CAPITULO VII
- Boa tarde, Sra. Taisho. Está frio lá fora, não? Deve estar contente por chegar em casa. Acendi a lareira na sala de estar, deve estar aconchegante lá.
- Obrigada, Kaede... Aprecio a preocupação.
Se havia algo que a lembrava de como sua vida mudara nas últimas semanas, refletiu Rin, enquanto tirava o casaco e ia para a saleta, era a rotina do fim do dia.
No passado, depois do trabalho, voltaria para seu sobradinho frio, escuro e silencioso e, ainda de casaco, tentaria esquentar o ambiente com um aquecedor velho antes de ir preparar uma refeição rápida e simples. Agora, o carro com chofer ia buscá-la na escola, levando-a de volta à mansão aquecida e iluminada. Sesshomaru insistira em colocar um carro à sua disposição, pois sabia que ela não dirigia.
Na mansão, era saudada pela governanta, que lhe servia uma bandeja com chá e sanduíches para saborear enquanto aguardava o marido. O jantar era sempre delicioso e preparado com capricho, servido na elegante sala de jantar.
O contraste com seu estilo de vida anterior não podia ser maior, reconheceu Rin. Serviu-se de uma xícara de chá, recostou-se na poltrona almofadada e descalçou os sapatos, suspirando de alívio. O problema era que não podia apreciar aquilo tudo de forma adequada. Sentia-se mais doente e enjoada do que nunca. Não por si, mas por causa daquela estranha criatura, a Sra. Sesshomaru Taisho, esposa do senhor do castelo.
Mas era de fato a Sra. Sesshomaru Taisho, por mais que achasse incrível acreditar. Não conseguira respirar fundo nem uma vez desde a proposta dele, embora ultimato fosse a palavra mais correta. Sentia-se como que tragada por um tornado, erguida até as alturas e, então, lançada de novo à terra, onde nada continuava igual.
- Mas precisa ser tão já? — protestara quando, no dia seguinte à sua capitulação, Sesshomaru anunciara que o casamento se daria em uma semana, somente dez dias antes do término do semestre escolar.
- Não vejo por que retardar.
A indiferença quanto à sua agenda só mostrava o quanto ela pouco figurava nos planos dele. Ele queria o filho e a forma de assegurar respaldo legal era casando-se com a mãe da criança o mais rápido possível.
- Quanto antes tornamos isto oficial, melhor, até onde entendo.
- Mas eu não fiz...
- Tudo está arranjado. Só precisa se preocupar em providenciar um vestido e aparecer na igreja na hora certa.
- Na igreja! Pensei que seria apenas no civil...
- Bem, pensou errado. Os Taisho têm se casado em St. Oswald nos últimos duzentos anos e não pretendo quebrar a tradição.
- Mas se a cerimônia acontecer na igreja, então, todos vão ficar sabendo... a cidade toda. — Rin não podia acreditar que ele quisesse algo tão público. E ele teria se casado com Kagura em St. Oswald.
- Claro que vão. Esse é o ponto. Rin, estamos nos casando, você vai ser a minha esposa. Não pretendo esconder você no sótão como se fosse louca.
- Mas este não é exatamente um casamento normal! Afinal de contas, praticamente é um arranjo.
- Mas só nós sabemos disso — rebateu Sesshomaru, deixando-a atônita.
- Nós... Mas a sua mãe, com certeza, ela sabe?
- Ela sabe o que eu lhe contei.
- E o que foi?
- Que eu a pedi em casamento e você aceitou. — Era uma colocação indiferente e sem emoção.
- Mas... não disse a ela por queme pediu em casamento?
- Claro que não! — disparou Sesshomaru, levantando-se de repente. — Quer que ela pense que você me enganou? Que fui forçado a me casar com você?
Rin gostaria que ele permanecesse sentado. Ali, de pé junto dela, ele parecia dominar a pequena sala com sua altura, sua força, sua masculinidade. Não o conhecia, pensou desesperada, não podia encontrar um traço familiar naquele homem com quem ia se casar.
- Mas foi exatamente o que fiz! Seja honesto, Sesshomaru. Se casaria comigo se eu não estivesse grávida?
Sesshomaru fechou a expressão e voltou-se sem responder. Mas ele não precisava dizer nada. Ela mesma podia suprir os detalhes. Era óbvio, não era? Não havia como Sesshomaru ter considerado casar-se com alguém como ela, não fosse pelo filho. O herdeiro dos Taisho.
- Você não me forçou — observou Sesshomaru.
Ele olhava pela janela. De repente, voltou-se, a expressão áspera, marcada.
- Se algo aconteceu, eu trapaceei a mim mesmo. Dois são necessários para se fazer um bebê e eu sabia exatamente o que se passava quando fiz amor com você naquela noite. Não estava tão bêbado, raios!
Rin não estava ciente da própria mudança de expressão, mas, quando Pierce franziu o cenho, deu-se conta.
- Mas eu devia ter sido mais cuidadosa. Quero que saiba que nem pensei nas conseqüências de fazer sexo sem proteção.
Ela não pudera deter as palavras, mas, ao menos, não eram tão corrosivas como as que tinha em mente e que assolavam seu coração.
Sesshomaru remexeu um músculo do maxilar, num esforço para se controlar.
— Deve saber que nunca esperei que você realmente deitasse na cama.
- Mas não pôde resistir e tentar...
- Não seja estúpida, Rin! Nenhum homem com sangue nas veias seria capaz de resistir a você com aquela peça exígua que chama de camisola. — Sesshomaru suavizou o tom, agora grave e rouco. — Você era toda calor, maciez, saída do banho e eu a queria como nunca. Mas, no momento em que percebi que era virgem, devia ter pensado...
O silêncio repentino deixou Rin apreensiva e com uma sensação de inevitabilidade. Não se decepcionou.
- Por que você ainda era tão inocente? Pensei que ninguém mais esperasse pelo casamento hoje em dia.
- Talvez ninguém tenha me pedido... — Rin tentava soar descontraída, mas parecia uma rocha fria.
- Não espera que eu acredite nisso. Para começar, fale-me de Kohako.
- Ele era apenas um amigo.
Tarde demais, ela viu a armadilha pronta a seus pés e não pôde escapar. Sesshomaru, naturalmente, não deixou escapar a deixa, tampouco.
- Pensei que era isso o que tinha dito sobre mim, entretanto...
Mas Rin não podia mais levar adiante. O gelo era fino sob seus pés e qualquer movimento seria fatal.
- Está tentando me fazer dizer que em alguma parte romântica e vulnerável do meu coração eu estava me guardando para você?
Rin não ousava encará-lo, temendo que ele lesse a verdade que, tinha certeza, estava estampada em sua testa em letras garrafais.
- Não sou idiota o bastante para cogitar isso! — Sesshomaru riu, cínico, enervando-a. — Mas tem que admitir que seu comportamento não é típico das mulheres de hoje.
