Capítulo 9:
Coisas estranhas
Ele não compreendia o que raios se passava, mas a verdade era que Kaname estava diferente desde o dia do baile. Apenas cinco dias se haviam passado, mas o líder de dormitório havia ganho novas rotinas que Aidou simplesmente não compreendia. Passava parte da manhã acordado, sentado no seu escritório, a olhar pela janela sem nada focar. Desaparecia por volta da hora de jantar, para regressar sem ninguém dar por ele, com um sorriso estranho no rosto, que Aidou jurava nunca ter visto antes.
E, naquela manhã de chuva, a nova rotina de Kuran não havia sido alterada. Lá estava ele, encostado à janela do seu escritório, a olhar para um ponto que Aidou jurava ser infinito. Mas o vampiro loiro não estava disposto a desistir de compreender o que levava o seu líder a ter aquele tipo de comportamento. Por isso, deixou o dormitório da Lua e, discretamente, escondia-se atrás de uma árvore, de modo a conseguir ver o mesmo que Kaname veria. Ficou por longos e tediosos minutos à espera que qualquer coisa acontecesse, mas nada. Nada que pudesse chamar a atenção do vampiro moreno.
Prestes a desistir, Aidou ouviu a campainha que sinalizava o intervalo das aulas da amanhã da Day Class. Ficou no seu esconderijo por mais uns quantos minutos, vendo vários alunos a sair das suas aulas e a ficarem abrigados da chuva. As mesmas raparigas que os abordavam durante a troca de classes a rir e a conversar, deixando um alto burburinho sobre toda a zona. Mas não era nada daquilo que havia feito Kuran mudar a sua rotina.
Porém, quando o vampiro loiro ia virar costas, ele percebeu alguém numa das varandas do edifício do dormitório do Sol. Olhou com atenção para a rapariga que deixava as gotas de chuva caírem-lhe delicadas sobre os cabelos rubros, tornando-os mais escuros que o habitual. Aidou ficou a observar Saito enquanto ela parecia desfrutar da chuva de uma forma completamente fora do comum. A menina estava com as costas apoiadas no parapeito da varanda, com os braços esticados sobre o mesmo e com a cabeça inclinada para trás, expondo o pescoço pálido e sentindo a chuva sobre a sua pele.
Até que, do nada, ela virou levemente o rosto e sorriu. Um sorriso leve, contido, mas que diria muito mais que todas as palavras do mundo. Aidou seguiu a direcção do sorriso dela, lentamente, como se não quisesse realmente ver o que sabia que veria. E lá estava. Kaname encontrava-se encostado à janela, na mesma posição que estivera antes, com a diferença que tinha uma mão aberta sobre o vidro e que esboçara no rosto um sorriso verdadeiro.
O vampiro voltou a encarar a monitora, viu-a a levantar levemente a mão que estava virada para o lado de Kuran, sacudir os cabelos encharcados, gargalhar baixinho e deixar a varanda rapidamente. E, quando Aidou voltou, instantes depois, a cabeça para onde se encontrava Kaname, apenas verificou uma janela completamente vazia.
X X X
- Onde estiveste?
A voz de Saito ecoava nos seus ouvidos num tom baixo e quase harmonioso e Ichiru limitiva-se ficar de olhos fechados, deitado sobre a sua cama, e a manter um meio sorriso no rosto, como se estivesse a ignorar deliberadamente a amiga. Os braços cruzados atrás da cabeça e o uniforme da escola vestido.
- Eu estou a falar contigo, não finjas que não me ouves! - ordenou a ruiva, irritada, de braços cruzados e batendo o pé levemente. - Ichiru!
- Eu estive de férias - respondeu, simplesmente, mantendo os olhos fechados e sem alterar a sua posição.
- Por cinco dias e sem dizer rigorosamente nada? - indagou a menina. - Eu fiquei preocupada!
- Eu estou bem, apenas precisei de férias - comentou ele, abrindo os olhos e encarando-a.
Akane, estava de pé, com o uniforme vestido, ao lado da sua cama, com os braços cruzados ao nível do peito e com uma estranha expressão no rosto. Poderia ser apenas fúria ou irritação, mas existia mais qualquer coisa nos olhos dela. Um brilho estranho e duvidoso que não se encontrava lá antes.
- O que se passa? - perguntou, encarando a amiga.
A ruiva suspirou, descruzando os braços e subindo para a cama de Kiryu, deitando-se sobre esta e apoiando a cabeça sobre os abdominais do rapaz. Fechou os olhos, sentindo uma das mãos dele acariciar-lhe levemente os cabelos e, instintivamente, sorriu com delicadeza.
- Eu acho que estou a cometer um erro - confessou ela, em voz baixa. - Um grande erro!
