Capítulo 4
Vampiro
Olhava para a carta que tinha nas mãos sem realmente a ver. A caligrafia rápida e inclinada trazia notícias mais negras que a tinta com que haviam sido escritas. Notícias que ele não esperava receber. Expirou profundamente, não permitindo que a aflição que começava a tomar-lhe conta da alma fosse visível no corpo. Tudo o que não precisava naquele momento era que as pessoas que o rodeavam se tornassem curiosas. Teria de ser discreto e não dar nas vistas, ninguém poderia saber do conteúdo daquela carta. Ninguém poderia, sequer, suspeitar.
Levantou-se da mesa onde se encontrava, em silêncio, caminhando por entre as pessoas ali existentes, tentando chegar rapidamente ao elevador. Bateu duas vezes no botão, resmungando com a demora das portas a abrir. Entrou na cabine, carregando no botão que o levaria até ao penúltimo andar do edifício. Assim que as portas se fecharam e ele se encontrou sozinho no elevador, voltou a olhar para a carta dobrada que trazia na mão.
- Que seja apenas um pesadelo - murmurou para si mesmo, esperando chegar ao andar desejado para poder sair da cabine e correr pelo corredor vazio.
Parou em frente a uma porta escura, abrindo-a de rompante apenas para encontrar o cómodo sem ninguém. Bateu com a porta e correu para a seguinte, abrindo-a da mesma forma e obtendo o mesmo resultado. Voltou a correr, desta vez para o corredor do lado, passando por mais portas fechadas, mas sabendo que não iria encontrar ali quem procurava. Entrou numa terceira sala, arfando de tanto correr, olhando em volta e, mais uma vez, não encontrando quem precisava.
- Ela está lá em cima - informou uma mulher já de certa idade, sem desviar a atenção do livro que tinha entre os braços.
- Obrigado - agradeceu, quase sem fôlego, saindo disparado da sala.
Subiu as escadas, de dois em dois degraus, que lhe daria acesso ao andar superior. Precisava encontrá-la o mais rápido possível. Voltou a deparar-se com um corredor vazio, semelhante ao anterior, repleto de portas fechadas. Aquele local mais parecia um labirinto. Abriu a primeira porta que lhe apareceu à frente, encontrando exactamente o mesmo que encontrara no andar de baixo. Dirigiu-se à segunda e, quando estava prestes a segurar a maçaneta da porta, percebeu um ruído atrás de si.
- Jin! - chamou uma voz baixa e quase sussurrada.
O homem virou-se, cansado e quase em pânico, arregalando os olhos dourados ao ver quem procurava. Nada disse, não conseguia mesmo que tentasse. Apenas lhe estendeu a carta que trazia na mão e ficou a olhar para a face dela.
A mulher lia as linhas negras com uma rapidez incrível, passando os olhos ferinos de um lado para o outro da folha, sem demonstrar qualquer tipo de alteração da expressão do seu rosto. Terminou a carta e fixou o homem que ainda recuperava o fôlego. Entregou-lhe novamente a folha de papel e começou a andar pelo corredor, como se tivesse ignorado o que acabara de ler e seguisse com a sua rotina.
- Não dizes nada? - interrogou Jin, abismado com a falta de reacção da mulher.
- Não há nada para dizer - respondeu ela, continuando o seu caminho.
- Como não há nada para dizer? - admirou-se ele, seguindo-a pelo corredor fora. - Tu leste exactamente o que está aqui escrito?
- Eu ainda sei ler, Jin - comentou ela, simplesmente, entrando para uma sala e deixando a porta aberta para que o homem a pudesse seguir.
- Como podes estar tão calma? - rosnou ele, batendo com o punho fechado na secretária onde ela se sentara. - O que pensas em fazer?
- Nada - respondeu, cruzando as pernas sobre a mesa e deixando que um sorriso perverso rasgasse os lábios vermelhos. - Apenas o nosso trabalho quando for solicitado!
- Midori! - exclamou Jin, batendo com ambas as mãos na mesa. - Nós não podemos-
- O que queres fazer? - indagou ela. - Ir até lá? Falar com Kaien-sama para ele te dizer o que é inevitável? Enfrentar Kuran Kaname em busca de respostas ou de opções que não existem?
- Não... - sussurrou, baixando o olhar. - Mas não quero ficar sem fazer nada!
