Capítulo três

Paris

A sexta feira chegou logo, o sol mal havia ido embora e tudo já estava preparado para a viagem. Uma mala pequena para cada um reduzidas a 2 cm² por um feitiço, uma bolsa com alguns frascos da poção, uma ansiedade no coração de Renata e um mau-humor terrível nos traços de Snape. Tudo perfeitamente pronto.

- Professor?

- Sim?

- Estive pensando... Não acha que terá problema com o ministérrio da Frrança, acha? Quando vim para cá foi a maior dita... ditadurra...

- Ditadura. - corrigiu Snape, fazendo ela corar. - E as coisas já foram todas resolvidas, não haverá problemas. - Snape terminou de fechar sua capa e abriu a porta. - Vamos?

Alguns alunos atrasados que saíam naquele momento do salão de Jantar lançaram olhares curiosos para os dois quando passaram, o que piorava mais o estado de humor de Snape.

- Sei que sabe aparatar, mas como não tem licença é melhor que façamos uma aparatação acompanhada. - Snape apertou o maxilar antes de estender o braço e dizer: - Segure-se em mim.

Renata obedeceu, um pouco trêmula. Os olhos se encontraram por um instante antes que Snape rodasse nos calcanhares e a escuridão invadisse seus olhos por alguns segundos. Fechou-os e quando voltou a abri-los, Snape já se desvencilhara e estava abrindo uma porta.

- Bem vinda ao Ministério da Magia da Inglaterra, Srt. Van Der Pol.

Era realmente um lugar lindo, mas ela ainda preferia o da França. Claro que nem passou por sua cabeça dizer isto à Snape.

Foram enrolados por pelo menos uma hora até que estivessem com a licença Francesa nas mãos. Mas Renata suspeitava que teriam demorado bem mais se Snape não tivesse usado sua carranca para apressar a pobre secretária.

Outra vez aparataram. Outra vez com Renata agarrada ao braço de Snape.

- E então? - Renata interrogou, uma nota de ansiedade na voz. - O que acha?

Estavam num lugar com uma bela vista para o país iluminado. Uma paisagem maravilhosamente fascinante.

- Vamos - Snape respondeu apenas, se dirigindo a uma pequena construção mais à frente.

- Será que nada toca você? - Renata despejou, irritada, enquanto o seguia. - Veja este lugarr! Est Magnifique!

Snape não respondeu, apenas fez um sinal para que ela se adiantasse e converssasse com o rapaz que estava ali para atendê-los. Irritada, mas resignada, ela passou a discutir em francês com o jovem.

Cerca de alguns minutos depois ela se voltou para Snape parecendo ainda mais irritada.

- Não estão querendo nos autorizarr!!

- Porque?

- Disse que há algo de errado com nosso passaporrte!

- Pergunte se ele está enxergando direito ou vai querer que eu o ajude nisso.

Renata pestanejou.

- Não está falando sério, está?

- Não. O que já de errado?

- A assinaturra. Diz que há uma possibilidade de ser falsa.

- Diga, então, a esse francês inteligente para primeiro ter a certeza do que diz. Mande-o confirmar.

Renata obedeceu. O Francês arrogante pareceu responder, grosseiro, e ela se voltou para Snape outra vez.

- Ele diz que conhece muito bem a assinatura do chefe do departamente Internacional Francês. É o futuro sogrro dele.

- Azar o da filha dele - ironizou Snape. - Mande-o providenciar um funcionário que fale Inglês. Eu mesmo quero resolver este assunto.

Snape nem precisou assistir por muito tempo a discussão que se seguiu para advinhar que o rapaz se recusava a obedecer. Saiu das sombras, tornando-se mais visível ao rapaz, com a expressão mais assustadora que podia. Bateu o punho no balcão e sussurrou.

- Providencie um funcionário que fale inglês... Agora.

Sorridente, Renata traduziu para o repentinamente pálido rapaz, que apertou uma campanha no mesmo instante.

Um longo tempo depois, um segundo Francês, mais velho e mais bem vestido que o primeiro apareceu.

- Posso ajudar?

- Sim - Snape arrancou a solicitação da mãos do atendente e passou-a para o outro homem. - Viemos da Inglaterra para visitar amigos e parentes, mas aparentemente há algo de errado com nossa licença.

O homem olhou para o rapaz atendente e dele para o papel. Colocou uns óculos e demorou cerca de 15 minutos para analizá-lo.

- A assinatura é falsa - disse por fim, entregando-lhe o papel outra vez.

