Capítulo 3
Não és

- Quem é ela?

A voz de Zero ressuou na cozinha silenciosa, fazendo Kaien parar de cortar os vegetais para o jantar e encarar o rapaz. Os olhos do director estavam levemente arregalados e ele tinha no rosto uma expressão de quem não estava a compreender nada do que lhe tinha sido perguntado.

- Não faças essa cara - rosnou Kiryu, entrando no cómodo e aproximando-se do outro homem. - Eu tenho a certeza que tu sabes quem ela é!

- Ela é estudante da Academia, eu tenho de saber quem ela é, Kiryu-kun - respondeu Kaien, voltando-se novamente para os seus vegetais. - Saito Akane, dezasseis anos, excelente aluna, está aqui com bolsa de estudo e-

- Tu sabes que não é a isso que eu me refiro - afirmou Zero, fixando o olhar gelado no director. - Ela conseguiu sentir-me! Nem o Ichiru me tinha sentido e ela percebeu perfeitamente que eu estava a aproximar-me!

- A sério? - indagou Cross, virando-se de frente para o rapaz.

- Vais me dizer quem ela é ou terei de descobrir de outra forma? - perguntou Kiryu, irritado.

- Eu já te disse quem ela é - respondeu Kaien, voltando-se, mais uma vez, para a mesa onde cortava os vegetais. - Não sei mais que isso.

Zero nada disse, apenas virou costas e saiu disparado da cozinha. Se Kaien não lhe iria dar respostas, ele iria arranjar forma de as ter, não importava como. Uma coisa era certa, aquela rapariga não era normal e ele iria descobrir o que a fazia diferente dos outros.

Passou por Yuuki a uma velocidade excessiva, ignorando a menina e desaparecendo no corredor escuro. Ela, por sua vez, entrou na cozinha de onde o amigo saíra, momentos antes, e encarou o pai adoptivo.

- O que se passa com Zero? - questionou, olhando sobre o ombro para a porta aberta.

- Ele diz que tem um jantar romântico e já está atrasado - respondeu Cross, abrindo um enorme sorriso no rosto.

- Quê?! - admirou-se ela, encarando o director.

- Posso te pedir um favor? - perguntou Kaien.

- Claro - disponibilizou-se a menina, ainda pensando na resposta anterior.

- Poderias pedir ao Touga Yagari que venha falar comigo, ao meu gabinete, depois de jantar? - perguntou Kaien, despejando os vegetais para dentro de uma panela. - Eu preciso de discutir com ele uma aula de amanhã.

- Claro - respondeu ela, virando costas e saindo da cozinha.

X X X

Na manhã seguinte, Saito parou quando estava prestes a entrar na sala de aula. Ichiru parou a seu lado, encarando-a, confuso. Ela estava a conversar animadamente até àquele momento. O que tinha acontecido para ela perder a expressão alegre do seu rosto e baixar os olhos verdes antes de entrar na sala?

- Saito... - chamou Kiryu, apoiando uma mão sobre um dos ombros da ruiva.

- O teu irmão está lá dentro - murmurou ela, ainda com o olhar baixo, apertando mais os livros que segurava nas mãos. - Eu pensava que ele era de outra turma.

- Ignora o Zero - disse-lhe Ichiru, colocando-se em frente dela e levantando-lhe o rosto com a ponta dos dedos. - Eu sei que é difícil, mas se o fizeres-

- Eu não posso ignorá-lo - afirmou Akane, encarando o amigo. - Eu não consigo ignorá-lo.

- Ouve-

- Não vou à aula - declarou, virando costas e afastando-se da sala.

- Como não vais?! Saito! - chamou Ichiru, caminhando atrás dela e segurando-a pelo braço. - Tu não podes deixar de ir às aulas por casa do meu irmão. Não podes prejudicar-te por causa dele!

- É uma aula - comentou ela. - E parece que tu estás interessado em que eu vá, ou não te irias preocupar com isso.

- Não é verdade - disse ele.

- Estás a mentir, Kiryu-kun - constatou ela, sorrindo levemente. - É fantástico como nós nos conhecemos há tão pouco tempo e eu já te conheço tão bem. Porque queres que eu vá à aula?

- Saito...

- Responde-me.

- Zero não é o único nesta academia - sussurrou Ichiru, sem perceber o motivo porque lhe estava a contar aquilo. - Há mais como ele, muitos mais.

- Demónios... - concluiu Akane, levando uma mão à boca e arregalando os olhos. - Para onde vim eu...?

- Tu tens de te habituar a eles, Saito! - vociferou o rapaz, segurando o rosto da menina. - Tu... ouve, a tua vida mudou no preciso momento em que chegaste a esta academia!