- Não há nada que possas fazer - afirmou Midori, batendo com as unhas vermelhas no braço do cadeirão onde estava sentada. - Não há nada que nós possamos fazer.
- Mas-
- O impensável aconteceu - disse ela, apoiando a têmpora esquerda sobre os dedos da outra mão. - Agora só nos resta ver o acontece... qual míseros espectadores perante o desenrolar de uma novela.
X X X
Os gritos das alunas da Day Class pareciam mais altos e mais estridentes que o habitual. Yuuki andava de um lado para o outro, tentando, como sempre, conter as colegas para que o estudantes da Night Class pudessem passar para o edifício onde teriam as suas aulas. Cross olhava em volta, tentando chamar a atenção de Zero, que estava completamente perdido nos seus pensamentos, afastado da posição onde deveria estar. Os portões que davam para a zona do dormitório da Lua abriram-se lentamente e os estudantes da turma da noite começaram a passar por eles. Com isto, o nível dos gritos histéricos das meninas ali presentes aumentou consideravelmente e Yuuki sentiu ainda mais dificuldade em conseguir contê-las.
Por entre os vampiros da Night Classe, Kaname observava a monitora, estando atento não só ao ar abatido dela, como à expressão preocupada. Aproximou-se, parando perto dela e fazendo as restantes raparigas gritarem loucamente.
- Yuuki - chamou ele, docemente como sempre fazia.
- Kaname-senpai - exclamou a menina, virando-se para encarar Kuran.
- O que se passa contigo? - perguntou Kaname. - Pareces preocupada.
- Ah- não é nada - mentiu ela, sorrindo forçadamente.
- Yuuki - repetiu o vampiro, olhando-a pesarosamente.
A menina baixou o olhar, sabendo que não conseguiria mentir por muito mais tempo. Mordeu o lábio inferior e cerrou os punhos. Como dizer a Kaname que era Zero que a preocupava daquela maneira? Como explicar-lhe que ela sentia que o rapaz se tinha afastado mais que o normal nos últimos dias e que, especialmente naquele momento, ele parecia totalmente atordoado, coisa que a deixava ainda mais preocupada?
- Kaname - a voz de Takuma surgiu e, de certa forma, Yuuki sentiu-se aliviada por isso. - Vamos atrasar-nos.
Ela não levantou os olhos do chão enquanto o sentia afastar-se. Não queria mentir a Kaname, mas era complicado... bastante complicado. Com a passagem dos estudantes da Night Class, a multidão começou a dispersar. Assim que a confusão desapareceu, Cross voltou a olhar para o local onde Zero estivera, mas este havia desaparecido. O que se passaria com ele? Porque estaria com aquela expressão no rosto? Porque estaria apático ao que lhe rodeava? O que lhe teria acontecido desde a última vez que ela o vira, horas antes, até àquele momento?
X X X
- Depois de jantar? - indagou, cruzando os braços e inclinando-se para trás na cadeira. - Porque não agora?
- Deixa de ser chata, Saito - reclamou Ichiru, apoiando os cotovelos na mesa e apoiando a cabeça sobre a mão. - É melhor depois de jantar, assim há menos gente por aí espalhada.
- Qual é o problema de haver gente? - perguntou a ruiva, bocejando. - Eu estou cansada e queria despachar já isto!
- Podemos adiar-
- Não! - rosnou ela, sentando-se direita e batendo com as mãos na mesa. - Eu tenho de saber e não passa de hoje! Se tu não me contares, eu arranjo quem me conte!
- Ah sim? - suspirou Kiryu, com um sorriso ladino no rosto. - E a quem pedirias? Ao director da Academia?
- Ao teu irmão - respondeu ela, sorrindo maldosamente, vendo o rapaz à sua frente perder a expressão satisfeita. - De certo que ele me contaria!
- E estarias disposta a enfrentar o que tu mesma chamas de demónio para obteres o que queres? - questionou ele, o nível da sua voz bastante mais baixo.
- Eu estive com Zero-kun na biblioteca hoje à tarde - confessou ela, voltando a inclinar-se na cadeira e colocando os braços atrás da cabeça.
- Zero-kun? - repetiu Kiryu, olhando-a quase incrédulo. - Ficaram muito amigos, hoje!
- Eu apenas olhei para ele - disse Saito, fechando os olhos por uns momentos. - Não para aquela expressão triste que ele tem, nem para o demónio, mas para o que ele realmente é.
