CAPITULO V

Cinco semanas depois, Rin soube que sua única noite com Sesshomaru seria impos­sível de esquecer, tanto por razões práticas quanto emocionais. Por mais que quisesse, não poderia con­tinuar ignorando o mal-estar estranho que se apossara dela nos últimos dias. Seu estado não passou desper­cebido ao olho de águia da amiga San.

- Você está pálida — comentou ela, certa manhã, quando encontraram-se na hora do recreio. Na ver­dade, você parece esgotada.

- Não estou me sentindo muito bem mesmo — ad­mitiu Rin, concentrando-se em despejar água quen­te nas xícaras para preparar café. — Acho que é o trabalho exaustivo com as peças teatrais de Natal, a organização da festinha...

- As reuniões com os pais... eu sei — concordou Sango. — Mas parece que mais alguma coisa a sobre­carrega. Tem certeza de que não pegou essa gripe que anda por aí?

Rin sorveu o café e imediatamente desejou não ter contraído a tal "gripe". Pôs o café de lado, pois ultimamente só cheiro já a deixava enjoada.

- Vou passar o fim de semana inteiro na cama — decidiu, confiante, a fim de convencer a amiga. — Se descansar bastante, talvez fique boa logo.

Não que tivesse se convencido, forçou-se a admitir. Jogar a culpa no excesso de trabalho ou em uma pos­sível gripe não era mais possível, dados os eventos das últimas manhãs. Dedicada ao trabalho, atirando-se às atividades com entusiasmo com o objetivo de distrair-se e não pensar nos acontecimentos entre ela e Sesshomaru, esquecera-se de verificar o calendário, contar os dias para a regra mensal. Quando lembrou-se, já era tarde demais.

Na verdade, soube que era tarde demais ao acordar, certa manhã, com um enjôo tão forte que teve que correr para o banheiro. Mesmo naquele momento, iludiu-se, achando que poderia estar com alguma enfer­midade de vinte e quatro horas. Mas quando as vinte quatro horas viraram quarenta e oito e, então, setenta e duas, entendeu que estava com um problema grave. Então, no fim da semana, quando os sintomas, longe de arrefecer, intensificaram-se, percebeu que não podia mais se enganar.

- Soube de alguma novidade sobre o nosso senhor do castelo? — perguntou Sango, e o apelido pareceu atin­gir o coração de Rin como uma espada de gelo.

Ao voltar para casa após a cena na escola, não en­contrara vestígios de Sesshomaru. Até os lençóis haviam sido retirados da cama e colocados na máquina de la­var, programada, deliberadamente, para encerrar o ci­clo assim que ela chegasse. A mensagem era clara.

O fato de ele não responder ao seu bilhete, nem mesmo um "obrigado pela cama" rascunhado no mesmo papel, só enfatizava a distância que queria colocar en­tre ambos. Na verdade, o bilhete que ela deixara havia sumido, e apesar de procurar cuidadosamente pela casa, na esperança de que ele houvesse usado outra forma de comunicação, não encontrou nada. Não acre­ditava, tampouco, que ele houvesse ido à escola atrás dela. Ele agira como se nada tivesse acontecido.

- Nada em absoluto — conseguiu responder a Sango.

- Nem ninguém soube. Desde que a notícia vazou, ele parece ter desaparecido da face da Terra.

- Bem, não é surpresa, é?

Durante semanas, o vilarejo ficara em polvorosa com a história do rompimento do noivado de Sesshomaru.

- Oh, vamos, Rin! Você não acha que ele está cui­dando do coração partido, acha? — Sango riu ante a expressão duvidosa da amiga. — Gente como os Taisho não se casam pelos mesmos motivos que nós. Amor e outras considerações menores não são levadas em conta. Eles se casam por motivos dinásticos, pura e simplesmente, pela combinação de sangue azul, ou mais precisamente, de fortunas verdinhas.

- Mas Sesshomaru...

Sesshomaru a procurara na calada da noite, parecendo arrasado. Com certeza, mostrara-se totalmente dife­rente do homem que ela conhecia.

- Acha que ele a amava? Oh, bem, claro que você o conhece melhor do que qualquer um de nós, então, nesse assunto, tenho que reconhecer o seu conheci­mento superior.

Rin deu uma resposta evasiva que Sango podia interpretar como "como queira". A verdade era que não conheciaSesshomaru, tampouco. Conhecera-o havia mais de doze anos, mas somente à distância. Não sabia como ele era de fato. E, com certeza, não o reconhecera na noite em que ele batera à sua porta, quando fizera amor com ela e, provavelmente, a engravidara.

E não estaria se enganando ao acreditar que ele sentia qualquer das emoções que lhe atribuía? Não seria mais provável que, ofendido com a dispensa de Kagura, ele tivesse procurado uma forma de salvar seu orgulho mas­culino? Qualquer mulher serviria, mas ela estava à mão, e ele sabia exatamente como convencê-la.

- Acho melhor ir para casa. — Sango olhava-a preocupada. — Você não está bem. Vá direto para a cama e não volte até estar se sentindo melhor. Não queremos que contamine a nós todos.

"Não volte até estar se sentindo melhor". Rin lembrava-se do conselho repetidamente e, a cada repetição, a ironia crescia, principalmente na manhã seguinte quan­do, ao levantar-se, foi obrigada a correr para o banheiro mais uma vez. Se fizesse como Sango instruíra, então, ficaria afastada pelos próximos oito meses, até algum dia no final de julho, se seus cálculos estivessem corretos.

Não havia mais dúvida sobre o que estava "errado" consigo. Sorriu sombriamente à idéia de que a amiga não precisaria se preocupar. Esse problema em parti­cular não era um que resolveria tão facilmente quanto Sango imaginava.

- Então, é por isso que tem me evitado.

A voz áspera e rouca rompeu o silêncio da casa vazia tão abruptamente que Rin voltou-se chocada. Ime­diatamente, arrependeu-se pois o movimento brusco aumentou seu desconforto, forçando-a a inclinar-se de novo sobre o vaso sanitário para aliviar-se.

- Não acha que eu tinha o direito de saber?

Diante de sua vista embaçada, o intruso parecia uma forma escura e ameaçadora junto à porta do banheiro, surgida do nada, como um monstro nas histórias de fantoches, faltando apenas a fumaça e o som da bom­binha para completar o efeito.