- Os outros não os sentem? - indagou ela, assustada, olhando fixamente para o amigo. - Porque é que os outros não os sentem? Porque é que... tu consegues senti-los?

Ichiru respirou fundo pesadamente, desviando o olhar do da ruiva, afastando-se ligeiramente e encostando-se à parede próxima. Ela era astuta, demasiado astuta... Ela iria perceber as coisas muito antes do que ele previra. Tinha de fazer alguma coisa!

- Sinto, mas numa intensidade muito inferior à tua e nem todas as vezes - confessou ele, cruzando os braços sobre o peito. - Quando tu sentiste Zero, naquela noite, eu não tinha percebido que ele estava a aproximar-se até ele estar quase a meu lado.

- Porque é que nós os sentimos e os outros não? - interrogou Akane, colocando-se de frente para Kiryu. - O que nos torna diferente das outras pessoas?

- Eu não te posso responder a isso... - murmurou Ichiru, sem encarar a menina.

- Kiryu!

- Desculpa, mas não posso! - exclamou ele, descruzando os braços e segurando-a pelo ombros. - Primeiro tu tens de perceber... tens de saber algo mais, só depois te posso contar.

- Então conta-me - pediu Saito, segurando com força o braço do rapaz. - Eu não posso continuar com este medo irracional! Eu preciso de saber, preciso de compreender.

- Eu prometi-te que te contava, disse-te que irias descobrir, mas ainda não. Ainda é cedo - afirmou ele, apoiando a mão sobre a dela que se encontrava no seu braço.

- Sabes o que é não conseguir dormir de noite porque tens medo? - indagou ela, num fio de voz, com os olhos baixos. - Teres medo de algo que existe na noite, mas que tu não fazes ideia do que é?

- Saito...

- Eu não quero ter medo, Ichiru-kun! - afirmou ela, apoiando a cabeça no peito dele, apertando com mais força a mão sobre o seu braço. - Eu não quero.... sentir-me um criança pequena com medo do escuro.

- Eh, vocês os dois! - a voz alta do representante de turma ecoou pelo corredor, interrompendo a conversa entre os dois amigos. - A aula já começou há um bom bocado, porque estão aqui fora?

- Nós não ouvimos o toque - mentiu rapidamente Ichiru, encarando o rapaz. - Nós vamos já!

O representante de turma afastou-se, deixando os dois amigos para trás. Saito ainda estava com o rosto apoiado no peito de Kiryu, a mão fortemente fechada sobre o braço dele. Ichiru respirou fundo novamente, passando os braços em volta da menina, deixando a sua testa encostar-se nos cabelos vermelhos dela.

- Hoje à noite - murmurou, simplesmente, antes de deixar um leve beijo na testa de Saito.

X X X

- Zero! - chamou Yuuki, correndo atrás do rapaz. - Zero, espera!

- O que foi? - perguntou ele, parando a meio do corredor e encarando a menina.

- Onde vais? Temos aula a seguir e depois é a hora da troca de Classes - disse Cross, parando perto do amigo.

- Eu tenho um assunto a resolver - respondeu, simplesmente, retomando o seu caminho.

- O que se passa contigo? - perguntou a menina, ainda parada a meio do corredor. - Tu estás estranho ultimamente...

- Não é nada com que tenhas de te preocupar - afirmou em voz baixa.

- Zero! - chamou ela, novamente, vendo o amigo parar e voltar a encará-la.

- Não tens de te preocupar, Yuuki - murmurou ele. - Eu não quero que te preocupes comigo.

- E como eu não hei-de me preocupar? - questionou Cross, aproximando-se dele. - Desapareces por mais de uma semana e quando regressas ages de forma estranha. Eu preocupo-me, mesmo que não queira.

Apoiou a mão delicada sobre o braço de Zero, agarrando o casaco, num acto mudo de preocupação e amizade. Kiryu olhou para ela, passando os dedos pelos fios de cabelo castanho que lhe caíam sobre o rosto e afastando-os. Suspirou lentamente, encarando a menina e levantando-lhe o olhar.

- Eu estou bem - afirmou, um fio de voz quase inaudível. - Eu é que me devo preocupar contigo e não o contrário.

- Mas-

- Por favor - pediu ele, acariciando ao de leve o rosto da menina, afastando-se em seguida. - Eu vou estar presente na troca de Classes.

Yuuki ficou a ver o rapaz afastar-se. Não gostava que Zero agisse assim, mas o que poderia fazer para o evitar? Virou costas e seguiu o seu caminho em direcção à aula que iria ter. Já estava atrasada e sabia perfeitamente que o professor iria implicar com ela por chegar tarde.