- Bem, para começar, eu estava muito ocupada com meus estudos. Minha mãe fez muito sacrifício para me mandar para a faculdade e eu queria me sair bem. Além disso, nunca encontrei o homem certo... Sempre quis que a primeira vez fosse especial... que tivesse um significado...
Interrompeu-se, intimidada por aqueles olhos cor de ouro.
- Desculpe-me. — Era apenas uma palavra, fria e inflexível, como a expressão dele, mas que levou-a a falar irrefletidamente.
- Oh, não se desculpe! — Daquela vez, ela dissimulou a preocupação muito bem. — Como você disse, são necessários dois, e eu... não estava exatamente desinteressada. No fim, fui mal interpretada... apenas isso.
Mas Sesshomaru não suavizou a expressão ante a resposta, tão sombrio e ameaçador quanto antes. Rin concluiu:
- Eu só quis dizer que gostaria de não ter esperado tanto.
Oh, por que não podia simplesmente ficar calada? Só piorava toda a situação cada vez que abria a boca.
- Afinal, se eu tivesse sido menos ingênua, você não estaria nessa trapalhada. Tenho certeza de que preferiria de outra forma...
- Oh, sem dúvida — concordou Sesshomaru, com sua voz rouca e grave, fulminando-a com o olhar. — Não sabe o quanto eu gostaria que certas coisas não tivessem acontecido. Mas aconteceram e só podemos tentar tirar o melhor proveito disso.
- Por que está sentada no escuro?
Sesshomaru acendeu a luz, trazendo Rin de volta ao presente. Percebeu, chocada, que, enquanto se perdia nas lembranças, o tempo passara e seu chá esfriara na xícara. Agora, Sesshomaru estava em casa,-mais cedo do que de costume, bem antes de estar preparada para encará-lo.
- Eu estava pensando...
- Em nada agradável, pela sua expressão. — O tom dele era de desconforto. — E você deixou o fogo apagar. Não admira a Sra. Kaede estar preocupada.
- Eu só queria um tempo para mim mesma. — Rin teve que elevar a voz para compensar o ruído do atiçador de brasas que Sesshomaru manejava. — Além disso, não gosto da idéia de você mandar a governanta ficar me espionando.
Ele deteve-se, voltou-se e estreitou o olhar sobre ela.
- Espionando? — repetiu, com uma frieza que a fez franzir o cenho. — Não é um pouco exagerado? Eu simplesmente disse...
- Eu não quis dizer exatamente isso! — Ante aquele olhar, ela sempre acabava na defensiva. — Acontece que ainda não estou acostumada com esse tipo de vida.
E não estava acostumada com Sesshomaru, tampouco. Aquele homem elegantemente vestido só agravava sua sensação de alienação e isolamento. O terno cinza, a camisa branca, a gravata de seda que usava para ir a Londres transformava-o no Taisho da Taisho Software, um empresário bem-sucedido, bem como senhor do castelo.
Ele lhe parecera assim no casamento também. Um estranho frio e distante, não o velho Sesshomaru, a quem prometera amar e honrar pelo resto da vida. Tratava-se de outro homem, totalmente diferente. Não sabia como se sentia em relação a esse Pierce.
- E você me pegou desprevenida. Não o esperava tão cedo.
- Também não precisa fazer essa cara. — Ele recolocou o atiçador no aparador com tanta força que ela se assustou. — A maioria das recém-casadas ficaria feliz em ver o marido mais cedo em casa.
Se ela acreditasse que aquilo era verdade, como a vida seria diferente!
- Mas a maioria tem um casamento adequado e provavelmente ainda está em lua-de-mel. Os maridos não achariam mais importante ir a Londres, para começar...
- Você poderia ter tido uma lua-de-mel. — Sesshomaru falava enquanto despejava carvão na lareira. — Só precisava dizer que queria.
- Eu sei.
Rin baixou a voz ao lembrar-se de como se sentira quando ele ofereceu uma viagem após o casamento. Qualquer lugar no mundo, dissera, pelo tempo que quisesse. Não havia algum lugar para onde sempre sonhara ir?
- Não sou tão hipócrita.
- Hipocrisia... — Sesshomaru usou um tom perigoso e Rin ficou agradecida por ele estar prestando atenção à lareira. — E assim que vê a coisa?
- Bem, seria, não seria?
Sentindo uma dor no coração, Rn percebeu que a conversa mais uma vez caíra no triste padrão que tornara-se a norma desde o casamento de fachada. Parecia, que assim que concordara em se casar, Rin transformara-se em outra pessoa, alguém que ela não conhecia, nem entendia.
Ele tornara-se distante e inacessível, atirando-se ao trabalho com uma intensidade que o levava a ficar fora de casa por dias e, quando estava na mansão, falava-lhe apenas o mínimo necessário para manter as aparências.
Mesmo a paixão ardente que haviam partilhado mostrara ser um fogo de palha, resultado de um raio espetacular que provera um fogo intenso, mas de curta duração. Tal fogo consumira-se e extinguira-se, não restando nada além de cinzas frias numa grade vazia. Desde a sua chegada à mansão como esposa do senhor do castelo, ocupava um quarto separado e nem uma vez, nos últimos dez dias, ele insinuara que gostaria de dividir a cama com ela.
- Afinal de contas, uma lua-de-mel não seria apropriada para este casamento de fachada, não é? — provocou Rin. — Seria apenas outra mentira...
- Ah, não!
Ela ultrapassara o limite como vingança, sabia. Ele deu três passos e alcançou-a. Tomou-a pelo braço, fez com que se levantasse e trouxe-a para junto de seu corpo forte e elegantemente vestido.
- Uma mentira, é?
- Sesshomaru...
- Uma fachada? — Ele ignorou a interjeição trêmula dela. Havia um brilho no olhar que fez com que sentisse um nó na garganta. — E que raios pensa...?
Então, de repente, o humor dele pareceu mudar.
- Uma mentira— repetiu, mas com outro tom. — Oh, sim, minha doce Rin, nosso casamento com certeza é uma mentira... mas talvez não da maneira que está pensando.
- Eu... eu não sei do que está falando.
- Não?
Ele indagou de forma suave, rouca. Os olhos âmbar estavam obscurecidos, a expressão enigmática, um sorriso gentil nos lábios.
- Então, devo mostrar-lhe? Devo mostrar o quanto o nosso casamento é uma farsa?
Ele segurou-lhe o queixo e fez com que ela o encarasse.
- Tome isto, por exemplo...
Ele tocou-lhe a testa com os lábios de forma muito suave. A carícia provocava reação em cada nervo de Rin.
- Ou isto...
Então, ele beijou cada uma de suas pálpebras, pressionando-as para que ela as mantivesse fechadas. Ela continuou com os olhos fechados, pois temia que ele lesse as emoções que sentia.