- E então? — cobrou Sesshomaru, audacioso. — Tem algo a dizer ou vai apenas fingir que não está acontecendo?

Ele avançou um passo e o movimento perigoso im­peliu Rin a se defender:

- Eu não estava evitando você! — protestou. — Não é muito fácil entrar em contato com alguém que não pode ser taxado de disponível. Você não andou por Ellerby...

- Existem aparelhos chamados telefones.

- Ah, existem? — Ela não tentou esconder a amar­gura na voz. — Não seria o caso de um consumidor insatisfeito querendo o dinheiro de volta.

- E o que quer dizer com isso?

- Pessoas que têm telhado de vidro não devem...

- Rin... — Se o tom de voz dele era preocupante, agora tornara-se perigoso. — Pare de citar provérbios e me diga exatamente sobre o que está falando.

- Você com certeza não quer que eu conte tudo, quer? — Rin canalizava a raiva para ele, mas, en­tão, tomada por outra ânsia de vômito, foi forçada a abandonar o argumento e, mais uma vez, apoiar-se miseravelmente sobre o vaso sanitário.

- Oh, raios!

Vagamente, ficou ciente de Sesshomaru entrando no ba­nheiro para acionar a válvula de descarga. Segundos depois, quando a ânsia de vômito diminuiu, ele umedeceu uma flanela com água morna e passou-a por seu rosto com gentileza, afastando os cabelos escuros e úmidos de sua testa com a outra mão.

A sensação era tão boa que Rin permitiu-se es­quecer por um momento quem ele era e a responsa­bilidade dele naquele mal-estar. Fechou os olhos, apoiou-se contra ele e deleitou-se com o prazer de ser cuidada por alguém. Mas então a realidade tomou con­ta. Abriu os olhos e o encarou.

- Vá embora! — gritou, os olhos castanhos travados nos olhos dourados dele.

- Não — contrariou Sesshomaru, impassível. — Você pre­cisa de mim. Você precisa de alguém ,insistiu, vendo a rejeição no olhar. — E eu tenho parte nisso tudo. Está melhor agora?

- Se quer saber se vou vomitar mais, acho que não. Não havia como afirmar estar "melhor". Na verdade, duvidava de que viesse a se sentir bem novamente.

- Então, vamos para a cama.

- Não! — Ela protestou sem pensar, totalmente despreparada para a fúria negra que viu em seu olhar.

- Quem você acha que sou? — desafiou Sesshomaru, fe­rozmente. — Algum tipo de monstro que abusou de sua confiança para deixá-la nesse estado?

- Eu... não...

- Você não pode ficar aqui. — Sesshomaru ignorou sua tentativa de resposta. — Caso não tenha notado, está frio e você não está vestindo quase nada...

O olhar audacioso fez com que ela notasse a camisola que mal chegava a suas coxas. Isso significava que, quando ele chegou, ela estava inclinada sobre o vaso sanitário e...

Rin enrubesceu e viu a cama como um refúgio. Pelo menos, lá poderia levar as cobertas até o queixo e cobrir o que de repente lhe pareciam hectares de pele exposta.

- Vamos — incentivava Sesshomaru, enquanto ela cam­baleava na direção da porta do quarto. — Pronto... — Ajeitou-a com capricho sob as cobertas. — Quer beber alguma coisa? Café?

- Quer me ver enjoada de novo? — disparou Rin, estremecendo. — Isso tudo está acontecendo por­que eu senti o cheiro de café. Posso encarar um pouco de chá fraco e uma torrada deve ajudar.

- Certo, volto num minuto. Então, vamos conversar.

- Vamos conversar — repetiu Rin, aconchegando-se entre as mantas, ouvindo a movimentação no andar de baixo.

Não podia imaginar que eventos apocalípticos já ha­viam precedido aquelas palavras autoritárias e não estava certa de querer ouvir o que Pierce tinha a dizer.

- Aliás, como conseguiu entrar?

Rin sabia que estava apenas adiando o inevitável, que não havia como evitar o confronto, mas espe­rava que, partindo para o ataque, ao menos ganhasse alguns minutos de trégua. Usaria o tempo para recu­perar um pouco da compostura.

- Fui entrando — respondeu Pierce, pousando a bandeja com chá e torradas sobre o criado-mudo. — Você deixou a porta destrancada... algo bem estúpido para se fazer.

- Eu estava muito cansada ontem à noite! — defendeu-se Rin, zangada com o tom crítico. — Pensei que tinha verificado...

- Bem, obviamente, você não verificou.

Sesshomaru serviu-se de chá, acomodou-se na poltrona, recostou-se e cruzou as pernas, olhando-a fixamente por sobre a borda da xícara.

- Então, não acha que devemos conversar sobre o motivo de estar tão cansada? Embora, pela sua apa­rência, cansada seja eufemismo. Você está com um aspecto deplorável...

- Bem, obrigada pelo elogio.

Rin concentrou-se no pedaço de torrada que que­brara, mordiscando-o enquanto esforçava-se para su­primir a onda de vergonha feminina elevando sua tem­peratura. Não precisava olhar no espelho para saber que estava horrível. Após semanas com aquele enjôo, sabia que estava pálida e esgotada, o cabelo desali­nhado e sem vida. A camisola velha, desbotada com as repetidas lavagens, não devia estar contribuindo.

- Suponho que Kagura sempre pareça perfeita! Tarde demais, Rin percebeu o erro e desejou re­cuperar as palavras.

Pierce franziu o cenho, preocupado com seu estado vulnerável.

- Não vejo Kagura há quatro meses — declarou, num tom que a deixou arrepiada apesar das cobertas.

O olhar frio dele a fez desejar estar melhor para lidar com a situação.

Ali sentado, Sesshomaru não deveria parecer tão impo­nente, nem tão assustador, mas, estranhamente, o efei­to era exatamente o contrário. Com aqueles olhos dourados translúcidos no mesmo nível que os dela, não havia como escapar da inquisição.

Ele vestia suéter creme e calça azul-escura e apoiava os cabelos prateados junto ao espaldar da poltrona, rela­xado. Deveria parecer gentil, próximo, mas Rin não podia evitar vê-lo como um inquisidor espanhol ou um agente da Gestapo.

