Capítulo 10:
Dor

Abriu a porta do escritório devagar e deparou-se com a sala sem qualquer ponto de luz. Olhou em volta e percebeu um súbito reflexo no fundo da sala, onde ele sabia ser a secretária. Ela estava ali. Entrou e fechou a porta atrás de si, sem nunca tentar acender a luz ou abrir as cortinas negras. Ficou parado, esperando que os seus olhos dourados se habituassem às trevas para se atrever a caminhar pelo cómodo. Deu um passo em frente assim que conseguiu perceber as formas quase desvanecidas dos móveis. Caminhou lentamente, não permitindo que a sua respiração acelerada e inconstante pudesse ser ouvida, e apoiou ambas as mãos sobre a secretária de madeira que, finalmente, encontrara.

- Recebemos outra carta - informou ele, com os olhos fechados, para a pessoa que se encontrava à sua frente.

- E o que diz? - a voz baixa, mas marcada, fê-lo arrepiar-se levemente.

Ele não respondeu. Engoliu em seco, cerrando os punhos sobre a madeira, mordendo o lábio inferior como se tivesse receio do que sairia em seguida pela sua boca. Não se assustou quando ouviu o barulho de um punhal a ser cravado na secretária, mesmo ao lado de uma das suas mãos, apenas levantou o olhar e encontrou as íris brilhantes do seu superior.

- Eu fiz-te uma pergunta, Jin! - rosnou num tom de voz mais elevado, revelando algum interesse pela possível resposta. - O que diz a carta que recebeste?

- Temos trabalho - murmurou Jin, visivelmente furioso. - Tu ganhaste, Midori. Ela não é mais humana!

A luz do pequeno candeeiro que se encontrava na ponta da secretária foi acesa e o sorriso maldoso e perverso que rasgava os lábios vermelhos de Midori conseguira fazer o coração de Jin falhar uma batida. O homem olhava para ela com horror na face, um verdadeiro pânico ao perceber a satisfação com que a mulher ouvira aquela aterradora notícia.

- Tu és despresível! - acusou ele, afastando-se da secretária como se sentisse nojo da mulher. - Como podes sorrir ao saber isto?

- Cada um fez as suas escolhas, Jin - comentou ela, inclinando-se para trás na cadeira e sacudindo os cabelos lisos, cortados logo acima da minha dos ombros. - Nós escolhemos o que era certo.

- Ela nunca pode escolher, Midori! - bufou ele, arregalando os olhos. - Ela nunca teve qualquer tipo de escolha! E tu sabes bem disso!

- Jin - chamou a mulher, levantando-se e caminhando até ele. - Nós temos um trabalho a fazer e nós fazê-lo! Não importa a origem dos nossos alvos. Ela tornou-se um alvo no dia em que não quis vir connosco. E eu fico feliz de seremos nós a abatê-la!

- Afasta-te de mim - ordenou ele, dando dois passos atrás. - Tu és nojenta e repugnante, Midori. Eu sabia que tu a detestavas, mas nunca pensei que chegasse a esse ponto.

- Ela não é humana, é meu trabalho extreminá-la - observou a mulher.

- Ela é-

- Ela não é nada mais que um monstro, Jin! - rosnou Midori, avançando sobre o homem, segurando-lhe o colarinho da camisa. - E eu vou matar esse monstro!

X X X

- O que se passa? - perguntou Kaname, encostado ao vidro da janela do seu quarto.

Olhava em frente, directamente para a sua secretária, onde a ruiva estava sentada, com um livro aberto à sua frente. Ela estava pensativa e o leve batucar das pontas dos dedos sobre as páginas do livro era o único som que enchia o cómodo. Ela levantou os olhos verdes das linhas negras que lia e fixou o olhar no vampiro à sua frente.

- Nada - respondeu, simplesmente, apoiando a cabeça numa mão.

- Desde ontem que estás muito calada - observou Kuran, cruzando os braços levemente. - Isso não é de ti.

- Estou a pensar no que tem acontecido - disse. - Na forma como aqui cheguei e como isso mudou toda a minha vida. É como se estivesse a viver uma vida que não é minha.

