Capítulo V
-Sra. Taisho... — chamou a governanta, em tom levemente hesitante. — Há alguém... que quer vê-la. Eu disse que a senhora estava descansando, mas ele foi muito insistente. Disse que era muito importante.
- Não estou esperando ninguém. — Rin franziu o cenho, confusa. — Como ele é, Kaede?
A expressão de Kaede dizia tudo.
- Não é ninguém de Ellerby — respondeu a mulher, cuidadosa. — Ele disse que a senhora não o vê há muito tempo.
- Mesmo?
Agora, Rin sentia-se intrigada. Após semanas de tédio, a idéia de ter alguma distração era bem-vinda.
- Suponho que seja melhor atendê-lo... que nome ele deu?
- Wilton... David Wilton. Devo comunicar ao Sr. Taisho também?
- Ele perguntou pelo meu marido também? Não? Então, não acho que haja necessidade de incomodá-lo. — Rin alisou o tecido florido de algodão do vestido sobre o estômago, muito mais proeminente agora, depois de oito meses. — Afinal, sabemos como ele fica quando é interrompido, não é?
Ela sabia do que estava falando. Desde que Sesshomaru abandonara as constantes viagens a Londres, optando por trabalhar em casa para ficar perto dela, com o avanço da gravidez, tanto Rin quanto a governanta cuidavam para que ele não fosse importunado no escritório em certos horários. Ele agia como um urso atiçado com ferro em brasa nessas ocasiões, e as duas acharam mais fácil garantir que os pequenos problemas domésticos não chegassem a seus ouvidos.
A menos, claro, que o problema fosse com o bebê, acrescentou Rin a si mesma, enquanto a Sra. Kaede ia buscar o visitante. Naquele caso, ele parecia ter um sexto sentido poderoso, uma preocupação intuitiva que o fazia aparecer do nada, sem ser chamado, providenciando o que era preciso.
Acontecera uma ou duas vezes, lembrou-se, levantando-se para esticar a coluna que a incomodava continuamente nas últimas semanas. Em fevereiro, passara duas semanas com gripe e, no mês anterior, quando a barriga já estava grande, pisara em falso na escada, chegando a cair desajeitadamente. Estava quase no último degrau e não se machucara seriamente, mas Sesshomaru abrira a porta do escritório antes mesmo de ela atingir o chão. Segundos depois, ele a aninhava nos braços fortes e protetores, encarando-a com o rosto pálido e cheio de preocupação.
Ah, houvera também o problema com a pressão arterial.
- Nada muito preocupante — assegurara-lhe o doutor. — Mas, de qualquer forma, terá que tomar cuidado. Quero que diminua o ritmo de todas as atividades.
Claro, Sesshomaru interpretara a seu modo e condenara-a a uma inatividade quase absoluta. Era muito conveniente para ele, mas ela ficava maluca vendo o dia claro de junho lá fora sob a perspectiva de mais quatro semanas confinada na cama ou na poltrona.
Por fim, a porta abriu-se e Rin e agradeceu a distração.
- Sr. Wilton, por favor, entre.
Percebeu por que a Sra. Kaede parecera tão preocupada. Aquele David Wilton não era o tipo de pessoa que se costumava receber na mansão. Trajava roupas muito gastas e os sapatos tinham a sola meio solta. Era mais alto que ela talvez uns dez ou doze centímetros, mas o excesso de peso lhe deformava o corpo. Seu cabelo preto rareava rapidamente. Resumindo, a aparência era de alguém que definitivamente não se encontrava na melhor fase da vida. Algo no olhar dele dizia-lhe que teria sido melhor ter pedido à Sra. Kaede para chamar Sesshomaru.
- Em que posso ajudá-lo?
- Bem, talvez mais do que eu possa fazer por você. Você não me conhece, certo? Não... bem... — Ele suspirou profundamente e passou a mão sobre a pele brilhante da cabeça. — Por que deveria? Não estive presente em sua vida por anos. Mas eu a conheço bem... os olhos... o cabelo. Você é a imagem de sua mãe. Definitivamente, minha Hime Rin.
- Hime Rin? E uma canção não é? Ele assentiu sem falar nada, mas moveu os lábios
de forma enigmática, aparentemente esperando que ela prosseguisse nas reminiscências.
De fato, Rin evocou outras lembranças, acompanhadas de uma sensação de desconforto, como se alguém de repente agitasse o fundo de um lago, turvando a água.
- Hime... — repetiu. As águas enlameadas começavam a clarear um pouco e conseguia ver alguma coisa, de forma imprecisa. — É um apelido. — O homem assentiu. — O meuapelido! Alguém costumava me chamar assim!
- Isso mesmo. Ouça, talvez ajude se eu lhe disser que voltei a Ellerby à procura de Kana. — Sério, o homem levou as costas da mão ao olho. — Claro que eu não sabia que ela tinha falecido. Primeiro, fui à casa onde moramos, na rua Mill, e de lá me mandaram à rua Holme. Os vizinhos lá...
Mas Rin não estava prestando atenção.
- Onde nósmorávamos... rua Mill... o senhor disse onde nósmorávamos?
- Isso mesmo. Oh, Hime, não sabe quem eu sou?
Ele estava dizendo o que ela achava que estava? Poderia ser ele? Achava que a mãe dissera Hilton, mas ela já delirava, fraca, e as não passavam de murmúrios. Era possível que ela estivesse querendo dizer Wilton.
- Mas, por que me reconheceria... ou mesmo por que quereria me ver? Admito que não fui um bom pai para você, nem um bom companheiro para Kana. Mas quero consertar isso com você. Agora... especialmente agora.
Rin agarrou-se à mesa próxima para buscar apoio. Sentia a cabeça girar.
- Quem... é o senhor?
- Oh, Hime, querida, você deve saber! Não precisa perguntar para...
- Mas vocêprecisa responder-lhe — interrompeu uma voz áspera e fria.
David Wilton voltou-se e viu Sesshomaru, muito elegante de camisa branca e calça cinza, junto à porta. A Sra. Kaede devia ter ouvido os gritos de Rin e fora contar a Sesshomaru sobre o visitante.