- E o que viste? - perguntou, revirando os olhos.
- Que ele não é assim tão diferente de ti, Ichiru-Kun - explicou, reabrindo os olhos e encarando-o. - Que, no fundo, vocês são bastante parecidos.
- Ok, chega! - exclamou Kiryu, levantando-se repentinamente e começando a afastar-se.
- Hey, o que foi? - interrogou ela, levantando-se também e seguindo o amigo. - O que se passa?
- Eu sou parecido com Zero? - repetiu ele, virando-se de frente para a menina. - Eu não tenho nada a ver com ele!
- Ichiru-kun! - chamou Akane, ao ver o rapaz voltar a virar-se para se afastar. - Ichiru-kun, ouve!
- Eu não sou como ele! - rosnou Kiryu, furioso, abrindo a porta e saindo da sala. - Eu nunca mais quero ser como ele! Ele é um monstro!
Saito parou de seguir o amigo. Como é que ele podia afirmar aquilo? Logo ele que deveria conhecer Zero melhor que ninguém. Porque estava a reagir daquela maneira? O que raios teria acontecido no passado deles para Ichiru detestar o irmão àquele ponto? O que é que ele ainda não lhe tinha contado?
- Eu não tenho culpa do que possa ter acontecido, Ichiru-kun - disse ela, baixando o olhar, parada a meio do corredor. - Eu apenas me limito a ver o que está presente em vocês, não posso ver o passado.
Kiryu parou, permanecendo de costas para ela, ainda irritado, mas plenamente consciente de que ela não tinha culpa de nada. Balançou levemente a cabeça, ouvindo o gizo que trazia pendurado na fita que lhe prendia os cabelos prateados. Fechou os olhos, revendo na sua mente momentos passados, recordando os anos ao lado da vampira que amava e que Zero lhe tinha tirado.
- Desculpa - murmurou Akane, virando costas e voltando para dentro da sala, batendo com a porta e deixando o rapaz sozinho no corredor.
Ichiru ficou em silêncio, envolto na escuridão apenas dispersa pelo luar que entrava pelas janelas. Tinha as mãos fechadas e os olhos fixavam um ponto infinito, algures perto do chão. Agira errado com Saito e sabia perfeitamente disso. Ela não tinha culpa do passado obscuro dele e do irmão. Não tinha culpa das escolhas de Zero e não tinha culpa que ele tivesse morto Shizuka-sama. Ela não poderia compreender, mas isso era porque ele não lhe tinha explicado.
Bufou, consciente de que era culpa sua aquela discussão sem fundamento e, pela primeira vez, ele não queria deixar as coisas assim. A amizade que desenvolvera com aquela rapariga tinha surgido num momento em que ele estava debilitado e, de certa forma, ela ajudara-o, mesmo não sabendo disso. Precisava pedir-lhe desculpa pela sua atitude infantil, mesmo que isso lhe ferisse o orgulho.
Deu um passo atrás, virando-se e retornando pelo caminho que fizera, momentos antes. Parou em frente à porta que Akane fechara fortemente e olhou para a madeira escura. Respirou fundo, colocando a mão no puxador e abrindo-a devagar. Percorreu a sala com os olhos e percebeu que estava vazia. Entrou no cómodo, achando estranho o facto da menina ter desaparecido. Atravessou a sala, caminhando para o hall de entrada do dormitório do Sol e, subitamente, congelou.
A porta principal estava aberta e, ou ele muito se enganava, ou aquilo significava o que ele não queria que significasse.
X X X
Não devia ter saído sozinha. Não devia, não devia, não devia! Mas ela não podia esperar mais. Não podia deixar que aquele medo infantil continuasse por mais tempo. Estava aterrorizada, mas tinha força de vontade suficiente para continuar em frente. Tinha de continuar. Tinha de vencer o medo ou seria, para sempre, sua escrava. A floresta estava escura, mesmo com o luar a incidir sobre ela, revelando constantes sombras e reproduzindo estranhos ruídos. Simplesmente assustador. Akane respirou fundo, seguindo em frente, delicadamente para não fazer barulho, de forma a entrar nos domínios da zona onde a Night Class estava a ter aulas.
- Vamos, Akane, tu estás habituada a florestas escuras e cenários assustadores - afirmou para si mesma, continuando a andar. - Tu não tens de ter medo disto!