- Mas você tem um motivo para parecer... e se sentir... tão mal. Está grávida, não está?

- Após o espetáculo sórdido que presenciou, seria tolice tentar negar — resmungou Rin, não gostan­do nem um pouco do tom irônico dele. Mas sua auto-estima já estava no nível mínimo, não era possível baixar mais.

- Então, ia me contar algum dia?

Após o silêncio total dele nas últimas semanas, a úl­tima coisa que Rin esperava era a entonação cínica e aquilo colocou-a no ataque a fim de esconder a dor.

- Leva algum tempo para a mulher sentir os efeitos! E, se estava preocupado com as possíveis repercussões embaraçosas daquela noite, por que não entrou em contato comigo?

- Eu tentei — rebateu Sesshomaru. — Liguei nem sei quantas vezes, mas ninguém atendia.

- Você poderia ter passado... — grunhiu Rin, não querendo que ele visse o quanto enfraquecera sua linha de defesa.

Todas aquelas noites em que estivera na escola até tarde, em reuniões, preparando fantasias, ensaiando a peça, Pierce estivera tentando entrar em contato? A noite, quando finalmente chegava em casa, quase sempre estava tão cansada que desligava o telefone, arrastando-se até a cama, esquecendo-se de religar o aparelho na manhã seguinte.

- Era um pouco difícil passar por Ellerby estando em Los Angeles. Estive lá no mês passado — explicou Sesshomaru, vendo-a franzir o cenho, confusa. — Precisei partir no dia seguinte à... — Não terminou a frase, obviamente incapaz de descrever adequadamente o que acontecera naquela noite.

- Depois que fizemos sexo — completou Rin, fria, e sorveu um gole de chá.

Arrependeu-se imediatamente, com um nó na gar­ganta, sob o olhar severo de Sesshomaru. Por que ele ques­tionava seu uso de palavras? Afinal, não defendia que tinham feito amor.

Havia uma mensagem na secretária eletrônica quando voltei para a mansão... alguns problemas con­tratuais que precisavam ser acertados, e tive que voar para os Estados Unidos imediatamente.

- Você podia ter me dito quando me procurou na escola.

Ora, ele estivera preocupado em avisar o parceiro de squash que não poderia comparecer, mas não a ela.

- Você me deu uma chance? Além disso, deixou claro que não queria me ver mais, portanto, não havia motivo.

Mas ele tentara telefonar-lhe, lembrou-se Rin. Saber disso amenizou o sentimento de dor que nutria. Entretanto, o leve desconforto que sentia foi comple­tamente apagado pela observação seguinte de Sesshomaru.

- E mandei-lhe flores.

- Flores! — Rin elevou o tom, o bastante para rachar cristal. — Oh, sim, você me mandou flores!

Recebera-as naquele dia, cinco minutos após chegar em casa. Um arranjo grande e glorioso, que devia ter custado uma fortuna. Junto, um cartão dizendo simplesmente: "Obrigado pelo café." O café Lendo aquilo, ficara tentada a jogar tudo na lata de lixo.

- Você acha que um punhado de flores... por maior que seja... é suficiente para compensar a perda da...

Rin percebeu o que ia dizer e interrompeu-se abruptamente, mas Sesshomaru ouvira e lançou-se à frase incompleta como um gato atacando a presa.

- A perda da...? Por que não me disse que era virgem?

- Você faz parecer como se fosse o crime do século. Há uma ou duas de nós por aí, sabia? Ou melhor, havia. Sei que é antiquado, mas nem todos têm as suas oportunidades.

Ela estava despejando toda a amargura, a dor e o des­consolo com que vivera por quase seis semanas. Poderia perdoar Sesshomaru por quase tudo, exceto por algo que a ator­mentava desde aquela noite, corroendo-a como ácido.

Aparentemente, Kana Nakigawa estava certa. Durante todos aqueles anos, brigara com a mãe, defendendo a honra de Sesshomaru, insistindo que ela estava errada. Agora, porém, tinha que encarar a possibilidade de ele ter estadomesmo interessado em uma coisa só. A cada dia que ele se mantinha afastado, a suspeita crescia, a ponto de ela não saber mais se o amava ou odiava.

- Você envia flores a todas as suas conquistas?

- Não penso nelas como conquistas! E as flores foram para agradecer a bebida... por você estar aqui... por me ouvir. Pretendia algo muito mais valioso para...

- Pelo presente que foi o meu corpo!

O tom foi de sarcasmo, para ocultar a angústia que ela sentia no coração. Agora, ele queria pagarpela noite que tinham passado juntos. Se a intenção era fazê-la sentir-se barata e suja, ele não poderia ter en­contrado melhor forma.

- Oh, por favor, não se preocupe com isso. Afinal, como disse, ser virgem na minha idade é bastante ina­creditável, não é?

Se ela falasse abertamente no assunto, talvez ele não visse o que ela tentava esconder.

- Quero dizer... tinha que acontecer algum dia, não é? — A tentativa de risada dela não causou reação no semblante impassível. — Não ia querer ir para o tú­mulo como uma solteirona.

Ela assustou-se com a mudança de expressão. Ele não se pronunciara desde que ela partira para o ata­que, mas o olhar que bem poderia ter sido esculpido em granito era muito mais perturbador do que se ele tivesse se levantado e gritado com ela.

- Tinha que acontecer um dia, Sesshomaru — repetiu, insegura.

- E é para isso que servem os amigos... — O cinismo dele era insuportável, tanto que ela sentiu vontade de se abraçar para não se despedaçar na frente dele. — E agora que aconteceu?

- Não podemos simplesmente esquecer?

Rin não tinha muita esperança de que ele con­cordasse e não ficou surpresa quando ele balançou a cabeça, impiedoso.

Sesshomaru insistiu no assunto:

- Agora que aconteceu, e você ficou grávida, não há como esquecer. A questão óbvia é... o que vou fazer a respeito?

- Você não tem que fazer nada!

Ela temera, desde o começo, que Pierce se sentisse obrigado a fazer alguma coisa.

- Tenho o dever...

Dever! Rin ficou desesperada de dor.

- Como sabe que é seu?

Seguiu-se um silêncio aterrador, havia ameaça no ar e ela estremeceu involuntariamente. Mas Pierce varreu suas palavras tolas com a tolerância de quem lida com um mosquito.