Snape fuzilou-o com o olhar.

- Chame seu superior.

- Mas senhor...

- Chame. Seu. Superior. - ros´nou, já irritado demais para ser contrariado.

Sem mais uma palavra, o homem aparatou.

Snape sentiu um toque em seu braço e ao olhar, deparou com a expressão preocupada de Renata.

- Está ficando tarrde... Mamãe pode acharr que aconteceu alguma coisa e... isso nom é bom parra o seu... estado.

Snape segurou a mão dela por um impulso.

- Não se preocupe. Resolveremos isso logo.

Mas não foi bem o que aconteceu. Outro funcionário apareceu e alegou a mesma coisa que os outros. Só quando Snape "inocentemente" retirou a varinha bolso e exigiu outra vez um superior foi que este apareceu. Renata explicou a situação mais uma vez, já que Snape parecia incapaz de pronunciar uma palavra que não fosse uma maldição imperdoável.

O homem examinou a licença e não viu problema algum.

- Está tudo legalmente correto. Não entendo onde está o problema.

Constrangido, o primeiro rapaz explicou algo em Francês para o chefe. Uma discussão incompreensível para Snape se seguiu.

- Perdão, senhores - o superior pediu a Snape e Renata. Aparentemente houve uma falha em nossos funcionários. - Aqui ele lançou um olhar de censura ao pobre rapaz. - O que acontece é que o nosso chefe do departamento internacional esteve ausente no Ministério por uns dias e quem o assinou foi seu substituto. - Outro olhar fuzilante ao jovem. - Claro que todos os funcionários daqui deveriam saber disso.

- Então, está tudo certo?

- Bem... Claro que ele precisaria confirmar, senhor.

- E porque não faz isso?

- Sinto muito. Mas ele saiu para casa há uma hora. Se tivessem chegado mais cedo...

A fúria nos olhos de Snape era tão palpável que o Francês deu um passo para trás.

- Uma hora atrás? Pois acho que gostaria de saber, senhor, que estamos aqui há muito mais do que isso e já teríamos resolvido tudo se o departamento de vocês não possuísse um quadro de funcionários tão incapazes e desqualificados! Diga-me, senhor, o que fará, então, para resolver uma falha que pertence somente a vocês? Porque obviamente, terá uma solução, não?

O homem corou.

- Bem, o que eu posso fazer é... Vocês poderão ficar hospedados no hotel aqui da fronteira até... Até amanhã de manhã, por conta do ministério, claro, então nós mandaremos a autorização... pela manhã.

Renata apertou a mão que ainda estava na sua quando percebeu que Snape discutiria. Ele a olhou e algo naquela expressão o fez mudar de idéia.

- Certo. Aceitaremos sua proposta, se der sua palavra de que nas primeiras horas da manhã tudo já estará devidamente resolvido.

- Ce... Certamente, senhor. - O homem se virou para o primeiro rapaz que os atendera e disse em francês: - Leve esses senhores ao nosso Hotel e mostre a eles nossa suíte dupla, ou seria melhor... - Interrogativo, o olhar do bruxo caiu sobre as mãos entrelaçadas de Snape e Renata. - Uma suíte única para casal? - completou em inglês.

Renata corou.

- Não somos um casal - respondeu Snape, seco, mas ao contrário de soltar a mão da jovem, a apertou mais, erguendo as sobrancelhas como se o desafiasse a dizer algo.

Aparentemente, porém, o francês já conhecia o bastante sobre Snape para querer testar mas sua paciência. Com um novo pedido de desculpas em inglês e uma ordem francesa, fez o rapaz acompanhá-los até a tal suíte dupla que, à vista era mil vezes melhor do que eles pensaram, afinal, justificando, a expressão "Hotel da fronteira" não soava muito bem, realmente.

O primeiro quarto, ligeiramente maior, seria de Snape, numa irônica decoração vermelha e dourada que o fez rapidamente fechar a cara. Havia uma grande cama de solteiro com dossel, um criado-mudo de madeira detalhadamente trabalhada, um armário embutido que pegava parte de duas paredes e um lavábulo, que Renata juraria que era maior do que o banheiro de sua casa. Havia uma porta, pela qual eles passaram, que dava a um estreito corredor com uma porta larga de um lado, também detalhadamente trabalhada, dando passagem a um banheiro gigante, todo em mármore, com uma banheira redonda no centro e uma ducha que seria da grossura de um corpo humano num dos cantos. Renata mal teve tempo de se admirar muito e o rapaz já lhes mostrava a porta da frente, ainda mais larga, de correr, que era uma cozinha pequena e completa, também de mármore. Uma terceira porta na qual acabava o corredor era o quarto de Renata, tecnicamente, mobiliado da mesma forma, numa decoração cor de pêssego.