Respirou fundo e percebeu que, do nada, o silêncio estava instalado à sua volta. As árvores não oscilavam ao vento fraco, as folhas não roçavam umas nas outras, os típicos barulhos de animais nocturnos tinham desaparecido. Não se ouvia nada para além do estranho e anormal silêncio. Rigorosamente nada.
Engoliu em seco, mordendo o lábio inferior e dando mais dois passos. Sentira duas presenças e, de certa forma, queria encontrá-las. Queria ir de encontro ao seu medo, enfrentá-lo e ultrapassá-lo. Ela precisava de o fazer. Continuou a andar, começando a escutar as vozes dos dois demónios que havia sentido. Falavam baixo e riam constantemente, mostrando-se animados. Estava quase a vê-los, bastava mais uns passos e poderia ficar a observá-los, tentando desvendar o seu segredo, tentando perceber o que eles tinham que tanto a aterrorizava, o que os tornava diferentes dos humanos normais.
Mas, subitamente, uma mão tapou-lhe a boca, evitando que um guincho saísse pelos seus lábios, enquanto alguém a agarrava pela cintura e puxava para trás de uns arbustos. O coração disparou a uma velocidade incrível, despertando um sentimento de pânico e desespero que ela, estranhamente, percebeu ser lhe familiar. Saito, cravou as unhas na mão que lhe segurava a barriga, preparando-se para se detaber, tentar soltar-se e fugir, quando viu quem a tinha agarrado.
- Tu és louca? - rosnou Ichiru, num fio de voz, de olhos arregalados. - Vir para aqui sozinha, sem saber o que eles são e o que te podem fazer, o que te vai na cabeça, Akane?
- Ichiru - suspirou ela, abraçando fortemente o amigo.
- Vamos embora antes que alguém da Night Class ou um dos monitores dê por nós - ordenou Kiryu, levantando-se devagar e puxando a menina consigo.
- Não! - negou ela, levantando-se também, mas afastando-se dele. - Eu já os vi, apenas tenho de compreender-
- Eu conto-te! - cortou ele, segurando-lhe o pulso. - Eu conto-te tudo e respondo ao que quiseres, mas, por favor, vamos embora!
- O que não queres que eu veja? - indagou ela, soltando o pulso da mão dele. - O que-
- Nada, Akane, nada! - exclamou o rapaz, aproximando-se dela. - Por favor, vamo-
- Estás a mentir-me - acusou num sussurro, virando costas e seguindo em frente, na direcção dos dois demónios.
- Akane, pára, por favor - implorou Ichiru, seguinda atrás dela.
Oculta pelas árvores que se mantinham no caminha, Saito parou, estática, olhando para o casal de estudantes da Night Class que se encontravam alguns metros à frente. Nenhum dos dois parecia ter percebido a presença da ruiva ou de Kiryu e ambos sorriam um para o outro. Ichiru parou ao lado da menina, olhando para ela e, quando se preparava para lhe dizer algo, viu a estranha expressão que ela tinha no rosto. O olhar arregalado e baço, a boca semi-aberta, as mãos fechadas e a pele toda arrepiada. Akane olhava para os dois alunos e, subitamente, estava a rever toda aquela cena, como num filme passado em câmara lenta, apenas com outros protagonistas.
Ele segurava a rapariga nos braços, sorrindo-lhe sedutoramente, afastando-lhe as mechas de cabelo loiro da frente dos olhos, aproximando os lábios dos dela, mas parando antes de a beijar. Sorriu novamente, passando a ponta da língua sobre a pele do pescoço da rapariga, saboreando a sua essência e, do nada, cravando as presas brancas no pescoço dela, permitindo que o sangue saísse e contaminasse a noite com o seu aroma. O predador e a vítima.
Saito exasperou, levando uma mão trémula ao peito, apoiando-a sobre o pendente que trazia no fio que sempre usava, sentindo que toda aquela cena era apenas um enorme deja vu e não conseguindo controlar o pânico que tomava posse dela. Ela vira aquela cena de um ângulo completamente diferente, ela presenciara tudo aquilo, ela vivera aquele gesto, sentira aqueles sentimentos, estivera naquela posição. E estivera como presa.
A minha doce ilusão...