- Após a sua colocação anterior, eu seria idiota em imaginar outra coisa. E, sendo esse o caso, só vejo uma solução possível. Teremos que nos casar...

- Esta não é uma possibilidade!

Rin achava impossível que a expressão dele fi­casse mais sombria, mas o olhar frio pareceu virar um raio paralisante bem à sua frente.

- Você não estava pensando em...

- Não... Oh, não. — Nem para desafiá-lo, Rin ja­mais pensou em aborto. — Mas não posso me casar com você. — Não assim, com ele sentindo-se forçado a isso.

- Por que não?

- Bem, por que deveria?

- Você não precisa parecer entusiasmada com a idéia!

O tom monótono de Sesshomaru não poderia nem remo­tamente ser classificado como entusiástico, e a pro­posta de casamento estava a anos-luz daquela que ela sonhara. Mas, claro, os sonhos eram apenas isso... fan­tasias tolas que nunca se tornariam realidade.

Sentindo-se desamparada, reconheceu a ironia da situação. Durante todos aqueles anos, sonhara com o dia em que Sesshoamru a pediria em casamento, e agora ele estava fazendo exatamente isso, mas as circuns­tâncias deixavam claro que ele não queria se casar, de modo que o sonho virara pesadelo.

- Você não quer se casar comigo! — acusou, raivosa.

Sesshomaru encolheu os ombros, tomando o protesto como irrelevante.

- Por que não? Estava planejando me casar, de qualquer forma... tenho trinta e três anos e me parece uma boa idade para me estabelecer. Como já disse, sempre quis ter filhos. E não há mais ninguém com­petindo pelo posto.

A indiferença casual magoava mais do se ele a tivesse rejeitado violentamente, deixando-a à própria sorte.

- Você faz parecer uma espécie de emprego: precisa-se de uma esposa, com idade entre vinte e vinte e cinco anos, capaz de engravidar, horário de trabalho...

Ela deteve-se ao ver a expressão ameaçadora dele.

- Se você vê a coisa assim — conformou-se Sesshomaru. — Antes de prosseguirmos, acho melhor deixarmos um assunto claro... você não está apaixonada por mim?

- Apaixonada...

Se algo garantiria que ela nunca iria lhe dizer o que sentia era a pergunta fria, a total falta de emoção na voz, a expressão distante e enigmática de Sesshomaru. Apaixonada! Naquele momento, bem poderia tentar entregar o coração a uma estátua de mármore, pois talvez não fosse tão fria e pouco receptiva.

- Apaixonada por você? — repetiu e ficou agradecida por ter conseguido dizer pelo menos isso, embora a de­claração soasse rígida e frágil, como que caísse e se es­facelasse sobre o carpete. — O que o faz pensar tal coisa?

Se ele encolhesse os ombros daquele jeito novamen­te, ela iria gritar.

- Pensei que assim tudo ficaria mais fácil.

Mais fácil para quem? Para Sesshomaru, naturalmente, pois, se ela fosse tola o suficiente, sob o ponto de vista dele, para estar apaixonada, então, ela seria muito mais maleável e seria mais fácil convencê-la a fazer o que ele queria.

- Você me disse uma vez que me amava.

Por um segundo, Rin fechou os olhos para apla­car o desânimo. Por que ele tinha que se lembrar de um momento de fraqueza seu, quando ela não estava em condições de lidar com a questão?

- Quando eu tinha dezoito anos? — Forçou-se a abrir os olhos, sorrindo sarcástica. Até conseguiu dar uma risada. — Oh, sim, eu tinha um fraco por você nessa época.

- Só nessa época?

- Essas paixonites só acontecem nessa época, Sesshomaru. Nós todos crescemos e esquecemos essas tolices.

Embora, claro, ela não tivesse esquecido nada. Ao invés disso, seus sentimentos adolescentes tornaram-se mais profundos, viraram amor de mulher.

- Então, lamento decepcioná-lo, mas a minha res­posta ao seu pedido, se é que se pode dizer assim, é um irredutível não!

Encheu-se de coragem para não ouvir o fraco pro­testo que sentiu no coração. Sesshopmaru não a amava, nem queria se casar com ela. Só fizera aquela proposta por senso de dever. Ela não era a mulher que ele queria. Kagura fora sua primeira escolha e ela nunca pas­saria da segunda colocação.

- Por que não? Eu quero o meu filho, Rin. Quero conhecê-lo, amá-lo, vê-lo crescer...

- Você quer... você quer! — Rin passou para o ataque. — Diga-me, Sesshomaru, o que há nisso para mim?

- Um marido que vai sustentá-la... você não vai precisar trabalhar... um lar...

Nada de amor, de emoção, mas o que esperava, afinal?

- Eu tenho um lar! E se eu quiser continuar aqui?

Tardiamente, Rin percebeu o erro. Sesshomaru olhou ao redor, avaliando o ambiente. Reparou no tapete gas­to, remendado, nos móveis velhos, nas cortinas desbo­tadas e na cama...

- Você quer que o meu filho nasça aqui?

Filho dele. Isso era só o que importava.

- Oh, claro, o herdeiro dos Taisho não pode nas­cer num sobradinho! Sua mãe vai ter um chilique!

- Não coloque palavras na minha boca! — rosnou Sesshomaru. — E não coloque minha mãe nisso!

- Por que não? — Pelo menos a menção dela pro­vocara alguma reação nele. Qualquer coisa era melhor do que a indiferença desdenhosa. — Não acha que ela tem algo a dizer sobre isso? Já pensou em como ela se sentirá quando você me levar para a sua casa como sua esposa? A filha da cozinheira... de pai desconhecido...

- Você vai ser a mãe do meu filho... o neto dela.

- Uma égua reprodutora! Posso ser isso aqui tam­bém. Não seria a primeira mãe solteira a criar o filho sozinha. Não preciso de você... tenho tudo o que quero.

- Mas eu tenho algo que você não tem. — Sesshomaru tentava impor a voz da razão. — Tenho dinheiro, mais do que posso gastar... e, às vezes, o dinheiro pode ser muitoútil.

Rin sentiu um frio na espinha, e a pele ficou arrepiada de apreensão.

- Eu ganho bem...