X X X

Detestava quando tinha dúvidas sobre o que quer que fosse. Detestava sentir que alguma coisa estava errada e não saber exactamente o quê. E, acima de tudo, detestava quando lhe tentavam esconder coisas. Ele era inteligente o suficiente para perceber quando lhe mentiam, quando alguma coisa não encaixava no resto ou quando havia distorções no rumo dos acontecimentos. Aquela rapariga já se tornara uma obsessão que Zero apenas iria superar quando, finalmente, soubesse quem ela era.

E, se o facto dela sentir vampiros não bastasse, Zero tinha a estranha sensação que já a vira antes. Os cabelos cor de sangue e os olhos verde-esmeralda estava gravados algures entre as suas mais remotas memórias. Mas onde? Quanto a tinha visto? E porquê? Não parava de ter breves deja vu's sempre que a via. E isso irritava-o.

Entrou na biblioteca sem fazer qualquer ruído. Olhou em volta, para o cómodo silencioso, procurando o objecto de toda a sua obsessão. Sabia que ela estava ali, podia senti-la, mas onde se encontrava a menina de cabelos fogo no meio de tantos corredores de livros? Caminhou astutamente pela biblioteca, ouvindo as vozes sussurradas dos outros estudantes e procurando sentir a ruiva. Até que a viu, de pé, em frente a uma estante de livros sobre biologia, olhando para cima e procurando um título com o dedo fino nas lombadas dos livros.

Ela parecia tão delicada, nas pontas dos pés e plenamente concentrada na sua pesquisa, que Zero sentiu-se levemente desnorteado. Como é que aquela rapariga era a mesma que o chamara de demónio, noites antes? Saito começou a tirar um livro da estante e, sem querer, deixou cair o que se encontrava ao lado. Baixou-se rapidamente, uma velocidade que fez Kiryu prestar mais atenção nela, e, quando estava prestes a apanhar o livro, os seus movimentos congelaram.

Ela tinha, finalmente, percebido a presença dele ali. Zero aproximou-se, num gesto que não era nada típico dele, chegando perto de Akane, baixando-se ao nível dela, pegando no livro que ela ainda não tinha apanhado e colocando-o sobre a mão estática da menina. Ela levantou o rosto devagar, fixando os olhos verdes nos prateados do rapaz à sua frente, engolindo em seco em seguida.

- Quem, exactamente, és tu, Saito Akane? - perguntou Kiryu em voz baixa, ainda segurando o livro que ela havia deixado cair.

Akane ficou com a expressão mais séria, ainda sem se mexer, sem tirar as íris do olhos de Zero. Inspirou demoradamente e pegou no livro que o rapaz lhe estendia, levantando-se.

- O mesmo te pergunto eu, Kiryu Zero - respondeu, também em voz baixa, prendendo o livro contra o peito.

- Um demónio, não foi o que disseste na outra noite? - indagou ele, levantando-se também, mantendo o olhar fixo na face pálida da menina. - Eu sou apenas um demónio da noite, mas tu... tu consegues sentir-me quando mais ninguém o faz.

- Eu não tenho culpa disso - afirmou ela, mantendo a voz mais firme e o olhar mais intenso. - Não tenho qualquer ideia porque motivo consigo sentir-te, mas faço-o e, sinceramente, preferia que isso não acontecesse.

- Se calhar és como eu, por isso é que me sentes - sugeriu Zero, vendo a menina arregalar os olhos perante as suas palavras. - Os demónios sentem-se mutuamente, era a explicação mais óbvia para o teu caso.

- Eu não sou um monstro! - rosnou ela, mostrando-se furiosa perante a frase dele, preparando-se para virar costas e sair dali.

- Eu também não - declarou, segurando-lhe o braço e impedindo-a de se virar.

Saito sentiu um arrepio gelado correr-lhe todo o corpo no instante que a mão se Zero tocou no seu braço. Ele tinha uma aura fria, tal e qual como aquela que ela tinha sentindo da sala onde os estudantes da Night Class se encontravam, na noite em que chegara à Academia. Respirou fundo, controlando o leve tremor que sentia nas pernas e tentando desfazer o nó que se formara na sua garganta. Como podia ser possível que ele rapaz fosse o irmão gémeo de Ichiru, se eles eram tão abruptamente diferentes?