- Sesshy... — Ela não conseguiu raciocinar a ponto de falar algo além do nome.
Ele lançava o olhar safira sobre ela. Ao vê-la ruborizada e lacrimosa, franziu o cenho.
- Sente-se antes que caia, Rin! — ordenou, cruzando a sala para oferecer-lhe apoio até a cadeira.
Chocada e confusa, Rin obedeceu como se fosse uma marionete. Deixou-se afundar entre as almofadas na poltrona, olhando para o homem a sua frente.
- Você dever ser Sesshomaru... o marido de Hime. Estou encantado em conhecê-lo.
Wilton aproximou-se, mão estendida, mas encontrou apenas o olhar paralisante de Pierce.
- E quem você seria? — Cada palavra foi pronunciada com preciso desdém.
- Dave Wilton, seu criado. — Ele levara apenas um segundo para recuperar-se da hostilidade de Pierce, mas o olhar indicava que avaliava a dimensão da oposição.
- E o que podemos fazer pelo senhor, Sr. Wilton? — Sesshomaru enfatizou o verbo para não haver dúvida de que estava no comando.
- Bem... creio que seja Sesshomaru Taisho, o marido de minha Hime?
- SuaHime? — repetiu Sesshoamru, friamente, usando o tom de senhor do castelo de forma mais arrogante possível.
- Isso mesmo. — Wilton assentia entusiasticamente, alheio à acidez do tom de Sesshomaru. — Minha garotinha.
- Está pleiteando ser o pai de Rin?
Rin desgostou se intimamente ao perceber, pelo tom, que Sesshomaru não estava acreditando em uma palavra. Era assim que ele devia ser no mundo dos negócios. Aquela atitude dera-lhe a reputação de homem rude e inflexível.
- Não estou pleiteando! Eu sou...
- E, claro, é capaz de provar.
- Bem, olhe para mim... e para ela: olhos castanhos, cabelo escuro... bem, o que restou...
- Mas tem alguma prova?— insistiu Sesshomaru, sem misericórdia.
- Nenhum documento, se está se referindo a isso. Kana e eu nunca oficializamos nada. — O homem confidenciou: — Serei honesto com você, camarada, eu não era o melhor homem para mulher alguma naqueles dias, não era do tipo que se estabelecia. Mas, por Kana, eu tentei. Por três anos, mas, no final, o espírito aventureiro me tomou. Sempre quis voltar... nunca me esqueci de Kana... mas de algum modo os anos se passaram. Pode imaginar que choque foi para mim ao saber que ela havia morrido.
Por alguns segundos, Wilton cobriu os olhos com os dedos amarelados de nicotina, perturbado. Na poltrona, Rin moveu-se instintivamente. Se aquilo fosseseu pai...
Mas Sesshomaru apertou-lhe o ombro e manteve-a no lugar, impedindo-a de se levantar.
Após um momento, Wilton pigarreou ruidosamente.
- Bem, é tarde demais para Kana, mas não para minha Hime... e, claro, ela precisa mais de mim do que nunca agora.
- Por quê?
Rin achava que Sesshomaru não poderia usar um tom mais hostil, mas, de algum modo, ele conseguira. Endireitou-se na poltrona, desconfortável.
- Bem, com um bebê a caminho, toda moça precisa da família por perto.
- Se você for da família.
- Claro que sou. Hime, diga a ele... você deve saber! Sesshomaru olhou-a severo.
- Sabe, in?
- Eu...
Rin sentia-se em meio a um pesadelo, exceto que não estava dormindo e não havia esperança de acordar e livrar-se da angústia. Encarou os homens, um de cada vez. Sesshomaru mantinha o semblante sombrio, ao passo que o outro homem parecia mais amistoso. Os olhos castanhos tão parecidos com os seus pareciam implorar que acreditasse nele.
Ele era seu pai?Seria ele o homem que tanto desejara conhecer, a parte de sua vida que estava perdida havia tantos anos? Ele certamente não era a figura que preenchera sua imaginação, mas aquelas imagens eram só sonhos.
- Lembro-me de ser chamada de Hime Rin... Mas não deveria sentir alguma coisa? Se o sangue dele corria em suas veias...
- Eu não sei! — exclamou, aflita, e sentiu uma pontada na barriga quando o bebê chutou, como se sentisse o mesmo mal-estar dela.
- Rin... tudo bem...
O consolo de Sesshomaru foi abafado pela reprovação violenta de Wilton.
- Mas, Hime, querida, você deve saber... você deve se lembrar! Ouça, o seu aniversário é no dia nove de setembro, e eu lhe comprei o primeiro cachorrinho... Punch.
Wilton capturara sua atenção... e a de Sesshomaru, que olhava tão fixamente o homem que Rin achou que ele empalideceria com a força daquele escrutínio.
- Claro, depois de Punch, teve o Toby...
Rin lembrava-se vagamente. Punch... Toby... ele sabia tanto...
- Toby? — repetiu Sesshomaru, o tom tão afiado quanto uma navalha.
- Oh, sim, ficou no lugar de Punch quando ele desapareceu. — Wilton encarou Rin novamente. — Você ficou desolada.
Ela assentiu silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Seu pai... Devia levantar-se e ir até ele, mas Sesshomaru mantinha-a firme no lugar.
- Sr. Wilton. — Ele se impunha pelo tom de voz, percebeu Rin, chocada. Controlava-se da mesma forma com que a mantinha na poltrona. — Como soube de Rin? Como soube onde procurá-la?
- Oh, bem, esse foi o momento de maior sorte. Acredita que foi no jornal? Em minha segunda noite aqui, depois de saber sobre a morte de Kana, comprei peixe e batatas e, lá, no jornal usado para embrulhar as compras, havia uma reportagem sobre o casamento. Dá para acreditar?
- Não. — A palavra de Sesshomaru era indiferente e hostil. — Não, não dá. Oh, acredito que tenha lido na reportagem, que tenha morado na rua Mill... mas você não é o pai de Rin e quero que saia já daqui!