- Isto é fachada, meu amor? Isto émentira?
Ele capturou-lhe a boca e beijou-a exigente. Rin não pôde evitar e entreabriu os lábios para a invasão. Sentiu as pernas bambas. Sesshomaru mantinha-a segura contra seu corpo.
- Como sabe o que é a verdade? Só sei que uma coisa é real. Uma coisa que existe entre nós e que você não pode negar. Isto não é farsa, minha querida.
Ele a apertou, trazendo seu corpo mais para junto de si, e ela não deixou de perceber as evidências físicas do desejo carnal que tornava sua voz rouca e a respiração, ofegante.
- Sesshy... — tentou ela. Mais uma vez, ele a ignorou.
- Isto não é mentira... nem isto...
Mais
uma vez, ele invadiu-lhe a boca com a língua e passou a tatear os
seios de forma possessiva. Ela gemeu e o fogo do desejo inflamou-se,
parecendo der-
reter-lhe os ossos.
- Isto é o que existe entre nós, querida... épor isso que estamos juntos, por isso nos casamos. Eu a quero para poder fazer isto... — Deu-lhe outro beijo ainda mais exigente e tentador do que o anterior. — ...e isto...sempre que quiser.
Rin sentia a cabeça leve, o peito confinado ao tentar respirar. O desejo acumulava-se e ameaçava escapar ao controle. Não era capaz de mais nada além de simplesmente responder aos beijos de Sesshomaru, comunicando sua própria necessidade, a paixão que combinava com a dele.
Rin mal ouviu a leve batida na porta, pois a pulsação acelerada suplantava qualquer som exterior. Nem quando alguém tossiu, não conseguiu voltar à realidade a ponto de raciocinar coerentemente.
Sesshomaru, entretanto, não teve o mesmo problema. Ergueu a cabeça e a paixão que parecia tomá-lo desapareceu. Era como se precisasse apenas apertar um botão para mudar todo o comportamento. Envolveu-a pela cintura e manteve-a, quando ela teria se afastado, e voltou-se para a mulher junto à porta.
- Sim, Sra. KAede?
- Eu... peço perdão pela intromissão, senhor...
A governanta parecia quase tão embaraçada quanto ela, pensou Rin, trêmula, ruborizada com a idéia do envolvimento apaixonado, das carícias íntimas que a outra mulher devia ter presenciado.
- Em absoluto.
Rin não acreditava na tranqüilidade com que Sesshomaru agia, indiferente ao cabelo desalinhado que caía-lhe sobre a testa, à mancha de batom nos lábios.
- O telefone era para mim?
- É a Sra. Taisho, sua mãe. Ela está esperando.
- Já vou.
Para consternação de Rin, Sesshomaru voltou-se para ela e pousou a mão em seu rosto antes de dar-lhe um beijo suave, quase brincalhão, na ponta do nariz.
- Voltarei assim que possível, querida — murmurou, deixando-a confusa enquanto saía da sala a passos largos.
Sozinha, Rin lutou coma miríade de sentimentos, sem saber qual era o mais importante. Ainda sentia os terminais nervosos queimando devido ao estímulo dos beijos de Sesshomaru. Cada célula parecia insatisfeita e, somando-se a essa sensação de decepção, havia a noção de perda que lhe deixava o coração apertado.
"O telefone era para mim?"
Lembrou-se do comentário de Sesshomaru e percebeu, tardiamente, que ouvira vagamente o aparelho tocando. Contudo, absorta na onda de excitação sexual, não registrou bem a informação. Aparentemente, Sesshomaru registrara, claro.
Sentiu-se decepcionada e amargurada ao concluir que Sesshomaru não apenas ouvira o telefone, como, longe de estar entorpecido como ela, raciocinara fria e claramente a ponto de calcular que a governanta atenderia e, então, sabendo que ele se encontrava na mansão, iria inevitavelmente procurá-lo com alguma mensagem.
Ele também estivera ciente de que a porta estava apenas encostada. A ausência de espanto e a tranqüilidade com que reagiu só levava a uma conclusão perturbadora e dolorosa. A mostra de paixão incontrolável, os beijos ardentes, as carícias excitantes, até as palavras sussurradas, tudo fora apenas uma encenação, planejada para impressionar a Sra. Kaede.
Mas por quê? Ainda tentava encontrar uma resposta possível para o problema quando Sesshomaru voltou.
- Estive pensando — anunciou ele, mudando de humor novamente, deixando-a tão confusa quanto se estivesse num carrossel fora de controle. — Uma forma de solucionar o problema das minhas estadias fora seria você me acompanhar.
- A Londres?
Absorta com o outro problema, Rin emitiu a pergunta sem refletir.
- Claro, a Londres. Poderíamos usar a viagem para reparar a lua-de-mel perdida. Já esteve lá?
- Uma vez... por um dia. Foi uma excursão escolar à Galeria Nacional, mas eu aproveitei para conhecer a Galeria de Retratos. Fui lá quando todos estavam almoçando e poderia ter ficado horas, estudando os semblantes.
- Sei o que quer dizer. É um dos meus locais favoritos. Vou lá sempre quando estou em Londres. De algum modo, ver retratos de pessoas de verdade faz a história parecer viva de uma forma que os livros não conseguem transmitir.
Rin sentiu um nó na garganta ao ver a mudança de humor mais uma vez. O sorriso entusiasmado fez com que achasse estar diante do jovem Sesshomaru, na ocasião de seu acidente com a bicicleta. Inteligente, preocupado, ele partilhara seu amor pelos livros e a fascinação pelo passado. Conversar com ele era sempre tão interessante que simplesmente não via as horas passarem.
Mas aquele tempo fora apenas um breve idílio de prazer e acabara logo. Nem sarara do tornozelo e ele já partira de volta a Londres, de volta ao trabalho e às companhias mais sofisticadas que conhecia na capital.
-
Sempre me intrigou os que "poderiam ter sido", as pessoas
que teriam sido reis ou rainhas se não tivessem morrido cedo.
Henrique VIII tinha um irmão mais velho, Arthur, que era casado com
Catarina de Aragão, antes do próprio Henrique. E Charles I não era
o primogênito. Costumo observar os semblantes e imaginar se os
acontecimentos teriam sido outros, caso
tivessem subido ao poder.
- Nesse caso, teria havido uma Elizabeth I ou a guerra civil? É espantoso pensar no que poderia ter acontecido. Temo que minhas reações não tenham sido tão profundas. — Rin sorriu, levemente envergonhada. — Lembro-me de ter me apaixonado pelo príncipe Rupert do Reno, quando só tinha quinze anos...
- E ele era atraente se bem me lembro. Para seu alívio, Sesshomaru não parecia inclinado a fazer perguntas impertinentes. Se ele investigasse, ela teria de admitir que sentira-se atraída pelo príncipe por causa do cabelo claro e dos traços que lembravam o homem irresistível que roubara-lhe o coração, o próprio Sesshomaru.
