Capítulo 11:
A água escorre vermelha

- Eles receberam a ordem - informou Yagari, ao entrar no escritório do director da academia.

O silêncio instalou-se em seguida. Yagari ficou aproximara-se da secretária do director, mas Kaien parecia demasiado envolto nos seus pensamentos para lhe dar uma resposta que fosse. Cross estava com o semblante sério demais para o seu habitual e isso apenas significava que o assunto era sério. Demasiado sério.

- Quando foi recebida? - perguntou, os olhos claros fitando o homem à sua frente.

- Ontem - respondeu Touga.

- Eles terão de verificar o nível de desenvolvimento antes de fazerem seja o que for, mas eu conheço Midori - sussurrou Kaien, apoiando o queixo sobre os dedos. - Ela vai fazer de tudo para despachar essa ordem o mais rápido possível.

- Kaien, Midori é fria e cruel, por isso é considerada um dos melhores hunters de sempre - relembrou Yagari. - Mas Jin está com ela e eu não acredito que ele permita que Midori cumpra essa ordem sem fazer nada para a tentar deter.

- Jin tem coração - suspirou Kaien. - Uma das poucas qualidades que Midori não consegue suportar.

- E que os torna tão diferentes - completou Yagari. - O que pensas fazer quando eles chegarem?

- Eu não vou permitir que eles abatam um dos meus alunos - declarou o director. - Se eles realmente quiserem fazê-lo, terão de esperar que ela decaia para o nível E antes de tentarem seja o que for.

- E como convencerás Midori disso? - indagou o outro homem, curioso.

- Eu sou mestre dela - informou. - Ela fará o que eu lhe disser para fazer.

- E quanto a Akane? - questionou o hunter.

- Ela sabe cuidar de si - disse, revelando um sorriso que não existira momentos antes. - Além disso, ela sempre tem Zero para a ajudar no que for preciso.

X X X

- Akane! - berrou, precipitando-se para a rapariga e fixando os olhos prateados na água vermelha que escorria por todo o chão do chuveiro.

Ela estava encostada à parede, sentada no chão, com os joelhos puxados para cima e os braços em redor destes, escondendo o rosto. O chuveiro estava aberto no máximo, deixando a água quente cair fortemente sobre o corpo imóvel da rapariga e lavando o sangue que escorria de um dos braços da menina. Zero aproximou-se dela, vendo o espelho estilhaçado e uma grande mancha de sangue no lavatório debaixo deste. Sentiu o aroma do sangue, e logo os seus olhos estava da mesma cor que aquele líquido que ele cobiçava. Mas ele não se podia dar ao luxo de sentir sede naquele momento, mesmo sendo o sangue dela que o chamava.

Deu um passo em frente, ficando na borda do chuveiro, olhando para o corpo de Saito e não compreendendo nada do que via. Ajoelhou-se, sentindo dificuldade em conter-se, molhando as suas roupas e deixando que algumas gotas que escapavam do chuveiro lhe acertassem nos cabelos claros. Esticou um braço, hesitando, sem saber o que poderia fazer naquele momento.

- Akane - voltou a chamar, tocando-lhe com as pontas dos dedos no pedaço de pele do rosto que estava descoberto.

Sentiu como que um choque, mas não se afastou. Ele não sabia exactamente o que fazer, nem sequer sabia o que se havia realmente passado, mas aquele tipo de reacção e aquela situação, não eram normais.

- Saí daqui, Zero - murmurou ela, num fio de voz, sem se mover.

- Não! - contrariou, aproximando-se ainda mais dela, sem nunca retirar a mão da sua face. - Não.

- Zero, por favor - implorou, entre soluços.

Ela estava a tentar esconder as lágrimas. Ela estava a tentar que o seu sofrimento fosse embora com a água que escorria fortivamente sobre si, mas parecia que, a cada nova gota, a dor apenas aumentava mais e mais. Kiryu não conseguia compreender o que se passava, não sabia os motivos daquela cena, não sabia nada sobre o que se estava a passar com aquela rapariga... A verdade é que ele percebia lentamente que mal conhecia Akane, tal como mal conhecia grande parte das pessoas daquela escola, mas... arrependia-se de não saber mais sobre ela. De certo que Ichiru saberia o que dizer, saberia o que fazer e do que se tratava, mas ele não. Ele não tinha qualquer ideia.

- Não - repetiu, encostando o seu peito às pernas dela, afastando uma mecha de cabelo ruivo com a mão que não lhe segurava o rosto. - Eu não vou sair daqui.

- Zero! - guinchou Akane.

- Não! - exclamou Kiryu, descendo as mãos até aos ombros da menina e segurando-os com força. - Desculpa... mas por algum motivo, Ichiru achou que eu lidaria com isto melhor que ele. E eu quero saber porquê.

Saito descruzou os braços, segurando-os sobre os de Zero, apertando com força a pele dele, deixando marcas avermelhadas para trás. Ela agarrou-o com intensidade, sem nunca levantar o rosto, sem nunca afastar os joelhos do peito. Soluçava ainda mais, puxando o rapaz para si com desespero chorando com quase tanto vigor como a água que escorria do chuveiro.

