma mensagem para ser entregue a Srta. Van Der Pol. Esperava que ela não tivesse ido à Hogsmeade. Odiava essa sensação de curiosidade e impotência!

Chamou um elfo e deu as ordens. Cerca de quinze minutos depois, bateram na sua porta.

- Entre.

- Desculpe o atrraso, prrofessor, estava tomando banho quando recebi sua mensagem... Professor?

Snape desviou os olhos dos... Bem, de onde estavam para olhá-la nos olhos. Estava óbvio que ela tinha tomado banho, os cabelos louros pingavam água e encharcavam a camiseta justa.

- Sua roupa está molhada, senhorita.

Ele acompanhou as faces dela ficarem de várias tonalidades diferentes de vermelho quando confirmou o que ele dissera. Mostrava um senso de decência, ele pensou.

- Ah, Mon Dieu! Pardon... Foi a prresa... Eu não querria deixá-lo esperrando...

Com dificuldade por estar segurando um livro grande e pesado, ela tentou esconder os seios que já estavam bastante chamativos sob a blusa molhada e pegar a varinha. Snape se levantou, evitando olhá-la abaixo do pescoço para não constrangê-la.

- Permita-me... - Num movimento único da varinha dele a água se desprendeu em vapores e tanto a roupa quanto o excesso de água dos cabelos, secou.

- Obrrigada - Agradeceu, envergonhada.

- Acontece com qualquer um, não se preocupe tanto. - Estava sendo gentil? Que absurdo! Sacudiu a cabeça e disse num tom mais seco. - Esse é o livro? - Estendeu a mão.

- Oh, sim. Está marrcado na página, mas senhor...

- Sente-se - Ele a cortou, distraído demais com a tarefa de abrir o livro para prestar atenção.

Renata girou os olhos antes de obedecê-lo, o que ele também não notou. Observou em silêncio ele dar uma olhada rápido na página, bufar e encará-la, mau humorado.

Ela sorriu.

- Devo adivinhar com isso que não entende nada de Frrancês, não?

Ele empurrou o livro na direção dela.

- Traduza.

Interiormente satisfeita, Renata pegou o livro e começou a tarefa. Snape a cortou quase no fim da leitura.

- Não há nada aí sobre a tese que havia em sua redação. Gostaria que a lesse para mim.

Renata ergueu os olhos.

- Pardon, monsiuer, mas aquela tese não está nesse livrro.

- Como assim, não está? Porque não trouxe o livro que a continha então?

Ela continuou encarando-o com os belos olhos azuis. Abriu outro sorriso.

- Não há nada sobre aquela tese em nenhum dos livros frranceses que tenho.

Snape piscou, começando a se aborrecer.

- Não entendo de onde tirou o conteúdo daquele trabalho, então, srta. Van Der Pol.

Renata fechou o livro e se encostou na cadeira, olhando-o de uma forma profunda e provocante.

- Só parra confirrmar, prrofessor. O senhorr se refere à tese sobrre a alteração dos ingredientes para diminuir os efeitos colaterais da poção?

Snape ergueu as sobrancelhas.

- Achei que isso já tivesse ficado claro.

Droga de Francesa... Porque ela tinha que sorrir com as suas provocações? Não podia simplesmente sair correndo e chorar como as primeiranistas normais?

- Não entrrarrá isso em lugar algum, senhorr, porque fui eu quem a escreveu.

Snape quase riu.

- Você? Que ficou longe da escola por um longo tempo, conseguiu elaborar uma tese como aquela? Quantos anos tem, afinal? 18? 19?

- Não sei o que minha idade tem a ver com minha capacidade de raciocínio, monsieur - ela respondeu sem se alterar - Mas já que está tão curioso, mês que vem completo 21.

Snape se debruçou na escrivaninha. 21? Agora se sentia bem melhor por não ter sentido tanta indiferença. Ela não era uma adolescente fútil e sem discernimento.

- Vou acreditar em você, mas em troca terá que me contar tudo que sabe sobre a mudança desses ingredientes e o que fez para que tivesse a certeza de que dará certo.