- Ele também não era primogênito. O irmão viveu bastante e, por isso, Rupert pôde escolher seu modo de vida, ao contrário de outros que tinham o dever nos ombros. — Sesshomaru voltou-se para ela, a expressão sombria, o olhar pensativo. — Eu tinha um irmão mais velho, sabe.
Rin espantou-se.
- Não, não sabia. O que aconteceu?
- Ele morreu. Só viveu seis semanas, mas a morte dele repercutiu na minha vida.
- De que forma?
- Bem, naturalmente, isso significava que eu herdaria o título de senhor do castelo.
Um título que ele não apreciava, indicava o tom. Rin lembrou-se da atitude tímida dele em certas ocasiões, do uso do sorriso social, educado.
- É por isso que quis ter sua empresa de computação? Dessa forma, como o príncipe Rupert, você tem um aspecto da sua vida que é escolha sua?
- Teve muito a ver com isso. Embora minha família fosse rica o bastante para me sustentar com grande conforto sem eu ter que ganhar a vida, eu queria algo só meu. E meu pai me deixou ciente de que o dinheiro e posição traziam também responsabilidades, bem como privilégios.
Ele usara o termo responsabilidade antes, quando ela perguntara-lhe por que queria se casar com ela. Sentiu-se amargurada ao ver que as palavras do pai deviam estar de tal forma enraizadas nele que, ao descobrir que ela estava grávida, sentira-se obrigado a se casar.
- E por isso acabamos juntos... — concluiu Rin, amarga.
Sesshomaru lançou-lhe um olhar que deixou-a atormentada.
- Eu teria me casado com você sem nenhuma das lições de meu pai. Não preciso de instrução sobre o meu dever quando o meu filho está em jogo.
Dever, responsabilidade, preocupação com o filho. Sempre soubera que aqueles eram os motivos para ele querer se casar, mas reconhecer esse fato não significava aceitar. Reconhecer a verdade só aumentava a sensação de perda que a acompanhava. Mas, pelo menos, ele se casara com ela, não a deixara à própria sorte, como seu pai desconhecido.
- Eu estou grata...
Interrompeu-se quando Sesshomaru aproximou-se, o olhar ameaçador.
- Eu não quero a sua gratidão, raios!
- Então o que você quer de mim?
- Eu quero... uma esposa. — A mudança no tom dele era enervante. — E, como tal, pode começar com minha mãe e as comemorações de Natal.
- Natal?! — repetiu Rin.
A pressa com que haviam se casado permitira-lhe um contato mínimo com Izaoy Taisho. Os poucos encontros tinham transcorrido dentro do tom mais imaculado, para não dizer frio: e educado. A sogra mantivera sua opinião sobre a escolha do filho para si mesma.
- Ela vai vir aqui?
- Claro que sim. — Sesshomaru franziu o cenho ante sua expressão insegura. — A mansão ainda é o lar dela, Rin. Ela viajou convencida de precisávamos de algum tempo sozinhos aqui.
O relaxamento de pouco antes foi esquecido. Estavam de volta ao constrangimento frio que prevalecia desde o primeiro dia de casados.
- Mas agora, claro, ela quer voltar para as festas. Vai chegar na terça-feira, em boa hora para os cânticos. E vai ajudá-la com os preparativos.
- Preparativos?! — Esforçando-se, Rin lembrou -se da festa para as crianças do vilarejo que a mansão organizava todos os anos. Seguia-se um jantar de comemoração para os trabalhadores das terras.
De repente, entendeu sobre o que Sesshomaru estava falando.
- Oh, Sesshomaru, não posso! Com certeza sua mãe...
- Minha mãe organizou a festa todos esses anos e ficará feliz em lhe passar a tarefa. Além disso, todos vão querer ver você. Para muitos, será a primeira vez diante da senhora do castelo.
Mas não deveria ser ela. Tratava-se de um papel para Kagura. Como poderia ficar ao lado de Sesshomaru, recebendo os cumprimentos de todos, sabendo que ele estava ali apenas por dever?
- Não posso...
- Você pode e vai. É minha esposa...
- Só no nome!
- Você é minha esposa — repetiu Sesshomaru, mais enfaticamente, a ameaça em cada sílaba. — E vai agir como a situação pede. Acima de tudo, você nunca, jamais vai dar motivo para acreditarem que o nosso casamento não é o romance que eles acreditam ser.
- Mas...
- Mas nada, Rin — rebateu Sesshomaru, implacável. — Todo mundo sabe que meu noivado com Kagura foi um erro. Não quero que pensem o mesmo sobre o meu casamento.
Ali estava a resposta à pergunta que a atormentara antes. Ser rejeitado por Kagura fora um golpe duro para o orgulho masculino de Sasshomaru, tema de comentários no vilarejo. Para compensar, ele criara a ficção de que o casamento delesera por amor, um romance devastador. E isso explicaria por que ele ainda não comentara com a mãe sobre a gravidez, bem como por que montara aquela cena para a governanta. Ele a usara de forma fria e calculista para apresentar a imagem de casamento em que ele queria que todos acreditassem.
- Está claro?
- Perfeitamente — disparou Rin. — Mas até quando essa farsa vai durar? Afinal de contas, não podemos fingir por muito tempo que essa gravidez não existe. Depois do Ano-Novo, vai começar a aparecer...
Sesshomaru viu quando ela levou a mão ao abdômen e ficou olhando para o ponto que ela tocara.
Rin teve a estranha sensação de que ele se esquecera do bebê. Um segundo depois, rejeitou a idéia, dada a grande insensatez que era. Claro que ele não se esquecera, era o único motivo de ele ter se casado!
- Não pretendo esconder isso de ninguém — declarou Sesshomaru, rígido. — Apenas prefiro escolher o melhor momento para contar a todos.
- Claro que você prefere! — Rin amargurava-se por saber que estava sendo manipulada. — Não combinaria com a ficção, se as pessoas soubessem que foi um casamento forçado.
- Não foi um casamento forçado! — Pela primeira vez, Sesshomaru ficou realmente zangado, a fúria estava no olhar.
- Para mim, foi! — rebateu Rin, ferida. — Mas, independente de como apresente nosso casamento às pessoas, elas ainda vão pensar que você foi forçado...
- Não se você fizer a sua parte direito. O que me lembra...
Rin sabia o que se seguiria e enrijeceu-se, antecipando a ordem.
- É melhor você se mudar para o meu quarto antes que minha mãe chegue. Não vai parecer certo dormirmos em camas separadas.
Como gostaria de recusar-se a obedecer, mas, com Sesshomaru naquele mau humor, Rin não se atreveria.
- A Sra. Kaede não vai dizer nada?