- Akane - chamou ele, baixinho, encostando a testa na da ruiva.

- Eu não posso - murmurou ela, soltando o rapaz à sua frente. - Sai daqui Zero, por favor.

Zero fechou os olhos, deixando-se imóvel por míseros segundos, sentindo os soluços da amiga, tentando bloquear o cheiro do sangue que ainda escorria pelo braço dela. Instintivamente, ele segurou no rosto dela e levantou-o, sem se afastar, deixando que os narizes de ambos de roçassem. Fixou o olhar vermelho nos olhos fechados dela. Via as lágrimas a escorrerem através das compridas pestanas negras, os lábios comprimidos num sorriso inverso.

- Olha para mim - pediu, continuando a segurar-lhe o rosto entre as mãos, sem se afastar um milímetro dela.

A água escorria sobre as peles deles, contornando-os, delineando-os, ocupando o pouco espaço que separava as suas extremidades. Zero viu que as pálpebras de Akane tremiam levemente, como se ela hesitasse em abrir os olhos, como se ela lutasse uma batalha interior para o fazer.

- Por favor - pediu ele, a voz demasiado rouca, o olhar fixo nela.

Ela suspirou lentamente, sempre soluçando, apoiando as mãos sobre as de Zero, segurando-as, e finalmente, quase que como em câmara lenta, e sempre com as íris de Kiryu sobre o seu rosto, Akane abriu os olhos. E a expressão de admiração de Zero ao ver a cor do sangue espelhada nos olhos dela como estavam nos seus foi imediatamente substituída por uma de fúria e compreensão. Ele segurou o rosto dela com mais força, sem se afastar, sem fazer qualquer outro movimento brusco. Apenas ficou assim, observando-a como um ser da noite e não mais uma aluna especial. Fechou os seus olhos, deixando o seu rosto desviar-se lentamente, roçando a pele na dela, sentindo a respiração ofegante de Saito perto da sua.

- Desculpa... - murmurou ela, observando cada movimento dele.

- Porque não me disseste? - perguntou Zero, deixando que uma mão escorregasse para o pescoço da ruiva.

- Eu não queria acreditar... - confessou, passando as suas mãos para a camisa dele e puxando-o ainda mais contra si. - Eu não queria aceitar e dizê-lo em voz alta era o mesmo que...

- Agora é tarde para isso, Akane - disse Kiryu, voltando a fixar os olhos nos dela. - Tu tens de te alimentar.

- Não! - exclamou ela, empurrando o rapaz tal era a sua repulsa pelas palavras dele. - Eu não vou ser como-

- Como eu? - indagou ele, sentando-se e apoiando os braços sobre os joelhos enquanto a via a dobrar as pernas e apoiar as mãos no chão. - Como toda a Night Class?

- Como o monstro que me deixou assim - sussurrou, baixando a cabeça e escondendo o olhar. - Eu nunca quis ser diferente. Nunca quis senti-los, nunca quis saber que existiam, nunca quis percebê-los ao longe - fez uma pequena pausa, na qual Zero apenas esperou que ela continuasse. - Há alguma maneira de reverter isto?

- Não - respondeu Kiryu, simplesmente. - Terás de viver assim para o resto da tua vida que, ironicamente, será demasiado longa.

- Tu és um hunter, certo? - perguntou, em voz baixa, sem nunca desviar o olhar do chão. - Tu matas aqueles que perdem o controle e atacam humanos.

- Sim.

- Matar-me-às quando isso me acontecer? - questionou Saito, levantando a cabeça e deixando Zero perceber que o vermelho das suas íris se havia intensificado.

O rapaz hesitou na sua resposta. Parecia que a sua expressão se mantinha neutra, mas os seus olhos revelavam surpresa e dúvida. Poderia ele realmente matá-la caso ela decaísse para um nível E? Sim, aí não haveria dúvida, mas e se ela não chegasse a esse ponto. Se ela apenas cometesse alguma insanidade apenas para pôr fim àquele sofrimento que ele tão bem conhecia? Seria ele capaz de lhe roubar a vida, sabendo que ela ainda era a rapariga que lhe sorria no dia-a-dia?

- Zero!

- Isso não vai acontecer - murmurou ele. - Tu não vais decair e não vais perder o controle.

- Tu não sabes isso! - rosnou ela, levantando-se e agarrando novamente a camisa do rapaz. - Tu não podes ter essa certeza!

Saito estava inclinada sobre ele, o peso do seu corpo completamente sobre o de Zero, com as mãos fortemente seguras na camisa branca do uniforme dele, o rosto demasiado perto do dele e as lágrimas ainda a escorrerem, acompanhando as gotas do chuveiro que caíam sobre eles. O sangue que ainda vertia timidamente do corte no braço de Akane começava a manchar a camisa de Kiryu e o cheiro tão perto de si fazia o rapaz reagir, revelando-se nas suas íris.

- Eu não quero passar o resto da vida a ficar nesse estado sempre que vejo ou cheiro sangue - afirmou ela, apertando ainda mais as mãos. - Não quero ser fraca, dependente disto!