Renata também se inclinou, deixando-os bastante próximos.

- C'est une trop gerand Ristoire...¹ Está com tempo, monsieur?


- Espere, deixe-me resumir tudo o que disse, então. Sua mãe sofre de crises de loucura e foi numa dessa que você teve que abandonar a escola e ficar ao lado dela, tratando-a com essa poção?

- Exato.

- Mas com o tempo a poção vai se tornando mais tóxica, seus efeitos colaterais quase insuportável para o paciente. Vendo isso você passou a pesquisar uma solução e a estudar por conta própria a alteração de certos ingredientes, levou ao curandeiro responsável pelo caso de sua mãe e ele autorizou.

- Oui!

- Então o que deu errado? Ela não foi eficaz?

- Foi! A troca das ervas do mato selvagens pelas domésticas diminuiu o efeito grosseiro da agitação das correntes sangüíneas e da aceleração dos batimentos cardíacos. Porém, o efeito esperado não foi o mesmo. Para controlar, experimentei acrescentar uma única semente de Sleep Flower para cada dose da poção.

- Sleep Flower? O elemento principal da poção do sono? - Snape passou a mão pelo queixo, pensativo. - Teve um raciocínio excelente, Renata. Estou admirado.

O sorriso iluminado que recebeu em troca compensou o esforço para soletrar o primeiro nome.

Bem... pensando melhor, nem foi um esforço muito grande.

- Estou curioso para saber o que deu errado.

O sorriso de Renata evaporou.

- As sementes têm de ser frescas, senhor, porque quanto maior o tempo de armazenamento, maior efeito elas terão e não é um sedativo para dorrmirr, é apenas um calmante!

- Era o hospital que lhe fornecia os ingredientes?

- Sim, senhor.

- Então acho que já entendi. As sementes frescas do Sleep Flower têm um prreço absurdo! O hospital não quis fornecê-las?

- Não , eles forrneceram, mas forrneceram as erradas. No começo, até que não, por um mês mais ou menos eles forneciam as sementes certas na quantidade certa, mas acho que pensaram não valer a pena - Renata deu de ombros, infeliz. - O pior foi que o curandeiro do caso estava querendo roubar essa tese e publicá-la como dele, eu descobri até que ele já estava pretendendo fornecer mais dessa poção para outros doentes e piorr, de maneira errada - Ela sorriu, abaixando a voz como se sussurrasse um segredo. - fui obrigada a pagar a memória dele.

Já era tarde. Quando Snape percebeu já havia erguido o canto dos lábios.

- E o que aconteceu com sua mãe?

- Minha avó foi morar com ela lá na Frrança, desde então ela tem melhorrado bastante e quase nem prrecisa tomar a poção, por isso vim completar os meus aqui com Patrrícia como foi o pedido dela. Deixei preparada e congelada uma quantidade suficiente caso tenha novas crises, que são comuns. Agora se o seu estado piorar terei que voltar para lá.

Snape passou a andar de um lado para o outro.

- O que fez com as sementes? Teve que comprá-las?

- Com ajuda da minha avó foi fácil. Ela é uma velha bem rica, sabe? Tinha largado a família no passado para se casar com um milionário.

Snape sorriu.

- Você precisa registrar sua teoria para que coisas como essa não ocorram mais. Pode ajudar muitas pessoas com essa nova poção. Já pensou nisso?

Renata assumiu novamente um ar infeliz.

- Sim, já pensei. Mas eu estava buscando outra solução para o caso da Sleep Flower. É muito cara, nem todos teriam a possibilidade de comprá-la. E o senhor está deixando zonza.

Snape parou abruptadamente.

- Desculpe.

Voltou a se sentar.

- Pode voltar aqui no próximo final de semana? Penso que poderíamos chegar a uma solução. Isto é, se quiser a minha ajuda.

Outro daqueles sorrisos radiantes.

- Etrerai ici², mosiuer.


¹ É uma grande história

² (N/A) É uma amiga minha que traduz, pessoal, e ela não tinha certeza de que estava certa essa frase... De qualquer forma, a tradução seria: Estarei aqui.