Um grito ecoou na noite silenciosa, alto, desesperado. Akane levou as mãos à cabeça, tentando suprimir as memórias que lhe surgiam, uma após a outra, uma mais dolorosa que a outra, sem dó nem piedade, mostrando-lhe uma realidade que ela não queria ver, não queria realmente lembrar. A imagem de alguém a segurá-la da mesma maneira que aquele rapaz segurou a sua presa, a sensação de estar perdida, esperando uma morte iminente, o frio dos lábios gelados e a dor profunda da pele a ser perfurada. E o sangue... a sonoridade do sangue a escapar do seu corpo, a ser sugado das suas veias, directamente para a boca do seu predador. Eram memórias negras que, naquele momento, ela desejou não ter libertado.
- Akane... - chamou Ichiru, tentando aproximar-se, mas receando que ela tivesse uma reacção ainda pior.
Ele não sabia o que lhe estava a acontecer. Esperava que ela reagisse perante a verdade, mas não entendia o que se estava a passar. Não sabia o que estava a acontecer na mente da amiga.
Ela ignorou a voz de Kiryu e apenas sacudiu os cabelos rubros, fechando os olhos com força, tapando-os com as mãos trémulas. Não queria ver, não queria aceitar, simplesmente não queria. Sufocou um soluço e tentou conter, em vão, as lágrimas que já lhe caíam pela face de porcelana. Segurando uma dor que estava a consumi-la por dentro, tentando manter-se lúcida quando a sua mente implorava pelo contrário. Perder a razão naquele momento seria mais fácil, seria mais simples de lidar com a dor, seria cobarde.
Arregalou os olhos ao sentir mais demónios a aproximarem-se, rápido demais, curiosos demais. Engoliu em seco, novamente, levando uma mão à garganta, pressionando com os dedos sobre a zona acima da clavícula esquerda, local onde ela tinha sido mordida, abanando levemente a cabeça para os lados e dando um passo receoso atrás.
- Akane! - chamou Ichiru, novamente, tocando-lhe ao de leve no braço.
Mas o pânico era demasiado para ela ser cem por cento racional e Saito apenas afastou-se do amigo, sem se atrever a encará-lo, correndo para longe dali, para fora da floresta, tentando desesperadamente deixar aquelas imagens e sensações para trás. Não sentia o chão sobre os pés, não sentia o frio no rosto, não sentia nada para além daquela imensa dor e do aperto que lhe tomava o coração. Correu em direcção ao dormitório do Sol, deixando a noite para trás, entrando pela porta que Ichiru deixara encostada. Atravessou a sala onde estivera pouco antes, indo quase encontro a um dos sofás por não ver na perfeição o caminho que seguia. Não importava ver, não importava por onde ia, apenas importava que chegasse ao seu quarto sem que os motivos do seu medo a apanhassem.
Começou a subir as escadas o mais rápido que conseguia. Sabia que o grito que estava preso na sua garganta não tardaria a soltar-se e o medo que se apossara dela estava cada vez mais poderoso. Apenas queria fugir para o seu abrigo, para o seu porto seguro. Embateu com o ombro em alguém, mas não parou, não se virou para ver quem era, nem sequer perguntou se essa pessoa estava bem. Não conseguiria, mesmo que tentasse. Tinha a mente num perfeito redemoinho, imagens, lembranças, pensamentos incoerentes e sensações intensas. Ela apenas queria trancar-se no quarto, fechar-se daquele mundo sombrio.
Conseguiu, finalmente, chegar no seu dormitório, batendo com a porta rudemente, atirando-se para cima da cama, aninhando-se entre as almofadas e afundando o rosto num travesseiro, apertando-o fortemente contra o corpo trémulo e deixando que o grito preso na sua garganta se soltásse. Gritou até lhe faltar o ar, sentindo as cordas vocais ficarem arranhadas e deixando todos os sentimentos que vinha a conter soltarem-se livremente. Não devia ter insistido tanto, não devia ter saído e não devia ter-se permitido ver aquilo.
Mas ela não sabia, não se lembrava e nem sequer poderia imaginar que aquele estranho desmaio, afinal tivesse sido um ataque... Ataque de um deles, uma criatura negra que se escondia nas sombras, apenas procurando a sua presa. Um demónio assustador que, finalmente, Saito sabia como lhe haveria de chamar.