Zero encarou-a. Vendo o desespero e o sofrimento na expressão dela. Segurou-lhe o pulso por onde escorria o sangue dela, soltando-o da sua camisa, elevando-o à altura dos olhos de ambos. Akane estremeceu ao perceber o que ele tencionava fazer, mas, estranhamente, não retirou o braço de entre os dedos de Zero. Ela nada fez, nada disse, limitou-se e encarar o rapaz e o seu braço que ele segurava. Ela tivera pesadelos atrás de pesadelos, visões macabras e tremores por conta daquele momento. Imaginando, receando o instante em que alguém voltaria a encostar os lábios à sua pele, tal como Zero fazia, roçando na textura suave e delicada, passando com a ponta da língua sobre as gotas que sangue que mancham a cor alva, beijando com uma fria gentileza a sua ferida ainda aberta e sugando o sangue que de lá escorria, saboreando o gosto metálico e quente do líquido vermelho.

Saito olhava-o, sem conseguir definir o misto de sentimentos que lhe ardiam na alma. Queria afastá-lo e sair dali, mas não conseguia mexer-se. Queria deixá-lo beber do seu sangue, dizer algo que lhe indicasse que ela não se importava, mas não produzia nenhuma palavra. Estava completamente estática, de olhos arregalados, boca semi-aberta, encarando o vampiro à sua frente a beber do seu sangue e estranhamente, nenhuma imagem do seu atacante lhe surgiu na mente. Nenhum flash do momento em que fora mordida pela primeira vez, nenhuma onda de medo e pânico, nada. Simplesmente nada. Apenas ele, apenas Zero estava ali, com os lábios sobre a sua pele, uma mão sobre o seu pulso, a outra envolvia a sua cintura contra ele. A sua língua acariciava a ferida por onde o sangue saía. E Akane apenas observava.

Zero afastou a boca do braço dela devagar, levantando os olhos, fixando-os nos dela. Tinha os lábios cobertos de sangue que a água do chuveiro começava, lentamente, a limpar, e os dentes afiados notavam-se fracamente. Era o predador a encarar a presa, não em sinal de vitória, mas em sinal de agradecimento. Puxou o braço dela para si, aproximando-a ainda mais, voltando a ficar com o rosto a míseros milímetros do dela. Os narizes roçavam-se, as testas tocavam-se, os lábios ousavam em apenas ficarem demasiado perto. E o cheiro do sangue derramado enchia o ar abafado pelo vapor de água.

Akane empurrou-o, fazendo-o deitar-se para trás, espalhando os cabelos cinzas pela água que escorria vermelha no chão do chuveiro. Sentou-se sobre a bacia dele, mantendo uma mão no seu peito, como que forçando-o a ficar naquela posição. Zero olhou-a, apenas esperando o que quer que ela fosse fazer.

- Não voltes a fazer isso - ordenou, os olhos fixos nos de Kiryu, os lábios cerrados com força. - Eu não consigo controlar-me da próxima vez que te aproximares tanto. Eu não te quero fazer isto.

Ela não estava furiosa por ele ter bebido do seu sangue. Ela tivera aquela reacção por ele se ter aproximado daquela forma. Por ele ter encostado a testa na dela e deixando os seus narizes tocarem-se. Por ele ter quebrado a barreira que sempre o havia separado de toda a gente e ter-se aproximado verdadeiramente de alguém. Era por estarem próximos, era porque ele sabia que Saito não resistira ao seu sangue caso se voltasse a aproximar. E, estranhamente, ele não se importava com nada disso.

Puxou o braço dela de forma a que ela escorregasse e se caísse deitada sobre ele. Nada lhe disse, apenas segurou o rosto dela entre as suas mãos e aproximou-o do seu. As respirações voltavam a misturar-se, a proximidade era mais que anteriormente. Os corpos colados com a água, as mãos sobre as peles de ambos, os olhares fixos nas íris do outro.

- Não quero saber - sussurrou Zero, passando um polegar pelos lábios da menina. - Apenas quero que não fiques como aqueles que caço.

Ele deixou que o rosto de Akane batesse contra o seu, passando as mãos para os cabelos ruivos da menina. Sentiu as lágrimas dela sobre os seus lábios, salgadas e intensas. Sentiu as mãos dela sobre os seus cabelos, sentiu os lábios dela a roçarem a sua pele, cedendo à sede, delineando a curva do seu pescoço com a ponta da língua. Espalmou uma das suas mãos nas costas de Saito, pressionando o corpo dela contra o seu, mantendo-a ali, segura e protegida, mesmo sendo ele a vítima.

As presas afiadas de Akane rasgavam com delicadeza a pele de Zero, o sangue dele começava a escapar das feridas que ela mesma cometia, o cheiro intensificava-se a cada segundo e o sabor forte e distinto do sangue de Zero descia pela sua garganta. E a cada nova gota, mais ela sabia que estava condenada, mais ela percebia que iria ser assim até ao fim dos seus dias.


N.A.: Me louca, I know ^^

R.E.V.I.E.W. please
Just