- Sesshy... não! — Rin voltou-se para ele, chocada e angustiada.
- Rin, você não está raciocinando direito. Creia-me...
Sesshomaru encarou-a fixamente, como se quisesse incutir-lhe seus pensamentos através do olhar. Quando ele fazia aquilo, ela acreditava em qualquer coisa, mas, naquele caso, precisava mais do que confiança cega.
- O jornal... — alertou o marido, perspicaz. — E você me contou sobre Punch. Pense...
Pense.Ela esforçou-se e lembrou-se do dia em que encontrara Sesshomaru passeando com o cachorro da família. Lembrou-se de ter-lhe contado sobre seu animal de estimação e ouviu-se dizendo: "Punch foi atropelado quando eu tinha quatro anos".
- Sr. Wilton. — Ela precisou concentrar-se para fazer-se audível. — Exatamente quando eu nasci?
- Eu lhe disse. — Havia mais do que um tom de desafio na voz do homem. — Em setembro.
- Não, o ano. — Sesshomaru assentiu satisfeito e ela entendeu que estava no caminho certo.
- Deixe-me ver... você tem vinte e dois anos, então...
- Sesshy, conduza-o à saída. — Rin sentenciou, desanimada e em voz baixa. — Ele não é o meu pai.
- O quê? Ouça... só porque não me lembro...
- O senhor não se lembra de nada — interrompeu Sesshomaru, severo. — Porque não é quem diz ser. Um pai de verdade nunca se esqueceria do ano de nascimento da filha. Entenda, na reportagem do jornal, a idade de Rin saiu errada. Na verdade, ela tem vinte e quatro anos e, se estivesse por perto quando Punch morreu, então teria ficado com Kana por mais do que três anos...
- Oh, está bem, raios! — Wilton mudou de tal forma que Rin mal reconhecia o homem sorridente e hesitante que entrara naquela mesma sala havia pouco.
- Então, eu tentei... quem não tentaria? Quero dizer, conheci aquela pirralha quando ela não era nada...quando não tinha nada... mas agora ela surgiu para o mundo. Você é cheio da grana e...
- E achou que conseguiria botar as suas mãos sujas em alguns trocados fazendo se passar por meu sogro? —Sesshomaru completou a frase como se até o fato de pronunciá-las o contaminasse.
- Pode parar — veio a resposta rabugenta.
- E o efeito sobre Rin? Como acha que ela se sente, achando que o pai só a queria porque ela é rica? Oh, saia daqui!
Com o olhar faiscando, Sesshomaru foi até a porta, abriu-a e lançou um olhar contido ao homem.
- Saia daqui antes que eu o coloque para fora! E, se for esperto, vai sair de Ellerby também, porque, se eu o vir novamente, não me responsabilizo por minhas ações!
Rin nem viu David Wilton sair. As lágrimas que retera para concentrar-se nas perguntas que Sesshomaru fizera e nas respostas obtidas por fim encontravam vazão. Enterrou o rosto nas mãos. O sentimento de vazio parecia pior, pois por um breve período pensara que estava a ponto de completar o quebra-cabeça de sua vida.
- Rin! Oh, Rin, não chore!
Sesshomaru a envolveu com braços fortes, quentes e protetores. Rin aninhou-se e aceitou o apoio e o abrigo enquanto desatava a chorar.
- Amor, não chore... sabe que não posso vê-la assim. Nunca pude, desde o momento em que a vi deitada no acostamento com a perna machucada. Você tentou ser forte, mas uma lágrima grande abriu caminho sobre a lama em sua face e eu só quis salvá-la, bater uma varinha mágica e consertar tudo.
- Apesar disso, lembro-me claramente de ter ouvido algo como: "Mas, minha nossa, em que trapalhada se meteu agora, sua pirralha?"
- Eu disse isso? — O tom de Sesshomaru era desconfiado. — Nunca fui muito bom em expressar o que realmente sinto.
E o que aquilo significava? Rin sentiu a respiração bloqueada, o raciocínio tomando rumos diferentes. Relaxou nos braços fortes sem se importar em encará-lo. Tinha medo de não poder ler o que esperava e focalizou a visão turva no tórax e na camisa que até pouco antes estivera imaculadamente limpa.
- Oh, veja o que eu fiz! — Ineficaz, Rin esfregou as manchas de maquiagem com os dedos. — Sesshy, estraguei a sua camisa!
Ele encolheu os ombros, indiferente à preocupação dela.
-
Lavando, sai. E, se não sair, o que é uma camisa entre amigos? —
A risada dele continha um sentimento que Rin não conseguiu
identificar. — Não era nessa hora que eu deveria oferecer-lhe um
lenço branco? Se for, acho que falhei no papel de herói romântico,
pois
não trago nenhum no momento.
Ele buscou uma caixa de lenços de papel na mesa próxima, tirou várias folhas, entregou-lhe algumas e usou outras para enxugar-lhe o rosto com tal gentileza que mais parecia mágica, de tão inesperada. Ela sentiu o coração aquecido e a dor diminuiu consideravelmente.
- Devo estar horrível...
- As faces estão avermelhadas e esses olhos lindos estão um pouco inchados, mas só isso... Ele não vale isso, Rin! — acrescentou Sesshomaru, ferino. — Ele não é nada além de um trapaceiro barato, um vigarista.
- Ele poderia ter sido o meu pai.
- Mas não era.
Ele não entendia, mas como poderia? Nunca vivera com uma falha em sua vida.
- Bem, claro que você estava contra ele desde o começo, só porque ele obviamente era pobre e ignorante. Suponho que ele não era bom o bastante para ser avô do seu precioso filho!
- Ele não era o tipo de que gostaria como sogro, com certeza.
- Mas e se ele tivessesido...?
- Rin, você está tão desesperada por um pai... uma família... que vai se agarrar ao primeiro que aparecer, não importa quão ameaçador ele pareça? — Quando ela não pôde responder, ele acrescentou: — Foi por isso que se casou comigo?