- A Sra. Kaede vai manter a boca fechado se for sábia — declarou Sesshomaru, áspero.— E você pode parar de parecer tão aterrorizada em dividir a cama comigo. Já fez isso antes e essa mudança vai me dar a oportunidade de convencê-la de uma coisa, pelo menos.
- E o que seria?
Cada instinto de Rin dizia que ela não ia gostar da resposta. Ele sorriu-lhe de forma diabólica, o olhar num brilho ameaçador.
- Vai me dar a chance de provar-lhe de uma vez por todas que, ao contrário do que pensa, não pretendo tê-la como esposa apenas no nome. Na verdade, se a Sra. Kaede não estivesse prestes a entrar para anunciar o jantar, eu lhe provaria bem aqui e agora.
- Eu.. — Rin engoliu em seco, lutando contra os sentimentos que debatiam-se dentro dela. — Você quer dizer...
- Quero dizer que, quando me casei com você, eu imaginava nossa relação o mais verídica possível e isso inclui partilhar a mesma cama. Posso ter-lhe dado alguns dias para se adaptar, para se acostumar ao seu novo lar e a todas as mudanças que lhe aconteceram, mas isso foi apenas uma concessão temporária. De hoje em diante, esse privilégio está suspenso.
- E esse será outro arranjo temporário?
- Oh, não. — Sesshomaru balançou a cabeça, decidido. — Pelo contrário, esse arranjo será permanente. Eu a quero em minha cama esta noite e todas as noites por tanto tempo quanto este casamento durar.
E quanto tempo seria isso? Rin não fazia a pergunta, pois temia a resposta. Tinha medo de que ele dissesse que, assim que o bebê nascesse e estivesse legalmente registrado como seu filho, não tinha mais interesse no matrimônio, nem na esposa segunda colocada. Bem no fundo, sabia que não deveria esperar que aquele casamento durasse muito. Só não imaginava como lidaria com a situação quando, inevitavelmente, Sesshomaru lhe comunicasse que estava tudo acabado.
- Ufa, parece que correu tudo bem! Izauy Taisho sentou-se pesadamente numa cadeira e soltou um suspiro de alívio.
- Mais do que bem, mãe — observou Sesshomaru. — Acho que pode dizer que a tarde foi um sucesso total, simples e descomplicada. Fez um trabalho brilhante, Rin.
Rin aproveitou o calor do raro sorriso de Seshomaru e permitiu-se relaxar um pouco após a tensão que experimentara o dia todo. Estivera uma pilha de nervos desde que acordara, após um período de sono breve e insatisfatório. Aterrorizara-se com a responsabilidade de desempenhar o papel de senhora do castelo. Ainda sentia arrepios só de pensar. O problema agravara-se com a presença intimidadora da sogra.
Mas, no final, percebeu que preocupara-se indevidamente. Assim que entrou no vilarejo e viu tantos rostos familiares, em especial mães e crianças da escola, sentiu-se em casa. Ao receber um enorme buquê de flores dos aldeões, sentira lágrimas aos olhos. Todos demonstraram a alegria que sentiam por sua nova posição, deixando claro também o quanto significava que "uma das nossas" tivesse feito um casamento de conto de fadas.
- Sabíamos que Kagura não era a moça certa — confidenciou-lhe uma senhora. Sesshomaru, bem na direção da voz, não pudera deixar de ouvir. — Muito dona de si, arrogante.
Rin não se atreveu a olhar para o marido, temendo sua reação ao comentário impertinente. Ficou surpresa quando ele veio para seu lado e murmurou:
- Você está indo muito bem, uma castelã nata.
O elogio causou o mesmo efeito que um vinho encorpado no espírito de Rin. Seus olhos brilharam.
- Ajuda quando se conhece todo mundo.
- Está cansada, Rin? — perguntou-lhe Sesshomaru, trazendo-a para o presente, obviamente atribuindo seu estado de abstração ao cansaço. — Não fique aqui só por nossa causa.
- Oh, não, eu estou bem. Já tive dias mais longos na escola.
Ele parecia mais cansado do que ela, pensou. Recuperou uma idéia que tivera durante o dia, mas que, devido às atividades, não parara para considerar.
Mais cedo, no começo da tarde, Rin afastara-se um pouco para assistir ao evento sem ser notada. Concentrava-se no corpo esguio e forte do marido, nos cabelos prateados, no rosto talhado, no sorriso...
Aquele sorriso denunciara-o. Era o sorriso que classificava como social, aquele muito educado, que escondia seus sentimentos.
Olhando para o homem forte e capaz que era seu marido, Rin forçou-se a refletir sobre os comentários dele sobre a insistência de seu pai quanto às responsabilidades que acompanhavam a posição social e imaginou se ele ainda achava estressante ser o centro das atenções.
Em conseqüência, quando Sesshomaru entrelaçou suas mãos, não saberia dizer quem oferecia apoio a quem. Mas não questionou, simplesmente permitiu o contato, enquanto circulavam por entre as pessoas. Pela primeira vez, sentira-se como aquela personagem mítica, a Sra. Sesshomaru Taisho, e durante o curto espaço de um dia permitiu-se viver a fantasia de que o relacionamento era algo real e sólido.
Agora, lembrando-se, sorriu ternamente para o homem que chamava a si mesmo de seu marido e lançou um olhar faminto ao corpo alto e forte, à calça preta e à camisa azul de algodão macio.
- Eu me saí bem mesmo, não foi? Todo mundo parecia estar se divertindo.
- Parece que sim e você estava particularmente linda hoje.
Sem saber como aceitar o elogio, Rin enrubesceu, e fixou o olhar na xícara de chá que Sesshomaru servia-lhe. Ele não se esquecera de que ela enjoava com o cheiro de café.
Oh, sabia que o vestido de veludo verde-escuro, com gola alta e saia levemente rodada, combinava com seu tipo moreno e disfarçava seu estado físico, que já começava a mudar. Não sabia se o comentário de Sesshomaru era genuíno, ou se tratava-se de outra farsa dele, dentro de sua política de fachada, para o casamento parecer ter se realizado por amor.
- Bem, você tem gosto apurado — murmurou ela, ciente de que o vestido e as jóias, uma correntinha e brincos combinando, eram parte do presente de Natal de Sesshomaru.
Ele fora quase obscenamente generoso para com ela. Levara quase a manhã toda para abrir a pilha de pacotes sob a árvore enorme no corredor. Além disso, providenciara um cartão de crédito com seu nome de casada, acrescentando que ela deveria adquirir um guarda-roupa completo para os meses que se seguiriam.
A princípio, Rin quis recusar, declarar que as roupas que possuía eram perfeitamente de adequadas, mas a percepção que as peças começavam a ficar justas, acrescentado ao desejo de parecer bem ao lado de Sesshomaru, fez com que corresse às lojas.
- E não ficou contente por tê-lo persuadido a trocar aquele terno por algo mais casual?