- Já pensaste que, se calhar, a vida que vivas antes é que não te pertencia? - indagou o moreno, deixando um brilho súbito surgir-lhe nos olhos.

- O que estás a dizer, Kaname? - perguntou Saito, fechando o livro à sua frente.

O vampiro não lhe respondeu de imediato. Ficou a contemplá-la, estudando o efeito da sua frase na expressão da menina. Afastou-se da janela por onde se podia ver a noite estrelada e avançou em direcção à secretária onde a ruiva estava sentada. Parou mesmo em frente dela e encarou-a.

- Estou a dizer que, talvez, só agora comeces a viver a tua real vida - murmurou ele. - Que o que tinhas antes não era verdadeiramente teu.

- Kaname! - exclamou ela, desviando o olhar. - Eu aceito grande parte das coisas que tens dito sobre mim. Mas dizeres-me que, possivelmente, a minha família não me pertence, é demasiado.

- Que família, Akane? - questionou o moreno. - Os teus pais que estão na Europa, os teus irmãos que não te respondem às cartas ou os teus avós que te expulsaram de casa?

- O qu-

- Eu sei o que aconteceu de verdade, Akane, eu sei o verdadeiro motivo por teres saído da casa dos teus avós - contou ele, baixando-se para ficar ao nível dela, passando os dedos pelos cabelos vermelhos da menina. - Não foi pela bolsa de estudos, foi pelo que os teus irmãos lhes disseram, pela escolha que tu fizeste.

- Chega - sussurrou ela, levantando-se e virando as costas ao vampiro. - Tu não tens o direito de bisbilhotar toda a minha vida, Kaname, simplesmente não tens!

- Akane... aquela não era a tua vida - afirmou ele, encarando as costas da menina. - Tu sentes isso, apenas não aceitas.

- Eles são a minha família, não importa se eu sou diferente - rosnou ela, virando o rosto apenas para o olhar. - Não importa no que me tornei, eles são a minha família e eu amo-os mais do que qualquer coisa no mundo!

- Estás a mentir a ti mesma, Akane - observou Kuran. - E tu sabes bem disso.

A ruiva não lhe respondeu. Não lhe poderia dar qualquer resposta não iria aceitar o que o vampiro lhe dizia. Desviou o olhar do dele, pegou no casaco que estava em cima de uma cadeira, perto da porta do cómodo, e saiu, batendo com a porta atrás de si e não se importando em quem poderia vê-la ali.

X X X

Viu-a deitada sobre um dos bancos do jardim da Academia e aproximou-se. Não era normal Akane estar ali à hora de jantar e, pela forma como o braço dela descançava sobre os olhos, Yuuki teve quase a certeza que a amiga não estava bem. Aproximou-se em silêncio, vendo-a ao longe e reparando que seu peito subia e descia de forma irregular, demasiado irregular.

Estava prestes a chegar perto da ruiva quando percebeu que Ichiru também se aproximava e, pela expressão que tinha no rosto, Yuuki logo entendeu que não deveria cruzar o caminho do Kiryu. Assim sendo, optou por de manter levemente afastada dele e de Akane, encostando-se a uma coluna do átrio da escola e ficando, sem ser sua intenção, oculta da vista dos outros dois.

- Akane! - chamou o rapaz, demasiado alto e demasiado irritado para o que Yuuki estava habituada a ouvir dele. - O que raios pensas tu que- Akane?

O estranho silêncio que se ouviu em seguida fez com que Cross espreitasse pelo lado da coluna, tendo uma ideia geral de toda a cena que se seguia. Saito continuava deitada no banco, com o braço na mesma posição. Contudo, a mão que antes estava caída em direcção ao chão, segurava agora a borda do casaco do uniforme de Ichiru e, por sua vez, o rapaz olhava-a não com fúria ou irritação como ela esperava ver depois da ouvir a sua voz, mas com preocupação e admiração perante a amiga.