Sem saber exatamente como a pergunta estava sendo feita, Rin optou por responder com cuidado.
- Você lidou bem com a situação.
- Bem, muitíssimo obrigado!
- E por que está tão indignado? — A raiva gratuita dele fez com que ela disparasse as palavras, defensiva: — Afinal, não foi por isso precisamente que vocêse casou comigo?
Sesshomaru afastou o rosto como se tivesse levado um tapa e algo que ela nunca vira antes surgiu em seu olhar.
- Bem... sim... Eu acho que sempre sentiria o dever de me casar com qualquer mulher que engravidasse de um filho meu. Isso influiu em minha decisão.
- Aposto que sim! Você não pôde ficar com sua primeira opção, mas aceitaria qualquer substituta, desde que ela lhe desse um filho.
- Oh, mais essa agora, Rin! — A reação de Sesshomaru deixou-a chocada. — Você éminha esposa. Está dando tudo certo, não está? Até minha mãe está se acostumando à idéia.
- Bem, sim...
Rin teve que reconhecer que, à medida que o bebê crescia, seu relacionamento com Izaoy Taisho também se desenvolvia. Agora que entendia mais sobre o passado daquela senhora, era mais fácil compreendê-la e, embora não fossem amigas, podiam, pelo menos, tolerar-se muito mais. Na semana anterior, Izaoy surpreendera-a confidenciando:
- Tenho que admitir que, no começo, tive minhas dúvidas sobre você e Sesshomaru, mas tudo está correndo muito melhor do que eu esperava. Entenda, eu conheço meu filho, Rin. Eu o amo muito, mas, vamos encarar os fatos, o histórico dele com mulheres não é dos mais exemplares. Sou a primeira a admitir que até recentemente ele não mostrava o tipo de inclinação necessária a um casamento.
Rin só conseguira murmurar alguns sons genéricos em resposta, mas Izaoy não parecia querer suas reflexões.
- Eu costumava achar que era a reação dele contra a insistência de meu marido em atribuir-lhe os deveres da família. A vida amorosa era algo que ele podia levar com irresponsabilidade, mas agora vejo que ele simplesmente não tinha encontrado a mulher certa. Você é a primeira com quem ele fica por mais do que alguns meses. Pela primeira vez na vida, ele está realmente se estabelecendo...
Rin voltou ao presente.
- Mas sua mãe não sabe que o bebê é o único motivo pelo qual nos casamos? — indagou Rin ao marido. Izaoy não sabia que Sesshomaru não lhe era fiel por opção, mas sim por causa do bebê e da rejeição de Kagura.
- Rin, eu já lhe dei motivo para crer que me arrependi de ter me casado com você?
- Não... — Ele fora atencioso, preocupado, generoso, apaixonado, até que ela ficasse muito grande, e continuava gentil agora, nos últimos meses de gravidez.
Mas, como ele mesmo admitira, sentiria o mesmo dever para com qualquer mulher que engravidasse e, sendo Sesshomaru, procuraria fazer o melhor.
— Mas ambos sabemos por que estou aqui.
- E por quê?
- Você sabe! Eu sou apenas uma incubadora para você.
Emitir as palavras ásperas tornava tudo mais desagradável. Por isso, não sabia se poderia continuar com aquele casamento de fachada.
- Você não pode ter um filho se não tiver uma mulher que o carregue...
- Como se atreve? — protestou ele. Mais uma vez, ela ficou assustada com a expressão do marido. — Como pode me acusar de...
- Não... Como você se atreveu a se casar comigo quando... Oh!
Rin interrompeu-se e segurou a barriga.
- Rin! — Imediatamente, Sesshomaru era só preocupação. — O que foi?
- Nada— balbuciou ela, trêmula, quando conseguiu. — E só o bebê... me deu um chute forte. Nunca tinha sentido algo assim. Oh! Lá vem novamente!
Impulsivamente, ela estendeu a mão para agarrar as de Sesshomaru e levou-as até a barriga, pousando-as sobre o tecido de algodão do vestido. Queria partilhar o momento.
- Está sentindo?
- Não... eu... Oh, nossa!
Ele pareceu maravilhado e toda a raiva anterior se esvaiu.
- É fantástico.
De repente, ele voltou-se para ela, tomou-lhe o rosto gentilmente e inclinou-se para beijar-lhe os lábios. Um beijo que, apesar da lenta intensidade, não tinha nada de sexual. Não podia sequer ser descrito como afetivo, mas era diferente de qualquer coisa que ele já fizera, cheio de um sentimento especial que fez sua cabeça girar e o sangue correr pelas veias, deixando-a feliz.
- Obrigado por isso, Rin — declarou ele, simplesmente.
Então, ela entendeu que as lágrimas foram infundadas. Poderia continuar com aquele casamento. Poderia suportar qualquer coisa se, pelo menos de vez em quando, ele a olhasse daquele jeito e a beijasse como fizera havia pouco. Se ele fizesse isso, não pediria mais nada.
- É para isso que servem os amigos. — Ela refugiou-se na arrogância.
Sesshomaru não gostou disso e franziu o cenho.
— Você... se referiu a nós como amigos... agora há pouco. Com certeza, podemos ser amigos, não é? — perguntou, ansiosa, esforçando-se para ignorar mais uma pontada desconfortável no abdômen.
Perturbado, Sesshomaru hesitou e cerrou ainda mais o cenho ao considerar a questão.
- Para dizer a verdade, Rin, acho cada vez mais difícil definir o que somos um para o outro. Eu não acho realmente que possamos ser amigos.
- Não? — Rin não podia mais esconder a dor. — Mas Sesshy...
Ele balançou a cabeça, rejeitando o protesto.
- Rin, amigos supostamente são platônicos... não podem partilhar os sentimentos que eu tenho para com você.
- Que tipo de sentimentos?
- Você sabe... não é preciso que eu diga. Só tenho que olhar para você para desejá-la. Você é tão bonita...
- Ora! — exclamou Rin. — Nisso eu não acredito.