Sesshomaru lançou um olhar perigoso e ela encolheu-se instintivamente para se proteger do que se seguiria.

- Bem o bastante para enfrentar uma batalha judicial?

- Você não se atreveria!

Rin sentiu-se enregelar, um arrepio de medo percorreu-lhe a espinha. Era como se a fábula da princesa e do sapo tivesse virado de pernas para o ar, tudo estava acontecendo às avessas. Beijar o príncipe transformara-o em um monstro horrendo e perigoso.

Ele ainda tinha a mesma aparência.Ainda era o homem lindo de morrer para quem ela perdera o co­ração anos antes. Mas era como se por trás da fachada familiar surgisse alguém que não conhecia, que não entendia... que lhe provocava um medo mortal.

- Você não se atreveria!

- Não me provoque. — Sesshomaru falava calmo, quase descontraído, mas a mensagem era clara e dizia a Rin muito mais do que se ele tivesse feito uma declaração feroz.

- Você brigaria comigo na justiça pelo meu filho?. Ela abraçou-se por baixo das cobertas para proteger-se e, encarando Sesshomaru, viu a súbita mudança em sua expressão, o olhar obscurecendo-se.

- Nosso filho, Rin... — corrigiu ele. — Eu sou o pai da criança.

- Eu sei disso!

Tratava-se de um dos motivos pelos quais Rin já gostava tanto da criança. Sim, era filho de Sesshomaru, parte do homem a quem ela entregara o coração anos antes, sabendo com triste certeza que jamais o recuperaria.

- Mas isso não significa que eu queira você como meu marido!Que utilidade tem um marido para mim? — Um marido que não a amava, que só queria se casar por senso de dever.

- Eu posso dar-lhe muitas...

- Oh, claro que sim! — As palavra dela s saíram entrecortadas de amargura, raiva e revolta. — Presu­mo que estejamos falando de dinheiro novamente.

- Não, não de dinheiro. Sesshomaru mudara de atitude. Sua voz grave era de uma suavidade e intensidade que, só de ouvi-la, Rin sentia o sangue correr pelas veias mais rápido. Ajeitou-se na cama.

- Há outras coisas entre um homem e uma mulher — observou Sesshomaru, inclinando-se para a frente, os olhos dourados focalizados nos dela. — Coisas que impor­tam muito mais...

- Oh, que estranho um homem falar sobre isso. — Rin tentava escapar ao encanto que ele infligia com aquela voz macia. — E só sexo.

- Oh, não, Rin. Não é sósexo. Estou falando de paixão... do tipo que faz a gente arder só de pensar. Paixão tão intensa que faz com que fagulhas pulem entre dois seres durante a noite... como aconteceu conosco.

- Que paixão? — Rin desviou o olhar, devol­vendo a xícara à bandeja, rezando para que ele não identificasse a mentira em suas palavras. — Não me lembro de que haja ocorrido algo tão importante a pon­to de se colocar num livro.

- Então, sua memória não anda tão boa quanto a minha.

Sesshomaru falava ainda mais baixo, quase um sussurro rouco. Levantando-se, aproximou-se da cama com pas­sos silenciosos.

- Mas, se não achou tão enriquecedor quanto po­deria ter sido... — prosseguiu. — Seja honesta e as­suma sua parte da culpa pelo que aconteceu...

Rin lutava contra duas reações conflitantes, sentindo-se alternadamente quente e fria, como se esti­vesse com alguma febre tropical. O desconforto au­mentou quando ele sentou-se na beirada da cama e tomou-lhe as mãos.

Nunca imaginara que Sesshomaru fosse interpretar sua reação daquela forma. Ele achava que a aflição dela, de alguma forma, era culpa sua. Se ele soubesse a verdade!

- Mas posso prometer-lhe que, da próxima vez, vai ser bem diferente — concluiu ele.

- Próxima vez?! — indignou-se Rin. — O que o faz pensar que haverá uma próxima vez?

Sesshomarue sorriu quase gentil.

- Oh, haverá — afirmou ele, muito seguro. — Não há como evitar uma próxima vez, tratando-se de nós dois. Pode-se pedir para o sol não nascer?

- Não! — Rin tentou interrompê-lo, mas ele simplesmente ignorou-a.

- Ouça, Rin... você está em minha vida há tanto tempo que talvez eu a tenha tomado como minha, de direito. Com certeza, até aquela noite, jamais imaginei...

Sesshomaru se interrompeu e balançou a cabeça, confuso. Pessoalmente, Rin invejava a liberdade dele de mu­dar. Ela era incapaz de tal coisa. Aqueles olhos safira a capturavam e ela não tinha mais vontade própria.

- Eu não sabia que você podia me afetar daquela forma — confidenciou ele.

- Eu o afetei tanto que você nem se incomodou em entrar em contato comigo...

- Já expliquei, Rin! Tentei entrar em contato, o que foi mais do que a maioria dos homens faria depois de ouvir você me difamando junto a sua amiga...

- Não era difamação... — começou Rin, mas ele mais uma vez não deu ouvidos.

- E depois de ler aquele bilhete! "Sobre a noite passada..." — citou Sesshomaru, e Rin levou alguns se­gundos para perceber que ele estava reproduzindo seu bilhete de seis semanas antes. — "Nós dois sabemos que não significou nada..."

- Eu não...

Ela engasgou, querendo dizer que não desejara que o bilhete soasse tão áspero e impertinente. Tentara parecer sofisticada, indiferente ao evento, para que ele não ficasse com a consciência pesada, mas, ouvindo as palavras agora, tinha que admitir que o efeito era de frieza e indiferença.

- Sim, você fez. Veja, está tudo aqui.

Ele tirou um pedaço de papel dobrado do bolso.

- Tome! — ordenou áspero, quando Rin nem conseguia olhar, incapaz de acreditar que ele realmen­te guardara o bilhete e, ao mesmo tempo, intrigada por ele ter feito isso. — Leia... em voz alta!

Se ela estava se sentindo desajeitada antes, agora acreditava que a terra se abrira para engoli-la. Leu rapidamente a nota e ficou chocada. Não lembrava-se de ter escrito aquilo, mas era sua letra!

- Leia! — fustigou Sesshomaru, colérico.

- "Nós dois sabemos que não significou nada... me­nos que isso. Foi um erro idiota, o resultado de emoções conflitantes, por isso, esqueça tudo. Eu com certeza, esquecerei."