Sesshomaru assentiu, o sorriso similar ao que haviam trocado na festa quando a proximidade entre eles parecera grande.
- Você estava certa sobre tentar uma nova abordagem — comentou ele, tranqüilo. — Um pouco menos de formalidade certamente aliviou o ambiente. Acho que nunca me diverti tanto nessa festa antes.
Rin e sentiu um alívio no coração com a declaração e a sensação de alegria predominou em seu ser.
- Faremos você fazer o papel de Papai Noel no ano que vem. — Ela riu, mas sua tentativa de humor não teve graça.
Sesshomaru franziu o cenho, lembrando-a de que não havia garantia nenhuma de que ela estaria ali no ano seguinte.
No próximo mês de dezembro, o filho deles já teria quase cinco meses. Ela teria servido ao propósito como provedora do herdeiro e, dessa forma, por que Sesshomaru iria querê-la por ali? Ou a determinação dele em provar que o relacionamento deles era verdadeiro implicava que haveria inclusive a deterioração da convivência, até que não fosse mais possível continuarem juntos?
- Então, Rin, quando vai deixar a escola? — Izaoy procurara algum assunto para conversa, mas o tema escolhido deixou Rin aborrecida, e ela olhou direto para Sesshomaru, reprovadora.
- Mamãe me ouviu conversando com a diretora a respeito do seu afastamento — comentou ele, a resposta informando o quanto ele era imune à raiva dela. Tomara a decisão sem sequer discutir o assunto.
- Você perguntou se eu queria ser uma dona de casa?
- Ser ou não dona de casa não tem nada a ver com isso. — Sesshomaru tratou a raiva dela como algo irrelevante. — Você teria de deixar o trabalho logo, de qualquer forma.
Rin cerrou os dentes. Claro que, com a gravidez avançando, teria que considerar a licença, mas ainda não visualizara a situação. Agora, ficara sabendo que Sesshomaru agira de sua forma autoritária, tirando-lhe completamente o controle sobre o assunto.
- E contou a sua mãe por queeu tenho que me afastar da escola?
Porque, claro, era isso o que estava por trás da decisão. O mundo não pensava que a nova Sra. Taisho devia manter seu estilo de vida proletário, mas, mais importante que isso, para Sesshomaru pelo menos, era afastar toda as ameaças à saúde e segurança do bebê que ela carregava. Os sentimentos dela pouco significavam nesse caso.
- Ainda não — declarou Sesshomaru, em tom intimidador.
- Bem, agora não seria uma boa hora?
- Rin! — Ele estava avisando que não ia tolerar a rebeldia, mas, zangada por ser negligenciada, ela ignorou o alerta e voltou-se para Izaoy.
- Vou fazer a notificação assim que voltar dos feriados e sairei de licença antes do fim do semestre que vem.
Não seria forçada a sair de licença antes, não importava o que Sesshomaru achava.
- Veja, decidi não tirar a licença-maternidade logo, embora possa...
Sesshomaru ficou mais alterado quando a mãe encarou-o, surpresa. Rin até podia ler os pensamentos dela, ouvi-la contando as datas, imaginando cenários e, tomada por uma certeza, decidiu deixar a sala sem mais delongas.
- Porque, depois do nascimento do meu bebê, em julho, planejo ser mãe em tempo integral.
- Rin, basta! — Sesshomaru parecia furioso, mas Rin tinha o raciocínio travado pelo sangue quente que corria-lhe pelas veias e que a incitava a ir mais longe.
- Agora, suponho que está mais convencida do que nunca de que eu seja a filha de minha mãe, a última pessoa com quem gostaria que o seu filho se casasse! Quero dizer, a tão perfeita Kagura nunca seria tão estúpida ou irresponsável a ponto de ficar grávida em uma única noite de amor...
- Rin... Eu disse basta!
Rin deteve-se à advertência de Sesshomaru, principalmente devido ao tom no uso do nome. O ódio que cegava-a, que deturpava-lhe a visão, sumiu de repente. Viu como Izaoy empalidecera e percebeu o que fizera. Não arriscou olhar para Sesshomaru, pois o reflexo de seu humor refletia-se no semblante da sogra.
- Sim, suponho que seja o bastante. — Mas, por mais que tentasse, Rin não podia deixar de acrescentar. — Não é muito melhor deixar tudo claro? Detesto viver numa mentira.
Com o canto do olho, viu como Sesshomaru segurava a xícara de café, alertando-a de que sua paciência esgotava-se rapidamente. Agora, assim como o ódio, a coragem também se fora e ela não podia mais permanecer na sala.
- Vou deixá-los pensando no assunto! — declarou, indiferente, e levantou-se.
Foi difícil manter a cabeça erguida e as costas retas enquanto dirigia-se para a porta, ciente do par de olhos dourados cravados nela, queimando-lhe a pele. Ia simplesmente retirar-se do ambiente sem dizer nada, mas, de repente, uma idéia surgiu-lhe à mente e voltou-se.
- Se por acaso estiver imaginando se esse filho é realmente de Sesshomaru, ou seja, acrescentando mais uma às minhas limitações, se estou sendo acusada de introduzir um ovo de chupim em sua família, deixe-me assegurá-la de que não há dúvida sobre essa questão. Entenda, eu até hoje só dormi com uma pessoa. Então não importa o quanto gostaria que fosse diferente, o meu filho será definitivamente um Taisho e, por isso, seu neto, em todos os testes de paternidade que venha a fazer.
Certa de que o pouco de compostura que ainda possuía não ia durar muito, voltou-se, saiu quase correndo e subiu a escada, dois degraus de cada vez.
Sesshomaru não estava muito atrás dela. Acabara de recuperar o fôlego, e um pouco da compostura, quando ele chegou ao quarto, o olhar raivoso, os músculos do rosto tensos, de tal forma que ela se sentiu amedrontada.
- Que raios foi aquilo? — inquiriu ele, recostando-se à porta para que ela não tivesse a opção de fuga, caso fosse tola o bastante para tentar.
- Não sei por que está tão aborrecido! — Rin tentou desafiar. — Eu só disse a verdade e já era hora de sua mãe saber. Não posso decepcioná-la mais do que isso.
- Decepção não é o termo — vociferou Sesshomaru.
- Bem, pior então. É o fato de ser eu e não Kagura!
- Acha que não sei disso? — Sesshomaru passou as duas mãos pelo cabelo prata e respirou fundo e irregularmente. — Você definitivamente não é Kagura, mas é minha esposa e a mãe do meu filho... não importa como tenha acontecido e, quando minha mãe se acalmar, também vai aceitá-la dessa forma.
- Ela está muito zangada? — Rin sentiu a irritação aplacar-se, deixando-a trêmula, como sempre se seguia às explosões de emoção.
- Quer mesmo que lhe responda?
- Oh, ora. — Ela foi até a beira da cama. — Talvez seja melhor eu ir e...