Ele baixou-se, colocando um joelho no chão, segurando a mão da menina no meio das suas. sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido que Yuuki não percebeu e passou-lhe uma mão delicada sobre os cabelos vermelhos que teimavam em cair-lhe no rosto de porcelana. Yuuki percebeu que Akane retirou o braço que tinha sobre a face e virou esta de forma a olhar fixamente Ichiru. Não lhe conseguia ver os olhos verdes e apenas percebeu que ela falara ao vê-la mover os lábios devagar e, aparentemente, com alguma dificuldade, proferindo palavras que, infelizmente, Cross não conseguia decifrar.

Ela mal havia acabado de mover os lábios e Ichiru levantou-se fortivamente. Estando ele de costas para Yuuki, ela não conseguiu perceber a sua expressão, mas pela forma como ele cerrava os punhos, algo de grave havia acontecido. Kiryu desviou o rosto para o lado, deixando a morena perceber a expressão de fúria, ódio e raiva que lhe ia no rosto.

- Como...? - foi a única coisa que deixou os lábios de Ichiru. - Como foi possível?!

A ruiva sentou-se à frase do amigo, ainda ficando meia escondida pelo corpo magro do rapaz, segurando-lhe uma das mãos entre as suas, dizendo-lhe o que quer que fosse numa rapidez imensa e absurdamente baixa. E então levantou-se, Yuuki percebeu a sombra escondida sobre as íris cor de esmeralda e sentiu medo do que estava ali presente. Podia não saber o que era, mas não era nada bom sinal. Akane olhava para Ichiru, mas este recusava-se a encará-la.

- Olha para mim! - ordenou a voz de Saito, segurando a face do rapaz com ambas as mãos e virando-lhe o rosto para ela.

Tinha a respiração acelerada e todo o seu corpo tremia levemente. Ela disse qualquer coisa a Kiryu, qualquer coisa que o fez baixar levemente os ombros, sinal de que havia sido surpreendido. A ruiva continuava a falar, demasiado baixo e demasiado rápido, os olhos rasos de lágrimas, mas com a mesma sombra que Yuuki vira momentos antes. Até que Ichiru segurou com a sua delicadeza os pulsos da menina e baixou a cabeça levemente. Permaneceu assim por breves segundos antes de puxar o corpo da amiga contra o seu e abraçá-la fortemente. Uma mão sobre as costas de Saito, a outra entre os seus cabelos, segurando-a contra si com força, deixando que ela enterrasse o rosto na curva do seu pescoço. Yuuki percebeu que ela soluçava e sentiu um aperto no peito. Algo estava definitivamente mal com Akane e ela estava disposta a quase tudo para descobrir o quê.

O que Yuuki não esperava, era, ao virar-se para deixar aquela cena, ver a figura de Kaname parada mesmo atrás de si, com os olhos escuros fixos no casal de amigos e uma expressão mais séria e pesada da que ele habitualmente trazia no rosto.

X X X

- Zero! - a voz de Yuuki faz o rapaz abrir os olhos e encará-la.

Zero estava deitado no sofá da sala de monitores, devia ter acabado de tomar banho há pouco tempo, pois os cabelos prateados ainda brilhavam com as gotas de água e ele encontrava-se de tronco nu. Estranhou o olhar de preocupação da menina e sentou-se, de forma a olhá-la direito. Contudo, ele nada disse.

- Estou preocupada com a Akane - afirmou a menina, fazendo uma sombra súbita passar pelos do rapaz.

- Porquê? - indagou ele num fio de voz.

- Eu via há pouco - contou a morena, mordendo levemente o lábio inferior. - Ela estava a ter uma conversa com o Ichiru e...

Calou-se, não sabendo bem como explicar o resto, o que havia visto e o que havia sentido ao ver Kaname visivelmente afectado por aquela cena. Cerrou os punhos e baixou o olhar.

- E... o quê, Yuuki? - perguntou Zero, no seu tom de voz neutro, mas dando a entender que aquele assunto lhe interessava.

- Ela estava a chorar - confessou num sussurro. - O Ichiru parecia irritado com qualquer coisa que ela lhe disse e depois ficou surpreso e abraçou-a. Eu estou preocupada, Zero, mas não sei... não sei o que fazer para a ajudar, nem como, além disso, Kaname-sempai-

- O que é que o Kuran tem a ver com a Akane? - interrogou Kiryu, levantando-se.