- Eu disse-te que o Zero não era-
- Mas o que é que o Zero tem a ver com o assunto, Ichiru? - cortou a ruiva, olhando para o amigo, irritada. - Porque é que eu falo em erro e tu pensas no teu irmão?
- Eu achava que vocês... nada - disse, voltando a fechar os olhos. - Então com quem é?
- Ichiru... - sussurrou ela.
- Eu conheço-te, Akane. Para estares a cometer um erro, alguém está envolvido - explicou Kiryu. - Quem é? E que erro é esse?
- Na noite do baile... eu beijei uma pessoa - confessou ela, fechando os olhos também.
- E não foi o meu irmão?! - admirou-se, gargalhando em seguida. - Eu ia jurar que seria o Zero!
- Ichiru! - protestou Saito, batendo-lhe levemente sobre as costelas.
- Ok, desculpa - pediu ele, ainda sorrindo maldosamente. - Então quem foi? Aidou?
- Não...
- Akane, tu não... - murmurou o rapaz, levantando-se levemente de forma a olhá-la de cima.
- Eu não sei o que raios se passou pela minha cabeça - comentou Saito, num fio de voz, fixando os olhos nos do amigo. - Eu juro que não sei!
- E logo ele? - indagou, de olhos arregalados. - Porquê?
- Eu não sei! - exclamou a ruiva. - Eu não sei. Só que... ele estava tão perto e eu tenho esta ridícula obsessão por ele e eu queria saber quem me atacou há três meses e ele estava a provocar e... O que foi que eu fiz?
- Nada! - exclamou Ichiru, irónico, deitando-se para trás. - Tu apenas seduziste, beijaste e andas louca por um vampiro sangue puro que ninguém consegue compreender!
- Eu não seduzi! - protestou ela.
- Então o que fizeste? - questionou o amigo. - Porque aquele vampiro não me parece ser o tipo de pessoa que avança sem ser provocado!
Ela não respondeu, limitou-se a voltar a fechar os olhos e deixar-se estar deitada. Ouviu Ichiru respirar fundo, murmurar qualquer coisa que soava como "completamente louca" e depois apenas o silêncio existia no quarto. Saito sabia que era errado, que nunca deveria ter feito o que fez e que o amigo desaprovava completamente. Mas se Kaname tinha as respostas que ela queria, e se ele estava disposto a dá-las, ela não pensaria duas vezes em ir buscá-las. O problema estava no tipo de relação estranha que os dois estavam a desenvolver.
- Ichiru...
- Hum?
- Está a acontecer qualquer coisa comigo - confessou.
- O quê?
- Eu acho... - engoliu em seco, sem se mover. - ... que não sou mais humana.
X X X
Estava sentado na sua cama, com o quarto às escuras, apenas tendo a luz da lua como fonte de iluminação. Tinha os braços apoiados sobre os joelhos e a cabeça pendia para a frente, fazendo-o olhar para o chão sem nada ver. Sentia que estava a acontecer algo de errado, de muito errado. Mas não conseguia perceber o quê. Desde o maldito baile que Akane não era a mesma e o desaparecimento súbito de Ichiru, assim como o seu regresso espontâneo, não eram bons sinais.
Havia qualquer coisa no olhar da ruiva que estava diferente, mas Zero não conseguia perceber o quê, nem o porquê disso. Tentou respirar fundo, mas o ar teimava em não entrar com facilidade. Estava sedento desde o baile, desde o momento em que ela estivera nos seus braços e ele nada fizera. Levou aos mãos à cabeça, precisava de se alimentar, mas não tinha coragem de pedir isso a Yuuki quando era o sangue de outra que ele desejava.
E Saito nunca permitiria que ele a mordesse. Talvez nem ele se atrevesse a isso, mesmo que ela deixasse. Afinal, Saito era diferente, era estranha e louca na sua forma calma. O que aconteceria se Zero bebesse do seu sangue era um grande mistério que ele, possivelmente, não havia de querer descobrir.
Ouviu a porta do seu quarto a ser aberta e desviou para lá os olhos. A figura de Yuuki observava-o docemente, com um sorriso sobre os lábios. Ela não precisava de falar para ele saber que estava preocupada. Tal como ele nada teria de dizer para ela perceber que ele "estava bem", que não havia qualquer problema.
Yuuki aproximou-se, lenta e calmamente, colocando uma mão sobre o ombro de Zero, olhando-o nos olhos e vendo as íris do amigo completamente vermelhas. O rapaz levantou-se, sem nunca desviar os olhos dos dela, sentindo a saliva a aumentar na boca e o desejo pelo sangue da morena a chamar por si. Respirou devagar, tentando resistir ao pecado, tentando permanecer afastado do corpo dela, do cheiro dela, do sangue dela.