- Não faça mais nada! A minha reputação já está em ruínas.
Rin sentiu que tinham chegado ao cúmulo.
- A suareputação?
Sesshomaru assentiu, o lábio torto.
- Creia-me, minha mãe não está satisfeita por saber que seu único filho é um sedutor de virgens.
- Sedutor... mas você não...
- Não? Sou nove anos mais velho do que você e tinha mais experiência. Devia ter sido mais cauteloso... agido com mais responsabilidade. Portanto, aos olhos de minha mãe, eu sou o vilão da história.
- Mas não foi isso o que eu pretendi!
- Não? — Sesshomaru pareceu cinicamente sombrio e perturbador. — Não foi isso que você e sua mãe sempre acharam? Que nada de bom poderia advir de uma associação entre você e...
- Não... era você que não queria se envolver com... com gente como eu — acusou Rin, com amargura.
- E quem teria... então? — rebateu Sesshomaru, e ela franziu o cenho, confusa.
- Eu não entendo.
- Pense nisso, Rin... Por um lado, meus pais ficavam martelando em minha cabeça que eu deveria assumir as responsabilidades de minha posição, por outro, sua mãe, rigorosa e ameaçadora, caso eu botasse um dedo sobre você...
- Eu nunca soube que ela tinha falado com você... só...
- Só que ela deixou claro seus temores no tocante a você. Ela não queria que você passasse pelo que ela passou... e naquela época você era uma complicação que eu dispensava.
- Obrigada pelo elogio!
- Quer que eu minta? Raios, Rin! Eu só tinha vinte e oito anos. A minha empresa estava começando. Eu tinha dinheiro, liberdade... não queria me prender a ninguém... de jeito nenhum. Tudo bem... posso ter ficado com vontade. Você era tão inebriante e maravilhosa... Ele deixou a porta e sentou-se na cama ao lado dela. O olhar saudoso combinava com o sorriso torto, denotando um humor triste.
- Acha que não notei que você tinha crescido? Vou ser honesto... não notei, até então. Mas, naquela noite, você estava vestida, produzida... crescida... e eu fiquei tentado.
Mais uma vez ele passou a mão pelo cabelo.
- Bolas, como fiquei tentado! Mas não teria suportado viver se tivesse feito algo com você. Para começar, teria justificado todos os temores de sua mãe.
- E agora?
Rin não sabia se estava aliviada ou desolada por ele ter omitido determinados acontecimentos de seu décimo oitavo aniversário. Ele não mencionara a declaração de amor. Obviamente, acreditara em sua palavra de que tudo não passara de um repente juvenil e que já se esquecera de tudo. Isso, ou a simples idéia de que ela pudesse ainda possuir algum resíduo daquele sentimento, fez com que evitasse o assunto.
- Agora? — Sesshomaru encarou-a. — Agora dei razão à sua mãe... mas, pelo menos estou fazendo algo a respeito.
- Está bem, não precisa ficar repetindo isto — resmungou Rin, mal-educada, com as palavras "eu tinha dinheiro... liberdade" ecoando em sua mente, forçando-a a encarar o que ele havia perdido por causa dela. A coisa que Seshomaru mais temera era um casamento por obrigação, e ela acabara levando-o a isso. — Eu também não queria que isso acontecesse.
- Mas, já que aconteceu, com certeza somos adultos o bastante para contornar as dificuldades. Uma coisa eu lhe prometo, Rin. Eu nunca a abandonaria, como seu pai fez com sua mãe. Este bebê sempre saberá quem é seu pai e você não vai passar nenhuma necessidade.
Exceto de amor, refletiu Rin. Estavam novamente falando sobre dever e responsabilidade, mas pelo menos isso vinha misturado a mais alguma coisa. O desejo que ele embutia nas palavras e que fora o motor propulsor no passado.
- Como você mesmo disse, são necessários dois para se fazer um bebê, Sesshomaru — observou Rin, asperamente. — Sua mãe devia saber disso.
Ela calçou os sapatos novamente e levantou-se de repente.
- Eu vou descer e dizer isso a ela.
- Oh, não, não vai!
Sesshomaru correu pelo quarto atrás dela, tomou-a pelos ombros e fez com que voltasse para a cama.
- Acho que já fez bastante estrago por uma noite. Deixe minha mãe comigo. Na verdade, já está mais do que na hora de você se deitar e descansar. Lembre-se de que esse bebê que está carregando... e depois da festa desta tarde, você vai precisar de toda energia...
- Para trabalhar no meu pedido de licença?
- Se precisar. Estava pensando mais no tormento que minha mãe vai ser agora que sabe que será avó... Não precisa parecer tão cética. Minha mãe sempre sonhou em ter netos. Ela mesmo lamentava-se por não ter tido uma família grande. Eu lhe contei sobre o meu irmão que morreu. Ela não perdeu só a ele. Antes, ela já tinha tido dois abortos e, depois de mim, houve uma irmã natimorta.
Isso explicava a atitude de Izaoy Taisho... e do filho, refletiu Rin. Naturalmente, após tantas tragédias, a mãe de Sesshomaru só queria o melhor para seu único filho. E Sesshomaru sentia o peso do dever incutido pelos pais, principalmente por ser o único herdeiro.
- E, após a morte de meu pai, ela está com idéia fixa de que os meus filhos lhe trariam um novo sentido na vida.
De repente, Sesshomaru aproximou-se dela na cama e deslizou a mão de seu ombro até pousá-la suave e de leve em seu ventre.
- Então, este bebê é muito precioso para ela... quase tanto quanto é para mim.
Rin sentiu amor e desejo ao vê-lo de cabeça baixa, o semblante suavizado, o olhar fixo nos dedos sobre o veludo verde do vestido. Pelo menos, podia dar-lhe o filho que tanto queria. Nesse aspecto, o casamento não era de segunda linha.
- Sesshy...
Queria desesperadamente contar-lhe como se sentia, mas a coragem falhou quando o humor de Sesshomaru mudou de repente. Ele voltou a sorrir de forma distante e impessoal ao levantar-se.
- Certo.
A voz combinava com o semblante: áspera e sem emoção, profissional como sempre. Ela era a origem de seu maior investimento no futuro e, como qualquer financista perspicaz, ele queria salvaguardar seus ativos.
- Já passou da hora de você dormir.
Sesshomaru beijou-a na testa de forma tão brusca e impessoal quanto o sorriso, fazendo-a sentir um aperto no coração.
- É melhor eu descer e enfrentar minha mãe.
Sozinha, Rin trocou de roupa e deitou-se tão sem vida quanto um robô. Toda a energia parecia ter-se drenado quando Sesshomaru beijou-a. Aquele beijo não significara nada. Não fora sequer o tipo de beijo afetivo que se dava no rosto de alguém que bem poderia ser um amigo platônico. Embora usasse uma aliança no dedo, para Sesshomaru ela não era nada além da mulher que carregava seu filho.