- Andou se olhando no espelho ultimamente? — indagou Sesshomaru. — A maternidade combina com você... o seu cabelo está brilhante, a sua pele, viçosa... há uma serenidade maravilhosa em seu ser...
Não naquele instante, pensou Rin, em particular. Sentia o coração pulsando rápido, o rosto ruborizado e o bebê parecia determinado a continuar chutando.
- Eu não sou bonita — esclareceu ela. — Com certeza não é um termo que as pessoas tenham usado para me descrever. Simpática, talvez, gentil... mas bonita, não. Alguém como Kagura...
Tardiamente, percebeu que cometera um erro ao mencionar o nome.
- Deixe Kagura fora disso — grunhiu Sesshomaru. — Ela não tem nada a ver conosco.
Se pudesse acreditar nisso, a vida seria muito mais fácil. Mas a outra mulher estava sempre lá, entre eles. Rin sabia que não era a primeira escolha de Sesshomaru...
Parou de pensar, pois foi tomada por outra pontada forte. Percebeu, assustada, que aquilo podia não ser apenas o bebê chutando, podia ser mais que isso...
- Sesshomaru! — exclamou, chocada.
- O que foi? — Como antes, ele ficou alerta e pousou a mão morna sobre a dela.
- Acho que o bebê...
- Mas não pode! O médico disse três semanas ou mais.
- Eu... não acho que o bebê vai esperar tanto tempo! — balbuciou Rin, com os dentes cerrados de dor.
- Mas é muito cedo... ou nos enganamos com as datas?
- Sesshy!
Ela teve vontade de rir ao ver aquele homem, sempre tão orientado pela lógica e friamente capaz, assustado a ponto de não conseguir tomar uma atitude concreta.
- Se há algo de que podemos ter certeza absoluta é a data de concepção deste bebê!
Rin só conseguiu dizer isso. Em segundos, toda a possibilidade de pensamentos coerentes tornou-se impossível, arrastada pelas ondas de dor que a faziam ver estrelas, sair do estado racional e delirar. Estava vagamente ciente de ouvir Pierce berrar ordens para alguém, portas sendo abertas e fechadas e passos apressados pelo corredor.
Então, alguém a ergueu e carregou, de forma tão gentil e com tanta segurança que sentiu-se confiante, certa de que tomariam conta dela. Teve a impressão de ver o céu e o sol por um momento antes de entrar no carro. Sesshomaru sentou-se a seu lado enquanto o motor possante era acionado.
- Agüente firme — murmurou ele, rouco, junto a seu ouvido. — Só mais alguns minutos.
Ela não conseguia enxergar, não conseguia pensar, só respirava com dificuldade. Apesar da dor e da semi-consciência, conseguiu registrar um fato. Estava muito ciente dos braços fortes que a mantinham, bem como do conforto, apoio e carinho que transmitiam. Aquilo era muito mais eloqüente do que uma centena de palavras. Agarrou a mão do marido, sem saber que estava arranhando-o com as unhas.
- Sesshy... — sussurrou, apesar de muito ofegante. — Sesshy... não me deixe... por favor... não me deixe...
- Nunca — assegurou-lhe ele, a voz rouca e grave, cheia de sinceridade. — Nunca, em toda a minha vida...
Ele agarrou-lhe as mãos e amparou-a enquanto ela sentia outra contração forte. As palavras ficaram ecoando em sua consciência como se fossem a única ligação que tinha com o mundo, de repente parecendo ficar distante.
- Mais flores! — protestou Rin, rindo. — Pierce, eu já me sinto numa estufa! A Sra. Kaede não vai conseguir mais vasos.
- Então, ela terá que comprar alguns — solucionou ele, prático. — Além disso, pensei que todas as mulheres gostassem de flores.
- Claro que gostamos... mas não acha que está exagerando?
- Em absoluto. — Sesshomaru sorriu satisfeito. Rin sentiu o coração pular de alegria. — Quero que todos no mundo saibam como me sinto.
- Acho que todos receberam a mensagem alto e claro... com certeza, a floricultura recebeu! Você os deixou sem estoque?
- Um ou dois cabinhos...
Sesshomaru pousou o enorme buquê sobre a mesa lateral e voltou-se para o cesto rendado perto da janela.
- E como está a minha filha hoje?
- Ela está ótima — afirmou Rin. — Ganhando peso e recuperando-se de sua entrada prematura na vida.
- Ótimo.
Ele passou o dedo sobre a cabecinha. Sesshomaru era a imagem da devoção e Rin esforçou-se para reter as lágrimas.
- Acho que vou segurá-la no braço... — Ele quis erguer o bebê.
- Não se atreva!
Rin forçou-se a assumir uma expressão de severidade a fim de aplacar o emaranhado de sentimentos que sentia no peito.
A atitude de encantamento de Sesshomaru em relação à filha era uma fonte da alegria em seu coração. Por outro lado, criava uma angústia, ante seu olhar afetuoso, a pronúncia suave do nome dela, como ele fazia quando ela era criança.
- Levei um tempão para fazê-la dormir após o almoço, por isso não quero que nada a perturbe! Ela vai querer mamar daqui a pouco, de qualquer maneira... e aí poderá segurá-la.
- Certo — concordou Sesshomaru, sorrindo matreiro. — Nesse ínterim, terei que me contentar em conversar só com minha esposa.
Com esforço, Rin suprimiu o desejo de sorrir. Precisava acostumar-se àquilo, convenceu-se. Afinal, havia quatro semanas assistia ao caso de amor entre o marido e a filha crescer a cada minuto.
Ora, sempre soubera que o único motivo de Sesshomaru ter se casado com ela era a gravidez. Mas, de algum modo, ultimamente parecia ser mais difícil suportar o que estava acontecendo.
Não eram apenas as emoções confusas após o nascimento... havia algo mais. Assim que despertara do sono profundo após o parto, notara que algo entre ela e Sesshomaru havia mudado, só não sabia o que era.