Passou a mão livre pelo rosto, afastando os cabelos da frente dos olhos e fixando, mais uma vez, o olhar no de Zero. As íris prata que nada diziam e tudo revelavam, mostrando a diferença assustadora que existia entre os dois gémeos. Ichiru, que ela conhecia melhor do que pensava ser possível em tão pouco tempo e... e ele, Zero, como se fosse a sombra, como se fosse o lado não compreendido, escondido por detrás de uma máscara de demónio tão frágil que apenas os mais cegos não conseguiriam ver. E ela não vira, ofuscada pelo medo e pelo frio, ela fora cega até àquele preciso momento.

Piscou os olhos suavemente, deixando-se levar por um estranho impulso que comandava o seu corpo inconscientemente. Levantou o braço livre, deixando que a mão alva e delicada pousasse no rosto de Zero, afastando-lhe os cabelos cinzas da frente dos olhos. Kiryu não me moveu, não teve qualquer reacção ao gesto súbito da ruiva. Apenas ficou como estava, sentindo a pele sedosa dela na sua cara, tendo a sua mente invadida por mais um deja vu.

- Porque te escondes por detrás dessa máscara de monstro? - perguntou Saito, a voz tornada um sussurro, sem que a palma da sua mão deixasse o rosto de Zero. - Porque não deixas que te vejam exactamente como és?

- O que raios queres tu dizer? - indagou ele, engolindo em seco e não percebendo o quão subitamente próximos se encontravam.

- Tu pareces um demónio e não posso negar que o sejas - murmurou Akane, esboçando um sorriso nos lábios. - Mas não és um monstro. E, por algum motivo, deixas que essa escuridão existente em ti esconda esse teu lado. Não devias.

- Mas-

- Tu não me assustas mais, Zero-Kun - disse, simplesmente, soltando o braço da mão de Zero e afastando-se dele sem lhe dar hipótese de responder.

A mão dela afastou-se da face de Zero, assim como todo o seu corpo de afastou dele, deixando o corredor de livros e desaparecendo na biblioteca. Kiryu continuava sem reacção, o olhar fixo no ponto onde as íris dela haviam estado, momentos antes. O que raios significara aquilo? Levantou a mão, levando-a ao rosto, sentindo a sua pele fria no local onde ela lhe tocara. Tão irreal, tão... não-humana!

Ele fora até ali para tentar resolver o que considerava um problema, uma estranha obsessão, e o que conseguira foi, simplesmente, ficar totalmente paralisado com um gesto e com palavras que nunca pensara poder ouvir. Nunca vindo dela.

X X X

- Entre!

A voz de Kaien ressoou por todo o escritório logo após terem batido à porta. O director encontrava-se sentado em frente à sua secretária e tinha entre as mãos uma caneca de chá fervente quando Touga entrou no cómodo. O hunter fechou a porta atrás de si, aproximando-se da secretária de Cross, sempre com o seu ar de poucos amigos no rosto, fixando o olhar no director da Academia.

- Fiz a pesquisa que me pediste - informou Yagari, atirando um pequeno monte de folhas para a frente de Kaien. - Não há nada que confirme a tua suspeita.

- Imaginei... - confessou Cross, bebendo um gole do seu chá. - Eles não haveriam de deixar qualquer pista para quem quer que se interessasse sobre o passado de Saito-San.

- Zero tem razão, Kaien, aquela rapariga não é uma humana normal - afirmou o hunter.

- Não, ela não é - suspirou o director. - Eu tenho uma forte suspeita sobre a sua identidade, mas sem provas eu não posso confirmar nada.

- Tu achas mesmo que ela seria... - começou Touga, hesitando por breves instantes. - Porque Midori haveria de a esconder?

- Talvez pensasse que Saito-san não era digna - comentou Cross, bebendo mais um pouco de chá. - Sem qualquer elo de ligação entre as duas nunca poderemos saber, poderemos?

Yagari sentou-se na cadeira em frente à secretária de Kaien. Tirou o chapéu e voltou a olhar para as folhas cheias de informação que ele tinha recolhido. Todas inúteis. Olhou pela janela, onde o pôr-do-sol lhe anunciava que estava quase na hora da aula da Night Class.

- Existe uma maneira...

- Ela não sabe de nada - cortou Cross, percebendo a linha de raciocínio do hunter. - Se soubesse, teria reagido de forma diferente ao ataque.

- Sim - confirmou Yagari, olhando novamente para as folhas, directamente para a fotografia de Saito. - Se ela fosse como Midori, nem sequer se teria deixado atacar.

- Se ela fosse como Midori - repetiu Kaien, os olhos fixos no do amigo. - De certo que não estava nesta Academia cheia de vampiros.


N.A.: Mimimimimimii cap 3 postado e eu tive apenas duas reviews no cap 2!!! Fiquei triste, gente!

Ok, mini férias de natal, vou tentar escrever o próximo cap hoje ^^
Próximo cap para breve!

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Just