- Como se não bastasse, havia uma observação final, acrescentada no último minuto.

- "P.S. Prepare o seu café da manhã, não há ne­cessidade de pagar por nada"!

Rin estava pálida, quase esverdeada, cônscia da ambigüidade do termo "por nada".

Mas a atenção de Sesshomaru parecia estar voltada para a linha anterior.

- "O resultado de emoções conflitantes" — repetiu ele, seco. — Isso e um pouco de álcool, claro. Se pelo menos eu não tivesse bebido tanto...

Rin, já com os nervos à flor da pele, ficou mais condoída ante o comentário.

- Está tentando me dizer que eu o embebedei? Ou que você teve que beber antes de considerar tocar em mim?

- Raios, Rin! — Sesshomaru agarrou as mãos dela, tirando-a do estado de revolta. — Eu disse que não! Não foi assim e você sabe muito bem, pois sentiu o mesmo.

- Senti? — Ela se recusava a demonstrar qualquer entendimento. — Senti o quê?

- Oh, Rin... A paixão que partilhamos naquela noi­te. Você sentiu isso, sei que sentiu. Essa paixão a con­sumiu... tomou a nós dois como um fogo intenso.

- A mim, não — assegurou Rin, mas ele sim­plesmente riu da tentativa de rebelião.

- Acredite em mim, Rin, eu conheço as mulheres. Sei quando uma mulher está seduzida, quando ela me quer... e você me queria tanto quanto eu a queria. Pude sentir isso entre nós assim que nos tocamos. Foi uma explosão vulcânica, como nunca senti antes, e pode ser assim novamente. Oh, sim, pode! — acres­centou, quando ela balançou a cabeça furiosamente.

Ele afrouxou o toque em seus punhos, deixou de sorrir e acabou por liberá-la. Acariciou-lhe a palma da mão com o polegar.

- Mas, desta vez, prometo que vai ser muito melhor, doçura. Desta vez, não vou precisar beber nada.

- Sesshhomaru... — Natalie alertou quando ele aproximou-se em cima da cama.

Mas ele não parecia ter ouvido o alerta desencora­jador.. provavelmente porque, apesar de si mesma, ela não fora capaz de injetar convicção no tom.

- Desta vez, vou mostrar como pode ser, prometo. Afinal de contas, se vai ter que encarar as repercussões de ter feito amor e engravidado, então, ao menos, posso apresentá-la ao prazeres também. Vamos, Rin. — Ele riu quando ela balançou a cabeça novamente, mais frenética. — Não fique com medo.

- Não é isso.

Mas como poderia contar-lhe o que estava errado? Como poderia admitir que, tendo provado antes, sabia, que se ele cumprisse o que prometia, e não tinha dú­vida de que ele faria isso, se ele mais uma vez abrisse a porta do mundo mágico das sensações que advinham do amor físico, então, ela não seria capaz de viver sem ele? Vislumbrara rapidamente aquele mundo encantado quando fizeram amor da primeira vez e, sabia, sem medo de errar, que, se experimentasse novamente aqueles pra­zeres, nunca mais seria capaz de resistir a Sesshomarue.

- É...

- Shh, pequena Rin.., — Ele sussurrou as pa­lavras junto a seu ouvido, enviando uma brisa cálida, e pressionou os lábios em seu rosto. — Não lute, que­rida... deixe-me mostrar-lhe...

Ela não seria capaz de resistir a ele no futuro...

Os pensamentos de Rin atuavam como uma autocensura. A quem estava tentando enganar? Não po­dia resistir a ele, particularmente naquele momento, quando apenas os beijos suaves e excitantes já des­pertavam o desejo primitivo que existia em seu ser.

De repente, já não suportava mais o peso das cobertas. O calor gerado fazia com que se movimentasse inquieta, de tal forma que só isso demonstrava mais claramente os seus sentimentos do que um punhado de palavras. Emitiu um suspiro, que ele capturou com seus lábios, antes de invadi-la com a língua. Sentia o peso do corpo dele pressionando-a contra os travesseiros.

- Venha comigo, Rin — convidou ele, com voz rouca, entremeando cada palavra com um beijo tentador. — Deixe-me mostrar-lhe como pode ser...

Era como ela sempre soubera que seria. Não tinha for­ças para lutar, nem vontade para pensar no assunto. E por que deveria?, questionou uma vozinha interior. Por que deveria resistir a algo que queria tanto, algo que parecia tão certo e inevitável quanto a própria respiração?

Rin sentia o corpo macio e maleável como cera. Abriu a boca para permitir a invasão íntima da língua de Sesshomaru, encorajando-o na mesma medida. Sentiu uma onda de prazer quando ele a abraçou, com uma força que indicava que ele passara do estado de sensualidade para o de urgência, de desejo ardente. Sentiu o coração estacar ao ouvi-lo rir.

- Está vendo... está acontecendo de novo. Já está lá... e nem mesmo começamos.

Com um movimento preciso, ele removeu as cobertas e cobriu-a com o próprio corpo, de tal forma que ela não sentiu frio, nem alívio à febre de amor que sentia. Não conseguia concentrar-se em nenhuma linha de raciocínio. Só existia o prazer no coração, deixando-a incapaz de refletir. Apenas retribuía às carícias e toques de forma instintiva. Cada beijo parecia despertar um novo ponto de prazer, elevando-a para outra categoria de vida.

Queria tocar Sesshomaru, sentir sua pele sedosa, a força dos músculos, precisava enterrar os dedos em seu cabelo, mas, quando tentou desabotoar-lhe a camisa, ele protestou.

- Oh, não, meu anjo... desta vez, não.

Ele agarrou-lhe as mãos e, apesar do toque suave, ela não conseguiu soltar-se. Prendendo-lhe os pulsos cima da cabeça, segurou-a nessa posição.

- Desta vez, você vai ficar quietinha — declarou Sesshomaru, a voz rouca de paixão, os olhos cor de ouro brilhando intensamente enquanto passava uma mão por seu bra­ço, pelos cabelos, pelo ombro, pelo seio. Riu em triunfo quando ela gemeu involuntariamente de prazer. — Desta vez, eufarei todo o toque...