Assim que tudo lhes fora apresentado, Snape dispensou o jovem arrogante com apenas um gesto da mão.

- Isso parrrece mais um quarto para um mês de viagem! - comentou Renata quando ficaram a sós e snape a guiava até a cozinha. - Não uma única noite!

- É o mínimo que eles deveriam nos oferecer depois de toda essa dor de cabeça. - Snape rosnou, enxendo um copo de água. - Francamente, quanta desordem para um único país...

Renata o encarou preparada para responder à provocação, mas seu rosto se iluminou de repente e, sem pensar, ela empurrou Snape para trás com uma exclamação entusiasmada.

- Mas que d...??

O protesto malcriado morreu na garganta de Snape assim que Renata se virou para ele outra vez, um imenso pote de pequenos pedaços de chocolate nas mãos.

- Chocolate! - ela exclamou, como se não fosse óbvio.

- Está deslumbrada, Renata. - Ele observou. - É apenas chocolate.

Renata o olhou como se ele fosse louco, uma quantidade generosa de chocolate já na boa, mas seus olhos recaíram no aparelho logo ao lado antes que pudesse falar alguma coisa.

- Veja! - falou, a boca ainda cheia de chocolate. - Uma chocolateira! Ela faz o melhorr chocolate quente do mundo!

Snape girou os olhos.

- Largue esse chocolate de lado e vamos resolver coisas mais urgentes. Não acha que deveria avisar sua mãe?

O ânimo da garota apagou, fazendo uma mescla de culpa incomodar Snape, mas não havia outra forma de tocar no assunto.

- É... verdade. - Lavou as mãos e a boca, se livrando da sujeira e do melado - Vou escrever resumindo a situação e pedir que nos espere amanhã. Vou ver se o rapaz da portaria não nos arranja uma coruja.

Quando ela passou ao lado de Snape para pegar uma toalha, este segurou-a pela cintura. Ignorando o arrepio, encarou-o.

- Você não vai descer até lá sozinha. Aquele francês arrogante nem ao menos foi discreto enquanto olhava para você. Escreva a carta e as instruções e eu levarei.

Renata concordou apenas com um aceno de cabeça, engolindo em seco. Devia parar de ser tonta, com certeza aquele toque não fora com aquela intenção... Muito menos aquele tom fora usado para lhe causar aquela reação...

Snape a soltou, intimidado com o brilho daqueles olhos azuis. Nenhum dos dois falou alguma coisa mais até Snape avisar com o envelope nas mãos que estaria descendo.

Quando voltou, porém, já era tarde. O inútil do Francês parecia incapaz até mesmo de ler as instruções em Francês que Renata escrevera, e ainda lhe arranjara uma coruja que mais parecia um urubu, grande e fedorenta. Achando que aquilo fosse uma pirraça de mau gosto, Snape tirara satisfação e ele respondeu em seu idioma, causando uma discussão ridícula onde ninguém entendia nada além do que eles mesmos diziam.

Snape encerara com uma ameaça de varinha e um de seus olhares mais assustadores que quase fez o jovem chorar.

Entrando de volta no apartamento, chamou por Renata, não obtendo resposta. O banheiro denunciava que ela estivera ali antes, graças ao forte cheiro de Shampoo. Mas foi na cozinha que ele a encontrou, vestindo um robe de cetim cor-de-rosa, deitada com a cabeça sobre uma braço dobrado estendido, a milímetros de uma caneca aquecedora, que fumegava, os cabeços úmidos encobrindo parcialmente o rosto, incapaz de esconder os sinais óbvios de que dormia.

Movido por uma força de proteção que ele ainda não conhecia, Snape se aproximou, afastou mais a caneca dos dedos da Corvinal e lentamente, não inclinado a acordá-la, pegou-a no colo e levou-a até o quarto.

Deitou-a na cama, fingindo não ver as pernas a mostras pela abertura do robe, quando ela se mexeu.

- Severus?

- Durma - ele disse baixinho, num tom desprovido de qualquer ironia ou sarcasmo. Cobriu-a e deixou o quarto, dedicando-se à sua própria higiene e necessidade de descanso, ignorando completamente o perfume daquele shampoo no banheiro ou em qualquer lugar que ia.

Ou ao menos tentando...