Não percebera nada a princípio. Vira Sesshomaru sentado à beira da cama, o rosto pálido e as olheiras profundas, mas seu primeiro pensamento fora para a filhinha que vira apenas por um breve momento antes que a enfermeira a levasse embora.
- O bebê... ela está bem? O que...
- Ela está ótima — tranqüilizou Sesshomaru. — Absolutamente perfeita. Um pouco miudinha, mas era o que se esperava dada a pressa com que resolveu nascer. Eles a colocaram na incubadora por segurança, mas o médico disse que não há com que nos preocuparmos.
- Tem certeza?
- Claro que tenho, Rin. Eu mentiria num assunto como esse?
- Não... claro que não.
Rin recostou-se contra os travesseiros e emitiu um suspiro de alívio ao lembrar-se dos dramáticos acontecimentos da noite anterior. Apesar do início doloroso, o trabalho de parto ainda durara horas após sua chegada ao hospital. O bebê só veio a nascer nas primeiras horas do dia seguinte. Durante a maior parte do tempo, alternara estados de alerta e de semiconsciência, bastante alheia ao local em que se encontrava e aos presentes nesse local.
Estava separada de Sesshomaru. Soubera que ele permanecera cada segundo segurando-lhe a mão, enxugando-lhe o rosto, acalmando-a com palavras gentis. Nos piores momentos, ele estivera lá, e também no melhor, ao colocar a filha em seus braços pela primeira vez.
- Ela está lutando, Rin. Tal qual a mãe. Sesshomaru falara num tom tão inflexível e indiferente que Rin precisou encará-lo. Seus olhos dourados pareciam cansados, e havia algo mais, algo que ela não podia ignorar.
- Já pensou em um nome?
Nesse momento, ocorreu-lhe. Ele falara sobre um herdeiro, alguém que continuasse a linhagem dos Taisho e que herdaria a mansão.
- Está decepcionado? — questionou ela, acusadora.
- Decepcionado? Por que estaria? — Ela identificou no olhar algo como o amanhecer, logo substituído pela raiva contida. — Porque o bebê é menina? Acha que sou tão chauvinista e superficial para me importar com isso?
Se ela suspeitou disso, mesmo por um segundo, a fúria dele varreu todas essas idéias tolas.
- Desculpe-me... Eu só pensei...
- Bem, pensou errado, Rin. Ela é minha. Minha filha. E eu a amarei pelo resto de minha vida. Raios, ela pode administrar as terras tão bem quanto qualquer pessoa, se quiser.
- Talvez, da próxima vez... — sugeriu Rin, para vê-lo ficar sombrio, os olhos âmbar cravados nela.
- Não — declarou Sesshomaru, decidido. — Nunca mais. Uma "próxima vez" está fora de questão.
Rin entendeu seu lugar dali para a frente. Sesshomaru podia ter sido forçado pelas circunstâncias a se casar com a mãe do filho dele,mas acabava ali. Nada mais de crianças... e por isso não havia mais motivo para continuar o casamento?
De repente, sentiu toda a alegria pelo nascimento da filha esvair-se do coração, deixando-a perdida e desolada. Voltou o rosto contra o travesseiro.
- Gostaria de dormir um pouco — declarou, e reteve os sentimentos até Sesshomaru sair.
Somente quando ouviu a porta se fechar, permitiu que as lágrimas amargas e quentes rolassem pelo rosto e caíssem sobre a fronha de algodão branca.
Imaginara estarem desenvolvendo algum sentimento, chegando a um tipo de entendimento, mas agora estivera apenas se enganando. Agora, tinha menos do antes, pois não estava mais carregando o filho dele. Agora, com o bebê vivendo e respirando sozinho, o marido transferira rapidamente a lealdade e a preocupação sem mesmo olhar para trás.
A ironia de todo o trauma do nascimento do bebê atingira-a de uma forma única. Só então, percebeu o quanto queria Sesshomaru em sua vida, o quanto precisava dele. Como poderia sobreviver com a migalhas que ele reservara-lhe para o futuro? Não obstante, no fundo, sabia que não havia a possibilidade de existir sem ele.
- Conseguiu dormir à tarde? — perguntou Sesshomaru, trazendo-a de volta ao presente.
Devido à tristeza dos pensamentos, percebeu que não conseguia sequer esboçar um sorriso.
- Sim, agradeça a sua mãe por ter ficado com Kagome por algumas horas. — Desta vez, sorriu sem esforço. — Praticamente tive que implorar para tê-la de volta. Izaoy tornou-se uma avó coruja.
- Bem, não diga que não lhe avisei. — Sasshomaru sentou-se na beirada da cama, muito atraente de camiseta preta e calça jeans. — Vai descer para jantar hoje?
- Não vejo por que não... e acho que consigo terminar a refeição sem dormir. Se tiver sorte, até vou vestir algo mais atraente.
- Duvido de que haja problema. — Sesshomaru riu. — Você não engordou muito enquanto estava grávida e, pelo que estou vendo, já voltou a sua forma maravilhosa de antes. Então, esta noite, sugiro que vista algo que combine com isto.
Sorridente, ele entregou-lhe uma caixa preta de joalheria.
Rin abriu a caixa e maravilhou-se diante de uma corrente de ouro com pendente de diamante em forma de coração.
- Oh, Sesshy...
Ela não conseguia falar, com medo de desatar em lágrimas. Sentia o coração batendo na garganta.
- Experimente.
Ele mantinha os olhos obscurecidos sobre ela. Rin hesitou ao vê-lo pegar a corrente e passa - lá ao redor de seu pescoço. Sentiu as argolas frias junto à pele e os dedos roçando a região delicada da nuca. Estremeceu de prazer.
- Pronto.
Sesshomaru ajeitou a peça e o delicado coração de diamante ficou pouco acima do vale suave entre os seios, adornado pela renda preta da camisola. Por um momento, ele olhou-a fixamente e ela teve a certeza de que ele percebia as batidas aceleradas de seu coração e a pulsação junto à pele.
- Gostou?
- Eu... adorei.