Ouviu baterem à porta, muito ao de leve, e cravou as unhas na almofada nesse mesmo instante, cerrando os dentes e encolhendo-se mais. Sentira-o, sabia quem era sem necessitar de perguntar, sem necessitar de ver, apenas sabia. Percebeu a porta a abrir, lentamente, sentindo todo o corpo arrepiar naquele mesmo instante. Medo, muito medo, mesmo sendo ele. A voz do rapaz soara no quarto, chamando o nome dela, perguntando-lhe o que ela tinha. Percebia-se a preocupação no seu timbre, a estranha preocupação com um misto de curiosidade e receio.
Tentara ignorá-lo, tentara fingir que era apenas um sonho mau, um terrível pesadelo que não tardaria a passar. Fingira que não o ouvira, que não sentira o frio que a sua aura espalhava pelo cómodo, que não o percebia a aproximar-se, pé ante pé, do local onde ela estava.
- Saito - a voz grave e levemente rouca encheu o ar, preocupada.
Mas ela continuava quieta no seu canto, apertando furtivamente a almofada, ignorando o seu chamado. E, quando ele se debruçou sobre o corpo dela, hesitando antes de tocar-lhe no ombro, sentindo o quão gelada ela se encontrava, a reacção da ruiva foi completa instintiva.
"Vampiro!"
Virara-se subitamente, a insanidade sob o controlo dos seus movimentos, passando a mão pela a mesa-de-cabeceira, apanhando a primeira coisa pontiaguda que encontrara. Atirara o próprio corpo contra o dele, empurrando-o, fazendo-o cair no chão duro com um banque surdo. Ajoelhara-se sobre o peito dele, louca, furiosa, os olhos verdes profundamente arregalados, insanos de dor e desespero, de ódio. Os dentes brancos, cerrados e perfeitamente visíveis, a mão com um marcador de livros metálico apontado ao pescoço do rapaz, raspando-lhe a pele alva, desejosa de o atacar, de se vingar nele, mesmo sabendo que nenhuma culpa tinha.
- .VAMPIRO! - berrou Saito, tremendo, fixando o olhar louco no de Zero.
Ele ficou completamente paralisado, pela segunda vez naquele dia, assistindo a um gesto que não imaginara vindo dela. Não teve reacção àquilo, apenas se deixou a observar o que ela fazia, sem pensar em qualquer consequência.
Piscou os olhos ao perceber a situação, levando as mãos às dela, fazendo-a soltar o marcador de livros, livrando-se da ameaça, enquanto rodava o corpo sobre ela, lançando-a ao chão e prendendo-a ali. Olhou-a nos olhos, vendo o medo e o terror nas íris esmeralda, o ódio a dissipar-se aos poucos, o pânico a regressar ao corpo dela, o desespero a aparecer novamente, assim como as lágrimas. Akane tremia como se estivesse no meio de uma tempestade de neve sem qualquer abrigo ou agasalho. Gotas finas e translúcidas escorriam-lhe pela face, brilhando ao luar que entrava pela janela do quarto, a voz não se atrevia a sair dos lábios, mantendo-se presa na garganta, como um nó que não se desfaz, o medo entrava na sua alma, no seu corpo, na sua mente... e apenas lhe restava o pânico e o desespero.
Zero expirou pesadamente, olhando para a menina, percebendo que ela voltara ao estado inicial. Soltou o corpo de Saito, preparando-se para se levantar, quando a mão da menina lhe agarrou o pulso num mudo pedido de ajuda. Olhou novamente para ela, sentindo o peso da dor sobre os seus ombros. Ela era estranha, delicadamente estranha, e estava entregue a um sofrimento que ele bem conhecia. Segurou-lhe no braço, ajudando-a a sentar-se e, instintivamente, puxando o corpo dela contra o seu, protegendo-a, num acto impensável para si, no meio dos seus braços. Deixou-se cair sentado, encostado à borda da cama, apertando mais o corpo de Akane contra o seu, engolindo em seco ao ouvi-la soluçar. A ruiva escondeu o rosto no peito de Kiryu, deixando que os seus cabelos acariciassem o pescoço do rapaz, agarrando com força a camisa dele e permitindo-se chorar naquele ombro, tão subitamente, tornado amigo.
N.A.: Eu seeeeeei, demorei ERAS para actualizar. Mas estou em época de exames de final de semestre na faculdade e isto dá cabo da vida de qualquer um.
Eu vou tentar escrever os próximos rapidinho e tentar adianta alguns caps na semana de "férias" que vou ter.
Reviews, pleaseeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, deixam-me muitoooooo feliz com elas.
Bjos
Just