O filho dele. Sesshomaru só se importava com o bebê. Era gentil e preocupado com ela, supria-lhe todas as necessidades, pelo menos no âmbito material, mas isso era tudo. Como resultado, sentia-se cada vez mais como uma potranca inseminada, bem tratada por causa da vida preciosa que trazia.
Até se enganava refletindo sobre o desejo que ele sentia por ela. Ou melhor, sentira. Mesmo o fato de estarem dormindo no mesmo quarto para convencer as pessoas de que o casamento era verdadeiro era um logro, como tudo o mais. Podiam até dormir juntos, mas seria só isso. Desde que se mudara para o quarto, Sesshomaru nunca a tocara. Geralmente, dava uma desculpa para ficar na sala até tarde e só subia quando tinha certeza de que ela já estava dormindo.
Bem, tratava-se de um aspecto que poderia mudar, certo? Sesshomaru podia não amá-la, mas, se conseguisse reviver a paixão que florescera entre eles, teria alguma vantagem, poderia construir algo sobre esse alicerce e, então, quando o bebê nascesse...
Ficou acordada, refletindo. Quando Sesshomaru subiu, aguardou que ele se acomodasse despido a seu lado na cama antes de voltar-se.
- Sesshy...
- Ainda acordada? — Ele parecia surpreso e um tanto tenso.
- Não consegui dormir. Como está sua mãe?
- Provavelmente sonhando com roupinhas e carrinhos de bebe. Ela se recolheu há meia hora.
Mas ele permanecera no andar de baixo. Até achar que ela estava dormindo? Sentiu dor ante a idéia e ficou mais decidida.
- Sabe, nessa conversa toda de responsabilidade, há um aspecto que você esqueceu.
Rin torceu o corpo, pousou a cabeça no ombro forte dele e passou o dedo sobre os músculos do tórax.
- Um aspecto que você definitivamente vem negligenciando — murmurou, petulante.
Sesshomaru enrijeceu o corpo, deixando claro que não era indiferente às carícias dela.
- Rin...
Ela forçou-se a ignorar o tom de advertência na voz rouca e continuou passando o dedo sobre os pêlos escuros em movimentos eróticos, traçando uma linha invisível na altura da cintura.
- Rin... — Ele parecia menos confiante e o nome saiu até trêmulo.
Ela sorriu secretamente ao pressionar os lábios sobre a pele sedosa.
- Tenho certeza de que a sua mãe não ficará nada satisfeita se souber o quanto ando me sentindo negligenciada.
- Mas eu... E o bebê? Não quero machucar...
- Você não vai.
Por um momento, Rin precisou esforçar-se para não cerrar os dentes, zangada. O bebê... sempre o bebê! Ainda aborrecida, notou a mudança em Sesshomaru, um tipo muito diferente de tensão surgiu no corpo estendido a seu lado, e respondeu com igual desejo.
- Não sou sua mãe, Sesshomaru — assegurou-lhe, suave. — E nada vai machucar nosso bebê. Pelo menos, nada que você possa fazer. Mas dizem que, mesmo no útero, a criança sabe se a mãe está se sentindo infeliz ou preocupada e, ultimamente, tenho me sentido solitária e negligenciada.
Ele voltou-se preocupado.
- Rin! Eu não quis... Eu não queria impor a força...
- Oh, Sesshy — interrompeu ela, severa. — Não sabe que isso não tem nada a ver com força?
Ele grunhiu e buscou-a, trazendo-a para bem perto. Pressionou seus lábios e ela sentiu o coração flutuar, pois sabia que, pelo menos naquele momento, era o centro do universo, ou até o próprio universo para ele.
Pela primeira vez, sentia que podia corresponder a Sesshomaru de forma plena, nem assustada com o próprio desejo nem perturbada por isso. Quando ele acariciou-lhe os seios, pressionou o corpo contra o dele, fazendo-o gemer de angústia.
- Rin... devíamos ir devagar... com cuidado.
- Não há necessidade de sermos cuidadosos — sussurrou ela, rouca, já ofegante. — Além disso, não é assim que eu quero.
Ela sorriu secretamente com o estremecimento dele em reação a sua frase audaciosa. Sentiu necessidade de transmitir o desejo com as mãos, com o calor da boca.
- Não? — questionou ele.
- De jeito nenhum.
- Então, mostre-me, Rin... mostre-me o que você quer. Ouvindo a paixão nas palavras, Rin riu suave e conduziu-lhe a mão, fazendo-o acariciar os pontos em que sentia desejo, fazendo-o sentir desejo também. Sentiu-se poderosa e livre, livre para acariciá-lo onde bem quisesse e soube tirar vantagem disso. Acariciou cada centímetro do corpo musculoso e sentiu-o estremecer, a respiração ofegante e irregular.
- Rin... — Ele pronunciou o nome tomado de desejo, revelando a admissão do poder da feminilidade. — Rin, eu não posso...
- Você não tem — declarou ela, e elevou os quadris contra ele, convidando-o a unir seus corpos. Delirou de prazer quando ele lhe acariciou as partes íntimas e atendeu ao convite, obediente.
O tempo deixou de existir. O mundo também pareceu cair em brumas. A única realidade era ali, na cama, como aquele homem cujo corpo estava unido ao dela, cuja respiração combinava com a sua própria, ofegante. Os gemidos e gritos desesperados...
A união era perfeita, a sensação de continuidade era tal que o prazer chegava a ser agonizante. O êxtase crescia a cada beijo, a cada movimento e a cada carícia. A sensação de êxtase, delírio e alegria fez com que murmurasse o nome de Sesshomaru, recebendo em resposta seu próprio nome em voz alta.
Passou-se algum tempo até que pudesse ser capaz de sentir algo além da satisfação, até que as ondas de paixão amainassem, até sentir as funções do corpo saciado voltando ao normal. Quando voltou a raciocinar, viu que Sesshomaru estava a seu lado, o corpo esbelto tão indolente de satisfação que ele mais parecia um gato deitado junto à lareira, tão contente que parecia até querer ronronar.
- Como eu disse, você nunca seria minha mulher só de fachada — murmurou ele, o tom emitindo satisfação sensual.
E Rin ficou agradecida por seu semblante estar escondido pela escuridão, pois não sabia se sentia-se satisfeita por poder provocar tal reação nele, ou triste por não ser mais o universo dele.
Mesmo assim, pelo menos teriam aquilo, pensou. Pelo menos havia algo que ela poderia dar a ele, que os aproximava e reforçava a paixão entre ambos. Não sabia se aquele alicerce seria suficiente para que, no futuro, tivessem algo além disso.
Oie! È eu travez trazendo procês mais um capítulo dessa história linda. Gostaria de agradecer a Pequena Rin, Meyllin, Dinda, Sakura, Pitty pelas reviews e pelo apoio.
Bjus.