Rin gaguejou para não ceder à vontade de dizer-lhe que não precisava de corações de diamantes, que o que realmente queria era o coração dele, e saber que batia de amor por ela e pela filha.
- É só que... você me dá tanto. Sesshomaru encolheu os ombros.
- É fácil dar quando se tem muito.
- Mas eu quero lhe dar uma coisa... — Foi o mais perto que Rin chegou de dizer-lhe como se sentia.
- Oh, Rin, não percebe? Você me deu o maior presente que alguém pode desejar: a nossa filha.
Ele jamais saberia que aquelas palavras eram como outra flechada em seu coração já ferido, pois não fazia idéia do presente que ela gostaria de dar-lhe: o amor irrestrito pelo resto da vida. Apesar de tudo, sabia que não devia perder a esperança. Talvez agora, com ele mais gentil, houvesse a chance de um recomeço.
- Sesshy... quer me contar algo?
- Sobre o quê?
- Sobre Kagura...
Foi um erro. Soube assim que o viu franzir o cenho e lançar aquele olhar frio, destruindo toda a atmosfera pacífica de repente.
- Temos que conversar sobre ela agora? — protestou Sesshomaru, áspero. — Por quê?
Mas nesse instante, Kagome se mexeu no berço, balbuciou suave e estendeu um bracinho. Em segundos, abriu os olhos e, percebendo que estava com fome, começou a chorar. Imediatamente, Sesshomaru foi até ela, ergueu-a, murmurou palavras suaves de amor enquanto levava-a para Rin.
- Muito bem, princesa, não há nada com que se preocupar. Está vendo? Mamãe está bem aqui.
Sesshomaru voltou a sentar-se na beira da cama enquanto Rin desabotoava a frente da camisola e acomodava a cabecinha do bebe junto ao seio. Os protestos do bebê diminuíram e ela começou a sugar.
- Ora, não sabe como me sinto vendo-a assim... e saber que ela é minhal
De repente, era como se ela estivesse novamente no passado. Ouviu a própria voz contando a Sango que Sesshomaru nunca se estabeleceria, que ele nunca seria fiel a nenhuma mulher. Agora, nunca saberia se acertara as previsões sobre ele e Kagura, mas, de uma coisa podia ter certeza. Sesshomaru estabelecera-se por uma mulher finalmente. A filha não seria mais um caso de encantamento de seis semanas, e ela era a mãe de Kagome. Com certeza, aquilo tinha algum peso.
Kagome foi alimentada, trocada, mimada e devolvida ao berço. Rin pensava em tomar um banho antes de se trocar para o jantar quando o som de um carro em alta velocidade levou Sesshomaru à janela. O que ele viu transformou-o e, sem dizer nada, ele saiu do quarto.
- Sesshy?
Alerta e perturbada pelo comportamento dele, Rin saiu da cama e foi até a janela. Chegou a tempo de ver uma mulher elegante sair do carro esporte, os cabelos loiros brilhando sob o sol do entardecer. A compreensão foi como um golpe no coração
- Kagura! O que elaestaria fazendo ali?
Sem parar para pensar, Rin pegou o robe de seda que formava conjunto com a camisola, vestiu-o e amarrou o cinto. Descalça no alto da escada, viu Sesshomaru escancarar a porta da frente, incapaz de esperar a ex-noiva tocar a campainha.
- Sesshomaru! — A voz de Kagura ecoou pela mansão. -— Oh, Sesshomaru! É maravilhoso ver você!
- Kagura...
Rin não captou o humor de Sesshomaru naquela única palavra. Ele falava tão baixo que precisou esforçar-se para ouvir.
- Entre — convidou ele — Vamos para a sala.
- Senti tanto a sua falta! Deve saber que foi por isso que voltei...
Rin só conseguiu ouvir isso antes que passassem à sala, fechando a porta.
Por vários segundos, Rin hesitou no alto da escada. Não podia, convenceu-se. Não queria saber. Mas já estava no andar inferior antes que pudesse refletir novamente.
A espessura da porta abafava o som das vozes, mas, encostando o ouvido na madeira, captou o tom agudo de Kagura.
- Sesshomaru, eu me enganei tanto desistindo de você! Sei disso agora. Cometi um grave erro.
- Eu também, Kagura... O pior erro de minha vida... Sesshomaru mantinha o tom firme e forte. Tal convicção fez com que Rin se afastasse da porta, a dor redobrada. Ele admitira que lamentava o que acontecera, declarara que desistir de Kagura sem luta fora o pior erro de sua vida. E por quê? Porque, desolado, ele fora direto ao encontro dela, dormira com ela, engravidara-a e, devido ao seu forte senso de responsabilidade, vira-se na obrigação de casar-se com a mãe de seu filho. Como resultado, não era mais livre para se casar com a mulher que amava.
- Oh, Sesshy! — sussurrou Rin, e abraçou-se como se dessa forma pudesse juntar os pedaços de seu ser.
- Mas agora quero começar de novo — dizia Kagura. — Quero tentar reconstruir tudo com você.
A voz dela soava clara e mais incisiva do que antes. Logo, Rin entendeu por quê. Devia ter feito algum barulho, denunciando-se, pois a porta se abriu e Sesshomaru surgiu, o semblante impassível, os olhos obscurecidos e reservados.
- Eu... desculpe-me — gaguejou Rin. — Eu não devia...
- Rin... — O tom dele denunciava menos do que o semblante. Não havia emoção audível. — Entre. Isso tem a ver com você também. Quero que você ouça.
Não! Não tem a ver comigo, quis dizer. É seu problema e obviamente já tomou uma decisão. Não quero que me diga aqui e agora que cometeu o pior erro de sua vida ao se casar comigo. Não quero ouvir o quanto ama Kagura. Mas só conseguiu emitir um fraco "não".
- Rin... — Ele falava baixo mas firme, sem permitir argumentações. — Entre.
Ela sabia que não tinha opção senão obedecer. Sentindo as pernas trêmulas, entrou na sala e observou a mulher elegante parada junto à enorme janela panorâmica.