- Ele... ele estava atrás de mim - disse ela. - Viu a cena toda, deve ter ouvido o que eu não ouvi e no fim... ele apenas cerrou os punhos e foi-se embora.

Zero continuou a olhar para a amiga, completamente inexpressivo como estava no momento antes e sem qualquer sombra sobre os olhos cinza. Ele deveria estar a pensar nos possíveis significados daquilo que Yuuki lhe dizia. Virou-se e pegou na sua camisa que descansava sobre o braço do sofá. Começou a vesti-la devagar, sem demonstrar qualqur vestígio de preocupação ou pressa.

- Onde vais? - perguntou a menina, olhando para Zero enquanto este a contornava, afastando-se dela e abrindo a porta sem qualquer explicação. - Zero?!

- Falar com Ichiru - avisou antes de bater com a porta.

Ele estava furioso. Completamente irritado pelo que Yuuki lhe dissera. Akane não andava bem havia quase duas semanas, desde o maldito baile. O baile onde a ruiva chorara no seu ombro durante vários minutos, lágrimas compulsivas e impiedosas das quais ele não perguntara o porquê. Ela sabia que podia contar com ele, sabia que ele estaria ali para ela, mas ela preferia o seu gémeo. E Zero nada podia fazer quanto a isso, era uma decisão de Saito. Contudo, isso não impedia o facto de que ele se preocupava e do que ele tinha ouvido da boca de Yuuki era, no mínimo, estranho. Ele iria tirar satisfações com o irmão, nem que tivesse de o obrigar a contar-lhe o que se passava.

Abriu a porta do quarto do irmão mais novo de rompante e não se espantou ao vê-lo pensativo, sentado no beiral da janela. Deu dois passos na direcção do seu reflexo distorcido e Ichiru olhou-o pesadamente. Estava cansado demais, emocionalmente cansado, e isso via-se perfeitamente nos seus olhos.

- Eu não te vou dizer - suspirou, simplesmente, voltando a olhar para a noite que rompia pela janela.

- Ichiru! - rosnou Zero, pronto para ter de se tornar violento com o outro.

- Ela que te conte, ela que fale contigo, Zero, eu não vou trair a confiança dela em mim - afirmou o outro Kiryu, ainda a olhar para a noite. - Ela foi tomar banho.

Zero ficou a encarar o irmão, ponderando na informação que ele lhe dera e pensando se deveria ir atrás da ruiva ou não. Contudo, o olhar súbito de Ichiru sobre si apenas lhe dizia para ir sem fazer perguntas. Zero virou costas, passando pela porta do quarto do irmão sem a fechar e dirigindo-se ao quarto de banho dos monitores onde ele sabia encontrar a ruiva.

Caminhava pelo corredor vazio a uma velocidade fora do normal. Não tardou a chegar em frente à porta da sala por onde havia saído momentos antes. Abriu-a e entrou, percebendo que Yuuki já não se encontra ali, mas que o chuveiro estava ligado. Ele devia ter-se desencontrado com Saito enquanto fora procurar o irmão.

Encostou-se a uma parede, esperando que a menina saísse do banho para poder falar com ela. Mas ela não saía. Ela simplesmente não desligava a água nem sequer deixava o quarto de banho. Zero aproximou-se, começando a estranhar a demora. Bateu à porta devagar.

- Akane - chamou, mas não ouviu nada para além do som da água a cair. - Akane!

Silêncio.

Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Olhou para a madeira lisa bateu com a mão lá.

- Akane, responde-me! - ordenou, num misto de fúria e preocupação. - Akane!

Bateu com o ombro na porta, arrombando a fechadura e abrindo a porta repentinamente.

- Akane! - berrou, precipitando-se para a rapariga e fixando os olhos prateados na água vermelha que escorria por todo o chão do chuveiro.


N.A.: Me = Problemas, eu sei x)
Culpar a faculdade pela demora, sff.
Próximo para breve.

R.E.V.I.E.W. please
Just