Conduzindo a mão mais para baixo, ele ergueu-lhe a camisola e passou a descrever círculos eróticos com o dedo entre suas coxas. Depois, apalpou-lhe os quadris.

Vou proporcionar todo o prazer... tudo o que tem a fazer, Rin, é aproveitar. Receba tudo o que eu lhe der e aprenda como pode ser...

Ela ouvia vagamente as palavras, pois só sentia as batidas do coração muito fortes, o som imaginário im­pedindo o raciocínio. Temeu que seu corpo se incen­diasse, cada ponto sendo aceso pelo toque de Sesshomaru. Ofegante, mal conseguia levar ar aos pulmões.

Ele retirou-lhe a camisola e jogou-a no chão. Em seguida, enterrou o rosto no vale entre os seios, ab­sorvendo a essência, passando a boca devagar até che­gar ao mamilo, sobre o qual usou a ponta da língua, a fim de atormentá-la.

- Sesshy!

Rin gemeu e arqueou o corpo, instintivamente, no afã de sentir mais, de se entregar mais, de ouvir a risada suave dele. O hálito quente aumentava o prazer a um ponto quase insuportável, assemelhando-o à dor física.

- Sesshy... Por favor...

- Linda, pequena... Doce... — Sesshomaru sorriu contra sua pele. — Temos um longo caminho a percorrer ainda...

Um longo caminho! Rin achou que ia perder a razão. Não iria suportar muito mais, não podia esperar mais...

Naquele instante, Sesshomaru capturou-lhe o mamilo e ela não conseguiu mais pensar. Abriu os olhos, mas não viu nada. A mente parecia centrada naquele ponto do corpo, no doce tormento que ele lhe infligia, no prazer que surgia desse estímulo.

Queria permanecer imóvel, usufruindo daquela sen­sação boa, mas viu que era impossível. Seu corpo agitava-se sem descanso. Atirou a cabeça para trás e mur­murou o nome do amado, desesperada.

Só quando Sesshomaru livrou-se do suéter, Rin per­cebeu que não tinha mais os pulsos presos. Na verdade, ele já a liberara havia algum tempo, usando as mãos e a boca para acariciá-la e excitá-la, gerando fagulhas tão intensas quanto as de origem elétrica, e ao mesmo tempo tão suaves quanto o roçar de asas de borboletas. Não obstante, ela mantivera os braços erguidos, como que imobilizada por uma força invisível, que reduzia seu corpo a desejo em estado puro.

Só enxergava Sesshomaru. O único som que captava era o de sua voz, murmurando frases eróticas, elogios im­possíveis. O cheiro almiscarado masculino que era só dele envolveu-a como uma bruma, ativando ainda mais seus sentidos. Podia sentir o gosto dele, passando a língua, degustando o suor do corpo como uma gatinha lambendo a cria.

Rin sentia que não poderia continuar sentindo aquele prazer sem se despedaçar. Ao mesmo tempo, desejava que aquilo jamais terminasse. Só assim, teria o suficiente. E Sesshomaru parecia entender sua mudança de vontade. Respondendo ao apelo, espaçou os beijos, as carícias, tornando o ato mais sutil e sensual, infi­nitamente gentil, até que ela sentiu o corpo pegando fogo com as sensações que surgiam.

Ela não podia mais manter-se imóvel. Arriscando-se, levou as mãos às costas musculosas, detendo-se no cinto de couro junto à cintura. Buscou a fivela, impaciente.

- Rin... — Sesshomaru parecia alertá-la.

- Eu quero tocá-lo! — protestou ela. — Quero sentir você.

- Oh, você vai — prometeu ele, rouco. — Você vai.

Sentindo intuitivamente o que ela queria, como an­tes, Sesshomaru rolou para o lado por um momento, mantendo-a alimentada com um beijo exigente na boca. Voltou totalmente nu e colou seus corpos.

- Está me sentindo agora, amor... Pode sentir o quanto a quero?

Rin só conseguiu murmurar. Emitiu um gritinho quando Sesshomaru movimentou a mão sobre seu ventre e, a seguir, introduziu o dedo em sua feminilidade. O toque provocou tal prazer que ela se contorceu, deses­perada. No momento seguinte, ele a agarrava pelos quadris e mantinha cativa, para tomá-la em definitivo.

- Agora está mesmo me sentindo — murmurou Sesshomaru, junto a seu ouvido. —Agora, sabe como é realmente...

Sesshomaru moveu-se dentro dela, devagar a princípio, aguardando, observando sua reação, a indicação de prazer. Apenas alguns segundos depois, Rin perdeu totalmente o controle, certa de que nada mais existia senão a fome que ele instigara, consumindo-a, levando-a cada vez mais para o alto.

O ritmo selvagem intensificou-se, num turbilhão ine­vitável de prazer. Com um grito, ela agarrou o corpo musculoso como se precisasse apoiar-se na única ma­téria existente no mundo.

Muito tempo depois, com a respiração normalizada, Rin gradualmente recuperou o estado de atenção, abalada pela realidade do prazer que conhecera. Nada se comparava àquele prazer, nem sonhos, nem imagi­nação. Tudo aquilo estava a anos-luz da verdade.

O mundo partira-se em milhões de pedacinhos e, agora, as partículas voltavam a se fundir e a nova imagem que lhe surgia não seria a mesma de antes. Sabendo o que era o prazer agora, jamais poderia ser a mesma novamente.

A seu lado, Sessshomaru repousava lânguido, suspirando feliz, satisfeito sexualmente.

- Então, agora sabe como pode ser — gabou-se ele. —E não tente me convencer de que não sentiu o mes­mo, pois será mentira, e você sabe disso tão bem quanto eu. Eu vi a sua reação, senti a sua resposta... Eu sei.

Ele sabia demais, pensou Rin, desolada. De­mais e não o bastante, e deveria sentir-se agradecida por isso.

Sesshomaru sabia como atiçar seu corpo, tocá-lo como um instrumento musical, mas não sabia, não podia saber, que sua alma e seu coração também lhe pertenciam. Ele nunca deveria saber daquele detalhe porque, ape­sar de toda a paixão que demonstrara, ele não a es­colhera. Ela seria, no máximo, a segunda colocada e, quando ouvisse o que ele tinha a dizer em seguida, deveria manter esse fato em mente.