- Quem é você? — questionou Kagura.
Rin precisou juntar toda a força interior para erguer a cabeça e endireitar os ombros, determinada.
- Eu costumava ser Rin Nakigawa, mas agora sou Rin Taisho — declarou, com o máximo de dignidade. — Esposa de Sesshomaru.
Mas por quanto tempo?, pensou, e quase perdeu o autocontrole ao ouvir Kagura repetir, incrédula:
- Esposa dele?
- E mãe de minha filha — completou Sesshomaru. Kagura com certeza não esperava por aquilo, refletiu Rin, sentindo uma ponta de vitória ao vê-la erguer as sobrancelhas.
- Sua filha! Sesshomaru, ela enganou você... ela deve ter feito isso! Como pode saber se é sua?
- Eu sei.— Não havia margem para engano, a julgar pelo tom convicto de Sesshomaru. — Kagume é minha filha e significa mais para mim do que todo o mundo.
Enquanto ouvia Sesshomaru falar, algo forte e vital mudou o centro dos pensamentos de Rin. Entrara na sala sentindo-se perdida e desolada, crente em que o idílio do casamento com Sesshomaru estava acabado. Sabia, desesperada, que abrir mão dele para Kagura seria a forma de demonstrar-lhe o quanto o amava.
Agora, porém, encarando-o, vendo o brilho profundo em seus olhos, sentiu uma nova motivação. Instintivamente, tocou o coração de diamante junto ao pescoço, tateou o pingente e pareceu obter energia desse objeto. Vagamente, ouviu Sesshomaru declarar:
- Ela é uma lutadora, como a mãe.
- Nós somos a família de Sesshomaru agora — reforçou, corajosa.
- Ah, é? — Kagura era só despeito. — E quanto a Sesshomaru? Como elese sente com tudo isso? Ele a ama?
Kagura torceu o lábio, triunfante, ao ver a dor no semblante de Rin, ciente de ter tocado em um ponto delicado.
- E vocêo ama?
Era como se Rin sempre soubesse que um dia ficaria frente a frente com a outra mulher da vida de Sesshomaru. Não havia como esconder de Kagura seu verdadeiro sentimento por ele, mesmo que tentasse. Agora, poderia declarar tudo abertamente, pois estava escrito em seu rosto.
Kagura lançou-se como uma gata caçadora.
- Porque, se o ama, sabe que ele meescolheu primeiro. Ele queria se casar comigo muito antes de você surgir com sua armadilha de gravidez. Você o pegou em um momento vulnerável, Rin Taisho, e isso significa que é a segunda colocada. Mesmo que tenha a aliança no dedo, é só porque ele foi forçado a isso, porque ele não teve escolha.
Era estranho como, de repente, aquelas palavras pareciam ter perdido o poder. Talvez porque ela mesma já as considerara tantas vezes, o impacto parecia menor. Talvez tivesse se conscientizado ou, talvez, soubesse que não dependia só dela. Não prometera a si mesma que nunca deixaria seu filho crescer sem conhecer o pai, como ela mesma crescera? Não estava lutando apenas pela própria felicidade, mas pela de Sesshomaru, e pela da filha também. Aquilo fazia toda a diferença.
Interpretando o silêncio como concordância, Kagura pressionou:
- Então, se você realmente o ama, vai abrir mão. Vai deixá-lo livre para ficar com a mulher que realmente ama.
Se Sesshomaru pelo menos dissesse alguma coisa, desse alguma indicação do que estava pensando! Mas ele permanecia em silêncio, observando a cena, sem dar nenhuma indicação do que achava daquilo tudo.
Precisava pensar em Kagome, lembrou-se Rin, e ergueu o queixo desafiadora.
- Não pode estar mais enganada — declarou, fria e claramente. — Se amasse Sesshomaru, eu desejaria a felicidade dele acima de tudo... e ele jamais seria feliz ao seu lado. Você diz que o quer agora, mas por quanto tempo? Até outra proposta mais interessante surgir e você partir novamente? Deixando-o sem pensar duas vezes? Sabe o que lhe causou quando o deixou? Pelo menos, importou-se?
- Eu estou aqui agora...
- Oh, sim, está! Você aparece quando lhe convém, mas por acaso parou para avaliar o que a sua aparição poderia significar? Obviamente, você não se interessou em saber o que aconteceu desde que partiu com seu novo namorado. Não pensou um minuto sequer no que Sesshomaru estava passando! Se tivesse pensado, então saberia que ele estava casado, saberia sobre o nosso bebê. Apenas alguém que só pensa em si mesma apareceria para desagregar uma família, para arrancar Sesshomaru de sua filha!
- Não estou surpresa por querer se agarrar a ele! — desdenhou Kagura. — Afinal, ele é muito rico, vale milhões...
- Oh, ele vale muito mais... para mim, ao menos! Sentindo a hesitação da outra mulher, Rin ficou mais confiante.
- Ele é o pai de minha filha e, como tal, é inestimável. Ninguém poderá tomar seu lugar! Eu lhe digo uma coisa, entretanto: se no futuro Sesshomaru encontrar alguém com quem queira viver, eu jamais ficarei em seu caminho. Mas eleterá que me pedir!
Um leve movimento do homem a seu lado fez com que o encarasse, procurando uma resposta, sem obter nada. No semblante, havia o silêncio inabalável. Sua confiança arrefeceu.
E se ele pedisse para ela liberá-lo naquele momento? E se ele dissesse que queria ficar com Kagura. Apesar de suas palavras, seria capaz de aceitar a derrota? Podia lutar contra Kagura, mas jamais poderia opor-se ao próprio Sesshomaru.
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Oi povis! Desculpa a demora, mas tá aí o cap. V. Rin frente a frente com sua rival. E agora? O que será que o Sesshy vai fazer? Quem ele vai escolher? A mulher a qual ele escolheu, ou a que as circunstâncias lhe reservaram? Será que vcs adivinham.... Bem, eu já sei a resposra... rsrs.
Mais uma vez, obrigado pelas reviews.
Bjus.