Sabia de cor o gosto de Yuuki, era como se o sentisse na boca, apenas de a olhar. Sentiu as mãos dela sobre o seu peito, olhando-o fixamente, aceitando o seu destino sem nada dizer. Não eram necessárias palavras, nunca foram, nunca seriam. Olhou-o com delicadeza antes de sorrir levemente e encostar a testa sobre um ombro de Zero, expondo o pescoço alvo esperando sentir as presas do rapaz sobre a sua pele.
O seu corpo foi apertado pelos braços de Zero, sendo pressionada sobre ele e, em seguida, sentiu a respiração apressada e inconstante dele, os lábios suaves roçando delicadamente a sua pele e, por fim, as presas afiadas e pontiaguas a cravarem-se na carne.
O sabor agridoce do sangue de Yuuki escorria lentamente pela garganta de Kiryu, aquecendo-lhe o corpo e tornando o pecado real. Não importava se era o sangue de Yuuki que o alimentava, não importava se era a morena que estava entre os seus braços naquele momento, não importava se era ela que arriscava a vida para que ele pudesse viver. A sua mente, o seu desejo, a sua loucura agora davam por outro nome.
X X X
- Alguma coisa está errada - murmurou Akane, sem tirar os olhos da lua que podia ser vista através da janela.
Ela estava deitada numa poltrona, com as pernas cruzadas sobre um dos braços desta, uma mão caída em direcção ao chão, a outra sobre o peito, rodando entre os dedos um fio de prata que usava. Tinha a cabeça inclinada para trás, deixando os cabelos soltos, lisos pelas gravidade, o pescoço completamente exposto e a veia que se via pulsar parecia mais saliente que nunca.
- Eu não consigo respirar, perdi o apetite, fico com a visão ofuscada - contou, no mesmo tom baixo. - Alguma coisa está muito errada.
- E esperas que eu te dê uma resposta? - perguntou Kuran, observando-a atentamente enquanto sentado à sua secretaria.
- Não - respondeu ela, simplesmente, continuando a olhar para a lua que surgia atrás do vampiro. - Tu apenas vais confirmar o que o meu instinto e subconsciente já sabem, mas que eu não quero aceitar.
- Por favor...
- Eu ainda tenho fé, Kaname - afirmou ela, desviando os olhos para ele. - Ainda tenho fé.
- Fé em quê? Num futuro que não existe? - indagou o vampiro levantando-se e contornando a secretária. - Numa esperança que perdeu a luz? Numa possibilidade que nunca acontecerá?
- Apenas deixa-me acreditar, por favor - pediu ela, seguindo o caminho dele com os olhos, vendo-o parar a pouco centímetros e ajoelhar-se a seu lado.
- Porque queres continuar a viver numa ilusão? - questionou, passando os dedos sobre o pescoço dela.
- Porque a ilusão é a única coisa que me resta - sussurrou ela, segurando-lhe o colarinho na camisa negra. - Porque há coisas que nunca deviam ter acontecido.
Uma gargalhada baixa e seca fez-se ouvir na sala, pouco antes dos lábios de Kaname roubarem um beijo sedento à ruiva, escapando da sua boca, roçando pela sua pele, saboreando o aroma dela, delineando a veia pulsante com a ponta da língua.
- Tu não és assim - murmurou Saito, enlaçando os dedos nos fios de cabelo escuro de Kuran. - Tu és reservado e tímido e fazes sempre tudo pela calada. Tu não ages perante os teus impulsos e nunca, mas mesmo nunca, te deixas afectar por ninguém.
- E isso deve-se a quê? - perguntou Kaname, rodeando a cintura da rapariga com um braço e levantando o rosto para a olhar nos olhos.
- Porquê isto? Porquê assim? - interrogou. - Porquê eu?
Kuran depositou-lhe um beijo na clavícula, outro na curva do pescoço, outro no maxilar, outro no canto da boca e um, leve, tímido e delicado sobre os lábios. Passou-lhe uma mão sobre o rosto e olhou-a como se existisse algo novo e fascinante nos olhos verdes e profundos.
- Porque eu passei toda a minha vida a fingir ser quem não sou - disse. - Porque todos me olham como se eu fosse intocável e inabalável. Porque tu és mais especial do que pensas, porque temos mais em comum do que imaginas e porque tu abalaste com força o meu mundo tão certo.
- Kaname...
- Shh - fez ele, colocando o dedo indicador sobre os lábios de Saito. - É como deve ser, mesmo que nunca devesse ter acontecido.
N.A.: Eu má, ok? xD
Portanto, a fic está a andar um pouco mais depressa do que eu tinha pensado, mas não ficaria bem escrever tudoooo o que tinha planeado inicialmente.
Reviews serão sempre bem vindas ^^
Just