- Agora, diga que não vai se casar comigo, se puder —desafiou ele. — Sempre nos demos bem, Rin, e agora sabemos que nos damos bem na cama tam­bém. Casamentos arranjados têm começos bem me­nos auspiciosos.

Mas um casamento arranjado, ainda que atendesse aos requisitos dinásticos de Sesshomaru, nunca seria bom o bastante para ela. Tudo ou nada, teria dito, e era isso mesmo o que queria dizer.

- Não, Sesshomaru... — começou, mas ele não permitiu que continuasse.

- Lembre-se de que não vai estar se casando só por sua causa, mas por causa do bebê também.

Ele falava suavemente, mas havia uma nuance in­dicando que ele não iria permitir que esse argumento fosse discutido.

- Você realmente quer criar o filho sozinha, como sua mãe? Quer repetir os erros dela, deixando seu filho crescer sem pai, sempre com esse vazio em sua vida... uma peça perdida no quebra-cabeça?

Sesshomaru usara as próprias palavars dela. Rin entendeu que ele sabia muito bem o que estava fazendo. Mordeu o lábio inferior para aplacar o choro de aflição, escon­dendo o rosto no travesseiro para que ele não visse e entendesse que marcara um ponto. Tratava-se de um recurso que esperava que Pierce jamais usasse contra ela, a arma mais letal, para a qual não tinha defesa.

- Pense em como vai ser no futuro — prosseguia ele, implacável. — Ellerby é um lugar muito pequeno, ideal para um escândalo. Vai conseguir encarar todo o falatório, todos os comentários maldosos tal como "tal mãe, tal filha?" Vai permitir que seu filho enfrente
isso? Se se casar comigo, não haverá comentários. Pelo menos, não depois que a primeira onda de espanto passar. Além disso, terá tudo o que quiser, tudo com que jamais sonhou.

Ele passou o dedo ao longo de sua espinha dorsal, fazendo-a estremecer involuntariamente.

- Pense nisso, Rin. Você terá dinheiro e conforto, mas, acima de tudo, terá paz de espírito e segurança, além de respeito. Seu bebê... o nossobebê vai crescer em uma casa adequada, com pais que o amam e se importam com ele. Toda criança deveria ter direito a esse bom começo, Rin. Se há alguém que sabe disso, é você.

Oh, ele a encurralara, prensara-a contra a parede. Não conseguia imaginar nenhum argumento para contra-atacar e Sesshomaru sabia disso. Ele, dentre todas as pessoas, sabia o quanto ela sofria por não saber quem era seu pai. Não vivia declarando que nenhuma criança merecia crescer com esse vazio? Num momento de des­cuido, revelara tais sentimentos, entregando, inadver­tidamente, as armas que ele agora usava sem piedade.

- Não é justo... — choramingou.

- Não, não é — reconheceu Sesshomaru, a voz áspera. — Mas, para ser franco, não estou disposto a jogar limpo neste assunto. É o meu filho que você está car­regando e não tenho a intenção de ser um pai ausente...

- Mas você não me quer!

Rin ainda não conseguia encará-lo e o protesto saiu abafado pelo travesseiro.

- Admito que não era assim que gostaria que as coisas tivessem acontecido, mas temos que jogar com as cartas que o destino nos passa. Sua gravidez é um fato. Não está aberto a discussão e, até onde sei, não é motivo para casamento.

Ele pousou a mão forte sobre o ombro de Rin, fazendo-a voltar-se. Vendo os olhos dourados obscurecidos, ela soube que não tinha chance contra a determinação dele. A certeza estava patente na tensão dos músculos dele e em cada traço de seu rosto.

- Não me enfrente sobre esse assunto, Rin, por­que você só vai se magoar. Não tem chance de vencer,e não tenho a intenção de desistir.

- Eu...

Mas mesmo ao abrir a boca para tentar desafiá-lo, Rin sabia que estava perdida. Toda força para re­sistir pareceu esvair-se de seu corpo como ar saindo de um balão, deixando-a fraca e desanimada.

Afinal, por que relutava. Contra o que se rebelava? Amava Sesshomaru, não amava? Amava-o, estava carregan­do o filho dele e, por isso, ele queria desposá-la. Podia ser apenas a segunda opção, mas já era alguma coisa, tudo o que lhe seria oferecido e era fraca o bastante para aceitar aquela situação.

E o que acontecera ao tudo ou nada? Bem, o que Sesshomaru oferecia estava bem distante do que ela desejara, mas não chegava a ser nada. Nada era o que teria se recusasse o pedido. Já se aceitasse, conforme Sesshomaru ob­servara, tinham uma chance, pois muitos casamentos começavam com menos ainda. Talvez, um dia...

Não. Pensar daquela forma era pior do que ser tola, pois envolvia a dor de sonhos que jamais se tornariam realidade, a existência de um pote de ouro no fim do arco-íris. Tinha de fazer o que Sesshomaru dissera: aceitar a mão que o destino lhe oferecia e jogar com essas cartas. Desejar algo além disso só levaria ao desespero.

- Rin? — A voz de Sesshomaru era tão dura e enig­mática quanto a expressão. O tom com que dissera seu nome alertava-a de que devia tomar uma atitude. — Eu quero uma resposta, qual vai ser?

Rin respirou fundo, com dificuldade, e concentrou-se, sabendo que o que respondesse decidiria sua vida pelos próximos anos.

Está bem — concordou, as palavras parecendo de madeira, nenhum traço de emoção na resposta rí­gida. — Por esses motivos, então, aceito a sua proposta. Por causa do bebê, sim, eu me caso com você.

Oi Povis ! Obrigada a quem deixou review, como disse antes, não espero por elas, pois o crédito não é meu. Mas mesmo assim muito obrigada!!!

Antes eu estava em dúvida sobre a grafia de Sesshomaru, se tinha ou não o "u" depois do "o", aí fui procurar na net e vi que o nome aparece escrito das duas maneiras, então ainda não sei responder qual é o correto, se alguém souber, por favor me diga pra eu não cometer mais esse erro. Mas independente do correto, nessa adaptação vou continuar escrevendo sem o "u", pra não ficar mudando toda hora, pq fica chato né! Na próxima eu já vou ter certeza. Prometo. Desculpem qualquer outro erro!!!!

Bjus para todos!